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outubro 31, 2007

Visto na rua

salazar.jpg

Publicado por [Saboteur] às 02:52 PM | Comentários (12)

outubro 30, 2007

Ouvido no café

A propósito da pancadaria na Assembleia Geral do Benfica:

«O Pinto da Costa mandou para lá uns "inegrúmios"...»

«Pois foi. Vi na Sic.»

Publicado por [Saboteur] às 10:38 AM | Comentários (3)

outubro 28, 2007

Ainda Génova

Assim por coincidência enviaram-me o link de um novo documentário sobre o G8, feito pelo Genova Social Forum, à luz do inicio do fim dos julgamentos (supõe-se que o dos manifestantes terminará antes do natal e o dos bófias lá para o verão). O que têm de especial e novo é que revela sobre mapas da cidade os movimentos dos manifestantes e da policia.

Feito pelo GSF terá obviamente uma perspectiva especifica sobre os eventos que não comparto totalmente, discute essencialmente uma deturpação do papel da policia enquanto provocadora dos confrontos, mas parece-me um excelente documento para a comprensão do que ali se passou. Está em italiano mas creio que será perceptivel o sentido geral dos argumentos que sustentam. Há um dvd à venda por 7 euros que contém versões e legendas noutras linguas.

no you tube um excerto:

no ngvision o documentário inteiro

Publicado por [Party Program] às 06:11 PM | Comentários (2)

Scritti Venetiani IV - Kostabi e Hirst

Não sei já falei aqui de uma história do bloco em Génova...nah, tou a brincar não é sobre isso que quero escrever. A casa onde estive em Veneza estava apetrechada com televisão digital e uns milhentos canais, numa das manhãs antes de sair de casa para me entregar aos canais e às gondolas passei os olhos pelos canais italianos, sem dúvida os piores do mundo, cuja programação apenas rivaliza com os programas que a televisão angolana passava a ilustrar o esforço de guerra das FAPLA.

Num canal local um artista americano descrevia em Italiano a sua obra num leilão em directo. Desconhecia o personagem Mark Kostabi, que aparentemente é bastante conhecido e respeitado num dos mundos das artes, com exposições por todo o mundo em alguns dos principais museus. Kostabi e um apresentador iluminado pela mais excelsa e superficial retórica italiana gabavam as suas obras e sugeriam petições. Os quadros são as coisas mais feias de sempre, parecendo capas de discos do caixote de lixo dos anos 80, mas eram descritos como obras primas e tal fealdade não inibia os presentes de gastar as suas liras nas telas mais abjectas de sempre. Mas o que mais impressionou foi o modo de produção de Kostabi. Este vive entre Roma e NY, desenha esboços dos quadros que envia para o seu estúdio na Tribeca onde os seus 25 empregados produzem cerca de 2000 quadros por ano, Kostabi escolhe os 250 melhores e põe-nos no mercado.

Acho que estas imagens valem por mil palavras. Kostabi entra naquela categoria do tão mau que é bom. O seu trabalho não será pior do que o de outros milhares artistas que por terem algum pudor farão coisas mais dentro de paramêtros mais aceitáveis de gosto, mas, senhoras e senhores, isto sim é arte. Podem vir com a Tina Modotti, o Manu Chao e mais os artistas engagês que nenhum deles conseguirá traçar um retrato tão profundo da sociedade quanto este senhor e os seus 25 empregados.

Mas a história não fica por aqui. Procuro informação sobre a aventesma na net e encontro que este seu profundo cinismo porventura não consciente foi já comparado ao de Damien Hirst. Quiçá já tenham lido nos jornais, mas a última obra de arte apresentada por Hirst é a retratada acima, "For The Love of God", uma caveira cheia de diamantes de sangue que Hirst já vendeu (há quem afirme que a transação seja boato) por 50 milhões de Libras. Sendo que o custo original de produção da caveira foi de 15 milhões de Libras, Hirst conseguiu vender o seu génio por 35 milhões de libras, uns 50 milhões de euros, uns 10 milhões de contos. Haverá gesto mais cinico e metáfora mais reveladora à face da terra? Alguém que é pago dez milhões de contos para fazer uma caveira contistuida de diamantes saidos de uma qualquer guerra sanguinária? Acho que isto sim é um comentário cru e honesto sobre as condições presentes.

Publicado por [Party Program] às 03:07 PM | Comentários (3)

Dossier Extrema-direita

O Esquerda.net - uma espécie de Avante! do Bloco - publicou um dossier sobre a extrema-direita em Portugal, que está bastante bom. Ide lá ver.

pedrogeraldes.jpg

Na foto, Pedro Geraldes. Dizem que é o actual responsável do PNR em Lisboa... Realmente, uma vez num fórum da internet, apanhei esse tipo a explicar aos pacóvios dos militantes que estava subterrado de trabalho por causa das burocracias que envolvem fazer uma lista de candidatos... Burocracias? É agarrar num papelinho de merda, preenchê-lo e ir à junta de cada um dos candidatos carimbar! Sempre topei à distância estes militantes que, quando toca a trabalhar, nunca têm muita disponibilidade porque estão a fazer outras tarefas que nunca ninguém sabe muito bem o que são, qual o esforço dispendido, etc. Pela boca deles são sempre as tarefas mais difíceis do mundo.

Publicado por [Saboteur] às 10:39 AM | Comentários (6)

outubro 26, 2007

Poesia de rua #20 e Tratado de Lisboa

Hoje, Bruno Nogueira, que faz aquele programa humuristico na TSF chamado "Tubo de ensaio", resumiu tudo o que os portugueses sabem sobre o Tratado de Lisboa. Qualquer coisa como "A cimeira correu muito bem. Conseguimos fazer passar o tratado"

Um ou outro cidadão mais politizado, quem sabe se até mesmo um jornalista, saberá mais: Que conseguimos dar a volta aos polacos; que os italianos teimavam em que queriam mais um deputado e isso foi o diabo; o Sarkozy tem um problema nervoso e por isso está sempre a comer durante as reuniões (li eu!).

O Ex-Comissário Europeu José Vitorino, um homem que todos dizem que "é uma cabeça" fez uma crónica inteira sobre o Tratado e o que restou em termos de conteúdo foi que este "tratado histórico" (nestes tempos miseráveis, tudo é "histórico"), iria ter no nome o nome da capital portuguesa.

O presidente do Tribunal de Contas, Guilherme d'Oliveira Martins (diz que é muito sério), escreveu um artigo em torno da ideia que a Europa do Séc XXI, não se podia reger por um aparelho de tratados e instituições vindas do séc. passado.

Só dou 2 exemplos, mas isto é do melhor nível do que para aí vai.

Um referendo, mesmo que fosse para ter uma participação de 1% do eleitorado, e 99% a votar SIM, tinha pelo menos a virtude de obrigar estes gajos, e os seus jornalistas e editorialistas de serviço, a virem para o terreno com um discursso um bocadinho mais trabalhado e vez de nos estarem descaradamente a tratar por estúpidos.

PAREDES.jpg

Publicado por [Saboteur] às 06:33 PM | Comentários (4)

Scriti Venetiani III - Azione Futurista

Não são só os esquerdistas italianos a ser bastante mais interessantes que os nossos, os seus fachos são também bastante mais curiosos que os nossos.

Fontana de Trevi, imortalizada na Dolce Vita. um homem aproxima-se sorrateiramente e derrama na água um pó que dá à agua um tom próximo ao do sangue, em poucos minutos a Fontana de Trevi parece jorrar fluidos humanos. O perpetuador do crime é apanhado nas camaras mas consegue fugir. Nas imediações são encontrados os folhetos que reinvidicam a acção: AZIONE FUTURISTA, um qualquer grupelho de extrema direita afirma com esta acção lutar contra o capitalismo e o cinzento-burguesismo:

"Oggi nasce con noi una nuova concezione violenta della vita e della storia, che esalta la battaglia a scapito della pace e disprezza voi leccaculodiartificiosipoteri, schiavi del mercato globale". Il messaggio è firmato da un sedicente gruppo "Ftm Azione futurista 2007".

La protesta tira in ballo il precariato, "e la società mercatocentrica che trascura precari, disoccupati, anziani, malati, studenti, lavoratori".

Um de par dias depois é detido um pintor local, conotado com a extrema direita, que recusa assumir responsabilidades pela acção, diz apenas que haverá apenas uma semelhança fisica entre ele e o verdadeiro culpado, mais ainda porque ele não se assume enquanto futurista.

Uma vez tentei com outra pessoa uma coisa deste género, numa contextualização teórico-ideológica diferente, compramos um pigmento e lançamo-lo a uma fonte esperando que dali saissem orgias primaveris e aquáticas. Não. O pigmento ficou só ali a boiar, quieto e conformado, tipo uma poluiçãozeca azul e vermelha.

Publicado por [Party Program] às 09:30 AM | Comentários (5)

Scriti Venetiani II - 225 anos

As penas propostas pelo ministério público para os 10 acusados de distúrbios no G8 em Génova são, somadas, 225 anos de prisão. Oscilam entre os 8 e os 16. A maioria dos acusados pertence aos Tutti Bianchi, mais selvagens que os jovens do psr mas mais espectaculares e hierárquicos que os anarquistas. Uma rapariga vê a hipótese de passar os próximos 8 anos na prisão por ter roubado duas garrafas de água de um supermercado que estava a ser pilhado. Um outro rapaz, hoje com 36 anos e uma filha, arrisca-se a passar 16 dentro, este é mais conhecido, aparece na foto de baixo a partir uma janela do jipe dos carabinieri. Um amigo seu não teve tanta sorte e não chegou ao julgamento pois ficou logo ali estendido. Diz o rapaz acusado, Tutto Bianco e votante na rifondazione, que foi para Génova para se manifestar tranquilimente mas que os manifestantes não poduram evitar ter de se defender da inusitadamente violenta represão policial

Tudo isto é bastante chocante. O bófia que supostamente matou Carlo Giuliani não passou um dia na prisão. O Bófia? para que ir tão baixo se em Itália há um ex-primeiro ministro que foi considerado culpado pela morte de um jornalista, atiraram-lhe com um piano em cima, mas que não cumpriu pena por ser demasiado velho? O Berlusconi... é preciso dizer mais alguma coisa?

(num pequeno aparte, quiçá já uma pedrinha no meu sapato do que algo realmente importante, atento a algo interessante. Aquando do seu regresso das quatro horas que passaram em Génova, en route para um dos seus bucólicos acampamentos, alguns jovens do Bloco não tiveram pudores em assumir-se como dignos representantes de subjectividades portuguesas nas manifestações e em dar para alguns jornais descrições promenorizadas dos eventos. Dos 4 dias de manifestações passaram lá 4 horas. Mas tal não os impediu de tecer considerações do nivel de que toda a violência em Génova tinha sido perpetuada pela policia infiltrada no Black Bloc, algo que qualquer pessoa que tenha estado lá 4 horas e meia sabe ser uma incrivel patetice. Dos dez acusados só um pertence ao Black Bloc, tudo o resto são Tutti Bianchi ou militantes da Refondazione. Já falei disto tantas vezes que começo a parecer um avô, mas sempre que lembro dessas declarações não consigo manter a serenidade. O Bloco tira-me do sério)

Na foto: serão também eles cripto-destruidores de montras?

