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setembro 10, 2009

2666

Já falta pouco, quase nada mesmo, para ser editada a tradução portuguesa de 2666.

Hoje em dia ler é uma actividade fantástica e quem lê um paladino de tudo o que nos distingue das bestas e dos selvagens. Sejam as memórias de retornados de capa sépia que parecem monopolizar as estantes das livrarias ou as inumeráveis reedições de capa enjoativa dos Kafkas e Dostoyevsky cuja aquisição é tão ritual quanto a primeira ida à festa do avante, quem lê entra numa esfera cognitiva superior e exclusiva às sociedades civilizadas, e porque não, democráticas. Destruir um livro é um crime hediondo só praticado nas mais odiosas ditaduras fascistas ou comunistas, as imagens dos milhares de folhas a arder numa fogueira rodeada de jovens fanáticos revelam o triunfo da força bruta, da não-razão, da barbárie assassina, isto apesar de cada mês serem destruídos centenas de milhares de livros no mundo inteiro, basicamente tudo o que não foi vendido na época anterior.
E haverá prazer mais cúmplice do que partilhar um Saramago com os amigos? Do que deixar um “agrada-me” no facebook do Agualusa? Do que levantar os olhos de uma rima particularmente visceral de um poeta maldito para os deixar cair no cinzeiro e pensar que o autor a escreveu expressamente a pensar no nosso ennui sexual?

2666 chega a este mundinho de leitores e leitoras e livrinhos e dedicatórias em rima de escritores fodilhões os aliados à Normandia. 2666 são trezentos lobos esfaimados a invadir a terra do meu pequeno pónei. 2666 são mil páginas de livro fodido que vieram para assaltar os Agualusas e os Peixotos e Gonçalos Tavares no pátio do liceu. 2666 são 500 Lauras Palmers.

Passo rapidamente à frente dos detalhes bibliográficos. Roberto Bolaño morreu há menos de meia dúzia de anos e viveu bastante tempo em Barcelona e no México, depois de ter fugido a Pinochet no seu pais natal: segundo reza a lenda entre os guardas prisionais estava um colega do liceu que o deixou fugir. Ante a notícia de que tinha um cancro, Bolaño, até à altura pouco conhecido, apressou a conclusão de 2666. Vendo que não conseguiria terminar deixou ordem ao seu editor para que este fosse publicado em 5 volumes independentes, de modo a poder assegurar um lucro maior aos seus filhos. Após a sua morte os descendentes decidiram editar tudo junto, assim como estava, aparte algumas revisões consoante notas que o próprio Bolaño tinha deixado. A fama do livro foi crescendo e no ano passado ganhou o prémio de melhor livro da associação dos críticos literários norte-americanos. A temática e um certo mistério à volta de tão imponente calhamaço ajudaram a gerar algum hype e o resto é história.

2666 tem à volta de mil páginas, toda uma cosmologia maldita. Não estrago nenhum final quando revelo que se vai aproximando cada vez mais do mistério que está por detrás das 500 mulheres que morreram assassinadas em Ciudad Juarez nos últimos 15 anos. Para lá das anedotas interessantes e do deleite literário, extenso e variado, o perturbante em 2666 e o que torna de certa maneira impar é a capacidade de transformar esse número 500, no fundo tão abstracto quanto 50 ou 5 000 000, em algo tão tangível e tão negro quanto algo a que tenhamos assistido presencialmente. Creio que quem quer que tenha alguma vez presenciado uma morte violenta poderá corroborar essa impressão de sem-sentido, de extremo acaso, de um certo território obscuro sem fundo na natureza humana que ao contrário do que possa parecer não é feito de raiva e de medo mas sim de um vazio cósmico: a força de Twin Peaks não advinha do mistério de quem matou Laura Palmer mas precisamente de uma profunda tristeza desértica que acompanhava essa morte, como se perante a interrupção e a brutalidade a existência não passasse no fundo de um domingo eternamente chuvoso. 2666 é brutal e na parte sobre as mortes é de uma leitura penosa e algo expiante. A urgência de resolver os crimes torna-se só mais penosa por ser como que impossibilitada por um calor paralisante e por uma perplexidade contemplativa já em si totalmente desesperada. O carácter do cenário ajuda: a fronteira entre os Estados Unidos e o México é dos territórios mais explorados na literatura, da Trilogia da Fronteira de Cormac McCarthy a Imperial de William Vollmann há uma extensa cartografia dramática da região. Mas enquanto a fronteira “antiga” era feita de um território de ninguém em que eventual brutalidade da ausência da Lei e do Estado era substituída pela liberdade da aventura, a fronteira de hoje pauta-se por uma ordem hierárquica diferente: enquanto local de trânsito de mercadorias e de pessoas legais e ilegais o espaço deixa de ser vazio para se tornar uma gigantesca fábrica sem operários em que ninguém sabe o que é exactamente produzido. O fluxo de movimentos deixa de ser clandestino para ser fugaz e fantasmagórico: um blip num radar, uma operária de uma maquiladora que um dia não aparece para trabalhar sem que ninguém repare, um wetback que morre afogado num rio de esgotos e detritos industriais a tentar passar a fronteira, um policia mexicano que recebe o seu suborno em putas velhas e mezcal.

