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novembro 30, 2008

A regra de pechisbeque

«A maioria operária nos organismos de direcção é uma importante garantia para que o Partido se mantenha fiel a uma ideologia e a uma política de classe, seja capaz de analisar as situações e os problemas de um ponto de vista de classe (...). [Para que o Partido] não sofra a influência ideológica da burguesia e mantenha firmemente os objectivos revolucionários de liquidação do capitalismo e da construção de uma sociedade socialista. (...) No PCP, a maioria operária no Comité Central, nos seus organismos executivos e em todos os organismos de direcção sempre que é possível é considerada como uma 'regra de ouro'. Não se trata de uma imposição que não tenha em conta os quadros existentes num dado momento, mas trata-se de uma orientação que determina critérios de selecção e de promoção». (Álvaro Cunhal, O Partido com Paredes de Vidro)

É já daqui a pouco que os delegados ao Congresso do PCP votarão - agora secretamente - a lista para o Comité Central. Como sempre, a regra de ouro está lá, com maioria de torneiros mecânicos que são funcionários políticos há 30 anos e empregados que não são empregados de balcão no Colombo mas, tão só, funcionários políticos que nunca fizeram mais nada na vida, nem acabaram um curso, caso em que seriam caracterizados, no seu perfil ocupacional, como "licenciado em Direito", como sempre apareceu definido Álvaro Cunhal, ou "jurista", como António Filipe, ou mesmo como "intelectual", como aparecia Vítor Dias até aqui (todos 'revolucionários profissionais' com formação em Direito). A verdade é que são todos funcionários políticos do Partido, dos Sindicatos, do Poder Local Democrático (da CDU) e de outros cargos institucionais (do PCP): a regra de ouro não é senão uma regra de pechisbeque.

Há anos que me deixei dessas contas, mas faz agora 8 que as fiz. Da lista do Comité Central no Congresso de 2000, apenas 15 pessoas não eram funcionários do PCP, de Sindicatos afectos ao PCP, de Câmaras do PCP ou de outros cargos institucionais pelo PCP: 1 engenheiro, 5 professores, incluindo 3 universitários, 1 socióloga, 1 bancário, 1 educadora de infância, 1 agricultor, 1 estudante e 4 operários. 4 operários correspondem a 2%.

A mim tão pouco me importa que não exista uma real maioria operária no PCP. Há muito que as estruturas sociais se complexificaram e, naturalmente, com elas, as composições dos partidos 'de classe'. A mim o que me incomoda é a farsa, a propagação da farsa e esta sensação de ainda estarmos a descobrir o que Michels fez há 100 anos: «o partido, enquanto uma entidade, peça de um mecanismo, não é necessariamente identificável com a totalidade dos seus membros, e ainda menos com a classe a que estes pertençam. O partido é criado como um meio de se atingir um fim. Quando, entretanto, se transforma num fim em si mesmo, visando interesses e vantagens próprios, processa-se sob o ponto de vista teleológico um desligamento da classe que representa. Não é nada óbvio que os interesses das massas, que se haviam combinado para formar o partido, coincidam com os interesses da burocracia na qual veio o partico a personificar-se.» (Robert Michels, A Lei de Ferro da Oligarquia)

Já agora, qual é tara destes gajos por leis e regras com nome de ligas metálicas?!

Publicado por [Joystick] às 05:35 PM | Comentários (8)

Trapalhada em 3 Actos

Acto 1: O Público faz uma notícia a partir do “Trindade 2” – a iniciativa de Alegristas, Bloquistas e Renovadores (chamemos-lhe assim para não estar aqui a diferenciar as 42 correntes de ex-militantes do PCP que existem) – em que acaba por falar/misturar com uma outra, que não tem nada a ver, que é um “debate sobre a crise mundial”, que se faria no Hotel Ritz, noutro dia, com Jorge Sampaio, António José Seguro e Carlos Carvalhas.

Acto 2: Carvalhas ficou incomodado com a notícia. Já sabe do que a casa dele gasta: Ainda ficava fora do CC neste Congresso, ou pior, do Parlamento Europeu daqui a uns meses… Desmarcou-se rapidamente da iniciativa para a qual tinha sido convidao. O Sampaio que debatesse com o Tó Zé Seguro a crise.

Acto 3: O jornalista Luciano Alvarez, do Público, faz uma pequena notícia a avisar que Carvalhas já não vai ao debate. Numa pequena peça que ilustra bem como é o jornalismo neste país, informa, voltando a meter os pés pelas mãos: «Carlos Carvalhas, secretário-geral da CGTP [???], já não vai ao debate, de 14 de Dezembro, em que estaria lado a lado com Manuel Alegre (PS) e Ana Drago (BE).».

As leituras desta trapalhada em 3 actos são diversas. Jorge Nascimento Fernandes, coloca o assento tónico na leviandade com que se escreve o Público. Vítor Dias, claro, prefere falar em mais uma manobra anti-comunista preparada pelo “Trindade 2” contra o PCP. Segundo ele, esta foi a forma que os promotores do Trindade arranjaram para dar a entender que um ex-Secretário Geral do PCP iría estar ba iniciativa...

Entretanto descobri este comentador do esquerda.net – o Vasco (comentário 3) – que como a maior parte das pessoas, acredita mais do que lê nos jornais do que nos seus próprios olhos, e portanto desafia o site do Bloco a publicar a lista complecta dos oradores do “Trindade 2”, com o Sampaio, o Carvalhas e tudo.

Publicado por [Saboteur] às 01:36 PM | Comentários (0)

novembro 29, 2008

um jogo de futebol

Um jogo de futebol é o momento certo para olhar a coisa identitária nacional. Chego ao pub e vejo algumas camisolas vermelhas. São usadas por gajos de olhos azuis, suspeitos olhos azuis...a minha grelha classificatória despromove aqueles convivas à divisão "apoiante não nacional", decisão que se viria a revelar infundada aos primeiros comentários ao jogo em sonoro sotaque minhoto. Com o tempo percebo que ali se fala mau inglês e pior português. Um primeiro contacto com a classe operária emigrante. Que também os há, embora invisíveis.

Minutos depois chegam os estudantes. Os professores. Os leitores universitários. Uma certa divisão de classe dentro da comunidade nacional está ali no espaço entre as cadeiras do terceiro anel operário e a primeira fila intelectual. Nesta última vêem-se bandeiras, camisolas, cachecóis. Uma chavala entretida aos beijos a um nativo britânico usa um lenço igual aos da minha mãe, estampado com motivos florais minhotos.

Olho pela janela. Ao sol, na esplanada do pub, uma pequena multidão de peles brancas e cabeças amareladas ignora tranquilamente os urros, palmas e hinos do pessoal escurinho quase invisível na penumbra da sala de TV. E por falar em hinos, convém notar o entusiasmo transbordante quando se cantam os três primeiros versos do hino português e notar também o mutismo titubiante que acompanha o resto da letra.

O jogo continua. As fraquezas da equipa das quinas podem ser as "fortezas" da equipa angolana... Explicação que não interessa ao espírito nacional reinante: a obrigação era ganhar por mínimo de cinco a zero. Um a zero é pouco, não chega para confirmar a superioridade estórica do branco sobre o preto, do civilizado sobre o bruto, do poderoso sobre o fraco, do inteligente sobre o estúpido. Da "nossa" superioridade.

Joga-se mal. A selecção não ataca, lateraliza. Os passes saem errados. Aparece o pontapé para a frente. "Foda-se, só há um jogador em campo, os outros já não correm, pá, se não fosse o Figo..." Razões mais que suficientes para chover um festival de bocas e insultos impacientes, como se aqueles 11 esforçados heróis em campo pudessem incorporar todas as mitologias nacionais vividas por um colectivo nacional incompetente e frustrado. Talvez se acredite nesta ficção quando se insulta um jogador que falha um cruzamento para a área - que eles, como "nós", estão destinados a grandes feitos mas deitam tudo a perder com a esta mania irritante de se apequenarem.

Publicado por [Renegade] às 04:36 PM | Comentários (0)

novembro 28, 2008

Consolida, filho, consolida

A propósito do voto favorável de Manuel Alegre no OE de 2009, vem no site do Público o seguinte:
«O deputado Manuel Alegre justificou o voto a favor do Orçamento do Estado (OE) para 2009 com a necessidade “de não deitar por terra” a consolidação financeira, mas defendeu que se deve “reorientar o rumo” das políticas económicas, na declaração de voto que anunciou depois de ter votado a favor da proposta de orçamento do Governo socialista.

No texto, a que a Lusa teve acesso, o ex-candidato presidencial afirma ter em conta “o quadro de incerteza” com a crise mundial e as “medidas positivas”, fiscais e sociais, do orçamento e a “necessidade de não deitar por terra o esforço de consolidação financeira” em 2006 e 2007 que “tantos sacrifícios e custos sociais exigiu”.

“É por essas razões que, sem prescindir de alertar para a necessidade de reorientar o rumo actual das nossas políticas económicas e orçamental, dou o meu voto favorável, na generalidade, ao Orçamento de Estado para 2009”.»

Confesso que gostaria de ler integralmente a declaração de voto. Mas a avaliar por estes excertos (admito que não sem algum preconceito) acho que dá para perceber o sentido da coisa. Relembro que o apelo do encontro da Aula Magna de 14 de Dezembro começa assim: «A crise financeira e as graves dificuldades económicas sentidas no mundo inteiro dão uma medida da irresponsabilidade da especulação e das políticas que têm conduzido ao desemprego, à precariedade e à perda dos salários. Os signatários consideram que essas políticas devem ser discutidas e combatidas, porque constituem ataques à democracia.»

Que pensarão então os restantes signatários do voto e da declaração de Manuel Alegre? Já agora, o que pensará a concelhia de Lisboa do BE? E Sá Fernandes?


Publicado por [Manic Miner] às 10:22 PM | Comentários (2)

I ♥ Paris

diasemcompras0.jpg
Por estas e por outras é que amanhã me vou fartar de fazer compras.

Publicado por [Rick Dangerous] às 03:47 PM | Comentários (13)

O eixo do mal


O que se passou em Mumbai coloca duas questões em cima da mesa.
Como alguém já havia referido, é raro observar nos comentadores da imprensa o mesmo choque e pavor na reacção a atentados ocorridos em pontos diferentes do globo. O grande destaque parece ser que desta vez foram atacados alvos que simbolizam o cosmopolitismo, cheios de turistas e empresários. Em Julho de 2006 foi uma estação de comboios nos subúrbios, frequentada por milhares de locais e, talvez por isso, um pouco menos dignos de empatia e compaixão. E já em Bali se tinha sublinhado a presença de muitos surfistas australianos e britânicos e falado pouco da maioria de mortos indonésios. A guerra ao terrorismo é atravessada por um racismo evidente que as expressões «ocidente» e «civilização ocidental» se encarregam de banalizar.

A segunda questão está relacionada com os responsáveis pela pequena insurreição deflagrada. Não faltaram meios nem treino aos envolvidos e os grupos islamitas não costumam destacar-se pela sofisticação. Já há um ano Benazir Bhutto foi assassinada em grande estilo, num ataque a tiro e à bomba bastante cirúrgico, do qual pouco se apurou. Quando a grande guerra ao terrorismo começou e o Paquistão foi eleito aliado privilegiado do «ocidente» não faltou quem relembrasse o papel do ISI (serviços secretos paquistaneses) na formação e ascensão dos Talibans. Desde a intervenção soviética no Afeganistão que o ISI faz o trabalho sujo da CIA na região. E agora, que os interesses locais se sentem ameaçados com uma possivel mudança na Casa Branca, fazem sentir o seu peso da forma sangrenta que lhes foi ensinada. A fúria belicista de Bush e companhia continua a fazer vítimas por todo o globo. Quando virem na televisão as imagens dos mortos de Mumbai, lembrem-se por favor de tudo aquilo que os tornou possíveis. Eles não pertencem menos à má consciência do «Ocidente» do que os torturados de Guantánamo e Abu Ghraib.

Publicado por [Rick Dangerous] às 02:02 PM | Comentários (2)

Há pelo menos uma pessoa que esteve no Trindade e que não vai aparecer

"Para a esquerda, "isto é um ciclo novo", afirma Manuel Alegre. Relativamente ao comício do Teatro da Trindade, o ex-candidato presidencial espera maior abrangência. "Esperemos que seja mais abrangente ainda e o início de um caminho de construção de soluções alternativas, que tenham consequência na vida das pessoas", afirmou ainda Manuel Alegre ao DN."

Publicado por [Rick Dangerous] às 01:56 PM | Comentários (5)

novembro 27, 2008

São os loucos de Lisboa


Lendo o post do Daniel Oliveira no arrastão e o de Saboteur aqui no Spectrum, resolvi quebrar o silêncio que tenho mantido relativamente ao affair Sá Fernandes.
O meu primeiro comentário diz respeito à natureza do projecto autárquico do Bloco de Esquerda. Parece-me legítimo afirmar que desde as eleições de 2001 (as primeiras a que concorreu) que se tem observado um gritante vazio de reflexão estratégica acerca do poder local e dos seus usos, por parte do Bloco. São inúmeras as pessoas que conheço que me revelaram ter entrado em listas autárquicas sem qualquer intenção de cumprir o respectivo mandato, sem ter participado em qualquer discussão programática e, por vezes, sem sequer terem sido informadas. Ouvi em primeira mão de um dirigente do BE, num acampamento de jovens da IV Internacional realizado em Roma em 2001, que todos os militantes e simpatizantes deveriam tratar do seu cartão de eleitor porque todos seriam candidatos nas eleições. E recordo-me de inúmeros terem concorrido em terras onde nunca estiveram e das quais nunca tinham ouvido falar.
Desde o início que o BE, na ausência de uma implantação local digna desse nome e de qualquer tipo de intervenção quotidiana organizada fora dos períodos eleitorais, abordou as eleições autárquicas em função do seu objectivo de crescer eleitoralmente. E subordinou assim a sua intervenção no poder local a objectivos de propaganda, em detrimento de qualquer perspectiva de transformação da vida quotidiana das respectivas populações. Ninguém parece interessado em falar disso, mas qual o balanço do mandato autárquico da «Anita» em Salvaterra de Magos?

Por outro lado a aposta parece ter privilegiado alguns quadros autárquicos que se tornaram especialistas na intervenção nos órgãos do poder local e que, no vazio de debate e reflexão interna, se tornaram os dirigentes de facto dessa intervenção. Um bom exemplo do seu calibre está no texto de Heitor de Sousa destacado pelo Tarique. Num parágrafo critica-se a proposta das bicicletas porque o orçamento não é rigoroso: Procurámos, em vão, obter uma justificação para os 50 milhões de euros. Para uma Câmara que proclama rigor e transparência nas suas decisões políticas, é no mínimo estranha a opacidade das respostas.
Mas para defender a proposta alternativa (que aliás, não é nenhuma alternativa, mas apenas algo diferente e tão nebuloso como um desejo de fim de ano) não sentiu a necessidade de igual rigor: Pela nossa parte, defendemos, em alternativa, que o compromisso financeiro da câmara fosse, não de 5 milhões de euros por ano para financiar este sistema, mas sim o necessário para construir uma rede de vias cicláveis de 80kms que assegurem a circulação, em segurança, de todos os velocípedes na cidade de Lisboa, do centro à periferia, tal como foi defendido no programa da candidatura "Lisboa é Gente". O valor do investimento seria, seguramente, muito inferior aos anunciados 50 milhões e ficaria pronto em pouco mais de dois anos.
Seguramente? 80 Km? Onde? A ligar o quê?
Mas a pérola é mesmo o parágrafo final, abertamente ciclocéptico: E já agora, no âmbito desse concurso público internacional, talvez não fosse má ideia exigir que os concorrentes acompanhem as suas propostas com um estudo sério da procura deste tipo de serviço de transporte, para se saber até que ponto será aceitável o risco para todas as partes: para o concessionário e para o concedente deste serviço público.

