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janeiro 08, 2009

O que diz Soeiro


José Soeiro discursando às massas precárias impacientes e pedindo-lhes para terem paciência

Li com choque e pavor as entradas no diário ateniense do jovem deputado do bloco. Assim à primeira vista não têm nada de muito surpreendente e não me causam incómodo de maior. O que me chama mais a atenção na sua leitura é o constante esforço de «tradução» do que acontece em Atenas para a cultura política de José Soeiro e dos jovens do bloco, fazendo-me recordar a reportagem publicada no verão sobre o seu acampamento.
Tudo é lido à luz desta mistura difusa de escutismo, comércio justo, boa vontade e entusiasmo kitsch, em que se aspira a «um mundo melhor» e se tem a preocupação de ser «pedagógico». Ficamos com a sensação de que Soeiro, quando deixa cair um copo de sumo de maçã em casa de alguém, diz «chiça» em vez de «fôda-se», para não ferir qualquer susceptibilidade.
Note-se a preocupação do primeiro dia: "Por isso, também os estudantes terão de arranjar formas criativas - e preferencialmente à escala europeia - para manter o conhecimento na esfera não mercantil dos direitos." Temos dificuldades em compreender o que poderá ser a esfera mercantil dos direitos, mas numa frase em que se fala de «formas criativas e preferencialmente à escala europeia», seria quase mesquinho ir por aí. Sabemos que este tipo de formulações aponta quase sempre para a repetição em Portugal do que alguém viu fazer num qualquer Fórum Social Europeu ou manifestação londrina/parisiense/romana contra a privatização do ensino. Sabemos, no fundo, que é tanto menos criativa quanto aspira à escala europeia, mas como querer mal a um entusiasmo tão juvenil? Ele parece mesmo acreditar nestas coisas e isso já é uma vantagem em relação aos jovens que o precederam.


Anarquistas malvados e sectários que não deixaram o Soeiro filmar o pessoal

O que se torna problemático é a posição do «portuguese comrade» que tenta «explicar» aos gregos o que mais lhes convém, apesar de ter caído ali de pára-quedas e de não falar nem compreender a língua em que se debate nas assembleias. A imagem de uma assembleia estudantil transformada em mini-parlamento - em que "as intervenções são feitas pela ordem de representatividade das correntes politicas estudantis" - não parece coincidir muito com as discrições que se lêm noutros sítios. Mas registe-se a candura, Soeiro explica que estão a ser apresentados pelos media como «animais» (sic) e é aplaudido por todos, menos por um grupo de anarquistas (cinco, para ser mais concreto) que o «vetam» sem qualquer razão aparente, apesar das afirmações seguintes parecerem dar-lhes bastantes razões para o seu veto: "É pena, porque aquelas imagens mereciam ser vistas. Dizem muito mais sobre o que se passa do que qualquer montra partida." Neste ponto acompanho plenamente os cinco anarquistas da assembleia de arquitectura. As montras partidas dizem muito mais sobre o que se passa do que qualquer texto que José Soeiro publique no Esquerda.net E se os participantes na assembleia soubessem que Soeiro é deputado de um partido que recorre a esquemas como este, talvez a simpatia polida para com os «portuguese comrades» tivesse sido um pouco mais azeda.
Este paternalismo de quem acha que sabe perfeitamente o que merece ou não ser visto, o que reflecte ou não o espírito do movimento, juntamente com este imaginário político que não vive sem arrumar tudo em gavetinhas bem etiquetadas (os representantes de cada facção estudantil como epicentro da assembleia) e que nem sequer renunciou à ritual denúncia do partido comunista, que não acompanha o movimento e que portanto é etiquetado de «partido da ordem», como se a «esquerda radical» com que simpatiza José Soeiro não tivesse feito o mesmo, como pudemos ler no esquerda.net: "Saudamos os estudantes, rapazes e raparigas, todos os jovens que não escondem a cara. [...] O nosso alvo é o sistema, e as suas injustiças para com a juventude. O nosso alvo não são as montras, os carros, as residências, os edifícios públicos. Estamos inequivocamente contra a violência cega."
O nosso alvo é o sistema. Quanta ternura...


