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setembro 03, 2007

Poesia de rua #8 ou Fantasias sobre que são os 'tagers' ou ainda A vigilância atenta a todos os eventuais desvios à linha justa

PICT0009.JPG

No outro dia conversava com o João Rodrigues, dos Ladrões de Bicicletas, e com uma amiga minha que votou pela primeira vez, nestas intercalares, no Bloco de Esquerda (votava CDU), sobre a proliferação de Tags e outras pichagens na zona histórica de Lisboa. O João argumentava mesmo que a esquerda não devia deixar a bandeira da limpeza das paredes da cidade para a direita e que Sá Fernandes, como Vereador do Ambiente, poderia ter alguma proposta sobre o assunto.

Curiosamente, um assunto que parecia tão consensual entre uma malta de esquerda, já era polémico para outra malta de esquerda: 20 minutos depois, uma camarada minha, com muitas responsabilidades, argumentava com veemência que a Câmara devia era disponibilizar espaços onde os jovens pudessem exercer a sua criatividade à vontade.

Publicado por [Saboteur] às setembro 3, 2007 11:22 PM

Comentários

"O João argumentava mesmo que a esquerda não devia deixar a bandeira da limpeza das paredes da cidade para a direita e que Sá Fernandes, como Vereador do Ambiente, poderia ter alguma proposta sobre o assunto."

"uma camarada minha, com muitas responsabilidades, argumentava com veemência que a Câmara devia era disponibilizar espaços onde os jovens pudessem exercer a sua criatividade à vontade."

Acho verdadeiramente assustadoras qualquer uma das opiniões.

Publicado por [fafafa] às setembro 4, 2007 01:11 AM

Mas e' consistente com o resto que andam a publicar. Nas manifestacoes ha' que ser um Gandhi, nas pinturas, o melhor e' mesmo pintar as paredes do quarto. Jogar o jogo da poli'tica dos outros, mas com uma consciencia social. Vao longe, vao...

Publicado por [P. Lumumba] às setembro 4, 2007 09:17 AM

Lumumba: Para ti, escolho a 3ª opção de título.

Tens um edifício do séc. xviii todo restaurado, acabadinho de pintar. As pessoas passam e - não se sabe bem porquê - acham bonito, acham aquele bairro bonito e têm pena de haver tantos mamarrachos e tão poucos edifícios assim restaurados.

Tens um puto que passa com uma lata de spray (o qual gostas de imaginar que seja um jovem dos suburbios sem prespectivas de vida, à procura da de uma forma de se afirmar nesta sociedade totalitária, mas que na volta é só um betinho da Av. EUA, a mostrar aos outros betinhos que é muita taf, que tem o tag dele por toda a cidade, nomeadamente nos edifícios históricos acabadinhos de pintar, onde é mais dificil...). Passa com a lata e deixa a sua marca. "É o meu território!"

Tens no outro dia de manhã as pessoas impressionadas com a forma de como alguém pintou na parede e na pedra (onde é mais difícil de apagar) uma assinatura impreceptível, num prédio que tinha sido acabado de restaurar... Sobretudo os moradores do prédio, que andaram 3 anos a contribuir com mais 20 euros por mês para o fundo do condomínio para fazer a "lavagem de cara" do edifício, estão lixados.

Tens finalmente "os homens da luta", um com uma guitarra e outro com um megafone a gritar:

"Isto sim, é que é revolucionário, pá!" "voçês estão para aí a dizer que o prédio ficava mais bonito se tivesse limpinho, pá, o que realmente voçês querem é calar a voz do povo, pá!"; "quem quer as cidades todas limpinhas é um social-democrata, pá! E só não vou mais longe, pá, porque, realmente, as pessoas em causa fazem um blog, pá, que realmente faz criticas ao neoliberalismo..."

Dá-lhe Falácios:

"o centro histórico re-cu-pe-rado, o centro histórico re-cu-pe-rado, o centro histórico re-cu-pe-rado, é da reacção!"

