« Regozijo chauvinista | Entrada | Se a Federica Montseny e o Rui tavares tivessem um filho »

janeiro 14, 2009

Gaza, Resistência !

Dia 1 (27dez). Os bombardeamentos começam. Recebo dois ou três SMS que fazem apelo a uma concentração de urgência frente à Opera Garnier, Paris. Cerca de 400 pessoas reúnem-se para pedir um cessar fogo imediato a Israel.
Dia 2. Haaretz, um jornal israelita crítico à actuação de Israel, publica um artigo onde se avançam premissas de um ataque sem fundamentos. Qual rockets qual quê, Israel precisa de utilizar o seu arsenal militar após a frustração de não ter iniciado uma guerra com o Irão (lembram-se?), e por outro lado, aproveitar os últimos momentos da presença de Bush na Administração norte americana. Não vá passar o arsenal israelita fora da validade!
Dia 3. Chegam-me aos ouvidos, directamente traduzidas do árabe, histórias das perdas civis. Esse homem, que no meio da tragédia, consegue testemunhar de maneira quase irónica a morte de não só uma, nem duas, nem três, nem quatro mas todas as suas filhas, no total cinco.
Dia 4 (30 dez). A mobilização em França amplifica-se. Dia 30, milhares de pessoas consternadas mas não resignadas continuam a manifestar-se contra a inacção da parte da União Europeia, nomeadamente de Sarkozy, neste ataque. Não esquecer que os cofres franceses, em cada guerra que Israel provoca, ficam mais volumosos. Isto porque a França é um fornecedor de armamento a Israel.
Dia 5. Vou a Portugal com mais três amigas, duas dentre elas oriundas da Palestina. Uma palestiniana nascida em Nablus (Cisjordânia) outra definindo-se como Israelita da Palestina (nascida em Haifa). A viagem estava marcada antes de se conhecer as intenções de Israel. Portanto, de uma viagem que se queria de lazer passou-se a uma viagem onde a sede de informação estava continuamente presente. Imaginam-se a passear em Veneza e as vossas pessoas mais próximas em Portugal serem o alvo de bombas aleatórias? Esqueçam, Veneza nunca será Lisboa, Portugal nunca será a Palestina.
Dia 7 (3 Jan). Recebo um SMS de um camarada informando-me que a invasão por terra tinha começado. O ambiente das férias torna-se sombrio.
Dia 9. Por todo o lado por onde passávamos tentámos ver imagens. Com alguma má sorte, ou por ser esta a regra dos medias portugueses, umas das únicas vezes que tivemos acesso a uma reportagem sobre a situação do início ao fim, caiu-nos na rifa o nosso repórter da SIC em Israel. A primeira coisa que a Israelita salientou foi o facto dele ter um nome de origem judia. Tendo ela nascido e crescido numa família judia, este comentário não soa a anti semitismo: aqui está a nossa busca permanente de legitimação e do politicamente correcto em tudo o que toca o Estado de Israel e os judeus. De toda a maneira, o que ela queria relevar não era tanto se ele era judeu ou não mas a probabilidade do seu posicionamento político-jornalístico ser excessivamente parcial. Somos imediatamente bombardeadas com um filme ao qual este jornalista teve acesso sobre a fabricação artesanal das rockets. Aqui, é a palestiniana que intervém gozando com o ridículo da situação, onde os próprios resistentes fazem as suas próprias fardas. Dizendo, até me sinto envergonhada! Neste panorama, logo que tínhamos acesso à Internet, o site de Al-jazira era o primeiro a ser aberto, visto ser a única rede televisiva a estar presente no terreno.
Dia 13. Voltamos a Paris. Retorno à Acção!
Dia 15 (dia 10 jan). Grande manifestação organizada por vários movimentos, associações e partidos políticos. Reivindicações: fim imediato do massacre; levantamento total do bloqueio a Gaza; suspensão de todo e qualquer acordo entre União Europeia e Israel; sanções imediatas contra Israel; protecção da população de Gaza e de todo o povo palestiniano. O início da manif já tinha chegado à Nation (fim do trajecto) quando a cauda acabava de sair da Place de la Republique (inicio do trajecto). Segundo os organizadores cerca de 100 mil pessoas estavam presentes, segundo a polícia 30 mil. Em uníssono gritámos Palestina viverá, Palestina vencerá ou Israel Assassino, Sarkozy Cúmplice ou ainda, Sionismo Fascismo és tu o Terrorista. Enquanto as bandeiras de Israel eram queimadas, as bandeiras do Hezbolah e do Hamas eram içadas por alguns grupos, atraindo e concentrando a atenção das câmaras de televisão. Uma grande tensão se fazia sentir. Nas margens da manif podíamos tanto observar indivíduos a rezar na direcção de Meca em cima de bandeiras palestinianas, como observar grupos enormes de jovens vestidos de negro que corriam de um lado para o outro. Verdadeiros “Arrastões”, por onde passavam destruíam e partiam vitrinas, lançando garrafas aos CRS que se encontravam em massa para controlar os manifestantes. Um amigo que se encontra a fazer um estudo sociológico sobre o rap amador nos subúrbios tinha-me chamado a atenção sobre o tema das canções: mulheres, carros e Palestina. A fogo foi aceso, estes jovens dos subúrbios raramente vêm a Paris intramuros, mas aqui estavam eles presentes a canalizar a sua forte e eficaz mobilização em massa. Sinto-me incapaz e ilegítima para criticar a sua acção quando tenho algumas pistas sociológicas para compreender a raiz de tal violência.