Publicado por [Party Program] às 09:01 AM | Comentários (14)

Scritti Venetiani I - Il Comisario Calabresi

Na visita a uma livraria de Bolonha onde costumava ir, repleta de edições obscuras e semi-proibidas (e recomendada na revista de bordo da vueling) vou à secção das Edizioni Anarchismo: editora cuja tinta das impressões se esborrata na mão e cujo principal autor (e obviamente editor) Alfredo Maria Bonanno cada dois ou três anos passa dois ou três anos preso pelos incitamentos à violência armada contra o aparato de estado. A editora sempre me surpreendeu pelos calhamaços que edita. Os últimos são dois livros do supramencionado autor, cada tomo com 540 páginas, intitulados “distrugere la religione”. Não os comprei. Mas comprei sim um pequeno folheto: “Io So Chi Ha Ucciso il Comissario Calabresi”, “Eu Sei Quem Matou o Comissário Calabresi”.

Permitam-me refrescar-vos a memória sobre quem é o Comissário Calabresi. Itália 1969. Guerra Fria e o início do Maio de 68 local, o que “durou dez anos”. Explode uma bomba num banco, em Milão, na Piazza Fontana, morrem 19 pessoas no início da estratégia de tensão. Anos mais tarde fica provado o envolvimento da extrema-direita e dos serviços secretos mas na altura os acusados foram dois anarquistas, Pinelli e Valpedra. Pinelli é detido e interrogado na Prisão.

Aqui divergem as narrativas: Há quem diga que Pinelli consumido pelo arrependimento se suicida saltando pela janela. Outros dizem que o Comissário Calabresi o atirou de lá de cima. A história é sobejamente conhecida tendo inspirado várias obras no cinema e no teatro, mas não termina aqui. 1972: o Comissário Calabresi sai de casa de manhã cedo, dois homens armados aproximam-se e disparam-lhe duas balas, uma no coração, outra na cabeça. Desaparecem no trânsito de Milão e só 14 anos depois são feitas acusações: Adriano Sofri, ex-líder da Lotta Continua, é acusado de ser o mandate do crime. Sofri é condenado em 1990 a 22 anos de prisão depois de um julgamento imensamente polémico baseado apenas nas declarações de um “pentito”. Pano para mangas mas é outra história.


Toda a questão é por excelência um dos maiores “misteri d'italia”. Uma série de artigos que li numa compilação de jornais italianos dos anos 70 e 80 ilustra as suas questões obscuras. Pinelli e Calabresi mantinham uma relação cordial apesar de estarem literalmente em lados opostos da barricada, Calabresi era dos maiores responsáveis da Questura de Milão e como tal conhecia pessoalmente os expoentes máximos de qualquer das subjectividades políticas mais radicais, algo relativamente normal em Itália, chegando estes dois a trocar presentes de natal: ambos amavam a poesia. O Comissário era uma personagem estranha, tinha um curso de direito e tinha estudado na América, ao voltar tinham-lhe proposto uma carreira de juiz mas Calabresi, fortemente católico, preferiu seguir uma carreira mais ligada ao bem público e ao contacto directo com os problemas da gente comum. Torna-se estranho pensar que este polícia tão bacano pudesse atirar um companheiro de um quinto andar e acabam por surgir especulações de que afinal não seria Calabresi o oficial presente aquando do “suicídio” de Pinelli, sendo que ninguém a não ser a magistratura italiana, nem sequer a imprensa burguesa, punha realmente a hipótese de que o rapaz tivesse saltado de livre e espontânea vontade. Todas as suspeitas são fomentadas aquando do assassinato de Calabresi, executado com uma precisão e pontaria militar pouco habitual na maioria do terrorismo de extrema-esquerda, a polícia dirige a investigação para os anarquistas e para a galáxia autónoma enquanto vão surgindo rumores de que Calabresi saberia demais sobre o assassinato de Pinelli e sobre o terrorismo estatal.

O livrinho do Bonano conta a história de outra maneira. Bonanno é um anarquista fodido, encaixando no estereotipo do anarquista violento, é o tipo de gajo que dá vontade de atirar com os livros dele (as cerca de 15 000 páginas que já escreveu) à cara dos comentadores de blogs de esquerda que fazem afirmações que começam com “os verdadeiros anarquistas não são violentos, são isto e aquilo”, como teórico tem pontos interessantes se bem que o seu discurso seja algo limitado, repetitivo e básico, e acima de tudo susceptível de ser muito mal interpretado com consequências bastante nefastas. Mas enfim, Bonanno conhecia Pinelli, diz que apesar de fortes divergências teóricas sempre se tinham dado bem, e Bonanno também conhecia Calabresi, diz que apesar de fortes divergências teóricas sempre se tinham dado bastante mal, principalmente quando Calabresi ordenava que os seus inferiores espancassem os amigos de Bonanno. Parece que afinal o Calabresi não era assim tão bacano quanto isso, afinal a sua permanência na América tinha sido na CIA e a sua alcunha era o Comissário Janela, pois tinha o hábito de sentar os interrogados à janela do quinto andar depois de algumas horas de tortura física e psicológica. Bonanno continua com uma crueza algo impressionante, descreve o funeral de Pinelli, jura que entre aquelas três mil pessoas ficou assente uma vontade muda de matar o comissário e de certo modo lhe é indiferente quem matou o policia, se os fachos, se companheiros, se a CIA, se os serviços secretos italianos, porque na manhã de 72 em que soube que o comissário tinha morrido sentiu que alguma justiça tinha sido feita. E ficou contente.

Desde esta distância é difícil passar algum comentário que não perca quer num moralismo algo ingénuo, em Itália a guerra fria era literalmente uma guerra, quer numa abstracção militante militarista que vê tudo a preto e branco. O livrito de Bonanno é interessante essencialmente por isso, por traduzir excelentemente toda uma raiva de trincheira não mediada por concessões discursivas, tornando essa raiva, normalmente sinónima de rectidão moral e de ultraje, ambiguamente desconfortável.


Publicado por [Party Program] às 12:03 AM | Comentários (5)

outubro 25, 2007

El Banlieu Vive!

Helena,

Depois de ler o teu post e o teu comentário surgiram-me uma ou duas ideias que gostava de aqui expor para tua consideração mas também para os cinco leitores que temos mantido durante este tempo.

Antes de mais, eu não considero que o movimento anti-CPE tenha obtido uma vitória assim tão grande. Tanto Ségolène como Sarkozy teriam sempre os trunfos na mão, a derrota de Sarkozy não iria mudar assim tanto, a maneira de governar seria a mesma, a intransigência governativa e o controlo dos movimentos críticos deste novo liberalismo são hoje em dia um mínimo que qualquer partido do centro-direita ou centro-esquerda tem que oferecer aos seus congéneres europeus. Conseguiu-se evitar o avanço de mais um pacote feito à medida das confederações patronais mas as conquistas ainda estão longe. Além disso e de um ponto de vista prático sabemos que muitas pessoas que trabalham em França ou em qualquer outro país europeu não têm propriamente um grande conhecimento das leis laborais, ou seja, não é nosso o que está na lei, é nosso o que soubermos tomar.
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Da mesma maneira que o movimento anti-globalização ganhou a sua visibilidade pela acção directa, mediática e nalguns casos violenta, também em França o movimento anti-CPE teve muito a ganhar com a entrada em cena do banlieu profundo. Quem veio de um bairro como Sercelles para Paris manifestar-se não o fez por conhecer a fundo as mudanças em questão ou por escolha partidária, isso ficou reservado para os tais sindicatos. Se te lembras da cronologia dos eventos, começaram as manifs em finais de Fevereiro mas só houve confrontos muito depois. Enquanto foi só a UNEF a gritar foi tudo ok, afinal, França sempre teve o seu lado revolucionário. Mas quando os carros começaram a arder…
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Quando foi na ponte 25 de Abril, a contestação durava há meses, os buzinões já se faziam ouvir. A mudança veio pela mão dos camionistas que um dia decidiram bloquear o trânsito, não é uma associação difícil, é a realidade. O que mudaria mais o actual estado de coisas, uma nova manif de 200 mil pessoas ou 200 mil pessoas que bloqueassem o IC19?

“a luta ía continuar e estava preparada para isso”

Esta personificação de uma entidade tão abstracta como heterogénea mostra toda uma percepção que tanto é reducionista como por outro lado se torna alienadora. A “luta” não é o movimento anti-CPE, a “luta” foi naquele momento uma convergência entre muitas pessoas que sentiram que havia terreno para se manifestarem embora por objectivos e com origens diferentes. Se houve característica visível nesse movimento foi o medo que criou de uma nova revolta no subúrbio francês, o governo Villepin não se podia dar ao luxo de mais motins, estava fraco e desgastado, por várias razões claro, mas também porque há a noção que a vida no subúrbio é um passaporte para o desemprego e para a miséria e que ninguém quer que isso se generalize. Hoje, depois de inúmeras propostas de acção social em bairros considerados “desfavorecidos”, a única coisa que mudou foi o número de imigrantes “ilegais”, agora vão buscá-los às escolas onde esperam os filhos. Aguardo novas acções do meu sindicato, sei que este não joga na acção-reacção, joga no ataque, joga de brancas.
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Publicado por [Chuckie Egg] às 11:10 PM | Comentários (6)

Socialismo tropical


A propósito do documentário, «Cuba, uma odisseia africana», exibido no Doc Lisboa, algumas impressões:
1- Para quem esteve no Cuíto Canavale em 1987, ou no Sinai em 1967, ou no Chile em 1973, ou em Saigão em 1975, ou em Kabul em 1984, ou na Nicarágua em 1979 ou em El Salvador em 1989, a «Guerra Fria» atingiu temperaturas bastante escaldantes e só o euro-centrismo habitual impede a sua caracterização como III Guerra Mundial.
2- O documentário apresenta o internacionalismo cubano num registo bastante luminoso. Não retirando nada ao contributo cubano para as independências africanas ou para a luta contra o apartheid - e colocando-me neste lado da barricada - uma alusão, ainda que curta, ao seu contributo para o esmagamento da revolta de 1977, liderada por Nito Alves contra a direcção do MPLA, não teria sido secundária num documentário desta natureza. Os cubanos em Angola não se limitaram a combater agentes da CIA e tropas sul-africanas ou congolesas. Foram também utilizados numa versão africana de Kronstaadt e em ajustes de contas internos ao movimento de libertação de Angola. O exército internacionalista de libertação funcionou também, quando necessário, como guarda pretoriana (isto é uma figura literária).