Dito isto acerca do problema de fundo, interessa entrar no tema mais concreto da CML. E aqui salta à vista que o BE deixou Sá Fernandes entregue a si próprio desde o início da campanha. A saloice dos outdoors e o tom lamechas adoptado geral pela campanha (o Zé faz falta?) causaram-me alguns arrepios, mas pelo que percebi fui o único a senti-los. O meu contributo limitou-se a uma fugaz passagem musical pelo Maxim, sabotada pela ASAE (mais uma vez, um sinal de que a coisa parecia incomodar as forças do mal).
Quando o candidato avançou uma lista de condições para um entendimento com o PS, antes das eleições, ninguém levou a coisa a sério, interpretando-a como um avanço táctico contra o voto útil, sem consequências de maior. O problema começou quando a proposta foi levada a sério e aceite por António Costa. Só então a direcção do BE começou a medir as possíveis consequências do apoio a Sá Fernandes no plano nacional e a compreender que talvez devesse ter prestado mais atenção às condições avançadas. Para quem as esqueceu, elas estão aqui.E para quem o esqueceu também, relembremos as declarações de Fernando Negrão, Carmona Rodrigues e do chefe dos patos bravos, acerca do acordo.
- Carmona Rodrigues diz que não compreende que uma força política que ficou em 6º lugar nas eleições tenha poder para impor condições que considera napoleónicas.
-Para Fernando Negrão, do PSD, o acordo agora alcançado para a câmara de Lisboa não passa de uma tentativa do Partido Socialista para silenciar o Bloco de Esquerda.À TSF disse também que "o PS contava ter uma posição mais confortável" e que, com este acordo, "naturalmente, terá que fazer políticas de Extrema Esquerda".
-Também os construtores civis reagiram de imediato a este acordo, dado que uma das medidas prevê a obrigação de 25% das novos fogos serem colocados no mercado a custos controlados. Joaquim Carlos Fortunato, Presidente da Associação de Empresas de Construção e Obras Públicas, afirmou mesmo que esta medida só "faz sentido em Cuba". "Nós estamos na cidade de Lisboa, não estamos em Havana, não estamos em Cuba, e se isso avançar admitimos recorrer ao tribunal porque não nos parece legal qualquer medidas que fixe os preços das casas", esclareceu à TSF.

Como se vê, Sá Fernandes teve desde o início, os melhores inimigos e enquanto tal mereceria, no mínimo, o benefício da dúvida por parte de um partido que afirma querer alterar as correlações de forças na política nacional.
Em vez disso, tudo o que vemos é outra coisa e o comunicado da concelhia de Lisboa é uma verdadeira demonstração de má-fé e desonestidade intelectual. É absolutamente inaceitável que, depois de terem aceite o acordo, venham agora escrever, como se lê na página 3, que Sá Fernandes fez uma proposta de entendimento com o PCP e o PS, durante a campanha, "contra a opinião do Bloco de Esquerda".
Note-se o total contrasenso - "o acordo não se fez e não havia nem condições nem razões para o fazer". Mas o acordo fez-se e as razões e condições que não existiam foram aceites por esta mesma concelhia, que agora sacode a água do seu capote com a facilidade com que o BPN abria contas em offd-shores. Parece em todo o caso óbvio que, sem coragem para rejeitar um acordo a que se opunham, os dirigentes concelhios do BE preferiram ficar à espera da melhor oportunidade para o rasgar. Sá Fernandes teve portante, desde o início, inimigos poderosos no exterior e inimigos silenciosos no interior do seu gabinete. Postas as coisas nestes termos, o apodrecimento da situação não pode ser imputado ao vereador e a sua responsabilidade cai, por inteiro, sobre os dirigentes bloquistas encarregues de coordenar o diálogo e o trabalho conjunto com Sá Fernandes. E a esse nível não pode passar em claro a lavagem de mãos efectuada por Miguel Portas: O José Sá Fernandes optou pelo possibilismo e por vestir a camisola e as dores do partido maioritário na câmara. Era inevitável essa evolução? Não sei. Terá o bloco feito tudo o que podia para a evitar? É matéria de reflexão sobre a qual os que acompanharam mais de perto este ano e meio de experiência terão melhor opinião do que eu.
Não sei se me faço entender: os que acompanharam de perto a experiência quiseram, desde o início, que ela acabasse desta forma e agora Miguel Portas remete para eles a avaliação do que se passou. O branqueamento é uma arte.

No que me diz respeito, que não voto em Lisboa apesar de aqui viver e também não votei em Oeiras (onde já não vivo mas ainda estou registado), a acção de Sá Fernandes na CML requer um balanço crítico que o Bloco não está em condições de fazer, porque não está disposto a qualquer tipo de autocrítica e subordina a sua intervenção autárquica a objectivos meramente tácticos. Foi porque a aliança em Lisboa se tornava incómoda a nível nacional que se prepararam, desde o início, a deixá-lo cair logo que possível. Lisboa nunca esteve no centro das suas preocupações. Tal como aconteceu em 2001, aliás, com os resultados que se conhecem.
O caso Praça das Flores, a presença ao lado de Ana Sá Brito e no Prós e Contas foram os pretextos invocados. E todos eles têm em comum uma visibilidade mediática negativa para o Bloco de Esquerda. É a essa luz que eles motivaram críticas públicas ao vereador. Mais uma vez, as transformações a operar na cidade (e algumas existiram mesmo e devem ser saudadas enquanto tal) foram a última preocupação a vir ao de cima. O texto de Heitor de Sousa é bastante claro a esse respeito - ele preocupa-se em marcar uma posição e não em encontrar uma solução relativamente à questão das bicicletas. E se tudo ficar na mesma pouco interessa, desde que a posição do Bloco não saia daí beliscada.
Salta à vista que os três casos referidos resultam muito mais da inabilidade política do vereador do que qualquer outra coisa. Mas se o Bloco desistiu de sustentar e auxiliar politicamente o vereador, não pode depois vir queixar-se da sua inabilidade política. Nesse sentido, tanto o balanço da concelhia, como o tom dos posts do blog Gente de Lisboa deixam tudo por explicar. É provável que seja esse o seu objectivo.

No fundo no fundo, quando se apostou tudo na esquerda do PS e na convergência para um grande partido da esquerda socialistas, um Zé não fazia qualquer falta e só vinha estorvar a passadeira vermelha estendida a Alegre e a Roseta. Com 20% dos votos no horizonte para 2009, Lisboa pode perfeitamente esperar, a história pode ser reescrita e a calúnia abater-se sobre o vereador independente. O que ficará sempre por explicar são as condições em que o Bloco aceita participar no governo da cidade. Se isso apenas acontecer quando o seu programa for integralmente aceite pelas outras forças (presume-se que de esquerda), então assume-se que só quando o Bloco foi maioritário em Lisboa aceitará a responsabilidade de tentar transformar a cidade. Parece-me uma posição tão aceitável quanto outra qualquer. Talvez devesse ser frontalmente assumida. Mas isso também não me diz grande respeito.
Nunca me ocorreu que esta cidade pudesse ser transformada pelo desempenho de um vereador (ou dois ou três ou quatro). Do meu ponto de vista, seria positivo (e portanto não indiferente) ter a esquerda no poder autárquico lisboeta e o acordo estabelecido no verão de 2007, não alterando profundamente o funcionamento da cidade, implicava passos numa boa direcção. E pelo que acima escrevi, facilmente se adivinha o meu cepticismo relativamente a qualquer outra proposta que o Bloco possa vir a avançar nesse sentido. Quando não se sabe o que fazer ao poder local, mais vale ficar quietinho.

Publicado por [Rick Dangerous] às 03:44 PM | Comentários (24)

Portugueses Americanos...

A epopeia da miséria portuguesa levou milhares de portugueses ao outro lado do Atlântico! Onde é que eles andam? Esquecemo-nos deles... mas eles continuam a falar e a cantar em português, reconstruindo memórias da vida passada. Aqui fica um filme (em inglês), realizado por uma investigadora em ciências sociais, que retrata uma cidade americana – Bedford (Massachusetts)- onde 60% da população é portuguesa ou descendente dela!

“Placed against a background of local history, this video highlights how Portuguese immigrants have recreated their homeland’s past in their everyday life in New Bedford, Massachusetts during much of this century. This is one of the first full-length videos to document the experience and culture of the Portuguese in the United States.
The story-line of Saudade is based on the personal reminiscences of seven Portuguese women and men in New Bedford: six immigrants from the Azores, Madeira, and the mainland and one second generation Portuguese-American. The unfolding of memories, songs, and visual representations of the past is juxtaposed with contemporary ways of life; reconstruction of the homeland’s past provides continuity of immigrants’ lives in the context of their specific experiences in an American industrial city.”

Publicado por [Shift] às 03:25 PM | Comentários (1)

Convocatória

Decorre no Arrastão um importante inquérito sobre a frase do ano.

Como todos sabem, o Spectrum, já no passado, influenciou seriamente alguns resultados eleitorais. Os prémios MTV, por exemplo, já para não falar, claro, da vitória do Barak Obama nos EUA...

Vamos mais uma vez mobilizar-nos, malta! Quem é que partiu tudo em 2008 e deu uma grande lição ao mundo com uma simples frase de 11 palavras cheias de sabedoria?

Marco.jpg
Marco Fortes: «Cheguei à conclusão que de manhã só estou bem na caminha»

Publicado por [Saboteur] às 01:27 AM | Comentários (35)

novembro 26, 2008

se não posso dançar, esta não é a minha revolução

Publicado por [Renegade] às 07:04 PM | Comentários (10)

novembro 25, 2008

Ultima hora

Hoje já recusei dois convites para copos porque ía ter plenário concelhio do Bloco de Esquerda...

Entretanto, ouvi dizer que já não vai haver plenário porque Sá Fernandes meteu uma providência cautelar. Alguém confirma?

Publicado por [Saboteur] às 05:25 PM | Comentários (13)

Quando isto der para o torto

Publicado por [Rick Dangerous] às 02:58 PM | Comentários (1)

Nevegar

Publicado por [Rick Dangerous] às 02:47 PM | Comentários (2)

Esqueletos no cofre (virtual)


“No seu modo de fazer fortuna como nos seus prazeres a aristocracia financeira não é mais do que o renascimento do lumpenproletariado nos cumes da sociedade burguesa.”
Karl Marx, As lutas de classes em França
Lendo o jornal da SONAE acerca das «irregularidades» praticadas pela Administração do BPN - e de que o Banco de Portugal «não tinha conhecimento» - descobrimos que «um conjunto vasto de operações de crédito clandestinas» não estavam registadas nas contas oficiais, mas num «balcão virtual» que por sua vez funcionava em apenas dois computadores, um dos quais portátil. Um verdadeiro choque tecnológico este, em que 360 milhões de Euros se evaporaram pelos micro-circuitos obscuros de um qualquer «Magalhães» para adultos.
A hesitação e moderação com que os poderes públicos enfrentam o problema é esclarecedora. Todo o cuidado é pouco e, uma vez que isto é tudo tão pequeno, abrindo o armário de uns pode-se chegar facilmente aos esqueletos dos outros. A receita, já aplicada no BCP, parece simples: primeiro o Banco de Portugal finge que não vê, depois avisa discretamente que está a ver e, depois ainda, que é necessário fazer algo antes que toda a gente veja. Quando se torna evidente que a coisa foi longe demais, varre-se tudo para baixo do tapete e nomeiam-se administradores da CGD. Quando necessário o défice, cuja redução seria um imperativo nacional, cresce apenas o suficiente para assegurar os depósitos. Importa relembrar que ainda em Outubro a CGD emprestou ao BPN 200 milhões de Euros, para lhe garantir liquidez e não deixar o Ministro das Finanças passar por mentiroso.
Como é costume, e como o segredo é a alma do negócio, só a guerra entre facções da classe dirigente pôs a nu o que se passava para lá dos vidros baços desta instituição de crédito, vibrante de dinamismo e produtos financeiros atractivos. Ao que tudo indica, o BPN era uma rara concentração de ex-ministros e secretários de estado do PSD, tecnocratas com invejável espírito para o negócio, rapaziada com talento, cavaquistas da mais fina estirpe ou, como diz o outro, «boa moeda». Tal como o BCP era o banco eleito pela Opus Dei para conciliar, num só centro de decisão estratégica, a usura e a obra do senhor e tal como a SOMAGUE parece ter funcionado na altura certa como um porta-moedas laranja, o BPN era uma aposentadoria de luxo para compensar os serviços à pátria. Nesta divisão do saque, relembre-se, os casinos ficaram para a democracia-cristã, desde que os ministros do CDS fizeram uma maratona de assinaturas na sua última noite em funções.
Em todo o caso, parece haver alguma lógica em toda esta loucura. Se isto continua assim, a facção cor-de-rosa do aparelho de Estado arrisca-se a mandar todas as outras à falência antes do final da legislatura. A Direita, que sempre soube que não havia almoços grátis, desespera agora, ao ver que não sobrará gente suficiente para os pagar. A hora é de banquete no Largo do Rato. Aos jovens profissionais urbanos de sucesso à beira do suicídio relembramos lições do passado e recomendamos que nada temam. A alternância se encarregará de voltar a equilibrar o pêndulo e, na altura conveniente, uma qualquer garganta funda da Procuradoria Geral da República revelará segredos inconfessáveis relacionados com as cúpulas do PS.
Não há escândalos por vir, apenas escândalos por denunciar.

Publicado por [Rick Dangerous] às 01:51 PM | Comentários (7)

A diversidade do mercado financeiro

(curti tanto isto que passei a manhã num revival de Wu-Tang. Para sacarem os albuns aqui o primeiro, aqui o segundo)

Publicado por [Party Program] às 12:32 PM | Comentários (1)

Horóscopo Da Semana

Carneiro - Esta semana estará inconsolável. Ou melhor, estaria. Ninguém se vai preocupar em o consolar.

Touro - É altura de repensar as suas metas. Tipo cortar-las pela metade. Pelo menos.

Gémeos - A questão não é o que fazer da sua vida, mas se será sequer possivel fazer alguma coisa dela.

Caranguejo - Aquilo que você acha atraente e carismático na sua personalidade é meramente patético e deprimente.

Leão - Quando falamos de si não falamos de crise, falamos de um estado permanente.

Virgem - Está a viver um renascer espiritual. É pena que seja um nado-morto.

