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dezembro 30, 2008

Vaticínios

Ora cá está novamente Saboteur no seu devaneio vaticinador. Desde Julho que não deixava sair de si a heteronomia arqui-pessoana de variante astrológica, demonstrando perante nós que a carta de tarot do cavaleiro branco não deixaria incólume o Presidente da República, esse senhor que sofre do mesmo síndrome da dupla personalidade e que passou a falar de si mesmo como "senhor presidente da república", numa espécie de magistratura ao estilo de master Yoda, bastando fazer substituir "força" por "estatuto dos Açores" para se perceber a mímese.

Publicado por [Joystick] às 04:32 PM | Comentários (6)

Safa!

Cavaco Silva fez uma "comunicação ao país" para rasgar as vestes. Pôs o seu ar mais grave e disse que «a Democracia sofreu um sério revés».

O que preocupa tanto esse grande democrata, esse homem "de raça", criador da teoria "ou eu ou o caos", da teoria das "forças de bloqueio", defensor acérrimo das maiorias absolutas como única forma de governar, o Primeiro-Ministro que mais desprezo demonstrou pela Assembleia da República?

São dois artigozitos no Estatuto dos Açores, que ando aqui a ver na net se compreendo quais são e ainda não descortinei... Parece que ele queria que fossem mudados, mas a Assembleia da República achou que não.

Nem no tempo de Cavaco, que tinha a RTP (única estação, na altura) sobre controlo directo do seu ministro para a comunicação social (Marques Mendes), que transmitia noticiários tipo Pravda, a Democracia sofreu tão graves revezes...

Cavaco, esse grande democrata, que geria as inaugurações de quilómetros de auto-estrada de uma forma que nem Jardim ousa fazer, que meteu o SIS nas reuniões de estudantes, que autorizou cargas policiais brutais, inclusivamente sobre manifestações de polícias, que se gabava de gastar apenas 3 minutos por dia com jornais e que disse com indiferença que tinha estado no Pulo do Lobo quando o Presidente da República da altura organizou o congresso "Portugal: Que Futuro?", diz que esta é «muito mais do que uma questão jurídico-constitucional». Trata-se de uma «questão de lealdade entre órgãos de soberania».

Eu acho que ele merecia que Sócrates lhe respondesse como ele em tempos respondeu a Mário Soares: «Devemos ajudar o Presidente da República a terminar o mandato com dignidade»

Publicado por [Saboteur] às 01:03 AM | Comentários (4)

dezembro 29, 2008

De GAZA a LISBOA, Resistência!

Manifestações nas agendas?

Publicado por [Shift] às 05:01 PM | Comentários (4)

Gaza: «Choque e Pavor»

É interessante notar que os comentadores israelitas, como a maior parte dos comentadores da imprensa ocidental, não assinalam a razão mais importante do falhanço do cessar-fogo de seis meses, que durou de 19 de Junho até 19 de Dezembro. Como nos confirmou Khaled Mechaal, chefe da comissão política do Hamas na semana passada, o acordo compreendia, para além do cessar-fogo, o levantamento do bloqueio de Gaza e um compromisso do Egipto em abrir a passagem de Rafah. Ora, não só Israel violou o acordo de cessar-fogo lançando um ataque que matou várias pessoas no dia 4 de Novembro, como os pontos de passagem não foram reabertos senão parcialmente, e o bloqueio foi mesmo reforçado nas últimas semanas. A população, que era largamente favorável ao acordo em Junho, exige hoje uma clarificação: ou a guerra ou a abertura incondicional dos pontos de passagem e o fim da chantagem permanente que permite a Israel matar lentamente à fome (e privar de cuidados de saúde) a população. Esta está certa quando acusa Israel, como relata o sítio Internet da Al-Jazeera em inglês: «Gazans: Israel violated the truce» (Mohammed Ali).

Lê o artigo complecto de Alain Gresh, aqui, no site do Le Monde diplomatique, edição portuguesa.

Publicado por [Saboteur] às 04:44 PM | Comentários (4)

dezembro 28, 2008

Não havia casa para voltar


"De noite, a minha mãe correu todas as casas e disse que de na manhã seguinte todos seriam levados para ser fuzilados, por isso, precisavam de estar preparados para resistir e fugir para a floresta.
Às quatro da madrugada, sob a vigilância dos polícias ainda sonolentos, as pessoas começaram a sair para a rua e a formar colunas de trabalhadores. Tal como fora combinado, muitos tinham debaixo das roupas machados, martelos, facas e barras de ferro. Os combatentes levaram as suas pistolas e automáticas. [...]
Este foi o início da rebelião. A polícia começou a invadir as casas fechadas e a confusão que se seguiu serviu de sinal. O primeiro a disparar contra um polícia foi Venia Rakhlenko, e então outros jovens imitaram-no. Ao verem os polícias caídos, as pessoas lançaram-se sobre os restantes. Foi como um detonador a explodir: ao ouvirem os tiros de pistola, os nossos franco-atiradores abriram fogo certeiro sobre as sentinelas das torres, os rapazes atiraram granadas para a casamata e abatiam com disparos de automáticas os SS que de lá saíam. [...]
Do ghetto saíram umas seiscentas pessoas, as restantes ficaram, ou seja, aqueles que se tinham trancado em suas casas desde o primeiro momento, e quando da torre abriram fogo e as ruas se cobriram de sangue, muitos dos que haviam saído voltaram a correr para as suas casas. E, é claro, também ficaram os aleijados, os inválidos, os doentes, os extenuados, os velhos e todos os que não podiam andar, pois não havia macas para os transportar. [...]
De repente as pessoas pararam. Ouviram o tiroteio atrás de si e viram as labaredas subindo para o céu. Era o ghetto a ser queimado e exterminado.
Sim, o ghetto ardia e era exterminado. É claro que os alemães podiam ter deixado isso para mais tarde, o ghetto não podia fugir, eles deveriam era lançar-se na perseguição dos fugitivos, mas a fúria e a sede de vingança foram mais fortes, e descarregaram o seu ódio sobre aqueles que tinham ficado. O pelotão das SS que chegara em camiões cercou o ghetto sublevado e procedeu ao extermínio ali mesmo, nas ruas. [...] Em poucas horas tudo havia terminado. O ghetto estava aniquilado, quase duas mil pessoas foram sepultadas na vala comum da clareira. Tiveram de exterminar os habitantes do ghetto nas suas próprias casas, o ghetto ofereceu resistência, cobrou um preço pela sua própria vida e foi varrido da face da terra. A sua derrota não figurou sequer na lista de cinquenta e cinco ghettos que conhecemos. Mas ele existiu, lutou e pereceu com honra.[...]
O ghetto foi extinto em Setembro de 1942, a guerra terminou em Maio de 1945. Poucos ficaram com vida daqueles que fugiram do ghetto: morreram em batalhas como guerrilheiros, ou posteriormente no exército, integrados em unidades regulares. E os que sobreviveram espalharam-se pelo país, pela face da nossa terra, quase ninguém voltou a casa, não havia casa para voltar."

Anatoli Ribakov, Areia pesada, pp.332-339

Publicado por [Rick Dangerous] às 08:22 PM | Comentários (13)

O preço


"Dizer que a questão era séria, que o problema era sério, era o mesmo que não dizer nada. Era uma questão insolúvel, um problema insolúvel.
Uma rebelião? Em todo o ghetto havia um total de vinte pessoas que sabiam, mais ou menos, manejar uma arma, um punhado de adolescentes contra tropas regulares. Onde se defenderiam? Em duas ruas? Nas casas de madeira? Bastava pegar fogo a uma casa e todo o ghetto arderia, com todos os seus habitantes.
Tentar fugir para a floresta? Como? Como podia uma caravana de três mil pessoas, uma multidão de fugitivos, romper os cordões de isolamento e de patrulhas, e atravessar um descampado? Mesmo admitindo a fantástica possibilidade de que conseguissem sair do ghetto e abrir caminho até à floresta, que fariam depois? Como alimentar as pessoas, mantê-las, defendê-las? O Outono estava a chegar, e depois dele o inverno.
Só havia uma solução: conformarem-se com a sua sorte, estenderem-se na vala ao lado dos filhos ou filhas, exporem a nuca a uma bala alemã sem oferecerem uma resistência desesperada mas digna, sem erguerem a mão contra os assassinos... Esta era a menos aceitável de todas as variantes. Em todas as outras só se perdia a vida, nesta perdia-se a vida a e honra.
De tal modo, seria uma rebelião seguida de fuga para a floresta. Era um objectivo irreal, mas sem objectivo não há acção. [...] Era um plano fantástico, desperado, mas não havia alternativa. Era um plano para morrer, mas para morrer com dignidade, era o preço que os habitantes do ghetto exigiriam pela sua morte e que os nazis pagariam com as suas vidas."

Anatoli Ribakov, Areia pesada, p.330

Publicado por [Rick Dangerous] às 07:59 PM | Comentários (0)

Não havia tempo


"O plano tinha sido alterado, não havia mais tempo para comprar armas. A acção de extermínio podia ocorrer a qualquer momento, e podia mesmo ser a última: a clareira na floresta comportaria tanto três como quatro mil pessoas, e noutros locais já tinham liquidado dezenas de milhares de uma só vez. Não havia tempo para comprar armas, era preciso apoderarem-se delas. [...] Os comboios eram descarregados nas plataformas, os vagões permaneciam parados nas vias principais, e as armasficavam amontoadas nos depósitos da estação por vários dias, às vezes uma semana. Contudo, a estação era guardada por unidades especiais, rodeada de torres com metralhadoras, e todos os pontos de acesso estavam bloqueados. Era impossível um ataque, mas tornou-se possível uma outra operação. [...]
Em suma, os rapazes apanharam os guardas a dormir e esfaquearam-nos nas suas camas antes que soltassem um pio. [...]Levaram seis metralhadoras portáteis MG-42, caixas com pentes de alas, quatro morteiros e várias caixas com latas de carne que casualmente se encontravam ali, carregaram tudo, subiram para os camiões e partiram a toda a velocidade. Segundo me contaram depois, toda a operação, desde o momento em que mataram a sentinela do corredor até que os camiões partiram, não demorou mais de quinze minutos. [...]
Não recaiu a menor sombra de suspeita sobre o ghetto. Ficava na cidade, no outro lado do caminho de ferro, longe dos depósitos, onde não havia judeus a trabalhar, e sobretudo os alemães não podiam admitir a ideia de que fossem capazes de realizar uma operação semelhante. Assim, grande parte dos polícias foi transferida para montar guarda na estação e na povoação ferroviária «infestada de guerrilheiros»; como resultado, a guarda no ghetto foi reduzida e o ghetto ganhou um curto mas precioso espaço de tempo, pois a acção de extermínio não tardaria."

Anatoli Ribakov, Areia Pesada, pp.320-322

Publicado por [Rick Dangerous] às 07:39 PM | Comentários (1)

A resistência


"É claro que não se encheram caixas e baús, não era fácil conseguir essas coisas depois de os alemães terem levado tudo, e o que não levaram foi trocado por comida. Mesmo assim, o meu avô logrou arrecadar alguns valores, que foram trocados por armas. [...] Como o ouro era pouco as armas também não eram muitas. As mais valiosas eram quatro metralhadoras schmeisser, de primeira, leves, com um pente de trinta e duas balas em lugar da caçoleta das armas soviéticas, algumas espingardas, pistolas e granadas... Era pouco para uma guerra contra Hitler, mas apesar de tudo tiveram um papel decisivo, pois foi com elas que os rapazes aprenderam a manejar armas, coisa que não sabiam fazer. [...] O Tio Gricha voltou ao ghetto uma terceira e uma quarta vezes. Ensinou os seus filhos Venia e Erik, e a minha irmã Dina, a usarem as armas, e eles depois ensinaram os outros. A resistência começa no momento em que uma pessoa pega numa arma."
Anatoli Ribakov, Areia Pesada, p.301

Publicado por [Rick Dangerous] às 07:10 PM | Comentários (1)

A fome


"Não há dúvida de que os alemães obtiveram grandes êxitos na guerra contra a população civil, nessa frente só conheceram vitórias, diante deles tinham adversários desarmados... Milhões de mortos... Nem todos eram valentes, mas houve também alguns heróis, cujos nomes não conhecemos ou quase não conhecemos. Mas, se falarmos do ghetto, o primeiro monumento deveria ser para as crianças, [...] Vivendo com cento e vinte e cinco gramas de pão por dia e cem gramas de ervilhas por semana, os habitantes do ghetto teriam morrido em três meses. Mas eles não morreram, tiveram de ser exterminados. A primeira batalha foi contra a fome, as crianças foram as primeiras a conseguir combatê-las e conseguiram vencer. Elas conheciam os sítios por onde podiam passar para as ruas vizinhas, conseguiam enfiar-se em qualquer fresta, removiam montes de lixo, roubavam os armazéns e as casamatas, assim como os camiões alemães, trocavam objectos por pão ou compravam-no quando tinham dinheiro, e traziam tudo para o ghetto, até à última migalha."
Anatoli Ribakov, Areia Pesada, p.294

Publicado por [Rick Dangerous] às 06:52 PM | Comentários (1)

A fundo e para sempre


"Contam que, na primavera de 1942, morriam diariamente no ghetto quinze a vinte pessoas, devido ao surto de disenteria. [...] Por esta altura, a meu ver, os nazis perderam, por assim dizer, a empolgação, o primeiro entusiasmo com os morticínios em massa, espancamentos, torturas e escárnio, e tudo isso passou a ser um hábito para eles. Nos primeiros dias tinham encontrado alguns milhares de pessoas, embora a maioria fossem mulheres, crianças e velhos, mas que eram fortes, saudáveis e cheios de vida e energia. Por isso, nos primeiros tempos, os alemães tiveram de se manter vigilantes e mostrar uma extrema crueldade para converter aquelas pessoas em animais de carga. O que agora tinham nas mãos não eram sete mil, mas pouco mais de três mil criaturas desnutridas, debilitadas, imundas, atónitas, esfarrapadas, congeladas, aleijadas, que mal conseguiam andar sobre a terra, a quem já não se podia chamar seres humanos. Estas criaturas estavam a morrer no ghetto e na floresta, curvadas até ao solo, e o pior é que, depois da acção de extermínio, sabiam-no com toda a certeza, conformaram-se com o seu destino, acostumaram-se à ideia de que poderiam morrer a qualquer momento, e morreriam sem protestar, sem necessidade de que desperdiçassem sequer balas com elas, cairiam com uma só chicotada. O objectivo fora alcançado, o regime de vida era observado automaticamente, o terror tinha sido inculcado nas pessoas a fundo e para sempre."
Anatoli Ribakov, Areia Pesada, pp.291-292

Publicado por [Rick Dangerous] às 05:59 PM | Comentários (1)

Quando a brutalidade começa a ser banal...

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Já não é notícia nem grande motivo de conversa... No meu curto passeio pela blogosfera, quando acordei, só o Arrastão (já agora digo bem, caramba!) e o 5 dias, mencionava o tema.

O governo de Israel achou muito aborrecido que uma organização do país que Israel ocupa tivesse lançado rockets artesanais contra vários alvos israelitas.

Os danos foram mínimos, mas este tipo de sublevações são sempre intoleráveis para o colonizador… logo, vai de bombardear mais uma vez Gaza.

Para que aprendam os que lançaram os rockets, para que aprendam os que viram lançar, os que ajudaram a fazer, os que sabiam que se estavam a fazer e nada disseram, os que não sabiam de nada mas que podem vir no futuro a querer também fazer alguma coisa contra a ocupação… é assim também desde sempre o raciocínio brutal de todos os ocupantes.

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Publicado por [Saboteur] às 05:09 PM | Comentários (1)

dezembro 27, 2008

Posicionamento lacrimógeneo

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O posicionamento dos revoltosos

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O posicionamento do bloco e do synaspismos

Publicado por [Chuckie Egg] às 08:55 PM | Comentários (4)

Queremos tudo

Sejamos realistas, o que se passa na Grécia tal como o que se passou no novembro Françês, ou até mesmo nas manifs anti-CPE, é díficil de ser incorporado por qualquer quadrante político. Por cá, aquilo a que o outro lado da barricada chama a extrema-esquerda, mais não faz que manter uma posição prudente típica de quem acha que o sentido de estado é o mínimo denominador comum de qualquer debate a que se possa dar o nome de democrático. A violência nem é o pior dos seus pesadelos, um motim nos banlieus não é nenhuma novidade desde há 20 anos, e Paris agora no final da noite de passagem de ano acordará com centenas de carros incendiados tal como tem sido ao longo das últimas duas décadas. Esta fuga, esta disparidade, entre o que a realidade grega demonstra e o que os partidos "à esquerda do possível" defendem, só me fazem lembrar outros tempos, em que a rejeição total da liderança do movimento pelos partidos e sindicatos foi determinante na elaboração de toda uma nova perspectiva organizativa, um novo construir o partido.

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O Bloco, na tentativa de acompanhar de alguma maneira os acontecimentos, tem feito umas notícias no esquerda.net. Acontece que uma delas não passou o crivo do critério editorial. No passado dia 20, foi convocada uma pequena manifestação de apoio aos guerreiros helénicos em Lisboa e algum ingénuo terá tido o desplante de tentar publicar isto

"na conjuntura histórica em que nos encontramos, de crise, raiva e bloqueio das instituições, a única coisa que pode converter o abalo do sistema em revolução social é a rejeição total do trabalho"

"Às caricaturas supostamente pacifistas dos meios de comunicação da burguesia (a violência é sempre inaceitável, onde quer que seja) apenas podemos contrapor gargalhadas: a sua dominação, a dominação dos espíritos tranquilos e do consenso, do diálogo e da harmonia, não é mais do que um bem calculado prazer da bestialidade"

Na verdade, procurando no site esquerda.net pela manifestação do dia 20, apanhamos com esta bonita frase:

"Não possui permissões para aceder a esta área do site.
É necessário efectuar a sua autenticação para entrar. Se já tinha efectuado a autenticação, a duração da sua sessão terá terminado. Volte à Página Principal e efectue de novo a autenticação. Obrigado"

A marcha pelo emprego segue dentro de momentos.

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Publicado por [Chuckie Egg] às 06:22 PM | Comentários (8)

Como se organiza uma insurreição

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What other motivations, besides anger against the police and the economy, do you think are driving people to participate?
The personal and collective need for adventure; the need to participate in making history; the chaotic negation of any kind of politics, political parties, and “serious” political ideas; the cultural gap of hating any kind of TV star, sociologist, or expert who claims to analyze you as a social phenomenon, the need to exist and be heard as you are; the enthusiasm of fighting against the authorities and ridiculing the riot police, the power in your heart and the fire in your hands, the amazing experience of throwing molotovs and stones against the cops in front of the parliament, in the expensive shopping districts, or in your small silent town, in your village, in the square of your neighborhood.
Other motivations include the collective feeling of planning an action with your best friends, making it come true, and later hearing people tell you about this action as an incredible story that they heard from someone else; the enthusiasm of reading about some action that you did with your friends in a newspaper or TV program from the other side of the planet; the feeling of responsibility that you have to create stories, actions, and plans that will become global examples for the future struggles. It is also the great celebrative fun of smashing the shops, taking the products and then burning them, seeing the false promises and dreams of capitalism burned in the streets; the hatred for all authorities, the need to take part in the collective ceremony of revenge for the death of a person that could have been you, the personal vendetta of feeling that the police have to pay for the death of Alexis across the whole country; the need to send a powerful message to the government that if police violence increases, we have the power to fight back and society will explode—the need to send a direct message to society that everyone has to wake up, and a message to the authorities that they have to take us seriously because we are everywhere and we are coming to change everything.
So the 20,000 anarchists in Greece started it, and continued it when everybody else returned to normality. And we have to mention that the fear of returning to normality helped us to keep up the fight for ten days more, putting ourselves into great danger as acts of vengeance for the assassination of our comrade transformed, in our fantasies, into preparations for a general strike. Now European society knows once and for all what a social insurrection looks like, and that it is not difficult to change the world in some months.
But you need all the people to participate and play their roles. The young people of Greece sent an invitation to all the societies throughout Europe. We are awaiting their responses now.
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Publicado por [Rick Dangerous] às 03:32 PM | Comentários (9)

dezembro 26, 2008

Rói-te de inveja coca-cola

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Publicado por [Rick Dangerous] às 05:28 PM | Comentários (2)

Poesia de rua #47

...Ou fui passar o natal a casa da minha avó (uns são "filhos adoptivos da classe operária" e outros, como eu, são netos legítimos) a Sacavém e levei a máquina fotográfica.

