novembro 25, 2003

Dostoievsky, o Tempo e os Blogues

No Sublinhar [via Icosaedro], evoca-se Dostoievsky e a sua reflexão sobre a escrita de um diário. Diz assim:

"Em 1876, Fiódor Dostoievsky começa a publicação de uma folha mensal que pretendia que fosse "um diário íntimo, em toda a acepção da palavra, isto é, um fiel relato do que mais me interessou pessoalmente." Ou seja, algo muito parecido com um blog. Mas três meses depois ele escreve: "Custa a crer, mas é verdade, ainda não encontrei a forma do Diário, e não sei se algum dia encontrarei... Assim, tenho 10 ou 15 assuntos (pelo menos) para tratar, quando me sento para escrever. Todavia, os meus assuntos preferidos, afasto-os involuntariamente. Ocupar-me-iam demasiado espaço, exigiriam demasiado ardor da minha parte... e, deste modo, não escrevo o que me agrada. Por outro lado, imaginei com demasiada ingenuidade que se trataria de um autêntico "Diário". Um verdadeiro "Diário" é impossível; só se pode fazer um diário artificialmente preparado para o público...".

Este trecho é, com efeito, uma passagem inolvidável. E, quando o leio, não deixo de me identificar com algumas das coisas que são ditas. Penso, designadamente, na forma como a temporalidade dos blogues difere daquela presente em outras escritas. A relevância deste aspecto, desta "dissociação de temporalidades", não deve ser desconsiderada. Com efeito, o tempo dos blogues pode aprisionar-nos e podemos tornar-nos, de forma inconsciente e involuntária, reclusos desse tempo.

Publicado por socioblogue em 06:20 PM | Comentários (9)

novembro 18, 2003

O Metablogue

Este meu retorno não significa, apenas, o regresso do Socio[B]logue. Representa, também, a reinvenção do Metablogue.

Na verdade, nas últimas semanas o projecto Metablogue sofreu algumas alterações. Melhor: cresceu. Desenvolveu-se. Com efeito, está hoje bem diferente daquilo que foi. Uma das principais diferenças entre o velho e o novo Metablogue consiste, fundamentalmente, na nova equipa de editores/ colaboradores: Joaquim Paulo Nogueira (Respirar o Mesmo Ar), Bruno Sena Martins (Avatares de Um Desejo), Pedro Fonseca (ContraFactos & Argumentos), Paulo Querido (o vento lá fora) e Ferran Moreno (Un Que Passava). Além, claro, de mim próprio. Mas há outras...

Um dos efeitos não intencionados e mais perniciosos da minha "ausência" da blogosfera foi, justamente, a paralização, ainda que parcial, do Metablogue. Facto que lamento. Profundamente.

Independentemente dessas considerações, olhando hoje para trás parece-me ser necessária uma saudação e um agradecimento especiais para quem teve, originalmente, a ideia do Metablogue e a procurou, laboriosamente, implementar. Falo, claro, do Joaquim. Fica aqui a manifestação possível de admiração, respeito e amizade.

Publicado por socioblogue em 05:11 PM | Comentários (0)

novembro 17, 2003

Once and Again/ Começar de Novo

O prometido é devido. Depois de um longo período de ausência o Socio[B]logue está, finalmente, de regresso. A casa ainda está em obras. Se é que alguma vez deixou de o estar. Existe, de momento, uma pequena dissociação entre o "backstage" e o "frontstage" do blogue. Ao blogue actual falta-lhe, ainda, o novo template; alguns elementos adicionais de natureza técnica; e, sobretudo, algumas componentes de gestão e organização da informação. Contudo, está prometida, para breve, a finalização (provisória) do novo template e a sua colocação em funcionamento.

Face ao antigo Socio[B]logue (http://www.socioblogue.blogspot.pt/) apresentam-se aqui algumas novidades: arquivos temáticos, trackback, um arquivo de documentos (directório), etc. A nível dos conteúdos introduzem-se, também, algumas alterações de relevo. Dessas destacam-se a existência de espaços regulares de carácter semanal ou quinzenal, colaborações, ciclos temáticos, entre outros.

