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setembro 16, 2009

Os náufragos


"«Polícias de capacete, as armas carregadas, cercam os cafés de estudantes do boulevard Saint-Michel», contou Victor Serge, um revolucionário de sempre. «Os estrangeiros que não tenham os documentos em ordem são metidos em camiões e levados para a sede da polícia. Muitos são refugiados antinazis, porque os outros estrangeiros têm evidentemente os documentos em ordem. […] Os refugiados antinazis e antifascistas vão conhecer novas prisões, as da república que foi o seu último asilo neste continente e que agora agoniza e perde a cabeça. Espanhóis e combatentes das brigadas internacionais que venceram o fascismo junto a Madrid são tratados como se tivessem a peste… Com os documentos em ordem e a carteira bem recheada, os falangistas espanhóis, os fascistas italianos, que eram ainda neutrais, os russos brancos − e quantos nazis autênticos a coberto destas camuflagens fáceis? − passeiam-se livremente por toda a França». Nessa época o órgão oficial do Partido Nacional-Socialista publicou uma lista de escritores antinazis que as autoridades francesas haviam mandado internar em campos de concentração, perguntando no fim, com um pesado sarcasmo, se eles continuariam convencidos das benesses da democracia. A resposta estava dada já, na inscrição que um refugiado espanhol gravara na cruz erguida sobre a sepultura de um camarada seu em Le Vernet. «Adios, Pedro. Os fascistas queriam queimar-te vivo mas os franceses deixaram-te morrer de frio em paz. Pues viva la democracia». [...]
Em Junho de 1940, quando os generais franceses assinaram o armistício, os estrangeiros antifascistas detidos nos campos de concentração ou foram entregues às autoridades ocupantes ou permaneceram sob o controlo do governo colaboracionista de Vichy, conseguindo uns poucos escapar e suicidando-se outros, alguns grandes nomes entre eles. Foi assim que se matou Walter Benjamin, com uma cápsula de cianeto que Koestler lhe dera para o caso de não conseguir pôr-se a salvo.
Foram estes os náufragos, que haviam lutado em vários países e tentado salvar-se atravessando as fronteiras, odiados pelos fascistas por serem comunistas, odiados pelos nazis por serem judeus − já que, para eles, judeus e comunistas, comunistas e judeus, era tudo a mesma coisa − odiados pelas democracias por serem anticapitalistas. Foram eles, os refugiados antifascistas, as primeiras vítimas do conflito militar entre as democracias e os fascismos. Mas por que não procuraram abrigar-se na União Soviética? Não seria esse o lugar natural de exílio dos comunistas e dos antifascistas? Teriam os náufragos perecido só por estarem do lado errado da geografia?"

João Bernardo, Passa Palavra

Publicado por [Rick Dangerous] às setembro 16, 2009 05:59 PM

Comentários

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Publicado por [Zabrina] às julho 6, 2011 05:49 PM

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Publicado por [Janaya] às julho 8, 2011 10:12 PM

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