3- Eduardo dos Santos é referido como «um jovem ideólogo marxista do MPLA», o que não era verdade em 1980 e se torna uma mentira grosseira em 2007. Uma alusão ao facto de o regime angolano ter passado de armas e bagagens (isto não é uma figura literária) para o campo neoliberal a seguir ao colapso da URSS e de os seus dirigentes terem enriquecido criminosamente desde os anos 90 até se tornarem uma oligarquia cleptocrática e ditatorial, com o apoio dos EUA e, agora, da China, caberia também neste documentário.
Não o fazer implica aceitar que houve ali uma evolução natural e não uma degenerescência acelerada pela vitória norte-americana na guerra fria. Eduardo dos Santos pode nunca ter sido um ideólogo marxista mas, de nacionalista angolano com tiques estalinistas a ditador vitalício com contas na Suíça e em Londres, alguma coisa terá acontecido que não pode escapar aos autores do documentário, tal como não escapa aos seus espectadores.

4- O documentário não refere o facto da UNITA ter celebrado com o exército português, ainda durante a guerra de libertação, um acordo de cessar-fogo e colaboração contra os guerrilheiros do MPLA, que em muito contribuiu para a tranquilidade e prosperidade da zona litoral do território. Os aliados do exército colonial português foram depois apoiados pela CIA e pelos sul-africanos. Poderiam os campos desta guerra estar mais claramente definidos?

5- O documentário também não refere que muitos dos que combatiam contra os cubanos e as Fapla eram mercenários portugueses, antigos elementos das forças especiais com experiência de combate em África. Alguns lá morreram, alguns foram apanhados e outros regressaram. Uma certa empresa de segurança privada a operar em Portugak conta com a colaboração de muitos. Aqui também, os campos são claros.
6- O documentário refere o assassinato de Amílcar Cabral, mas não aprofunda nenhum dos problemas que ele levanta. A mando da PIDE ou resultando de divergências internas, a morte de Cabral não é um assunto de rodapé.
7- Durante as negociações da retirada das tropas cubanas de Angola e dos sul-africanos da Namíbia, Jorge Risquet, delegado cubano, fez questão de fumar charutos na sala de reunião, para dar à conferência "uma atmosfera cubana".

Publicado por [Rick Dangerous] às 02:51 PM | Comentários (7)

A Indiferença

Dedicado à Deputada Luísa Mesquita...

Primeiro levaram os comunistas,
Mas eu não me importei
Porque não era nada comigo.

Em seguida levaram alguns operários,
Mas a mim não me afectou
Porque eu não sou operário.

Depois prenderam os sindicalistas,
Mas eu não me incomodei
Porque nunca fui sindicalista.

Logo a seguir chegou a vez
De alguns padres, mas como
Nunca fui religioso, também não liguei.

Agora levaram-me a mim
E quando percebi,
Já era tarde.

Bertolt Brecht


(baseado numa ideia original de Jumping Jack, um dos paizinhos do Spectrum)

Publicado por [Saboteur] às 12:21 PM | Comentários (5)

A História repete-se. Primeiro em forma de tragédia...

A propósito do post do Bomb Jack, aqui em baixo - onde é relatada a tremenda hipocrisia que é estar a ter uma reunião com uma deputada do Partido, para avaliar a sua situação, enquanto ao mesmo tempo, (provavelmente por engano) eram informadas as redacções dos jornais que o PCP tinha retirado a confiança política dessa mesma deputada - recordo que estes métodos não são novidade.

Já Edgar Correia, militante nº 32 do PCP, funcionário do Partido desde a clandestinidade até ao ano 2000, em que decidiu sair da Comissão Política e do Comité Central do PCP, expulso nesta "última leva", recebeu a resolução do Secretariado a comunicar a sua expulsão, com uma nota final do género: "Em caso de recusa a comparecer à audição prévia colocar: tendo sido dadas 3 datas alternativas, Edgar Correia não compareceu".

Com esta gralha, ficava claro que toda a resolução tinha sido escrita e tomada antes de ouvidas as pessoas. Tal e qual como no caso de Luisa Mesquita.

Publicado por [Saboteur] às 12:10 PM | Comentários (1)

outubro 24, 2007

Por um PCP mais forte...

O PCP purga-se para se fortalecer. Pelo menos assim pensam alguns dos (poucos) seus militantes com quem ainda mantenho algum contacto.
Hoje, enquanto Luísa Mesquita reunia com Bernardino Soares e Francisco Lopes para, segundo palavras da própria na SIC Notícias, analisarem a seu trabalho no PCP, as redações dos jornais recebiam um comunicado do Comité Central onde lhe era retirada a confiança política.
O processo lembra outros que já lá vão. E junta-se ao que se passa na autarquia da Marinha Grande, onde também foi retirada a confiança politica ao Presidente da Câmara, João Barros Duarte.
As purgas purificadoras são necessárias, de tempos a tempos. Ou não são?

Publicado por [Bomb Jack] às 10:55 PM | Comentários (3)

Pois...infelizmente a crise continua, isso é verdade...

obrigado ao luismfm70.

Publicado por [Renegade] às 10:53 PM | Comentários (2)

O Fascismo é uma minhoca que se infiltra na maçã

getimage.jpg

"reforma vitalícia"?! O Correio da Manhã quer agora que as reformas seja só até que idade?

"custam 8 Milhões por ano". Eu Também acho que é excessivo, uma reforma de 1.1491,98 Euros por mês. Mas eu sou um radical neste assunto. Acho que todos os trabalhadores deviam receber a mesma reforma independentemente da sua carreira contributiva e portanto, mesmo os que descontaram muito para a segurança social, deveriam receber menos, para os que descontaram pouco receberem mais... O Correio da Manhã está noutra onda, como sabemos... Está pura e simplesmente a atacar o sistema democrático, com populismo e demagogia.

Para certa direita, até a democracia parlamentar e burguesa é incomodativa. Cabe à esquerda ter de defender também esta posição, senão qualquer dia...

Publicado por [Saboteur] às 06:09 PM | Comentários (6)

Portugal em boas mãos


No fundamental Vital Moreira tem razão. Com um parlamento repleto de democratas competentes, para quê incomodar o povo com mais um referendo?
Um pouco neste espírito, o Spectrum propõe que a aceitação do tratado seja decidida entre a Governadora Civil de Castelo Branco e o Tino de Rãns. Por moeda ao ar ou braço de ferro. Depois basta combinar tudo com o gang do multibanco.

Publicado por [Rick Dangerous] às 02:46 PM | Comentários (2)

Oito mil horas contadas


Aldeia da Meia Praia
Ali mesmo ao pé de Lagos
Vou fazer-te uma cantiga
Da melhor que sei e faco

De Montegordo vieram
Alguns por seu próprio pé
Um chegou de bicicleta
Outro foi de marcha à ré

Quando os teus olhos tropecam
No voo de uma gaivota
Em vez de peixe ve peças de oiro
Caindo na lota

Quem aqui vier morar
Nao traga mesa nem cama
Com sete palmos de terra
Se constrói uma cabana

Tu trabalhas todo o ano
Na lota deixam-te nudo
Chupam-te até ao tutano
Levam-te o couro cabeludo

Quem dera que a gente tenha
De Agostinho a valentia
Para alimentar a sanha
De esganar a burguesia

Adeus disse a Montegordo
Nada o prende ao mal passado
Mas nada o prende ao presente
Se só ele é o enganado

Oito mil horas contadas
Laboraram a preceito
Até que veio o primeiro
Documento autenticado

Eram mulheres e criancas
Cada um com o seu tijolo
Isto aqui era uma orquestra
quem diz o contrario é tolo

E se a ma lingua nao cessa
Eu daqui vivo nao saia
Pois nada apaga a nobreza
Dos indios da Meia-Praia

Foi sempre tua figura
Tubarao de mil aparas
Deixas tudo à dependura
Quando na presa reparas

Das eleições acabadas
Do resultado previsto
Saiu o que tendes visto
Muitas obras embargadas

Mas nao por vontade própria
Porque a luta continua
Pois é dele a sua história
E o povo saiu à rua

Mandadores de alta financa
Fazem tudo andar para tras
Dizem que o mundo só anda
Tendo à frente um capataz

Eram mulheres e criancas
Cada um com o seu tijolo
Isto aqui era uma orquestra
Que diz o contrario é tolo

E toca de papelada
No vaivém dos ministérios
Mas hao-de fugir aos berros
Inda a banda vai na estrada

José Afonso, «Os Índios da meia-praia»

Publicado por [Rick Dangerous] às 02:26 PM | Comentários (2)

Muitos arquitectos


“ A Brigada não odopta posições simplistas do tipo "aprender com o povo" ou "ensinar o povo".
Intervém, com a sua capacidade técnica, aceitando e criticando as circunstâncias da sua própria formação e aderindo totalmente ao objectivo de que o controlo das zonas degradadas deverá caber às populações que as habitam, no sentido da sua apropriação e recuperação; controlo que, à partida, deverá necessariamente ser alargado à própria cidade e à sua envolvente.”

Álvaro Siza Vieira, in Lotus Internacional, nº13, Milão: 1976
" Mais do que simples operações de realojamento, os bairros SAAL do Porto expressam também a satisfação, ainda que efémera, de mais um direito, conquistado em pleno ardor do quotidiano de luta dos moradores pobres e inscrito no território e na história das práticas urbanas como renúncia ao entendimento exclusivamente mercantil da concepção e da construção dos espaços: o direito à arquitectura.”
José António Bandeirinha, “Processo SAAL” in Porto 1901-2001, Guia de Arquitectura Moderna, OASRN-Civilização, 2001

"Quem comprou aqui casa? Bom, poucas pessoas cá do bairro, que a maior parte foi morar para outros sítios. Foram sobretudo casais jovens, profissionais liberais. Muitos arquitectos."
No documentário «Operações SAAL», de João Dias, a propósito da segunda fase de construção do projecto de Siza Vieira no bairro da Bouça

Publicado por [Rick Dangerous] às 01:45 PM | Comentários (2)

outubro 23, 2007

Sem-abrigo diferentes dos de cá

Ontem vi no DOCLISBOA The Days and the Hours, sobre uma igreja em São Francisco que acolhe, durante a noite, dezenas de sem-abrigo que se deitam ao comprido nos bancos da igreja.

As histórias dos sem-abrigo ali contadas são tipicamente americanas. Tão típicas como as Coffee-shops em Amesterdão, ou outra coisa qualquer que vos ocorra... Na Europa não se vê coisas assim:

“Trabalhei 30 anos como vendedor de automóveis”. Quem é que trabalha 30 anos, mesmo neste país atrasado, governado há anos por uma cartilha neo-liberalizante, e tem de passar a dormir na rua? “Fui caixa num banco e depois fui promovida a gestora de clientes”; “trabalhei sobretudo na restauração”… São trabalhadores comuns, que por algum azar conjuntural, viram-se excluídos, de um dia para o outro, do “mercado de trabalho”. Sujos, com malas às costas e sem morada, as suas possibilidades de voltar ao jogo são quase nulas.

O filme acaba com um sem-abrigo, na igreja, a tocar piano em pé, como quem aproveita o instante, enquanto não vêm dizer-lhe para se ir embora, porque a igreja “vai abrir”… O gajo toca bem.

Publicado por [Saboteur] às 10:44 AM | Comentários (2)

outubro 22, 2007

Poesia de rua # 19

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Publicado por [Renegade] às 07:45 PM | Comentários (9)

De vitória em vitória...

