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setembro 16, 2009

Um espectro paira no spectrum : Classes Sociais (uma achega delirante)

“Foi a luta de classes que gerou a teoria da luta de classes e não o contrário” Rick Dangerous. Da mesma maneira, foi e é a exploração do homem pelo homem que engendrou e engendra a definição de classes sociais e não o contrário. As classes sociais possuem assim um valor semântico, porque se a acção do homem não tivesse em vista a exploração de outros, a definição de classes sociais não existiria. Os explorados precisam assim da definição de classes (mesmo que ela não seja “estática”) para serem considerados, sendo absurdo (contrário a toda a razão) se essa definição tivesse repercussões perversas contra eles. Nesta perspectiva, a relação do classificador e do explorado supõe uma colaboração, na medida em que o poder da definição de classes é a dialéctica existente entre empiria e teoria, de ver e permitir ver. A complexidade da exegese sobre a existência de classes advém, finalmente, do facto das teorias do conhecimento e das teorias políticas estarem totalmente imbricadas. A posição que tomamos perante o antagonismo de classes depende, segundo esta lógica e em grande parte, da posição que ocupamos no espaço sociopolítico, ou se quisermos na estrutura social. É assim que compreendo o porquê da recusa de VPV em assumir a existência de classes e, subsquentemente, da luta de classes (apoio-me no post de Rick uma vez que não tive oportunidade de ler a coluna de VPV).
O ideal seria que não existissem explorados e classificadores, ou seja, o primeiro passo seria a “abolição última do sistema de salários” (único texto que li de Marx na íntegra além do Manifesto Comunista: “Salário, Preço e Lucro” (2004), Edições Avante. “Sou comunista e não preciso de ler as obras completas de Lenine” disse-me um dia um operário na Festa do Avante. Eu sou Marxista e não consigo ler o Capital, nem mesmo a edição popular das edições 70 (1974), prefiro ler as interpretações contemporâneas de Marx).

Publicado por [Shift] às setembro 16, 2009 11:35 PM

Comentários

Shift.

Factos ou coisas reais não geram teorias. As teorias são geradas pelos homens que interpretam, tentando conhecer e saber, o que são os factos e as coisas. É claro que a distinção em classes, categorias de coisas diferentes, e, neste caso, em classes sociais, categorias de pessoas com interesses diferentes, resulta da sua diferenciação em relação a muitas coisas; no seu sentido mais comum, em relação à distribuição do produto social.

A pertença a uma classe social depende do lugar ocupado na produção social; a tomada de posição na defesa dos interesses de classe já não tanto. O Marx, por exemplo, não era proletário e tomou o partido dos proletários, e muitos proletários tomam o partido dos seus exploradores. Não é tão pouco sinónimo de “consciência de classe”; o Marx, não sendo proletário, não adquiriu a “consciência de classe” proletária; em seu entender, teria adquirido a consciência da razão, ou a consciência da razão científica, tão em voga no seu tempo, porque assumia a tomada de partido a favor do proletariado não porque este fosse a classe explorada, mas porque, no seu entender, era a classe revolucionária ditada pela razão científica.

Reconhecer a existência de classes sociais com interesses divergentes não depende da posição nem da consciência de classe; é antes de mais uma questão de bom senso, de elementar discernimento acerca da realidade. Qualquer capitalista esclarecido o reconhece sem rebuço ou hipocrisia. E reconhecer que as lutas das classes sociais são o motor da história, da evolução das sociedades humanas, não será talvez o contributo original do Marx neste campo. A sua originalidade advém de ter definido o proletariado como a classe revolucionária na época da vigência do modo de produção capitalista, e, mais, de ter profetizado a revolução proletária e a implantação do comunismo proletário como ordem natural das coisas.

A história das lutas das classes sociais é já longa. Ela tem mostrado que não têm sido as classes sociais exploradas de uma determinada época económico-social que têm ascendido à condição de classe dominante na nova ordem social que se segue. Dizendo basear-se na história, afinal, o Marx baseava-se apenas em meia história: as lutas das classes são o motor da evolução. A outra metade da história contrariava a profecia marxista: a classe explorada duma época não ascende à condição de classe exploradora da época seguinte.

É claro que na sociedade, como na vida biológica, podem acontecer mutações, evoluções não previstas pelas regularidades anteriores. Neste caso, tais ocorrências, meramente contingentes, não podem ser fundamentadas com base nas regularidades anteriores, na história. Ora o chamado materialismo histórico pretende ser baseado numa regularidade histórica que não ocorreu. Daí que a proclamação do comunismo proletário como devir inexorável da humanidade não possa basear-se na história. Se vier a ocorrer, o seu fundamento não será certamente a história.