Balança - Óbelix caiu no caldeirão de poção mágica quando era pequeno. Você caiu no da imbecilidade.

Escorpião - O existencialismo afirmava não existir sentido na vida. Mais além de um sentido na sua não há sequer um caminho.

Sagitário - Todos os seus amigos sabem que sempre que afirma algo assertivamente está apenas a mentir a si próprio.

Capricórnio - A sua vida não dava um filme. Pense bem, o seu horoscopo não dá mais do que uma linha.

Aquário - Mau.

Peixes - A sua carta astral tem a dignidade de publicidade enfiada no correio.

Publicado por [Party Program] às 12:19 PM | Comentários (11)

Agenda (contra) cultural

Amanhã o spectrum recomenda o concerto dos Spectrum, às 22h00 no museu do chiado. Os spectrum são uma das metades dos Spacemen 3, que já faziam o som do futuro ainda o Kalaf andava a (não) aprender a escrever.

Publicado por [Party Program] às 12:15 PM | Comentários (4)

Boa semana de Mandriice para todos - diz a contra-regra

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Lisnave, parede de propaganda no antigo refeitório, Outubro de 2008

«A maior parte da humanidade, sobretudo na Europa Central, simula trabalho, faz ininterruptamente teatro com o trabalho e aperfeiçoa até à idade avançada esse trabalho teatralizado, que tem tão pouco a ver com o verdadeiro trabalho como o verdadeiro e autêntico teatro com a vida real e verdadeira. (...) Mas eu não tenho nada (...) contra o facto de as pessoas não quererem trabalhar, de a humanidade não querer trabalhar, só que deve confessar abertamente a sua mandriice e não representar todos os dias o seu repugnante teatro do trabalho.»

Thomas Bernhard, Extinção

Publicado por [Joystick] às 11:53 AM | Comentários (3)

Agenda Cultural

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Publicado por [Saboteur] às 11:39 AM | Comentários (2)

novembro 24, 2008

Alteração da correlação de forças no executivo da CML

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Sempre achei surpreendente como é que com o peso eleitoral do BE e Sá Fernandes nas autárquicas (apenas 6,8%), se conseguia ao mesmo tempo tanta influência política.

Falo da implementação do Plano Verde e das bicicletas, claro, mas acho paradigmáticos os afastamentos de Maria José Nogueira Pinto do Plano da Baixa e de Miguel Júdice da frente ribeirinha.

Sobretudo, o caso da integração dos recibos verdes no quadro da CML é exemplar: o Vereador das Finanças e Recursos Humanos anunciou inicialmente a dispensa de todos os recibos verdes da câmara. Estou totalmente convencido que se não fosse a pressão do Bloco/Sá Fernandes para que isso não acontecesse, nunca se tinha chegado à solução que se encontrou e que é única ao nível da Administração Pública… Solução essa que deixou o Vereador das finanças (um dos homens mais à direita do executivo) com umas trombas tão grandes que passou a dizer que este seria o seu último mandato.

Creio que António Costa fez ou deixou fazer várias coisas (como retirar o cartaz do PNR de Entrecampos) em troca de ter o “Zé” do seu lado mas também (e se calhar, sobretudo), de ter o Bloco.

Acho que Sá Fernandes nunca compreendeu muito o peso do BE nesta equação política e sobreavaliou o seu prestígio e capital político pessoal... Mas agora que aparecem com toda a força as notícias da ruptura clara, profunda, total entre o Bloco e o Sá Fernandes ele vai ficar numa situação muito fragilizada dentro do executivo.

Por exemplo: terá Sá Fernandes força para exigir que para o próximo ano se avance ainda mais no Orçamento Participativo? Terá força para amanhã exigir do urbanismo alterações num loteamento por causa do Plano Verde?

Publicado por [Saboteur] às 05:19 PM | Comentários (9)

novembro 23, 2008

E o que dizem os camaradas dos EEUU?

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Libero Della Piana, presidente do Partido Comunista dos Estados Unidos em Nova York

''A crise não é o único elemento histórico deste momento político. O resultado de nossa recente eleição presidencial é um repúdio à política da administração de George W. Bush. Reflete uma virada política do povo dos EUA em uma direção progressista. Representa uma histórica derrota da ideologia e das instituições do racismo, que tem sido o principal instrumento de divisão da classe trabalhadora dos EUA através da nossa história, desde a escravidão. É a culminação da maior mobilização política das forças do trabalho na história dos EUA. Para o povo americano, esta eleição encerrará o pesadelo de oito anos de extremismo antidemocrático da administração Bush. Abrirá as portas para a recuperação de muitas vitórias duramente alcançadas pela classe trabalhadora, nas épocas do New Deal, dos Direitos Civis, etc. A luta continua, mas continua em um patamar mais elevado.

O Caminho para o Socialismo – programa do Partido Comunista dos EUA –, identifica como desafio estratégico da classe trabalhadora e do povo derrotar o segmento mais reacionário e ultradireitista das corporações transnacionais, que dominou a vida política americana durante três décadas. O programa afirma: ''Um derradeiro e grande golpe na ultra-direita, vibrado por uma frente de todo o povo, representará uma mudança qualitativa na correlação de forças interna''

Acreditamos que esta eleição marca um ponto de virada nessa luta estratégica, e que iniciamos uma transição para um novo período estratégico, o da restrição dos monopólios como um todo. Neste período de transição objetivamos abrir as possibilidades para novas lutas e demandas de caráter antimonopolista e a possibilidade de estabelecer políticas que restrinjam severamente o poder dos monopólios como um todo, tais como a nacionalização dos bancos ou da indústria automobilística, o estabelecimento de um sistema nacional de saúde, manter o dinheiro grosso fora da política e assim por diante.

A despeito das distorções da mídia e das mentiras da direita, os eleitores do país, de todas as cores e raças, votaram em Obama. Como descendente de escravos, eu não posso dizer que pensava assistir pessoalmente um negro ser eleito para a Casa Branca. A própria Casa Branca, residência dos presidentes dos EUA, foi construída com trabalho escravo. Esta eleição mostra que a longamente acalentada crença de nosso partido, em uma crescente maioria anti-racista, provou ser uma verdade. Ela representa um momento de derrota dos fundamentos da ideologia racista – os conceitos da supremacia dos brancos e da inferioridade dos negros. Por certo, a vitória de Obama não representa uma mudança revolucionária ou uma revolução socialista. Os únicos que o proclamaram eram os deslavados ideólogos da ultradireita e os comentaristas da Fox News, que também insistiam que Obama era muçulmano. Mas ela representa uma decisiva vitória para o povo dos EUA e os povos do mundo. Muda a arena da luta em uma direção favorável; cria aberturas para os movimentos populares afirmarem sua agenda e alcançarem vitórias.'' Legenda: Della Piana: ''Eu não pensava assistir''.

Publicado por [Saboteur] às 10:31 AM | Comentários (6)

novembro 21, 2008

Mudar o mundo sem tomar o poder

Publicado por [Rick Dangerous] às 01:31 PM | Comentários (1)

novembro 20, 2008

Ganda Pinta!!!

Epá já sei que ninguém vai acreditar mas acabei de ganhar o Iphone da publicidade do arrastão!!

epá e pensar que não curtia de vocês! 'brigado! e desculpem lá qualquer coisa!

Publicado por [Party Program] às 08:32 PM | Comentários (2)

Novas Respostas

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Este Sábado, na Faculdade de Letras

Publicado por [Saboteur] às 04:51 PM | Comentários (8)

O desejo de ser inútil 2

- Suponho que julga menos severamente Judas?

- Adivinhou que não posso deixar de interessar-me por um renegado como Judas Iscariote, que por dinheiro permite aos romanos que prendam Jesus, e se suicida pouco depois da crucificação. Muitos escreveram sobre este tema, incluindo Lanza del Vasto, que tem de Judas uma visão assaz poética. Disse-se que Judas era filho de uma família rica, que sabia ler e escrever. Apresentaram-no também como o tesoureiro da comunidade de Jesus e dos apóstolos, muito rigoroso com as despesas, pensando que em vez de ter deixado uma prostituta - talvez Maria Madalena - esbanjar um perfume precioso nos seus pés, Jesus teria feito melhor poupando esse perfume, a fim de o revender. A sua culpabilidade na morte de Jesus é muito discutida, pois se Cristo tinha de morrer para resgatar a humanidade, era bem preciso que alguém lhe desse essa possibilidade.
Alguns perguntam-se mesmo se Judas não se teria afinal sacrificado para que Jesus pudesse cumprir o seu destino. O beijo que Judas dá a Jesus para o designar aos seus inimigos pode também ser interpretado como um acordo entre eles: cada um sabia que o outro sabia o que ia acontecer, e Jesus deixa Judas agir. Judas seduz-me, porque na história de Jesus e dos apóstolos, é um marginal, alguém que desempenha um papel bem a parte. E a minha simpatia vai sempre para aquele que escapa do rebanho, ao passo que o clero - e a sociedade em geral - anseia por uns belos rebanhos de carneiros, sem nenhuma cabeça que sobressaia.

Hugo Pratt, o desejo de ser inútil

Publicado por [Renegade] às 04:47 PM | Comentários (1)

Em bom francês:«Terrorismo ou tragi-comédia?»


À l’aube du 11 novembre, 150 policiers, dont la plupart appartenaient aux brigades antiterroristes, ont encerclé un village de 350 habitants sur le plateau de Millevaches avant de pénétrer dans une ferme pour arrêter neuf jeunes gens (qui avaient repris l’épicerie et essayé de ranimer la vie culturelle du village). Quatre jours plus tard, les neuf personnes interpellées ont été déférées devant un juge antiterroriste et «accusées d’association de malfaiteurs à visée terroriste». Les journaux rapportent que le ministre de l’Intérieur et le chef de l’État «ont félicité la police et la gendarmerie pour leur diligence». Tout est en ordre en apparence. Mais essayons d’examiner de plus près les faits et de cerner les raisons et les résultats de cette «diligence».

Les raisons d’abord : les jeunes gens qui ont été interpellés «étaient suivis par la police en raison de leur appartenance à l’ultra-gauche et à la mouvance anarcho autonome». Comme le précise l’entourage de la ministre de l’Intérieur, «ils tiennent des discours très radicaux et ont des liens avec des groupes étrangers». Mais il y a plus : certains des interpellés «participaient de façon régulière à des manifestations politiques», et, par exemple, «aux cortèges contre le fichier Edvige et contre le renforcement des mesures sur l’immigration». Une appartenance politique (c’est le seul sens possible de monstruosités linguistiques comme «mouvance anarcho autonome»), l’exercice actif des libertés politiques, la tenue de discours radicaux suffisent donc pour mettre en marche la Sous-direction antiterroriste de la police (Sdat) et la Direction centrale du renseignement intérieur (DCRI). Or, qui possède un minimum de conscience politique ne peut que partager l’inquiétude de ces jeunes gens face aux dégradations de la démocratie qu’entraînent le fichier Edvige, les dispositifs biométriques et le durcissement de règles sur l’immigration.
Quant aux résultats, on s’attendrait à ce que les enquêteurs aient retrouvé dans la ferme de Millevaches des armes, des explosifs, et des cocktails Molotov. Tant s’en faut. Les policiers de la Sdat sont tombés sur «des documents précisant les heures de passage des trains, commune par commune, avec horaire de départ et d’arrivée dans les gares». En bon français : un horaire de la SNCF. Mais ils ont aussi séquestré du «matériel d’escalade». En bon français : une échelle, comme celles qu’on trouve dans n’importe quelle maison de campagne.
Il est donc temps d’en venir aux personnes des interpellés et, surtout, au chef présumé de cette bande terroriste, «un leader de 33 ans issu d’un milieu aisé et parisien, vivant grâce aux subsides de ses parents». Il s’agit de Julien Coupat, un jeune philosophe qui a animé naguère, avec quelques-uns de ses amis, Tiqqun, une revue responsable d’analyses politiques sans doute discutables, mais qui compte aujourd’hui encore parmi les plus intelligentes de cette période. J’ai connu Julien Coupat à cette époque et je lui garde, d’un point de vue intellectuel, une estime durable.
Passons donc à l’examen du seul fait concret de toute cette histoire. L’activité des interpellés serait à mettre en liaison avec les actes de malveillance contre la SNCF qui ont causé le 8 novembre le retard de certains TGV sur la ligne Paris-Lille. Ces dispositifs, si l’on en croit les déclarations de la police et des agents de la SNCF eux-mêmes, ne peuvent en aucun cas provoquer des dommages aux personnes : ils peuvent tout au plus, en entravant l’alimentation des pantographes des trains, causer le retard de ces derniers. En Italie, les trains sont très souvent en retard, mais personne n’a encore songé à accuser de terrorisme la société nationale des chemins de fer. Il s’agit de délits mineurs même si personne n’entend les cautionner. Le 13 novembre, un communiqué de la police affirmait avec prudence qu’il y a peut-être «des auteurs des dégradations parmi les gardés à vue, mais qu’il n’est pas possible d’imputer une action à tel ou tel d’entre eux».
La seule conclusion possible de cette ténébreuse affaire est que ceux qui s’engagent activement aujourd’hui contre la façon (discutable au demeurant) dont on gère les problèmes sociaux et économiques sont considérés ipso facto comme des terroristes en puissance, quand bien même aucun acte ne justifierait cette accusation. Il faut avoir le courage de dire avec clarté qu’aujourd’hui, dans de nombreux pays européens (en particulier en France et en Italie), on a introduit des lois et des mesures de police qu’on aurait autrefois jugées barbares et antidémocratiques et qui n’ont rien à envier à celles qui étaient en vigueur en Italie pendant le fascisme. L’une de ces mesures est celle qui autorise la détention en garde à vue pour une durée de quatre-vingt-seize heures d’un groupe de jeunes imprudents peut-être, mais auxquels «il n’est pas possible d’imputer une action». Une autre tout aussi grave est l’adoption de lois qui introduisent des délits d’association dont la formulation est laissée intentionnellement dans le vague et qui permettent de classer comme «à visée» ou «à vocation terroriste» des actes politiques qu’on n’avait jamais considérés jusque-là comme destinés à produire la terreur.

Libération, 19 novembre 2008

Publicado por [Rick Dangerous] às 03:55 PM | Comentários (4)

novembro 19, 2008

Está bem abelha

Publicado por [Rick Dangerous] às 06:23 PM | Comentários (10)

Foi há 15 anos que esse parto se deu, à porta da Assembleia

"Chama-se Gilberto Raimundo, tem 21 anos, e foi ontem, à frente da Assembleia da República brutalmente espancado por um polícia. Um rosto, a sangrar, entre outros. Milhares de estudantes protestavam contra as propinas. A polícia investiu e nem o Major Tomé foi poupado.
Atacaram pelas costas e foi isso que mais chocou os estudantes. Os traseuntes, também, que, estando ali por acaso foram alvo da bordoada. Um idoso foi espancado. Estava ao pé da paragem 100."

Cadi Fernandes, Diário de Notícias, Quinta-Feira 25 de Novembro de 1993
(via RB02)

Passado uma semana houve greve nacional dos estudantes, passados mais uns dias cai o Couto dos Santos e Manuela Ferreira Leite é escolhida por Cavaco para Ministra da Educação. O Ministro da Administração Interna era Dias Loureiro, o agora Sr.BPN, ex-Sr.Cargas Policiais. Na TAP, na ponte 25 de Abril, na Marinha Grande. Tudo bons rapazes.

