« Para S. | Entrada | Cereais e Leite »

setembro 22, 2008

Fragmentos de uma viagem - Palestina

Nunca uma experiência vivida me foi tão difícil de descrever. Sem dúvida porque para além do contexto político e social da ocupação israelita actual nos territórios palestinianos, existe uma história de sofrimento com mais de 60 anos em toda a região, que não se apressa a terminar nos tempos vindouros.
Fui à Palestina três semanas como “electrão livre”. Tive a possibilidade de conhecer mais ou menos a totalidade da região, exceptuando Gaza, uma vez que possuo vários contactos próximos tanto de um lado como do outro do muro. Estas pessoas encontram-se separadas por este obstáculo, o que não obsta apesar de tudo a partilha de uma mesma luta e das mesmas aspirações para a sua terra natal: um Estado de Direito e de Igualdade entre cidadãos. Situo-me nesta visão, acreditando e insistindo na existência actual de uma entidade opressora e uma outra oprimida, facto que não deixarei de imputar nos parágrafos seguintes.
Na entrada para a Cisjordânia através da fronteira jordana, oito horas me esperavam de controlo israelita com todo um rol de questões e intimidações. O meu visto sírio e sobretudo o libanês não ajudaram à rapidez do processo, mas a mensagem foi clara: bem vinda ao inferno da terra sagrada!
O meu primeiro destino era Nablus. À minha chegada, no interior da Cisjordânia, não somente experimentei um mas três check points, sobre os quais já tinha bastante ouvido falar mas que nunca o meu cérebro ousara produzir uma imagem aproximativa até que os meus olhos a alcançassem. Subitamente, algumas questões me interpelaram e acompanharam durante o resto da minha estadia, nomeadamente sobre o papel do estrangeiro nesta região (fora de grupos parlamentares ou de ONG’s).
nablus.jpg
Nablus (+ - 21 horas)

A antiga cidade de Nablus, a sua beleza arquitectónica, o seu souk e a sua paisagem ao redor deixam-nos adivinhar que um passado próspero reinava nesta cidade. O olhar minucioso, a discussão com as pessoas e a experiência quotidiana levam-nos ao invés a mergulhar na realidade das coisas. Entre os check points que arrolham a cidade, as colónias ilegais que a cercam e as bases militares que a vigiam, Nablus é uma cidade situada no corredor da pena capital.
A pena começa à noite, quando as pessoas se sentem constrangidas a voltar para casa antes das 23 horas, com o objectivo de não cruzarem por surpresa a incursão israelita no interior da cidade que se realiza regularmente desde Abril de 2002. Um recolhimento obrigatório é assim imposto sem que seja necessário ser declarado. A cidade desertifica-se. De manhã, à hora do acordar, o alfabeto hebreu inscrito no micro-ondas impede-nos de ir directos ao botão correcto para aquecer dois minutos o leite. A ocupação faz-se assim sentir no interior dos lares conduzindo-nos a reflectir sobre a dependência palestiniana em relação ao mercado israelita. O dia, gradualmente, deixa-nos entrever as ruas alargadas pelos buldózeres, mas também os epitáfios que glorificam os mártires ou que choram as famílias sucumbidas nos escombros das explosões.
Depois, preparamo -nos para ir de Nablus a Ramallah, a cidade que os israelitas quiseram que os palestinianos proclamem capital da Cisjordânia após a anexação de Jerusalém-Este. Primeiro, apanhamos um táxi até ao checkpoint de Huwwara (ainda em Nablus) uma vez que são raros os carros que logram de uma autorização para o transpor. Caminhamos com a cabeça levantada até à fila de espera. Em frente dos soldados o nosso orgulho é testado quando somos controlados por um deles que boceja no momento em que verifica o passaporte e revista os nossos sacos, enquanto que um outro aponta uma M-16 na nossa direcção ou da multidão. Esta travessia transforma-se, para todos os palestinianos, e em particular para os homens que se encontram na faixa etária de 15 a 40 anos, num verdadeiro calvário de espera, humilhação e de restrição de mobilidade entra as cidades da Cisjordânia. Um verdadeiro terminal, como dizia um soldado a um destes homens: “é como um aeroporto, hein?”. Sobre estes soldados, a letra de uma canção de Geraldo Vandré sobre a ditadura brasileira é sugestiva: “ Há soldados armados... Nos quartéis lhes ensinam/ Uma antiga lição: De morrer pela pátria/ E viver sem razão.
checkpoint.jpg
Checkpoint de Huwwara, Nablus