Uma das inovações no Socio[B]logue - porventura, a principal - será a já referida existência de ciclos temáticos onde, durante alguns dias, geralmente uma semana, os textos do Socio[B]logue tratarão apenas um tema ou um campo de conhecimento. Esses ciclos contarão com a colaboração de alguns convidados especiais que irão apresentar contribuições sobre os temas em debate. No decurso desses ciclos temáticos tudo o que for publicado - textos, ensaios, bibliografias, biografias, recensões de obras, entradas de glossário, etc. - estarão, em princípio, em consonância com o tema ou campo focado.

Nos próximos dias a nova filosofia e a nóvel lógica de funcionamento do Socio[B]logue será explicada com maior detalhe.

Devo ainda, bem o sei, um sincero pedido de desculpas a todas as pessoas que me têm escrito. O Socio[B]logue afastou-se, um tanto ou quanto abruptamente, do mundo dos blogues. Causou, por isso, algumas desilusões, muitos desapontamentos e uma quantidade dificilmente contabilizável de impaciências. Fui vítima, posso dizê-lo, do incontornável "syndrome de chronos" (Ettighoffer e Blanc, 1998) e da minha crónica dificuldade em lidar com ambientes desestruturados. Este longo período de ausência deve-se, por isso e acima de tudo, à singular conjunção de um "schedule overload" com uma "info-overload" a que não soube responder convenientemente.

Por conseguinte, este regresso - ainda hesitante - é palco de algumas emoções difusas: a "angústia da ausência", o "medo da dependência", a "expectativa do segundo albúm". Enfim... as coisas do costume. Espero, por isso, que este retorno não defraude as expectativas de quem o esperava (com maior ou menor ansiedade).

Não quero, ainda, deixar de marcar este regresso com os meus sinceros agradecimentos a todos aqueles que me foram escrevendo e encorajando a regressar. Nunca foi minha intenção abandonar, definitivamente, a blogosfera. Apesar da habitual relação de amor/ódio que quase todos nós bloggers mantemos com os nossos blogues sempre estive seguro de que queria regressar. E que iria regressar. Todavia, não queria fazê-lo sem que o Socio[B]logue pudesse ser aquilo que eu queria que ele fosse. E, não o sendo ainda e não tendo perspectivas de que a curto prazo o possa ser, ele está, ainda assim, um passo mais próximo de o ser.

Os blogues são sempre, quase sempre, espaços de mediação entre aquilo que fazemos e aquilo que gostaríamos de fazer. Entre aquilo que somos e aquilo que gostaríamos de ser. E este não é, seguramente, uma excepção.

É bom estar de volta.

Ettighoffer, Denis e Gérard Blanc (1998, Le Syndrome de Chronos: Du Mal Travailler au Mal Vivre, Paris: Editions Dunod.

Publicado por socioblogue em 04:56 PM | Comentários (14)

outubro 15, 2003

A Vénia Possível

O Socio[B]logue tem tido um regresso tímido e hesitante à blogosfera. Apesar de ainda me encontrar em período de testes, construção e instalação (o retorno definitivo está para breve) não quero deixar de fazer uma pausa na minha incomunicabilidade para mencionar algo que de muito relevante irá acontecer hoje. Falo, claro, do lançamento do livro do Paulo e do Luis: «Blogs». No Socio[B]logue sempre procurei evitar, na medida do possível, as mensagens com um carácter mais pessoal. Faço aqui uma excepção. O Paulo - além de ser um senhorio exemplar e um amigo atencioso, dedicado e paciente - é, também, a pessoa que individualmente mais tem contribuído para o desenvolvimento da blogosfera com um serviço público de grande qualidade. Serviço, aliás, suportado por ele próprio. Literalmente. Só por isso merecia uma enchente... Ademais, o Paulo é, talvez, o principal responsável pelo regresso do Socio[B]logue. Sem a sua paciência e disponibilidade infinitas, dificilmente conseguiria fazer renascer este projecto. Em todo o caso, fica o agradecimento, a vénia e uma sugestão: apareçam.