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Publicado por [Chuckie Egg] às 04:06 PM | Comentários (5)

Quem foi a vaca que deu este Leite?

Publicado por [Rick Dangerous] às 02:33 PM | Comentários (3)

O desejo de ser inútil

- Qual é a sua própria ideia de Jesus?

- Acredito que tenha existido, mas não que era filho de Deus, enviado pelo pai para nos salvar. A ideia de um deus que se faz homem e sofre pela humanidade não é, aliás, exclusiva do cristianismo. Sem ir muito longe, sem recorrer às crenças dos aborígenes da Austrália, das civilizações pré-colombianas ou dos bosquímanos do deserto africano do Kalahari, podemos associar Jesus ao Prometeu da mitologia grega, que, tendo facultado aos homens o fogo e o saber, se vê agrilhoado no cume do Cáucaso com uma águia que lhe devora o fígado, até que Hércules o liberta. E diz-se também que Prometeu tinha criado os mortais, moldando-os com argila. Quanto ao Jesus que nos apresentam os Evangelhos, parece-me muitas vezes mais fanático do que tolerante. Por exemplo, ele diz que não traz apenas a paz, mas a espada: pode trazer-se ambas ao mesmo tempo? Ou então, frustrado porque uma figueira não tem frutos, amaldiçoa-a e torna-a estéril para todo o sempre, quando nem sequer era a época dos figos. Claro, dizem-nos que é uma parábola, que a figueira é uma imagem de Israel, mas tal comportamento da parte de um homem suposto ser o filho de Deus parece-me bem estranho, enfim, amaldiçoar uma árvore! Há um Evangelho apócrifo em que Jesus provoca a morte de uma criança que troça dele...
Mas mesmo aquilo que consta oficialmente do Novo Testamento deixa-me a impressão que Jesus era um fanático. Penso nomeadamente no episódio sobre os mercadores do Templo de Jerusalém. Os romanos obrigavam a pagar em moeda a participação nas cerimónias religiosas.; toleravam todos os cultos, mas sacavam dinheiro, o que é uma ideia bastante moderna. Quando os judeus iam vender algo ao Templo, era simplesmente para obter em troca o dinheiro necessário à prática do culto. Nessa época o uso de moedas não era generalizado, praticava-se muito a troca directa. mas os romanos, decididamente mais modernos, só aceitavam moedas. E Jesus, como se não soubesse que tal situação era inevitável, improvisa um chicote com cordas e zurze os mercadores: para mim, Jesus, é o exaltado de Nazaré.

Hugo Pratt, O desejo de ser inútil

Publicado por [Renegade] às 12:35 PM | Comentários (3)

novembro 17, 2008

Uma tendência comum a intelectuais da classe média.

O artigo de Vasco Pulido Valente sobre o Congresso Karl Marx é apenas um sintoma. A disfunção é bem mais grave e Filomena Mónica já escreveu sobre ela. Só que agora alastrou ao cérebro.

«Marx escreveu fundamentalmente sobre a sociedade inglesa de meados do século XIX (e mesmo assim falsificou e distorceu informação para confirmar a sua filosófica tese). Em 2008, nenhum dos pressupostos de que partiu continua a existir no Ocidente, na Ásia ou no Brasil. O "Colóquio Internacional" esqueceu este pequeno pormenor, que o torna fatalmente uma reunião um pouco saudosista e patética. Não admira que o Bloco, de Louçã e Rosas, por lá andasse entusiasmado e beato.
Marx acreditava numa ilusória e putativa "luta de classes" como "motor" da História e no proletariado como o agente introdutor do milénio. O proletariado, no sentido que ele dava à palavra, quase desapareceu e, onde não desapareceu de todo, não passa de um "estrato" (coisa muito distinta de uma "classe") minoritário e sem força. Não se percebe onde, nesta crise, o "Colóquio Internacional" viu o mais leve indício de uma "luta de classes", susceptível de arrasar o capitalismo. Ou como confunde (se confunde) os trabalhadores da China (uma potência formalmente comunista) com os trabalhadores de Manchester em 1880 ou da América ou da França em 2008. O "Colóquio Internacional" finge que discute Marx. O que ele discute, na verdade, é a extensão do poder do Estado: uma tendência comum a intelectuais da classe média.»

Publicado por [Rick Dangerous] às 08:11 PM | Comentários (10)

¿Para Patricia y por causa!

Publicado por [Rick Dangerous] às 07:27 PM | Comentários (5)

Agenda Política

Em Campo de Ourique

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(se clicarem na imagem, amplia mais um pouco)

Publicado por [Saboteur] às 05:13 PM | Comentários (10)

novembro 16, 2008

Da série "Grandes Portugueses"

Obikwelu treina com os Buraka

Publicado por [Saboteur] às 04:41 PM | Comentários (14)

novembro 14, 2008

Agenda Cultural

Amanhã vai tudo abaixo na Voz do Operário.

Espero que não literalmente, embora tenha algum receio...

Este vídeo foi gravado nos jardins do Palácio de Cristal, no Porto. Por baixo está um parque de estacionamento. O chão estremecia bastante com os saltos do público. Será que o velhinho edifício onde eu andei na pré-primária vai aguentar?

Publicado por [Saboteur] às 11:34 PM | Comentários (16)

Mail dos EUA

Tenho recebido mails de alguém que tem acompanhado as eleições norte-americanas muito de perto.

Tem acompanhado. É precisamente esse o tempo verbal. As eleições ainda não acabaram e é no fundo isso que é tão interessante neste relato:


Subject: Missouri e Portugal; Alaska, Minnesota e Georgia; quem ganhou?

Caros amigos,

1
Na noite das eleições costumamos ouvir os discursos de sempre.
Uns cumprimentam os vencedores, esquecendo os nomes que lhes chamaram. Outros cumprimentam os vencidos e dizem-se representantes de todos. Os mesmos todos que tecem loas à democracia.
Os jornalistas (quase todos) ajudam à festa e preparam-se para partir para outra porque esta já não tem "interesse jornalístico".

2
Dos cinquenta Estados Americanos só há 8 com mais população do que Portugal: California (mais de 36 milhões), Texas (>23), New York (>19), Florida (>18), Illinois e Pennsylvania (>12), Ohio (>11) e Michigan (>10). Portugal seria, em número de habitantes, o nono Estado.
Agora imaginem que, passados nove dias das Eleições Presidenciais em Portugal, ainda não se soubesse quem era o futuro Presidente.
Aconteceu em 2000, entre Gore e Bush, no meio das trapalhadas das eleições na Florida.
Está a acontecer de novo, em 2008, no Estado de Missouri, onde ainda não se sabe quem ganhou!
Pelos vistos ninguém se incomoda. Não tem interesse jornalístico...

3
Missouri tem, segundo o último censo, 5.878.415 habitantes. Pouco mais de metade de Portugal. Como não estão contados todos os votos e há dúvidas nos que foram contados, não se sabe quem ganhou! Neste momento, McCain tem mais 4 990 votos do que Obama. Em pouco mais de 2 milhões e oitocentos mil votos contados... Se isto se passasse em Portugal o que se diria!
Por aqui, aguarda-se a contagem e recontagem e o anúncio do vencedor...

4
O mais grave de tudo isto é que se provou, uma vez mais, que o sistema eleitoral americano não está preparado para resultados equilibrados. A margem de erro do sistema é superior a pequenas diferenças no número de votos. Se Obama não tem ganho claramente na Florida, no Ohio, na Virgínia, em Nevada, no Colorado, em New Mexico, na Pennsylvania, etc, estaríamos de dedo na boca à espera dos resultados.
Acham que é normal? Aqui é!

5
Mas há mais. No dia 4 de Novembro houve eleições para alguns lugares no Senado, para alguns lugares na House of Representatives (câmara baixa do Congresso), para Sheriffs, para os mais diversos cargos e ainda para referendos às Constituições de vários Estados.
Um dos assuntos referendados era o da proibição de casamentos entre homossexuais, por exemplo.

6
Na Georgia paira um mistério. Parece que terão desaparecido votos! Nada se sabe.
Mas, meus amigos, depois de haver filas para votar, durante semanas, em que os eleitores esperavam mais de 4 ou 5 horas (havendo casos de esperas superiores a 8 horas!), parece que o número de votantes terá sido mais ou menos o mesmo de há 4 anos atrás!
Essa mesma Georgia onde se ergue, orgulhosa, à beira da auto-estrada principal que a atravessa, uma enorme bandeira dos Estados do Sul, racistas, do tempo da Guerra Civil...

7
Na Georgia há já, no entanto, uma certeza: No dia 2 de Dezembro vai haver eleições novamente, desta vez para eleger um senador. É que, segundo as leis eleitorais deste Estado, para que um candidato seja eleito tem de ter mais de metade dos votos entrados nas urnas. Como o candidato do Partido Republicano não o conseguiu, haverá uma segunda volta.
Adivinhem quem anda pela Georgia a fazer campanha eleitoral...
McCain, Romney, Giuliani, Huckaby e montes de outras ilustres personalidades do Partido Republicano...
Andam de cabeça perdida...
A equipa de Obama está em força na Georgia, a fazer o trabalho de sapa que andámos, pelo país todo, a fazer durante dois anos.
Essa mesma Georgia onde se ergue, orgulhosa, à beira da auto-estrada principal que a atravessa, uma enorme bandeira dos Estados do Sul, racistas, do tempo da Guerra Civil...
Não é engano. Fui eu que repeti a frase. Vocês podem não compreender, mas eu vi, com os meus próprios olhos, a enorme bandeira desafiadora!

8
No Alaska a história é outra.
Foi anunciada a vitória do candidato Republicano ao Senado (aliás, o mais antigo Senador Republicano). Tinha uma vantagem de uns milhares de votos. Mas faltava contar dezenas de milhares de votos...
Eram votos que davam uma maioria a Obama e ao candidato do Partido Democrático e que, a partir de certa altura, deixaram de ser contados.

Por força do controlo democrático houve que recomeçar a contar votos.
Ontem foi anunciado que faltava contar ainda 35 mil votos e que o candidato do Partido Democrático estava com mais 3 votos que o velho Republicano.
Continuamos a aguardar!

9
Aliás há outra história dentro desta história.
O tal velho senador Republicano tem um processo às costas por corrupção e, mesmo que seja eleito, será expulso do Senado!
Se perder as eleições (parece que é o que vai acontecer) o assunto fica arrumado.
Mas se ganhasse e fosse expulso do Senado teria de ser substituído. A mais forte candidata ao lugar seria uma senhora que está em bicos dos pés para o conseguir, depois de afirmar que o cargo de Governadora do Alaska é o melhor emprego do mundo!
Sarah Palin, claro! A Sarah do Alaska, como ela gosta de se chamar!!!

10
Em Minnesota a história é, ainda, outra.
Passa-se o mesmo que na Florida 2000! Há recontagem de votos.
Ontem dizia-se que se saberá o resultado final antes do Natal! Deste ano, penso eu...
O candidato do Partido Democrático está a 205 votos da vitória (votaram mais de 2 milhões e 800 mil pessoas). Ele tem 1 211 359 votos, enquanto o candidato do Partido Republicano tem 1 211 565 e um terceiro candidato tem 437 389.

11
A parte interessante deste romance eleitoral para o Senado é que, se os candidatos do Partido Democrático ganharem estas 3 eleições, passará a haver uma maioria qualificada no Senado (60 Senadores do Partido Democrático e 40 do Partido Republicano). Esta correlação de forças impedirá o Partido Republicano de travar processos legislativos que exijam uma maioria de 2/3 dos votos no Senado!
Aqui está, talvez, uma das explicações para tanta trafulhice...

12
Por hoje é tudo.
A conversa vai longa e a crise não deixa de se aprofundar.
As previsões da OCDE e do FMI para as economias americana e europeia são dramáticas.
Teremos um próximo ano de recessão.
Sem fim à vista.
E há ainda muita gente que insiste em meter a cabeça na areia e esperar que a tempestade passe. O mais grave é que algumas destas avestruzes estão nos poleiros dos poderes...
...
Um abraço,

Publicado por [Saboteur] às 01:00 PM | Comentários (6)

Scuola Diaz

Sem grande surpresa a maior parte dos chefes de policia responsáveis pelas torturas e pelas humilhações sexuais em Bolzanetto e pelo raid à escola Diaz que deixou poças de sangue por tudo o que era lado foram absolvidos.

aqui a noticia

aqui uma cronologia do G8 de génova

Ambas do La Repubblica


Imagens que constituiram prova de que os cocktails molotovs encontrados dentro da escola e que segundo a policia justificaram a sua expedição punitiva tinham sido na verdade colocados lá pela policia

Publicado por [Party Program] às 11:38 AM | Comentários (2)

novembro 13, 2008

Guilherme Teixeira Pinto - um pedido de desculpas

Escrevi uma entrada aqui no Spectrum sobre uma peça do Diário de Notícias. Essa peça noticiava o falecimento de Guilherme Teixeira Pinto.

Ao escrever a entrada tinha em mente sobretudo contestar a relevância pública dessa informação e a exploração que o DN fazia da morte de alguém pela simples razão de os pais dessa pessoa serem figuras públicas. A entrada que escrevi continha uma série de expressões infelizes e de mau-gosto.

Nunca foi minha intenção atingir a reputação e a memória de Guilherme Teixeira Pinto nem utilizar um facto trágico como a morte para provocar sofrimento a quem quer que fosse. No fundo, o que escrevi pretendia ser uma pequena provocação. E como provocação a coisa funcionou. Foram aparecendo comentários, alguns de gente mais exaltada (a desejar-me a morte e coisas piores) e alguns de pessoas que fui percebendo que se sentiam genuinamente ofendidas, mas mesmo estas entravam em insultos fáceis e iam dizendo na sua maioria as coisas mai escabrosas. Como não insultei ninguém dei-lhes o desconto que mereciam. Finalmente, hoje li mesmo dois comentários de duas pessoas que afirmam pertencer à família...

Se de facto é esse o caso, acho que já se foi longe demais. Parece-me que aquilo que começou por ser uma provocação (uma provocação infantilóide, é certo, mas uma provocação) se está a transformar numa coisa que nao gosto. Se tudo isto já chegou tão longe acho que está na altura de parar, sobretudo se o texto teve o efeito de fazer sofrer os que, pela sua relação familiar ou outra, mais próximos se encontravam do falecido. Se assim é, lamento profundamente.

Por todas estas razões, quero apresentar as minhas desculpas sinceras aos que se sentiram atingidos na sua dor pelo que escrevi, em especial à família de Guilherme Teixeira Pinto (admitindo que de facto tiveram acesso ao texto). Respeito o luto e a dor que atravessam e não quero, como nunca quis, contribuir para acentuar esse sofrimento. Por tudo isto achei por bem retirar o post e considero o assunto encerrado.