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Publicado por [Saboteur] às 12:07 AM | Comentários (6)

dezembro 24, 2008

Oldies Goldies #5

Publicado por [Rick Dangerous] às 03:34 PM | Comentários (2)

Oldies Goldies #4 Natal das prisões

Publicado por [Rick Dangerous] às 03:32 PM | Comentários (1)

Oldies Goldies #3 Natal dos hospitais

Publicado por [Rick Dangerous] às 03:30 PM | Comentários (2)

Oldies Goldies #2

Publicado por [Rick Dangerous] às 03:15 PM | Comentários (1)

Oldies Goldies #1

Publicado por [Rick Dangerous] às 03:09 PM | Comentários (1)

dezembro 23, 2008

feliz natal

Publicado por [Party Program] às 08:29 PM | Comentários (5)

O que vemos e o que esperamos

Texto de apoio à insurreição grega traduzido para português pelo resistir.info. O original em inglês, publicado pelo site de notícias da Monthly Review, pode ser lido aqui.


Queremos antes de mais nada dizer um sim colectivo ao levantamento na Grécia. Somos artistas, escritores e professores conectados neste momento por amigos e compromissos comuns. Estamos globalmente dispersos e estamos a observar, com esperança, de longe. Mas alguns de nós estão em Atenas e têm estado nas ruas, sentiram a fúria e o gás lacrimogéneo, e vislumbraram o espectro do outro mundo que é possível. Não clamamos por nenhum direito especial a falar e a sermos ouvidos. Ainda assim, temos algo a dizer. Pois isto é também um momento global para falar e partilhar, para ter esperança e pensa em conjunto...

Ninguém pode duvidar que o movimento de protesto e ocupação que se espraiou por toda a Grécia desde o assassinato pela polícia de Alexis Grigoropoulos em Atenas, a 6 de Dezembro, é um levantamento social cujas causas são mais profundas do que o obsceno evento que o desencadeou. A fúria é real e é justificada. As ruas cheias, as greves e manifestações, as escolas, universidades, municipalidades e estações de televisão ocupadas refutaram as primitivas tentativas oficiais de descartar a explosão social como o trabalho de um pequeno número de "jovens" em Exarchia, Atenas ou outros lugares na Grécia.

O que falta ver é se o movimento que agora emerge tornar-se-á uma força política efectiva – e, se o conseguir, se será contido dentro de um horizonte liberal-reformista ou objectivará uma transformação social e política mais radical. Se o movimento tomar o caminho liberal-reformista, então o máximo que pode ser esperado será a substituição de um partido corrupto no poder pelo seu corrupto competidor, acompanhado por umas poucas concessões simbólicas embrulhadas na retórica vazia da democracia. Isto certamente seria a cortina de fumo para uma onda reaccionária de novos poderes repressivos mascarados como medidas de segurança. Só exigências radicalmente democráticas e emancipatórias, claramente articuladas e resolutamente combatidas, poderiam impedir este resultado e abrir espaço para uma ruptura num sistema global destrutivo de dominação e exploração. Como nos alinhamos entre aqueles que experimentam este sistema como a negação violenta do espírito e potencial humanos, só podemos saudar uma tal ruptura como uma reafirmação da humanidade em face de uma política repressiva de medo.

Ao observar os acontecimentos na Grécia e o discurso oficial e dos media corporativos que se desenvolvem em resposta a eles, notamos a emergência do que começa a parece como um novo consenso da elite. A "perturbação violenta" na Grécia, dizem-nos com frequência crescente, é a revolta da "geração 700-Euro" – isto é, de jovens educados excessivamente com poucas perspectivas de uma posição decente e de rendimento. A solução, segundo este conto, é revitalizar a sociedade grega através de mais ajustamentos estruturais para tornar a economia mais dinâmica e eficiente. Uma vez que todos estejam convencidos de que serão bem vindos e integrados na realidade do consumidor e premiados com poder de compra proporcional ao seu investimento educacional, então as condições desta "revolta" terão sido eliminadas. Em suma, tudo estará bem e toda a gente feliz, uma vez que alguns ajustamentos tenham tornado o capitalismo na Grécia menos desperdiçador dos seus recursos humanos.

Já vimos esta estratégia antes, em resposta aos levantamentos nos subúrbios de Paris e em torno das "reformas" CPE [1] em França vários anos atrás. Na verdade, desde a década de 1960 isto tem sido a estratégia perene e preferida pelo poder para todos os levantamentos que se mostram relutantes em desaparecer de imediato. As suas funções são claras como cristal: canalizar o movimento neutralizando-o numa direcção liberal-reformista e provocar divisões por meio de iscos e promessas. Aqueles que não morderem o isco são isolados e podem seguramente ser alvo da repressão.

Esperamos que os que estão nas ruas e todos aqueles que com eles simpatizam e os apoiam fora da Grécia perceberão esta estratégia e a denunciarão. Estamos certos de que há muito mais em jogo, e muito mais a ser imaginado, esperado e combatido do que está a ser oferecido pela pílula sonífera neoliberal. E eperamos que, no espaço aberto pela fúria real e pela coragem do povo que deixou a passividade e a desesperança para trás, este movimento social organizar-se-á numa força política durável capaz de desdenhar tais seduções recuperativas.

À luz do exposto, declaramos abertamente que:

1) Estamos comovidos pela coragem e humanidade daqueles que reitieradamente encheram a ruas e estão agora a ocupar escolas e campus universitários em Atenas, Tessalonica, Patras e cidade por toda a Grécia. A nossa solidariedade para com eles não será abalada por tentativas oficiais para dividir o movimento entre "bons" e "maus" protestários. Face ao assassinato pela política de um jovem de 15 anos – apenas o mais recente numa longa série de tais assassinatos por responsáveis do estado – e em face da triturante desumanidade e implacável militarização da vida diária sob a guerra capitalista de todos contra todos, a destruição da propriedade privada não nos inquieta. Para sermos claros: Não endossamos a violência cega; de facto queremos que as acções se tornem mais selectivas, mais políticas, a cada dia. Mas sabemos quão desagregadora pode ser a fixação sobre a "violência" dos protestatários em momentos como este. Assim, recusamos avançar com tentativas de isolar certos grupos. Aqueles que actuam com tal roteiro permitem-se serem utilizados de um modo que entrega outros à repressão directa.

2) Apelamos à imediata libertação e amnistia incondicional para todos aqueles presos que participaram no levantamento – mais de 400 pessoas no momento em que isto se escreve.

3) Rejeitamos todas as tentativas de trivializar este levantamento reduzindo-se à revolta da excessivamente educada "geração 700-Euro".

4) Rejeitamos categoricamente qualquer tentativa de manchar este levantamento com a etiqueta de "terrorismo". O único terror de que é apropriado falar aqui é o terror em curso do estado infligido sobre os autonomistas de Exarchia, sobre imigrantes, sobre os pobres e vulneráveis e sobre aqueles que se recusam a conformar-se e submeter-se às negras e violentas condições da normalidade capitalista. Condenamos qualquer tentativa, agora ou no futuro, de aplicar draconianas leis "anti-terrorismo" e medidas contra aqueles que participam neste movimento.
Brett Bloom (Urbana)
Dimitris Bacharas (Athens)
Rozalinda Borcila (Chicago)
Peter Conlin (London)
Alexandros Efklidis (Thessaloniki)
Markus Euskirchen (Berlin)
Nathalie Fixon (Paris)
Bonnie Fortune (Urbana)
Kirsten Forkert (London)
John Fulljames (London)
Jack Hirschman (San Francisco)
Antoneta Kotsi (Athens)
Isabella Kounidou (Nicosia)
Henrik Lebuhn (San Francisco)
Ed Marszewski (Chicago)
Jasmin Mersmann (Berlin)
Anna Papaeti (Athens)
Csaba Polony (Oakland)
Katja Praznik (Ljubljana)
Gene Ray (Berlin)
Tamas St. Auby (Budapest)
Gregory Sholette (New York)
G.M. Tamás (Budapest)
Flora Tsilaga (Athens)

[1] CPE: Contrat première embauche, Contrato de primeiro emprego

Publicado por [Manic Miner] às 12:47 PM | Comentários (1)

dezembro 22, 2008

Coerência?

O PÚBLICO de ontem, no "sobe e desce", mete Pacheco Pereira "a subir", por causa da sua "coerência entre o discurso e a prática", no caso de Lisboa e do candidato do PSD.

Coerência, coerência, era não votar em Santana Lopes. Não era fugir com o recenseamento para outro concelho.

Aliás, na minha opinião, mudar o recenseamento eleitoral ao sabor das conveniências do momento está mais entre a “fraude” e a “chico-espqertice” típicas das bandas políticas onde Pacheco Pereira foi fazendo a sua carreira, do que próximo de "coerência".

No meu “sobe e desce”, meto mais uma vez o PÚBLICO a descer.

Publicado por [Saboteur] às 03:54 PM | Comentários (2)

Uma revolta do tamanho do planeta


Mapa mundo da solidariedade com o movimento grego.

Publicado por [Rick Dangerous] às 02:56 PM | Comentários (1)

De resistente para resistente


Declarações de Manolis Glezos, o homem que retirou a bandeira nazi da Acrópole em 1941: "O que está a acontecer nos últimos dias é uma resistência guiada pela joventude" Exarchia LX

Publicado por [Rick Dangerous] às 02:12 PM | Comentários (1)

De vitória em vitória...



«Sindicato garante que adesão à greve do pessoal de manutenção da TAP é superior a cem por cento»

Via Womenage a trois

Publicado por [Saboteur] às 02:37 AM | Comentários (3)

dezembro 21, 2008

Partir uma montra

O Daniel substituiu o parágrafo onde afirmava que os grupos violentos quase tinham destruido o movimento alterglobal por uma explicação mais alargada.

"Neste caso, como nas manifestações do movimento alterglobal, a violência de pequenos grupos é uma escolha, uma estratégia de comunicação de quem desistiu, ou não tem força, ou não tem capacidade de fazer política de outra forma. Em muitos casos tapam a cara e não se importam que sejam outros a responder perante o povo pelos seus actos. Ou, pior ainda, é puramente lúdica. Para partir uma montra basta uma pedra. A política que muda exige muito mais. Trabalho de sapa, de unidade, de argumentação. Sim, agora digo eu, não é um chá dançante."

Eu começo por dizer que do movimento "alter"global sei muito pouco. "Alter" foi um prefixo que a esquerda contigua ao Daniel escolheu para tentar limpar algumas conotações negativas destas mobilizações. Não creio que em algum momento tenha sido consensual um nome para o que se passou mas por facilidade de manejo uso e sempre usei "antiglobalização" ou "no-global". Dizer "Alterglobalização" é meramente cretino. Digo também que o que está em discussão não é uma posição de repúdio à violência mas a sustentação desta posição especifica.

Gostava de informar também que para partir uma montra não basta uma pedra. São necessárias pelo menos duas, uma para por o vidro plástico a vibrar e outra que atinja um ponto diferente por onde se romperá o vidro.

Repito que o Daniel ou é ignorante ou ardiloso. Os grupos "violentos" neste contexto, e em outros, nunca foram pequenos, principalmente porque a violência nunca foi sequer feita por "grupos" isolados. Sei que é uma história antiga da qual me dá preguiça falar mas veja-se qualquer um dos documentários amplamente disponíveis sobre Génova e como o grosso da violência ocorreu quando a policia pressionou a manifestação dos Tutti Bianchi e da Rifondazione e estes tiveram de responder para não serem massacrados. Isto não é uma fantasia revolucionária: veja-se o documentário feito a partir do que foi apurado em tribunal e os não poucos militantes da rifondazione a mandarem calhaus à policia, à revelia de muitos dos seus dirigentes. Há obviamente grupos cuja mobilização é exclusivamente motivada pelo confronto, de modo mais ou menos discutivel, mas é algo absurdo pensar que se esgotam nisso. Duvido muito que o Daniel se tenha sequer alguma vez cruzado com alguém que esteja organizado nesse modo.

A questão da identidade é antiga e acho desnecessário voltar a decorrer sobre ela. Que o Daniel a ponha nestes termos de "deixar que outros respondam por eles ante o povo" é extremamente pueril. Repito o básico: a policia tira fotografias e tira-as preventivamente, eu não quero que a minha actividade politica possa ser usada contra mim. O facto de o daniel assinar daniel e o rui assinar rui não lhes confere uma grama mais de dignidade discursiva do que eu assinar Party Program ou outros Rick ou Saboteur. Pensar que é uma especificidade cidadã que legitima uma opinião é algo bastante autoritário, aliás o nervoso miudinho que aflige quem se insurge contra esta prática é uma clara expressão das origens políticas dessa esquerda manhosa. Tal como o é pensar enquanto bárbara qualquer pessoa que não se expresse politicamente através de um reportório civico artificialmente consensual entre os poderes democráticos institucionalizados. Quando o Daniel assume que há quem atire um pedra por motivos meramente lúdicos mostra a tacanhez da sua reflexão e o profundo conservadorismo que a anima. Imaginamos que a missão do Daniel seja evangelizar os danados desta terra com instituições capazes de lhes resolverem os problemas. Felizmente não há muita gente que o leve a sério.

O Daniel termina com um dos meus modelos de danielada preferido: O de dizer uma enorme banalidade como se fosse um discurso do Martin Luther King: a politica faz-se com trabalho. Dêm-lhe um nobel pá.

Há toda uma geração de militantes de esquerda em Portugal cuja formação politica foi feita intimamente ligada ao PCP e ao PSR/BE, em parte porque não havia grande alternativa, e cujas vistas curtas sempre os impediram de sequer tentar perceber outros modos de actividade politica não organizados a partir das instituições. Não era preciso terem ido longe, aquilo que descobriram existir com o movimento no-global já existia há mais de 30 anos em Espanha, em França, na Alemanha, em Itália. Provocou no entanto em certos elementos uma cegueira voluntária, tingida de um certo tom de superioridade moral e intelectual que no fundo é só provincianismo. Quando o Daniel afirma que quem arremessa pedras à policia não têm qualquer sustentabilidade teórica ou construtiva fecha aos olhos a todo um mundo que em Portugal é algo subterrâneo mas que por exemplo em Itália e em Espanha tem muito mais força politica do que os amiguetes do BE.

Não sou o único a achar tudo isto, e quem o acha felizmente é capaz de o expor de modo bastante mais interessante do que eu, para além disso tem um nome a sério e não é um ilustre desconhecido. Até que enfim que alguém tem a coragem de afirmar o óbvio e chamar boçal a DO. Carlos Vidal no 5 dias

Publicado por [Party Program] às 09:50 PM | Comentários (15)

Viver com a guerrilha


Pensei comentar o texto do Daniel Oliveira acerca do que se passa na Grécia e, por arrast(a)o, sobre a violência política. Acho que, tal como o debate abaixo com o Rui Tavares, há todo o interesse em trocar ideias e argumentos sobre o assunto. Simplesmente, ao ler o texto do Daniel, veio-me constantemente à cabeça um texto de Lúcio Castellano, um autónomo italiano, acerca do tema. Fiz uma tradução apressada e, aqui e ali, um pouco roufenha, mas acho que serve. É de 1978, o que só vem reforçar a ideia de que se recomeça agora o que então ficou suspenso. Está reproduzido na íntegra abaixo, mas ficam aqui alguns excertos para dar uma ideia. O original italiano está disponível aqui.

"Erodir a distinção entre paz e guerra significa colocar-se no terreno da crítica do Estado, colocar em causa os princípios da legitimação do poder político que afirma, de facto, uma distinção entre «Estado» e «sociedade», «público» e «privado», «geral» e «particular». Enquant o interesse geral se apresenta armado, os interesses particulares confrontam-se segundo as leis que governam a paz. O armamento do Estado garante o desarme da sociedade; o facto de uma parte da sociedade – o aparato repressivo e militar – se erguer enquanto corpo separado e funcionar segundo as leis da «guerra», garante que o resto da sociedade viva na «paz». E «paz» quer dizer apenas que a «guerra» se tornou um negócio particular, de alguns homens que dele vivem (polícias e militares), ou daqueles momentos particulares em que estes homens particulares tomam o comando sobre todos os outros, demonstrando com factos que – sendo eles o garante da paz de todos – também a governam e são a sua parte dirigente. A guerra garante a paz, a sua ameaça conserva-a no interior dos Estados ou nas relações entre Estados; na distinção entre paz e guerra parece fundar-se, na cultura política ocidental, o conceito de Estado. [...]
A distinção entre «guerra» e «paz» impõe a definição da violência em termos de categorias e, fazendo dela a ocupação particular de um grupo de homens particulares, anula as suas ligações com outras formas do agir e da comunicação social: a «violência» apresenta-se não por aquilo que é – um aspecto de todas as actividades humanas no interior da relação de Capital, presente em todas as formas de expressão e de comunicação, onde inscreve o signo da relação de poder – mas antes como uma actividade a par das outras, especializada e monstruosa, que a todas chantageia.
Toda a relação de poder tem a sua face militar, e cada relação humana é, na sociedade capitalista, relação de poder: é por isso que a máquina de guerra escava as suas raízes nas relações de paz, e a violência que as domina constrói a sua representação geral na «infinita potência destrutiva» do Estado moderno. O aparato repressivo, com os seus especialistas da guerra, é a síntese da violência que domina as relações sociais, e é a garantia armada da sua reprodução: para que o trabalho assalariado não se revele enquanto violência, a violência apresenta-se como um trabalho ao lado dos outros; para que o trabalhador não descubra estar emerso na violência quotidiana, esta apresenta-se-lhe como profissão de um outro «trabalhador», o polícia. Recolocar de pé este mundo invertido significa expor a violência oculta na vida quotidiana e enfrentá-la por aquilo que é, sem ceder à chantagem do terror, atacando a sua máquina para a sabotar: significa aprender a utilizar a violência, para não a delegar, para não ser por ela chantageado; aprender a reconhecê-la, ou a viver com ela. [...]
O movimento destes anos não foi insurrecionalista ou militarista porque não foi pacifista, porque não respeitou a sucessão da paz que prepara a guerra ou o seu aparato - o seu exército ordenado - e a da guerra que prepara a nova paz, porque não viu a violência concentrada na hora x do ajuste de contas – a cega, desumana e abstracta violência dos exércitos -, mas viu-a utilizada e difusa ao longo de todo o arco da luta política de libertação. [...]
Crítica da política é por isso também a crítica da dicotomia guerra/paz. A paz de que falamos é a paz da democracia, e a violência que usa é «violência legítima», que a maioria delegou às instituições do Estado: criticar esta violência quer dizer criticar o princípio mais desenvolvido da legitimação política, a democracia. Porque o problema da legitimidade é o problema da maioria, e o problema da maioria é o das instituições em que se exprime, ou seja do Estado: «maioria» e «minoria» pertencem ao universo do pensamento político, disputam o comando sobre o «interesse geral»., vivem da separação entre entre «público» e «privado», de Estado e sociedade, escavam as suas raízes no interior das relações de dominação que impõem aos homens confrontar-se como quantidade. A maioria constitui-se para administrar o poder: quanto mais o poder se encontra concentrado mais pode a maioria, menos pode o indivíduo; quanto mais rico é o «público», o «interesse de todos», mais pobre e expropriado é o «privado», mais desprovido, privado de expressão, é o interesse de cada um. A democracia é, simultaneamente, o máximo desenvolvimento do poder estatal, o máximo momento de concentração de poder político, o lugar do incontrastado comando do princípio de maioria: a questão não é o facto de no Estado moderno existir pouca democracia, ou de não serem respeitadas as minorias mas – pelo contrário – o facto de ser conduzida uma luta de morte contra tudo aquile que não se exprime nos termos de maioria ou minoria, que não se exprime em termos de poder e de gestão. É por isso que por todo o lado o movimento de libertação comunista é fora da lei: porque se coloca fora do código democrático, e este código define de modo exclusivo o universo da política. A crítica radical marxiana da democracia identifica as categorias que fundam a luta de morte entre democracia e comunismo, entre poder democrático e libertação comunista. O resto são misérias, brincadeiras para crianças."