José Soeiro explicando aos estudantes de arquitectura atenienses que devem sorrir para as câmaras, de maneira a desmentir a imagem de «animais» que lhes é dada pelos «media do sistema»

Publicado por [Rick Dangerous] às janeiro 8, 2009 05:23 PM

Comentários

Já não lhes basta andar aí nas escolas e universidades a endoutrinar com o seu marxismo podre a juventude urbana bem-pensante, e agora querem fazer o mesmo aos gregos. Razão tem o Rick e os camaradas anarquistas gregos, fodam o Soeiro e o sistema que ele protege! Tapamos a cara sim, porque se hoje somos todos Marcos, amanhã seremos Katsouranis!

Publicado por [giorgius] às janeiro 8, 2009 07:25 PM

Quando deixarmos de ouvir e de prestar a mínima atenção a estes partidozinhos bacocos, mesmo os queridinhos, que se fazem de progressistas e inovadores - as coisas mudam. Quanto mais não sejam porque eles deixam de ter poder, passam a fazer discursos para as paredes e os umbigos.

A era dos partidos está a morrer, ou se calhar até já morreu só que ninguém os avisou...

O Soeiro é apenas mais um dos muitos macacos que ainda acham que podem controlar as massas e dar as explicações de merda e de sempre para problemas que os ultrapassam e muito.

Pois, que talvez tudo se resuma a um problema de intelecto, que sim, que talvez.

Umas quantas criaturas ainda não atingiram que as esquerdas e direitas partidárias já não interessam nem ao menino jesus.

Passar bem,

R

Publicado por [Ricardo] às janeiro 8, 2009 11:26 PM

Ó Rick: que má onda...

O José Soeiro (que já agora não é o Jovem deputado do Bloco mas sim um camarada que foi 6 meses deputado e ainda bem, acho eu), decidiu ir para a grécia acompanhar de perto os acontecimentos.

Eu peço-lhe para ele escrever qualquer coisa para aqui sobre a experiencia e a visão dele.

O gajo enviam um texto porreiro que mesmo que não acompanhes, é inegável que tem interesse (pelo menos a ti "á primeira vista" "não te causa incómodo de maior" - obrigadinho...) e é mais uma visão sobre o que lá se passa de uma pessoa que lá está.

E tu fazes logo de seguida um post personalizado, com o nome dele no título, com fotografias dele em grande plano com legendas no gozo, tipo "José Soeiro discursando às massas precárias impacientes e pedindo-lhes para terem paciência"?

Enfim... de minha parte, peço desculpa ao Zé Soeiro. Não queria sujeita-lo a esta exposição quando lhe fiz o tal pedido.

***

Já que estou a falar no assunto, comento também os comentários: Ya! "Fodam o Soeiro e o sistema que ele protege" Ya! "A era dos partidos já morreu" Ya! Fixe, meu!

Publicado por [Saboteur] às janeiro 9, 2009 04:09 PM

Má onda? Caro Saboteur, as minhas observações são políticas e merecem respostas políticas.
Tu insistes amiúde neste tipo de aproximação personalizada do «deixa lá que ele até nem é mau tipo». Isso a mim, como sabes, impressiona-me pouco.
Quando se escrevem textos como o que tu postaste e se dá mostras de paternalismo para com pessoas cujas razões e argumentos não se compreende nem se procura compreender, está-se mesmo a pedi-las.
O que me surpreende são as reacções de desconforto sempre que existe uma crítica um pouco mais elaborada do que um sintético «não estou de acordo».
O que o teu camarada josé soeiro escreveu está a meio caminho entre uma caricatura e um conto infantil. Eu digo o que penso sobre o assunto e passo a ser o gajo bué sectário. Repara que não me chateia que alguém (incluindo o próprio) escreva algo a gozar com o que eu escrevi. Mas não, vem sempre esta moralzinha do «não digas isso que é chato». Pois eu acho que o que ele escreveu é bastante chato e digo-o.
E já agora, sim, chateia-me bastante a pose e o tom de quem interpreta «a revolta dos jovens» e se presta, com mais ou menos consciência e cinismo, a ser «o rosto de uma geração». Acho que mesmo que se diga que não é essa a intenção, a coisa resvala sempre para aí. E depois cada um sente-se mais ou menos confortável nesse papel.