Outro grupo chamou a atenção dos medias, os israelitas pelo boicote, grupo cujo a minha amiga ajudou a fundar. Este grupo desmente a ideia comum de Israel ser a única democracia no Médio Oriente, acusando Israel da falta de liberdade de expressão, nomeadamente e neste caso na interdição do acesso dos jornalistas à Banda de Gaza. Há dois anos que os jornalistas israelitas não são autorizados a entrar na Banda de Gaza. Este grupo dá o exemplo de Amira Hass e Shlomi Eldar que antes da ofensiva quebraram a interdição e fizeram várias reportagens em Gaza, tendo sido detidos a partir do momento que voltaram a Israel. Por outro lado, este grupo dá conta da repressão, detenções, investigações e ameaças a todos aqueles que se manifestam e protestam contra a ofensiva em Gaza na Palestina ocupada em 48, ou seja Israel. Mais de 550 cidadão israelitas foram detidos, sendo-lhes imputadas as acusações de provocarem distúrbios na ordem pública, o facto de erguerem bandeiras palestinianas e de afectarem a moral da nação.
No fim da manifestação, a Place de la Nation é completamente bloqueada por CRS, tornando-se já um clássico nas manifestações de carácter mais “perigoso”! Ou seja, quando chegámos ao fim do trajecto com o cortejo encontramo-nos num beco sem saída, numa verdadeira batalha campal entre gás lacrimogéneo, objectos voadores e muito mais!
Dia 16. Um amigo libanês propõe-me de traduzir para árabe o meu texto sobre a Palestina que meti ( aqui no Spectrum ). Com a situação em Gaza respondi-lhe que não sabia se teria muito sentido de o fazer agora uma vez que a minha experiência na Palestina não se equiparava às bombas que caem em Gaza. Ele respondeu-me de uma forma assertiva: porquê a Palestina unificada já não faz sentido para ti? Pois é, o quotidiano insuportável que experimentei na Cisjordânia é o resultado de uma resistência cruelmente aniquilada. A minha amiga palestiniana estava lá, em Abril 2002, em Nablus. Contava-me ela, com um brilhozinho nos olhos, que com os camaradas grafitou durante várias noites todos os muros da cidade o seguinte: “Nablus Vai Ser o Cemitério do Inimigo”, foram momentos de esperança. Agora também recordo que nesse mesmo Abril de 2002, andava eu a grafitar os muros de Lisboa com a sentença Sionismo = Fascismo. Com bombardeamentos aéreos, com uma invasão terrestre e centenas de mortos de Nablus a Jenin, a Cisjordânia é hoje aquilo que eu testemunhei: ( agora disponível em árabe e francês aqui ).
Por esta razão, mais do que nunca apoio tanto a resistência do Hamas como a resistência popular, tanto armada como pacífica, tanto islâmica com laica, tanto conservadora como progressista. O que está em jogo é a dignidade de um povo, o direito de um povo à independência. Pouca informação nos chega sobre a resistência nas ruas de Gaza, mas consta que existe uma verdadeira resistência popular. Crianças, jovens, mulheres queimam pneus de maneira a confundir as forças israelitas, camuflando os resistentes armados. Melhor morrer que viver sob o jugo colonial-fascista, diz-me a minha amiga com uma lágrima no canto do olho!
Dia 19. Hoje encontramo-nos no décimo nono dia de um massacre...

Publicado por [Shift] às janeiro 14, 2009 10:50 AM

Comentários

ah, ah, adorei o comentário dela à imagem pindérica que os resistentes dão de si próprios a coser as fardas à mão! Realmente, há coisas que dizem tudo...

Aqui as vozes dissonantes foram silenciadas nos principais meios de comunicação. Mesmo entre o pessoal crítico só tem voz, ainda assim, o pessoal que distingue entre os resistentes bons e os resistentes maus. Há um certo prurido, uma necessidade de apontar o dedo, de marcar distância, de ceder à linguagem do "terrorismo" e do "fundamentalismo"...Mais uma vitória para Israel.
beijos para todas

Publicado por [renegade] às janeiro 14, 2009 05:30 PM

Shoot, who would have thuoght that it was that easy?

Publicado por [Digger] às janeiro 19, 2012 06:10 PM

Comente




Recordar-me?

(pode usar HTML tags)