Viver com a guerrilha (1978)
I
O ano passado, em Inglaterra, foi publicado um estudo interessante: alguns técnicos de estatística ordenaram as diferentes profissões segundo a duração média de vida dos que as desempenham. Resulta daí que os mineiros são os que vivem menos e- segundo uma escala que vai do trabalho manual ao intelectual – no final vêm os professores, os advogados e os políticos. É uma observação, em parte banal, que seria necessário porém fazer aos improvisados elogiadores do trabalho manual, e que erradamente tem permanecido fora do debate em curso acerca da democracia, da violência e da morte, e logo acerca do corpo e das necessidades, o pessoal e a vida quotidiana. Para ser ácidos, poderíamos colocar a questão nestes termos: é fundamentado o risco de que Colletti tenha uma vida mais longa do que a vasta maioria dos seus estudantes. Dá que pensar.
Mas é melhor retomar o problema desde o início, nos termos em que foi colocado. O movimento de 77 assistiu à emergência prepotente de uma categoria central – a fisicidade, o corpo, as necessidade, os desejos: ou seja, o indivíduo. Com o indivíduo, subiram à ribalta as diferenças e as particularidades, que procuram definir o seu lugar dentro de um processo colectivo de libertação. A crítica da política – entendida como o processo que iguala os homens na abstracção do Estado, isolando-os na sua diversidade concreta, contrapondo-se a cada um destes como «interesse geral» que os domina – é a imagem sintética desta passagem.
Atrás de nós estão, ainda, a reavaliação da vida quotidiana concreta contra a abstracção totalitaria dos «grandes ideais»; a recusa da subordinação do presente ao futuro; a reivindicação da materialidade da própria existência; o ódio pelos sacrificios, pelo heroísmo e pela retórica. Não é importante traçar aqui a genealogia deste imediatismo: o contributo operário, radical e igualitário, do «tudo e agora», e o papel fundamental do movimento de libertação da mulher; é essencial - neste discurso – a ruptura, e não a continuidade, o facto de pela primeira vez este bloco temático se tornar o ponto de agregação, o momento de identidade de um sujeito político articulado e potente.
II
O sujeito geral explorado
São estes os termos da questão que inovam profundamente o debate acerca do Estado e da política, a revolução e a guerra, o processo de libertação e as necessidades. Existe um nó, porém, que devemos compreender preliminarmente, para compreender quantas banalidades entediantemente ressuscitadas, quanto catolicismo arrogante, puderam emergir de uma base tão rica, de premissas tão subversivas: porque razão um percurso misterioso, no decurso de poucos meses, fez deste conjunto de temas o terreno de fundação de uma voluntária cultura da marginalização, de uma linguagem de pequeno grupo, repetitivo, petulante e barroco, a linguagem que fez da «exclusão» uma profissão de fé.
Houve uma remoção inicial, e é necessário ter noção desta: não é verdade que entre o movimento de 77 e as cartas a «Lotta Continua» exista um fio simples e directo de continuidade: existe, vice-versa, uma selecção, um filtro político preciso e determinante. O movimento de 77 não foi, socialmente, um movimento dos marginalizados e nem sequer – no sentido estrito – de «não garantidos»: compunham-no camadas relevantes de trabalhadores dos serviços, de técnicos e empregados, de jovens trabalhadores das pequenas fábricas e estudantes , de trabalhadores a tempo parcial e desempregados, e possuía uma ligação estreita, temática e política, com o movimento de luta das mulheres. Um sujeito social unido pela sua exterioridade relativamente aos mecanismos de cooptação do sistema dos partidos, mas bem inserido nos processos de produção e reprodução da riqueza social, fortemente envolvido com o conjunto do tecido social e de classe no nosso país: a exterioridade deste sujeito político relativamente ao sistema dos partidos não é interpretável como marginalização mas como debilidade profunda do aparelho político e institucional do «elo Itália».
III
Contra a falsa consciência dos marginais
A temática da marginalização não foi uma identidade natural para este movimento; foi o produto extenuante de uma gestão política que embotou a radicalidade dos problemas difíceis que se colocaram, que reconduziu a emergência de novos temas ao esqueleto das velhas ideologias, que na substância dividiu o movimento isolando-lhe uma componentes, reduzindo o problema da sua identidade enquanto sujeito político ao da identidade social de uma das suas componentes.
Desse modo, a crítica da política perdeu a amplitude que lhe teria permitido ser também crítica prática do poder e do Estado, para reduzir-se a uma prática de exclusão de um e do outro; e a emergência do individual e do quotidiano no processo colectivo de libertação foi remetida para o ghetto garantista do «deixem-nos viver», para a busca de espaços marginais, enquanto o problema da «legitimação» política da radicalidade dos comportamentos e das formas de acção encontrava o fundamento mais tradicional e pobre: a exclusão, o desespero e a raiva. O desespero como identidade colectiva, como sinal de reconhecimento e, com ele, a impotência. E uma identidade reconfortante, para si e para os outros: «sou um marginalizado enraivecido, não necessito de reconhecer os meus erros, quando tenho fome grito»; «é um pobre marginalizado, o mal que poderá fazer é pouco e acima de tudo a si mesmo». É aqui que as cartas a «Lotta Contínua» se tornam um caso nacional, um boom literário, aparecem nas páginas do «Espresso».
Marginalização e desespero existem, certamente, mas não é esta a questão, trata-se aqui de outra coisa, de uma cultura, de uma linguagem, de uma profissão: é um grande filtro ideológico através do qual deve passar todo aquele que queira estar «dentro do movimento», uma forma obrigatória de expressão, uma linguagem que legitima e constringe ao mimetismo. Esta linguagem tem os seus responsáveis e administradores: os sagrados mestres inflexíveis e autoritário a ditar as regras do jogo, os loucos pela «pedrada» e os ex-cantores dos serviços de ordem, os especialistas em «relações humanas» e os profissionais do feminismo.
IV
Crítica da distinção entre paz e guerra

O debate acerca da violência é a primeira grande vítima desta situação infeliz. Há um ponto de partida importante: a reivindicação do direito à vida, a recusa do sacrificio e do heroísmo da retórica belicista. A crítica da política é também crítica da guerra, recusa de sacrificar-se em nome do ideal futuro, recusa da subordinação de si mesmo aos «superiores interesses de todos»: resumindo, recusa daquele momento «excepcional» em que a mulher se comporta como homem, e todos como soldados, onde não há espaço para o jogo ou para a brincadeira, para a festa, onde não existem os direitos da vida quotidiana e todas as potência destrutivas da sociedade se concentram «para construir um futuro melhor». Mas o discurso não pode acabar aqui, de outro modo torna-se retórica natalícia. É necessário acrescentar: a crítica da guerra é também crítica da paz produzida e reproduzida pela guerra no seu seio, e é também crítica daquela parte da sociedade que permanece sempre armada para garantir a paz. E – não pode não o ser – crítica da distinção forçada entre guerra e paz, entre exército e sociedade, entre soldado e civil.
E também aqui existe um problema, central, de remoção do sujeito da nossa história, colectiva e pessoal. Se o observamos de facto com os olhos do militante e do ideólogo, o movimento de 77 foi o campo de batalha de linhas políticas ferozmente adversas – militaristas algumas, pacifistas outras. Organizações de diversa natureza – algumas feitas para a guerra, outras feitas para a paz – disputaram entre si o espaço político no seu interior.
Mas se o observamos do exterior (por assim dizer: da cara que revelou de si), ou se observamos, para além do confronto, a convivência de tendências de diferentes naturezas e as próprias biografias dos companheiros, vemos que, para lá dos vetos e das prescrições categóricas, que deslizam de um papel ao outro, que misturam e combinam histórias e experiências normalmente incompatíveis, então damo-nos conta de que o movimento destes anos, na Itália como na Europa, combinou intimamente, de modo contínuo e sistemático, iniciativa legal e ilegal, violenta e não violenta, de massas e de pequenos grupos, movendo-se ora segundo as leis do Estado de paz, ora do Estado de guerra: esta combinação não foi uma prerrogativa de uma organização, mas atravessou todas elas, superando-as e impondo a convivência de momentos organizativos diversos no interior de um mesmo sujeito social.
Esta característica, esta capacidade de combinar paz e guerra, de desenvolver uma iniciativa ofensiva sem produzir soldados, não só construiu a força do movimento como, em geral, é o elemento central da sua natureza comunista e subversiva.
Erodir a distinção entre paz e guerra significa colocar-se no terreno da crítica do Estado, colocar em causa os princípios da legitimação do poder político que afirma, de facto, uma distinção entre «Estado» e «sociedade», «público» e «privado», «geral» e «particular». O interesse geral é armado, os interesses particulares confrontam-se segundo as leis que governam a paz. O armamento do Estado garante o desarme da sociedade; o facto de uma parte da sociedade – o aparato repressivo e militar – se erguer enquanto corpo separado e funcionar segundo as leis da «guerra», garante que o resto da sociedade viva na «paz». E «paz» quer dizer apenas que a «guerra» se tornou um negócio particular, de alguns homens que dele vivem (polícias e militares), ou daqueles momentos particulares em que estes homens particulares tomam o comando sobre todos os outros, demonstrando com factos que – sendo eles o garante da paz de todos – também a governam e são a sua parte dirigente. A guerra garante a paz, a sua ameaça conserva-a no interior dos Estados ou nas relações entre Estados; na distinção entre paz e guerra parece fundar-se, na cultura política ocidental, o conceito de Estado.

V
A violência domina as relações sociais
A distinção entre «guerra» e «paz» impõe a definição da violência em termos de categorias e, fazendo dela a ocupação particular de um grupo de homens particulares, anula as suas ligações com outras formas do agir e da comunicação social: a «violência» apresenta-se não por aquilo que é – um aspecto de todas as actividades humanas no interior da relação de capital, presente em todas as formas de expressão e de comunicação, onde inscreve o signo da relação de poder – mas antes como uma actividade a par das outras, especializada e monstruosa, que a todas chantageia.
Toda a relação de poder tem a sua face militar, e cada relação humana é, na sociedade capitalista, relação de poder: é por isso que a máquina de guerra escava as suas raízes nas relações de paz, e a violência que as domina constrói a sua representação geral na «infinita potência destrutiva» do Estado moderno. O aparato repressivo, com os seus especialistas da guerra, é a síntese da violência que domina as relações sociais, e é a garantia armada da sua reprodução: para que o trabalho assalariado não se revele enquanto violência, a violência apresenta-se como um trabalho ao lado dos outros; para que o trabalhador não descubra estar emerso na violência quotidiana, esta apresenta-se-lhe como profissão de um outro «trabalhador», o polícia. Recolocar de pé este mundo este mundo invertido significa expor a violência oculta na vida quotidiana e enfrentá-la por aquilo que é, sem ceder à chantagem do terror, atacando a sua máquina para a sabotar: significa aprender a utilizar a violência, para não a delegar, para não ser por ela chantageado; aprender a reconhecê-la, ou a viver com ela.

VI
Quem dissolverá o exército vermelho?
O movimento destes anos não foi insurrecionalista ou militarista porque não foi pacifista, porque não respeitou a sucessão da paz que prepara a guerra ou o seu aparato - o seu exército ordenado - e a da guerra que prepara a nova paz, porque não viu a violência concentrada na hora x do ajuste de contas – a cega, desumana e abstracta violência dos exércitos -, mas viu-a utilizada e difusa ao longo de todo o arco da luta política de libertação.
Duas e apenas duas são as estradas ( e os «pacifistas» de turno demonstram-no sempre): a) a luta política exclude o uso da violência do seu horizonte e então respeita o aparato militar existente, ou procura organizar um alternativo e equivalente para passar depois a uma fase de guerra, aberta ou «legítima», exército contra exército, Estado contra Estado (é uma história que já conhecemos, e aprendemos a colocar-nos a questão: quem dissolverá o exército vermelho? Quem lutará contra o Estado quando a classe operária se tiver transformado em Estado?) b) o processo de libertação não é primeiro «político» e depois «militar», aprende o uso das armas ao longo de todo o seu percurso, dissolve o exército nas mil funções da luta política, combina na vida de cada um o civil e o combatente, impõe a cada um a aprendizagem tanto da arte da guerra como a da paz.
Não se pode pretender viver o processo de libertação comunista, e ter a mesma relação com a violência, a mesma ideia de belo e de bom e justo e desejável, a mesma ideia de normalidade, os mesmo hábitos que um gestor bancário torinês de meia idade: viver com o terramoto é sempre – também – viver com o terrorismo, e para não ter uma ideia «heróica» da guerra é necessário acima de tudo evitar uma ideia pelintra da paz.
Pacifistas como Lama recrutam polícias, aqueles «mais à esquerda» reivindicam a legitimação da «violência de massas», do «proletariado em armas». O movimento real foi mais realista e menos belicoso, mais humano e menos heróico: porque criticou a guerra colocou em discussão a paz, e porque recusou o exército rejeitou o critério da delegação e da legitimação, com erros e aproximações e desvios terríveis, cultivando mitos absurdos, e no interior de uma história contraditória, mas aprendendo e melhorando num processo que modificou a realidade muito mais do que qualquer insurreição.
VII
Crítica comunista da democracia
Crítica da política é por isso também a crítica da dicotomia guerra/paz. A paz de que falamos é a paz da democracia, e a violência que usa é «violência legítima», que a marioria delegou às instituições do Estado: criticar esta violência quer dizer criticar o princípio mais desenvolvido da legitimação política, a democracia. Porque o problema da legitimidade é o problema da maioria, e o problema da maioria é o das instituições em que se exprime, ou seja do Estado: «maioria» e «minoria» pertencem ao universo do pensamento político, disputam o comando sobre o «interesse geral»., vivem da separação entre entre «público» e «privado», de Estado e sociedade, escavam as suas raízes no interior das relações de dominação que impõem aos homens confrontar-se como quantidade. A maioria constitui-se para administrar o poder: quanto mais o poder se encontra concentrado mais pode a maioria, menos pode o indivíduo; quanto mais rico é o «público», o «interesse de todos», mais pobre e expropriado, é o «privado», mais desprovido, privado de expressão, é o interesse de cada um. A democracia é, simultaneamente, o máximo desenvolvimento do poder estatal, o máximo momento de concentração de poder político, o lugar do incontrastado comando do princípio de maioria: a questão não é o facto de no Estado moderno existir pouca democracia, ou de não serem respeitadas as minorias mas – pelo contrário – o facto de ser conduzida uma luta de morte contra tudo aquile que não se exprime nos termos de maioria ou minoria, que não se exprime em termos de poder e de gestão. É por isso que por todo o lado o movimento de libertação comunista é fora da lei: porque se coloca fora do código democrático, e este código define de modo exclusivo o universo da política. A crítica radical marxiana da democracia identifica as categorias que fundam a luta de morte entre democracia e comunismo, entre poder democrático e libertação comunista. O resto são misérias, brincadeiras para crianças.
Em democracia é obrigatório «lutar pela maioria» porque sem maioria nada se pode fazer, nem sequer produzir um alfinete ou tocar clarinete. Ao Estado pode pedir-se tudo, mas sem o Estado não se pode fazer nada, e a relação de poder apresenta-se como a linguagem universal na qual todos os «dialectos» se condensam e traduzem. A luta pela maioria é obrigatória, qualquer que seja a maioria; e a maioria de um pequeno conjunto remete para a maioria de um conjunto mais vasto, como a maioria do PDUP remete para a maioria da Democracia Proletária, enquanto as instituições parlamentares se desenvolvem ao longo de todo o tecido social e exércitos crescentes de delegados aprendem o mistério da conciliação entre a máxima divisibilidade do poder e a sua máxima concentração.
Com a maioria pode-se tudo, sem a maioria não se pode nada: a única acção social reconhecida é a luta pela maioria («é a ditadura dos advogados sobre a sociedade americana», escrevia há alguns anos um jornalista a propósito do Congresso dos E.U.A.); a única relação social reconhecida é a Assembleária, de maioria e minoria. Máxima concentração do poder e sua óptima administração. O capital concentra os meios de produção, a riqueza social, a democracia administra-os segundo um código, o da relação entre maioria e minoria: é o melhor código, mas é o mundo do capital.
Não conhecemos outro código para «legitimar» o poder político; o Estado socialista move-se dentro do mesmo horizonte. Isto quer dizer que estamos a lutar contra o poder político, contra a forma-Estado, contra a democracia, contra o universo das relações capitalistas de produção, pelo comunismo.


Lucio Castellano
(Pubblicado en «Preprint», n. 1, dezembro 1978)

Publicado por [Rick Dangerous] às 06:46 PM | Comentários (3)

Um sapatinho para Mr. Bush

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No dia 23 de Dezembro, às 18 horas, leva um sapato e deixa-o na embaixada norte-americana exigindo a libertação imediata de al-Zaidi e o fim da guerra contra o Iraque.

Muntadhar al-Zaidi, o jornalista iraquiano que no dia 14 de Dezembro atirou os sapatos ao ainda presidente dos EUA George W. Bush, continua preso e, segundo um advogado iraquiano citado pelo canal de TV France 24, poderia ser condenado a pelo menos dois anos de prisão pelo seu acto. Segundo relato do seu irmão Durgham à BBC, Muntadhar al-Zaidi teria sido torturado e em consequência disso teria uma mão e várias costelas partidas, um derrame interno e um olho ferido.

A Al-Baghdadia TV, para a qual trabalha al-Zaidi, lançou, segundo a BBC, um comunicado em que diz: «A televisão Al-Baghdadia exige às autoridades do Iraque que libertem imediatamente o seu colaborador Muntadhar al-Zaidi, de acordo com a democracia e liberdade de expressão que as autoridades norte-americanas prometeram ao povo iraquiano (…). Quaisquer medidas contra Muntadhar serão consideradas como actos de um regime ditatorial.»

