junho 25, 2003

A sociologia criativa e o humor sociológico de Machado Pais

Em celebração do prémio atribuído a Machado Pais resolvi transcrever um dos pedaços mais engraçados do seu livro "Ganchos, Tachos e Biscates" (e uma das passagens mais originais do mesmo). É um trecho retirado do capítulo intitulado «Jovens Acompanhantes: 'Puta de Vida que me Fez Puta'», e fala da experiência do autor aquando de uma visita a uma casa de prostituição. É um exercício notável de sociologia criativa e de humor sociológico. Vale mesmo a pena ler:

"Os sociólogos raramente se perdem nessas ruelas do aleatório em que se corre o risco de se perder não apenas a identidade como também o futuro. Mas um dia passei pela Columbano Bordalo Pinheiro e procurei a casa. Vi homens impacientes, rondando as proximidades do edifício. Movido pela força da curiosidade decidi entrar. Mas, quando já estava defronte da porta da casa ladeei-a e segui em frente, acelerando o passo. Era a primeira vez, em toda a minha vida, que rondava uma casa de prostituição. Depois de ter caminhado uns largos metros, voltei para trás, decidido a entrar e a vencer minha própria impaciência. E entrei. A dona da casa recebeu-me e apresentou-me algumas raparigas. Fixei-me numa que fazia tranças com o cabelo, como se fizesse tranças no entrançamento que a vida é. Fazendo tranças, o pensamento é livre e todos os príncipes encantados podem passear no pensamento: Mas de que serve sonhar com príncipes, quando o que conta é o entreabrir da porta que deixa entrever um cliente qualquer, cujo único encanto é a sua predisposição a pagar? A Gabriela das tranças depressa descobriu a minha timidez e, para me desinibir, calculo, disse-me que a «comesse toda», que estava com «tusa» e outras coisas obtusas. Mais inibido fiquei ao não saber como reprimir-lhe um gesto que parecia insinuar afecto. Excessos tais baralharam as minhas convicções sociológicas. Provavelmente, no universo imaginário masculino, as prostitutas mostram-se famintas de sexo e, por isso, elas não se fazem rogadas a mostrar a sua fome. Puro equívoco. A prostituta dá-se a comer apenas por ter fome de dinheiro. A Gabriela das tranças - se a história contada não foi inventada - é mãe solteira, confessou-me, abotoando dois botões da blusa desabotoados por engano. De nacionalidade brasileira, tinha um namorado português com quem pretendia «ajuntar-se» logo que juntassem algum dinheiro. Com nostalgia recordou-me tardes em bancos do Jardim da Estrela e evocou corações e setas que inscreveram em algumas árvores do jardim, inscrições que procuravam eternizar uma relação cujo destino ali ficava traçado, nos troncos da árvore. Mas quis o destino que o destino fosse outro. E o que ficou da relação foi uma gravidez e um filho para criar, sem saber com que meios, pois todos a abandonaram, incluindo o pai do filho.. (Pais, 2001: 262-263)

Pais, José Machado (2001), Ganchos, Tachos e Biscates: Jovens, Trabalho e Futuro, Porto: Âmbar.

Publicado por socioblogue em 03:17 AM | Comentários (1)