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setembro 18, 2009

Manda quem pode


A telenovela mexicana em curso teve o inestimável mérito de trazer à boca de cena personagens habitualmente discretos e que detêm um enorme poder na formação do espaço público em Portugal.
Ficamos a saber, por exemplo, que Luciano Alvarez, editor do jornal «Público», é, para além de venal, semi-analfabeto. Alguém se poderá sentir seguro com uma pessoa que tem como ferramenta profissional a linguagem e escreve coisas como «conseguir-mos» ou «que me pediu para não a contar a ninguém por enquento, mas que eu tenho que ta contar»? E já não estou a falar dos erros de acentuação e pontuação ou das gralhas tipográficas, para não ser mesquinho. Um e-mail, mesmo que secreto, não merece semelhante desprezo pela língua de Camões e do jornal «A Bola». Adiante.
Interessou-me por outro lado o tortuoso raciocínio de Belmiro de Azevedo, que tem o inquestionável mérito de falar claro. Ordena o patrão da SONAE ao seu jornal "que não se deixe assustar por opiniões um bocado desastradas de alguns governantes que querem mandar no Público sem pôr lá dinheiro nenhum." E depois, para o caso de não ter sido claro o suficiente: "Não me importo nada que eles mandem, mas comprem o jornal."
Já sabíamos que não existem almoços grátis, mas que o patrão dos patrões venha assumir assim, de forma tão descomplexada, que ter um jornal às suas ordens custa dinheiro, não deixa de ser surpreendente. Afinal de contas o que move Belmiro? Não lhe conhecemos tão generosa vocação filantrópica e temos dificuldades em imaginá-lo a fazer fortuna investindo em projectos que apenas trazem prejuízos.
A não ser que, na economia política do capitalismo tardio, o espesso manto de neblina com que diariamente a comunicação social cobre o real, seja lucro suficiente para um empresário dinâmico. Com investimentos e participações que se estendem a outras tantas áreas delicadas, onde a relação entre poder económico e poder político se revela problemática e pode significar a diferença entre uma OPA bem sucedida e um lote de acções inflacionadas, possuir um editor disponível para formular as perguntas que lhe são ditadas por uma assessor é um trunfo poderoso.
Se para mais nada, todas as aventuras e desventuras em torno da TVI e do «Público», mais as trocas de acusações de interferência empresarial nas respectivas linhas editoriais, trouxe ao de cima a densa teia de relações em torno da informação. Se os donos do mundo também são donos da informação, como acreditar que a opinião publica seja outra coisa senão o que mais convém à opinião privada?

Publicado por [Rick Dangerous] às setembro 18, 2009 03:34 PM

Comentários

Duas notas:

Há dias, JMF entrevistou o seu patrão em programa que foi também transmitido na RTP 2 e onde houve espaço para recados ao Governo PS. A JMF a quebra deontológica não se pôs.

Há dias, salvo erro ao "i", Joe Berardo afirmou preto no branco que o Público até podia dar prejuízo ao Belmiro, mas que dava jeito aos negócios ter um jornal

Publicado por [Anónimo] às setembro 18, 2009 07:38 PM

Finalmente, Rick, estamos de acordo. Espero que todos tenham percebido, nas palavras subtis de um talhante como o Belmiro, que o Público vale cada euro de prejuízo que dá. Ou seja, ele assume que só aguenta o barco à tona porque serve os seus interesses.

Quanto ao resto estou de acordo. Nem a merda de uns conspiradores decentes conseguimos arranjar. Por favor, queremos escândalos, qualquer-coisa-gate e gargantas fundas, no mínimo, com o 9º ano!

Publicado por [pedro bala] às setembro 19, 2009 10:07 AM

Real brain power on dsiplay. Thanks for that answer!

Publicado por [Kailin] às julho 7, 2011 12:16 AM

What an awesome way to elxpain this—now I know everything!

Publicado por [Shermaine] às julho 8, 2011 05:54 PM

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