Após um momento de tensão como este existe um outro inverso de descontracção, que coincide com o momento onde voltamos a apanhar um taxi minibus que nos transporta directamente a Ramallah. Algumas trocas amicais –reflexo do relaxamento- efectuam-se entre as pessoas, mas esta acção apenas dura alguns minutos, pois se o condutor nos diz “metam o cinto de segurança”, isto significa que um outro check point se avizinha... e repentinamente a respiração pára como se o cinto nos tivesse apertado em demasia. Tudo é arbitrário nestes check points, ou passa ou descarrila. Segundo um dos últimos relatórios da ONU, os obstáculos físicos à livre mobilidade dos palestinianos no interior da Cisjordânia elevava-se em Abril de 2008 a 607 barragens israelitas.
Um outro dia, uma outra volta, desembarco em Belém. Na cidade onde Jesus nasceu existem campos de refugiados, entre os quais um que se chama Aida. Cerca de 4500 palestinianos vivem desde há 3 ou 4 gerações, mas ao contrário dos peregrinos cristãos que afluem a esta cidade há séculos, estes palestinianos instalaram-se após a criação do Estado de Israel em 1948. Isto significa Nakba – a catástrofe- para aqueles que apenas tiveram o direito de levar consigo a chave da sua casa e a memória dos seus mortos. Em 60 anos estas chaves tiveram o tempo de ficar enferrujadas, o que não retirou a esperança de retorno que elas carregam em cada ano de oxidação.
Continuando no campo de refugiados, um senhor convida-nos ao telhado de um edifício para apreciar o panorama. Mais ou menos a meio da subida da escadaria um outro senhor convida-nos para beber um chá na sua casa. Na sala de estar onde nos sentámos um jovem de 19 anos dormia. O pai, rapidamente nos põe a par da história do seu filho, certamente para se justificar de alguma forma da descortesia. Com 16 anos ele foi detido pelos israelitas. Na prisão, foi torturado e forçado a comer quando fazia uma greve de fome. Incapaz fisicamente e traumatizado para a vida, ele passa os seus dias deitado no sofá. A razão da sua detenção: suspeito pelas actividades dos irmãos mais velhos, dois dentre eles ainda na prisão. Numa sociedade onde todas as famílias são tocadas directa ou indirectamente por detenções, aprendi que não se deve perguntar porque é que elas foram detidas mas o que é que os israelitas disseram.
Finalmente chegamos ao telhado. Aí, tivemos oportunidade de ver o desastroso espectáculo de um muro com 8 metros de altura, construído a cinco metros das casas do campo de refugiados de Aida. A estética de ter um muro de cimento cinzento em frente das suas janelas nunca propiciou um debate deste lado da região, o pior é a realidade que sobrevive atrás deste muro. Deste ponto estratégico pudemos observar várias e variadas coisas do outro lado: uma grande colónia ilegal no horizonte, oliveiras centenárias e algumas casas à esquerda e à direita. Numa desta casas à direita vive uma família palestiniana, onde as crianças antes do início da construção do muro em 2004 eram os primeiros a chegar às aulas, na medida em que viviam a 200 metros da escola. Eles continuam a viver a 200 metros da escola, no entanto, agora, eles têm que percorrer um caminho de uma hora e meia, ladeando as margens do muro e atravessando check points para chegar.
muroaida.jpg
Muro em frente do campo de refugiados de Aida

