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setembro 01, 2007

Idiotas úteis

Ao ver as suas entrevistas percebe-se que Mário Crespo falhou a sua vocação e passou ao lado de uma grande carreira de interrogador policial. Mas apenas com pessoas como Louçã e Gualter, a quem é capaz de perguntar vinte vezes se condenam os acontecimentos de Silves, para logo a seguir concluir que se não condenam então apoiam. Percebe-se a lógica, que Crespo gostaria "cartesiana" mas que todos sabemos ser simplesmente pidesca.
Crespo desfaz-se em disparates e comentários idiotas, tantos que chega a ser constrangedor ver Louçã e Gualter a responder educadamente a quem apenas merecia ser enxovalhado em directo. Quando consegue considerar «extremamente violento» um pontapé que não faz deslocar um centímetro o agricultor que está a atirar para o chão um dos activistas, consegue beber o melhor do telejornalismo Fox e dos canais privados venezuelanos (todos os nove).

Mas estas entrevistas têm não apenas a forma mas também o efeito de um interrogatório. Levam os interrogados a assumir uma posição cada vez mais defensiva e, finalmente, a falar a linguagem do seu interrogador. A equipa da Sic Notícias, sempre no seu melhor, pesquisou os aspectos mais longínquos e os pormenores mais dispersos para construir um suporte não demasiado ridículo de uma acusação. Recorreram às melhores fontes.
E os interrogados lá se vão deixando levar pelo caminho tortuoso deste jornalismo, que se pretende ousado mas que responde sempre à voz do dono. Louçã está dois minutos a evitar utilizar a palavra «condeno» sem ser capaz de dizer a Crespo que compre uma toga e vá para a rua brincar aos juízes. Ambos os entrevistados prosseguem de cedência em cedência até à capitulação final de aceitar que Mário Crespo invoque, sem qualquer pudor, uma Constituição que todos os especialistas admitem existir para não ser cumprida, um estado de direito à sombra do qual se mata e se espanca impunemente e uma liberdade que só existe para quem a pode pagar.
É essa a função destas entrevistas, é essa a função destes entrevistados. Os idiotas úteis e sempre disponíveis para todas as encenações. É isto a esquerda e a sociedade civil, o lugar do respeitinho pelas regras do jogo. É isto o jornalismo, as velhas mentiras circulando por novas antenas. É isto a democracia, o último fragmento de metafísica ao serviço do poder.


Na foto, Gualter Baptista, personagem da Rua Sésamo e eco-terrorista soft

Na foto, activistas do GAIA numa acção de desobediência civil financiada pelo IPJ. Ao fundo, à direita, a silhueta dos dirigentes do Bloco de Esquerda a dar ordens pelo telemóvel

Na foto, Francisco Louçã, vítima de contaminação transgénica

Publicado por [Rick Dangerous] às setembro 1, 2007 08:10 PM

Comentários

O Mário Crespo faz lembrar os inquisidores da caça às bruxas nos EUA. Já sabiam a maior parte dos nomes, mas queriam-no ouvir da parte dos interrogados. A denúncia de vivos ou mortos era o acto de contrição e humilhação a ser feito!

Publicado por [samir.machel] às setembro 2, 2007 01:32 PM

Como no "Testa de Ferro" do Woody Allen

Tenho um post quentinho, a sair hoje ou amanhã...

Publicado por [samir.machel] às setembro 2, 2007 01:34 PM

Quem ainda não tinha percebido, percebeu agora: este blog é muito tendencioso, politicamente falando.

Publicado por [Anti-partidario] às setembro 2, 2007 01:43 PM

O Mário Crespo é um jornalista pasmado com a importância que se atribui.

Pratica o jornalismo de encomenda.

No entanto, fique claro que não concordo com estas acções civicas que só tiram seriedade a coisas muito sérias!

Publicado por [Luis Moreira] às setembro 2, 2007 05:49 PM

A entrevista de Mário Crespo é uma vergonha, mas o artigo de hoje no Expresso é pior.

Metade do artigo é a descrever um violento pontapé na coluna vertebral de um agricultor que o terá deitado ao chão, quando ele tentava levantar-se, etc, etc.

Ora, Mário Crespo mostrou as imagens ao Louçã e a todos nós: Onde está o pontapé que ele descreve com tanto detalhe? O pontapé que se vÊ nas imagens, não tem nada a ver com aquele que mário crespo descreve no seu artigo. Objectividade zero.

