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fevereiro 16, 2005

Cinema para as massas

Comecei a escrever isto como comentário ao comentário do post abaixo e acabei por me esticar mais do que devia.

É a propósito do King Kard, o tal cartão que o Paulo Branco introduziu cá em Portugal para dar cinema mais barato à malta e lhe encher os cinemas e os bolsos. Pode ser bom mas há melhor no mesmo estilo. No mesmo estilo era muito melhor, por exemplo, fazer cartões mensais ou semanais sem a ditadura do contrato anual, como qualquer grupo de exibição francês faz. Até o grupo de salas independentes de Paris o faz, isto é, os cinemas marginais organizados para responder ao controlo asfixiante do mercado por parte dos grandes grupos, y compris o grupo MK2 a que o Paulo Branco está associado. Ou ainda, agora que penso nisso, cartões que servissem só para sessões que à partida se sabe que ficarão às moscas, do género "cartão cinema português". Parece-me uma boa ideia. É risível ler as estatísticas de assistência a cinema português em sala como as publicadas recentemente e descobrir filmes com 3 dezenas de espectadores...
Claro que à divulgação destes números tem vindo associado um discurso de condenação do nosso sistema de produção cinematográfica, que vive do subsídio porque não pode viver do mercado, e até se condena, aparentemente com a melhor das intenções, o intelectualismo dos realizadores portugueses, o chamado "cinema para o umbigo" ou coisa que o valha. Por outro lado, parece que não nos chega ter um Oliveira e um César Monteiro. A malta da hipercrítica, como a expressa no artigo do DN de João Miguel Tavares citado no Bde quer mais. Como só vê mediocridade em todo o lado, sente-se no direito de exigir prémios internacionais todos os anos e acaba a medir a qualidade pelo número de espectadores. Mais valia a J.M. Tavares estar calado.
A massificação do cinema está por fazer em Portugal e o King Kard pode servir para ir reformando os hábitos culturais da populaça. Mas continuam a faltar tomates e/ou neurónios a quem define políticas culturais neste país (em período eleitoral um gajo não resiste a usar estes chavões...) para definir sistemas que permitam e encorajem o acesso aos cinemas às grandes massas, ou seja, massificar o cinema. E isto aplica-se ao cinema como ao resto do audiovisual. Ou então podemos dizer, como o cronista J.M. Tavares acrescenta do alto da sua cátedra, que a culpa é dos realizadores e dos encenadores.

Publicado por [Renegade] às fevereiro 16, 2005 12:50 AM