Algumas palavras nos chegaram para compreender o traçado do muro que faz ziguezagues a deixar toda a gente sem tino, que a título da segurança de Israel, separa assim vizinhos, cerca cidades palestinianas, confisca terras e furta pontos essenciais de recursos de água aos palestinianos. O plano de construção deste muro além das questões éticas implícitas, absorve 9,8% da terra da Cisjordânia em relação à Green line do Armistício de 1949.
Bil'in é uma aldeia palestiniana que tem resistido de forma exemplar à construção do muro, cujo traçado tira vários hectares de terra a esta municipalidade. Todas as sextas feiras, uma manifestação vai do centro da cidade às cercas onde supostamente vai ser construído o muro, luta que dura há mais de 4 anos. Estas manifestações são compostas pela população local, israelitas e internacionais anti-ocupação e colonização. Pela duração deste movimento de resistência a população local tem sido um laboratório de experiências de métodos repressivos. Para além das fórmulas clássicas, o exército israelita testa há pouco tempo o método do Karcher, máquina de jactos de água de forte pressão com água pestilenta, apelidado Skunk, em vista de dispersar e marcar os manifestantes. Ninguém sabe muito bem qual a composição desta água, e portanto as suas consequências. Estes métodos, frequentemente brutais, são a resposta às armas dos palestinianos, nomeadamente a bandeira palestiniana que eles içam na “frente de batalha”.
billin.jpg
Bil’in, manifestação pacifica (granada lacrimogénea israelita), Agosto 2008