Publicado por [Renegade] às 02:16 PM | Comentários (32)

novembro 12, 2008

Deusas, Rainhas e um certo país

Lengalonga (ouvir aqui)

Self-made coisa e tal
Fabricante de bandeira
Kit-Kat, Capital
Luna Park de fronteira

Falocrata à paisana
Pico pico saramico
Sanduíche americana,
Quem te deu tamanho bico?

Senta-te, não caias
Cala e come a tua mão
Menino, saia das saias
Homem não se quer chorão!

Ai não queres, adeus viola
Quem pode não sai de cima
Da foda não reza a escola
Muito perdoa quem rima

Muita carne de terceira,
Com molho tudo se engole
Pergunte à alternadeira
Se a moral não anda mole

Central talvez nuclear
Guerra sempre preventiva
Gasolina pró jantar
Que a gente em nada se priva

Era uma vez um país
à beira mar chamuscado
Porque Deus assim o quis
De cinza e negro pintado

Era uma vez uma terra
De lá vem um lá vão dois
Onde a carroça se enterra
Terão de passar os bois

Nem tanto ao mar
Nem tanto à terra
A gente ladra ao luar
Mas à luz do sol não ferra

Gira lá roda da sorte
Gosto de ouvir-te chiar
Pois do berço até à morte
Me deixarei embalar

Caluda, bolinha baixa
O Salazar é que era
O povo a toque de caixa
Nesses tempos quem me dera!

Futebol de canapé
Nossa Senhora da Bola
Tenho medo e tenho fé
Cerveja com muita gola

Oh Senhora dos Parolos
Que fazes numa azinheira?
Precisamos é de golos
E missa futeboleira!

Se é pobre é porque tem culpa
Se é preto, tirem-lhe a tosse
Se é puta que pague a multa
E se é puto antes não fosse

Se é bicha, jaula com ela
Se é bicho, atira a matar
Se é jovem não lhe dês trela
Se é cota não tem lugar

Se é doente já não presta
Se é carente compre um cão
Se é urgente não tem pressa
Se caiu, deixa no chão.

Rebeubéu pardais ao ninho
Portugal engole sapos
No sótão, só macaquinhos
Na cave, gatos-sapatos

Nem tanto ao mar
Nem tanto à terra
A noite ladra ao luar
Mas à luz do sol não ferra

Ana Deus (voz) e Regina Guimarães (letra)

Publicado por [Renegade] às 08:06 PM | Comentários (4)

"O rochedo de Sísifo, mais uma vez, rolou pela encosta abaixo."JM Branco

O José Mário Branco demitiu-se do Mudar de vida. As razões que levanta (dirigismo, sectarismo, espirito de directório...) rementem para as práticas dos dois partidos da esquerda parlamentar; o espelho crítico não é o instrumento preferido da organização política dos partidos: existem os que assumem a displina interna como elemento unificador (e de dominação) que na sua lógica celular mantém os militantes filialmente dependentes do seu querido líder e do seu comité de sábios; para além destes, existem os que criticam o estalinismo dos outros e que me fazem sempre pensar neste video.

E o Louçã não me faz lembrar a minha avó.

Publicado por ["Paco" Menéndez] às 08:01 PM | Comentários (8)

E nós a vê-los passar...

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O Reitor da Universidade de Lisboa, António Sampaio da Nóvoa, apresentou a demissão por estar em desacordo com a forma como o Ministério do Ensino Superior tem vindo a gerir as Universidades. A história já é antiga e tem mais barbas que o Barata Moura, o Karl Marx e o Pai Natal juntos. Não há dinheiro e nem a verba proveniente das propinas serve para tapar os buracos.
A contestação à política educativa do governo do Sócrates ganha outros contornos. Isto começa a fazer lembrar os últimos anos do cavaquismo. Professores na rua, estudantes na rua (e a levar porrada da polícia)... Enfim, só falta mesmo a malta da Lisnave cortar a estrada entre a Cova da Piedade e Cacilhas...

Publicado por [Bomb Jack] às 04:52 PM | Comentários (5)

Somos tod@s invisíveis

"E depois há o terrorismo, claro. Ou seja “qualquer infracção cometida intencionalmente por um indivíduo ou um grupo contra um ou mais países, as suas instituições ou populações, visando ameaçar e atingir em larga escala ou destruir as estruturas politicas, económicas ou sociais de um país”. É a comissão europeia que fala. Nos Estados Unidos há mais prisioneiros que agricultores."
Appel, Edições Antipáticas, 2008

Estão neste momento detidos, ao abrigo da legislação anti-terrorista, 10 camaradas franceses. Acusados de ter sabotado linhas de comboio do TGV, podem permanecer encarcerados durante 96 horas sem que as autoridades efectuem qualquer acusação formal ou disponham de provas. Até agora a única justificação avançada pelo M. do Interior francês é a de que se trata de um «grupo com um discurso muito radical» e «relações com outros grupos semelhantes no estrangeiro». A definição da Mme Michèle Alliot-Marie (Mª do Interior) é a de que pertencem ao «movimento anarco-autónomo».

Segundo a imprensa, a polícia considerou muito suspeito o facto de ter encontrado, na pequena quinta de Tarnat onde viviam cinco deles, mapas de horários dos caminhos de ferro e material de escalada. Dois deles terão sido identificados numa operação de rotina junto de um dos locais de sabotagem, quatro horas antes de ela ter ocorrido.
Os habitantes da localidade descreveram-nos como «jovens muito alegres e simpáticos».
Há um ano, por ocasião de uma greve de ferroviários, já vários actos de sabotagem semelhantes haviam sido praticados em toda a França. Desta vez parecem estar relacionados com o transporte de materiais radioactivos de França para a Alemanha, alvo de contestação por parte de vários grupos ecologistas.

Um dos detidos, Julien Coupat, foi doutorando em história na Ecole des hautes études en sciences sociales, tendo desistido em 1999. Foi um dos membros do comité de redacção da revista Tiqqun e um dos presumíveis autores de «L'insurrection qui vient», obra colectiva editada após o movimento anti-CPE, assinada por um «Comité Invisível» e que pode ser lida aqui em francês. A edição portuguesa está para breve, cortesia de Chuckie Egg.

A imprensa francesa está particularmente interessada numa frase do livro: «Sabotar com alguma consequência a máquina social implica hoje reconquistar e reinventar os meios de interromper as suas redes. Como tornar inutilizável uma linha de TGV, uma rede de eletricidade?»
A mim, continua-me a ecoar uma outra afirmação, do Appel: "Onde os activistas gritam “ninguém é ilegal” , torna-se necessário reconhecer exactamente o inverso: uma existência legal hoje em dia seria uma existência inteiramente submissa.[...] Se tomarmos em consideração a soma de leis de excepção e regulamentos de costumes que governam os espaços atravessados por quem quer que seja, não há actualmente uma única existência cuja impunidade possa ser assegurada. Existem leis, códigos e decisões de jurisprudência que tornam punível toda a existência; basta para tal que sejam aplicadas à letra."

Publicado por [Rick Dangerous] às 03:58 PM | Comentários (3)

novembro 11, 2008

DE QUEM É A CULPA?


Anselm Jappe
Desta vez, todos os comentadores estão de acordo: o que se está a passar não é uma mera turbulência passageira dos mercados financeiros. Estamos a viver, sem dúvida, uma crise que é considerada a pior desde a Segunda Guerra Mundial, ou desde 1929. Mas de quem é a culpa, e por onde encontrar a saída? A resposta é quase sempre a mesma: a «economia real» está sã, foram os mecanismos corruptos de uma finança que escapou a todo e qualquer controlo que puseram em risco a economia mundial. Sendo assim, a explicação mais expedita, mas também mais propagada, atribui toda a responsabilidade pela crise à «avidez» de um punhado de especuladores que teriam jogado com o dinheiro de todos como se estivessem num casino. Mas reduzir os arcanos da economia capitalista, quando esta funciona mal, às maquinações de uma conspiração maléfica tem uma longa e perigosa tradição. Arranjar, mais uma vez, bodes expiatórios – a «alta finança judaica» ou outra –, oferecendo-os ao julgamento do «povo honesto», constituído pelos trabalhadores e aforradores, seria a pior das saídas possíveis.
Opor um «mau» capitalismo «anglo-saxónico», predador e sem delimitações, a um «bom» capitalismo «continental», mais responsável, não é uma atitude muito mais séria. Verificou-se, nas últimas semanas, que as diferenças são subtis. Todos aqueles que agora apelam a uma «maior regulação» dos mercados financeiros, desde a associação ATTAC ao Presidente Sarkozy, não vêem nas loucuras das bolsas mais do que um «excesso», um abcesso num corpo são.
E se a financiarização, longe de ter arruinado a economia real, a tivesse, pelo contrário, ajudado a sobreviver para além da data de prescrição? Se tivesse insuflado um sopro de vida num corpo moribundo? Por que estamos tão certos de que o próprio capitalismo deva escapar ao ciclo do nascimento, crescimento e morte? Não poderá ele conter limites intrínsecos ao seu desenvolvimento, limites que não residem apenas na existência de um inimigo declarado (o proletariado, os povos oprimidos), nem na extinção dos recursos naturais?


Nos dias que correm, voltou a ser moda citar Karl Marx. Mas este filósofo alemão não falou apenas da luta de classes. Ele previu também que um dia a máquina capitalista se deterá por si própria, que a sua dinâmica se exaurirá. Porquê? O modo de produção capitalista de mercadorias contém, à partida, uma contradição interna, uma autêntica bomba ao retardador situada nos próprios fundamentos. Só é possível fazer frutificar o capital e, por conseguinte, acumulá-lo, explorando a força de trabalho. Mas, para gerar lucro ao empregador, o trabalhador tem de estar apetrechado com as ferramentas necessárias, e hoje com tecnologias de ponta. Daí resulta uma corrida contínua – ditada pela concorrência – à utilização de tecnologias. O primeiro empregador a recorrer a novas tecnologias fica sempre a ganhar, porque os seus operários produzem mais do que os que não dispõem dessa ferramenta. Mas o sistema no seu todo perde, porque as tecnologias substituem o trabalho humano. O valor de cada mercadoria singular contém, pois, uma quota-parte cada vez mais exígua de trabalho humano – que é, no entanto, a única fonte da mais-valia e, portanto, do lucro. O desenvolvimento da tecnologia diminui os lucros na sua totalidade. Contudo, durante um século e meio, o alargamento da produção de mercadorias, à escala mundial, foi capaz de compensar esta tendência para a diminuição do valor de cada mercadoria.
Desde os anos 70 do século passado, este mecanismo – que outra coisa não era senão uma fuga para a frente – está bloqueado. Paradoxalmente, os ganhos de produtividade permitidos pela microelectrónica fizeram o capitalismo entrar em crise. Eram necessários investimentos cada vez mais vultosos para pôr a trabalhar os poucos operários que tinham sobrado segundo os padrões de produtividade do mercado mundial. A acumulação real do capital ameaçava estancar. É então que o «capital fictício», como lhe chamou Marx, ganha livre curso. O abandono da convertibilidade do dólar em ouro, em 1971, retirou a última válvula de segurança, o último ancoradouro à acumulação real. O crédito mais não é do que uma antecipação dos lucros futuros esperados. Mas quando a produção de valor, logo de sobrevalia, estagna na economia real (o que não tem nada que ver com uma estagnação da produção de coisas – mas o capitalismo gira à volta da produção de mais-valia, e não de produtos, enquanto valores de utilização), só a finança permite aos proprietários de capital realizarem os lucros que se tornaram impossíveis de obter na economia real. A escalada do neoliberalismo, a partir de 1980, não foi uma manobra suja dos capitalistas mais ávidos, um golpe de Estado preparado com a ajuda de políticos complacentes, como quer crer a esquerda «radical» (que agora tem de tomar uma decisão: ou avança para uma crítica do capitalismo, sem mais, mesmo que este já não se proclame neoliberal, ou participa na gestão de um capitalismo emergente que incorporou uma parte das críticas feitas aos seus «excessos»). Pelo contrário, o neoliberalismo foi a única forma possível de prolongar um pouco mais o sistema capitalista, cujos fundamentos ninguém, seriamente, queria pôr em causa, quer à direita, quer à esquerda. Graças ao crédito, um grande número de empresas e de indivíduos conseguiu manter durante muito tempo uma ilusão de prosperidade.
Agora, também esta muleta se quebrou. Mas o regresso ao keynesianismo, evocado a torto e a direito, será de todo impossível: os Estados já não dispõem de suficiente dinheiro «real». Por agora, os decisores adiaram um pouco mais o mane-tecel-phares, acrescentando um outro zero aos números mirabolantes escritos nos ecrãs e aos quais já não corresponde nada. Os empréstimos concedidos recentemente para salvar as bolsas são dez vezes superiores aos buracos que faziam tremer os mercados há dez anos – mas a produção real (diga-se, banalmente, o PIB) aumentou cerca de 20 a 30 por cento! O «crescimento económico» já não tinha base autónoma: resultava, sim, das bolhas financeiras. Mas quando estas bolhas tiverem rebentado, não haverá um «saneamento» após o qual tudo possa recomeçar.

Talvez não venhamos a assistir a uma «sexta-feira negra», como em 1929, a um «Dia do Juízo». Mas há boas razões para crer que estamos a viver o fim de uma longa época histórica. A época em que a actividade produtiva e os produtos não servem para satisfazer necessidades, mas para alimentar o ciclo incessante do trabalho que valoriza o capital e do capital que emprega o trabalho. A mercadoria e o trabalho, o dinheiro e a regulação estatal, a concorrência e o mercado: por trás das crises financeiras que há vinte anos se repetem, cada vez mais graves, perfila-se a crise de todas estas categorias. As quais, é sempre bom lembrá-lo, não fazem parte da existência humana em toda a parte e sempre. Apoderaram-se da existência humana ao longo dos últimos séculos e poderão evoluir para algo diferente – algo melhor ou ainda pior. Contudo, não é o tipo de decisão que se tome numa reunião do G8…

[Tradução do francês de Maria da Graça Macedo]


*Anselm Jappe é autor de As Aventuras da Mercadoria (Antígona, 2006) e Guy Debord (Antígona, 2008).

Este texto pode ser difundido por todos os meios de comunicação, sem indicação de copyright.

Publicado por [Rick Dangerous] às 04:16 PM | Comentários (8)

uma história de pedra a construir-se



Olha-me este país a esboroar-se
em chagas de salitre
e os muros, negros, dos fortes
roídos pelo vegetar
da urina e do suor
a carne virgem mandada
cavar glórias e grandeza
do outro lado do mar.

Olha-me a história de um país perdido:
marés vazantes de gente amordaçada,
a ingênua tolerância aproveitada
em carne. Pergunta ao mar,
que é manso e afaga ainda
a mesma velha costa erosionada.

Olha-me as brutas construções quadradas:
embarcadouros, depósitos de gente.
Olha-me os rios renovados de cadáveres,
os rios turvos de espesso deslizar
dos braços e das mãos do meu país.

Olha-me as igrejas restauradas
sobre ruínas de propalada fé:
paredes brancas de um urgente brio
escondendo ferros de educar gentio.

Olha-me a noite herdada, nestes olhos
de um povo condenado a amassar-te o pão.
Olha-me amor, atenta podes ver
uma história de pedra a construir-se
sobre uma história morta a esboroar-se
em chagas de salitre.