Sobre a Manif de 18 de Outubro, Miguel Urbano Rodrigues é categórico:

«O povo português começa a perceber que este governo empurra os pais para o abismo. O processo de tomada de consciência é, entretanto, ainda lento e não abrange grande parte do mundo rural e amplas camadas da pequena burguesia urbana.

O governo desta ditadura socratiana da burguesia, com mascara democrática, está progressivamente a desenvolver, na dialéctica do processo, uma politica em que despontam já matizes neofascistas.

O povo português – repito – está em condições de se assumir em sujeito, como aconteceu em grandes momentos da sua história, e de travar a escalada reaccionária, derrotando o projecto monstruoso em desenvolvimento.»

Já antes o PCP tinha dado o mote: “18 de Outubro, uma data histórica na luta dos trabalhadores”, tal como a Greve Geral de 30 de Maio, já terá sido…

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Mas o radicalismo do discurso, o entusiasmo nos termos usados... têm alguma correspondência com realidade?

Eu já não milito num grande partido de massas como o Miguel Urbano e faço parte da tal pequena burguesia urbana… se calhar estarei a ver mal as coisas… mas ando por aí, falo com muita gente, fui à manifestação e a sensação que tenho, passados estes 4 dias desde essa "data histórica", é que foi sem dúvida uma enorme demonstração de força do movimento sindical, mas que continuamos a anos-luz de conseguir derrotar as políticas de direita.

E a manif? Apesar do enorme esforço de todos, contribuiu para "aquecer" as coisas? Estão hoje Sócrates, Menezes e Cavaco mais fragilizados? Tenho sobretudo dúvidas...

Publicado por [Saboteur] às 06:37 PM | Comentários (7)

As ditaduras da américa-latina nos cinemas perto de nós

Brasil 1970 e Chile 1973 em Lisboa 2007. Há dias assim e ontem foi um desses.

Mostra de Cinema Brasileiro, "O Ano em que meus pais partiram de férias", de Cao Hamburger.
Exibido ontem, no Cinema São Jorge

DOCLISBOA, "Calle Santa Fe", de Carmen Castillo. Exibido ontem, no Cinema Londres

Publicado por [Joystick] às 11:16 AM | Comentários (4)

O anúncio mais estúpido do mundo

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Publicado por [Saboteur] às 09:00 AM | Comentários (3)

outubro 21, 2007

Poesia de rua #18

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... Ou "Malandro não para. Malandro dá um tempo".

Publicado por [Saboteur] às 11:01 PM | Comentários (2)

outubro 19, 2007

Pleased to meet you

Tinham-me convidado para escrever para o spectrum há já alguns anos mas na altura não me pareceu propricia a colaboração, no entanto a analisando a maturidade desta casa alcançado pelos meus novos companheiros reconsiderei e aproveitei o convite feito anteriormente. Os mais veteranos entres vocês quiçá se lembrem de um outro blog em que participei com o Rick Dangerous, ambos com nomes diferentes, e do seu lugar cimeiro na história da blogosfera politica e existencialmente comprometida. Tive outros depois mas esses não serão referidos dadas algumas privacidades a manter. Ao contrário de muitos dos meus companheiros não tenho um passado de militancia no partido nem um presente de participação no outro partido, não querendo isso dizer que me tenha furtado à luta e classes e/ou aos outros jogos de plataformas. Presentemente vivo numa cidade grande de um pais que faz fronteira com Portugal, ainda que muita gente aqui gostasse que fizesse fronteira com espanha, e que é muitas vezes referida como capital dos movimentos sociais, ainda que eu ache que isso é peta. Já não escrevo nisto dos blogs há algum tempo, assim que decerto me perdoarão alguma torpeza e ferrugem ao inicio. O nome party program vem de uma text-adventure: um ecrãn a flashar "have another drink" e em nada evoca o fantástico mundo das organizações politicas com ou sem representação parlamentar. E enfim é isso, por agora basta...

Publicado por [Party Program] às 11:43 PM | Comentários (8)

Kerouac

É agora, ou já terá sido, o 50º aniversário da publicação do clássico "On The Road" de Jack Kerouac. A efeméride tem sido apontada por inúmeros meios, o primeiro em que atentei foi num Y de final de Agosto, nele os fenomenais jornalistas davam conta da expressão do fenómeno Beat em Portugal entrevistando diversas personagens, umas mais pertinentes que outras, e colando nos entretantos alguma da melhor informação disponível no Wikipédia. O que logo me saltou à vista foi a entrevista a Jorge palma, supostamente o cantautor terá viajado extensivamente à boleia durante os anos 70 e enfim... Era mais ou menos isso, a sua produção criativa pouco ou nada tem a ver com os beatniks, as suas viagens 20 anos depois pouco ou nada terão a ver com as de moriarty no livro, a orientação do seu modus vivendi também muito pouco terá a ver com a mistura de poesia/jazz/drogas/budismo/fronteira dos ditos cujos, etc. Que haverá uma parca disponibilidade no panteão dos rebeldes portugueses de personagens susceptíveis de serem considerados enquanto uma expressão de qualquer contracultura exterior não é novidade para ninguém, mas toda a questão fez-me relembrar Kerouac e a obra em questão.

Tenho três exemplares do "On The Road", um em português: “Pela Estrada Fora”, e outros dois em inglês, uma edição normal da Penguin e outro mais recente que é fiel à versão original. Nunca li nenhum até ao fim porque acabo sempre por me aborrecer e o por de lado. Agrada-me no entanto toda a mística da Beat Generation, discutivelmente a primeira vanguarda artística a diluir-se na cultura pop e num hedonismo cuja mistura com o vasto território americano a salva da taberna habitual da boémia europeia. Mas, e obviamente, o tempo acabou por desmistificar estes simpáticos amigos, e tudo por via do próprio Kerouac.

Primeiro toda a mística à volta do livro é bastante exagerada. Reza a lenda que Jack Kerouac apenas chegado a casa de três mil aventuras terá passado três semanas alimentado a anfetaminas a escrever o livro num rolo de páginas coladas para não perder tempo a mudar as folhas de papel, um longuíssimo parágrafo espontâneo filho das inquietudes de uma mente livre marcada pelas velocidades que as contradições contemporâneas lhe obrigavam a assumir. Mas não é bem assim. O livro tinha já umas quatro ou cinco versões anteriores bastante planificadas e debatidas e Kerouac era um já um escritor experiente, o que no entanto não retira glamour à façanha mas ajuda a descobrir o lençol de romantismo que normalmente ofusca estes personagens. Kerouac não era o nómada moderno que normalmente se pensa, sempre viveu com a mãe, gostava de passar os dias a falar de livros e desdenhou completamente, de forma contundente e chauvinista, toda contracultura de contornos mais políticos que o assumia enquanto pai espiritual. Morreu alcoólico consumido por uma raiva incompreendida, passou os últimos dias à porrada em bares chungas e estupefacto perante as voltas que o seu mundo tinha dado.

A mística da viagem de Kerouac parece-me pertencer a uma fenomenologia quase exclusivamente americana, só essa extensão de território e a sua aparente virgindade parecem permitir esse devaneio semi-mistico à procura de aventura; dei as minhas voltas pela Europa, algumas também recheadas de aventuras, mas sempre me pareceu que a única coisa que encontrei, neste campo, foram regras diferentes, nunca nenhuma estrada me trouxe algum tipo de epifania, sendo ou auto-estradas frias ou caminhos rurais que a mim me evocam sempre algum tipo de conservadorismo e imobilidade.

Não deixo de pensar que Kerouac terá a mesma relação com a viagem que Che Guevara com a política ou Manu Chao com a criatividade engaje, ou seja, de símbolo e simulacro fraco, fácil e esgotado. Leio uma entrevista de um qualquer starlet italiano, afirma que acabou de passar uns meses a viajar, inspirado em Kerouac, a viagem, diz ele, é um processo de auto-descobrimento quiçá perigoso mas entusiasmante, por onde terá andando ele? Alemanha, Áustria, França e Norte de Itália. Epá.


Publicado por [Party Program] às 11:29 PM | Comentários (7)

Crítica da economia política: da mão invisível ao amor de pai


Publicado por [Rick Dangerous] às 03:22 PM | Comentários (2)

Tratado em Lisboa

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Publicado por [Joystick] às 01:27 PM | Comentários (6)

Post à RD


Spectrum, o blogue do táxi.

Publicado por [Rex] às 10:28 AM | Comentários (3)

outubro 18, 2007

É só para avisar que hoje não vou jantar (agora já podes apagar a entrada).

Publicado por [Renegade] às 12:57 PM | Comentários (5)

"La riposte" a Sarkozy!!!

Não se toca no estatuto dos « cheminots »! Todos os sindicatos (eles são 8 em França no que diz respeito aos transportes: CGT, CFDT, FO, CFTC, Sud-Rail, CFE-CGC, Unsa, Fgaac) apelaram à greve... e a mobilização é forte! Agora coloca-se a questão se a greve é recondutível ou não. Confronto entre sindicatos! A conclusão fica para mais tarde (enquanto os medias discutem se Cecilia pede o divórcio a Sarkozy). Em Paris, cria-se alternativas de deslocação. O que está na voga é o Vélib .

Publicado por [Shift] às 11:44 AM | Comentários (3)

outubro 17, 2007

DOCLISBOA - Taxi to the Dark Side: "What is an 'outrage against human dignity'?"

Toda a verdade sobre a tortura perpetrada pelos Estados Unidos, através de uma investigação que parte do percurso e morte de um taxista afegão em 2002, Dilaware, por ferimentos infligidos por “técnicas especiais de interrogatório” na prisão de Bagram, no Afeganistão – tubo de ensaio para Abu Ghraib e Guantanamo. Dá para ver as habituais piruetas retóricas e decadentes de Bush sobre tortura, justiça, convenções de Genebra, direitos humanos. E as palavras e documentos da nata dos serviços secretos sobre coisas tão suavemente matinais como “simulação de afogamento”, “privação do sono”, “assédio sexual e moral”, “posições de stress”, “exploração e simulação de fobias do detido”, “privação de luz e estímulos visuais”, “choques térmicos” e mesmo sobre o produto de anos de investigação científica: a indução de psicose em 48 horas. E vemos cada uma destas coisas nas fotografias dos prisioneiros e cadáveres, nas certidões de óbito, nas palavras do suposto terrorista britânico entretanto libertado, nas descrições dos soldados envolvidos e até nos olhos dos familiares de Dilaware (realojados pelas autoridades em parte de difícil acesso e supostamente secreta, diz-nos a voz off do filme, que chega até eles) e que, é-nos dito num momento fugaz mas essencial do filme, possuem o papel da prisão que, surpreendentemente e sem pudor, diz “homicídio” sem que isso tenha preocupado as autoridades americanas porque, assim como assim, são analfabetos que nunca terão a tradução do documento em inglês. E isto, isto é mesmo o cúmulo do atentado contra a dignidade humana.

Mensagem para as novas gerações: Carolyn Wood aparece referida várias vezes em Taxi to The Dark Side. Tinha responsabilidades em Bagram durante as mortes por tortura e tinha responsabilidades em Abu Ghraib durante o escândalo que todos conhecemos. Hoje é uma militar medalhada que ensina técnicas de interrogatório às gerações vindouras, no Arizona.