Eis me agora numa quinta, no cimo de uma colina, cercada de colónias ilegais. Os proprietários, uma família palestiniana cristã, apegados à sua terra desde há muitas gerações fazem face cada dia à adversidade dos colonos que vêm armados propagar o medo. Sem grandes meios para cultivar a sua terra, chamaram a sua quinta “Tent of Nations”, transformando-se assim numa quinta aberta aos voluntários internacionais com o objectivo de semear a paz. A administração israelita recusa-lhes a autorização de construir por cada candidatura enviada. Consequentemente, no seu terreno eles têm galinheiros e estruturas de acumulação da água da chuva com um estatuto ilegal, ficando sujeitos a vai e voltas frenéticas ao tribunal. E se eles têm que mostrar aos juízes os seus papeis de propriedade que recuam à época do Império Otomano, aos seus vizinhos colonos apenas é necessário um pedaço de papel assinalando que a terra lhes pertence em nome de Deus. Os palestinianos já compreenderam bem os desafios que a sua terra lhes oferece, ao qual Mahmoud Darwish replica: “[...] E a partir do momento que compreendemos que ela carrega muita história e muitos profetas [...] na aceitação universal da palavra ocupação, seja qual for o número de títulos de direitos divinos que ela invoca: Deus não é a propriedade pessoal de ninguém [...]” (Eloquência do sangue, 2002).
Como estamos próximos de Jerusalém, passemos o check point que tem a forma de um matadouro e que nos permite passar ao outro lado do muro. Tudo é automático neste check point, facilitando assim a tarefa ao ocupante e ao ocupado. Nas placas podemos ler como proceder, “passe aqui”, “meta os sacos aqui” e sobretudo “conserve o terminal limpo”. Ou seja, o único contacto que temos com os soldados produz-se quando temos que expor os nossos papeis através de um vidro. Mas se por acaso estes papeis não são metidos de maneira a ficarem paralelos e equidistantes das margens dos vidros eles gritam-nos através de um microfone, como a cães que mijam no tapete.
Estamos em Jerusalém-Este. Este lado da cidade foi anexado pelos israelitas depois da guerra dos seis dias em 1967, data onde todo um reordenamento urbanístico se iniciou em vista de assegurar uma maioria judaica naquilo a que os israelitas projectam como o “Grande Jerusalém”. Certas estradas deixam-nos, neste contexto, distinguir as ruínas de antigas aldeias palestinianas no meio da muralha fortificada de colónias ilegais que fazem honor a “Jerusalém unificado” do lado oriental. Claro que este panorama lança outras pistas, como a confiscação de terras e a demolição de casas palestinianas, bloqueando por outro lado o crescimento natural de Jerusalém-Este e da sua população. Se os Palestinianos e os Israelitas vivem agora lado a lado em Jerusalém sem um muro físico entre eles, uma outra barreira invisível se construiu. “O barulho e os cheiros” são diferentes assim como o investimento da municipalidade no ordenamento do espaço público de um lado e do outro.
Os caminhos do meu programa de visita conduziram-me a Jaffa. Outrora considerada como o grande porto de Jerusalém, esta cidade e Haifa foram as portas da imigração sionista em massa nos anos 40. Unida desde então à municipalidade de Tel-Aviv, Jaffa foi o alvo de um grande projecto imobiliário que transforma ainda hoje esta cidade num exemplo de como a deslocação forçada da população palestiniana (agora com cidadania israelita, mas sem com isso terem os mesmos direitos) é um acto não terminado. Se as demolições das casas palestinianas são cometidas em nome da segurança pública, a especulação imobiliária e a recusa de autorização de construir aos palestinianos não deixam sombra de dúvida no que diz respeito às politicas públicas israelitas visando exclusivamente esta população.
Haifa, cidade que acolhia outrora a sede de animação do sindicalismo palestiniano, foi o palco de violentos confrontos aquando da entrada das tropas sionistas em 48. Segundo reza à história, o sangue dos mortos derramava ainda na calçada quando a apropriação e a pilhagem das casas palestinianas se começou a perpetrar. É uma cidade onde houve um esforço evidente da parte das forças sionistas no sentido de apagar todos os traços de uma cultura árabe e de uma vida palestiniana anterior à criação selvagem de Israel. Aliás, podemos facilmente constatar através da “sionização” da maior parte dos nomes das ruas.
Haïfa, cidade costeira, é também uma cidade onde, para o mal dos seus pecados, a sua situação geográfica permite lançar um olhar discreto sobre Beirute, se o céu quiser. O mais difícil é então de não pensar a Sabra e Chatila e a todos aqueles que foram forçados a partir desta cidade em direcção de um país vizinho. Também é difícil de não pensar nas condições ás quais estes refugiados são submetidos no Líbano há três ou quatro gerações, resultado de políticas sucessivas das autoridades libanesas que mantém uma situação deplorável de maneira a que estas pessoas não percam a esperança de voltar à sua terra um dia! Ou ainda, para que estas pessoas guardem a sua identidade bem viva, escondendo a teoria fascisante de receio de perder a sua, a identidade libanesa. “Tens sorte” dizia-me uma palestiniana do Líbano duas semanas antes em Beirute. Uma simples sorte de não estar ligada a esta terra e no entanto poder entrar e usufruir dela.
Para descer ainda mais fundo na minha experiência, desço a mais de 400 metros sob o nível do mar. As pessoas que têm acesso ao Mar Morto na Cisjordânia não têm mesmo a possibilidade de mergulhar, visto a taxa de salinidade, e de se esconder a si mesmo uma realidade que é visível aos olhos de todos: a ausência neste lugar de palestinianos da Cisjordânia, onde eles poderiam boiar e se hidratar com a lama. A construção de estradas exclusivas para os colonos e os espaços interditos aos palestinianos fazem desta Cisjordânia um pedaço de terra onde as pessoas têm uma existência anti ética que nos conduz necessariamente à apelidação de Apartheid.
Cada cidade da Cisjordânia tem uma particularidade, e a especialidade da ocupação israelita em Hebron tem contornos que são difíceis a expor tendo em conta o facto de ela encarnar uma verdadeira “paródia da crucificação”. Impossível de esquecer esta imagem de cidade decapitada... a imagem de um pato a quem cortamos a cabeça mas que mesmo no limite das suas forças, com as tripas penduradas e sem cabeça, continua a correr esgrouviado às voltas.
Hebron, a cidade bíblica que tão bem acolheu Adão e Eva depois de terem sido deserdados do paraíso é actualmente um lar de ódio e de agressividade. Os israelitas apegados ferozmente a Eretz Israel (Grande Israel), sob a protecção do exército após 67, começaram a colonizar pouco a pouco o centro de Hebron. O massacre em 1994 perpetrado por um colono contra muçulmanos que se encontravam a rezar, durante o mês do Ramadão, na mesquita de Haram el-Ibrahimi, onde 29 pessoas sucumbiram, perdura no ambiente da cidade.
Nesta cidade palestiniana, percorríamos normalmente uma avenida com uma intensa actividade mercantil até que repentinamente a passagem nos foi bloqueada. O passaporte europeu permitiu-nos atravessar sem problemas este check point israelita, mas se avenida era a mesma onde caminhávamos anteriormente ela estava agora vazia de luminosidade e de animação. Grandes portadas verdes fechadas, antigos comércios palestinianos, nos expõe no presente estrelas de David grafitadas. No andar de cima, nas janelas podemos visualizar bandeiras israelitas hasteadas como se de conquistas se tratasse.
hebronverts.jpg
Hebron, antigas portadas de comércios palestiniano actualmente encerrados