Publicado por socioblogue em 11:33 AM | Comentários (7)

agosto 21, 2003

Confissões

Pedro Lomba (Flor de Obsessão), evocando Eco, acaba de escrever um apontamento sobre como se faz uma tese. Diz assim: "acumulamos notas, referências, leituras indesejadas, bibliografias, parágrafos pesados, prosa deslavada, lemos, relemos, copiamos, inventamos, acorremos a bibliotecas, sabemos de cor a exacta localização dos livros, retemos dezenas de títulos na cabeça, lombadas, capas duras, apetece-nos muito fazer isto, não nos apetece nada fazer isto, sabemos para onde vamos, não sabemos o caminho, horas sentados, horas sem avançar, horas a pensar no romance que ficou em cima da cómoda, dúvidas, hesitações, algum sofrimento, uma imensa satisfação com o trabalho que fica feito, hoje somos produtivos, ontem tudo saiu a custo, hoje não sai nada, aprender a viver assim, erráticos, moles, de vez em quando despertos, de vez em quando muito vivos, muito capazes, depois o tédio, a amargura, a impossibilidade, largar a cadeira, o computador, a mesa de trabalho e caminhar, caminhar sempre". É assim que passo os meus dias. Boa parte deles. Quase todos eles. Foi por isso, também, que nasceu o Socio[B]logue. Quando digo também, entenda-se, quero dizer sobretudo.

Publicado por socioblogue em 05:10 AM | Comentários (2)

agosto 14, 2003

Os Cultos da Carga

O antropólogo Miguel Vale de Almeida (Os Tempos que Correm), numa breve nota, referiu-se recentemente a um curioso fenómeno originário de algumas ilhas do Pacífico Ocidental. Mais precisamente do Pacífico Sudoeste (Papua, Yaliwan, Vanuatu). A esse fenómeno, comum na região da Melanésia e Nova Guiné e muito estudado pelos antropólogos no primeiro terço do século XX, deu-se o intrigante nome de «cultos da carga». Como explica Vale de Almeida, "existia, há 75 anos atrás, na área do Pacífico e Melanésia, um fenómeno que apelidámos de "cargo cults" (cultos da carga). Os alegres primitivos da zona, quando foram expostos ao Ocidente-Mercado, acharam que aquelas mercadorias todas eram coisa divinamente produzida. Eles viam os colonizadores construirem portos e pistas de aviação, e viam que através delas chegavam uma série de coisas boas. Vai daí puseram-se a construir imitações de portos e pistas aéreas, na esperança de que a "carga" chegasse.". Embora Vale de Almeida o elida, estes cultos, uma espécie de sebastianismo melanésio, não são uniformes. Com efeito, segundo se pensa, existiram cerca de 70 formas diversas de «cultos de carga», com ligeiras dissemelhanças entre si (os primeiros «cultos de carga» relatados foram Baigona, 1912, e Vailala, 1919). Alguns possuem especificidades curiosas. Por exemplo, em três grupos populacionais das ilhas Vanuatu é celebrado um deus chamado John Frum ou Jon Frum. Julga-se que Frum foi um viajante que esteve nas ilhas antes da chegada dos missionários cristãos em meados do século XIX. Ainda hoje alguns melanésios aguardam, messianicamente, o seu regresso. Aos nossos olhos tais práticas parecem, é certo, ridículas. Próprias de um «wishful thinking» primitivo. Mas também entre nós encontramos práticas que não andam muito longe dos «cargo cults» melanésios. E não são poucas.

Nota Adicional 1: As ciências, em geral, também possuem os seus cultos. Há até um autor - Richard Feynman - que tem falado da existência de uma «Cargo Cult Science».

Nota Adicional 2: Talvez, posteriormente, faça uma pequena lista, para acrescentar a esta nota, de algumas práticas que não andam muito longe dos «cargo cults» melanésios.