[Exibições: amanhã às 19h00, na Culturgest, e 28 Outubro às 11h00, no Cinema São Jorge]

Publicado por [Joystick] às 09:35 PM | Comentários (3)

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Adivinhem quem faz 3 aninhos amanhã?


Foto do Jantar do ano passado, comigo a apagar as velas dos 2 anos de blog.

Publicado por [Saboteur] às 09:27 PM | Comentários (8)

Topam-se logo!

Um amigo belga chamou-me a atenção para o site do seu município: Liége.

Podemos no site ver a composição política da Assembleia de Liége.

Como vêem há lá um maluquinho da Front National...

Maluquinho? Lá estou eu com as minhas coisas, dirão alguns. "metia-vos todos num barco com pedragulhos amarrados aos pés só para ter a certeza que não sobreviviam", diram outras... Mas cliquem lá na biografia do senhor...

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Renseignements personnels (date de naissance, situation familiale, hobbies) :

- Tir fusil et armes de poing (compétition)
- Natation
- Echecs
- Né à Bressoux 18/10/1939
- Marié (en 1959)
- 4 enfants

É mais um "nacionalista" que gosta de disparar a sua carabina! Está tudo dito.

Publicado por [Saboteur] às 06:35 PM | Comentários (2)

outubro 16, 2007

Já não se pode colar cartazes!

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Les étudiants de La Rochelle seront-ils au final poursuivis au titre d’offense au chef de l’Etat, chef d’accusation qui figure dans la loi sur la liberté de la presse de 1881?

Publicado por [Chuckie Egg] às 08:50 PM | Comentários (3)

O seu nome é Pélé

Publicado por [Rick Dangerous] às 07:31 PM | Comentários (5)

Sucker!

Fui ontem ver o filme do Paul Auster.

Cheira-me que o Produtor foi bem enganado.

E quem é a gaja que faz de musa?! Alguém a quem o Paulo Branco devia uns favores??

Publicado por [Saboteur] às 09:40 AM | Comentários (7)

Não consegue atingir o conceito...

Quem segue minimamente a actualidade sabe a história:

Santana Lopes e Carmona Rodrigues queriam construir no Parque Mayer, que era da Bragaparques.

Propõem ao homem, trocarem o Parque Mayer pelos terrenos da Feira Popular (que eram da Câmara), num daqueles negócios da China que até daria para a Bragaparques oferecer vários apartamentos aos decisores políticos (caso tivessemos a tratar de gente corrupta, claro) e ainda ficar com um lucro brutal.

A permuta faz-se mas há um advogado, conhecido pelas suas acções populares, que a contesta e põe o caso em tribunal.

Agravando mais ainda a situação dos permutantes, esse advogado é eleito mais tarde Vereador da Câmara.

Domingos Névoa - administrador da Bragaparques - decide então oferecer 200 mil euros ao Vereador para este estar calado e deixar cair o processo enquanto advogado.

O Vereador não só não aceita, como denuncia a tentativa de suborno à PJ.

Como veêm uma história simples, retrato deste país governado por patos-bravos. Toda a gente a entende.

Toda? Não!

João Soares, em entrevista à revista do DN, neste Sábado, considera que "a história está mal contada". O ex-presidente da CML. pura e simplesmente não atinge este conceito que é recusar 200 mil euros para não fazer nada. Pior! Denunciar à polícia o caso, metendo-se - como se viu - numa carga de trabalhos, arranjando mil e um inimigos... Uma chatice.

Publicado por [Saboteur] às 09:33 AM | Comentários (2)

outubro 15, 2007

Poesia de rua #17

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Publicado por [Chuckie Egg] às 01:00 PM | Comentários (2)

Poesia de rua #16

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Publicado por [Saboteur] às 09:58 AM | Comentários (2)

outubro 14, 2007

Insólitos Porn #3

De acordo com o Correio da Manhã, «Ferreira Leite levanta o Congresso.»

Publicado por [Manic Miner] às 11:40 AM | Comentários (3)

Festa rija em Fátima!

Continuam os festejos de inauguração do novo templo. Esta é a música que está a bombar em todas as discos, bailaricos e boîtes do distrito. Aleluia como se não houvesse amanhã!

Excelente funk retirado das Vicentinas de Bragança, ex-Braganzzzza Mothers.

Publicado por [Saboteur] às 05:30 AM | Comentários (4)

outubro 13, 2007

aos intoxicados da terra

Diz-me se és o meu reflexo, Oh fonte vulgar
Diz-me onde esconder a arma que eu soube enferrujar
Castro com castro edificas, eu castro o gesto a que incitas
Estátua de orgulho gelada sobre esta água parada

O vento de amanhã quando soprar desagregará o tempo presente
A memória da batalha clássica foi-se, a bandeira ser-me-à indiferente
Vim para devolver as cidades aos intoxicados da terra
Será nos gabinetes que se ditará a nova guerra

Sempre que fui combater rastejei pelo chão
Onde nem a beladona cresce tocando o musgo com a mão
Descarnado de alma, mas mantendo a calma
Dilacerado esforço em vão

O esforço de amanhã esfuma os viciados do controle
O cheiro a carne assada humana será uma recordação
Nem mais um soldado anónimo dormirá neste caixão
Sonhando arrogante com o nome da sua batalha final

Gnr, «Ao Soldado Desconhecido», Psicopátria

Publicado por [Rick Dangerous] às 08:46 PM | Comentários (2)

Não estamos em Nottingham

Quando vejo a esquerda, na oposição, a discutir orçamentos, muitas vezes apetece-me logo passar ao sodoku ou mudar de canal.

Se na maioria das vezes as denuncias são certeiras quanto aos cortes nas áreas sociais e, em geral, as prioridades trocadas na área da despesa, já no que diz respeito à receita, bastas vezes o discurso é superficial e demagógico.

A propagandeada cartilha neo-liberal está muito enraizada. O imaginário do xerife de Nottinhgam com os seus pesados impostos sobre o povo está no nosso imaginário, e muita boa gente barda contra o “aumento da carga fiscal” ao mesmo tempo que pede mais investimento público na segurança social, educação, transportes, cultura, habitação, etc.

No outro dia dizia-me um camarada: “É muito impopular falar em aumento dos impostos”. O problema é que não se traçam fronteiras ideológicas, não se constrói opinião política sólida e depois vem um demagogo qualquer tipo Paulo Portas, ou agora Menezes e limpam umas eleições num ápice.

Eis alguns assuntos que gostaria de ver a esquerda a reflectir no âmbito deste orçamento de Estado: Criação de mais escalões de IRS, com taxas de imposto mais pesadas; criação de mais um escalão de IVA para artigos de luxo; fim dos benefícios fiscais sobre PPR; pagamento da segurança social por parte das empresas de forma progressiva; actualização imediata do valor de todos os imóveis à luz do código de IMI em vigor; reintrodução do imposto sucessório... and soo on, and so on…

Publicado por [Saboteur] às 01:05 PM | Comentários (2)

Poesia de rua #15

Ou o Spectrum pelos seus leitores...

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Foto enviada amavelmente por TC

Publicado por [Saboteur] às 04:54 AM | Comentários (2)

outubro 12, 2007

A Charrua e as Estrelas

Se puderem, aproveitem que acaba no fim-de-semana.

Publicado por [Manic Miner] às 11:04 AM | Comentários (1)

outubro 11, 2007

Mais um cartaz do PNR

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Mais um outdoor bastante caro - demasiado cara - para um Partido de meia-duzia de militantes. Esta noite no Marquês de Pombal

O PNR está revoltado contra o sistema judicial. Diz que se "soltam pedófilos, violadores e assassinos" e se mantêm presos os gajos que andam a fazer "caçadas" a pretos, imigrantes e anti-fascistas, pelas noites da cidade, com requintes de malvadez e violência física que só mentes muito doentes conseguem engendrar. (E que por acaso também já assassinaram uns tipos...)

Para além disso, da prisão, é um pouco mais complicado de dirigir o crime organizado que financia o partido, a sua actividade e propaganda e a vida particular de alguns dos seus dirigentes.

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PS: Vocês provavelmente não sabem, mas tem continuado, nos comentários, de um post antigo do Spectrum, um acesso debate sobre Mário Machado. É só rir!

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Publicado por [Saboteur] às 10:50 PM | Comentários (145)

Hipocrisias

«Fui ministro dos Negócios Estrangeiros e primeiro-ministro no meu país e muito frequentemente temos de nos sentar em reuniões internacionais na companhia de pessoas com as quais a minha mãe não gostaria de me ver»
Durão Barroso

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"Com o homem que quando lhe falam de direitos humanos responde com pena de morte, prisões secretas, tortura e gnomos saídos da floresta"

Diz também que tanto ele como os representantes dos estados-membros não vão perder a oportunidade de realçar a importância do respeito pelos direitos humanos na cimeira que se prevê para o início de dezembro. Este tipo de cimeiras são quase o cúmulo da hipocrisia na política mundial. São essencialmente uma mostra de um paternalismo que roça o racista. Cimeira onde os responsáveis pelo genocídio do Darfur vão estar esquecidos por uma polémica com Mugabe. Mas é só um exemplo.

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"Mugabe durante a a conversa sobre direitos humanos e o tal gajo que se vai estar a rir enquanto o outro leva na cabeça"

No essencial trata-se de um teatro. Aos europeus a tragédia em que somos as almas preocupadas. Aos líderes africanos a palestra da abertura das economias, do investimento estrangeiro como alavanca. É hipócrita tanto nas críticas ao respeito pelos direitos humanos, como ficou demonstrado na conivência com as acções dos estados-unidos, como é enganoso para os europeus , a quem passam a imagem da frase acima transcrita. Haverá países para os quais é um passeio dos governantes na europa e outros que negociarão promessas contra ajudas. Promessas que não cumprem contra ajudas que não chegam.

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"milícias Janjaweed apoiadas pelo governo do Darfur e o gajo que teve de bazar do Ruanda antes que tivesse a mesma sorte que os Tutsis"


Quem vive em África condena certamente esta cimeira, e nós?

Publicado por [Chuckie Egg] às 08:50 PM | Comentários (3)

Vai-te a eles!

Pouco me importa se essa contribuição é desejada ou é um incómodo no clima de intolerância e anti-intelectualismo que se vive hoje no PSD. Podem pois poupar vaias ou assobios e, para os que desejam expulsar-me, porque calarem é difícil, se o fizerem, que seja por este corpo de delito.