Publicado por [Anónimo] às setembro 2, 2007 11:54 PM

Rick: Mas achas que o Louçã deveria se ter recusado a ir à entrevista? Achas mal que ele tendo indo não se tenha rebelado de forma vimente, em directo, contra o jornalista?

Publicado por [saboteur] às setembro 2, 2007 11:59 PM

No caso do Gualter acho que não deveria ter ido, nomeadamente depois de saber que foi lá um líder de um partido da oposição que foi tratado como um vagabundo. Já sabia ao que é que ia. Ia para ser enxovalhado, para ser provocado, para ser utilizado contra o movimento.

Publicado por [saboteur] às setembro 3, 2007 12:08 AM

Mas faz sentido culpar o Mário Crespo? É o Crespo que está a puxar os cordelinhos? Gostaria de saber se é o Crespo que faz o alinhamento ou mesmo o que escolhe o estilo. Não me parece que tenha essa liberdade, nem é isso que interpreto do último parágrafo do post.

PS: anti-partidário: duuuhhh, não és muito rápido pois não?

Publicado por [vasco carvalho] às setembro 3, 2007 06:03 AM

Ambos deveriam ter aceite o convite, mas ambos deveriam ter fugido do formato. Nos primeiros 5 minutos iniciais, qualquer um poderia perceber que aquilo nao se tratava de uma entrevista, mas de um debate num so' sentido. Num debate ningue'm tem a vantagem de jogar em casa (teoricamente) e ha' um moderador, numa entrevista o entrevistador tem um poder enorme (no caso do Ma'rio Crespo, ate' os superpoderes de convocar imagens e falar com a omni-potente regie).

Ora, nesta situacao, o que o entrevistado tem a fazer e' de deixar de jogar limpo e confrontar a farsa que se esta' a desenvolver. Aceitar o debate que esta' 'a sua frente e passar 'a ofensiva, obrigar o entrevistador a mostrar a sua afiliacao e debater as suas ideias.

A outra questao sera' se o Gualter teria capacidade para tal. No Louca nao duvido que teria, mas sendo o Bloco tao parlamentar, tao aprumado, nao se poderia dar ao luxo de tal coisa.

Publicado por [P. Lumumba] às setembro 3, 2007 08:48 AM

Achar que os jornalistas nunca são os culpados de nada, que a culpa da linha editorial é sempre dos malvados dos patrões dos media, é um erro típico da esquerda que leva demasiado a sério as suas noções basicas de marxismo.

Claro que em qualquer profissão a liberdade do trabalhador está condicionada, mas também é obvio que há (dependendo das funções) sempre alguma margem, alguma autonomia. Qualquer pessoa que já tenha trabalhado na vida, sabe isso.

Um jornalista como Mário Crespo, efectivo na empresa, com um prestigio e uma posição já consolidada, não é propriamente um pau-mandado do Balsemão.

Publicado por [Anónimo] às setembro 3, 2007 12:10 PM

aquele ataque no sul, foi uma vergonha.

tentem fazer isso no norte.

Publicado por [rei dolce] às setembro 4, 2007 10:07 AM

Só hoje consegui ver as entrevistas na totalidade (só tinha conseguido ver os minutos iniciais da do Louçã). O Mário Crespo é mesmo pidesco e o pior são mesmo as insinuações feitas no final da entrevista com o Gualter.

Honestamente, não me pareceu que o Gualter se saisse assim tão mal. Por exemplo, o Louçã pareceu-me bem mais entalado, algo nada habitual mesmo. O que salta mesmo da entrevista é um entrevistador que não entrevista e se arma em juíz...

Publicado por [samir.machel] às setembro 4, 2007 02:12 PM

Concordo com Samir

Publicado por [saboteur] às setembro 4, 2007 03:36 PM

Carta aberta de Miguel Portas a Mário Crespo:

http://www.miguelportas.net/blog/?p=138#comments

Publicado por [Anónimo] às setembro 4, 2007 09:27 PM

Alguns gameleiros, estão aqui de ....Serviço

Publicado por [replica] às setembro 2, 2010 12:31 AM

It's about time smoeone wrote about this.

Publicado por [Deliverance] às agosto 19, 2011 09:55 AM

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