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agosto 13, 2006

Benjamin e outras observações

O debate entre Vasco Pulido Valente, São José Almeida e Vítor Dias, acerca da caracterização do regime salazarista, tem tudo para interessar.
Ilumina por um lado os usos políticos contemporâneos da história e por outro as pretensões de autoridade com que certas luminárias da academia entram em debates deste género.
Personagens como Filomena Mónica, Fátima Bonifácio, Pulido Valente, Rui Ramos e Pacheco Pereira não entram em debates destes sem uma agenda clara. Habituados a ganhar ao primeiro assalto a adversários frágeis, passeiam pela imprensa a sua arrogância. O que neles surpreende é, evidentemente, a fé.
Eles acreditam num tempo homogéneo e vazio, numa longa marcha até ao presente, que não poderia deixar de ser aquilo que é. Eles acreditam que as possibilidades e escolhas que se nos colocam, a experiência histórica que vivemos, o mundo que habitamos, os discursos que produzem, são os únicos que podem ser levados a sério.
O que neles estupefaz é a superficialidade com que encaram o tempo, essa dimensão única que nos atravessa e que não deixa nada como dantes, que já surpreendeu na cama muitos planos sábia e cautelosamente esboçados, jamais se deixa aprisionar na gaveta e torna insustentável a pretensão de julgar tudo pela lente baça do conservadorismo.

Recapitulando, São José Almeida, num artigo que defendia a musealização da antiga sede da PIDE, acusava de branqueamento histórico os que recusavam ao Salazarismo o epípeto de "fascista".
Respondeu-lhe Vasco Pulido Valente do alto da cátedra, chamando ignorantes a todos os que confundiam as duas coisas e enumerando as diferenças entre o Estado Novo e o franquismo por um lado e o nacional-socialismo alemão e o fascismo italiano pelo outro. Respondeu a este Vítor Dias, no único artigo que não cheguei a ler, sublinhando o carácter fascista do Salazarismo.

Respondeu-lhe novamente Vasco Pulido Valente, acusando o PCP de utilizar o termo de forma instrumental contra todos os que se lhe opõem e assinalando a ignorância dos que continuam a insistir nele. E rematou Vítor Dias (que aproveitou para nos dizer que há muitas coisas e pessoas a que o PCP não chama «fascista»...), arrumando Vasco Pulido Valente numa corrente historiográfica e colocando-se a si próprio noutra, o que teve o mérito de assinalar que não existe uma última e definitiva palavra a dizer sobre o assunto, como pretendia Pulido Valente no início da conversa.

Tanto quanto sei, e porque não leio o Público diariamente, a coisa ficou por aqui, o que me atrevo a considerar um empate técnico, embora o Vítor Dias (que segundo o Público é um «consultor») tenha ganho clara vantagem no último assalto.

Nada disto é novo e o debate repete-se sempre que as comemorações do 25 de Abril se arredondam, mas o que me interessa é a ideia de história que está por trás dos argumentos utilizados.
Para Pulido Valente cada regime tem as suas características próprias, que o tornam inconfundível em relação aos outros.
Para Vítor Dias eles estabelecem relações de afinidade e de cumplicidade, formando famílias, que aliás se reconhecem enquanto tal no momento das alianças geo-políticas. Escusado será dizer que nos anos 30 ninguém à esquerda (e portanto não só os estalinistas, como pretende Pulido Valente) se escusava a utilizar o termo «fascismo» para caracterizar as ditaduras que resultavam da crise da ordem liberal, precisamente porque estas resultavam de problemas e situações históricas semelhantes.

Voltando à ideia de história, o que me interessa em ambos os lados desta polémica é a caracterização destes regimes, há distância de 60 ou 30 anos, através da enumeração de algumas características sumárias e fragmentárias, como se nada mais tivesse sobrevivido ao tempo. Ambos exploram a história a favor de posições políticas sustentadas em 2006, o que faz evidentemente parte da posição do historiador, mas fazem-no empobrecendo, mesmo que inadvertidamente, a densidade e complexidade do que está em jogo neste debate.

Ambos tacteiam no interior dessa complexidade, para selecionar dentro dela o que podem utilizar em defesa das suas posições, mas ambos se recusam a encará-la em si mesma, descendo e regressando a cada momento histórico preciso, descodificando os significados do que se fez e disse e ouviu, assinalando as encruzilhadas, as lutas e os seus resultados, a acumulação de experiências e a combinação de contradições, as marcas deixadas nos corpos pelo trabalho e pelo ócio e pela alimentação e pela fome e pela disciplina, aquilo que os olhos viram e que as cabeças fixaram para nunca mais esquecer.