Rui Duarte de Carvalho, Chagas de Salitre (1976)

Publicado por [Rick Dangerous] às 12:51 PM | Comentários (3)

Se isto não é o povo, então onde é que está o povo?


Publicado por [Rick Dangerous] às 12:41 PM | Comentários (7)

novembro 10, 2008

Dias contados

Quando leio o DN ao fim-de-semana, disponível no café, salto sempre directamente para a página de opinião de Alberto Gonçalves. Para os nostálgicos do tempo em que honrava com a sua escrita a imprensa de referência (ou seja, o Correio da Manhã), relembro os seus penetrantes comentários sobre a cena cultural francesa: "Dessa pocilga saíram os Althusser, as Duras, os Foucault, os Lacan. E Portugal, como bom Terceiro Mundo, destacou-se no fornecimento de selvagens a alfabetizar (?) nesse caldo absurdo."
Gostava de conhecer pessoalmente o sociólogo Alberto Gonçalves para poder debater certas opiniões. Conto os dias, mas engano-me sempre na caverna.

Publicado por [Rick Dangerous] às 07:40 PM | Comentários (4)

Procrastino muito

Teria todo o gosto em responder ao questionário do acto de formação nº3 que o Ministério da Educação propõe aos professores. Quase todas as perguntas me parecem excelentes e não saberia por onde começar a escolher a minha preferida. A maior parte dos comentários críticos tem-se debruçado sobre a última, «Nunca me vestiria de uma maneira vistosa, boémia ou que chamasse a atenção de qualquer outra forma», sem dúvida bem apetitosa, até considerando a elegância com que habitualmente Maria de Lurdes Rodrigues aparece em público.

Mas eu, pessoalmente, prefiro aquelas questões através das quais Jeffrey Glanz (o pai do questionário) tentou enxergar os aspectos mais obscuros da alma humana. Por exemplo: «Sou mais inteligente que a maioria das pessoas e os demais geralmente reconhecem-no» (53). Note-se a subtileza, a escolha de palavras, a argúcia. Se os demais são menos inteligentes do que eu, porque é que a opinião deles me deveria interessar, a mim, que sou mais inteligente do que eles? E será que, ao reconhecê-lo (não sempre, mas «geralmente) eles se tornam também mais inteligentes?
«Gerir um cargo de vulto e ter subordinados que se encarreguem do trabalho de pormenor é a minha ideia de ocupação ideal»(49), bem como, «Gosto de me dar com pessoas influentes e não me sinto intimidado por elas» (42) ou «Desde criança que parece que quero mais da vida do que as outras pessoas» (6) foram estudadas antentamente para descobrir o arrivista que há dentro de cada um de nós. Ao responder-lhes, fica-se com a sensação desconfortável de que Glanz nos está a meter a mão num sítio intímo e secreto, que não gostaríamos de revelar a ninguém. Tipo a próstata.
Não se permanece a mesma pessoa depois de ter preenchido um questionário desta natureza. Tão empenhadamente estúpido.

Há as perguntas aparentemente inócuas que nos levam a considerar quão higiénica é a nossa casa, ou se as pessoas gostam de nós ou se planeamos bem as férias. Mas há também aquelas que trazem ao de cima qualquer tipo de veleidade esquerdista: «Penso que o respeito pela autoridade é um dos pilares de um bom carácter» ou «Gosto de reflectir sobre questões de vulto, como a organização política da sociedade» (respectivamente 3 e 4) e «Acredito seriamente que o divórcio se deve tentar evitar sempre que possível» (14). Esta última levanta uma série de questões filosóficas da primeira importância. Será possível «evitar» o divórcio quando já não se gosta do/da cônjuge? E em caso de violência domestica? Apaixonado por outra pessoa, será que devo evitar o divórcio (ao fim e ao cabo é possível)?

As perguntas menos estúpidas do questionário mereceriam, da maior parte das pessoas razoáveis, a resposta «depende», mas evidentemente que isso não é possível, porque o questionário pressupõe uma de duas respostas. Costuma ser essa a pricipal razão para incluir em questionários questões cuja resposta seja inequívoca. Do género: «Acho este questionário absolutamente imbecil, a pessoa que o criou um idiota e quem se lembrou de o pôr à minha frente um otário capaz de ir nadar nas piscinas de Santana Lopes.»
Aí está uma questão a que os professores responderiam com a mesma facilidade com que, ultimamente, se manifestam. Efectivamente e sem procrastinar.

Publicado por [Rick Dangerous] às 06:19 PM | Comentários (6)

BING, BOUM, BAM... Elogia à beleza da mulher (delírio dentário)!

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Com 25 anos decido de alinhar os meu dentes… e BING… a solução passa por meter um aparelho durante 2 anos e meio com a extracção de 4 pré molares. Uns perguntam-me, “Porquê?”. Outros acrescentam à questão alguns critérios estéticos como o facto de ter “um sorriso harmonioso com características tão particulares!”.
E BOUM...No dia antes de assinar o contrato... ah sim... meter um aparelho é um verdadeiro negócio que implica responsabilidades de uma parte e de outra. Não posso comer caramelos e o dentista não será responsável se os meus dentes caírem um por um. é a justiça dos tratamentos dentários! Mas portanto, voltemos à assinatura… sinto a necessidade de me aconselhar perto de alguém sobre esta escolha : fazer ou não fazer, eis a questão. Telefono ao papa, que me diz “esquece isso, és mais que bonita assim”... e BAM... tudo o que não deveria ser dito, o papa disse. Telefono à mama, e BING, ouço tudo o que era necessário para me resignar à minha beleza relativa e ter coragem de assinar o contrato: “sim, tu vais fazê-lo, se eu tivesse tido dinheiro antes, já te teria obrigado a fazer há muito tempo. Não vês que existe uma anomalia na tua cara? », « mas mãe agora não tenho companheiro(a) », « e então, já tiveste muitos ». Me voilà, com toda a coragem para me comprometer nesta aventura.
BOUM, com 26 anos transporto comigo uma espécie de prótese, resultado de um complexo relacionado com o estatuto social. Na verdade quis acreditar na ascensão social. Carrego comigo a memória construída, sem dúvida dentro do contexto familiar, de todas as fotografias de William Klein, onde algumas crianças oriundas das classes populares sorriem com todos os dentes podres. No entanto, elas parecem ser felizes e eu uma feliz hipócrita. Feliz de poder sorrir sem os dentes podres, hipócrita de poder na mesma rir com os dentes desalinhados.

Onde se encontra então o teu problema? Justamente, em nenhum lado ! Et BAM... consciencializo-me que meter um aparelho na boca materializa-se numa prova que me impinjo a mim mesma YES, I CAN, YES, WE CAN, na esteira da campanha de Obama. Uma verdadeira escolha livre, pertencendo tipicamente àqueles que têm recursos intelectuais e monetários para o fazer. Tenho os meios para o fazer, tenho confiança no meu belo sorriso com ou sem aparelho, e sobretudo tenho toda a confiança na minha inteligência para transformar a minha imagem, talvez deformada pela prótese, numa vantagem!
E BING... O objectivo deste aparelho torna-se claro: não é tanto o resultado que me interessa mas sobretudo o processo de dois anos e meio. E BOUM, por uma vez interesso-me à postura que tenho quando como em público a fim de não levar comigo um fio de espinafres preso à prótese. “é o aspecto de sofisticação que te faltava”, disse-me um amigo. E BAM.... O primeiro problema ligado à intimidade torna-se o elemento mais encantador do processo. Os beijos tornam-se delicados, a curiosidade do outro torna-se minuciosa, a intimidade mais requintada... BING... a imagem social é consolidada. Sorrio agora e como nunca com um brilhozinho nos olhos. Um brilho que vais buscar as suas raízes na auto-estima confortada pela prova.
Será que tenho actualmente uma imagem passível de empurrar o questionamento dos outros à questão da minha integridade física e intelectual? Et BOUM, adoro me reforçar naquilo que podia constituir a minha fraqueza. E BAM... sinto-me mais bela e mais inteligente do que nunca! Et BING...Nenhum Jacques Prévert encontrar-me-à no mercado de escravos da imagem.”Estou farta de ser sexy”!

Publicado por [Shift] às 03:09 PM | Comentários (3)

novembro 09, 2008

3º lamento por ocasião do renascimento mediático de Santana

Santana, na entrevista que deu à SIC notícias, disse que “este presidente” não tinha Obra e que ele tinha as piscinas, o túnel do Marquês…

É obvio que no que diz respeito à obra realizada, o tempo é importante. Por isso, comparar 1 ano de Costa com os seus 4 anos de mandato, diz muito do aldrabilhas com que estamos a lidar.

Mas foi logo escolher 2 maravilhosos exemplos:

As piscinas de Santana são uma anedota, mas uma anedota de estudo, porque foi destas pequenas histórias que se fez o aumento do Passivo da CML em 140%, em apenas 6 anos.

Tal como o túnel, tratava-se de uma obra que não fazia parte do património das reivindicações dos Lisboetas. Não havia projecto, não havia estudos, ninguém tinha pensado no assunto.

De repente chegou um presidente que queria espalhar piscinas por toda a Lisboa. "Uma por cada Bairro", prometeu.

Começou tudo a ser projectado à pressa, concursos públicos à pressão, “Concepção-Construção!”, ordenou. Sai mais caro, mas os serviços não acompanhavam os impulsos do Presidente da Câmara.

Das dezenas de piscinas prometidas, ficaram 6. 6 que não abriram entretanto por falta de pessoal, ou que fecharam mais tarde porque, para além de pagar as piscinas é preciso pagar depois toda a manutenção e funcionamento... Santana não se lembrou disto e Lisboa vai coleccionando piscinas fechadas em processo de degradação.

O que nos vale é que no Verão, para nadar, não há nada como as dezenas de praias que existem há volta da nossa cidade.

Mas esta história das piscinas ainda tem mais um episódio engraçado e bem Santanista:

Houve uma piscina que ele não construiu, porque já havia. Mas que no entanto não tinha as mínimas codições para ser utilizada. Santana, no entanto, mandou fazer obras profundas e ficou bem moderna, mesmo "à maneira".

Falo, claro, da piscina da "Residencia Oficial do Presidente da Câmara", em Monsanto. Residência que Santana Lopes foi o primeiro a ocupar e que António Costa está agora a tentar vender.


Publicado por [Saboteur] às 06:17 PM | Comentários (4)

Se ele estivesse morto, os jornais não perdiam tempo com ele - Segundo lamento por ocasião do renascimento mediático de Santana

«Depois de, há três anos, ter sido demitido das Funções de primeiro-mInistro, Pedro Santana Lopes merguLHOu num período de meditação. Mas, com a liderança de Luís Filipe Menezes, tornou-se chefe do grupo parlametar do PSD. Depois foi candiDAto à liderança do Partido e agora, ao que tUdo indica será candidaTo à presidênciA da Câmara Municipal de Lisboa.»

Começa assim a entrevista que sai hoje na Pública.

Publicado por [Joystick] às 01:16 PM | Comentários (7)

Se ele estivesse morto, os jornais não perdiam tempo com ele - Primeiro lamento por ocasião do renascimento mediático de Santana

O da putafilho dapu tafil ho. Da putadi-lho da Putafilh, o daput a filhod. A putaf il hodaputa? Filhodaputamente, fil hodap utafilho - da put a filhodaputa. Filhod a putafilh-o, dap utaf ilhodapu ta filhodaputa fi lho da puta, f ilho da putafil hodaputafilh. O da putafi-lho, daputamente, filhoda p utafi lho! Da putafilhoda putafi? Lh o da puta, (des)filho da putafilh o dap uta, filhodamente, puta - filho da puta.

Publicado por [Joystick] às 12:42 PM | Comentários (6)

novembro 08, 2008

Aftershock

Aqui fica a imagem do mau estar que tive oportunidade de presenciar nos territorios palestinianos ocupados em 48, ou seja, na sociedade Israelita. Espero, para aqueles que têm uma boa conecçao de internet, que encontrem tempo para ver este pequeno filme de 23 minutos. Uma amiga israelita disse-me que quando o viu em 2003 disse para si mesmo : "woow if Israeli see this they will not want to go to the army...", acrescentando que a mensagem deste filme se resume em hebreu a Yorim ve Bochim, ou seja, shooting and crying.


Publicado por [Shift] às 01:15 PM | Comentários (1)

novembro 07, 2008

SEMINÁRIO INTERNACIONAL AUTONOMISMO ITALIANO, CAPITALISMO COGNITIVO e GENERAL INTELLECT


INSTITUTO DE CIÊNCIAS SOCIAIS DA UNIVERSIDADE DE LISBOA
13 NOVEMBRO | 14h30 | SALA POLIVALENTE


|| | PROGRAMA
Nos últimos anos, um conjunto de pensadores oriundos de uma tradição política e teórica forjada no quadro dos antagonismos que marcaram a Itália dos anos 70 adquiriu crescente importância em vários debates contemporâneos. As suas ideias – desenvolvidas, diversificadas e renovadas ao longo dos anos 80 e 90 – são hoje objecto das mais vivas controvérsias, a nível das ciências sociais, da filosofia ou da teoria política. Este seminário constitui uma oportunidade para analisar historicamente o contexto de emergência e renovação dessas ideias e para dialogarmos com dois dos seus mais eminentes autores: o economista Carlo Vercellone e o filósofo Paolo Virno.

14h30
Abertura, por Manuel Villaverde Cabral (ICS-UL)
14h45
A fábrica do antagonismo: operaismo e autonomia operária (1964-1977)
Por Ricardo Noronha (IHC-UNL)
A globalização do autonomismo (pós-1989)
Por José Neves (ICS-UL)

Com moderação de Manuel Villaverde Cabral

16h30
A tese do capitalismo cognitivo : uma perspectiva histórica e teórica
Por Carlo Vercellone (Université Paris I)

Com moderação de José Luís Garcia (ICS-UL)
18h
Duas ou três questões acerca do conceito de General Intellect
Por Paolo Virno (Universitá di Cosenza)

Com moderação de Diego Cerezales (Universidad Complutense de Madrid)

A entrada é livre, mas está limitada ao número de lugares disponíveis.
Inscrições para: assessoria.eventos@ics.ul.pt

Publicado por [Rick Dangerous] às 08:28 PM | Comentários (4)

Há muito tempo

Que não levávamos um banho destes na luz.

Publicado por [Rick Dangerous] às 07:05 PM | Comentários (3)

O regresso dos mortos-vivos

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O Director do Diário de Notícias dizia hoje na TSF que Pedro Santana Lopes tinha uma capacidade extraordinária de sobrevivência e de voltar sempre ao palco da política.

Eu acrescentaria que muita dessa capacidade extraordinária se deve aos próprios meios de comunicação social, nomeadamente do próprio DN.

Graças aos serviços de uma Agência de Comunicação expedita, que utilizou sempre o DN como principal plataforma de criação de factos políticos, Santana conseguiu-se impor à própria agenda de Manuela Ferreira Leite, conseguindo também a proeza de abafar o facto de ter sido constituído arguido pelo crime de abuso de poder em relação à distribuição de casas camarárias.