Nós, cidadãos portugueses, vimos nestas vésperas de Natal depositar os nossos sapatos junto à embaixada dos EUA em Lisboa, apelando a que os Estados Unidos da América dêem imediatamente ordens aos seus capatazes iraquianos, o «governo» de Nouri al-Maliki, para que libertem al-Zaidi, símbolo da coragem dos iraquianos que se rebelam contra a ocupação criminosa do seu país pelas forças para lá enviadas pelo mesmo George W. Bush.

Se um homem que atirou (e falhou) dois sapatos ao senhor Bush devesse ser condenado, a quantos anos de prisão deveria ser condenado o senhor Bush, que ordenou a invasão e ocupação do país de al-Zaidi, causando milhares de mortos?

Fazemos votos para que o Novo Ano inspire o povo norte-americano a romper com o passado tenebroso que representou a Administração Bush e que as tropas norte-americanas saiam do Iraque para casa, não para serem transferidas para o Afeganistão.

No dia 23 de Dezembro, às 18 horas, leva um sapato e deixa-o na embaixada norte-americana (Avenida das Forças Armadas, 1600 Lisboa) com a tua mensagem de Natal para os EUA exigindo a libertação imediata de al-Zaidi e o fim da guerra contra o Iraque.

Subscritores (até agora):
Colectivo revista Rubra (revistarubra@gmail.com)
Monthly Review - edição portuguesa (www.zionedicoes.org)
Revista Shift - (www.zionedicoes.org)
Comité Palestina (palestinavence@gmail.com)
Política Operária (dinopress@sapo.pt)
Colectivo Mumia Abu-Jamal (http://cma-j.blogspot.com)
Plataforma Gueto - Olhos Ouvidos e Vozes (que inclui as organizações Nos Ki Nasi Homi Ki Ta Mori Homi, Khapaz, Laços de Rua, Encontros)
Projecto Casa Viva
Colectivo Socialismo Revolucionário
Mudar de Vida (www.jornalmudardevida.net)
Revista Vírus (www.esquerda.net/virus)
Tribunal Iraque (www.tribunaliraque.info)
José Mário Branco
João Bernardo
João Delgado
Isabel Faria

Publicado por [Manic Miner] às 12:13 AM | Comentários (1)

dezembro 20, 2008

a propósito da auto-crítica

Publicado por [Renegade] às 05:29 PM | Comentários (4)

o último bastião entre nós e a barbárie é o Daniel Oliveira.

No arrastão o Daniel finca o pé ante a "orgia de violência". Eu duvido que o Daniel tenha mais informação da que dada por um par de jornais e eventualmente veiculado lá pelo equivalente grego do BE. Que o Daniel não ache grande piada à metodologia escolhida por uns quantos não é novidade e esta mesma discussão é mais ou menos recurrente, uma outra estrela de esquerda, o Rui Tavares, decorre sobre ela de modo bastante mais capaz nos comentários de um par de posts mais abaixo. Não tenho grande vontade de entrar na discussão já que nenhum dos lados está a apresentar argumentos novos ou brilhantes, eu por mim concordo que "a victória pertencerá a quem souber usar a violência sem a amar".

De qualquer maneira no arrastão está a seguinte Danielada:

"São este tipo de imagens permanentes que quase destruíram os movimentos alterglobais, apesar de não passarem de pequenas franjas dos com eles se manifestam"

Ou o Daniel é voluntariamente ingénuo ou é mentiroso. Eu pedia-lhe, Daniel, que me explicasse como é que os black blocs e tutti bianchi et al quase destruiram os movimentos "alter"globais...

Eu lembro-me da coisa de maneira algo diferente: Primeiro houve Seattle, inesperado, e Praga, selvagem. Circularam por todo o mundo as imagens dos motins e dos confrontos que deram uma atenção mediática inesperada a movimentos que voavam debaixo do radar. Depois houve Génova, um banho de sangue. E SÒ DEPOIS chegou o bloco com todos esses militantes reciclados que mudaram o nome de anti para alter e que foram a Espanha apanhar chapadas. E depois o movimento alterglobal morreu. O Negri dirá mais ou menos isto na Multitude. Ainda me lembro do Jorge Costa, falando em nome de um partido que só por acaso passou em Génova, estar a dizer num qualquer debate quem era e quem não era parte do movimento no-global, a situação não é só asquerosa, é também extremamente ridícula

Publicado por [Party Program] às 10:41 AM | Comentários (5)

dezembro 19, 2008

Convocatória

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verso.JPG

Publicado por [Chuckie Egg] às 05:57 PM | Comentários (2)

Lisboa é ciclável

Em Lisboa já se gamam bicicletas e tudo. Até parecemos uma cidade desenvolvida de um país desenvolvido.

bicla roubada.JPG

Publicado por [Saboteur] às 05:37 PM | Comentários (2)

Contra os writers, só mesmo a videovigilância (poesia de rua #46)

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Tirado do Lisboa S.O.S.

Publicado por [Saboteur] às 11:47 AM | Comentários (1)

dezembro 18, 2008

65 horas?

Nas traseiras das manchetes dos jornais e dos blogues (tão entretidos andam com o fogo de artifício grego) surgiu a boa nova: ainda não é desta que o Sócrates vai poder fazer a vontade ao Belmiro e pôr a malta a trabalhar até 65 horas por semana, em vez do actual máximo europeu de 48 (recordemo-nos que o máximo legal é de 40 horas em Portugal, mas quem cumpre a lei?). E o Parlamento europeu tomou posição pelo fim das derrogações aos países que não aplicam o limite máximo das 48 horas. Sindicatos, partidos políticos, deputados do parlamento europeu e trabalhadores europeus estão de parabéns.

O Sr. Ministro do trabalho de Portugal veio dizer que se congratula com esta decisão do PE...Só que em Junho, este socialista que até já foi da "ala esquerda" do seu partido tinha-se abstido na reunião que aprovou a posição comum do Conselho para a proposta de directiva...

E, isto não dizem os jornais mas diz a CGTP no seu comunicado à imprensa, o sr. Ministro Vieira da Silva tem neste momento em cima da mesa a "proposta de revisão do Código do Trabalho, em Portugal, onde se admite a hipótese dos horários de trabalho atingirem as 12 horas diárias e as 60 horas semanais". Uma proposta redigida pelo ministro, pelo menos a mim não consta que o Belmiro e Cia tenham passado a fazer horas extraordinárias no serviços de assessoria jurídica do ministério do trabalho.

De modo que, aqui chegado, não digo mais nada e o leitor que tire as suas conclusões.

Publicado por [Renegade] às 07:35 PM | Comentários (13)

Viemos buscar o que é nosso


14/12/2008 Documento redigido a partir da Faculdade de Economia Ocupada de Atenas
"Nestes dias de raiva, o espectáculo enquanto relação de poder, enquanto relação que confere memória aos objectos e aos corpos, confronta-se com um contra-poder difuso que desterritorializa as impressões, permitindo-lhes vaguear para longe da tirania da imagem e para o interior do campo dos sentidos. Os sentidos são sempe experimentados de forma antagonista (são sempre dirigidos contra qualquer coisa) – mas nas condições actuais dirigem-se para uma polarização cada vez mais aguda e radical.
Às caricaturas supostamente pacifistas dos meios de comunicação da burguesia («a violência é sempre inaceitável, onde quer que seja») apenas podemos contrapor gargalhadas: a sua dominação, a dominação dos espíritos tranquilos e do consenso, do diálogo e da harmonia, não é mais do que um bem calculado prazer pelaa bestialidade – a promessa de uma carnificina. O regime democrático, na sua fachada pacífica, não mata um Alexandros todos os dois, precisamente porque mata milhares de Ahmets, Fatimas, Jorjes, Jin Tiaos e Benajirs: porque assassina sistematicamente, estruturalmente e sem qualquer tipo de remorsos, a totalidade do terceiro mundo, ou seja, o proletariado global. Foi desta forma, através de um tranquilo massacre diário, que surgiu a ideia de liberdade: liberdade não como um pretenso bem universal, não como um direito natural de todos, mas como o grito dos amaldiçoados, como a premissa da guerra civil."

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A história da ordem legal e da burguesia enquanto classe lava-nos o cérebro com uma imagem de progresso gradual e contínuo da humanidade, no interior do qual a violência representa uma lastimável excepção resultante do subdesenvolvimento económico, emocional e cultural. E no entanto todos nós, que fomos esmagados entre mesas de escola, atrás de secretárias e balcões, nas fábricas, sabemos demasiado bem que a história não é mais do que uma sucessão de actos de selvajaria instalados por um mórbido sistema de regras. Os cardeais da normalidade choram a lei violada pela bala do porco Korkoneas (o bófia assassino). Mas quem desconhece que a força da lei é apenas a força dos poderosos? Que é a própria lei que permite o uso da violência? A lei é o vazio do princípio ao fim; não contém qualquer significado, qualquer objectivo que não o poder codificado da imposição.
Simultaneamente, a dialética da Esquerda procura codificar o conflito, a batalha e a guerra, com a lógica da síntese de oposições. Desta maneira, constrói uma ordem, uma situação pacificada no interior da qual tudo encontra o seu devido lugar. E no entanto, o destino do conflito não é a síntese – tal como o destino da guerra não é a paz. Uma insurreição social é composta pela condensação e explosão de milhares de negações, mas não contém em qualquer momento ou em qualquer parte, a sua própria negação, o seu fim. Isto parece sempre certamente pesado e preocupante para as instituições de mediação e de normalização, para a Esquerda que promete o voto aos 16 anos, o desarmamento mas manutenção da polícia, um Estado social, etc. Para aqueles que, por outras palavras, desejam capitalizar politicamente as feridas dos outros. A doçura do seu comprometimento deita sangue.

A violência social não pode ser responsabilizada por aquilo que não assume: é destrutiva do início ao fim. Se as lutas da modernidade nos ensinaram alguma coisa não foi certamente a sua triste fixação num sujeito (a classe, o partido, o grupo), mas antes o seu processo sistematiamente anti-dialético: o acto de destruição não implica necessariamente uma dimensão de criação. Noutras palavras, a destruição do velho mundo e a criação de um novo implicam dois processos distintos, ainda que convergentes. A questão que se coloca é então que métodos de destruição do que existe podem ser desenvolvidos em diferentes pontos e momentos de uma insurreição. Que métodos permitem, não apenas preservar a profundidade e a extensão de uma insurrecição mas também contribuem para o seu crescimento qualitativo. Os ataques a esquadras da bófia, os confrontos e cortes de estrada, as barricadas e luta de rua, constituem agora um fenómeno quotidiano e socializado nas metrópoles e para além delas. Tudo isso contribuiu para um abalo parcial do ciclo da produção e do consumo. E no entanto, constituem apenas uma identificação parcial do inimigo, directa e óbvia para todos, mas ainda encurralada apenas numa dimensão do ataque contra as relações sociais dominantes. Contudo, o próprio processo de produção e circulação de bens, noutras palavras, o Capital enquanto relação, foi apenas indirectamente abalado pelas mobilizações. Um espectro paira sobre a cidade em chamas: a greve geral selvagem por tempo indeterminado.

A crise capitalista global negou aos patrões a sua mais dinâmica e eficaz resposta à insurreição: "Oferecemos-vos tudo, para sempre, enquanto que eles apenas vos podem oferecer um presente de incerteza." Com uma firma a colapsar a seguir à outra, o capitalismo e o Estado já não estão em condições de oferecer mais do que dias piores por vir, condições financeiras mais apertadas, despedimentos, suspensão de pensões, cortes nas despesas sociais, destruição do sistema de educação gratuita. Pelo contrário, em apenas sete dias, os insurrectos provaram na prática aquilo que podem fazer: tornando a cidade num campo de batalha, criando enclaves libertados espalhados pela malha urbana, abandonando o seu individualismo e a patética segurança que o acompanha, procurando a composição do seu poder colectivo e a completa destruição deste sistema assassino.

Na conjuntura histórica em que nos encontramos, de crise, raiva e bloqueio das instituições, a única coisa que pode converter o abalo do sistema em revolução social é a rejeição total do Trabalho. Quando as lutas de rua tiverem como cenário ruas escuras devido à greve da Companhia de Eletricidade; quando os confrontos tiverem lugar por entre toneladas de lixo por recolher, quando os elétricos forem utilizados para fechar estradas e bloquear a polícia, quando o professor em greve acender o cocktail molotov do seu aluno revoltoso, então poderemos finalmente afirmar: «"Os dias desta sociedade estão contados; as suas justificações e os seus méritos foram pesados, e considerados ligeiros; os seus habitantes dividiram-se em dois partidos, dos quais um deseja que ela desapareça." Esta afirmação deixou actualmente de ser uma mera fantasia para se converter numa real possibilidade nas mãos de qualquer um: a possibilidade de agira concretamente sobre o concreto. A possibilidade de tomar o céu de assalto.
Se tudo isto parece prematuro, nomeadamente a extensão do conflito à esfera da produção-circulação, com sabotagens e greves selvagens, talvez seja apenas porque ainda mal nos apercebemos da velocidade com que o poder se decompõe, de quão rápido as práticas conflituais e as formas de organização não hierárquicas se difundem socialmente: desde estudantes do secundário que apedrejam esquadras da polícia, até trabalhadores municipais e moradores que ocupam os edíficios das Câmaras Municipais. A revolução não acontece através de rezas e súplicas pelas condições históricas mais favoráveis. Desenvolve-se pelo aproveitamento de cada oportunidade de insurreicção em qualquer aspecto social, pela transformação de cada gesto relutante de condenação da polícia em ataque decidido contra os fundamentos do sistema.

Publicado por [Rick Dangerous] às 05:52 PM | Comentários (7)

Reforços


Centre de rétention de Mayotte: la vidéo qui accuse
by liberation

Os filhos dos imigrantes mobilizam-se em massa e dinamicamente, através das secundárias e das acções universitárias assim como através das organizações de esquerda e extrema-esquerda. São a parte mais integrada da comunidade migrante, a mais corajosa. Ao contrário dos seus pais, que vieram de cabeça baixa, como se mendigassem uma fatia de pão. São parte da sociedade grega, já que nunca conheceram outra. Não imploram por coisa alguma, exigem ser iguais aos seu colegas gregos. Iguais em direitos, nas ruas, nos sonhos.

Para nós, emigrantes politicamente organizados, este é um segundo Novembro francês. Nunca tivémos ilusões que quando a raiva das pessoas transbordasse seríamos capazes de a direccionar em qualquer sentido. Apesar das lutas que tomámos durante todos estes anos nunca conseguimos atingir uma resposta em massa como esta. Agora é tempo da rua falar: O grito ensurdecedor é pelos 18 anos de violência, repressão, exploração e humilhação. Estes dias são nossos também.

Estes dias são pelas centenas de emigrantes e refugiados que foram assassinados nas fronteiras, nas esquadras de polícia, locais de trabalho. São por aqueles assassinados por polícias ou "cidadãos preocupados". São por aqueles assassinados por se atreverem a atravessar a fronteira, trabalhando até à morte, por não baixarem a cabeça, ou por nada. São para Gramos Palusi, Luan Bertelina, Edison Yahai, Tony Onuoha, Abdurahim Edriz, Modaser Mohamed Ashtraf e por tantos outros que não esquecemos.

O texto completo aqui:Haunt of Albanian Migrants

Publicado por [Chuckie Egg] às 04:10 PM | Comentários (1)

O que aí vem

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Em França já começou, em Itália nunca parou desde as manifestações que postámos aqui, da Grécia nem se fala.

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Já pusemos o mapa na parede.

Publicado por [Chuckie Egg] às 03:45 PM | Comentários (2)

Grécia, «anarquistas» e outras coisas


Para quem não percebeu, há dois dias de solidariedade internacional com as lutas sociais na Grécia. Um é no sábado, dia 20 de Dezembro e foi convocado pela assembleia de ocupação da Faculdade de Economia/Politécnico de Atenas. O outro é hoje e foi convocado pelo Synaspismos (bloco de esquerda grego) e pelo Partido da Esquerda Europeia. Deixo à vasta comunidade de leitores do Spectrum o juízo sobre esta iniciativa, de desdobrar em dois dias a solidariedade internacional, e o interesse do Partido da Esquerda Europeia em que tal aconteça.
Para que se entenda melhor do que se trata, interessa talvez ter em conta a declaração do secretário-geral da nova esquerda grega, disponível no Esquerda.net: "Saudamos os estudantes, rapazes e raparigas, todos os jovens que não escondem a cara. [...] O nosso alvo é o sistema, e as suas injustiças para com a juventude. O nosso alvo não são as montras, os carros, as residências, os edifícios públicos. Estamos inequivocamente contra a violência cega. [...] Na nossa opinião, a saída para o Estado é pedir desculpa, na prática. E isso significa que o governo deve promover, imediatamente, uma série de medidas; empregos para os jovens; educação de qualidade, com fundos suficientes e livre acesso às universidades; espaços públicos para os jovens se reunirem, se divertirem, namorarem; reforma democrática da força policial. [...] Chamamos a juventude a envolver-se numa luta para expulsar este governo de uma forma militante, radical e pacífica, e avançar para uma grande mudança que dê fundos, emprego e educação de qualidade às próximas gerações."
Não sei se é claro - de um lado estão os de cara tapada e a sua lamentável violência cega, do outro está a «juventude» ou seja, o rebanho de figurantes radicais e pacíficos com os quais provocar a queda do governo de direita e concretizar uma política de esquerda, com espaços públicos para os jovens se divertirem e namorarem enquanto o Estado pede desculpa. Falta aqui perceber porque razão se exige numa frase que o governo tome uma série de medidas e noutra frase se apela a uma luta para expulsar esse mesmo governo cujas medidas se desejam. Ainda que a Lógica tenha sido inventada naquela parte do mundo, a esquerda «radical» grega parece ter ficado fora da lista de distribuição.

Mais perto e mais significativo é o texto de Rui Tavares no Público. Não vou comentar as recomendações dadas aos líderes mundiais sobre a necessidade um novo contrato social. Cada um tem o seu programa e o Rui tem o mérito inestimável de deixar o seu bem claro. Espero até que os líderes mundiais lhe dêm ouvidos, embora não conte muito com isso. O que realmente me apetece comentar é o último parágrafo: "Em Espanha, 1936, até os anarquistas aceitaram entrar no governo, e logo com a primeira mulher ministra no país — Federica Montseny. É algo que talvez os “anarquistas” gregos de hoje desconheçam. Mas sei que assustou muito mais os fascistas do que qualquer montra partida."
Note-se que o Rui coloca sobre aspas os «anarquistas» gregos que enfrentam a polícia mas não segue a mesma opção no que toca à direcção da CNT durante a Guerra civil espanhola. Já em Abril de 2007 fiquei surpreendido quando o Daniel Oliveira se referiu à "já habitual excitação de pessoas que, na minha opinião, confundem a tradição anarquista e libertária com uma moda tribal adolescente e que se comportam como qualquer hooligan de uma claque de futebol."
Não pretende definir aqui a ontologia da acracia, mas estranho este contraponto entre um anarquismo sem aspas, empenhado não sei bem em quê, que participa em governos mas renuncia a qualquer forma de violência no confronto com o Estado, e um outro «anarquismo» que seria apenas a cobertura ideológica a que algumas pessoas (não se sabe bem porquê) teriam necessidade de recorrer para destruir coisas e enfrentar a polícia. Do ponto de vista historiográfico não encontro grande justificação para estas aspas. Um historiador como o Rui deveria saber (pelo menos se deseja falar sobre o assunto) que a entrada de dirigentes anarco-sindicalistas para o Governo republicano foi tudo menos pacífica e consensual no interior da CNT-FAI.