O debate sobre fascismo e antifascismo tem o formato dos jornais por causa da pobreza da academia. Alguns milhares de caracteres convidam às posições mais confortáveis, em que todos sabem de antemão aquilo que pensa o adversário, mas não nos aproximam do significado histórico dos fascismos. Para isso seria necessário considerar o tempo que passou desde o ocaso das suas primeiras experiências históricas não como uma distância segura, mas como uma distância capaz de revelar a força do seu impacto sobre o presente, ou por outras palavras, a sua força de ressonância, a sua capacidade de se projectar no aqui e agora.
Semelhante pretensão torna a história um jogo perigoso, capaz de por em causa o presente, em vez de fazer dele a tribuna da qual se julga o passado.

Olhar o presente à luz da história poria em causa as posições dos habituais protagonistas deste tipo de debates, que gostam de tratar o passado como um animal empalhado, que não morde. Para eles o «fascismo» ou o «totalitarismo» foram uma grande noite escura que se tornou num dia interminável.
A hipótese de que o fascismo seja uma tendência histórica capaz de se projectar uma e outra vez em diferentes períodos e em determinadas situações não cabe em semelhante concepção do tempo. A hipótese de que o fascismo esteja entre nós e dentro de nós, impresso nos dispositivos de poder que as democracias tão bem aprenderam e que os democratas tão passivamente toleram, é inimaginável para quem partilha a fé no progresso e na razão.
Olhar o presente à luz da história é um desafio que só se coloca a quem não teme atribuir protagonismo e importância às "coisas brutas e materiais sem as quais nada existe de espiritual e refinado", a quem não hesita em ver no tempo em que vivemos as coisas belas e terríveis dos tempos que nos esperam.

Publicado por [Rick Dangerous] às agosto 13, 2006 06:38 PM

Comentários

O revisionismo contiua por aí.Havendo quem queira simplificar a questão, acusando de tendência teleológica toda e qualquer abordagem marxista ou marxizante da História, no sentido de escrever uma história que se esgote na abordagem cronistica das tropelias das elites. Essa brigada do reumático das historiografias revisionista e neo-positivista não esconde o apetite pela supremacia intelectual mesmo que à custa do empobrecimento ou do silenciar do debate teórico. Convenhamos que a teoria já não interessa a ninguém, os senhores historiadores da moda entretêm-se a discorrer sobre banalidades ou a tentar demonstrar que toda a historiografia marxista estava INEVITAVELMENTE equivocada. Teleologia?Só fica mal aos outros.

Publicado por [Tiago] às agosto 14, 2006 04:36 PM

"O debate sobre fascismo e antifascismo tem o formato dos jornais por causa da pobreza da academia."

Provavelmente isto é um problema transversal a um país periférico, pobre, metido no colete de forças de elites conservadoras. Tu que andaste a discutir centro e periferia nas ciencias sociais e trabalhas para a academia sabelo-as muito melhor que eu.

Publicado por [renegade] às agosto 14, 2006 05:54 PM

"Escusado será dizer que nos anos 30 ninguém à esquerda (e portanto não só os estalinistas, como pretende Pulido Valente) se escusava a utilizar o termo «fascismo» para caracterizar as ditaduras que resultavam da crise da ordem liberal"

Trotsky, em "O que é o fascismo?" (1931):

"A antiga ditadura de Primo de Rivera, é considerada pelo Komintern como sendo fascista. Correcta ou incorrectamente? Cremos que incorrectamente"

"O movimento fascista italiano era um movimento espontaneo e massivo, com novos dirigentes saidos das massas"

"Primo de Rivera era um aristocrata, que ocupava um alto posto militar e burocrático e era governador da Catalunha. Ele realizou o seu golpe com a ajuda de forças estatais e militares. As formas de ditadura existentes em Espanha e na Itália são totalmente diferentes. É necessário destrinçá-las uma da outra. Mussolini teve dificuldade em reconciliar muitas das velhas instituições militares com a mílicia fascista, enquanto esse problema não se pôs a Primo de Rivera"

Pelos vistos, temos pelo menos alguém na esquerda dos anos 30 que não aplicava o termo "fascista" a todas as ditaduras (não faço ideia de qual a opinião de Trotsky sobre se Salazar era fascista ou não, mas penso que as mesmas razões dadas para não considerar Primo de Rivera "fascista" poderiam aplicar-se a Salazar)

Publicado por [Miguel Madeira] às agosto 15, 2006 10:18 PM

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