Para António Costa, no entanto, este é capaz de ser o melhor adversário. Este é o candidato da direita que mais facilmente mobilizará a esquerda para o voto útil, tendo em conta que parece ser impossível uma convergência de esquerda na capital.

Publicado por [Saboteur] às 04:14 PM | Comentários (125)

Foi você que pediu um choque tecnológico?


Basta vir aqui, para seguir no mapa, escola a escola, a resistência dos professores ao novo modelo de avaliação de desempenho. Há coisas fantásticas, não há?

Publicado por [Rick Dangerous] às 03:45 PM | Comentários (590)

novembro 06, 2008

All the fun


Tomorrow, perhaps the future. The research on fatigue
And the movement of packers; the gradual exploring of all the
Octaves of radiation;

Tomorrow the enlarging of consciousness by diet and breathing.
Tomorrow the rediscovery of romantic love,
The photographing of ravens; all the fun under
Liberty's masterful shadow;

Tomorrow the hour of the pageant-master and the musician,
The beautiful roar of the chorus under the dome;
Tomorrow the exchanging of tips on the breeding of terriers,
The eager election of chairmen
By the sudden forest of hands. But today the struggle.

Tomorrow for the young poets exploding like bombs
The walks by the lake, the weeks of perfect communion;
Tomorrow the bicycle races
Through the suburbs on summer evenings. But today the struggle.

Today the deliberate increase in the chances of death,
The conscious acceptance of guilt in the necessary murder;
Today the expending of powers
On the flat ephemeral pamphlet and the boring meeting.

Today the makeshift consolations: the shared cigarette,
The cards in the candle-lit barn, and the scraping concert,
The masculine jokes; today the
Fumbled and unsatisfactory embrace before hurting.

The stars are dead. The animals will not look.
We are left alone with our day, and the time is short, and
History to the defeated
May say alas but cannot help or pardon.
W.H. Auden, «Spain, 1937»

Publicado por [Rick Dangerous] às 04:14 PM

Piazza Navona Antifa Redux 3.0


A melhor montagem até agora, com fotos e vídeos vários, reproduz toda a sequência dos acontecimentos com a voz off de Cursio Maltese, jornalista de La Reppublica e testemunha dos acontecimentos. Tem 5 minutos.

Publicado por [Rick Dangerous] às 03:42 PM

Piazza Navona Antifa - Sinopse

A pedido de várias famílias (ideológicas) e do Adriano, passo a explicar o que parece ter-se passado em Roma a 29 de Outubro de 2008.
A Casa Pound é, para quem não sabe, uma rede de colectivos de extrema-direita de filiação identitária e «social». Em Itália o termo «Direita social» tem um significado muito preciso e que está relacionado com a ala populista, plebeia, anti-plutocrática do fascismo. A referência fundamental é a República Social Italiana, dita de Saló, fundada em 1943 após a rendição de Roma e sustentada fundamentalmente pelas SS e pela Wermacht, que na altura invadiram Itália para resgatar Mussolini e aguentar os aliados na frente sul da Europa. A Casa Pound tem, para além das óbvias referências culturais e históricas à face mais sofisticada e intelectual do fascismo, a particularidade de apoiar as ocupações de espaços abandonados e a criação de centros sociais. Ao fazê-lo disputa o terreno social, cultural e político à «àrea antagonista». A sua presença na manifestação estudantil, agrupada na forma de um nebuloso «Blocco Studentesco» insere-se neste esforço de disputar a rua e o protesto aqueles que são os seus tradicionais protagonistas em Itália. E, ainda em Setembro, Gianlucca Iannone, um dos expoentes da Casa Pound veio ao Montijo explicar a coisa aos seus camaradas portugueses.

No dia 29, apareceram com um camião de som na manifestação dos estudantes do secundário, logo pela manhã. Note-se que em Roma a extrema-direita tem uma força considerável entre os jovens e uma presença assinalável nalgumas escolas de alguns bairros, nomeadamente por via das claques da Roma e da Lázio. É por isso que se vêm alguns homens de 20 e 30 anos a enquadrar muitos jovens em torno do camião branco. Pela leitura do site do «Blocco Studentesco» resulta claro que a presença no meio universitário não lhes permite semelhante façanha em La Sapienza, pelo que os mais velhos optaram por enquadrar os mais novos e conduzi-los na manifestação.
Ora a manifestação, pela manhã, às 10h, quando começaram os confrontos, reunia apenas estudantes do secundário e Professores. Quando o «Blocco studentesco» procurou furar pela manifestação a dentro e colocar-se em destaque em frente ao Senado, chocou com os elementos do COBAS-Scuola (os COBAS são sindicatos de base autónomos, neste caso dos Professores e funcionários) e alguns estudantes do secundário que lhes fizeram frente. Em maioria e preparados previamente para o confronto, os corajosos militantes do «Blocco Studentesco» espancaram a magra dezena que lhes fez frente e mandaram para o hospital um puto de 16 anos. Quando a ambulância apareceu para vir buscar o puto, aproveitaram a deixa para se colocar à frente da manifestação. O vídeo produzido pelo «Blocco Studentesco» começa aí, com o gajo que minutos antes estava a dar com a fivela do cinto na cabeça de um professor a explicar que não tinha culpa e que só se tinham defendido.
A coisa estaciona aqui, com os fascistas a assumir a posição de força que tinham antecipado e preparado previamente.
Entretanto, por telemóvel, sabe-se em La Sapienza, grande pólo universitário ocupado, com largas tradições de luta e estrilhos variados, que os fascistas tinham atacado manifestantes. A poucos kilómetros do local, antecipando o cortejo que devia juntar-se à manifestação, um grupo de estudantes de La Sapienza, entre os quais os elementos do serviço de ordem da ocupação, segue em passo acelerado para a Piazza Navona.

Ali chegados, ouvem o relato do que aconteceu e decidem expulsar da manifestação o «Blocco Studentesco».
O resto está nos filmes. Ê falso que um bando de maluquinhos violentos tenha atacado gratuitamente jovens pacíficos de extrema-direita por «preconceito ideológico». É verdade que houve uma disputa da legitimidade de participar numa manifestação estudantil. E que essa disputa teve momentos de enfrentamento. Mas olhando bem para a facilidade com que abriram caminho primeiro, e cerraram fileiras depois, os elementos da Casa Pound procuraram e desejaram o confronto. Estavam à espera de ganhar com facilidade. Enganaram-se. Note-se que de um lado estão menos pessoas, mas muito melhor equipadas, com barras de ferro e tochas, e do outro está um grupo maior a atirar cadeiras porque não trouxe o mesmo tipo de aparato. Há capacetes de um lado e de outro, o que não espanta quem esteja familiarizado com as manifestações em Itália. E só pode lamentar a falta de cavalheirismo implícita na desproporção dos números quem desconhecer o longo historial de ataques nazis e facistas a festas e iniciativas em Centros Sociais ou em plena rua. O Bushido não é propriamente a leitura de cabeceira desses rapazes, que gostam de aparecer em maioria e armados no final da noite e espancar quem apanham à frente. Aqui, um mapa das agressões cometidas pela extrema-direita em Itália nos últimos 3 anos.

Depois a intervenção da polícia, quando o camião já está a ser destruído. Repare-se no diálogo em que o jovem facho mais betinho com a camisa da pausa diz ao bófia que «estes são os meus rapazes» («questi sono gli miei ragazzi») e este lhe responde, carinhoso, «vai, vai Francesco». O gajo com a camisola do Real Madrid já apareceu num vídeo a dizer que era da Casa Pound e não da bófia. Mas quem conhece a história recente de Itália não pode ignorar a facilidade com que a bófia se infiltra, manipula e usa à vontade os grupos de extrema-direita. Uma estação de comboios em Bologna foi destruída à bomba por fascistas em 1980, com os serviços secretos a puxar os cordelinhos.

Note-se que alguns grupos «marxistas-leninistas» também são considerados suspeitos à esquerda e eu vi, pessoalmente, numa manifestação realizada a 4 de Junho de 2004, o serviço de ordem do COBAS expulsá-los à força e encontrar num deles um distintivo da bófia política (DIGOS). Para compor este ramalhalhete, um «Campo Anti-Imperialista» organizado por alguns desses marxistas-leninistas de Roma contou com a presença de alguns grupos de extrema-direita considerados «anti-sionistas». Sherlock Holmes arrancaria cabelos se tentasse entender em pormenor a cena política italiana.

A crise avança e com ela a tentativa de penetração da extrema-direita nos movimentos sociais e de capitalização do descontentamento num sentido xenófobo e autoritário. Quem acha que o perigo não existe está, quanto a mim, muito a Leste da dimensão dos problemas. À medida que se agudizam as contradições sociais este tipo de episódios terá tendência a repetir-se. Nesse aspecto Itália é habitualmente um laboratório político privilegiado e dá-nos já uma ideia daquilo para que pode servir uma extrema-direita habilmente conduzida. Os cartazes do Marquês e de Entrecampos são brincadeiras de crianças comparados com o que pode estar para acontecer. E Pacheco Pereira demonstra ter compreendido bem a História recente quando defende Mário Machado. Ainda pode bem vir a acontecer o contrário.

Publicado por [Rick Dangerous] às 01:45 PM | Comentários (368)

Leituras comparadas

Miguel Sousa Tavares (MST), o lider da revolta contra o porto de Lisboa, é o tema central da VISÃO e da SÁBADO desta semana.

A análise comparada dos artigos é interessante.

A VISÃO lembra-nos de sentenças de MST como “Um casal homosexual não oferece garantias para educar equilibradamente uma criança», ou «Deixei de acreditar que o Estado deva gastar recursos dos contribuintes a tentar reintegrar as ‘minorias’ instaladas na assistência pública como os ciganos, os drogados, os artistas de várias especialidades ou os desempregados profissionais»

A SÁBADO, lembra-nos antes que segundo ele «já era tempo de Almeida Santos começar a perceber alguma coisa sobre descolonizações e imperialismos» ou «A minha maneira de ser é muito aquela máxima: ‘Agarrem-me senão eu bato-lhe'»


Não está tão charmoso neste close-up, não é?

Publicado por [Saboteur] às 12:12 PM | Comentários (5)

novembro 05, 2008

O PND-Madeira


Como é que este homem que garante ser comunista se encaixa num partido assumidamente de direita? "O PND na Madeira é um movimento anarca que abriu as portas aos cidadãos.(...)"Sempre que lutei pelos meus direitos era posto na rua", diz o novo deputado independente do PND. Iniciado no PCP, reconhece: "Se não fosse o Partido Comunista, era um analfabeto político. Serei sempre comunista."(...)E lá foi Coelho ver "as coisas boas da URSS", concluindo 27 anos após a visita que, "afinal, há qualquer coisa de parecido no modelo da Madeira com o modelo soviético, só que, ainda, de uma forma incipiente"

Tudo isto e ainda mais aqui.

Publicado por [Chuckie Egg] às 08:41 PM | Comentários (8)

Piazza Navona Antifa Redux 2.0 (agora a história toda contada)

Publicado por [Rick Dangerous] às 07:59 PM | Comentários (3)

Piazza Navona Antifa Redux

Publicado por [Rick Dangerous] às 07:36 PM | Comentários (5)

Sei o que escreveste num verão passado


“É, obviamente, fácil atacar o capitalismo português, e, particularmente, os bancos, pela sua actuação anterior ao 25 de Abril. Basta recordar a contribuição que o crédito distribuído pela banca (e até a sua intervenção directa) tiveram no surto especulativo que ocorreu na bolsa nos últimos três anos."
Fernando Ulrich, Expresso, 10/08/1974

Publicado por [Rick Dangerous] às 07:15 PM | Comentários (2)

Em termos pessoais

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“Em termos pessoais, creio, no entanto, que em termos realistas e porque pretendo que Portugal se encaminhe a prazo para a realização de uma ideia socialista por via democrática pacífica, penso que isso passa por um período mais ou menos longo de transição em que terá que haver uma coexistência com o sector capitalista. Período de coexistência em que se insere uma regra a impor ao sector capitalista «dos lucros segundo o Plano» e onde se inserem outras coisas que neste momento o G.P. não tem ainda mandato para executar, como sejam a expansão decisiva do sector público na economia por forma a que ele possa constituir um exemplo de gestão democrática das unidades produtivas, e a criação de contrapoderes e mecanismos de participação ao nível da sociedade no seu conjunto e na das empresas por forma a que estas ideias de igualdade perante o poder económico e o poder político vão fazendo o seu caminho, até virem a ser aceites plenamente dentro de um consenso político maioritário no futuro em Portugal.”
Vítor Constâncio, Expresso, 29/06/1974

Publicado por [Rick Dangerous] às 07:05 PM | Comentários (1)

Escolher a tempestade


“Os dados estão lançados. Com a nacionalização da banca e suas naturais consequências, Portugal encontra-se em situação de desafio, não só perante o complexo sistema em que até aqui se inseria organicamente, como diante de si mesmo. Este desafio, na medida em que representa um passo histórico irreversível de apropriação nacional de meios e poderes anacrónica ou injustamente privatizados, é daqueles que uma comunidade historicamente adulta tem de assumir com um máximo de lucidez. É um momento exaltante do acidentado destino português e por isso mesmo é capital que se não transforme em exaltação que reverte a termo numa espécie de cegueira psíquica nacional. A perspectiva socialista, enfim concretamente aberta, vai impor à realidade portuguesa, num contexto mundial, ao mesmo tempo favorável, inquieto e inquietante, uma conversão mobilizadora de toda a capacidade e energias históricas de que somos capazes. O que Portugal escolheu – de olhos abertos, em princípio – foi a tempestade e terá, em analogia com a sua aventura passada, de mostrar a si mesmo e a um mundo que não terá ternuras excessivas para os novos argonautas do Ocidente, que é capaz de a enfrentar e dominar.”
Eduardo Lourenço, “Socialismo crítico ou ditadura: à margem de um Portugal nu”, Expresso, 03/05/1975

Publicado por [Rick Dangerous] às 06:58 PM | Comentários (1)

Não percebo nada do sistema eleitoral americano

Mas parece-me que os apelos de Saboteur e de Party Program fizeram do Spectrum um pólo agregador na mobilização do voto lusófono e foram o empurrão decisivo para a vitória de Obama. É claro que o Falâncio também deu uma ajudinha.

Publicado por [Rick Dangerous] às 06:20 PM | Comentários (3)

Dance we can believe in

OBAMA dancing.jpg
Voz amiga me avisa que hoje, a partir das 23h, no Bicaense, se dança soul e funk pela vitória de Obama.