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Give full play to our style of fighting - courage in battle, no fear of sacrifice, no fear of fatigue, and continuous fighting (that is, fighting successive battles in a short time without rest).
The Present Situation and Our Tasks

Publicado por [Chuckie Egg] às 08:17 PM | Comentários (3)

Pinóquio versão filme de terror

"Jamais escrevi tal ameaça ou foi minha intenção que a dita dra. sofresse qualquer tipo de represália e tão pouco subscrevo tais tipos de atitudes ilegais"

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Publicado por [Chuckie Egg] às 07:48 PM | Comentários (4)

outubro 10, 2007

Spectrum pela Europa #2

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Publicado por [Renegade] às 08:30 PM | Comentários (5)

Vencidas e Ultrajadas

Andava eu pelo Technorati para dar uma vista de olhos às citações dos nossos posts (mas que grande sucesso que fêz o camarada Durão, hem?), quando me deparo com este post sobre a Maitena. Muito bom. Subscrevo por baixo e deixem-me dizer que acho estranho como é que não se ouve mais este tipo de opiniões... será por ser, de facto, a única mulher cartoonista que existe por aí?

Publicado por [Saboteur] às 07:38 PM | Comentários (2)

"A máquina de matar, friamente movida a fanatismo ideológico"

"A justiça da Argentina condenou ontem a prisão perpétua o sacerdote católico Christian Von Wernich, o primeiro religioso condenado por crimes contra a humanidade durante a última ditadura militar (1976-1983).
O ex-capelão da polícia da Província de Buenos Aires, 68 anos, foi condenado com a pena máxima prevista pelas leis locais por ter participado em sete homicídios qualificados, 31 casos de tortura e 42 privações ilegais de liberdade."

Publicado por [Rick Dangerous] às 04:27 PM | Comentários (2)

outubro 09, 2007

Esqueletos no armário


Acompanhando o que se escreve acerca de Che Guevara em blogs liberais qualquer um pode temer uma epidemia de esquizofrenia alastrante.
Ao que parece, pessoas de esquerda não suportariam a capa da Atlântico porque ela põe em causa «mitos».«Mitos» que seriam desvendados por relatos do próprio diário de Che Guevara acerca de execuções a sangue frio. Relatos que revelariam a natureza totalitária dos seus projectos e o seu desprezo pela vida alheia.

Não se trata aqui de nos indignarmos pela «imoralidade» da comparação. Enquanto exercício político, intelectual, historiográfico, comparar o fenómeno do «comunismo» ao do «nazismo» não é propriamente original nem novo. Diga-se que, para permitir esta simetria, o comunismo é quase sempre reduzido ao regime soviético, apesar de terem existido partidos comunistas em quase todo o mundo e de vários terem chegado ao poder, nas mais diversas situações e com diferentes resultados. Já nem sequer vou acentuar aquilo que é óbvio: o comunismo não se resume aos partidos comunistas tal como o liberalismo não se resume aos partidos liberais.Por outro lado, seria interessante que os esforços de comparação ganhassem em densidade e capacidade argumentativa aquilo que vão perdendo em juventude.

Alguns esforços foram e são feitos para analisar o funcionamento das respectivas práticas repressivas e de controlo social, as suas políticas culturais e propostas estéticas, a sua legislação e respectivo cumprimento, a sua abordagem à economia ou à educação, o grau de autonomia e liberdade de que gozavam os indivíduos no seu interior, a sua política externa, a condição feminina, e por aí fora. Não faltam monografias e estudos exaustivos acerca de ambos os fenómenos.

Mas quando se trata de comparar apenas conhecemos o frio domínio dos números: números de mortos, números de presos, números de deportados. Apenas sabemos que nenhum dos dois regimes permitia a liberdade de expressão e de associação e que ambos se encaravam enquanto processos de engenharia social ambiciosa. Mas será a semelhança de métodos suficiente para determinar uma identidade comum, uma mesma natureza? Se assim fosse, se bastasse sobrepor e enumerar fenómenos de semelhança, a afinidade teria necessariamente de ser alargada a todas as correntes políticas que já conquistaram o poder de Estado.

Execuções, deportações e prisões em massa caracterizaram a muito liberal colonização britânica e a muito republicana colonização francesa, a expansão norte-americana para o Oeste ou até, pasme-se, a política do Estado de Israel. Polícias secretas com poderes ilimitados caracterizaram regimes pró-americanos um pouco por todo o mundo durante a guerra fria e execuções a sangue frio foram ordenadas pela Social-Democracia alemã em Janeiro de 1918 ou pelos socialistas espanhóis no verão de 1931.

Procurá-los na natureza das correntes políticas que os protagonizaram pode ser um exerício tão interessante como a pesca desportiva, mas arrisca-se a passar ao lado do fundamental. A natureza das relações de poder é fortemente determinada pelos sujeitos que a protagonizam, pelos problemas concretos que enfrentam, pelos contextos que as originaram. Trabalhar a história implica interpretar e não apenas enumerar factos e presumir que eles falam por si.

É por isso que é possível, a todos os interessados, fazer milhares de afirmações incontestáveis acerca das 180 execuções em Cuba, posteriores à entrada do exército rebelde em Havana, e delas extrapolar a natureza «totalitária» e «sanguinária» do comunismo. Mas nunca será honesto silenciar os argumentos avançados a favor dessas execuções. Eles podem ser inaceitáveis ou indiscutíveis, mas fazem parte da História e são tão incontornáveis como a contabilidade dos mortos. Afinal, e é disto que se trata, a linguagem que falam, as suas motivações, as suas vaidades e os seus fantasmas, as suas origens e percursos, contam tanto para caracterizar regimes, actores e ideias políticas como uma convergência de métodos em dada altura da sua história ou em determinado lugar.

Guevara descrevia no seu diário uma execução sem deixar transparecer qualquer emoção, Goebbels fez da aniquilação dos seus inimigos um tema apaixonado. A diferença só pode ser colhida por quem assume toda a complexidade do comportamento humano. A História não se pode resumir a um conjunto de resultados. Se assim fosse não seriam necessários historiadores, mas apenas boas máquinas de calcular. E já que nos debruçamos sobre relações difíceis, as prisões de Guantánamo e de Abu Ghraib são tão sanguinárias como o comunismo ou tão abjectas como o nazismo?

Publicado por [Rick Dangerous] às 06:18 PM | Comentários (27)

Malandro não pára, malandro dá um tempo

Publicado por [Rick Dangerous] às 06:09 PM | Comentários (63)

Tristeza en la muerte de un Héroe

Los que vivimos esta historia, esta muerte y resurrección de nuestra esperanza enlutada,
los que escogimos el combate y vimos crecer las banderas, supimos que los más callados
fueron nuestros únicos héroes y que después de las victorias llegaron los vociferantes
llena la boca de jactancia y de proezas salivares.

El pueblo movió la cabeza: y volvió el héroe a su silencio.
Pero el silencio se enlutó hasta ahogarnos en el luto cuando moría en las montañas el fuego ilustre de Guevara.

El comandante terminó asesinado en un barranco.
Nadie dijo esta boca es mía.
Nadie lloró en los pueblos indios.
Nadie subió a los campanarios.
Nadie levantó los fusiles, y cobraron la recompensa aquellos que vino a salvar el comandante asesinado.

¿ Qué pasó, medita el contrito, con estos acontecimientos?

Y no se dice la verdad pero se cubre con papel esta desdicha de metal.

Recién se abría el derrotero y cuando llegó la derrota fue como un hacha que cayó en la cisterna del silencio.
Bolivia volvió a su rencor, a sus oxidados gorilas, a su miseria intransigente, y como brujos asustados los sargentos de la deshonrra, los generalitos del crimen, escondieron con eficiencia el cadáver del guerrillero como si el muerto los quemara.

La selva amarga se tragó los movimientos, los caminos, y donde pasaron los pies de la milicia exterminada hoy las lianas aconsejaron una voz verde de raíces y el ciervo salvaje volvió al follaje sin estampidos.

Pablo Neruda

Publicado por [Saboteur] às 03:59 PM | Comentários (2)

Spectrum pela Europa

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Publicado por [Saboteur] às 10:37 AM | Comentários (4)

outubro 07, 2007

Gringolândia


Ramos, Rui, "O desprezo de Che Guevara" in Atlântico, nº31, Outubro de 2007

Após leitura emprestada, compro hoje a revista Atlântico para me debruçar com atenção sobre o universo paralelo do liberalismo português. Há muito por onde escolher, mas por agora fico-me pelo artigo de Rui Ramos. Destaco em todo o caso que uma assinatura anual da revista nos dá direito a "uma t-shirt «Richards» no valor de 40€, branca ou azul, limitada ao stock existente" (juro).

O que nos diz então o Rui?
Coisas giras: "Em 1959, Cuba, o segundo maior produtor mundial de açúcar, não era um país pobre. Tinha mais televisões per capita do que a Itália e mais estradas por quilómetros quadrados do que Portugal."
Coisas reconfortantes:"Em Cuba, Castro e Guevara haviam enfrentado um governo fraco e contestado por todos os partidos políticos, e a quem os EUA cortaram apoio em 1958. [...]Os seus 2000 homens armados na montanha desempenharam um papel secundário: a maior parte das mortes resultou de confrontos entre manifestantes e polícias nas cidades. Tudo foi finalmente decidido por intrigas de bastidores, que fizeram o ditador Baptista a fugir, convencido de que os EUA preferiam Castro para governar Cuba."
Coisas incompreensíveis: "Na Bolívia, os camponeses que o viram e ao seu bando chamaram-lhes, como Guevara notou no diário, «os gringos». Era o nome dado aos brancos dos EUA. Guevara, o inimigo dos gringos, era um gringo: o filho literato de uma família de aristocratas e milionários argentinos, definido acima de tudo pelo ancestral ressentimento das elites espanholas da América contra os EUA - um sentimento suficientemente forte para a família se lembrar que Guevara, em 1945, se opôs à entrada da Argentina na guerra contra a alemanha nazi, porque considerava os EUA, e não o nazismo, o inimigo principal. Curiosamente, ao embaixador soviético em Cuba, Nicolai Leonov, Guevara não pareceu um latino. Era demasiado organizado, pontual, exacto: «como um alemão»."

Muito nos diz o Rui, mas por agora gostaríamos de assinalar apenas aquilo que ele não nos diz. Num estranho mas refrescante contributo para o desaparecimento do autor, multiplicam-se as referências e as citações, mas poucas são as fontes mencionadas. Contamo-las para que não fiquem dúvidas. São quatro obras citadas em quatro páginas: Antes que anoiteça, A guerrilha do Che, o Livro Negro do Comunismo e O Homem e o Socialismo em Cuba. Respectivamente Reinaldo Arenas (um dissidente cubano perseguido pela sua homossexualidade e exilado nos EUA), Régis Débray (um comunista convertido à guerrilha e depois ao catolicismo), Stéphan Courtois (um ex-maoísta ressentido) e Ernesto Guevara. Ao leitor mais atento não escapará o pormenor mais óbvio - apesar do artigo ser dedicado a Che Guevara, só uma das obras referidas foi escrita por ele. De resto, há umas referências fugazes e umas citações saltitantes dos diários do Congo e da Bolívia, mas nada que mereça regras de citação bibliográfica próprias de um historiador.

