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agosto 17, 2006

É lógico!

Hoje fui ao Blog do nosso amigo ultra-liberal com uma secreta (e maldosa) esperança de encontrar um artiguito sobre esse grande amigo de Israel e grande liberal que foi Marcelo Caetano (perdão: Marcello).

É certo que o nosso amigo não me deu esse prazer, mas acabei por descobrir outra coisa que também me interessava:

A certa altura, dadas as dificuldades de comunicação entre nós, perguntei-lhe se a formação dele era Economia. Respondeu-me com mais idiotices do género tu-queres-é-a-Coreia-do-Norte.

Percebi agora que é um estudante de física.

É este o grande problema da Ciência Económica: Os físicos e os matemáticos, com a ajuda (porque servindo os interesses) da elite dirigente do capitalismo, apoderaram-se da ciência económica e estão fortemente barricados lá dentro.

Na altura já tinha referido a linha editorial do Dia D (suplemento de Economia do Público), como um exemplo acabado de como estas coisas se passam. Mas posso contar-vos o que disse João César das Neves na minha primeira aula na faculdade: Imaginem o anfiteatro cheio, todos impressionados com o peso da Academia, e ele a explicar-nos que os agentes são racionais, que os mercados equilibram em concorrência perfeita, etc, etc. e depois remata: >«Estes são os postulados básicos da Economia. Quem não os compreender claramente ou aceitar ainda vai a tempo de mudar de licenciatura. É o que vos aconselho. Nem que seja para Gestão».

Para alguém treinado a fazer raciocínios lógicos e abstractos na sala de aula, toda a economia neoclássica é fácil e cristalina: Se um empresário contrata um trabalhador por 100, a lógica diz que contratará 2 por 50, reduzindo o desemprego para metade.

O problema desta escola é (e tem sido sempre), a dura realidade: Se o empresário só precisa de 1 trabalhador não vai contratar outro; ou o outro, para estar a trabalhar por 50, prefere assaltar a loja; ou os dois, depois de contratados, dizem que não trabalham mais enquanto não lhes subirem os salários; etc, etc...

Se toda esta parte “mais subjectiva” da Economia não é nada fácil para o nosso amigo físico, e a outra parece-lhe tão óbvia, naturalmente, ele agarra-se à outra com unhas e dentes… até porque é assim que é convidado para escrever sobre economia no Público.


Publicado por [Saboteur] às agosto 17, 2006 11:04 AM

Comentários

A questão do César das Neves é que ele dizia a mesma coisa aos de Gestão. Aliás, essas aulas eram conjuntas, não eram?

Publicado por [Helena Romao] às agosto 17, 2006 04:13 PM

Já ouviram falar de uma universidade ali no Saldanha chamada ISCAL?...

Posso dizer que tudo o que está escrito neste post seria um paraíso nesse prédio maldito, herdeiro infinito do salazarismo no seu estado mais puro...

Ex: ..."a minha greve é trabalhar mais..." "...o Salazar só criou a PIDE porque foi alvo de vários atentados..." "...se és de esquerda és obviamente muito burro e nunca aprendeste nem vais aprender nada aqui e portanto podias dar a tua vaga a outro..." "...se aqui alguem está a pensar em ir pra função publica mais vale desocupar a cadeira..." etc,etc,etc....durante vários anos alongados pela minha impossibilidade de esconder opiniões (a opção final foi não ir às aulas esperando que alguns ainda nao me conhecessem...foi uma ingenuidade claro...)

De facto reconheço que a Fac de Direito, a Católica e o ISEG são tb bons exemplos de empregos de refugios para gente desta laia, no entanto, penso que devido à visibilidade reduzida daquele antro de contabilistas, lá a tortura ocorre com mais à vontade...

Ali onde o sol nunca brilha (a sala dos alunos é a cave!), o fascismo nunca morre, mesmo uma pessoa de direita que não seja conservadora está bem fodida....