Para levar a coisa um pouco mais longe, seria ainda necessário ter em conta o facto histórico fundamental que aqui se pretende iludir - o levantamento franquista de 19 de Julho de 1936, em Barcelona, foi esmagado em dois dias pelos mesmos anarco-sindicalistas que nos anos anteriores se haviam caracterizado por actos insurrecionais e bombistas, trocas de tiros com as forças da ordem, prisões e deportações frequentes, exproprios, sabotagens e perturbações da ordem pública. Eram descritos pela imprensa espanhola exactamente nos mesmos termos em que a imprensa se refere actualmente aos «vândalos», «extremistas» e «violentos». A imagem heróica que se pretende agora recuperar de um anarco-sindicalismo espanhol generoso e pacífico, seriamente empenhado na defesa da República, resiste mal à leitura da bibliografia de referência sobre a guerra civil espanhola, a começar pela de Pierre Broué, um dos mais eminentes especialistas no tema. Não apenas os conflitos foram frequentes entre o governo republicano e a organização confederal, como esta última foi várias vezes ultrapassada pela acção directa espontânea da sua base, empenhada em não separar a revolução social da guerra em curso. O trágico epílogo de tudo isto torna o exercício da última frase do Rui particularmente infeliz. É que em Maio de 1937 algumas brigadas do exército dominadas pelo PCE tentaram ocupar a central telefónica auto-gerida de Barcelona e foram rapidamente dissuadidas por um levantamento popular. A resposta do governo republicano foi transportar tropas da frente (o que certamente agradou a Franco) para fazer face aos insurrectos, a resposta da direcção da CNT-FAI foi apelar à calma e a resposta do Komintern foi fazer desaparecer alguns elementos incómodos nas suas prisoes. Os meses que se seguiram foram assinalados pela repressão levada a cabo contra os anarquistas por parte do Governo Republicano, o que certamente assustou menos os fascistas do que a destruição de montras.

Na senda pela unidade da Esquerda de que ultimamente se fez paladino, o Rui Tavares ensaia algumas simplificações históricas tacticamente úteis, mas politicamente funestas. É que os «anarquistas» gregos conhecem, porventura bem demais, a experiência da guerra civil espanhola (tal como a sua própria guerra civil) para escutar tão piedosos conselhos. E talvez o próprio Rui fizesse bem em conhecer melhor as razões históricas pelas quais a «esquerda» portuguesa esteve dividida nos últimos 30 anos. No ensaio de guerra civil que aqui teve lugar em 1975, a linha de demarcação passava bem no meio do que agora se pretende ver unido. Seria de perguntar, ao Major Tomé e a Manuel Alegre, juntos agora na Aula Magna, onde estavam no 25 de Novembro de 1975. E talvez a resposta fosse mais elucidativa para ilustrar o debate em curso à esquerda do que uma referência superficial a Federica Montseny.

Publicado por [Rick Dangerous] às 03:15 PM | Comentários (20)

20 Dezembro 2008 - Grécia em todo o lado

Publicado por [Chuckie Egg] às 02:15 PM | Comentários (5)

dezembro 17, 2008

Fia-te na virgem...

Pela blogosfera de esquerda, não há quem perca a oportunidade de cascar e ridicularizar Santana.

Certo. Ele foi o pior Presidente de Câmara que Lisboa teve em toda a sua história... mas é um erro subestimar o adversário.

Também em 2001, as sondagens chegaram a dar uma vantagem de 20 pontos a João Soares da coligação PS/PCP e afinal foi tão renhido, que no final (com um bocadinho de batota, dizem as más linguas), Santana foi Presidente da Câmara.

Lisboa perdeu mais de 1/3 da sua população nos últimos 20 anos. Foram sobretudo famílias jovens, de “classe média” – lato senso – que saíram para a periferia à procura de casas um pouco mais baratas… Hoje, em Lisboa, a classe alta e as classes mais desfavorecidas (1/4 da população vive em Bairros Sociais), têm um peso determinante na escolha do presidente da câmara e é precisamente por aí – entre a família da Lapa que compra o Expresso e a CARAS e a família do Bairro da Boavista, que compra a CARAS ou a e o Correio da Manhã – que Santana se mexe bem.

Publicado por [Saboteur] às 12:40 PM | Comentários (2)

Sectaríssimo

«O CC do PCP alerta para manobras que, a exemplo das protagonizadas pelo BE e Manuel Alegre, se assumem com um carácter sectário e divisionista, determinadas pela obsessiva intenção de disputar influência ao PCP e conter o seu reforço e crescimento, contribuem para branquear o Governo do PS, a sua política, quem a pratica e sustenta, e são na prática comprometedoras da necessária convergência de forças democráticas e de esquerda para uma ruptura com a política de direita e a aplicação de uma política alternativa de esquerda.»

Comunicado do CC do PCP

Publicado por [Saboteur] às 09:52 AM | Comentários (5)

dezembro 16, 2008

Exarchia, meu amor


Durante a guerra de sábado à noite, os "Koukoulofori" atacaram o "bunker" que é o posto da polícia do "bairro libertado" e alguns bancos noutros locais da cidade. "Vamos conseguir fechar o posto do nosso bairro", promete Ilias.
Os jovens de Exarxia sonham com uma vida sem polícia nem prisões, com uma espécie de "bairro do amor" na versão do cantor português Jorge Palma. Ilias e Mira gostam da geração beat dos anos 60. Lêem Jack Kerouak e ouvem Bob Dylan.
Não são anarquistas. Mas preferem a "lei" imposta pelos amotinados da Politécnica do que a do Estado. Mantêm contudo algum realismo. "Vamos ver se isto dura", suspira Mira. Por volta da 1h30 de hoje saem abraçados para a rua e desaparecem no meio da multidão amiga dos revolucionários que circula vagarosamente em Exarxia, onde se dorme muito pouco durante a noite.
"Isto", segundo Mira e Ilias, é a vida de revolução e festa dos dias e noites de hoje no "bairro libertado", mais conhecido em Atenas pelo nome de "bairro anarquista".

Daniel Ribeiro (o nosso homem em Atenas?), Expresso

Publicado por [Rick Dangerous] às 12:42 PM | Comentários (16)

dezembro 15, 2008

Sobre um debate em curso

A propósito dos debates em curso à esquerda, reproduzo aqui um texto que encontrei no site comunistas.info, com o qual não poderia estar mais de acordo.

1. A mera oposição entre reforma e revolução é uma discussão interessante, mas um pouco estéril. Trata-se de categorias de tipo diferente, e em qualquer circunstância adaptáveis ao tempo histórico concreto. Há momentos de reforma e momentos de revolução. A revolução aponta para um sentido de total e a reforma para um sentido de parcial. Esses sentidos, porém, não são necessariamente irreconciliáveis, nem o contrário. Há mesmo na história vários exemplos de «revoluções reformistas», ou seja, revoluções com um sentido parcial (p. ex. o 25 de Abril), e de «reformas revolucionárias», ou seja, reformas com um sentido total (p. ex. o SNS).

2. O problema é que os sentidos não são mais que isso mesmo, caminhos, tendências. O busílis da questão joga-se no fim da linha. É que, em última análise, não há parcialidades totais nem totalidades parciais. Para a definição de um posicionamento e de uma prática, a oposição que produz uma clara linha de divisão é entre o ponto de vista ideológico e o ponto de vista ontológico. Todos os modos de produção são definíveis ontologicamente, têm um metabolismo particular, e são compostos por um conjunto de actividades especializadas que dão a esse metabolismo particular um sentido reprodutivo lógico e ideologicamente sustentável. O sistema do capital é ontologicamente o sistema da produção fetichizada de valor (ou seja, de uma substância que torna comparáveis entre si as mercadorias produzida pela incorporação de um tipo particular de trabalho que se define pela sua quantidade, e não pela sua utilidade concreta – o trabalho abstracto, para usar a definição de Marx). As actividades especializadas específicas do sistema do capital, sempre submetidas à sua reprodução ontológica, são a política do Estado moderno, a economia e a cultura em sentido lato.

3. É no plano das actividades especializadas que se esgota o sentido da oposição esquerda-direita. Independentemente das especificidades que co-existem nos dois campos, trata-se, em sentido amplo, de um confronto entre modos diferentes de gestão da reprodução ontológica do sistema do capital, definidos em função das relações de classe que se desdobram e consolidam na produção e reprodução do sistema. Espero não ser mal interpretado: não pretendo resvalar para o populismo demagógico do «são todos iguais» ou considerar que não há diferenças substanciais entre esquerda e direita. Simplesmente, acho que essa oposição não é uma oposição ontológica.

4. O terreno da disputa ontológica é o da vida quotidiana (no sentido de Lefebvre), e não o das actividades especializadas. A ruptura ontológica é a superação da vida quotidiana concreta sob as condições do sistema do capital, e não a sua gestão mais ou menos «humana» através da mediação das actividades especializadas. Um dos principais problemas do marxismo histórico foi a confusão entre «o capital» e «os capitalistas». Essa confusão esconde o facto de serem «os capitalistas» e «os proletários» as duas classes do capital, daí decorrendo que a superação dos capitalistas implicará a superação também dos proletários. Desse equívoco resultou também que a expropriação da propriedade privada dos meios de produção (ou a sua regulação pelo Estado) e a tomada revolucionária (ou eleitoral) do poder do Estado se tenham tornado o alfa e o ómega do anti-capitalismo (mais radical ou mais social-democrata) e que a luta de classes tenha sido sempre orientada por esses objectivos. A luta de classes no contexto histórico do sistema do capital só será verdadeiramente o motor da história na medida em que coloque como objectivo a superação ontológica da sociedade de classes. Tendo em consideração as configurações concretas da vida quotidiana, só o proletariado tem o potencial de formação de consciência para o questionamento ontológico do sistema do capital, ou seja, o potencial de formulação de uma negatividade ofensiva que, a um passo, supere o velho (e portanto se supere também a si próprio) e construa o novo.

5. Julgo também que é por aí que se explica o beco sem saída em que sempre se coloca a esquerda quando passa a vida discutir os problemas tácticos. A oposição entre uma postura de oposicionismo político como mecanismo de acumulação de forças a serem utilizadas «quando for o momento» e uma postura que procura aproveitar todas as oportunidades para avançar politicamente independentemente da «relação de forças» é uma falsa oposição (parecida como a oposição entre reforma e revolução) e traduz duas posições frágeis e perdidas no emaranhado das suas ambiguidades estruturais. Não digo que essa discussão não seja útil para estabelecer posicionamentos comuns de combate contra a direita, mas ao esgotar-se aí, auto-exclui-se do terreno onde as dinâmicas da superação ontológica radical podem exprimir-se.

6. Sei que um dos argumentos contra o ponto de vista ontológico é o de que as possibilidades práticas actuais se limitam à implementação de um programa político de esquerda que alivie os trabalhadores das nefastas consequências da selvajaria capitalista. Obviamente que eu próprio ficaria muito feliz se pudesse pagar substancialmente menos nas prestações bancárias mensais, estar seguro que na velhice terei uma pensão digna, saber que vou ao hospital e tenho um atendimento de qualidade e gratuito ou que a organização social me faculta a possibilidade de estudar ao longo da vida. Esse argumento levanta-me, porém, três problemas: (1) já se colocou, verdadeiramente, a esquerda o problema das «possibilidades práticas actuais»?; (2) como seria possível concretizar esse programa, em condições de perenidade, num contexto que o capital é crescentemente incapaz de retomar o processo de valorização auto-expansiva e, portanto, de contrariar a queda tendencial da taxa de lucro?; e (3) se, porventura, fosse hoje possível concretizar um tal programa, em que medida é que isso não se traduziria (como sempre aconteceu historicamente) em mais uma fase de modernização do sistema do capital, e, nesse sentido, de agravamento das suas contradições?

7. Outro argumento utilizado costuma ser o de que se conseguirmos ocupar posições vantajosas no aparato estatal, conseguiremos avançar depois para fases de luta mais avançadas. Mesmo que tudo o que escrevei acima não passe de uma série de disparates, podemos pelo menos constatar que isso nunca aconteceu. Por outro lado, levanta-se o problema do tempo histórico disponível para fazer isso. É que, nas actuais condições da crise estrutural do sistema do capital, cada vez mais as únicas respostas que este sistema consegue dar são o agravamento brutal da exploração e a guerra. A profecia afinal cumpre-se: socialismo ou barbárie, lembram-se?

Publicado por [Manic Miner] às 04:44 PM | Comentários (2)

Toma!

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NOTA: Estas imagens são obviamente uma montagem. O Nikita nunca teria falhado àquela distância.

Publicado por [Rex] às 03:03 AM | Comentários (3)

dezembro 14, 2008

Reflexoes sobre a violência




De facto os estudantes gregos são demasiado violentos e radicais nos seus protestos. Deviam fazer mais como os seus congéneres finlandeses e norte-americanos.

Publicado por [Rick Dangerous] às 04:31 PM | Comentários (2)

O spectrum à escuta: a natureza do mal


Os velhos partidos parlamentares, do CDS ao Bloco, já não representam senão os funcionários, algumas famílias e as almas sem imaginação que fizeram, algures na vida, uma identificação clubística importante para a ilusão do eu-permanente. Têm algum interesse simbólico, como representação do sistema e simplificação social. Mas na hora da verdade, quando falta o dinheiro, quando a miragem da vida prometida descola da miséria da vida real, os velhos partidos não servem para nada. Indignamo-nos com o nosso empobrecimento e a vida opulenta dos fariseus do regime, de Loureiro a Coelho, de Júdice a Vitorino. Indignamo-nos com a prontidão com que cobram multas e impostos e a lentidão com que pagam vencimentos ou reconhecem os direitos que antes eram inalienáveis. Mas de que serve a indignação se não para outdoors decorativos como as árvores de Natal? Quando a pressão se torna intolerável os deserdados do regime saltam para a acção directa e encontram as suas formas organizativas. As organizações que representarão as multidões que o sistema em falha empurrou para a periferia, e em que elas se reconhecerão, ainda não existem. Anarquistas para o primeiro-ministro grego, a velha tralha para Filipe, estão em movimento. Entretanto, o lamentável Gama repreende os deputados faltosos, e esse Batista que o PS hoje alcandorou a porta voz parlamentar e é uma glória da camorra coimbrã, discute , como um contabilista, se é recessão ou não o que vivemos.
Nós jogamos xadrez.

Luís Januário, A Natureza do mal, via 5 Dias

Publicado por [Rick Dangerous] às 04:10 PM | Comentários (1)

Programa para Domingo à noite, se estiverem em casa

Apanha-se por aí muitas vezes o debate sobre qual será o melhor programa de entretenimento da televisão portuguesa: O “Zé Carlos" ou os "Contemporâneos” .

Como tantas vezes acontece, o debate passa ao lado das questões essenciais e como tantas vezes acontece, o Spectrum mete o dedo na ferida e põe os pontos nos iis.

Os melhores programas são o do Bruno Aleixo e Um Mundo Catita, que passam hoje - Domingo - na SIC Radical e na RTP2, respectivamente.

Publicado por [Saboteur] às 03:22 PM | Comentários (7)

dezembro 12, 2008

A paz social paga-se cara

Observar os motins gregos a partir de Portugal apresenta-se como uma tarefa difícil. A facilidade com que milhares de pessoas enfrentam a polícia nas ruas, destroem bancos e atacam esquadras, ocupam escolas e incendeiam carros, parece surpeender a maioria dos comentadores. Da parte dos blogs de direita por exemplo, não se viu ainda qualquer comentário digno de registo. Da parte dos jornais, as explicações sociológicas são pouco mais do que primárias. E da parte da esquerda, por fim, o desconforto não se esconde.

No «Avante!» a coisa não merece grandes interpretações ou desenvolvimentos. Trata-se de uma «explosão social», mas que fundamentalmente diz respeito aos camaradas do KKE. Em todo o caso, Manuel Gouveia não quis perder a oportunidade de dar uma no cravo e outra na ferradura: Por um lado "Os comunistas não veêm o assassinato de Alexandros-Andreas Grigoropoulos como um acto isolado, vêem-no com o resultado «de uma orientação e educação das forças de segurança contra o povo, contra o movimento popular e operário, contra a luta da juventude», e enquadram as crescentes medidas repressivas do Estado «na ofensiva contra os direitos da juventude ao emprego com direitos e à educação». E responsabilizam o governo e as classes dominantes: «O seu objectivo é provocar o medo nos trabalhadores e na juventude».
Por outro:"Os comunistas não condenam a justa indignação popular. Alertam que «as pilhagens e o vandalismo não têm nada a ver com a luta do movimento popular, e que estas acções legalizam a violência e o autoritarismo, e são usadas como um alibi pelos governos para esconder o facto de que os alvos da repressão estatal são o movimento operário e popular».

Daniel Oliveira fala-nos de uma faísca e explica o que aconteceu: "Quando as instituições não respondem, a política passa para a rua".
O mais confuso é, como habitual, Miguel Portas: "As informações disponíveis indicam que à frente dos protestos violentos estejam grupos anarquistas e que a estes se associem jovens desempregados e revoltados, que pouco têm a ver com as universidades. Os acontecimentos estão a polarizar grupos de jovens radicalizados e/ou desesperados de um lado, e as forças de repressão do outro, deixando de fora a grande maioria dos estudantes. Quanto à greve, paralisou o país porque foi eficaz nos sectores estratégicos. Mas não foi por acaso que os sindicatos desconvocaram as manifestações que tinham previsto, para não serem apanhados na armadilha da violência."
Continua com uma análise que é todo um programa: "O Synaspismos, que na Grécia corresponde, grosso modo, ao Bloco de Esquerda em Portugal, solidarizando-se com os estudantes e criticando a actuação policial, considera que a possibilidade de resultados depende da recondução do protesto a formas de luta pacíficas e de massa. Este partido e a coligação de forças de esquerda radical a que pertence, é influente no movimento estudantil e encontra-se em crescimento eleitoral acentuado."
E acaba em grande: "O prolongamento da violência cruzada só interessa, neste momento, aos seus protagonistas. O risco, óbvio, é o de que a maioria da população passe da simpatia ou da passividade a uma exigência de mão dura e que o governo, que se encontrava nas lonas, acabe por recuperar posições através da intensificação da acção policial ou mesmo do exército."