Evidentemente, o parágrafo dedicado a «O Homem e o socialismo em Cuba» também não teve honras de citação, apenas de síntese penetrante e arguta: "Foi assim que ele compreendeu o seu fracasso económico em Cuba. Os trabalhadores deveriam ter produzido bens e serviços por zelo ideológico, sem outro incentivo. Mas ainda não estavam suficientemente amestrados. Em «O Homem e o Socialismo em Cuba», de 1965, explicou por isso que a «ditadura do proletariado», ao contrário do que ensinavam os clássicos marxistas, não se devia exercer apenas contra a burguesia, mas sobre cada um dos membros do proletariado «individualmente». Guevara queria transformar as pessoas. Nunca lhe interessou percebê-las."

Note-se que não me passa pela cabeça alinhar aqui qualquer defesa de Guevara, Castro ou do regime cubano. Ícones românticos nunca me seduziram e guardo apenas na memória as três horas de pé durante um comício de solidariedade com Cuba realizado em Matosinhos, passadas a escutar um interminável discurso de Fidel. Mas lá está, a falta de seriedade e de rigor provoca-me uma comichão e um desconforto que t-shirts brancas de 40€ não conseguem resolver.

O tratamento das questões económicas é particularmente desonesto. Ao que parece Cuba, um país riquíssimo até 1959, era já pobre em 1965 e outro tanto em 1999. Mas, lá está, este país rico que produzia açúcar e albergava hotéis de luxo (quem não se lembra de Pacino em Habana, n'O Padrinho II), vendia toda a sua colheita e alugava todos os seus quartos a americanos.
Vantagens comparativas e tudo o mais são muito bonitas nos livros de David Ricardo e na cotação do acúcar em Wall Street, mas quando se procura renegociar as suas condições e se obtém como resposta o embargo comercial e a tentativa de invasão, atentados e sabotagens - como os que se vão conhecendo agora a partir da abertura dos ficheiros da CIA - , é natural que os jovens idealistas de 1959 se tornem os ferozes comunistas de 1962. E naturalmente que a reconversão de uma economia dependente de um só fornecedor e comprador não costuma resultar em elevadas taxas de crescimento a curto prazo. Por outro lado, de 1965 a 1999 vão 34 anos e não é costume comparar resultados económicos aleatoriamente, desligados de ciclos crescimento e estagnação claramente identificáveis. Em 1991 o principal comprador e fornecedor da economia cubana colapsou e ainda não alcançou, em 2007, os indicadores económicos do período do socialismo real. Trocaram os cubanos uma dependência por outra? É provável que o tenham feito. Mas já que estamos do domínio dos indicadores e dos resultados, seria bom ter em conta o esforço de diversificação da economia cubana no período em causa e, porque não, ter em conta outros índices de desenvolvimento. A economia cubana cresceu consideravelmente até aos anos 80 e, apesar de não superar a Itália em número de televisores e Portugal em kilómetros de estrada, superava-os em número de médicos por habitante e em níveis de literacia.

Mas o centro do artigo é o fenómeno cultural e comercial associado a che guevara. Diz-nos Rui Ramos que foi iconizado por uma pequena-burguesia de esquerda que frequenta as universidades europeias e latino-americanas, por quem o próprio Guevara sentiria desprezo. E no entanto, sendo isso verdade, não explica o fenómeno de popularidade generalizado em toda a américa latina, a começar pelos pobres e pelos camponeses que este supostamente não estimava nas suas concepções e estratégias. É a própria persistência do fenómeno guerrilheiro no continente, a assimilação de Guevara à resistência ao imperialismo, a sua sobrevivência enquanto espectro, que revelam a persistência do quadro político e social que motivou um jovem médico argentino a acompanhar um punhado de jovens num barco velho, para fazer desembarcar em Cuba uma esperança de liberdade.
Ali, o tabuleiro de xadrez da secular guerra civil que opõe os pobres aos ricos segue ainda o mesmo traçado e encontra, de um lado e de outro, as respectivas «máquinas de matar, friamente movidas a fanatismo ideológico». Só que a ideologia exprime aqui, pelos caminhos travessos que são os seus, posições bastante reais e concretas de antagonismo. Se os guerrilheiros aprenderam a matar e a mover-se como um exército beligerante nas suas relações com os camponeses foi porque receberam dos seus inimigos as mais pedagógicas lições de brutalidade.

Resta o regime autoritário de Cuba. Ninguém razoável aceita discutir com liberais pró-americanos acerca de regimes autoritários na América Latina. O marxismo pode ter encontrado aí as suas formulações mais românticas e as suas degenerescências mais caricatas. Mas quem esquece o rosto democrático e os métodos esclarecidos com que ali fez caminho a versão do liberalismo que nos é mais familiar?
No domínio dos laboratórios políticos e das experiências autoritárias de engenharia humana, o capitalismo demonstrou todas as suas vantagens. Algures entre Chicago e o Panamá, entre a mão invisível do mercado e o braço armado da contra-insurgência, entre a tortura e o desemprego, tomou forma uma nova ordem mundial, uma verdadeira revolução afinal. Dos seus mortos ainda muito há a falar, mas talvez não seja ousado supor uma relação qualquer entre aquela manhã de 8 de Outubro de 1967, nas montanhas bolivianas, e uma outra igualmente nebulosa, de 11 de Setembro de 1973, em Santiago do Chile, quando o general Augusto Pinochet tomou de assalto um palácio, dando início a um longo inverno.

Publicado por [Rick Dangerous] às 04:53 PM | Comentários (3)

outubro 06, 2007

A economia autista

Angustiado com os escritos catastrósficos acerca da falta de comptitividade do país e com a falta de aptidão dos portugueses para a matemática decidiu dar o seu contributo patriótico. Atirou a máquina de calcular para o lixo e passou o fim-de-semana em casa a fazer contas de cabeça.

Publicado por [Rick Dangerous] às 07:08 PM | Comentários (2)

O gang do bigode

capa+atlantico.jpg

Gangs do multibanco, beirões que não batem em mulheres, mulheres que não gostam de chineses e admiram Salazar, pequenos tiranos, índios yanumani, espuma sem substância, comentadores que se mascararam de taxistas e outros que se arriscam a ser expulsos.
Neste contexto, que algumas pessoas mal intencionadas poderiam considerar ser de crise política, que tem o think tank liberal português a dizer? Che Guevara era tão mau como Hitler.
Obrigado Rui Ramos. Estávamos todos a precisar de uma incursão nos terrenos da história contemporânea como só tu sabes fazer. Irrelevante, superficial, indefensável no plano dos factos e da lógica, intelectualmente desonesta e cheia de um ressentimento que a historiografia, só por si, nunca resolverá. Também não me parece justo que a esquerda tenha um ícone em forma de sex symbol e a direita tenha apenas Margaret Tatcher. Mas isso não vai lá com um bigode.


Publicado por [Rick Dangerous] às 06:13 PM | Comentários (3)

outubro 05, 2007

a república da guarda

E então chegou a república. Ganhavam os homens doze ou treze vinténs, e as mulheres menos de metade, como de costume. Comiam ambos o mesmo pão de bagaço, os mesmos farrapos de couve, os mesmos talos. A república veio despachada de Lisboa, andou de terra em terra pelo telégrafo, se o havia, recomendou-se pela imprensa, se a sabiam ler, pelo passar de bolca em boca, que sempre foi o mais fácil. O trono caíra, o altar dizia que por ora não era este reino o seu mundo, o latifúndio percebeu tudo e deixou-se estar, e um litro de azeite custava mais de dois mil réis, dez vezes a jorna de um homem. Viva a república, Viva.[...]
Por todas as herdades corria um vento mau de insurreição, um rosnar de lobo acuado e faminto que grande dano lhe causaria se viesse a transformar-se em exercício de dentes.Havia pois que dar um exemplo, uma lição.[...]
Já lá vai adiante o esquadrão da guarda, amorosa filha desta república, ainda os cavalos tremem e a espuma fica pelo ar em flocos repartida, e agora passa-se à segunda fase do plano da batalha, é ir por montes e montados em rusga e caça aos trabalhadores que andam incitando os outros à rebelião e à greve, deixando os trabalhadores agrícolas parados e o gado sem pastores, e assim foram presos trinta e três deles, com os principais instigadores, que deram entrada nas prisões militares. Assim os levaram, como a récua de burros albardados de açoites, pancadas e dichotes vários, filhos da puta, vê lá onde é que vaIs dar com os cornos, viva a guarda da república, viva a república da guarda."

José Saramago, Levantado do chão

Publicado por [Rick Dangerous] às 11:16 PM | Comentários (4)

Gado bravo

Publicado por [Rick Dangerous] às 10:57 PM | Comentários (3)

Mobilidade dos trabalhadores na União Europeia

O ano 2006 foi designado o Ano Europeu da Mobilidade dos Trabalhadores pela União Europeia. No entanto, uma mobilidade que é promovida a alto e bom som por uma entidade completamente desligada da realidade quotidiana de cada estado membro... só pode resultar num sentimento de frustação, sobretudo naqueles que ousaram em fazê-lo!!!! A discriminação linguística é uma das maiores barreiras ao ideal de uma União Europeia coesa. Por uma vez a ambição economicista deste ideal de União Europeia vai-se estampar em estruturas sociais onde a aceitação do “outro” é completamente bloqueada (só para os lixar vou fazer um doutoramento sobre o assunto!). A discriminação linguística, embora menos condenada pela sociedade, encontra-se ao mesmo nível da discriminação de género, racial, etc, etc. Eu, pela minha parte tive hoje a primeira dose... Como forma de protesto enviei um pequeno mail ao meu conselheiro de l’ANPE (Agence Nationale pour l’Emploi)... um mail muito emotivo mas que pode ajudar a sensibilizar as entranhas da administração francesa!


Cher Conseiller,
Je vous écrie à la suite d’un grand « chagrin ». Je profite alors de votre disponibilité d’écoute.
Mon sourire d’hier s’est transformé en larmes aujourd’hui… Je viens d’arriver de mon entretien d’embauche pour un « travail alimentaire » basé sur des enquêtes par téléphone. L’entretien n’a pas prit plus que deux minutes. Ces deux minutes correspondent au temps qui la Dame a eu besoin pour s’apercevoir que j’avais un accent « bizarre » ! Vous savez, il y a plus de quatre ans que je suis en France. J’ai eu quelques petits soucis de discrimination surtout dans l’administration publique, mais ces petits soucis ont été toujours facilement surmontés car je mettais en avant mon bagage intellectuel et mes ressources sociales. Pendant ces quatre ans, j’ai intégré un petit groupe d’élite où l’étrangeté est considérée plutôt comme quelque chose d’ « exotique »! Le marché de travail est un autre univers ! Il est cruel…. Et la langue française aussi, elle est cruelle… à partir d’aujourd’hui je me rends compte que je n’ai pas de place en France, et pourtant je gardais l’image d’une France illuministe et une France des révolutions progressistes, où des valeurs sociales ont été acquis à tout « jamais » à travers des luttes exemplaires de travailleurs!!! Voilà, un petit aveu…. même si je suis persuadée qui vous connaissez bien cette réalité du marché du travail Français et de la société française en générale !!! Ne vous inquiétez pas je continuerai ma recherche et je vous tiendrai aussi au courant.
Cordialement,
A bientôt,

Publicado por [Shift] às 06:37 PM | Comentários (2)

Insólitos Porn #2

Segundo o Expresso, Europa quer mulheres mais fortes.