No Pastoral Portuguesa tudo isto bastante melhor escrito

Publicado por [Party Program] às setembro 10, 2009 10:14 PM

Comentários

há um blog sobre o lançamento e tudo:

2666.blogs.sapo.pt/

onde dá p ver a capa tb, bastante feia por sinal, as edições antipáticas fariam bem melhor

Publicado por [pp] às setembro 11, 2009 11:20 AM

"Un oasis de horror en medio de un desierto de aburrimiento"

Publicado por [ce] às setembro 11, 2009 03:18 PM

Rodrigo,muito bons seus comente1rios, o que nos leva a adarfunpor o assunto.Digamos, que a geste3o de conhecimento vem justamente da estreiteza das pessoas por gerenciar a informae7e3o.Como os gestores da informae7e3o deixaram as pessoas de lado, resolveram criar outro nome e outra e1rea para esbarrar no mesmo muro.Que e9 um problema conceitual be1sico do que afinal e9 informae7e3o e conhecimento, por isso fiz aquele texto da batata. (Ver no blog)Para que um processo informacional ocorra e9 preciso lidar com pessoas, pois sf3 existe informae7e3o e conhecimento em relae7e3o, todo o resto e9 vazio.Ne3o e9 por mal que fomos estreitando essa vise3o.Compreender que qualquer projeto, pequeno ou grande, depende exclusivamente de pessoas e9 algo difedcil de lidar, pois o ser humano e9 no nosso planeta o ser mais complexo que existe.Cada pessoa permite mil variantes, humores, situae7f5es, condicionamentos, etc .Um setor especedfico e deslocado de sua verdadeira fune7e3o, acaba ne3o tendo fore7a para lidar com esse ambiente propedcio e cai para o te9cnico, o pobre, o vazio por falta de pernas e e0s vezes, por falta de vise3o conceitual do problema.Viram bibliotece1rios, arquivistas, quando deveriam zelar tambe9m pelo ambiente, pois se ningue9m vai e0 biblioteca por falta de motivae7e3o, a biblioteca e9 apenas um lugar para se relaxar, curtir o sileancio e tomar um banho de ar condicionado. Ou seja, quando se fala em informae7e3o e conhecimento, para coisas concretas e9 assim uma forma de reduzir a dificuldade do problema, deixando o principal de lado.O problema, portanto, me parece, antes de tudo, conceitual. Castells no texto The Network Society fala um pouco disso ao afirmar que ne3o vivemos na sociedade do conhecimento mas em mais uma e avisa que teremos problemas se9rios, em fune7e3o desse erro tef3rico. Concordo.Ao criarmos na empresa setores de informae7e3o ou de conhecimento estanques e isolados nos tirou o poder e a possibilidade de perceber que basicamente o que deve se trabalhar e9 o ambiente informacional, antes de tudo, que, na verdade, e9 o prf3prio ambiente da empresa que vai permitir que tudo isso acontee7a.Uma empresa que trabalha sob chicote, tere1 pouco espae7o, por exemplo, para a criatividade, curiosidade, tre2nsito de informae7e3o, e o que fare3o os nossos gestores???Claro, que a parte te9cnica da organizae7e3o dos registros e9 fundamental para dar suporte a esse movimento, mas ne3o pode ser reducionaista, como e9 hoje Podemos optar assim pela geste3o do ambiente do conhecimento, geste3o do sistema de conhecimento geste3o do ambiente informacional, o que me agradaria mais e ficaria mais coerente com o que estamos falando.Note que o ambiente e9 algo intangedvel, mas no todo pode ser gerenciado, pois e9 formado por coisas concretas que existem e se relacionam.Volto a dizer o conhecimento e9 relacional e potencialmente possedvel, dependendo do ambiente que se cria.Se vamos chamar geste3o do conhecimento para reduzir o nome, um apelido, tudo certo, mas sob o risco das interpretae7f5es que acabam acontecendo Muita gente que trabalha com GC, na verdade, je1 encara o projeto dessa forma, entende que deve ser um esfore7o coletivo, que trabalha diretamente com o poder central e que deve ser formada por basicamente diversos perfis.Nem sempre uma e1rea, que cria uma burocracia, mas um grupo permanente de trabalho, por exemplo.Ou seja, manter o ambiente da empresa para que ele possibilite a inovae7e3o e a criatividade.Como falar em algo assim sem o RH, TI, as e1reas especedficas, pessoal de informae7e3o, trabalhando de forma integrada ???Podemos, se quisermos, em falar de metas desse grupo, por exemplo, em promover a geste3o da mudane7a da empresa 1.0 para outra 2.0.E um grupo de trabalho e ne3o um setor formal que todos os departamentos discutiriam o ambiente de conhecimento interno para ser cada vez mais aperfeie7oado.Ao questionar a geste3o do conhecimento esse nome em si, veja, que estamos batalhando contra o reducionismo que acaba ocorrendo, que e9 justamente de sf3 gerenciar o palpe1vel e ne3o o intangedvel, diferente de como vocea entendeu a queste3o.Assim, vou apelar para Espinosa, citado no livro Direito Autoral da antiguidade a Internet de Joe3o Henrique da Rocha Fragoso. A maioria dos erros consiste apenas em que ne3o aplicamos corretamente o nome e0s coisas .Vocea concorda?Grato pela visita.

Publicado por [Maria] às março 25, 2012 01:53 PM

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