...não temos complacência nem esperamos nenhuma vossa...mas quando a nossa hora chegar, não adocicaremos a violência...

E já faltou mais, já faltou bem mais...

Publicado por [Gato Branco] às agosto 17, 2006 04:59 PM

Juntas? Tás maluca, ó merceeira?

Publicado por [Anónimo] às agosto 17, 2006 08:16 PM

"Para alguém treinado a fazer raciocínios lógicos e abstractos na sala de aula, toda a economia neoclássica é fácil e cristalina: Se um empresário contrata um trabalhador por 100, a lógica diz que contratará 2 por 50, reduzindo o desemprego para metade."

"O problema desta escola é (e tem sido sempre), a dura realidade: Se o empresário só precisa de 1 trabalhador não vai contratar outro"

Bem, nem a economia neo-clássica diz que "Se um empresário contrata um trabalhador por 100, contratará 2 por 50" - apenas diz que contratará mais do que 1 (talvez 2, talvez 200, talvez 1.1...)

Mas acho que a vossa critica conjunta aos blogues liberais e à economia neo-clássica falha um bocado o alvo: grande parte dos bloggers liberais não são "neo-clássicos" - são "austriacos", uma escola que acusa os neo-clássicos, a Escola de Chicago, Adam Smith etc. de serem uma espécie de "socialistas encapotados"

Publicado por [Miguel Madeira] às agosto 21, 2006 04:52 PM

Realmente, o rótulo de neoclássico é demasiado vago, onde cabe todo o tipo de malta, desde o Shumpeter a Keynes. Mas não lhes vou chamar “austríaco” e muito menos liberal ou anarquista… Talvez o melhor seja em chamarmos neoliberal, e pronto. Alguma sugestão?

De qualquer forma, para não errarmos mesmo o alvo, convém fazer o ponto de situação do debate e sublinhar os pontos que a mim me interessam:

1. Comecei por fazer uma chamada de atenção para a linha editorial do Dia D do público (cruzamento entre um The Economist, o Correio da Manhã e a Nova Gente: veja-se o ultimo artigo comentado sobre a publicação das listas dos devedores), uma revista que quanto a mim está a ser um instrumento importante (todo o Público, talvez), nas mãos da direita, de luta ideológica. Chamei a atenção, nomeadamente, para a selecção original de articulistas de opinião: jovens neoliberais (pronto), escolhidinhos a dedo na blogosfera.

2. O articulista respondeu, desafiando para comentarmos de facto o artigo dele e atacando-nos com a Coreia do Norte.

3. Respondi, não respondendo: O raciocínio económico do artigo dele é o dos modelos formais, composto por variáveis endógenas com um comportamento determinístico – tipo leis da física – que nos põe longe da terra, num ambiente abstracto, onde, naturalmente, a pobreza só pode ser um mito (como se declarava logo no título do artigo). O que interessa é descer à terra: Pensar economia observando a história, estudar empiricamente os efeitos de determinada medida, analisar os problemas concretos, estando atento às questões humanas, ecológicas, sociológicas, psicológicas que se intercruzam com determinado problema económico ou financeiro, etc.

4. Do outro lado não houve o mínimo de sensibilidade para estes argumentos. Foi relembrado que “A economia é uma ciência”, como se tudo o que não fosse demonstrável pelos seu modelos a duas dimensões fosse da área do ocultismo. Não há diálogo possível.

5. O desafio é voltar a pôr a discussão política na ordem do dia, pondo o máximo de pessoas a ter o máximo de debate sobre a economia e tudo o que tenha a ver com as suas vidas.

Publicado por [Saboteur] às agosto 22, 2006 11:16 AM

Wow, your post makes mine look fleebe. More power to you!

Publicado por [Emmy] às agosto 19, 2011 09:30 AM

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Publicado por [usbzmc] às agosto 20, 2011 08:52 AM

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