« 'Spectrum' concorre com 'Ladrões de Bicicletas' | Entrada | Todos os bairros »

janeiro 19, 2009

Exclusão social


Depois de ter sido anunciada em pleno debate da Pó dos Livros e sabendo-se perfeitamente o que estava em causa, a manifestação de Sábado na Amadora trouxe ao de cima o que parecia óbvio.
É muito mais fácil e proveitoso falar de uma revolta que acontece lá longe, na Grécia, do que de uma execução levada a cabo pela polícia num bairro dos subúrbios de Lisboa. É mais fácil ir a Atenas mostrar solidariedade com os "movimentos juvenis" do que fazer o mesmo na Amadora.
No Casal de São Brás uma concentração em frente à esquadra, contra a repressão e o cerco policial. Na Câmara Municipal da Amadora, uma iniciativa contra a exclusão social. Dir-se-ia que, medindo bem a importância de uma e de outra, pessoas que são contra a violência do Estado não teriam dificuldades em escolher onde estar. Mas parece que alguém fez essa escolha por elas e que ser conotado com uma manifestação que a comunicação social já havia catalogado como potencialmente violenta, passível de ser influenciada por «movimentos de outro tipo», seria um preço demasiado alto. A polícia já tinha avisado, pelo seu jornal oficioso, que ia aproveitar a concentração para intimidar ainda mais os moradores dos bairros pobres da zona. Ao fazê-lo, convidou a uma tomada de posição clara: deixar ou não aquelas pessoas entregues a si próprias, isoladas enquanto alvo fácil, catalogadas como perigosas, marginais, carne para canhão, alvo a abater, para que sejam sempre força de trabalho dócil, obediente e amedrontada?
Não se tratava, evidentemente, de ir ali assumir o protagonismo, a liderança ou qualquer outro tipo de paternalismo. O protesto foi organizado por um movimento enraizado naquela realidade e que demonstrou ter capacidade de sobra para se organizar e mobilizar, sem qualquer tutela ou controlo exterior. Mas marcar presença, apoiar, comunicar, mostrar que aquelas pessoas não estão sozinhas e que a sua luta diz respeito a muitos mais, é algo inestimável e que foi visivelmente apreciado e valorizado pelos organizadores. Até em termos de segurança dos participantes, o número não deixou de ser um elemento importante e dissuasivo de uma carga policial (como a que aconteceu em Almada sem que se tenha ainda percebido porquê). Mas é óbvio que não havia ali bom cenário para as declarações à comunicação social e que se podia gerar um «problema de imagem», para quem anda a negociar uma «alternativa de esquerda» e não pode arriscar alienar partes importantes do eleitorado.
Quem circulou naquele dia pela Amadora pôde assistir ao tipo de «segurança» providenciada pela PSP - o tipo de segurança que um exécito ocupante transmite aos ocupados. É pena que nenhuma das pessoas que por princípio são contra a violência e que nenhuma das pessoas que chegou à conclusão de que "Os pobres estão a pagar a crise", tenha por lá aparecido. A situação tinha tudo para tornar mais explícitas as suas posições e as consequências que delas resultam. Infelizmente, quem por lá passou procurou em vão por alguém da esquerda parlamentar, que ali estivesse para dizer alguma coisa de esquerda. Ou alguma coisa «inteligente». Ou alguma coisa.
Situações destas ajudam a esclarecer os termos do debate de 3ª Feira. Ele não se processa apenas entre dois tipos de posições políticas, ou de interpretações da história, ou de escolhas estratégicas, ou de preocupações morais. São dois mundos distintos, duas linguagens diferentes, dois modos de vida, duas gramáticas e duas cartografias que comunicam com dificuldade porque atribuem significados distintos ao real.
Onde uns vêem um acidente de proporções trágicas ou simplesmente mantêm um silêncio envergonhado, outros chamam-lhe uma execução sumária, mais um episódio da guerra silenciosa em curso nos subúrbios. Onde uns reclamam polícia de proximidade e patrulhamento regular, outros argumentam que a polícia já está demasiado próxima (o suficiente para disparar a 10 cm de uma cabeça) e que nenhum neologismo será suficiente para dissimular o que na prática não passa de um cerco policial.

Publicado por [Rick Dangerous] às janeiro 19, 2009 03:27 PM

Comentários

Passei eu por acaso e descontraidamente, pelo Casal de são Brás, não me passou pela cabeça que tinha decorrido à poucas horas esta manifestação. O que ouvi no Café no Super Mercado e até na loja do Chinês, foi medo conversas sussurradas, de quem é vitima de roubos e assaltos e vive com medo de determinados vizinhos, são trabalhadores e desempregados de todas as origens cores e idades. É estranho não é?

É lógico que tem que ser feita justiça pois mesmo um criminoso tem direito à vida e à recuperação.

Mas criticar que não há polícia e segurança e depois destruir a imagem desta e tomar um caso pelo todo não me parece correcto.
Para mais se esta manifestação fosse de trabalhadores despregados e teria sido reprimida sem piedade (o que é ilegal pois há direito à manifestação), uma concentração numa zona pedonal, em Almada, levou à agressão de vários cidadãos pelas bestas da polícia, alguma destas organizações se pronunciou? Por aqui se vê o carácter racista destas pois neste caso as vitimas eram de todas as cores. Mesmo aqui os cidadãos foram agredidos por polícias de choque e socorridos por polícias de trânsito, não d+a que pensar?

Quanto a determinadas organizações que apoiam um assassinado por ser negro mas que se fosse branco não mexiam um dedo acho que não têm razão de existir e são intrinsecamente racistas, temos que nos organizar para defender os Direitos Humanos de todos os habitantes deste cantinho quer sejam descendentes de Viriato de César de Augusto de Abdul ou acabados de chegar sem papeis e qualquer que seja a cor ou religião.

Além disso esta situação é muito complicada muito melindrosa tem que ser tratada com pinças e fundamentalmente com JUSTIÇA que é o que tem faltado e que leva a estas situações.

Publicado por [João] às janeiro 19, 2009 05:25 PM

Thanks for the inigsht. It brings light into the dark!

Publicado por [Jannika] às maio 26, 2011 02:04 AM

Comente




Recordar-me?

(pode usar HTML tags)