Comecemos pela opinião de Manuel Gouveia, que é a do partido estalinista grego. Por um lado, a natureza repressiva da polícia grega tem como objectivo amedrontar os trabalhadores e a juventude, sendo a violência estrategicamente empregue e nada tendo de «acidental». Mas por outro, a resposta violenta a essa violência - ou seja, "as pilhagens e o vandalismo" - são um alibi para a repressão estatal. Note-se a batalha que aqui se trava contra a lógica: o que é inicialmente definido como um resultado da estratégia do governo transforma-se depois na consequência de actos de pilhagem e vandalismo. O ponto essencial desta análise reside numa formulação subtil - a "orientação e educação das forças de segurança contra o povo" - que cospe na cara da definição leninista do Estado para abrir a possibilidade de uma «orientação e educação das forças de segurança a favor do povo». No dia em que o KKE estiver no Ministério do Interior grego, os trabalhadores e a juventude poderão perder o medo. Um pouco como acontece na China. E até lá, cuidado com os «provocadores» que assustam a opinião conservadora e «objectivamente» facilitam o trabalho da repressão.
Passemos agora à formulação do Daniel. Os jovens queimam carros porque as instituições não dão respostas satisfatórias. Também aqui há um pressuposto que subtilmente emerge. Se tivesse havido uma resposta satisfatória das instituições, a política não teria passado para as ruas. E portanto, se não se quiser ver coisas destas a acontecer em Portugal, é bom que «as forças políticas», a «sociedade» e todas as outras expressões genéricas e dotadas de uma universalidade duvidosa, se «entendam», se «esforcem», «trabalhem em conjunto» enquanto há tempo. Há aqui um discurso que se dirige a uma concreta comunidade parlamentar e mediático. Uma conversa em família no seio do establishment, um «quem te avisa teu amigo é», um estado preventivo, um eco longínquo do célebre «Quem adia reformas prepara revoluções».
Por último, Miguel Portas. Há anarquistas «à frente» dos protestos (presume-se que não nos esteja a dizer que eles estão literalmente na parte da frente das manifestações e nas primeiras linhas do confronto, mas sim que estão a «comandar» a coisa), uma vez que «todos sabemos» que nada disto se faz sem existir alguém a mandar.
Os jovens estão «desesperados». Parece ser a mais idiota das afirmações possíveis numa situação destas. Quem está desesperado não faz nada e espera que a coisa passe. Haverá alguém na Grécia que corresponda a esta descrição? Sim, há o governo e a oposição.
Quem corre riscos, enfrenta a polícia e ocupa escolas dá provas de tudo menos de desespero. O que temos visto na Grécia na última semana tem sido, acima de tudo, determinação e uma aguda consciência de que isto se voltará a repetir regularmente se não houver uma resposta à altura.
Nada tenho de relevante a dizer acerca do crescimento eleitoral do equivalente grego do Bloco de Esquerda, a não ser que espero que ele seja reduzido. Fica esta reflexão estratégica de Miguel Portas segundo a qual a radicalização do confronto «objectivamente» faz o jogo da reacção. Para tanto, não seria necessário ter abandonado o PCP. É exactamente aquilo que dizia Álvaro Cunhal em 1974.

A desinformação da imprensa não é grave, porque podemos acompanhar os acontecimentos gregos através da internet e formar um pensamento próprio sobre o tema. Os factos parecem ser teimosos, uma vez que o conflito prossegue aberto e alargado a uma grande quantidade de pessoas. A solidariedade internacional também tem sido alargada e os sites com informações continuam a abrir. O que se passa na Grécia diz-nos respeito a todos, porque se trata de um acontecimento da história universal a desenrolar-se sobre os nossos olhos, em que um Estado perde, de facto, o controlo momentâneo sobre o seu território e o estéril debate sobre legalidade e ilegalidade sai da sua órbita habitual. Há donas de casa a queimar bancos, há cinquentenários a lançar cocktails molotovs, há adolescentes a cercar esquadras. O habitual jogo semântico de destacar do seio de um movimento social o punhado de «violentos», «extremistas», «vândalos», «desordeiros» tornou-se impraticável, porque a revolta nas cidades gregas há muito ultrapassou essas dimensões. E falar de uma predisposição natural dos gregos para a luta de rua também não parece explicar o que se passa. As tradições e experiências de luta anteriores são sem dúvida importantes, mas fica por provar que a sociedade grega seja mais violenta, por exemplo, do que a sociedade portuguesa. Parece legítimo afirmar que ela é menos obediente e conformista.
200 milhões de euros, segundo uma estimativa cautelosa. Os prejuízos de uma revolta podem agora ser rigorosamente contabilizados e todos passámos a saber o preço da paz social. Eis uma contabilidade mais difícil de ocultar do que os activos financeiros do BPN.

Publicado por [Rick Dangerous] às 06:59 PM | Comentários (12)

Mais um para a longa lista de Esther Mucznik


"Quando me perguntam se reconheço o direito de Israel existir, respondo: "Mostrem-me onde fica a fronteira." Inclui ou não Jerusalém? É com o "muro", a que nós, jornalistas, cobardemente, chamamos "vedação" ou "barreira de segurança"? Eu digo [aos israelitas]: "Quando souberem quais são as fronteiras do vosso Estado, então perguntem-me se ele tem o direito de existir."[...]
Numa altura em que a narrativa no Médio Oriente é definida por generais, primeiros-ministros e presidentes, eu acho que é preciso oferecer outra narrativa ao mundo. Amira Hass, brilhante jornalista do [diário israelita] "Ha'aretz", ensinou-me o que um correspondente internacional deve fazer: vigiar os centros de poder. Devemos sempre desafiar a autoridade, sobretudo quando somos conduzidos com mentiras para a guerra. Se não o fizermos, podemos ir conduzir autocarros ou trabalhar num banco.[...]
Foi depois dos massacres de palestinianos nos campos de Sabra e Chatila pelos milicianos falangistas aliados de Israel. Nesse pesadelo via cadáveres despejados sobre a minha cama. Eu tinha passado o dia a pisar corpos de pessoas mortas. Ainda cheirava a morte, quando a minha empregada de limpeza chegou na manhã seguinte e me aconselhou a queimar as roupas. Foi um pesadelo resultante de uma experiência física directa.[...]
Sim, eu estava em Qana. Era um quartel da força das Nações Unidas no Sul do Líbano [UNIFIL] que os israelitas bombardearam e onde mataram 106 civis libaneses, mais de metade deles, crianças. Eu vi bebés a arder. Parecia uma cena bíblica."

Robert Fisk, um óbvio «anti-semita», em entrevista ao Ípsilon

Publicado por [Rick Dangerous] às 05:36 PM | Comentários (6)

Não temos representante

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Mas não aparece um rosto, um líder, e quando um jornalista da AFP perguntou a um rapaz no Politécnico como tudo estava a acontecer, ouviu: "Não temos representante. Reunimo-nos duas vezes por dia para decidir como vamos continuar os combates"

Quais são as reivindicações dos manifestantes?
Não há nenhuma. Não existe sequer uma organização por trás dos manifestantes. É o mesmo sentimento expressado no filme francês La Haine, de Matthieu Kassowitz [24 horas na vida de três jovens de um ghetto suburbano francês após um motim].
As autoridades culpam o movimento anarquista pela violência nos protestos. Chamam-lhes oportunistas.
Não acredito que exista um movimento anarquista. Não nos deixemos enganar por aquilo que o Governo diz. Os manifestantes entram em confrontos com a polícia porque estão descontentes com a situação económica e social. O desemprego está nos 25 por cento entre os jovens. As novas gerações ganham 700 euros, se tiverem emprego. Eles sentem que o Estado lhes falhou.

Público 12/12/2008

Publicado por [Chuckie Egg] às 12:20 PM | Comentários (5)

dezembro 11, 2008

Por que não dizer parabéns ???

Custou-me, sim, custou-me entrar na “Cinematografia Oliveirista”... até que numa projecção privada, no meio da goute d’or (18ème arrondissement, Paris), impingiram-me esta pérola: “Benilde ou a Virgem Mãe”. Uma verdadeira reflexão sobre o estado de alma da religião feita por Régio adaptado extraordinariamente por Oliveira. Assim, entrei sem querer na engrenagem oleosa da “Cinematografia Oliveirista”!

Ficha Técnica – Benilde ou a Virgem mãe
35 mm 112 mn
Realização: Manoel de Oliveira
Autor Original: José Régio
Produção: Tobis Portuguesa, Centro Português de Cinema/CPC
Direc Produção: Henrique Espírito Santo
Fotografia: Elso Roque
Direc de Som: João Diogo
Montagem: Manoel de Oliveira
Data Rodagem: Set/Out 1974
Patrocínio: Fundação Caloute Gulbenkian
Estreia: Apolo 70
Data Estreia: 21 Nov 1975

Publicado por [Shift] às 03:32 PM | Comentários (7)

O Spectrum à escuta: «Liberais Bestiais» #2


"Nos últimos dias temos assistido a uma revigorada extrema-esquerda, até mesmo triunfal, a pronunciar o fim capitalismo e do liberalismo económico. Para esta esquerda, agora será a vez do marxismo determinar o funcionamento da economia e da sociedade, e até já organizam congressos para discutir Marx."
Nuno Gouveia, Atlântico

Publicado por [Rick Dangerous] às 03:13 PM | Comentários (1)

Old school


Que as classes dominantes e a administração dos CTT estremeçam de pavor. A velha guarda do SNTCT regressou ao serviço:
Ao pretender atingir o SNTCT e com isso promover os seus amigos da UGT, a actual gestão dos CTT, uma gestão de pacotilha e de segunda escolha, exigiu o regresso dos Dirigentes Nacionais do SNTCT aos seus locais de trabalho sob ameaça de corte de salários, desrespeitando a Lei e o AE-CTT 2006 que os abrange e que se mantém em vigor. Se com tal procedimento pensava a ADM.-CTT esvaziar o SNTCT de direcção e de capacidade de luta, enganou-se.

Os Dirigentes do SNTCT vão continuar a sê-lo nas instalações do Sindicato, nos locais de trabalho dos CTT e nos seus próprios locais de trabalho. Não é com isso que nos vão retirar a razão neste conflito. Não é com atitudes mesquinhas como estas que vão quebrar o SNTCT. A partir de hoje o primeiro “batalhão” de Homens e Mulheres da velha guarda do SNTCT estará ao serviço em todas as sedes do SNTCT e onde for necessário. São apenas o primeiro grupo dos que, embora aposentados, responderam à disseram “presente” e largam temporariamente o seu merecido descanso e as suas famílias e afazeres para voltarem à luta. E se a Adm.-CTT julga que a família SNTCT se esgota neste primeiro “batalhão” engane-se. O “exército” SNTCT tem muita mais gente na reserva pronta a entrar em acção.

Publicado por [Rick Dangerous] às 01:20 AM | Comentários (3)

Agora numa vertente estéticamente mais cuidada.

Publicado por [Party Program] às 12:14 AM | Comentários (9)

dezembro 10, 2008

Puta Vida Merda Cagalhões - o grande Nel Monteiro com a banda sonora da crise (10 anos depois)

"Quando o homem se convencer que a modernização do mundo terá de começar por acabar com a pobreza, aí sim, teremos um mundo melhor!"

Nel Monteiro, in "Puta Vida Merda Cagalhões"

"Puta Vida Merda Cagalhões"

"Por não ter condições de vida
E ver sinais de mal a pior
Desculpem a linguagem
Mas não tenho outra melhor
Desculpem a linguagem
Mas não tenho outra melhor
É muito duro ser pobre
E mais duro é com certeza
Um pobre ser toda a vida
A lixeira da nobreza
Um pobre ser toda a vida
A lixeira da nobreza

Puta vida merda cagalhões
Porque será que tem que ser assim?
Os casebres e as mansões
Desigualdade sem ter fim

Puta vida merda cagalhões
Até parece que sou filho do azar
Pois até o Euro Milhões
Só merda me está a dar

A Expo 98
Tanta nota ali perdida
E tantos pobres pedintes
Sem terem nada na vida
E tantos pobres pedintes
Sem terem nada na vida
Não é defeito não ter
Nem para cagar, um penico
Defeito é ir tirar
Ao pobre para dar ao rico
Defeito é ir tirar
Ao pobre para dar ao rico

Puta vida merda cagalhões
Porque será que tem que ser assim?
Os casebres e as mansões
Desigualdade sem ter fim

Puta vida merda cagalhões
Até parece que sou filho do azar
Pois até o Euro Milhões
Só merda me está a dar

Estádios de futebol
Oferta de mão beijada
A quem já ganha milhões
E milhões sem ganhar nada
Ser pobre não é defeito
E ser rico também não
Defeito é ver um pobre
E não lhe dar um tostão
Defeito é ver um pobre
E não lhe dar um tostão

Puta vida merda cagalhões
Porque será que tem que ser assim?
Os casebres e as mansões
Desigualdade sem ter fim

Puta vida merda cagalhões
Até parece que sou filho do azar
Pois até o Euro Milhões
Só merda me está a dar

Aquela Casa da Música
Que não tem nada no Porto
Um insulto a quem não tem
Um minuto de conforto
Um insulto a quem não tem
Um minuto de conforto
Os vintes e dois mil milhões
Todos sabem para onde vão
Para a Ota e TGV
E não vai sobrar tostão
Para a Ota e TGV
E não vai sobrar tostão

Puta vida merda cagalhões
Porque será que tem que ser assim?
Os casebres e as mansões
Desigualdade sem ter fim

Puta vida merda cagalhões
Até parece que sou filho do azar
Pois até o Euro Milhões
Só merda me está a dar

Publicado por [Renegade] às 11:11 PM | Comentários (1)

Só falta o Alegre e a Roseta

Quando o Saboteur e o Daniel se juntam no apoio à insurreição grega, ou pelo menos a uma tentativa da sua comprensão dela, sabemos que amanhã pode ser um dia interessante.

Quedemos amanhã! os de sempre que tragam passa-montanhas extra para os que agora se juntam à acção directa! Daniel eu levo um pa ti amigo!

Os manifestantes não pouparam o centro histórico.

Ainda não é conhecida a reacção de Zeus, deus dos gregos.

No intervalo dos confrontos os manifestantes recuperam forças com Afrodite

Publicado por [Party Program] às 07:27 PM | Comentários (4)

Athens by night

athens.JPG

Publicado por [Rick Dangerous] às 07:26 PM | Comentários (1)

Pornografia Okupa

Barricada no meio da estrada
Contra a policia molotovs e pedrada
Esta é a nossa vingança
Vamos morrer todos

Caos na rua, tá tudo a arder
nenhum respeito pelo poder
Não te perguntam nada e a tua vida é roubada
Não fiques sem fazer nada grita mas é bem alto
Destruição!

Barricada no meio da estrada
Contra a policia molotovs e pedrada
Esta é a nossa vingança
Vamos morrer todos

Dizem que a vida já não me diz nada
Que o sistema só me dá é buracos
são uns frustrados, querem-me um farrapo
Não te perguntam nada e a tua vida é roubada
Não fiques sem fazer nada grita mas é bem alto
Destruição!

Caos na rua, tudo a arder X2
Tudo a arder X2
Não te perguntam nada e a tua vida é roubada
Não fiques sem fazer nada grita mas é bem alto
Revolução!

Farrapos, Barricada. (A música é optima mas não existe online)

Esta semana tem sido pura pornografia okupa no prime time.

Publicado por [Party Program] às 07:02 PM | Comentários (4)

Dos motins na Grécia # 3


"O tempo passado e o tempo futuro
O que podia ter sido e o que foi
Tendem para um fim, que é sempre presente."

T.S.Eliot

Publicado por [Rick Dangerous] às 06:36 PM | Comentários (2)

Dos motins na grécia # 2


"Quando chegaram ao mesmo sítio para se enfrentarem uns aos outros, brandiram todos juntos os escudos, as lanças e a fúria de homens de bronzeas couraças; e os escudos cravados de adornos embateram uns contra os outros e surgiu um estrépido tremendo. Então se ouviu o gemido e o grito triunfal dos homens que matavam e eram mortos. A terra ficou alagada de sangue.
Tal como os rios invernosos se precipitam das montanhas, atirando juntos o enormel caudal para a embocadura de dois vales, e das poderosas nascentes que vêm lançar as águas num oco desfiladeiro, e lá longe nas montanhas o pastor chega a ouvir-lhes o estrondo - assim era o eco e o terror dos que embatiam uns contra os outros"

Homer, Ilíada, Canto IV, 446-456

Publicado por [Rick Dangerous] às 06:06 PM | Comentários (2)

Dos motins na grécia


"Nem acreditava naquilo que via. Tudo... todas as lojas, todos os sinais de trânsito, em todo o centro - tudo partido e queimado. Mal conseguia acreditar."
Em Patras, um furioso bloco de manifestantes cercou a principal esquadra de polícia poucas horas após o assassinato. Foram feitas as primeiras cinco detenções. No dia seguinte, um conhecido poeta local, na casa dos 50, caminhou em direcção à esquadra da polícia, sozinho. Abriu calmamente o seu saco e, um após outro, acendeu e atirou os três cocktails molotov que tinha guardados. Uma nova forma de poesia?

On the greek riots

art.alexandros.grigoropoulos.ap.jpg

Publicado por [Rick Dangerous] às 05:27 PM | Comentários (2)

Greeks do it better

Publicado por [Saboteur] às 01:45 AM | Comentários (19)

dezembro 09, 2008

Asians do it better

Publicado por [Rick Dangerous] às 04:02 PM | Comentários (5)

dezembro 08, 2008

Poesia de Rua #45

GEDC0131.JPG

Já há muito tempo que não tinhamos esta rúbrica que enche os corações de alguns camaradas de ternura.

Na foto, a parede branca, limpa, fascista, leva esta bela inscrição que celebra a liberdade de expressão individual, a luta popular pelas energias renováveis e a solidariadade com os vizinhos cujas vidas também estão em perigo.

Publicado por [Saboteur] às 08:10 PM | Comentários (12)

Os homens do presidente


Dias Loureiro foi sócio de Abdul Rahman El-Assir, traficante de armas libanês que também priva com D. Juan Carlos (porqué no te callaste?) e com o King Hassan II de Marrocos. Uma curta nota biográfica sobre El-Assir, que forneceu armas a todos os conflitos africanos das duas últimas décadas, feita pelo El Mundo.
Dias Loureiro é conselheiro do Estado. Aqui fica, então, um bom conselho.

