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março 28, 2005

A voz dos donos em acção

O Público e o Expresso têm dedicado bastante espaço à questão do referendo ao Tratado Constitucional Europeu ("Constituição" Europeia?, não sei bem qual é a designação jurídica para uma coisa tão estranha) em Maio próximo em França, em especial durante e no rescaldo da cimeira dos Governos na semana passada.

Sem dúvida que o fazem ecoando o que se passa lá fora, sobretudo depois de duas sondagens sucessivas terem dado uma maioria com tendência crescente de votos no Não. Se a França disser Não, a Europa pára (pelo menos por alguns minutos). O tom em que os jornalistas destacados para abordar a questão falam é o do medo que se vai instalando entre as elites dirigentes da União Europeia e dos diversos Estados membros.

É muito engraçado observar a menorização política e até intelectual a que submetem os partidários do voto negativo. A política jornalística passa por adjectivação nacionalista pejorativa (porque os bons são patriotas), pela tentativa de semear a culpa pela ingratidão entre os beneficiários da PAC (no caso os agricultores franceses, maioritariamente de direita), pelo martelar do facto de os defensores do Não estarem fora do pacto republicano e até, tal é a vontade deslegitimadora, do consenso democrático (comunistas, trotskistas, socialistas de esquerda, republicanos de esquerda transviados, frente nacional, ATTAC, sindicatos)!!!, pela tentativa de explicar e demonstrar a irracionalidade do voto negativo em função da situação de crise económica e, sobretudo, social, que a França atravessa. O povo vota Não porque no fundo, no fundo, não passa de uma turba politicamente cega aos altos desígnios das elites, uma espécie de versão pós-moderna da fronda pelo pão e salários envernizada pela democracia burguesa. As massas votam Não, enfim, porque o Jacques Chirac ainda não veio para a rua virar a mesa (factor líder carismático).

O resultado do referendo pode ser incerto, mas uma coisa é certa: eles hão-de arranjar maneiras de o povo votar Sim, neste ou noutro referendo. Em Portugal, é certo e sabido que o povo vai votar Sim sem espinhas, e embora a questão ainda não ocupe os soundbytes do prof. martelo nem de nenhum dos políticos profissionais cá do burgo, os jornalistas da nossa praça já estão em campanha pelo que chamam de "futuro da Europa". A Europa deles, pois claro.

Com o Post Scriptum ainda me falta dizer isto: a Attac-Portugal aparece nos cartazes da Attac francesa apelando ao voto no Não. Fui ao Grão-de-areia e dá a ideia que a coisa encerrou para balanço mas não deixaram aviso. À consideração.

Publicado por [Renegade] às março 28, 2005 11:37 PM

Comentários

e o "povinho" por cá, pelos vistos, nem sequer vai ser enganado com campanhas pelo sim: com autárquicas e aborto(afinal quando?) no mesmo dia, a campanha vai ser sobre tudo, excepto europa.
aliás, tendo em conta a última campanha das europeias (onde a europa foi um tema que primou pela quase absoluta ausência) os prognósticos são bons!

Publicado por [flush] às março 29, 2005 08:34 PM

Tenho a ideia que uma boa parte do voto no Não aqui em França é dado pelo FN de Le Pen. Por outro lado, diz-se (e aqui repito o que ouço nos meios de comunicação) que as pessoas confundem a directiva Bolkenstein com o tratado; ou seja, quem vota Não, é "porque não percebeu nada".

Bem, a Directiva não é o Tratado. Mas se o Tratado entrar em vigor, ninguém pode nunca mais - seria preciso mudar o Tratado Constitucional, o que implica a unanimidade dos 25 - impedir a Comissão (que, atenção, NÃO É ELEITA) de aprovar a Directiva Bolkenstein ou aquilo que lhe aprouver.

Enfim, o meu ânimo não é muito grande porque há uma parte do voto que vem da extrema-direita, do racismo e do puro medo dos estrangeiros. Mas lá que a coisa parece encaminhada para o Não ganhar, isso está!

E agora uma pergunta: se o Não ganhar em França, ainda é necessário fazer referendo em Portugal?

Publicado por [Helena Romao] às março 29, 2005 10:01 PM