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janeiro 09, 2009

Diário de Atenas (director's cut).

Em Atenas nem todos os portuguese comrades são carinhas larocas que escrevem textos queridos e engraçados sobre as assembleias onde estiveram (ainda que o autor deste texto tenha sido já várias vezes descrito como portador de um semblante aristocrático).


Atena, homónima da cidade. Também ela tem um lado menos conhecido, mais sensual e sedutor.

"Batem as 12 horas de sábado, dia 3 de janeiro de 2009. Em frente à estação de comboio/metro de Petralona, bairro residencial próximo do centro de Atenas, pessoas com afinidades anarquistas vão-se juntando. Foi convocada uma manifestação de solidariedade com uma jovem trabalhadora e sindicalista do bairro de Petralona que foi vítima de uma agressão com ácido encomendada pelos seus patrões. A sua entidade patronal é uma empresa de limpeza contratada pela companhia que gere a linha de comboio/metro de Atenas, daí o local escolhido para o protesto. Por volta da uma da tarde, são cerca de três milhares, talvez um pouco menos, talvez um pouco mais, os manifestantes que se concentram no local designado e que iniciam a marcha de protesto. O percurso é simples e não passa por qualquer grande avenida ou praça de Atenas. Circunscreve-se ao bairro de Petralona, percorrendo as suas ruas e ruelas, mas sem nunca se afastar da estação. Entre os manifestantes predomina o preto das roupas, das bandeiras e das tintas com que se vão cobrindo as paredes do bairro com frases de luta. Não há muitas caras tapadas, apenas as dos que pintam e só quando existem câmaras através das quais é possível a sua identificação. Tirando nas bandeiras e os que são inscritos nas paredes, não se vêem símbolos anarquistas ou de qualquer outra espécie. O folclore iconográfico esquerdista não tem lugar entre este grupo que se desloca gritando palavras de ordem e acenando aos moradores que vêm à janela saudar os manifestantes. Petralona é um bairro de tradição de esquerda e um dos mais activos politicamente e talvez seja essa a razão que explica a afectividade com que os manifestantes anarquistas são recebidos. Às tantas, numa das ruas em que a manifestação seguia, pétalas de rosas são largadas por alguns moradores das suas varandas sobre os manifestantes que, por sua vez, respondem com palmas e sorrisos. Ao longo do trajecto pelo bairro houve apenas um momento de tensão. De um café, em cuja montra se escrevia qualquer coisa, saiu um homem, o proprietário talvez, com uma faca em riste, reclamando com os manifestantes. Imediatamente, alguns deles rodearam o homem, a ele se dirigindo com grande agressividade e veemência. Foi necessária a intervenção de outros manifestantes e de algumas pessoas que se encontravam no interior do café para que as coisas se acalmassem e o cortejo pudesse seguir o seu caminho em direcção à estação. Aqui chegados, as coisas mudaram rapidamente. Em poucos metros, passam a ser vários os koukoulofori, expressão que na Grécia se usa para designar o que no resto da Europa se vai chamando black block. A palavra grega tem uma romântica tradução literal para qualquer coisa como “encapuçados que se mexem”. Mas continuando. Passam a ser vários, quase todos, os manifestantes que se cobrem com capuzes, máscaras, gorros, cachecóis, etc.. As bandeiras passam para a frente e lajes do passeio são arrancadas e partidas, fornecendo armas de luta e arremesso aos manifestantes. Por esta altura, já as lojas fecharam e os donos e clientes se afastaram. Uma barricada é erguida numa das extremidades da rua que dá acesso à estação, sendo colocada entre os manifestantes e o corpo de intervenção da polícia que desde o início seguia de longe a manifestação mas que nesta altura se tentava aproximar. Feita a barricada e preparados que estão os manifestantes para enfrentar a polícia, passa-se à concretização da acção que os tinha reunido neste dia: o ataque à estação, propriedade da companhia que gere as linhas de comboio/metro de Atenas e onde tem actividade a empresa da trabalhadora atacada. A tensão é grande e às movimentações da polícia, respondem os manifestantes desafiando-a com palavras de revolta e um rufar sacado das bandeiras no chão, em contentores do lixo ou num gradeamento que ladeia a rua. Os manifestantes não recuam e a polícia não avança. Enquanto polícia e manifestantes se avaliam e controlam, um grupo destes entra na estação, munido de escadotes e outras ferramentas, para aí deixar a sua marca de protesto e revolta. A polícia, que consegue ver o grupo de manifestantes a entrar na estação, nada faz, limitando-se a aguentar a sua posição diante dos manifestantes e da barricada por estes levantada. Um confronto poderá ter consequências maiores e mais graves do que as que eventualmente resultarão do ataque à estação e a polícia parece fazer permanentemente essa avaliação. Em poucos minutos o grupo da estação está de regresso, manifestando aos que aguentaram o corpo policial o sentido do dever cumprido. A acção está concluída e agora resta seguir até ao local onde a manifestação deverá terminar, assegurando que ninguém fica para trás e é apanhado pela polícia que ainda se mantém à distância. Impressiona a capacidade de organização e o espírito de união dos manifestantes, condições que ajudam a explicar a dimensão e força da revolta que desde os primeiros dias de dezembro tem assolado a Grécia. Nesta parte final do percurso, as caras voltam a descobrir-se e as ferramentas usadas desaparecem sem disso se dar conta. A manifestação chega depois ao fim e os manifestantes rapidamente abandonam o espaço e se misturam entre os turistas e outras pessoas que circulam pelas movimentadas ruas de Atenas. Correu tudo conforme planeado. Não houve detenções e a estação ficou marcada por uma luta que veio para durar. Assim parece, pelo menos."

Publicado por [Party Program] às janeiro 9, 2009 12:06 AM

Comentários

Begun, the great inrtenet education has.

Publicado por [Katty] às novembro 5, 2011 07:11 AM

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