O comunismo proletário marxista constitui uma profecia; não mera esperança, desejo ou utopia, mas uma profecia, porque a sua eclosão seria certa e segura. No caso, uma profecia apresentada como científica, porque se fundaria na ciência, mas afinal destituída de fundamento científico. Qualquer um pode ser adepto do comunismo proletário: por interesse, por desejo idealista ou por fezada. Não há qualquer problema nisso. E pode sê-lo sem o mínimo conhecimento do marxismo nem do leninismo nem dos fundamentos ditos científicos com que aquele o apresenta. Parece-me mais duvidoso que alguém se possa afirmar marxista, defensor de um corpo de ideias, sem conhecimento da obra em que essas ideias são expressas. A não ser que bastem uns tópicos gerais, a vulgata das cartilhas ou as interpretações em segunda mão. Neste caso, o rótulo pode ser chic, porreiro, progressista, etc. e tal, mas é enganador e não fiável. Não se esqueça que quem conta um conto aumenta um ponto.

JMC.

Publicado por [JMC] às setembro 17, 2009 02:25 AM

JMC,
Não posso deixar de começar por agradecer, como agradeceu ao Rick, o interesse que despertou este post ao ponto de discorrer mais linhas no seu comentário do que o próprio post. Interessante fenómeno, então, este das Classes Sociais! E é por aqui que começo a vaguear nos meus pensamentos, tal como o fiz anteriormente, achando pertinente dizer, antes de mais, que sou Marxista e não só chic mas muito chic uma vez que não me submeto a leituras para as quais não tenho capacidades e distinção para a sua compreensão. Talvez caiba ao JMC de propor uma edição mais popular do que a popular que tenho nas mãos, com a mais-valia de ter a capacidade de avançar um outro capítulo de distanciamento crítico da obra, como dá a perceber pela natureza dos seus textos, dando a sensação que finalmente conseguiu rebentar o grilhão que trazia amarrado a si desde os seus antepassados.
Como pode reparar, nesta pequena introdução de comentário ao seu comentário apropriei-me de pelo menos dois termos muito associados ao corpus teórico avançado por Marx: Classes Sociais e mais-valia. No entanto, enquanto que na aplicação linguística corrente do primeiro tenho uma matriz de pensamento marxista em background (mas não exclusivamente), no segundo raras são as vezes. Quero com isto dizer, que o meu texto não tinha a pretensão de esgotar o corpo de ideias marxistas na medida em que na minha trajectória intelectual tive a oportunidade de ir acumulando outras perspectivas sobre Classes Sociais. Não me deixarei assim dispersar em pequenos pormenores nos quais não tinha intenção de mergulhar, embora possa comprometer-me a explicar o sentido de cada palavra do meu texto base e assumir eventualmente certos lapsus pelo facilitismo da minha escrita.
Ainda assim, o seu primeiro parágrafo coloca duas questões interessantes no domínio da ciência do conhecimento, a primeira relativa à epistemologia e outra em relação às categorizações, intimamente relacionada com a primeira.
Notoriamente em termos epistemológicos JMC situa-se no interior de uma concepção subjectiva de classes sociais como construção teórica gerada puramente pelos homens, fazendo com que as classes, ou seja as coisas ou o facto, existam porque se encontram mobilizadas em “relação à distribuição do produto social”. Para ser sincera, pela minha parte, talvez por ter tido uma formação demasiado positivista da ciência, tenho tendência a ser objectivista, e portanto a fazer uma construção teórica de classes basear-me-ia na condição real de existência. Através de um terreno empírico onde a conjugação de múltiplas variáveis “não seriam o pudim que como todos os dias à sobremesa” tentaria aí interpretar e constatar as Classes Sociais.
Quanto à segunda questão –as categorizações- é necessário salientar o seu lugar central na sociedade em que vivemos para criar uma suposta ordem, sendo com elas que a sociedade se estrutura, alimenta e cria dinâmicas de poder que originam, entre outros, o sentimento de “impotência” social. É um ciclo vicioso, onde a meu ver indivíduos tomando partido pela classe proletária, explorada, dominada, o que quiser, guiados pela razão cientifica são muito bem-vindos (obrigado pela lição). São estes indivíduos, com instrumentos de reflexão e análise que estão em medida de desmantelar e decorticar (exactamente, como quem tira a cortiça) as fronteiras categoriais que forjam injustiças com o objectivo de equilibrar dinâmicas de poder no seio da interacção social.
De resto existem coisas ainda importantes a debater, nomeadamente o reconhecimento da existências de classes sociais segundo o lugar ocupado no espaço sociopolítico, mas teria que ser eu agora a estourar com o grilhão que me amarra a um sistema de salários e opressão! Vai ter que ficar para outro dia.