Publicado por [Rick Dangerous] às 05:28 PM | Comentários (3)

O Pacheco do costume

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Durante a madrugada de hoje a SIC foi intervalando a emissão com os clientes do costume da Quadratura do Círculo. Deu um certo jeito porque sempre permitia que a malta fosse ao WC sem perder grande merda.
Mas numa dessas interrupções, seriam duas e pouco da manhã, ainda consegui ouvir a suprema alarvidade do Pacheco Pereira a rezingar qualquer coisa contra aqueles que há oito anos vociferaram contra o facto de o presidente eleito ter menos votos populares que o derrotado. Àquela hora McCain estava ligeiramente à frente na votação popular. E o magnífico Pacheco, sempre à frente nas suas análises, aproveitou para espicaçar essa malta dizendo que queria ver se fariam o mesmo desta vez, caso McCain ganhasse em número de votos...
Agora que já se sabe que Obama tem qualquer coisa como mais 7 milhões de votos que McCain, e que, ainda por cima, é o presidente eleito com mais votos populares na história dos EUA qual será o argumento de Pacheco? Nenhum... Presumo eu! Engole em seco e recolhe à Marmeleira para retemperar as forças!
P.S.: Se alguém conseguir encontrar o vídeo dessa declaração eu agradeço.

Publicado por [Bomb Jack] às 03:08 PM | Comentários (2)

La vostra chrisi non la pagheremo noi

O vídeo acima passou num programa da RAI como prova das primeiras agressões do tal grupo de faxos que provocou os confrontos já aqui descritos. Insatisfeitos com a utilização da televisão no apuramento da verdade, ameaçaram por telefone jornalistas e suas famílias («Vi abbiamo identificato, a voi e ai vostri familiari»). Ricardo Araújo Pereira, you´ll never walk alone.

Cartaz_anti_PNR.jpg

Aqui, uns quantos desses faxos passam das ameaças ao actos e num momento de loucura entram pela RAI adentro na esperança de "falarem" com os responsáveis do programa.

Quiçá os próximos jogos da Lazio não terão repetições nos foras-de-jogo, talvez até se consiga banir da tv qualquer cobertura das manifestações das últimas semanas em Itália, onde milhões de pessoas se mobilizaram contra as declarações de fascistas assumidos do governo de berlusconi e agora contra as reformas na educação que têm como belo objectivo poupar dez mil milhões de euros e acabar com quase 100 mil postos de trabalho.

manifestazione.gif

Mas a mim parece-me mais realista que aqueles 30 otários com ansias de mediatismo e cheios de proactividade vão acabar por levar na boca à proxima tentativa de entrarem numa manifestação. Parece-me também que enquanto não houver cedências por parte do governo, as ocupações continuarão, os bloqueios idem. E tudo isto parece-me como que um arranque de época do movimento, o inimigo já saiu da toca, as mobilizações funcionam, a "crise" encosta os direitolas à parede. Pode ser que o governo ordene as intervenções policiais já habituais, e solidário que estou com quem vai apanhar com o bastão, também não será de monorizar que isso só enfraquecerá o governo e aumentará a mobilização para os protestos já convocados para os dia 7 e 14 deste mês.

09.jpg

"Ci bloccano il futuro, noi blocchiamo la città"
Adoro esta merda

Publicado por [Chuckie Egg] às 11:05 AM | Comentários (0)

É DEMOCRATA! É PARTIDO! É PARTIDO DEMOCRATA!

Se soubesse assim emocionante uma vitória eleitoral há já muito que me tinha deixado de tretas.

Publicado por [Party Program] às 09:22 AM | Comentários (7)

Os pontos nos iis.

Ontem na CNN um comentador disse que uma das coisas boas da vitória de Obama era que o mundo ía passar a respeitar novamente mais a "América" e o que ela representa para o mundo.

Todos concordaram e houve um que comentou com um ar meio de gozo qualquer coisa do tipo que o mundo se tinha esquecido que eles tinham vencido a 2ª Guerra Mundial.

Vamos pôr os pontos nos iis.

Quem venceu a 2ª Guerra foram os Aliados, mas foi sobretudo o glorioso Exército Vermelho e o heroico Povo Soviético.

Depois o Obama venceu, mas, já agora, lembro que o casamento gay está em vias de ser banido na California.

Bem, por outro lado, os camaradas do Michigan, conseguiram aprovar a autorização do uso da Marijuana para fins medecinais...

Uma Democracia avançada no século XXI, é uma Democracia que defende os povos do glaucoma. Mai'nada!

Publicado por [Saboteur] às 09:02 AM | Comentários (7)

YES!

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We can!!!

Publicado por [Bomb Jack] às 04:24 AM | Comentários (1)

novembro 04, 2008

Um dia tivemos um Ministro das Finanças assim...

Miguel Cadilhe, que ainda enquanto ministro consegui escapar mais ou menos ileso a um baldanço do pagamento da Sisa num apartamento de luxo que comprou, veio hoje dizer que continua em grande forma no que diz respeito a ter uma grande lata.

O presidente da Sociedade Lusa de Negócios, que (ainda) detém o BPN, veio queixar-se de que o Estado, em vez de nacionalizar o banco, deveria era ter lá metido 600 milhões de euros.

Já não bastavam os 250 milhões de euros que a Segurança Social tem lá depositados. Já não bastava o Estado ter fechado os olhos – até agora – a todos os negócios menos claros do Banco. Já não bastou o Governo não tocado nos negócios não falidos da SLN (nomeadamente na Real seguros) para o grupo continuar a dar dinheiro para pagar os ordenados àqueles gajos… Tínhamos que agora meter lá 600 milhões para Cadilhe continuar a brincar aos bancos.

Seria de tal forma escabroso que até Vitor Constâncio teria de se opôr... ou, pronto, mandar um mail a dizer que achava mal... ou um sms... ou pelo menos pensaria em fazer isso....


Constâncio elogia qualidades de Cadilhe. "... mas é bem trabalhador" (Foto de Setembro)

Publicado por [Saboteur] às 11:49 PM | Comentários (0)

Jogos Sem Fronteiras Nº 0

Festa de lançamento da revista
Jogos Sem Fronteiras,
(número zero)
no dia 6 nov, às 21h no Crewhassan,
Rua das Portas de Sto Antão, 159 com Pedro e Diana Vera Cruz

**A revista Jogos sem Fronteiras entende a fronteira não como um sulco mas como um programa "cujo funcionamento investe e percorre todo o conjunto das relações sociais", como uma operação que está permanentemente a ser reactualizada no espaço, nas disciplinas e nos nossos próprios actos, como uma polícia especializada em separar quem é de quem não é, como uma linha que nos atravessa a todos e de que é importante falar.


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Jogos sem Fronteiras, número zero:
IDEIAS
Êxodo: corpos migrantes vidas ilegais - Ricardo Noronha
Sobre os campos da Europa - Ana Maria Vieira
Fronteiras, migrações, cidadania - Sandro Mezzadra
Todos somos migrantes - Regina Guimarães
A Lusofonia é uma bolha! - Marta Lança

EXPERIÊNCIAS
Quando a realidade ultrapassa a ficção - Colectivo Casa Viva
A justiça na fila de espera - Christiane Machado Coelho
A expulsão - José Nuno Matos
Seis horas em Lisboa - António Tomás
Um silêncio colado à língua - 'Imigrantes' afro-moçambicanos em Portugal - Sheila Khan

PRÁTICAS
Projecto Bab Sebta - Pedro Pinho, Frederico Lobo e Luísa Homem
Fadaiat - Ana Maria Vieira
Estrangeiro é a tua avô! - entrevista sobre teatro no Conselho Português de Refugiados a Miguel Castro Caldas
Escrever uma contra-geografia - Ursula Biemann
Tudo sobre controlo - Bettina Wind e Alexandra Dias Ferreira

Publicado por [Party Program] às 06:00 PM | Comentários (2)

HOPE II: Individualidade Comunista de Lisboa que escreve no Spectrum por Barack Obama

Se pudesse votava Obama.

Ao contrário de Party Program e de outros camaradas de Blog, voto sempre.

O meu respeito pela sacralidade do voto não é assim tão grande que me impeça de votar útil, votar no menos mau, votar sem estar muito convencido, etc. Até votei no Sampaio, fónix…

Bem, de qualquer forma, o que queria contar era o seguinte: no outro dia fui almoçar a casa da minha mãe e o meu padrasto disse chateado ao ver as notícias dos EU… “votem no preto, votem…”.

É preciso dizer que tanto o meu padrasto como a minha mãe são dois miseráveis racistas.

Ele acha que sabe tudo sobre os pretos porque esteve na guerra em Angola. Ela também, porque faz atendimento ao público numa repartição de finanças dos subúrbios, onde são precisamente os pretos que lhe chateiam mais com perguntas e com impressos sem estarem preenchidos (diz ela...). Mas uma coisa é certa: à noite a TV é sagrada… Mesmo no pleno sentido sagrado do termo.

Só o facto de ganhar um black inteligente, bem parecido, bem falante e carismático e de o irmos ter os próximos anos a entrar pelas nossas casas a dentro, todos os dias, através da televisão, vai ser um trunfo do caraças na luta contra o racismo. Uma luta da maior importância para mudar o estado das coisas.

Há mais, mas este post já vai longo demais.

Publicado por [Saboteur] às 01:18 PM | Comentários (3)

novembro 03, 2008

HOPE: Individualidades Anarquistas de Lisboa Por Barack Obama

Eu gosto do Barack Hussein Obama e espero que ele ganhe as eleições amanhã. Digo mais, se fosse americano votava nele, e nunca votei em ninguém antes.

Os argumentos contra o Obama costumam ser nestas linhas

1) Obama não é verdadeiramente de esquerda. O Hugo Chávez, o Fernando Lugo e o Francisco Louçã são verdadeiramente de esquerda e não é por isso que voto neles ou que tem sequer a minha admiração. Dizer que não há diferenças entre ele e McCain é já algo bastante redutor.

2) Não é por ai que as coisas mudam. Pois um também acho que não, aliás, nunca achei e surge-me algo ingénuo que se ache que poderá ser por um presidente eleito de uma democracia representativa que as coisas mudam na direcção em que nós queremos. Votaria no Obama pela mesma razão que iria a um concerto de Bruce Springsteen ou porque gosto dos Sopranos, porque apesar de tudo sou sensivel a mobilizações pop idealistas.

3) Quanto pior melhor: as vitórias de politicos de esquerda põe água na fervura de tensões sociais sem as resolver Concordando em base com isto não concordo com os radicalóides que o costumam dizer. De qualquer modo é inevitável uma desilusão com Obama. Eu e todos os apoiantes de agora vamos adorar essa raiva moralmente construtiva de quem foi alvo de traição por parte de alquém que julgavamos politicamente do nosso lado da barricada. Faz parte da antropologia de qualquer grupo criar os seus traidores e Obama será perfeito. Todo o povo da esperança desiludido com o seu lider não tardará em organizar-se informalmente num esforço insurreccional que depressa se estenderá dos ghettos de South Central ao Principe Real, passando pela Praça das Flores.

Mas ainda tenho argumentos a favor

1) Dentro de 30/40 anos a imagem escolhida para ilustrar a primeira década do séc. XXI seria sem dúvida o 11 de setembro, a eleição de um presidente preto é a única até agora capaz de concorrer com essa. Obama é Preto. Pode ser considerada uma opinião paternalista mas que o próximo presidente dos estados unidos seja preto, que a sua avó viva numa cubata e que seja amigo de ex-militantes da luta armada é algo que me enche de alegria. Quiça seja a minha veia pop superficial mas és lo que hay.

"pessoal, este é o campo que vamos foder todo hoje, tamos só à espera que chegue a SIC"

Obama liderando os Verde Eufémia na destruição do milho transgénico

2) O Obama é charmoso comó caralho. Podiam pegar nesses esquerdalhos todos que vocês preferem ao Obama e todos juntos não tinham um décimo da classe daquele gajo. Fodasse ele parece o James Bond Africano.


Muito tempo terá que passar Louçã no Holmes Place antes de ter este bom aspecto

2) A avó branca do Obama morreu hoje e sei que nada daria mais alegria a essa simpática velhota do que a vitória do seu neto. Eu tenho avó, lido com ela de perto e sei o que é o amor de uma avó e de um neto. Como tal peço a todos os americanos que votem no Obama e que possamos todos juntos dedicar essa vitória à sua avó e que seja sobre a sua memória que possamos todos juntos construir uma nova américa baseada nos eternos princicipios éticos que fizeram dela uma grande nação.

Publicado por [Party Program] às 10:28 PM | Comentários (12)

Virtual insanity


O BPN teve 360 milhões de Euros de prejuízo registados num «balcão virtual», não registado e não declarado, que funcionava em dois computadores, um deles portátil. Seria um «Magalhães»?

Publicado por [Rick Dangerous] às 07:03 PM | Comentários (2)

Por sua exclusiva decisão

João abel manta - banca nacionalizada.JPG

“O Conselho da Revolução, ao tomar a decisão de nacionalizar o sector bancário, adiantou-se à Assembleia-Geral Extraordinária convocada para ontem à noite pelos bancários, onde se iria discutir a situação actual e durante a qual, provavelmente (e como em ocasiões anteriores) seria aprovada uma moção pedindo a nacionalização da banca.
Se à posição de força do Sindicato, ao encerrar por sua exclusiva decisão os bancos, e suspender as administrações, se juntasse um pedido de nacionalização, antes de o C. da Revolução tomar qualquer resolução, este ficaria colocado numa posição de inferioridade em relação a uma hipotética negociação. Assim, tudo se resolveu, tendo-se o Conselho antecipado aos trabalhadores pela primeira vez.
Entretanto, a ordem de trabalhos da assembleia de bancários alterou-se, tendo-se debruçado os participantes sobre os acontecimentos do 11 de Março e sobre a maneira de colocar efectivamente a banca ao serviço do povo. Em contacto com o sindicato, foi-nos confirmada a abertura dos bancos para hoje, se bem que não pudessemos ter obtido indicações quanto aos models em que tal se vai processar. Foi-nos no entanto referido que haviam já apresentado ao Governo sugestões concretas a esse respeito, assim como uma lista com os nomes das pessoas consideradas de confiança para fazer parte das comissões administrativas que, pelas nove horas de hoje, se encarregarão das diversas instituições de crédito agora nacionalizadas.[...]
Do gabinete do Dr. Silva Lopes disseram-nos que o ministro estava em reuniões com os restantes elementos da equipa económica do Banco de Portugal e os elementos do Sindicato, pelo que não podiam informar em concreto quais as directivas que iriam presidir à reabertura dos bancos.”

Expresso, 15 de Março de 1975, p.1

Publicado por [Rick Dangerous] às 05:13 PM | Comentários (2)

um dia destes...

Publicado por [Renegade] às 04:01 PM | Comentários (1)

novembro 02, 2008

É tudo nosso! II

Visto que o BPN agora vai ser nosso podia-se aproveitar para rescindir o protocolo com o mafioso do Berardo e pô-lo a ele mais a sua incoerente e trapalhona colecção de novo-rico fora do Centro Cultural de Belém.

Para a substituir, temos para já as obras de Miró que pertenciam ao BPN.

Publicado por [Saboteur] às 08:27 PM | Comentários (2)

É tudo nosso!

João abel manta - banca nacionalizada.JPG

Publicado por [Saboteur] às 05:18 PM | Comentários (4)

Sobre a traição dos dirigentes do Partido...

Clicar por cima do artigo do Domingos Lopes, ex-membro do Comité Central, para ler sobre o revisionismo das teses deste Congresso.

Domingos Lopes.jpg

Publicado por [Saboteur] às 05:00 PM | Comentários (1)