A volta nesta secção da cidade continua. Nós e todos os palestinianos tivéramos que passar por cima de túmulos para contornar as barragens israelitas. Entre estas peripécias, um outro graffiti em preto numa porta palestiniana branca perdurá gravado nas nossas memórias, dizendo “Gas the Arabs”, assinado por um tal JDL, hereditário sem dúvida de um tal Rabin Meïr Kahana. Um “gás” que nos faz ainda tremer de um passado tão recente e tão cruel marcado para sempre na nossa história europeia. “árabes” para não dizer palestinianos... nos lembrando assim da premissa mediatizada que nos empurra a cavar o antagonismo entre o Ocidente e o Oriente. Apesar de tudo, gostaria de desejar felicidade àqueles que o escreveram e rapidamente esqueceram que as suas casas foram construídas por cima dos cemitérios árabes porque eles se instalaram no Oriente! Esquecendo-se igualmente daquilo que David Ben Gourion já sabia, que entre alguns destes árabes encontram-se os verdadeiros descendentes da Antiga Judeia!
gasthearabes.jpg
Hebron, porta de uma casa palestiniana, grafite realizado por colonos

Logo depois, um colono nos pára e pergunta, “onde é que vão?”, questão cuja resposta apetecia-me ter dado com uma outra questão, “é feliz?”. No entanto, foi-me útil ter sabido anteriormente que os colonos têm autorização de transportar consigo armas e como se isso não fosse suficiente, os soldados estão presentes em cada canto para a sua protecção. As famílias palestinianas que resistem e persistem em ficar ensinam aos seus filhos de olharem à esquerda e à direita antes de sair de casa, no sentido de evitarem um eventual encontro inesperado com um colono que se passeie nas proximidades. Se a rua está vazia eles têm a luz verde para correr até à escola.
Para terminar a volta atravessámos um souk escuro. Escuro na medida em que estas ruas estreitas estão cobertas de cercas cheias de lixo lançado regularmente pelos colonos que ocupam os andares superiores.
Os táxis na Cisjordânia é um elemento difícil a contornar. A mobilidade nesta região faz-se através deste transporte que nos espera atrás de cada check point onde a travessia tem que se efectuar a pé. A obrigação de se ter que apanhar três ou quatro vezes táxis diferentes para se chegar ao bom destino, e o facto de se ter de contornar certas estradas reservadas exclusivamente aos colonos, fazem de qualquer trajecto na Cisjordânia uma viagem de luxo. Posto isto, é também no interior dos táxis onde algumas discussões políticas têm espaço e tempo para desabrochar.
Desta discussões pude sentir um elemento que, do meu ponto de vista, é um obstáculo sério para o desenvolvimento de um movimento de resistência, sólido e consequente, interno à Palestina. A este elemento chamarei de normalização da ocupação. Embora os israelitas tenham implementado certos facilitismos estéticos ou automatismos nos check points, reduzindo assim o tempo de espera, a vida dos palestinianos degradou-se de um dia para o outro depois da Intifada. Aqui está, subsequentemente um argumento normal numa situação anormal.
E aqui estou eu recolocando-me a mesma questão do início: qual é o meu papel nesta região? Qual é a minha legitimidade, como europeia, para dizer a estas pessoas que a sua existência tenebrosa não tem raízes na Intifada mas num sistema estatal (em sofrimento) transformado num colonizador predador. Sendo bisneta de um republicano em tempos de monarquia, neta de um anti-fascista em tempos de fascismo, e ainda filha de um comunista em tempos de liberalismo, qual é então a minha legitimidade para dizer a estas pessoas, que sobrevivem na penúria de uma colonização violenta, que contra a fome é necessário comer a carne do seu usurpador (Mahmoud Darwish, « Identidade »,1964) ? Qual é a minha legitimidade de dizer a estas pessoas que contra a submissão é necessário ser intransigente? Finalmente, qual é a minha legitimidade quando a simples acção de sair de casa transformou-se numa luta para os palestinianos?
Darwish.jpg
Funeral de Mahmoud Darwish em Ramalah, Agosto 2008