Publicado por [Rick Dangerous] às 04:32 PM | Comentários (1)

dezembro 07, 2008

Incompetência e desqualificação intelectual

"Vasco Pulido Valente publicou no dia 16 um artigo intitulado Marx e a crise, no qual procura dizer toda a verdade sobre o Congresso Internacional Karl Marx e revelar ao país as verdadeiras intenções dos organizadores. O artigo possui o estilo a que o autor habituou os seus leitores e, na verdade, a única coisa que sobra do artigo é justamente esse estilo, que consiste num recurso repetitivo à ironia e ao cinismo. Com o passar dos anos, o recurso incessante ao rancor e ao sarcasmo tem levado o autor a descurar o método das suas análises: em V.P.V., trata-se hoje do método do "evidentemente", pelo qual anuncia o que entende ser um conjunto de evidências. Assim, discorre acerca do que designa como "previsões de Marx", afirma que o proletariado desapareceu ou ainda que Marx escreveu fundamentalmente acerca da sociedade inglesa de meados do século XIX. Sem surpresa, em relação a estas e outras questões, a animar o antimarxismo de V.P.V. acabamos por encontrar uma concepção ortodoxa do próprio marxismo. Em relação às famigeradas "previsões de Marx", o Marx de V.P.V. em pouco se distinguirá das teses mais simplistas do socialismo científico. Não surpreende, por isso, que V.P.V. se limite a tomar um pensador como Marx (mas poderíamos dizer o mesmo de Adam Smith, Carl Schmidt ou outros) com a mesma leviandade com que julgará as previsões do meteorologista de serviço cujas previsões falham ou acertam. Quanto à extinção do proletariado, a sua afirmação só é possível na medida em que o Marx de V.P.V. partilha duas características definidoras de um marxismo ao qual se contrapuseram inúmeros marxismos: por um lado, a ideia de que só a classe operária industrial é proletariado; e, por outro lado, o provincianismo nacionalista que desde logo ignora os processos de proletarização industrial em curso em países como a China ou a Índia.
Diz ainda o autor do artigo que os organizadores do congresso se pretendem aproveitar da presente crise económica para mostrar que o marxismo não está morto. E aqui entramos no domínio dos efeitos alucinantes da preguiça: com efeito, um pequeno esforço reflexivo ter-lhe-ia permitido concluir que um congresso com cerca de 150 comunicações, e investigadores de vários países, terá necessariamente implicado um processo de trabalho demorado. Talvez porque o Marx dos organizadores do congresso não seja o mesmo Marx de V.P.V., lamentamos não possuir os dons de adivinhação que nos teriam permitido prever, logo em 2007, a crise que agora surge. Entretanto, a nossa incapacidade de adivinhação permite ainda um último reparo. Afirma V.P.V. que o colóquio finge discutir Marx, quando, na verdade, discute a extensão do poder do Estado. Ora, aqui chegados, torna-se ainda mais claro que V.P.V. não sabe do que está a falar. Com efeito, um mínimo de conhecimento acerca de alguns dos conferencistas (e bastava "googlar" o nome dos dois conferencistas da primeira sessão plenária: Alberto Toscano e Paolo Virno) permitiria perceber que vários dos autores presentes não só não desejam a extensão do poder de Estado como pretendem inclusivamente pensar a política para além do Estado; que outros comunicadores, é verdade, defendem posições mais ou menos estatocêntricas; e que outros nem sequer abordam a questão do Estado, tendo sido justamente esta diversidade de propostas e este conflito entre diferentes correntes marxistas (e não marxistas) que entusiasmaram os organizadores do congresso.
Provavelmente, nada disto impedirá que V.P.V. se reivindique, uma vez mais, como a "verdadeira consciência" do congresso. Do alto do seu antimarxismo, V.P.V. expõe-se hoje como um dos melhores intérpretes de um marxismo de pacotilha: ausente do congresso, e, "apesar" do que se discutiu no próprio congresso, V.P.V. resolveu elaborar a "síntese final" que ninguém propôs elaborar. Deste seu exercício resultou uma pequena farsa. Esta pequena farsa pode ser explicada através do seu estilo peculiar de escrita ou em razão do seu posicionamento político-ideológico: contudo, do que a nosso ver se trata é do seu desconhecimento acerca dos debates políticos e ideológicos que hoje atravessam o difuso campo marxista, de autores como Daniel Bensaid e Negri a autores como Badiou ou Meszaros. Que V.P.V. não tenha pejo em demonstrá-lo publicamente tal não é reflexo do seu estilo intempestivo e inofensivo que nos vai entretendo: é simplesmente sinal da sua actual incompetência e desqualificação intelectual. Por isso este nosso texto não é tanto um protesto como um lamento: lamento pelo facto de serem raras as vezes a que, em Portugal, no espaço mediático, os marxismos têm direito a uma oposição baseada numa crítica trabalhada e inteligente. "

Bruno Peixe e José Neves
Membros da comissão organizadora do Congresso Internacional Karl Marx
(22 de Novembro de 2008 do PÚBLICO)


Publicado por [Rick Dangerous] às 04:14 PM | Comentários (7)

«Honesta e gaiteira» : rói-te de inveja Justin Timberlake

Publicado por [Rick Dangerous] às 03:32 PM | Comentários (1)

Um post domingueiro II

"Se antes de irdes comungar chupardes um cavalheiro, sobretudo evitai engolir o esperma, pois desse modo deixarieies de ficar em jejum, como deveis".

Louÿs, Pierre, Manual de Civilidade para Meninas, Fenda. (página 46)

Publicado por [Paradise Café] às 03:30 PM | Comentários (5)

Um post domingueiro

"Não toqueis punhetas a sete ou oito rapazes campónios para dentro de um copo, a fim de beberdes o esperma com açúcar. Isso criar-vos-ia má fama em toda a região".

Louÿs, Pierre, Manual de Civilidade para Meninas, Fenda. (página 61)

Publicado por [Paradise Café] às 03:00 PM | Comentários (1)

Isto assim não pode ser!

prego.jpg
Alguns dos nossos leitores/comentadores já nos andam a acusar de estarmos com desvios à linha que sempre nos uniu.
Já não somos comunas da linha dura, já não somos revisas, já não somos renovas.
Agora desatamos a bater no BE por tudo e por nada.
Pá! Assim não pode ser. Vamos lá a ver se metemos ordem nisto. É urgente um toque a reunir, uma reunião daquelas em que no final «foi visto» que qualquer coisa para darmos ao blog a ideia de que somos coerentes.
Ou então não.
Hoje é domingo e ainda é cedo para eu ter saído da cama...

Publicado por [Bomb Jack] às 11:49 AM | Comentários (4)

dezembro 06, 2008

Depois da farsa, a comédia

Estes gajos do Bloco de Esquerda são um prato. Primeiro fogem do Sá Fernandes como o diabo da cruz, ou melhor, como uma virgem foge do diabo. Agora vêm abrir os bracinhos à Helena Roseta porque ela tem "um movimento forte em Lisboa, uma oposição com propostas e [que] tem uma preocupação com os problemas dos lisboetas" e que será uma das participantes no Fórum das Esquerda que juntará o Bloco e Manuel Alegre no próximo dia 14 de Dezembro. Realmente, isto de ser de esquerda e querer mais votos já dá para tudo. Será pedir muito a estes apóstolos da esquerda que vinha renovar a política um esboço de coluna vertebral?

Publicado por [Renegade] às 09:17 PM | Comentários (1)

Afinal havia outra...

Louçã fez questão de acentuar que a vereadora Helena Roseta tem "um movimento forte em Lisboa, uma oposição com propostas e que tem uma preocupação com os problemas dos lisboetas"

Publicado por [Saboteur] às 09:15 PM | Comentários (7)

Self-Tortura... o hospício cá da casa!

Há anos que que não me dava ao luxo/tortura de ler um livro inteiro numa banheira cheia de água. Por um lado, por razões que me impingiram ser de ordem ecológica, por outra, por razões de inexistência de banheiras nos pequenos apartamentos parisienses, e por fim, por uma simples questão de tempo.
Quando a banheira encheu meti um dedinho do pé na água, pareceu-me racionalmente moderada, pelo que contente mergulho brutalmente o pé inteiro. Claro, logo me queimei pois a sensibilidade de um dedinho não é a mesma de uma grande superfície de pele! Não desejei meter mais água fria para dosear a temperatura, teimosamente meti o outro pé com a intenção de me habituar à força. Os pés estavam conquistados. Faltava agora converter as minhas nádegas carnudas à água ardente. Enquanto elas se submetiam, a pele sensível das costas apelou punjentemente, no limite de uma queimadura de 2°grau, à abertura urgente da torneira fria.
A tortura da água a ferver no momento da entrada extinguiu-se à medida que a água fria se misturou, dando lugar por sua vez e finalmente a um momento de prazer numa banheira com água morna. 18h30 da tarde. Limpei as mãos à toalha que se encontrava perto de mim, alcanço um pequeno livro que tinha comprado uma hora antes e começo a lê-lo relaxadamente.
Vinte minutos passaram-se, senti o corpo resfriar pelo que optei por esvaziar um pouco a banheira e, ao contrário do início, abri agora a torneira da água quente, sentindo um bem estar imediato. Aos vinte minutos estava de plena consciência que precisava de conservar um equilíbrio de temperatura.
Trinta minutos depois, ou seja, às 19h20, a minha consciência começou a esmorecer pelo resfriamento do corpo. Mas uma ideia não me saía da cabeça, meter mais água quente iria radicalmente contra os meus princípios ecológicos. Portanto duas opções apresentavam-se, ou saía da banheira ou sacrificava-me ao frio ainda suportável.
O livro avançava, o meu sofrimento era cada vez maior e a minha consciência não me deixava agir. Sentia o meu corpo maior do que a banheira.

As 19h40. Estava fora de qualquer racionalidade, encontrava-me mergulhada de corpo e alma no interior do livro. Tinha, no entanto, uma ligeira noção que a minha pele se enrugava, que os meus dentes telintavam e que as minhas unhas se encarquilhavam. Havia ainda e apesar de tudo uma réstia de tortura da minha própria consciência... “talvez fosse melhor fugires desse inferno, para a tua integridade física e psicológica...”
As 19h50... a minha consciência estava aniquilada. O mau estar aparente de me encontrar imersa numa banheira de água fria já não fazia sentido em relação à emoção da informação que o livro impulsionava.
Cerca de quinze minutos depois acabo o livro. Fico dois minutos inerte a digerir o acto de ter terminado o livro. Levanto-me repentinamente, ligo o chuveiro com água quente. Já não tinha tempo e condições para me lavar com o shampoo nem com sabão, seria o extremo do suplicio. Saio da banheira, olho-me para o espelho, os meus lábios estavam azuis, os meus olhos vermelhos, os meus seios verdes. Como se tivesse sido sujeita à tortura da água, digna de um regime ditatorial salazarista ou de um regime republicano francês na Argélia.

Tudo isto não faria sentido, se o livro lido durante uma hora e meia não fosse “La Question” d’Henri Alleg.

Publicado por [Shift] às 05:56 PM | Comentários (3)

And now, for something completely different

Um comentador - Larry - disse ontem que "o Spectrum estava a abandonar as suas raízes "renovadoras" para se tornar num hospício" (curiosamente hospício não levou aspas...)

Ontem também, no Bairro Alto, disseram-me uma coisa semelhante. ...Seria a mesma pessoa?

Por via das dúvidas, numa tentativa de "meter ordem na casa", o que me dizem da última sondagem da Marktest?

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Publicado por [Saboteur] às 11:41 AM | Comentários (9)

dezembro 05, 2008

I love womenage

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Chuckie curva-se perante o womenage à trois

Publicado por [Chuckie Egg] às 04:44 PM | Comentários (7)

Quando a tristeza vendeu t-shirts o Gaia apelou aos livros de anedotas

Passando por um blog cujo conteúdo ainda estou pra decidir se acho minimamente de jeito ou não, encontro esta "notícia" que me faz perder alguns minutos no mundo das sub-culturas urbanas. Os emos, essa aberração da cultura do espectáculo, e cuja caracterização me atrevo a não fazer (viva a wikipédia uma vez por ano) sob pena de ficar deprimido com as tristezas dos outros, andam a levar chapadas que é obra no méxico (e esperemos que não só). A parte dos hare krishnas compõe um bouquet digno de fazer saltar a tampa a qualquer minhoca pensante.

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Ora esta malta, se é que se pode usar algum tipo de palavra que os caracterize enquanto grupo, parece ser fã das mais estúpidas posições tipicamente adolescentes. E, queixinhas-lamúrias que são por definição, parecem ficar muito chateados quando os punks lá da zona lhes vão à tromba. E é aqui que a pescadinha torce o rabo e o enfia na boca, ora então se eles gostam de estar tristes, como não encarar isto como mais um motivo para prolongar o estado de alma?

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Bom, mas como dizia, roubei ao patrão alguns minutos da minha força de trabalho para andar a tentar perceber o alcance desta estupidez e encontro, no melhor registo já definido anteriormente destes gajos cuja franja só me faz lembrar uns cães que ganem mais que ladram e que parecem andar sempre à nora do que os rodeia, um vídeo que só por si já é tão mau que é bom, acompanhado por frases que os definem melhor que qualquer entrada de enciclopédia virtual. A saber: "demuestren que los ideales que defendia Johnny Rotten, o aquello en lo que creia Jhonny Ramon no es mentira y que el verdadero espiritu Punk esta aun latente ahí afuera, nunca un Punk aquel que se haga llamar un verdadero Punk atacaria a otro ser humano solo por vestirse diferente y menos diria "Se ven raros" porque ellos defienden presisamente la reveldia al igual que cualquier otro genero del rock, lo que paso en Mexico fue asunto de POSERS y nada mas, malditos mierdas que quieren romper las cadenas que nos unen como hermanos en este genero musical.". O tom das frases no vídeo dizem o resto, se necessário fosse.

Posto isto, decidi que apesar de gostar imenso de roubar minutos ao patrão, embora normalmente para fins mais nobres que os de hoje, achei imperativo usufruir deste recém-adquirido conhecimento sobre as tribos urbanas para fazer um paralelismo com um comentário aqui no blog sobre o dia sem compras, mais precisamente o de um tal de artur palha. Ora o artur, que até deve ser um gajo fixe senão não vinha aqui lêr os nossos posts, depois de 2 parágrafos a desmarcar-se do Gaia e mais um que nem sei bem que lhe chame, acaba com uma lamúria típica destas posições com qualquer coisa como "estas guerrinhas de sempre" e "insulto fácil" etc etc....

Então é assim artur, antes de mais, insulto fácil é mais é couves, aqui refina-se o insulto a um nível que não atingirás nem lendo as entrevistas todas do Luiz Pacheco, se para nós isso se torna fácil é porque o Gaia ajuda, e se isto é a guerrinha de sempre é exactamente porque essas acções também são o activismo de sempre, importado de redes activistas de outros países com outro curriculum activista e vendido ali na banca do lado como peixe fresco, embore cheire pior que os sovacos da malta do 36 às 19 da tarde a caminho de casa. E para continuar a parte estética do post, o penteado do Gualter Barbas-de-Milho Baptista remete mais para os supra-citados hare krishnas e potlachs de arroz integral do que para discussões sérias sobre a utilidade do decrescimento do consumo.

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Em poucas palavras, eles (tu?) são emos e nós somos punks. Mas como sou pouco dado a violências e ainda corro o risco de seres um gajo grande que me conhece, ou de ser acusado de sectarismo quando os tempos deviam ser de unidade (dizes tu), aqui fica a minha chapada virtual. Não leves isto a mal, leva isto a sério. Ainda pra mais é sexta-feira e nem tenho mais nada que fazer nem vejo melhor maneira de ajudar a revolução do que a insultar estas pseudo-acções.

Publicado por [Chuckie Egg] às 11:37 AM | Comentários (31)

O Zé faz falta!

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Publicado por [Saboteur] às 11:09 AM | Comentários (4)

dezembro 04, 2008

"Prognósticos, só no Finibanco"

O sistema financeiro está em crise e todos os Bancos temem pelo o seu futuro.

Todos? Não…

Há um pequeno Banco em Portugal que – acredito – goza de excelente saúde financeira e que deve estar sólido que nem uma rocha. Tudo graças à aplicação dos métodos nacionais mais avançados de gestão que fizeram o que este país é hoje.

Falo, claro, do FINIBANCO.

O Finibanco, por exemplo, está agora com uma campanha de angariação de poupanças. Remunera garantidamente a 3,5% os depósitos, mas se o cliente acertar em alguma das equipas que fica nos primeiros 4 lugares do campeonato de futebol, pode ver a sua taxa de juro subir 1% por cada posição correcta.

Mais! Se o cliente acertar os 4 primeiros classificados, a taxa de juro será de 11%!

Fantástico, não é? Imaginem o Director Financeiro com a sua folhinha em Excel a verificar os cenários para o ano: Temos 50 milhões de euros aplicados… vamos ter de pagar em juros entre 1,75 Milhões e 5,5 Milhões, conforme o Leixões se aguentar…

Uma pequena variação de mais de 200%, que obviamente não é problema nenhum para os tempos que correm. Se correr mal, a CGD há-de emprestar dinheiro.

Publicado por [Saboteur] às 12:14 PM | Comentários (19)

You got to give them hope

Chumbawamba - Homophobia

Durante anos pensa-se que não tem nada a ver connosco. Um dia (muitos dias) olhamo-nos ao espelho e vemos o reflexo a mudar sem que o corpo reflectido mude. Depois, é preciso ir passando de um lado ao outro do espelho, procurar adequar o que se é à imagem que se foi construindo (muitos dias) e é já quase tão real como o resto. Tão difícil como atravessar o espelho é mudar a nossa percepção da ideia que os outros têm de nós. E claro que a pior doença torna tudo isso um bocadinho mais difícil, sobretudo quando já não se estava à espera de comprar esta luta tão tarde no campeonato. Mas se até Hollywood já promove o activismo político da causa com grande estardalhaço, só se pode estar no bom caminho. Algumas almas mais excitadas já falam em óscares para a coisa. Chega cá em Fevereiro, ao que parece.

Publicado por [Renegade] às 12:58 AM | Comentários (5)

dezembro 03, 2008

Intervenção Musculada !

Testemunho de um professor sobre uma intervenção policial musculada que interrompeu o desenrolar normal de uma das suas aulas. Bem-vindo à França-sarkozista:

"Témoignage recueilli sur le répondeur de "La-bas si j'y suis", émission de D. Mermet sur France Inter"
http://db-maths.nuxit.net/repondeurLBSJS.mp3

Publicado por [Shift] às 05:49 PM | Comentários (2)

Economia de ponta


O estudo da Faculdade de Economia da Universidade Nova de Lisboa, acerca da gestão do Hospital Amadora-Sintra, encomendado pela José de Mello saúde, SA.

Publicado por [Rick Dangerous] às 04:24 PM | Comentários (3)

SETE REFLEXÕES SOBRE A ACTUAL CRISE João Bernardo


Contrariamente ao que é hábito afirmar na esquerda, tenho defendido desde há bastantes anos a inutilidade de proceder a uma teoria das crises no capitalismo. Cada crise é específica e resulta do facto de o sistema económico, com o agravamento de certas contradições, não conseguir dar uma resposta a obstáculos que noutras circunstâncias seriam facilmente superados. Tudo depende, então, de saber quais as contradições que se agravaram, e este diagnóstico muda de uma crise para outra.
Além disso, as crises sectoriais são frequentemente confundidas com crises globais ou, pior ainda, o funcionamento cíclico da economia é confundido com uma crise. Na verdade, a extrema-esquerda revela nestas ocasiões a sua fragilidade fundamental, esperando que se consiga, graças à crise do capital, o que não se tem obtido pela força própria do proletariado. As luminárias da revolução ainda estão sem decidir se o capital se há-de destruir a ele mesmo ou se há-de ser a classe trabalhadora a destruí-lo. Enquanto andar nesta indecisão, a extrema-esquerda nunca terá uma estratégia própria.
Na minha opinião, a actual crise resulta da conjugação de vários processos.


1) Um dos elementos da actual crise é o declínio dos Estados Unidos como potência económica. Este declínio manifesta-se de maneira flagrante no Iraque, onde os mecanismos estritamente económicos do imperialismo foram substituídos pelos mecanismos bélicos. Compare-se com a actuação dos capitalistas chineses, tanto privados como de Estado, que nos últimos anos têm conseguido uma tão grande quanto discreta penetração em África apenas pelo uso das armas económicas. O facto de os Estados Unidos não terem conseguido fazê-lo no Iraque é sintoma de uma decadência muito profunda.
Não disponho aqui de espaço para delinear, mesmo sinteticamente, os principais traços do declínio económico dos Estados Unidos, mas um dado parece-me bastante eloquente, ao sabermos que, em percentagem do Produto Interno Bruto, os investimentos norte-americanos em infra-estruturas materiais de comunicação e transporte atingem hoje menos de metade (2,4%) dos verificados na União Europeia (5%). Nos Estados Unidos não está a ocorrer apenas uma crise financeira, mas verificam-se problemas que afectam o âmago do processo produtivo.