Eu, pessoalmente, acho que a Câmara tem que ter outras prioridade de actuação e de investimento diferentes da dos tags. Mas acho que nesta história acima, quem fica a perder são "os homens da luta" porque não conseguem compreender os justos anseios do povo, porque confundem a luta de classes com tudo o que lhes dá na mona e promovem a falsa mensagem de que um mundo sem exploradores e explorados é um mundo onde paredes dos edifícos estarão todas gatafunhadas.

É por isso que eles só são dois e cheira-me que não vão muito longe...

Publicado por [Saboteur] às setembro 4, 2007 11:00 AM

não entrando pelo que penso sobre o assunto, acho que estas duas posições são perfeitamente ajustáveis.

Publicado por [metrografista] às setembro 4, 2007 11:05 AM

bom,

A fundamentação para achar as duas posições assustadoras não advém de achar que edificios pintados sejam arautos de que o homem deixou de ser lobo do homem, nem por confundir a luta de classes com edificios pintados, mas por as achar às duas extremamente normalizadoras e alienantes.

Não me interessa também glorificar o graffitti enquanto a voz de uma geração sem voz ou algo do género, a grande maioria da arte urbana é extremamente shallow, como muito se diz agora, e estereotipada.

que a função da esquerda no poder seja exercer esse poder e que portanto SF possa achar conveniente fazer alguma coisa em relação aos graffittis também não me parece suprendente e não percebo quem poderá esperar outra coisa dele. Que parte de uma estratégia eleitoral de esquerda passe por ir buscar temas a imaginários alheios também não me dá grande brutueja, a muito pior nos habituaram.

Agora que gente jovem em franca discussão ache que devia ser a esquerda por opção moral a ocupar-se com a degradação de um ideal estétíco identitário lisboeta isso sim já me preocupa bastante. Quiçá seja uma veia anarquista que aqui me põe sob a suspeita de ser da avenida de roma (aliás fui eu que escrevi a pintada da foto, não me recordo se num edificio do séc XVIII restaurado) mas achar que devia haver algum tipo de controle sobre o que as pessoas escrevem na parede, exercido por forças de esquerda em nome de um bem comum, parece-me de um autoritarismo extremamente entediante e conformista, mas enfim se calhar sou eu que sou um "ganda maluco". Achar que a camara devia disponibilizar espaços para essa expressão creio que equivale a esvazia-la de toda a piada que têm, já que estético/artistica cada vez tem menos. Perguntarão mentes mais sensiveis: então a única piada do graffitti é ser proibido? sim é, da mesma maneira que foi a ousadez dos meios dadaistas, surrealistas, cubistas e etc que lhes deu a piada.

mas enfim comprendo que quem conta votos de 4 em 4 anos tenha de considerar os habitantes do edificio restaurado.

Publicado por [remy] às setembro 4, 2007 12:08 PM

Saboteur,

Deste um salto um pouco grande demais. Para ser sincero, nao tenho qualquer respeito pela cultura de graffitis. "tags" e "wall of fame", por mim, podiam ser todos caiados. Nao me identifico com uma cultura hip-hop importada, main-stream e destruida do seu sentido politico, tornada num exibicionismo egocentrico e violento (mesmo quando a violencia nao faz parte da vida do "tagger"). Ate' tive muitas vezes problemas com os graffiters que pintaram por cima de murais de propo'sito.

Nao quero uma cidade toda pintada. Mas acho que ha' certas mensagens (politicas) pertencem nas paredes da cidade. Nao faz sentido criar uma parede (cedida pela Camara) para colocar uma mensagem politica (ate' acho que essa opiniao so' se referia 'a questao dos graffitis). E que recuperem os centros, que pintem por cima. E' a dinamica de qualquer cidade...

Publicado por [P. Lumumba] às setembro 4, 2007 12:16 PM

Remy: Foste tu que pintaste o "Queremos + tragédias" ou a outra que postou o Chuck? (ou nenhum deles e a afirmação foi apenas retórica?)

É que, apesar de tudo existe diferenças entre grafitar um muro ou fazer um stencil, escrever uma frase (mesmo de conteúdo mais abstracto "Os espíritos matavam + ou - 100 pessoas por noite"), ou fazer um tag.

Apesar de tudo existe diferença entre fazê-lo num muro de uma casa abandonada em Entrecampos ou num prédio restaurado da costa do castelo.