A história mostrou que uma sociedade mergulhada no obscurantismo, criado pela eliminação perseverante das suas revoltas e da castração dos seus elementos mais aptos a tomar a vanguarda da luta, é uma sociedade desarmada face à destruição que se opera diante dos seus olhos. O enfraquecimento da racionalidade política no interior da Palestina é galopante, deixando o espaço aberto a que uma lógica estritamente religiosa ou de corrupção reine. Neste sentido, mesmo aqueles que guardaram um certo optimismo histórico estão a perdê-lo na sinuosidade confusa daquilo a que se chama emancipação social. A Palestina pareceu-me assim uma sociedade sufocada, começando a estar privada da dinâmica da esperança.
E enquanto a dinâmica da colonização se musculiza na Palestina, parti com o espírito frustrado de não ter conseguido, num plano estritamente pessoal, transformar esta frustração num grito de revolta. Ainda que, metida em segurança máxima no aeroporto na hora de despedida da terra sagrada, os israelitas ficaram mesmo assim espantados que eu, 25 anos, portuguesa, trazia nos bolsos uma só coisa – um porta-chaves simbolizando “Eretz Palestina”.

referências bibliográficas :
Sand Shlomo (août 2008), « Comment fut inventé le peuple juif », Le Monde Diplomatique : France.
United Nations Office for the Coordination of Humanitarian Affairs (mai 2008), OCHA Closure Update occupied Palestinian territory: Jérusalem.

Publicado por [Shift] às setembro 22, 2008 06:12 PM

Comentários

Fiquei bastante contente de ter lido este texto antes de me ter deitado. Certas passagens são particularmente fortes na sua descrição e sensibilidade. Provavelmente, vencido pelo perfume das imagens eternas dadas pelos colonizadores, acabei por desistir de acompanhar o combate pela libertação da Palestina. Dizia-me para mim mesmo, no entanto, que a censura verdadeiramente fascinante (ou fascizante) é aquela que o discurso das autoridades israelitas faz aos próprios israelitas. Gostaria de me debruçar sobre a questão. O teu texto acelerou claramente a minha motivação.

Publicado por [Sebastiao] às setembro 23, 2008 02:26 PM

COMO SEMPRE UMA FASCINANTE DESCRIÇÃO DAQUILO QUE VIVESTE!

Publicado por [Tina] às setembro 24, 2008 10:38 AM

Merci pour ton recit de voyage, j'ai beaucoup aime ton texte.
Ah oui, j'ai oublie de te dire: a mon avis, une bonne partie de ton
malaise reside dans la question Hamas/Fatah, que tu ignores superbement
dans ton texte, si ce n'est par une petite formule a la fin sur
"l'obscurantisme", digne des editorials du monde. Tout de meme, il se
passe des choses en Palestine, depuis la mort de Yasser Arafat. Tu ne peux
pas rester silencieuse devant la collaboration ouverte du Fatah avec
Israel en vue de la lutte contre le Hamas. Le Fatah sont devenus
ouvertement collabos. Et ca doit interpeller ta position d'europenne qui
fait son petit temoignage, et qui precisement oublie cela. Apres,
j'imagine bien que quand on est lu par son Papa, et par une telle lignee
de grand revolutionnaires republicains, on doit respecter certaines
contraintes... M'enfin merde quand
meme bordel : il faudrait quand meme a un moment qu'on arrive a surmoter
l'ignorance crasse qu'on a de l'islamisme, et que les militants francais
daignent entendre qu'il peut se passer des choses importantes, dignes
d'investigations, au-dela de la "plongee dans l'obscurantisme". AHHH MAIS!