Publicado por [shift] às setembro 17, 2009 12:36 PM

shift.

As concepções do Marx são por vezes difíceis de apreender. Não só porque os temas são complexos, mas porque o estilo da exposição é denso. Não admira que faça desistir alguns adeptos de intentarem ler as suas obras mais importantes. Já no que me diz respeito, as coisas não são assim tão difíceis de compreender, e o meu estilo é mais terra a terra. Constato que mesmo assim, por vezes, torna-se difícil ser compreendido.

Não vejo que das minhas palavras possa retirar o sentido que lhes atribui, situando-me “no interior de uma concepção subjectiva de classes sociais como construção teórica gerada puramente pelos homens” (o resto da sua frase é contraditório). Reafirmo, poupando-lhe o trabalho de recuar no texto: as coisas, os factos, não geram teorias sobre si nem sobre o que quer que seja; as teorias sobre as coisas e os factos são geradas pelas pessoas, e não apenas pelos homens, para ser mais preciso. É assim tão difícil de compreender?

Haverá gente que julgue que as coisas existem no mundo real por existirem na sua mente, e não o inverso. É o caso de muitos marxistas, que confundem os seus desejos com a realidade. O próprio Marx, explicitamente, não chegou a tanto, porque julgava que o seu idealismo constituía um materialismo, mas andou lá perto, confundindo os efeitos das coisas com as suas causas, como é notório em relação à génese do lucro ou da chamada mais-valia. E haverá quem identifique as classes sociais “porque se encontram mobilizadas em “relação à distribuição do produto social””, embora não reduza as lutas das classes às que se situam no campo das relações económicas de produção, e as entenda situadas no campo mais vasto das relações sociais de produção.

É claro que nem as lutas das classes sociais se restringem às lutas económicas nem as lutas sociais se reduzem às lutas das classes sociais, englobando as lutas de outros grupos mais restritos, em número de componentes e no âmbito dos interesses que lhes são comuns. A visão do mundo das pessoas, estando dependente do lugar que ocupam na produção e na repartição do produto social não se restringe a isso, como é notório até na diversidade das ideias individuais. Mas o que estava em causa e motivou o meu comentário era a representação que o marxismo faz do mundo e o papel na revolução social que atribui à classe explorada do modo de produção em decadência.

A organização social vigente em qualquer época contém sempre algo injusto para alguém. O capitalismo não é o produtor original da injustiça social, nem a ideologia burguesa é a mais retrógrada das que existiram. Um e outra não serão eternos, mas não deixa de ser caricatural os marxistas lhe atribuírem todos os males que a humanidade já cometeu, como se os que comete não fossem suficientes para animarem as lutas sociais pela transformação social. O justicialismo maximalista, idealista, que anima os marxistas é já enfadonho, mas o dos marxistas chic é ridículo. Não é o seu caso, claro, que se diz “Marxista e não só chic mas muito chic”, e não marxista chic.

Pela perplexidade que possa causar, informo que este comentário era resposta a um outro da shift, que entretanto me parece ter sido retirado (pelo menos deixou de aparecer no monitor). E mais informo que esta minha resposta já foi aqui colocada, mas pelos vistos rejeitada (pelo menos não aparece no monitor e, quando foi colocada, obteve o qualificativo de spam). Isto é para vocês ficarem informados de factos a que possam ser alheios. Como as coisas vão neste mundo da net, nunca se sabe.

JMC.

