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janeiro 20, 2009

« A Segunda Morte do Judaísmo » by Eric Hazan*1

Com a cortesia e devido conhecimento do autor: tradução (francês para português*2) e publicação no Spectrum.

15 de Janeiro 2009
Os milhões de judeus que foram exterminados pelos nazis nas planícies da Polónia tinham traços comuns que permitiam falar de um judaísmo europeu. Não se tratava nem de um sentimento de pertença a um povo mítico, nem de uma religião uma vez que muitos deles se tinham afastado de tais definições: o que estava em jogo eram elementos de uma cultura comum. Esta cultura não se reduzia a uma simples receita de cozinha, nem às histórias veiculadas pelo famoso humor judeu, nem a uma língua na medida que muitos deles nem falavam o Yiddish. Era uma coisa mais profunda, comum e partilhada sob diversas formas tanto pelos operários das fábricas texteis de Lodz, como pelos polidores de diamantes de Anvers, como pelos talmudistas de Vilna, como pelos comerciantes de legumes de Odessa e ainda por certas famílias de banqueiros como a de Aby Warburg. Entre estas pessoas não haviam umas melhores do que as outras, no entanto elas nunca tinham exercido uma soberania estatal e as suas condições de existência não lhes oferecia exclusivamente como única saída o dinheiro e os estudos. Em todo o caso, eles desprezavam a força brutal, cuja sensação eles tinham tido inúmeras vezes a ocasião de saborear os efeitos.

Muitos deles engrossaram as barricadas dos oprimidos, participando nos movimentos de resistência e de emancipação da primeira metade do último século: é esta cultura que proporcionou a terra fértil ao movimento operário judeu. Desde o Bund polonês, engrenagem das revoluções de 1905 e 1917 no Império Czarista, até aos sindicatos parisienses de estofadores e chapeleiros, onde as bandeiras expunham divisas em Yiddish, oferecendo à MOI*3 tantos combatentes contra a ocupação. É neste terreno que cresceram as figuras emblemáticas do judaísmo europeu, Rosa Luxembourg, Franz Kafka, Hannah Arend, Albert Einstein. Depois da guerra, alguns dos sobreviventes e seus descendentes apoiaram as lutas de emancipação no mundo, os Negros americanos, a ANC*4 na Africa do Sul, os argelinos na guerra de liberação.

Todas estas pessoas estão mortas e ninguém as ressuscitará. Mas o que se passa neste momento em Gaza mata-as uma segunda vez. Muitos diriam que não vale a pena se enervar, uma vez que existem tantos precedentes: de Deir Yassin a Sabra e Chatilla. Penso ao invés que a entrada do exército israelita no gueto de Gaza marca uma clivagem fatal. Primeiro pelo grau de brutalidade, vejamos o número de crianças mortas queimadas ou esmagadas sob os escombros das suas casa: um cap foi ultrapassado, este acto deve levar, e levará um dia o Primeiro ministro israelita, o ministro da Defesa e o chefe do Estado-maior ao banco dos acusados do Tribunal de justiça internacional.

Mas a clivagem não é apenas a do horror e a do massacre em massa dos palestinos. Há dois pontos que fazem dos acontecimentos actuais o que adveio de mais grave no seio da população judaica desde Auschwitz. O primeiro, é o cinismo, a maneira aberta de tratar os palestinos como homens inferiores. Os panfletos lançados dos aviões anunciando que os bombardeamentos vão ser ainda mais mortíferos, sabendo que a população de Gaza não pode fugir, que todas as saídas estão bloqueadas, que não existe mais nada a esperar que a morte no escuro. Este género de jogo faz lembrar de maneira gélida o tratamento reservado aos judeus na Europa de leste durante a guerra, e sobre este ponto espero sem medo os gritos ruídosos das belas almas ultrajadas. A outra novidade, é o silêncio da maioria dos judeus. Em Israel, para além da coragem de um punhado de irredútíveis, as manifestações de massa são levadas a cabo pelos palestinos. Em França, nas manifestações do 3 e do 10 de Janeiro, enquanto o proletariado dos bairros populares estava presente, os gritos de revolta dos intelectuais judeus, dos sindicalistas, dos políticos judeus não chegaram quase aos meus ouvidos. Em vez de se sentirem satisfeitos com as burrices do governo e do CRIF*5 (“não se deixar levar pelo conflito”), é tempo dos judeus virem em massa manifestar com os “árabo-muçulmanos” contra o inaceitável. Não sendo assim, os seus descendentes perguntar-lhes-ão um dia “o que é que eles fizeram durante esse tempo”, eu não gostaria de estar no lugar deles na hora onde uma resposta se vai impor.

*1 Eric Hazan é escritor e editor (éditions La Fabrique (que o Rick Dangereux deve conhecer bem)). Ele foi igualmente o tradutor das obras de Edward Said.
*2 Responsabilizo-me por todas as imprecisões de tradução, e qualidade linguística!!!

*3 MOI - Main-d’oeuvre immigrée
*4 ANC – African National Congress
*5 CRIF – Conseil représentatif des institutions juives de France

Publicado por [Shift] às janeiro 20, 2009 04:05 PM

Comentários

Que belo texto.Penso poder transcrevê-lo pra o meu blog Tri-Nitrix

Publicado por [Jorge Nascimento Fernandes] às janeiro 20, 2009 11:46 PM

claro!

Publicado por [Anónimo] às janeiro 21, 2009 09:44 AM

BION I'm ipmressed! Cool post!

Publicado por [Teyah] às maio 26, 2011 12:23 AM

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