April 13, 2007

SALAZAR e OS GRANDES PORTUGUESES

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A revista “Visão” de 30 de Dezembro de 1999 publicou um interessante resultado de uma iniciativa conjunta “Visão” e SIC sobre a “Eleição de Figuras do Século XX”.O público convidado a colaborar nesta escolha, que teve como base 40 personalidades da vida portuguesa dos últimos 100 anos,nas mais diversas actividades,escolheu como figura marcante no século XX a personalidade de António de Oliveira Salazar.Sete anos de-pois,não causa nenhuma estranheza que, no âmbito do programa da RTP “Os Grandes Portugueses”,Salazar tenha sido escolhido como “o maior português de sempre”.Mesmo que o programa da RTP tenha sido classificado de entretenimento ou tenha mesmo sido desvalorizado,o resultado permite avaliar,à semelhança do que vai acontecer em breve com “as sete maravilhas do Mundo” ou as “as sete maravilhas de Portugal”, o que o “povo” sente em relação a este figura que marcou a história portuguesa do século XX.Existe um enorme fosso entre o Portugal real e o Portugal politico-intectual que o programa “Os Grandes Portugueses” ajudou a confirmar.A avaliar pelo número de comunicados,editoriais e artigos de jornais,alguns portugueses sentiram-se traidos pelos resultados do programa aparentemente inócuo.Achamos,porém,que há que distinguir na figura do politico, odiosa para uns e fascinante para outros,quase 40 anos após a sua morte ,o seu peso histórico na sociedade portuguesa entre as camadas que o conheceram em vida e entre aqueles que nunca o conheceram.É difícil responsabilizar exclusivamente a RTP pelo seu “contributo” para o branqueamento da história,para a sua manipulação ou “memória fabricada”.Cremos que neste caso a RTP viu-se ultrapassada pelos resultados inesperados.É que uma das grandes realizações de Salazar,quer queiramos quer não,ao contrário dos outros políticos ou reis,excepto D.Sebastião,foi ter habil e maquiavelicamente criado e deixado o seu “mito”que ainda alimenta o imaginário do povo português.Provinciano que nunca se adaptou à cidade,continuou sempre ligado ao país profundo que conhecia melhor do que ninguém.Conhecedor da psicologia do povo português,soube manipula-la intelegentemente em benefício do Estado Novo.Católico mas anti-clerical,soube servir-se da Igreja para consolidar a base do seu poder.Por isso,nunca viu com bons olhos a criação de uma universidade privada.Salazar gostava de controlar o que se passava no ensino superior.Mas o Cardeal Cerejeira,seu amigo de Coimbra,convenceu -o a autorizar a criação da Universidade Católica em Lisboa com cursos de Gestão e que nada tinha a ver com assuntos ligados à Igreja. Aos que estranhavam encontrar poucos livros em São Bento dizia “tenho-os na cabeça não preciso de os ter nas estantes”.A volumosa e esclarecedora biografia do professor de Coimbra da autoria de Franco Nogueira é uma referência fundamental para o conhecimento da sua perspicácia política .O problema é que cerca de 40 anos após a morte de Salazar,muitos portugueses imaginam que se pode viver como se Salazar não tivesse existido.Como escreveu algures Eduardo Lourenço “não podemos viver como se Salazar nunca tivesse existido,ou como se fosse um acidente da história.Ele foi a história.O Salazarismo é uma maneira de ser Portugal.Profunda,penumbra,misteriosa.Havia como que uma certa inocência nele.Inocência que nos tocou fundo e por muito tempo”,conclui o autor do “Labirinto da Saudade”.É possível que o pensamento do professor de Coimbra tivesse as suas raízes em José de Maistre e em outros teóricos da contra-revoluçâo francesa para quem a força dos governos estava na moralidade.”Sinto que a minha vocação era ser primeiro-ministro de um rei absoluto”,confessou Salazar certo dia.Entre o absolutismo que sonhava e o ditatorialismo que não conseguiu impor,optou pelo autoritarismo.No fundo, História é o que um país quer lembrar e o que quer esquecer . E o programa “Os Grandes Portugueses” confirmou esta máxima.

Publicado por Jose Alvares às 09:35 AM | Comentários (0)