Publicado por [JMC] às setembro 18, 2009 05:01 PM

Shift!
Correctíssimo, sem desprimor aos autodidactas!
Creio que o problema mais interessante de análise (para os marxistas de hoje) se referirá à proletarização do capitalista, que tende a transpor a relação de domíneo, formal e materialmente, para fora da propriedade (posse,)e não tanto à "desproletarização" do "trabalho".
Como é que o pensamento "marxista", não recorrendo ao "Leninismo" ou qualquer outro modelo institucionalizador do socialismo (capitalismo de Estado), supera o problema da productividade e das menos valias sem mais valias (pressupondo que os bens económicos são escassos, mesmo sem o mito malthusiano)!?
Quanto ao resto, o mais importante, já sabemos que o marxismo não responde, nem quer responder!!
Cumps,

Publicado por [Justiniano] às setembro 18, 2009 11:19 PM

JMC, vai para si

"Não vejo que das minhas palavras possa retirar o sentido que lhes atribui, situando-me “no interior de uma concepção subjectiva de classes sociais como construção teórica gerada puramente pelos homens” (o resto da sua frase é contraditório). Reafirmo, poupando-lhe o trabalho de recuar no texto: as coisas, os factos, não geram teorias sobre si nem sobre o que quer que seja; as teorias sobre as coisas e os factos são geradas pelas pessoas, e não apenas pelos homens, para ser mais preciso. É assim tão difícil de compreender?"

Se partirmos do princípio que as relaçoes de classe identificadas por Marx sao objectivas e objectivadas (permitindo-nos tratá-las entao por "as coisas ou os factos", como faz), nao me parece que acrescente grande coisa a qualquer discussao dizer que quem gera as teorias sao os homens e nao as coisas em si.

De resto nao vejo com tanta clareza que Marx tenha proposto que, no âmbito do materialismo histórico, uma classe dominada passe sempre a dominante no estado seguinte e muito menos que daí se possa concluir que o seu corpo teórico é "cientificamente inválido".

Por último, acho abusiva a generalizaçao de que todos os marxistas insistem em atribuir à burguesia todos os males da humanidade. Para além de ser uma reduçao absurda duma série de perspectivas filiadas de alguma forma ao marxismo e uma acusaçao um bocado extravagante e distorcida, como se fosse esse o grande objecto de estudo e atençao da maioria dos marxistas que debatem no estpaço público.

Publicado por [boulder dash] às setembro 21, 2009 04:40 PM

boulder dash (e não é que por aqui vocês apenas têm pseudónimos e ainda por cima engraçados!)

As minhas palavras que cita não acrescentam grande coisa a qualquer discussão. A não ser quando corrigem uma ideia inversa errada. Aí acrescentam o essencial. Julgo que foi o que aconteceu.

O Marx não disse que “uma classe dominada passe sempre a dominante no estado seguinte”. Disse que a classe explorada (é um pouco diferente de ser apenas a classe dominada) do capitalismo seria a classe revolucionária que derrubaria o poder da burguesia e dirigiria a sociedade num novo estádio, o socialismo e, depois, o comunismo. Isto está em contradição com a história; estar em contradição com a história uma vez é suficiente para que o chamado “materialismo histórico”, assim designado pelo Engels, não seja cientificamente válido, porque contraria as premissas de que parte.

É claro que se os marxistas pararem um pouco para pensar não atribuirão à burguesia e ao seu modo de produção todos os males da humanidade, porque tal é um absurdo. Mas o que decorre do seu discurso na luta política quotidiana é precisamente esse absurdo; daí o ridículo em que caem. Não será o seu caso, certamente, tanto mais que apresentou a minha afirmação como uma generalização abusiva. Pode ser, mas não é tão absurda quanto os absurdos do marxismo e dos marxistas.

JMC.

Publicado por [JMC] às setembro 21, 2009 11:53 PM

Voltanto ao inicio:
O interesse em reconhecer a existência de classes sociais, depende em grande parte, da posição que se ocupa no espaço sociopolítico. Não vou ser demasiadamente categórica ao ponto de não aceitar certas excepções de “capitalistas esclarecidos”, no entanto, serei demasiadamente teimosa para insistir, por um lado, em certas regularidades que são facilmente testemunhadas no panorama sociopolítico da “intelligentsia” da nossa sociedade e, por outro, na desvirtualização que esses “capitalistas esclarecidos” fazem dessa terminologia.
A explicação pode ser simplificada desta maneira: é urgente que os antagonismos entre as classes não comprometam a competividade do sistema de produção. Ora, é importante que esses conflitos entre as classes sejam reduzidos ao silêncio pela “força da natureza” e pelo apagamento no espaço público da terminologia que lhes dá eco de um dia poderem ser materializados em algo. A partir do momento que a desvitalização e desvirtualização da semântica classista é consequente vive-se então na tão almejada tranquilidade social. No entanto, essa fachada de tranquilidade não é nem pode ser eterna (sem querer fazer profecias) pela simples razão que o silenciamento não implica necessariamente o desaparecimento da paisagem social.
Segundo aspecto que ainda não me parece bastante claro: “as teorias sobre as coisas e os factos são geradas pelas pessoas, e não apenas pelos homens para ser mais preciso. É assim tão difícil de compreender?”, sinceramente é dificil de compreender! 1: Por quem mais as teorias poderiam ser geradas? Se não são os homens são as mulheres? Os extraterrestres? 2: o que me parece é que o JMC não aceita o vai e vem entre o gerar e ser gerado, ou então a achega que Boulder Dash fez sobre as classes sociais como objectivas e objectivadas.
Por fim, Justiano... Parece-me que já tens a tua resposta na ponta da língua... explica-nos!