Publicado por [vincent] às setembro 24, 2008 10:53 AM

KpJ2eL sk6skN2aP6Vvq18MdGcl

Publicado por [marcus] às fevereiro 4, 2009 04:43 AM

comment1

Publicado por [Lzcfxjdt] às novembro 6, 2009 01:13 AM

comment3

Publicado por [Fhtsfnxn] às novembro 6, 2009 06:13 AM

comment1

Publicado por [Gvtmhqso] às novembro 6, 2009 11:11 AM

comment4

Publicado por [Pbrtxjiv] às novembro 6, 2009 04:32 PM

comment3

Publicado por [Urobznei] às novembro 6, 2009 09:29 PM

comment5

Publicado por [Odsygfcq] às novembro 7, 2009 02:19 AM

comment6

Publicado por [Mqjstmhy] às novembro 7, 2009 07:41 AM

comment5

Publicado por [Nolrlvwr] às novembro 7, 2009 01:02 PM

comment6

Publicado por [Hrrljrte] às novembro 7, 2009 06:31 PM

comment2

Publicado por [Kuubterk] às novembro 7, 2009 11:35 PM

comment6

Publicado por [Pmuloinq] às novembro 8, 2009 04:55 AM

comment4

Publicado por [Cotvcoii] às novembro 8, 2009 10:41 AM

comment1

Publicado por [Tbfwykot] às novembro 8, 2009 04:17 PM

comment2

Publicado por [Sxhlggvx] às novembro 8, 2009 09:48 PM

comment3

Publicado por [Kxughiop] às novembro 9, 2009 03:10 AM

comment6

Publicado por [Cnvdfthd] às novembro 9, 2009 08:37 AM

comment5

Publicado por [Kctqvxpu] às novembro 9, 2009 02:05 PM

comment2

Publicado por [Cxajrkhs] às novembro 9, 2009 07:24 PM

comment1

Publicado por [Rzgsrmce] às novembro 10, 2009 05:32 AM

comment4

Publicado por [Imqubehd] às novembro 10, 2009 10:52 AM

comment3

Publicado por [Crkhepgg] às novembro 10, 2009 03:56 PM

comment3

Publicado por [Mcrwgawo] às novembro 10, 2009 08:49 PM

comment3

Publicado por [Tujpcjde] às novembro 11, 2009 01:30 AM

comment5

Publicado por [Vkwhcdlq] às novembro 11, 2009 06:20 AM

comment3

Publicado por [Uqpcgmov] às novembro 11, 2009 11:45 PM

comment6

Publicado por [Pucesxvd] às novembro 12, 2009 01:51 AM

comment5

Publicado por [Dcvtgoiq] às novembro 12, 2009 03:59 AM

comment1

Publicado por [Rvjgqgma] às novembro 12, 2009 06:06 AM

comment6

Publicado por [Iwblryft] às novembro 12, 2009 08:15 AM

comment3

Publicado por [Ioxrsyoj] às novembro 12, 2009 10:22 AM

comment6

Publicado por [Tchggfrq] às novembro 12, 2009 12:29 PM

comment3

Publicado por [Kviwstxm] às novembro 12, 2009 02:40 PM

comment3

Publicado por [Ooydtlzt] às novembro 12, 2009 04:50 PM

comment5

Publicado por [Tcfggeyq] às novembro 12, 2009 06:58 PM

comment1

Publicado por [Vklunwwn] às novembro 12, 2009 09:05 PM

comment6

Publicado por [Arjqhhzw] às novembro 12, 2009 11:08 PM

comment4

Publicado por [Trdoittd] às novembro 13, 2009 01:16 AM

Este texto diz algumas verdades mas é bastante tendencioso. Se de um lado há expansionismo e excesso securitário, do outro há guerra santa, ódio e vontade de alcançar o grande "bota-fora" que a Liga Árabe sempre desejou. Israel é dos judeus, ponto final. A paz só se alcança acabando com os colonatos edevolvendo Gaza e a Cisjordânia, como eram antes das últimas ocupações, a um Estado palestino. O Muro até talvez seja melhor mantê-lo, como fronteira. Fora disto é a guerra, o terrorismo, o horror.

Publicado por [Ant.º Silva Lopes] às março 9, 2010 07:17 PM

GZ1umw Cool lol hey bla bla bla bla

Publicado por [Jonny] às maio 21, 2010 09:19 AM

veWyyL Cool lol hey bla bla bla bla

Publicado por [Jonny] às maio 21, 2010 11:00 AM

ypiHB3 Cool lol hey bla bla bla bla

Publicado por [Jonny] às maio 21, 2010 12:44 PM

Bjur0B Cool lol hey bla bla bla bla

Publicado por [Jonny] às maio 21, 2010 02:25 PM

Haha. I woke up down today. You’ve chereed me up!

Publicado por [Amber] às maio 25, 2011 09:23 PM

Conselho aos spectreiros: se vão continuar a colocar posts que irritem os sionistas, pelo menos façam um "captcha" para se poder comentar. Só para terem uma ideia, bastam somente 15 linhas de código em java para fazer um bot que cague aqui os comentários que quiser.

Publicado por [Catano] às dezembro 25, 2011 03:58 PM

Comente




Recordar-me?

(pode usar HTML tags)