2) Em íntima relação com o que acabei de apontar, outro dos elementos da crise é o reequilíbrio das potências mundiais. Habitualmente, entre 2/3 e 3/4 dos investimentos externos directos, que aqui se podem definir de maneira simplificada como os investimentos característicos das firmas transnacionais, têm circulado entre três pólos: a Europa, o conjunto Estados Unidos e Canadá, e o Japão. Contrariamente a uma convicção arreigada, as firmas transnacionais não exploram preferencialmente mão-de-obra barata e sim mão-de-obra qualificada, porque é ela a mais produtiva. O que os investimentos transnacionais procuram são as regiões de maior produtividade, onde a economia é desenvolvida e a força de trabalho é sofisticada. Fora daqueles três grandes pólos, o resto dos investimentos externos directos dirige-se sobretudo para a China, a Índia e o Brasil. A China já se afirmou como uma nova potência económica e o Brasil e a Índia estão em vias de sê-lo.

3) Este quadro torna-se muitíssimo mais complexo pelo facto de nas últimas décadas os países terem deixado de constituir verdadeiras unidades económicas e, portanto, os Estados nacionais e os respectivos governos terem perdido a primazia. O que caracteriza os fluxos transnacionais de capital é a capacidade de ultrapassarem todas e quaisquer barreiras alfandegárias, privando os governos das suas armas. Quem queira compreender o b-a-bá desta questão deve lembrar-se de que, quando a administração Reagan, preocupada com o carácter altamente concorrencial dos automóveis exportados pelo Japão, impôs um forte acréscimo das tarifas aduaneiras, as empresas japonesas pura e simplesmente investiram nos Estados Unidos e começaram a fabricar lá os seus automóveis, apressando mais ainda o declínio das companhias automobilísticas norte-americanas.
Com efeito, a maior parte do que as estatísticas continuam a apresentar como sendo fluxos comerciais entre economias nacionais ocorre no interior das firmas transnacionais. Já no final da década de 1980 o comércio entre sociedades e as suas filiais no estrangeiro era responsável por mais de metade do comércio total entre os países da OCDE. Nesta mesma data, 1/3 das exportações norte-americanas dirigia-se para empresas situadas no estrangeiro que eram propriedade de firmas sediadas nos Estados Unidos e outro 1/3 era constituído por bens que empresas estrangeiras com filiais nos Estados Unidos enviavam para os países onde tinham a sede; em sentido inverso, em 1986 cerca de 1/5 das importações dos Estados Unidos provinha de companhias de propriedade norte-americana localizadas no estrangeiro e cerca de 1/3 compunha-se de bens que companhias de propriedade estrangeira situadas nos Estados Unidos adquiriram aos países onde tinham a sede. Se adoptarmos uma visão global, e sempre no final da década de 1980, calcula-se que as vendas totais efectuadas pelas sociedades de propriedade norte-americana, tanto sedes como filiais, às sociedades de propriedade estrangeira teriam sido 5 vezes superiores ao valor convencionalmente atribuído às exportações dos Estados Unidos; ao mesmo tempo, as aquisições por sociedades estrangeiras teriam sido 3 vezes superiores às importações realizadas pelos Estados Unidos. E, nessa data, entre os 12 principais países da OCDE, 11 teriam vendido mais nos Estados Unidos através das filiais norte-americanas de transnacionais sediadas nesses países do que através de exportações. Numa situação em que só são tornadas públicas as estatísticas de base nacional, permanecendo confidenciais as estatísticas elaboradas pelas empresas, estes cálculos são muito difíceis e raros economistas ousam fazê-los, mas tudo indica que os valores verificados para a segunda metade da década de 1980 sejam hoje ainda mais elevados. Tanto assim que, quando agora se fala do carácter concorrencial dos produtos chineses é bom não esquecer que a maior parte do acréscimo das exportações chinesas se deve às filiais de firmas transnacionais implantadas na China.

4) Uma economia mundial em que as nações e os respectivos governos perderam a primazia e em que as companhias transnacionais são geridas por uma rede de pólos interligados e sempre mutáveis não pode mais depender das moedas nacionais.
Em 1970, enquanto as instituições oficiais norte-americanas dispunham no estrangeiro de cerca de 24 milhares de milhões de dólares, os particulares dispunham já de aproximadamente 22 milhares de milhões, e o desequilíbrio continuou a agravar-se de então em diante. Isto significa que, à força de emitir a moeda mundial, a administração norte-americana acabara por perder o controlo sobre essa moeda. Foi este facto fundamental que ditou o desmantelamento dos acordos de Bretton Woods, reconhecido pelo Smithsonian Agreement no final de 1971, uma das datas mais importantes do longo processo de reorganização económica que continua ainda hoje por completar. É impossível os bancos centrais controlarem as moedas nacionais com o actual volume de transacções financeiras, que ultrapassa muito qualquer montante de reservas bancárias. Nenhum banco central pode sustentar a sua moeda se houver movimentos sistemáticos contra essa moeda.

5) É nesta perspectiva que devemos compreender a remodelação do crédito e dos instrumentos financeiros que tem ocorrido nos últimos anos. Fala-se agora muito de «capital especulativo», aparentemente ignorando, ou esquecendo, que esse era um dos conceitos típicos da extrema-direita fascista ou fascizante durante a década de 1930. A esquerda, com toda a candura, reproduz essa terminologia e, o que é pior, essas ideias. Não há contraposição entre produção e crédito. A função do crédito é agilizar a produção, e quando ela atinge a complexidade actual os mecanismos financeiros não podem igualmente deixar de ser muito complexos e diversificados. Numas circunstâncias em que o quadro nacional das economias foi ultrapassado e em que, de qualquer modo, a emissão da moeda clássica é perfeitamente insuficiente para as necessidades, os bancos e as demais instituições financeiras vêem-se a todo o momento obrigados a criar novas formas de dinheiro bancário.
É claro que existem especuladores nos meios financeiros, mas eles existem sempre, tal como existem falsificadores na indústria. Não é por aí que podemos compreender o funcionamento dos mecanismos económicos. Seria bom que de vez em quando os marxistas seguissem o exemplo de Marx, que em O Capital procedeu à crítica do capitalismo não através das suas anomalias mas observando exclusivamente o seu funcionamento normal.

6) Os mecanismos de regulação económica estão a mostrar-se inadequados às necessidades actuais. Com o declínio das nações enquanto quadro económico e, portanto, o declínio dos governos nacionais, as instituições e os mecanismos interestatais ficaram também postos em causa. O grande capital transnacional ultrapassou tudo isto no seu desenvolvimento. Por outro lado, porém, as grandes companhias transnacionais, se se têm mostrado mais ou menos capazes de se regular a si mesmas, não parece que tenham conseguido regular o conjunto do sistema. A alternativa mais viável afigura-se-me ser a de uma nova conjugação entre as grandes empresas transnacionais e novos órgãos supranacionais saídos das instituições internacionais existentes. Tratar-se-ia de fazer à escala mundial o que a China faz já no âmbito da sua economia, conjugando o capitalismo de Estado e as grandes empresas privadas num único mecanismo de tomada de decisões, consagrado pela admissão dos capitalistas privados como membros de um Partido que continua, evidentemente, a chamar-se Comunista.

7) A grande diferença entre este hipotético sistema de regulação que aqui delineei, ou qualquer outro que se lhe assemelhe, e o keynesianismo implantado na sequência da segunda guerra mundial diz respeito à integração dos trabalhadores. No modelo keynesiano, tal como o aplicaram as social-democracias e as democracias-cristãs, a taxa de crescimento económico, o aumento da emissão monetária e a taxa de aumento dos salários resultavam de acordos triangulares estabelecidos entre as confederações patronais, os governos e as centrais sindicais. Porém, para que os sindicatos pudessem cumprir essa função de reguladores do mercado de trabalho era necessário que neles estivesse filiada uma boa percentagem da mão-de-obra. Ora, os sindicatos não mais se podem considerar representantes dos trabalhadores, numa situação em que as taxas de sindicalização caíram drasticamente.
Na Austrália, onde mais de 50% da força de trabalho estava sindicalizada na década de 1970, em 2001 a percentagem reduzia-se a 25%. A evolução foi praticamente idêntica no Reino Unido, passando de um pouco mais de 50% da população activa organizada nos sindicatos na segunda metade da década de 1970 para 30% em 2006. Também na Itália, onde em 1980 quase 50% dos trabalhadores estavam sindicalizados, agora a taxa é inferior a 40%. Nos Estados Unidos, 34% da força de trabalho estava sindicalizada em 1965 e só 12% em 2006. Na Alemanha a taxa de sindicalização manteve-se superior a 30% da força de trabalho até meados da década de 1990, mas em 2003 caíra para 20%. Finalmente, na França, onde os sindicatos organizavam 20% da população activa na década de 1970, em 2006 a taxa era inferior a 9%. São muito raros os países que escapam a esta tendência. Os sindicatos hoje não subsistem enquanto organizadores do mercado de trabalho, função que se tornaram incapazes de desempenhar, mas enquanto detentores de capital. São complexos e variados os mecanismos que têm permitido aos sindicatos apropriar-se, de direito ou de facto, de avultados pacotes de acções, e a questão extravasa os limites deste artigo. Basta aqui dizer que em 2003, dos 17 triliões de dólares a que montavam então os fundos de pensão e fundos mútuos activos em todo o mundo, a administração de 12 triliões ou tinha uma participação sindical directa ou um envolvimento de outros representantes dos assalariados.
Nestas circunstâncias, conseguirão os capitalistas controlar os trabalhadores só mediante a disciplina de empresa e o colossal sistema de fiscalização electrónica instalado fora das empresas? É a esta questão crucial que a luta de classes há-de responder nos próximos anos. Dela depende a evolução da crise e a maneira como será resolvida.

Outubro de 2008

Publicado por [Rick Dangerous] às 04:14 PM | Comentários (17)

dezembro 02, 2008

Sobre o PCP, o imobilismo e o fim do capitalismo

Até um relógio parado está certo duas vezes por dia.

Publicado por [Rex] às 11:20 PM | Comentários (3)

Sai mais uma petiçãozinha...

Volta não volta recebo um daqueles mails que são reenviados para toda a gente. Muitos deles começam assim: "Normalmente não costumo reencaminhar estas coisas, mas este mail..."

Agora estou na mesma.

Não gosto de petições on-line. São fáceis de aldrabar e banalizaram totalmente esse instrumento de luta e pressão sobre o poder político.

Mas a ver se o pessoal assina esta, caramba:

Da Lei do Orçamento de Estado para 2009 consta uma medida de incentivo fiscal à compra de veículos eléctricos ou movidos a energias renováveis não combustíveis, na forma de uma dedução à colecta no IRS de 30% dos custos de aquisição.

No entanto, na sua presente formulação, exclui-se deste incentivo o tipo de veículo comprovadamente mais sustentável e energeticamente eficiente: velocípede.

Os signatários desta petição rogam que o texto da lei seja reformulado por forma a eliminar esta incoerente exclusão.

Recebi via João Branco, do 5 dias... E por falar em Lobby, já votaram na frase do Marco Fortes, no Arrastão?

Publicado por [Saboteur] às 03:20 PM | Comentários (5)

dezembro 01, 2008

Radical Chic

Don Cox, marechal de campo dos panteras negras de Oakland, explicava: "A constituição não tem espaço para uma revolução pacifica: somos pretos, somos maoistas. Pegaremos em armas". O casaco de cabedal, o afro selvagem, as muletas discursivas, o punho que se erguia no fim das frases mais fortes, tudo contrastava com o piano branco de vinte e cinco mil doláres onde estava apoiado. Um piano daqueles não poderia estar ali por diletantismo burguês, outros de preço semelhante cumpririam esse papel, mas este impressionava pela sua solidez, por ser luxuosamente óbvia a sua excelência na função criativa a que se propunha. O pantera negra parecia pouco sensível à qualidade do material e estava pouco preocupado se os seu trajes maculariam ou não a integridade mistica do objecto de Luxo. O seu proprietário, também anfitrião, tinha preparado naquele piano os Beethovens, os Mahlers, os Shostakovichs que depois conduziria na Orquestra Metropolitana de Nova Iorque ou no concerto de estreia da casa da música de Tel Aviv, na celebração da reunificação de Jerusalém. Ou ainda os diversos arranjos musicais para o musical “West Side Story”. Mas nessa noite o piano branco de Leonard Bernstein servia apenas de apoio a um revolucionário de verdade, um black panther, e a assistência, exclusivamente proprietária de objectos que poderiam combinar com o dito piano, o jet set mais exclusivo de Nova Iorque, bebia do contraste da imagem, embriagada com a heresia fantástica de possuir milhões de doláres dos quais uma minima parte seria oferecida a estes rebeldes, a este revolucionário que ainda ontem poderia ter estado a trocar tiros com a policia, a distribuir armas a outros homens como ele, a conjurar a destruição do sistema, a sofrer na pele o racismo da sociedade americana numa guerra de trincheiras contra esse monstro corrupto e abjecto que era o sistema judicial.

Tom Wolfe inventou o termo radical-chic no artigo homónimo onde relata o ano em que o jet-set nova iorquino começou a organizar soirées onde confraternizava com os revolucionários do momento e lhes passava avultados cheques: os Black Panthers, os Young Lords (ligados à comunidade porto-riquenha), os Students for a Democratic Society (de onde surgiriam os Weathermen), os grevistas de César Chavez. Não seriam os primeiros ricos a requisitar a companhia de rebeldes a sério, na costa oposta era já habitual a presença de Huey P. Newton nas orgias em casa de Jack Nicholson das quais saia com malas cheias de notas, mas a riqueza nova-iorquina era de uma natureza mais clássica, pouco assente nos sucessos do novo cinema americano do fim dos anos 60. A numerosa burguesia judia de Manhattan tinha sempre sido liberal, em parte pelos fundamentos cristãos dos dois grandes partidos americanos que não poucas vezes se teriam traduzido num anti-semitismo aberto. Era também próxima da entourage de Luther King: a diversidade cultural no movimento dos direitos civis que envolvia brancos e negros era essencialmente assegurado pelos judeus. Mas o activismo pró-King era um activismo de classe média-baixa, composto nas palavras de Tom Wolfe por pretos com fatos demasiado largos e um discurso pouco aventuroso, um activismo mais marcado por pilhas de papeis num escritório beje mal iluminado do que por anjos malditos que fazem amor entre os molotovs nas barricadas do ghetto. Essa normalidade estética correspondia aos olhos de quem vivia com vista para o Central Park a uma mediocridade existencial. Mas os panteras eram toda uma outra história, com os seus casacos de cabedal e o seu cabelo selvagem, com a memória do seu irmão já cadáver atravessado por dezenas de tiros enquanto dormia, assassinado pela brutalidade do seu inimigo comum: a classe média WASP, ignorante e brutal, racista, reacionária e anti-semita. A convivência com este lumpen armado legitimava de modo emocionante o seu dinheiro, trazia alguma substância vital ao seu ennui culpabilizado. Estes pretos com o dedo no gatilho ganhavam o direito de deixarem de ser Negroes para passarem a ser Blacks, umas décadas antes de serem afro-americanos.

A preparação das festas de recepção aos revolucionários era complexa e enervante. A comida era cuidada: nada demasiado sofisticado que uma boca menos cosmopolita pudesse estranhar. A criadagem negra ou latina tinha de ser temporariamente substituida, não fosse o contraste entre os pretos pais tomás e os pretos felinos revelar-se demasiado incómoda. Não se punha a questão de prescindir dos criados, isso seria descurar as claras delimitações que distinguiam os ricos dos abastados. Após a refeição os convidados expunham a sua situação e recolhiam os fundos finda uma sessão de perguntas, não necessariamente fáceis ou superficiais como a situação pressupunha e especialmente polémico era o apoio dos panteras negras à Al-Fatah, mas a discussão nunca chegava ao ponto de se criar uma ruptura já que eram pontuadas pelo dandyismo inerente a alguns dos convidados e as vozes mais exaltadas eram no final acalmadas com apertos de mão sinceros e másculos, reafirmadores de um respeito ficticio que nenhum dos interveniente tinha vontade de romper já que era mutuamente óbvio o negócio em curso.

A divulgação mediática do jantar em questão fez perigar a agenda. Em parte porque o artigo saiu na secção cor-de-rosa do New York Times e não na politica ou social. A jornalista presente escreveu mais linhas sobre os casacos de cabedal dos panteras negras do que sobre o aspecto paramilitar da sua organização. Ao início passou debaixo do radar da opinião pública nacional e foi o destaque dos jornais franceses e ingleses que trouxe de novo à ribalta as novas práticas radical-chic do jet set nova-iorquino. Uns dias depois uma outra socialite cancelava o seu jantar com os Young Lords e Bernstein dava uma entrevistas em que se afirmava totalmente contrário aos “meios necessários” dos panteras negras mas sensível à violação dos seus direitos constitucionais. Tal não impediu que duas semanas depois o maior maestro do estados unidos fosse vaiado em uníssono na inauguração da nova temporada de música clássica da orquesta metropolitana de Nova Iorque por uma plateia de judeus sionistas, polícias, brancos dos subúrbios, membros do partido democrata e demais população branca, corada de raiva e de medo ante os pequenos almoços apontados ao coração da classe média.

Tom Wolfe descreve tudo isto e muito mais no Livro “Radical Chic And Mau-Mauing the Flak-Catchers”.

Publicado por [Party Program] às 03:05 PM | Comentários (3)

Aos 18 somos maiores!

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Acaba hoje o XVIII Congresso do PCP. Não me foi possível assistir aos primeiros seis por manifesta falta de comparência, uma vez que não era ainda nascido. Dos 12 que se lhe seguiram, tive o privilégio (sem ironia) de assistir a dois, presencialmente - o XIV, em 1992, e o XV, em 1996. Sempre na qualidade, salvo seja, de convidado. Nunca como delegado. Enquanto militante, dirigente, ou funcionário, participei na preparação de três. Junta-se aos outros dois o XVI, em 2000. O da suposta ruptura. Muita água passou, entretanto, pelas torneiras cá de casa.
Nunca como neste fim-de-semana me senti tão distante do que por lá se passava. Ao longo dos últimos dois dias visitei o site do Partido (ainda lhe chamo assim, vocês não?) duas ou três vezes. Ouvi o Jerónimo, no noticiário da hora de almoço de Sábado, dizer qualquer coisa sobre mim e muitos outros camaradas que foram afastados contra a sua vontade, referindo-se a nós como, uma vez mais, «auto-excluídos».
Li, transversalmente, confesso, as Teses preparadas para este Congresso. E li, na diagonal, os muitos comentários dos poucos blogs que vou lendo diariamente, bem como poucas notícias nos sites da comunicação social cá do burgo.
Não sei quem entrou no Comité Central. Sei de alguns que saíram. Não sei quantos operários, funcionários ou membros hereditários o constituem. Sei que o Jerónimo continua a ser Secretário Geral. Porque sim. Porque já o era antes de o ser. Como a pescada. Com sabor a metalúrgico de gabinete (estará aqui a explicação para «a tara (...) por leis e regras com nome de ligas metálicas»?) .
Sei também que a Esquerda continua, vai continuar, dividida. Mesmo com comícios no Trindade (eu estive lá) e Fóruns na Aula Magna (não sei se vou estar).
E sei que não é este o caminho.
E aposto que o Sócrates sorriu, hoje, antes de encostar o cabelo grisalho, parvamente penteado, na almofada.
E a Manuela passou um fim-de-semana sem dizer parvoíces. Já eu não posso gabar-me do mesmo feito!
Ah, e o Bloco continua a não confiar no Zé. Já não faz falta, ao que parece...
Pronto. Foi só um desabafo. Siga o baile!

Publicado por [Bomb Jack] às 05:02 AM | Comentários (2)