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maio 06, 2005

Uma revolução liberal?

Saiu a revista da direita atlantista e não faltam motivos para nos regojizarmos. Está on-line e oferece-nos logo à entrada um conjunto de textos ambiciosos, desejosos de disputar "à esquerda intelectual e bem-pensante" o seu domínio avassalador sobre as nossas pobres cabeças simples.
Dos artigos disponíveis destaca-se o de João Marques de Almeida acerca da revolução portuguesa. O objectivo aparece claro. Olhar a história do século XX a partir de uma perspectiva liberal. Resgatar os seus momentos centrais da apropriação que deles terá feito a tradição de esquerda e repropôr a partir do pensamento liberal uma interpretação alternativa do que aconteceu.
Note-se que o autor pretexta a seu favor uma necessária e inexistente simetria: fariam falta outras opiniões numa sociedade pluralista (porque liberal) como a que se quer, acerca de momentos que perduraram longamente no real e no imaginário português. Na sua, todos os partidos do arco democrático-liberal (do PS para a direita) teriam contribuído à sua maneira na luta contra a ameaça totalitária e terceiro-mundista, encontrando-se 30 anos depois para relembrar como era terrível o inimigo e quão difícil foi abatê-lo.
Mas a ideia não é, nem podia ser, ficar-se pelo 25 de abril. Trata-se de celebrar a data evidentemente, mas situando-a num longo contínuum que desdramatiza os acontecimentos fundadores da II República e os respectivos ícones ainda actuantes (Soares, Freitas...) para narrar uma longa marcha.
Nesta história, o "liberalismo" nacional é o sujeito político e histórico fundamental cujo vigor preenche os diversos actores ao longo dos tempos. Desde o século XIX ao século XX, essa corrente por vezes subterrânea (como durante o estado novo, presume-se) mas sempre que necessário poderosa (como durante o prec contra o copcon, ainda no campo das presunções), teria triunfado ao fim de muitas lutas e não poucas tormentas, resultando no presente em que vivemos.

Note-se que o texto é ambicioso, mas também calculista. Não lamenta a revolução, mas antes a comenta a seu favor. E para o fazer, para tornar a crise revolucionária de 1974-75 um momento mais do liberalismo português, não pode deixar de a descrever de passagem, sem se aventurar longamente nos domínios mais profundos do que se disse e se fez há 30 anos atrás. Essa é a sua insustentável leveza e o limíte de semelhante aproximação. Semelhantes exercícios teleológicos e historicistas não podem deixar de simplificar tudo no sentido de apresentar aos seus leitores uma visão polida e clara, precisamente porque superficial, do que se passa e se passou. Luís Trindade escreveu o ano passado um texto interessante acerca do assunto que merece a pena ser lido e que não vou repetir, mas do qual vale a pena partir para este debate.
E fico-me por algumas questões fundamentais.
Pode-se falar seriamente de uma revolução liberal que, mesmo no seu epílogo de novembro, se afirma incontestavelmente socialista ou socializante ? Que no momento simbólico fundamental de consolidação das instituições que com tanta dificuldade haviam resistido ao embate revolucionário - o da aprovação da constituição por uma câmara de deputados resultante do primeiro sufrágio verdadeiramente universal da história portuguesa-, nele consagra a propriedade colectiva irreversível de sectores tão centrais numa economia liberal como era em 1976 toda a banca? Que colocando as terras à mercê dos camponeses e a propriedade no fio da navalha, vê nascer milhares de experiências autogestionárias colectivistas em vez da divisão fundiária e da constituição de pequenos proprietários de que sempre nos falou o imaginário liberal oitocentista? Que na aguda luta entre totalitarismo esquerdista e "liberalismo nacional" coloca no campo deste último um partido como o MRPP e outro como o PC-ML?
A lista de questões deste género poderia ir até ao infinito e ser sempre pertinente. A revolução não se entrega tão facilmente ao primeiro que lhe canta ao ouvido. Foi muito mais do que qualquer uma das versões oficiais que disputam a legitimidade dela emanada e merece muito mais do que essa disputa.
De resto a visão luminosa da herança liberal oitocentista é amplamente desmentida por todos os estudos que conhecemos. Não houve sufrágio universal em portugal até ao último quartel do século XX. O analfabetismo não é comparável ao de nenhum outro país da europa ocidental. Não há um espaço público, ou uma inteligentsia ou elites económicas comparáveis a Espanha, só para ser simpático. Não há qualquer direito social, incluindo o direito à greve. O ensino continua nas mãos da igreja. As conferências do casino foram proibidas por incitarem ao desrespeito pela religião e pelo bem público.
Fora do castelo de cartas metafísico que constitui esta visão da história, não se vê mesmo nada bem o que tem a ordem liberal em que vivemos a dever ao "liberalismo" nacional. Aos milhares de greves, manifestações, poemas e panfletos, funcionários de bicicleta, camponesas do couço e operários da cintura industrial de lisboa, aos estudantes contra a guerra colonial e aos capitães que faziam a guerra colonial, a isso podemos atribuir um papel por certo nada secundário na configuração do século que agora abandonámos. Algo de documentável e memorável, feito de imagens, sons, textos e vozes, coberto durante muito tempo pelas narrativas regressivas ou simplesmente autoritárias que, como fantasmas, pairam ainda sobre as nossas cabeças nos momentos mais aparentemente inofensivos do nosso quotidiano.
Cobertos agora pelo ruído da ordem liberal, por certo mais respeitável mas nem por isso menos ambiciosa. O passado pode ser uma arma de destruição maciça.

Publicado por [Rick Dangerous] às maio 6, 2005 01:56 AM

Comentários

mt mau

Publicado por [Anónimo] às maio 30, 2005 03:14 PM

mt mau

Publicado por [Anónimo] às maio 30, 2005 03:14 PM

eu acho que não está muito mau mas podia estar melhor...

Publicado por [Adelaide] às junho 1, 2005 02:08 PM

é assim eu não gosto destas senas...este texto esta bue mau mas e k de 0 a 100 eu dou --00 esta uma merda......

Publicado por [Catarina Brandão] às junho 1, 2005 02:10 PM

k merda

Publicado por [jkrf] às junho 6, 2005 06:57 PM