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março 25, 2005

Uma história de xixi e de cultura

Com uma hora de avanço e uma ligeira vontade de fazer xixi, desloquei-me a uma casa de banho do aeroporto Paris-orly para posteriormente não ter que fazer xixi no ar. Enfim, por ter decidido fazer xixi em terra tive que pagar 50 cêntimos à senhora que faz a limpeza das "ditas", controlando ao mesmo tempo as entradas e saídas pela mediação de um cestinho de pagamento tornado obrigatório.
Com um sábado disponível e uma ligeira vontade de usufruir da cultura parisiense, desloquei-me ao Musée du Louvre para posteriormente não me queixar de ser uma inerte cultural. Enfim, por ter decidido ir visitar o Louvre tive que pagar 6 euros (tarifa reduzida) ao Estado Francês que vende a cultura a uma elite, interditando ao mesmo tempo a cultura a um público mais vasto.
Se o direito de fazer xixi é uma necessidade "corporal/privada", o direito à cultura é uma necessidade societal/pública. Enquanto Victor Hugo dizia "Quand vous ouvrez une école, vous fermez une prision", eu diria quando vocês abrem um museu, vocês fecham um centro comercial.
Caramba! Face à gratuidade dos museus nacionais britânicos a partir de 2001 (Viva Blair!echech) a frequência destes últimos progrediu em cerca de 75%. É certo que provavelmente o público continua a ser uma população selectiva, mas as portas estão abertas a políticas de fomentação e integração cultural a públicos menos susceptíveis de "consumir" arte. É certo também que a gratuidade dos museus custa cerca de 101 milhões de euros anuais aos contribuintes britânicos, mas esperemos que os britânicos prefiram passar um simpático dia num museu do que assistir à morte de 101 milhões de civis em variadas guerras pagas por eles!
Defendo, sim, à gratuidade dos museus e das casas de banho…Afinal, foi através de uma pintura presente num museu, que descobri o prazer de fazer coisas tão triviais, tão quotidianas, como fazer xixi.

Publicado por [Shift] às março 25, 2005 12:30 PM

Comentários

Primeiro Orly:
Não qualquer obrigatoriedade de pagar à senhora. Ela está lá, mas se passar com um ar sorridente, disser "Bonjour" e seguir ela não a vai impedir de entrar. Já me aconteceu muitas vezes em Orly não ter moedas e não pagar. Depois, porquê 50 cêntimos?

Quanto aos museus, estou plenamente de acordo. A cultura devia ser gratuita, e o Louvre é especialmente caro. O cinema também é mais caro, e os concertos pagos nem se fala. Mas há excepções: por exemplo, na Radio France, há muitas emissões ao vivo (de qualidade) gratuitas e ciclos de concertos completos gratuitos! E muitíssimo bons!
Eu não percebi ainda bem o que é que os franceses fazem ao fim-de-semana (na verdade, acho que tentam escapar-se o mais possível para segundas casas no campo), mas centros comerciais, em Paris, só conheço o des Halles. Felizmente as cidades aqui não são como em Portugal, com um centro comercial em cada esquina.

Em compensação, já desisti de ir aos Jardins du Luxembourg ao fim-de-semana. É impossível!!!

Publicado por [Helena Romao] às março 25, 2005 04:58 PM

Ai nostalgia!
Ainda bem que o castelo de s. jorge não é um museu. Sobre o Louvre e sobre o xixi estou de acordo com as duas. O Louvre, como outros equipamentos culturais das cidades reguladas pela economia de mercado do turismo, é um produto para o turista comprar. A cultura, o património, etc são subsidiários do lucro, não o inverso. Olha faz como se fez e falsifica um cartão de estudante de história de arte na universidade de freixo espada cinta e passa-lhes a perna.

Publicado por [Renegade] às março 25, 2005 10:40 PM

Mesmo com cartão de estudante, os preços do Louvre são impossíveis! E eu que pensava ir para lá passar as tardes de vez em quando e ver aquilo por secções, com calma...

Mas entretanto lembrei-me de uma boa experiência também em Paris, no Museu da Idade Média, mesmo junto à minha faculdade (no Quartier Latin). À entrada, perguntei se havia preço reduzido para estudantes, a senhora disse que sim, mas quando viu o cartão a dizer Departamento de Música e Musicologia, disse "Mas isso é Arte. Não é Belas Artes, mas é Arte... Olhe, entre directamente, pode ser que o meu colega não lhe peça bilhete. É que para estudantes de Arte é gratuito." E o colega não pediu.

Publicado por [Helena Romao] às março 27, 2005 04:06 AM

Duas pequenas considerações: 1- De facto foi especulação falar de obrigatoriedade de pagamento nas casas de banho de Paris-orly, porém no "tal" momento a intimidação resultante da presença da senhora (com Bonjour ou sem Bonjour) foi sinonimo para mim de obrigatoriedade. Mas enfim, quantas casas de banho publicas por ai fora (não me refiro apenas a França) se tornaram privadas pelo intermediàrio do pagamento?!!?50 cêntimos, porque era a moeda que tinha no bolso.
2- E verdade que Paris centro, exceptuando os halles, não têm os monos dos centros comerciais que em Portugal "nos orgulhamos". Mas se não existem os Monos tão evidentes, existem galerias de lojas muito discretas,um pouco mais chiques. Em todo o caso, não me referia precisamente a Paris.
à bientôt

Publicado por [shift] às março 29, 2005 08:29 PM