Publicado por [shift] às setembro 22, 2009 12:51 PM

shift.

“Por quem mais as teorias poderiam ser geradas? Se não são os homens são as mulheres? Os extraterrestres?”. Ainda bem que compreendeu, finalmente. Pela citação que fazia inicialmente, no seu entender as teorias sobre as coisas eram geradas pelas próprias coisas. Por muito que se queira voltar o bico ao prego, a cabeça continua diferente do bico. Parece-me escusado bater nesta tecla errada.

O “que me parece é que o JMC não aceita o vai e vem entre o gerar e ser gerado, ou então a achega que Boulder Dash fez sobre as classes sociais como objectivas e objectivadas”. Que é que a faz pensar assim? É claro que aceito que as teorias, tornadas práticas, possam alterar o estado das coisas, dentro de certos limites, que são o seu objecto. Só não aceito que as coisas produzam teorias sobre si próprias ou sobre seja o que for.

Isto faz-me lembrar outra tirada do Marx acerca do conflito entre as forças produtivas e as relações de produção, glosada pelos marxistas como uma das contradições do modo de produção capitalista. Ele atribuía às coisas, as forças produtivas, a capacidade de entrarem em contradição com as relações estabelecidas entre as pessoas. Cá está mais um poder sobrenatural das coisas materiais.

As lutas das classes têm mostrado dever muito pouco às teorizações feitas sobre elas, assim como à “desvitalização e desvirtualização da semântica classista”. Já podem dever mais ao silenciamento da sua eclosão e dos seus resultados; e devem certamente mais à repressão dos seus protagonistas vencidos; nem isso, contudo, as eliminou e “não implica necessariamente o desaparecimento da paisagem social”. A sua existência não lhes confere poderes imaginários. As teorizações sobre elas sabemos ao que conduziram.

Há muitas razões práticas para que as lutas das classes tenham passado a conhecer amplitude mais atenuada e formas mais pacíficas. A elas não será estranha a melhoria do nível de vida que o capitalismo tem proporcionado aos diversos actores sociais e a liberdade que a democracia burguesa lhes tem concedido. E contra esta razão objectiva parece que a razão subjectiva tem tido fraco poder, a não ser o de lutar pela melhoria da repartição do produto social e pelo alargamento de direitos sociais e políticos.

JMC.

Publicado por [JMC] às setembro 22, 2009 04:27 PM

Shift!
"Parece-me que já tens a tua resposta na ponta da língua... explica-nos" que não resulte isto do facto de ter referido que o Marxismo não responde, nem quer responder, ao problema da existencia da alma humana (fim do meu comentário).
Prudencia e boa-fé, que não presuma o contrário a este interlocutor
Tivesse eu a resposta, e não tivesse eu a curiosidade de lhe ler opinião, não lhe teria lançado a pergunta.
Como se compreende, pelo espaço de discussão "blog", tentei, o melhor que pude e soube, delimitar a questão aos termos que, em meu entender, mais relevancia constituenda teriam. (Isto porque entendo irrelevante a discussão em torno de elementos meramente recognitivos do Marxismo ou pressupostos do Marxismo...excepto, actualisticamente falando, de Marxistas que não Marx.)
Se quizer e puder responder, tanto melhor.
Cordialmente, Justiniano

Publicado por [Justiniano] às outubro 1, 2009 03:46 PM

Fell out of bed feeling down. This has birghtened my day!

Publicado por [Ice] às julho 7, 2011 12:14 AM

That’s not just logic. That’s raelly sensible.

Publicado por [Melvina] às julho 9, 2011 01:14 AM

Whoever wrote this, you know how to make a good atrcile.

Publicado por [Florence] às julho 9, 2011 03:40 PM

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