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outubro 03, 2009

Alguém viu « Singularidades de uma rapariga loira » ?

Trailer Singularidades de Uma Rapariga Loura from Antena 1 Cinema on Vimeo.


Diz-se frequentemente por aí que Manoel de Oliveira consegue dar luz às salas de cinema parisienses e que em Lisboa essas salas aparecem despojadas da sua dignidade. Constatei esta última realidade em 2003 no “Um filme falado”. Os marcos temporais criados pelas saídas de filmes nas salas de cinema são fabulosos na compreensão do nosso próprio gosto cinematográfico. Desde 2003 não voltei a dirigir-me a essas salas para apreciar Oliveira, e, no entanto, desde então houve um “Quinto Império”, um “Espelho mágico”, um “Belle Toujours”, um “Cristóvão Colombo”... Voltei em 2009 às salas de cinema para ver “Singularidades de uma rapariga loira”, estávamos no Cinéma Nouveau Latina próximo do Pompidou em Paris. Uma fila para comprar o bilhete continuava a tomar forma até ao exterior do edifício, quando já dificilmente encontrava um lugar central na sala. Oliveira surpreendeu-me como em 1974 com “Benilde ou a Virgem mãe”!
Gostei, a singularidade deste filme é o seu anacronismo entre os valores conservadores da alta burguesia do início da segunda metade do século XX (diria eu) e de Lisboa, hoje, capital europeia ... mas uma coisa continua a intrigar-me: o gaguejo dos personagens de Oliveira, que para uns é o lado teatral da coisa mas que para outros, nos quais me identifico, é um elemento de grande perturbação auditiva e visual! Os franceses acham piada, talvez por não captarem nada da língua, talvez por ser esta a singularidade de Oliveira.
O filme tem pouco mais de uma hora, pelo que ainda tivemos direito a um debate com a presença de Mathias Lavin, doutorado em estética do cinema, autor de uma tese intitulada “"La Parole et le lieu, le cinéma selon Manoel de Oliveira". Foi assim que testemunhei a loucura e obsessão intelectual dos franceses em torno da obra de Manoel de Oliveira. Cada detalhe da luminosidade da imagem foi detectado, cada excerto de texto decorado, cada objecto do décor criticado, cada plano e movimento de camara apreciado, cada gesto de um personagem tido como um significado, cada som decorticado, cada, cada, cada... Manoel é o rei da contemplação poético-cinematográfica! A partir de hoje gostaria de assistir aos filmes de Oliveira sem som, mas ainda assim com diálogos...as legendas e o mexer dos lábios seriam suficientes!

Publicado por [Shift] às outubro 3, 2009 06:54 PM

Comentários

Não há cinema como o de Oliveira. É puro, poético, violento e virulento. Cheio de dinâmica e movimento, ao contrário do que muitos burros afirmam.

Oliveira é o único realizador que me faz deslocar até a uma sala de cinema.

Um Mestre.

Publicado por [Joao] às outubro 3, 2009 08:42 PM

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Publicado por [Jorja] às dezembro 16, 2011 07:14 PM

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