Acho piada o mural que pintaram naquelas duas paredes do miradouro de santa catarina, não acho piada aos tags e à bandeira portuguesa pintada na estatua do adamastor, que está no mesmo miradouro.

Não me choca nada o que está na foto do chukie - nomeadamente no sitio em que é - e já me deixa mais chateado o "queremos + trágédias" na costa do castelo e ainda mais os tags em volta...

Mas também é diferente tagar uma parede já toda tagada, ou um edifício acabadinho de pintar.

Não sei se isto é o meu "ideal estétíco identitário lisboeta", mas não deve ser, visto que na verdade sou de Sacavém, e também gosto de ver os centros históricos de Évora, Sevilha, Paris, etc. sem tags e creio que o mesmo pensarão a maioria dos eborenses, sevilhanos e parisienses.

Acho que tem mais a ver com mostrar algum respeito pelos outros cidadãos...

De qualquer forma, como já disse, não acho que apagar os tags ou o seu contrário seja uma política de classe, que nos ponha rumo a uma sociedade nova.

Publicado por [Saboteur] às setembro 4, 2007 12:54 PM

Muito bem Saboteur. Concordo em geral com os teus comentários e reafirmo o que te disse. A preservação da cidade (a construção de um espaço público de qualidade que é parte da ideia de bem comum que julgo ser um valor da esquerda) implica proteger o património do individualismo possessivo de quem julga que pode escrevinhar nas paredes o que lhe apetece apenas porque sim. Acho que isto é apenas uma expressão do problema mais geral do desmazelo, da degradação e da sujidade que cresceram em Lisboa nos últimos anos. Uma das consequências e talvez uma das causas do seu esvaziamento populacional. Combater a especulação imobiliária e promover o retorno ao centro, apoiar o restauro dos edifícios e limpar as ruas e as paredes são linhas de intervenção complementares que têm, e bem, apoio popular à esquerda.

Publicado por [João Rodrigues] às setembro 4, 2007 06:37 PM

200, os espíritos matavam 200 pessoas (e não 100).

Publicado por [Anónimo] às setembro 4, 2007 09:47 PM

1

e

2


Estando longe de ter opinião calcinada sobre este assunto, reparo que este tipo de grafitties políticos proliferam em lisboa, assim com o os tags (uma brincadeira territorial-possessiva burguesa). Por fim há os stencils artísticos (já vi um do doutor house), algo burgas mas geniais em alguns casos.

Sobre a poluição visual urbana há elementos que me preocupam mais que este tipo de pinturas.

Publicado por [Tárique] às setembro 5, 2007 12:02 PM

Concordo com parte do que já foi dito até aqui, mas acho que a câmara devia ter uma atitude mais preventiva no que diz respeito ao centro histórico. No bairro alto faz sentido haver um movimento de street art mais activo, dinâmico, reflexo de uma actividade cultural que se quer forte e activa. Nesses sitios faz sentido coexistirem espaços, paredes que sejam "legais", e que possam de certa maneira amenizar a pintura de paredes de edificios acabadinhos de restaurar. Um pouco de bom senso e formação nas escolas com o intuito de respeitar a arte, porque arquitectura é arte, também não faria mal nenhum. Posso pintar em sitios proibidos, mas não vou pintar as paredes da torre de belém. É uma questão de civismo apenas. Gosto de street art, gosto de stencil, stickers e graffitis, mas não gosto de tags. Não os compreendo. Na minha opinião não são arte, são mijadas para marcar território. Qualquer iniciado as pode fazer. A parede das amoreiras é um bom exemplo daquilo que estou a dizer. Apenas uma parede, que com o tempo se tornou quase legal.

Publicado por [paulo dias] às setembro 18, 2007 07:20 PM

QUE HORROR, CREDO ,ESSE POVO SÓ QUER TRAGEDIA CRÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉEÉÉDO...

BJOS, WEMERSON 100%legal o que é url?

Publicado por [wemerson] às janeiro 30, 2008 11:20 AM

AFAICT you've covered all the bases with this anewsr!

Publicado por [Henny] às maio 25, 2011 09:02 PM

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