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maio 15, 2005

anti-social

Caro Café:

1- Recebi um panfleto de divulgação do encontro, formato A4 e papel couché, patrocinado no seu interior pelas Câmaras municipais de Setúbal, Sines e Alcácer do Sal, e na última página (toda a última página...), pela secretaria de estado da juventude. Para quê a subtileza?

2- São necessários muitos passes de magia para me meteres ao lado da velha esquerda e te colocares do outro lado da barricada. Não sei se reparaste que todas as tradições históricas a que te referiste estiveram em évora contigo este fim-de-semana. E eu não.

3- As críticas... Há um ano estava em bologna e polemizei via blog com o nuno ramos de almeida. O discurso dele era mais ou menos o teu. Acusava-me de só saber dizer mal e ser sectário, não ser construtivo nem unitário. Eram acusações plenas de sentido. Eu reivindico todas essas qualidades, com destaque para o sectarismo.

4- A representação que os participantes do fórum social fazem de si próprios e o discurso que projectam acerca do fórum não me merecem grande confiança. "Inclusivo", "alternativas às alternativas", "projecto utópico", "negação do presente", "justiça cognitiva global" - os termos do novo léxico movimentista são apenas o último grito da novilíngua dos especialistas da política ou pretendentes a tal.

5- O 1º fórum social português teve como lema "Outro Portugal é possível"...

6- Em tudo isto, nomeadamente no diálogo com o poder político a que grande parte do fórum aspira para poder materializar as "alternativas", existem evidentes hierarquias e distribuições desiguais do poder, acerca das quais não se reflecte e que não se criticam precisamente porque estão escondidas atrás de discursos como o que tu aqui reproduziste. Os movimentos sociais não são realidades puras marginais ao mundo onde vivemos. Eles são alguns dos locais privilegiados onde esse mundo se manifesta e se configura.
É de acordo com a posição assumida face às contradições fundamentais do nosso tempo, com a identificação mesma dessas contradições, que um movimento social se pode tornar um apêndice bem intencionado ou um sujeito político em conflito com a ordem dominante. Parte do problema ou parte da solução.

7- O projectar da alternativa é o último refúgio de todo o discurso e projecto reformistas. Isso não é necesssariamente mau, mas seguramente não é aquilo de que eu desejo fazer parte. A alternativa molda o movimento e impõe o éden futuro ao presente inferno. A última manifestação de uma lógica transcendente que precisamente hierarquiza as acções actuais em função da utopia redentora para a qual é necessário "estar preparado" e "criar as condições".

8- Claro que há no "partido da alternativa"- formado pelos movimentos do fórum social português, o bloco de esquerda, a renovação comunista, a attac, a esquerda do PS e até o PCP - a facção mais apressada. Quer uma alternativa já, um governo de esquerda apoiado pelo movimento social, a conduzir as reformas que alarguem a esfera da democracia a novos e velhos direitos colectivos, redistribuindo melhor a riqueza, garantindo a igualdade de oportunidades e reforçando o estado de direito democrático através da "participação". E depois há os que, como tu, procuram fugir a esse pragamatismo refugiando-se no boaventura sousa santos.

9- Anarquista o caralho. Eu valorizo a troca de experiências tanto com qualquer outra pessoa. Não vejo é por que razão isso me deveria levar a participar num fórum com este formato e estes objectivos (mesmo que tu queiras negar que o fórum tenha objectivos).
Na 4ª feira estive na faculdade de letras a invadir o conselho directivo para impedir o aumento das propinas. Dominada por palavras de ordem mais do que recuadas ("propina só a mínima"), a invasão rapidamente se radicalizou no confronto frontal e na subversão da ordem universitária. De repente, aquelas pessoas perceberam que estavam a infringir regras em conjunto e que isso tornava praticaveis coisas impensáveis, como sentar-se à mesa grande de um órgão de gestão universitária e interromper o seu presidente durante hora e meia até ele desistir de falar.

10- É esse tipo de experiência que eu quero partilhar. Não preciso de outras alternativas que não a alternativa ao tédio, à passividade, à resignação, à alienação e outras misérias habituais. E essas, não estavam reunidas em évora este fim-de-semana.
Talvez seja isso que faz de mim um sectário com má fé. É que eu recuso-me precisamente a abdicar de uma avaliação e hierarquização do conteúdo político de cada movimento social. A repetir que um mundo melhorzinho é possível. Essa nova expressão da velha ideologia da "unidade de todos os portugueses honrados" não me cheira nada bem nem me inspira grande confiança. Deu os resultados que se conhecem no passado. E encaixa como uma luva na continuação do presente estado de coisas.