Publicado por [Manic Miner] às 05:13 PM | Comentários (1)

Cravinho é um cravo pequenino

De vez em quando, a elite da esquerda tem uns rasgos de entusiasmo quando certas reserva morais do «campo democrático» dão à costa. A última novidade é a entrevista de João Cravinho à Visão de ontem. Aí, Cravinho, actualmente Administrador do BERD (segundo a Visão, «um banco destinado a promover a economia de mercado e o sector privado(...)»), para além de revelar o que já toda gente está cansada de saber sobre as dificuldades que teve no Grupo Parlamentar do PS para elevar a bandeira da luta contra a corrupção, desfia o rol de banalidades que era o seu projecto, aliás muito aproveitado pelo PSD, CDS e... BE. É, apesar de tudo, natural que Cravinho considere que «um dos nossos grandes problemas é a corrupção de Estado, a apropriação de órgãos vitais de decisão ou da preparação da decisão por parte de lóbis.» O que, aparentemente, é mais estranho é que à esquerda esteja ausente a ideia (pelo menos como hipótese) de que a corrupção é um fenómeno intrínseco ao poder de Estado. Sendo assim, propor um Estado clean, impoluto, espécie de híbrido moralizador, é o mesmo que propor que os bancos não cobrem as nossas prestações ou que o SEF não seja racista.

Publicado por [Manic Miner] às 04:20 PM | Comentários (1)

Na trilha de Rick Dangerous

Bem vista esta ideia do Rick Dangerous de postar umas letras do Grupo Novo Rock, daquela altura em que havia um curioso rótulo que era MMP (música moderna portuguesa), que punha no mesmo saco os Madredeus, os Pop Dell' Arte e os Mata Ratos. Era assim, fácil: se são portugueses, jovens e músicos, então fazem MMP... Apesar de tudo, facilitava e não era uma designação tão absurda como rock português (seria caso para perguntar se os U2 fazem rock irlandês ou se os AC/DC fazem rock australiano). Nice memories from 1991:

BÓFIA
[Adolfo Luxúria Canibal / Miguel Pedro - Zé dos Eclipses], Mão Morta, in O.D., Rainha do Rock & Crawl

O bófia empurrava-me e dizia para desandar. Eu não podia compreender porquê. Quis-lhe perguntar. O bófia sacou do casse-tête e deu-me com ele uma, duas, três vezes nos costados. Senti um choque eléctrico percorrer-me o corpo. E uma humilhação que não podia ficar impune. Não percebia por que é que ele me batia. Quis-lhe perguntar. Mas o gajo continuou a dar-me cacetadas e já outros bófias se aproximavam de casse-tête na mão. Não ia ficar para ali, especado, feito bombo da festa. Uma raiva surda trepava-me à cabeça. Ah, que raiva! Quando dou conta, mandava-lhe uma joelhada aos tomates. Senti-os a espalmar de encontro ao joelho. Já os outros bófias descarregavam sobre mim os seus casse-têtes virados ao contrário. Senti uma dor de vertigem quando um me acertou na cara. Percebi que a carne se rasgava e que um esguicho de sangue me inundava os olhos. Já me acertavam por todos os lados. Mas não interessava. Já nada interessava.

Sede de sangue!
Sede de sangue!
Sede de sangue!
Sede de sangue!

Já nada interessava. A não ser aquele bófia agarrado aos tomates. Num último esforço disparo-lhe um pontapé à cara. Assim, de baixo para cima - pás! Senti a biqueira da bota entrar-lhe pelas fuças dentro. Os ossos a quebrar. Os dentes a saltar numa baba de cuspe e sangue. Senti o olho a esborrachar-se sob a biqueira da bota. Os outros bófias continuavam a descarregar sobre mim os seus casse-têtes virados ao contrário. Mas eu já nada via. Só sangue. Dor. Senti-me dobrar. Cair. Aaaaaaaaaahhh!...

Publicado por [Manic Miner] às 04:05 PM | Comentários (3)

outubro 04, 2007

Fartos destes Recibos Verdes

Um neo-proletário da neo-indústria às vezes tem tendência para o queixume. Ele é o salário ridículo, ele são as tarefas estúpidas, ele é saber que dali não se passa, ele é olhar para o lado e ver gente a queixar-se do mesmo. Daí que, em momentos de ócio deprimido, ou seja, quando ao trabalho de merda se acrescenta o não poder trabalhar porque não há nada para fazer porque os meios de produção decidiram não funcionar, o neo-proletário desague nas apraziveis águas da internet.

E foi assim que descobri uma terapia formidável para o queixume. Chama-se FERVE - Fartos Destes Recibos Verdes, e é o blogue de um movimento de precários do Porto..., bem...ahn..., fartos da exploração proporcionada pelo "trabalho independente" a recibos verdes. E interessados em fazer agitação política sobre isso. Chega a ser comovedora a leitura de tantos testemunhos de exploração do trabalho de tantos jovens (em Portugal é até aos 40anos). Como nasce a consciência social e política sob o efeito directo da exploração pelo trabalho em jovens que parecem ter sempre vivido na ilusão que tudo ia ser diferente.

Um rapaz simpático (que não conheço de lado nenhum) empunha um cartaz cheio de verdades. Tem, obviamente, formação superior (não deixem que um eventual erro de ortografia vos distraia)

A mim, o FERVE tirou-me logo da fossa. E esfregou-me na cara um país que não entra nos ilusionismos do telejornal à hora do jantar. Para o pessoal do FERVE vai aquele abraço e um linque aqui à direita.

Publicado por [Renegade] às 06:41 PM | Comentários (10)

outubro 02, 2007

O partido mais português de Portugal

Diz que ganhou um tipo da margem sul.

Publicado por [Rick Dangerous] às 05:20 PM | Comentários (4)

A sorte porca

E eu serei a gorda
tu serás a magra serei a sorte
e tu a cabra cega
e eu quem peca
mas serás quem paga
quem pesca um peixe fora d'água
Serás a Eva e eu serei a parra
sereia gorda e tu a fava
serei a erva e tu agarra
a cobra dobra fora d'água

Eu serei a gorda tu serás a magra
a sorte porca e tu a paga
serei quem peca mas serás quem paga
a vaca louca e magra

Onde a nave voga não havia vaga
farás de foca e eu de faca
estarás de lycra e eu de tanga
peixe fora d'água

GNR, Las Vagas, Sob Escuta, 1994

Publicado por [Rick Dangerous] às 05:14 PM | Comentários (1)

Radical militar progressista

Publicado por [Rick Dangerous] às 04:56 PM | Comentários (3)

Moderado pequeno-burguês

Publicado por [Rick Dangerous] às 04:52 PM | Comentários (4)

Radical pequno-burguês

Publicado por [Saboteur] às 10:36 AM | Comentários (4)

outubro 01, 2007

Pequeno momento de geneologia e heráldica: Da Vala Comum a São Domingos de Benfica ou O Bisavô de Saboteur

Preso a 19 de Dezembro de 1936, era acusado de ser maçon, de difundir na sua cátedra ideias perigosas e de ter sido governador civil de Badajoz no biénio de Azaña. À segunda acusação respondeu: “Ideas peligrosas es término inconcreto: quiero darle la interpretación más aplicable al caso: 'ideas con las que los que aprenden peligran, sufren
daño'; estoy seguro de que no ha sido así; he cuidado de en nada perjudicar o poner en
peligro a quienes me eran confiados (...)”. Condenado e expulso da faculdade, esteve preso até 20 de Julho de 1937, dia em que um grupo de falangistas o fuzilou em Valdemorillo e o enterrou, juntamente com outros 19 republicanos, numa vala comum.

Publicado por [Joystick] às 10:49 PM | Comentários (3)

Cinema Negro

"leve levemente como quem chama por mim"
Fundido na bruma no nevoeiro sem fim
Uma ideia brilhante cintila no escuro
Um odor a tensão do medo puro

Salto o muro, cuidado com o cão
Vejo onde ponho o pé, iço-me a mão
Encosto ao vidro um anel de brilhantes
É de fancaria a fingir diamantes
Salto a janela com muita atenção
Ponho-me à escuta, bate-me o coração

Sabem que me escondo na Bellevue
Ninguém comparece ao meu rendez-vous

Porta atrás porta pelo corredor
O foco de luz no ultimo estertor

No espelho um esgar, um sorriso cruel
Atrás da ultima porta a cama de dossel
Salto para cima experimento o colchão
Onde era sangue é só solidão

Os meus amigos enterrados no jardim
E agora mais ninguém confia em mim
Era só para brincar ao cinema negro
Os corpos no lago eram de gente no desemprego

GNR, Bellevue, Psicopátria, 1986


Publicado por [Rick Dangerous] às 06:07 PM | Comentários (2)

Espectros

SEMINÁRIO COMUNISMOS: História, Poética, Política e Teoria.
Organização: Centro de Estudos de História Contemporânea Portuguesa do ISCTE
Coordenação: João Arsénio Nunes e José Neves
Apoios: ISCTE | Edições 70 | Le Monde Diplomatique - Edição Portuguesa | Fundação para a Ciência e a Tecnologia

Sessões às 17h30 | ISCTE | Auditório B203 (Edifício II)
PROGRAMA:

4 OUT: A autonomia operária em Itália, de Mario Tronti a Toni Negri. Com Ricardo Noronha.

11 OUT: Comunismo e Ciência. Com Frederico Ágoas, Gisela da Conceição e Maria Carlos Radich.

18 OUT: Teatro e cinema. Com passagem do filme de Slatan Dudow/B. Brecht, Barrigas geladas ou A quem pertence o mundo, 71’, 1933. Com Maria Helena Serôdio e Vera San Payo de Lemos.

25 OUT: Entre Movimento Negro e Marxismo: Genealogia dos Movimentos de Libertação da África Lusófona. Com António Tomás. [Excepcionalmente esta sessão é no Auditório Silva Leal do ISCTE].

30 OUT: Marx e o Projecto Comunista. Com José Barata Moura.

8 NOV: Da URSS à Rússia (I). Com Carlos Taibo.

15 NOV: Da URSS à Rússia (II). Com Luís Carapinha.

22 NOV: A Rússia Soviética entre o Ocidente e o Oriente: Geopolítica para uma Ambivalência Identitária. Com Mário Machaqueiro.

29 NOV: Comunismo e Democracia. Debate sobre o livro de Luciano Canfora, A democracia, história de uma ideologia (Lisboa, Edições 70, 2007). Com Luciano Canfora, Filipe do Carmo e João Arsénio Nunes.

6 DEZ: Lenine e Cinema: Eisenstein e Vertov. Com passagem do filme de Dziga Vertov, Três Canções sobre Lenine, 62’, 1934. Com Fernando Guerreiro.

13 DEZ: História do Futebol na URSS. Com James Riordan.

Publicado por [Rick Dangerous] às 04:58 PM | Comentários (6)

Perguntar não ofende

Sempre é verdade que Cavaco vai abandonar a Presidência para gerir a gasolineira do pai?

Publicado por [Saboteur] às 04:39 PM | Comentários (2)