Publicado por [Rick Dangerous] às janeiro 9, 2009 06:21 PM

E alem disso é significativamente mais bonito do que tu.

Publicado por [CavaleiroDaCapaCeleste] às janeiro 9, 2009 07:48 PM

Quem é que é mais bonito? Saboteur? Soeiro? Rick Dangerous?

Publicado por [Anónimo] às janeiro 9, 2009 07:54 PM

é interessante ver esta disputa do mercado "Grécia". Quem será o detentor da fiel tradução - militantes do bloco, autónomos, anarcas, outra coisa qualquer?

Publicado por [renegade] às janeiro 9, 2009 09:34 PM

Rick, as tuas observações são muita coisa, menos políticas. A não ser que consideres o insulto vazio uma nova forma criativa de discutir política.

Noto aí algum travo de despeito?

Publicado por [Ana] às janeiro 10, 2009 11:35 AM

Não posso deixar de dizer que achei este post do Rick extremamente delicioso!
És uma caixinha de surpresas!

E digam lá se o Soeiro não tem ar de Menino Tonecas, mas já crescidinho, e a tentar ensinar a estória aos meninos! lol

Publicado por [atir] às janeiro 11, 2009 07:10 PM

e se fossem para o caralhinho?

Publicado por [grega] às janeiro 12, 2009 12:38 AM

Tens razão Ana, de facto excedi-me. O Zé Soeiro deve ser um gajo fixe (dizem-me), embora os media do sistema geralmente o apresentem como um granda animal.

Publicado por [Rick Dangerous] às janeiro 12, 2009 04:09 PM

olha ai soeiro de meia tigela, vai mas é vender peixe ao teu patrao, o sr francisco louçã, que te manda expiar e tentar sacas votos dos anarquistas.
nao somos burros como voçes, votar............ nunca na vida. vai te tratar que estar a começar a ficar com borbulhas e manchas no corpo, sabes bem a que te refiro florzinha

acrata

Publicado por [ACRATA] às junho 3, 2009 12:00 AM

mas tanta importancia ao soeiro!!

só tem importancia que tem valor, nao me venham com tangas, descubram o que é a politica e dps falem . .
se fizessem alguma coisa de jeito tinham mais q fazer do que andar para aqui com conversas idiotas acerca do rapaz.

Publicado por [nico] às janeiro 22, 2010 03:58 AM

Acerca do José Soeiro, não poderei dizer grande coisa, pois não o conheço. Mas se ele for do mesmo "calibre" de muitos que povoam o Bloco...não deve passar de mais um trotskista enraivecido. O Bloco revelou-se uma autêntica desilusão. Talvez se salve o Fernando Rosas - por quem eu tenho um grande respeito, como pensador que é. O resto não passa de um bando de palhaços, que estão sempre prontos a deitar esterco na ventoinha, para ver onde irá cair.

Cumprimentos a Todos.

Publicado por [Sargento do Templo] às janeiro 23, 2010 12:42 AM

"Quando deixarmos de ouvir e de prestar a mínima atenção a estes partidozinhos bacocos, mesmo os queridinhos, que se fazem de progressistas e inovadores - as coisas mudam."

Oh amigo Ricardo, já há muito não lia comentário mais insensato quanto o seu.

Um politico dizia (por altura das eleições - e com toda a razão!) que nestas coisas [das eleições] só contava quem participava; quem se demitia de participar tinha de sujeitar-se à opinião de todos os outros, pois não manifestou a sua.

É bem verdade, caro amigo.

Para Vossa informação (caros amigos anarquistas) a Vossa atitude de desleixo é um autêntico doce para todos os politicos. Não façam isso, sejam interventivos.
Mais que os amigos, os inimigos são para manter por perto.

Cumprimentos a Todos.

Publicado por [Sargento do Templo] às janeiro 23, 2010 01:21 AM

Hey, good to find someone who aerges with me. GMTA.

Publicado por [Elida] às maio 26, 2011 06:31 AM

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