Publicado por [Rick Dangerous] às maio 15, 2005 04:32 PM

Comentários

1. sobre os patrocínios: cada um vende-se como pode: alguns a sua força de trabalho a multinacionais, outros a câmaras mais ou menos de esquerda;

2. Repito: o que é novo no movimento é o seu todo e não as partes que o compõem.

3. Sem comentários;

4. "os termos do novo léxico movimentista são apenas o último grito da novilíngua dos especialistas da política ou pretendentes a tal": explica-te

5. Tens razão

6. As hierarquias existem, mas reflecte-se sobre elas, tanto que no FSM em Mumbai esse foi o principal tema das conferências e mesas de controvérsia: a falta de democracia interna e a resolução desse problema. Algumas resoluções muito interessantes foram tomadas: vai ao site do FSM (as dificuldades neste campo só existem porque podem participar todos, o mesmo não se passou com a casa ocupada, onde alguns projectos não tiverem lugar porque não seguiam a (tua) linha justa;

7. Nunca ouvi esse discurso no âmbito do FSM; ouvi sim da tua e da minha boca noutros tempos. Aqui apela-se à destruição do presente ao invés da construção de um futuro; aqui tenta-se provar que o neoliberalismo não termina a história, que há outros saberes, outros sentires e outros agires que podem e devem tomar conta do mundo;

8. Não meu querido, eu não me refugio em ninguém, quero é rebentar a hegemonia e isso não se faz nem com um programa de esquerda porreira, nem com umas ganzas na esquina da faculdade, nem com a invasão da reitoria: faz-se com isso tudo ao mesmo tempo, por isso é que é preciso ter a malta que faz isso toda a junta.

9. Qual é a parte do formato que de desagrada?

10. Os principais resultados que se conhecem do passado são a desunião dos que tomam o partido da revolução

Publicado por [Paradise Café] às maio 15, 2005 11:49 PM

1- Não percebo qual é a comparação que estabeleces entre a vodafone e a secretaria de estado da juventude. A vodafone não me patrocina. Compra a minha força de trabalho em troca de um salário sem o qual eu não poderia sobreviver. A secretaria de estado da juventude, quem não a conhece? Sempre pronta a fazer de nós uns jovens à maneira...

2- Nem tudo o que é novo é bom. Não se transforma aquilo que todos conhecemos no "processo do fórum social português" por golpes de retórica.

4- De repente um considerável grupo de pessoas começou a utilizar traduções portuguesas de vocabulários altermundialistas variados e a explicá-los às criancinhas. Frases feitas, jargões,lugares comuns - coisas que soam a novo e que agora é preciso dizer muito, mesmo que se refiram ao mesmo horizonte de sempre. O que diabo quer dizer "justiça cognitiva global"? Esmiuçando bem, não estaremos a falar "do direito dos povos à ciência e à cultura e às suas tradições e blá blá blá"? O "global" altera substancialmente a coisa?
Também é através do discurso e da sua difusão que as hierarquias se constroem no fórum social, evidentemente, mas eu penso que mais do que outra coisa a ansiedade que leva à utilização de uma torrente de palavras que são vazias de significado exprime uma consciêcia mais ou menos difusa que existe um vazio a vários níveis na reflexão elaborada no "processo do fórum social português".

6. Penso que é claro que eu me referi quase sempre apenas ao fórum social português.

7. Meu, uma cena que tem como lema "um outro mundo é possível" tem necessariamente que estar sempre a projectar nesse outro mundo a libertação desejada. Chama-se "resistências e alternativas" o que evidentemente significa que toma como sua a posição de que umas e outras se articulam. Eu não penso que isso seja completamente errado. De facto não estou à espera da CGTP que construa uma alternativa que não aquela que se deixa vislumbrar nas manifestações sindicais que todos conhecemos.
E quando a attac nos convoca para o debate "é possível governar à esquerda?" não posso deixar de esboçar um sorriso. Quando for possível governar à esquerda é que vai ser.

9- Este formato pseudo libertário em que tudo pode coexistir e tudo se equivale. Como te disse, eu recuso-me precisamente a abdicar de uma avaliação e hierarquização do conteúdo político de cada movimento social e político. É desse todo indiferenciado que eu não quero fazer parte. Não quero dizer que não debata criticamente com essas pessoas e movimentos, mas não me interessa participar nesta lógica do grande evento altermundialista com direito a patrocínio.

11- Que revolução?

Publicado por [Rick Dangerous] às maio 16, 2005 02:39 AM