Publicado por socioblogue em 05:34 PM | Comentários (0)

agosto 01, 2003

Insensatez

O trabalho sociológico, como o da generalidade das restantes ciências sociais, é esgotante. A adjectivação não é boa, bem sei. Mas justifica-se. É deveras difícil explicar a alguém, sem um grande conhecimento do campo, o investimento necessário para a produção de uma investigação empírica consistente. É necessário um trabalho moroso, persistente e cansativo de exploração bibliográfica; de construção de instrumentos de observação e recolha de informação; de recolha de informação; de análise e interpretação dos materiais recolhidos; de redacção e revisão textual. A isso, juntam-se as inflexões constantes, as reformulações contínuas, as restruturações permanentes. As semanas passam a correr. Depois os meses. Por vezes, vezes demais, os anos. O trabalho sociológico envolve uma disciplina da parte do investigador. Monástica. Austera. Intransigente. Nesse processo, nesse longo processo, vão-se acumulando inúmeras ideias peregrinas, reflexões marginais, observações periféricas, pistas de pesquisa improváveis, escritos de gaveta acidentais. Essas notações permanecem, quase sempre, na obscuridade. Por vezes, a obscuridade é injusta: quando as observações são pertinentes mas desenquadradas, desajustadas ou díssonas do objecto em estudo. Outras vezes, ela é protectora: sempre que elide cogitações insensatas que nunca deveriam sair da sombra. Reli agora alguns dos textos mais antigos do Socio[B]logue. Fico, à vez, envaidecido e embaraçado. Envaidecido com os improvisos acertados. Embaraçado com o pretensiosismo verboso. A adjectivação não é boa, bem sei. Mas justifica-se.

Nota adicional: Este texto vai ser dos embaraçosos. É inevitável.

Publicado por socioblogue em 12:25 PM | Comentários (0)

julho 24, 2003

À Margem: Socio[B]logue - Começar de Novo (act)

O Socio[B]logue, depois de um breve interregno introspectivo, está de volta aos textos regulares. Regressa, também, com uma imagem renovada, uma nova filosofia e uma nóvel lógica de funcionamento. Além das reflexões e observações habituais, o Socio[B]logue inaugura, também, espaços novos. Regulares. Antes, porém, das novidades impõe-se uma clarificação daquilo que o Socio[B]logue é (ou melhor, daquilo que tem vindo a ser), na medida em que parece subsistir, em algumas das mensagens que recebo, alguma nebulosidade face aos propósitos deste blogue. O Socio[B]logue não é um espaço "científico". Está, na realidade, longe de o ser. A ciência rege-se por métodos, procedimentos e protocolos bem definidos que não se compadecem com imediatismos (neste caso não existem mecanismos de controlo metodológicos, o «peer review», etc.). O Socio[B]logue é, apenas, um espaço que procura produzir observações sociologicamente informadas sobre determinados fenómenos à medida das suas limitações. As minhas, entenda-se. O seu primacial propósito é, portanto, o de funcionar enquanto uma espécie de laboratório de experimentação sociológica. E não tem pretensões de ser algo mais do que isso. Essa opção implica, evidentemente, algumas reservas face ao que aqui é escrito, devido, primacialmente, à precareidade do conhecimento aqui produzido e apresentado. Por conseguinte, este espaço é apenas um albúm heterogéneo e assiduamente desordenado de reflexões, notas, apontamentos, notações, observações, considerações, impressões, comentários, indicações, pistas de pesquisa, interrogações, questões, problemas, curiosidades, informações, esboços, fragmentos, experiências, experimentações e escritos de gaveta sociológicos. Isto é, sociologicamente informados. Francisco José Viegas, em tempos, referiu-se a isso como «fazer sociologia em directo» [texto]. Em sociologia designamo-lo por «street corner sociology», «sociologia de bolso», «sociologia espontânea» (Pierre Bourdieu) ou «sociologia portátil» (Claude Javeau). A produção de conhecimento sociológico, científico, encontra-se nos antípodas do que aqui se faz. Demora, geralmente, longos meses ou anos a ser preparada e levada a cabo. Implica, por isso, um trabalho meticuloso, moroso, contínuo e aprofundado. Árduo. Envolve, também, um conhecimento muito especializado e extensivo sobre um determinado tema, um campo de saber e/ou um objecto de estudo. Todavia, no decurso desses longos processos de investigação vão sendo produzidas inúmeras observações sobre outros temas (contíguos, análogos, transversais, paralelos, marginais, etc.) que assumem a forma de pistas de pesquisa para projectos posteriores; observações esporádicas de interesse; curiosidades; etc. Essas impressões ficam, quase invariavelmente, perdidas na espuma dos dias, escondidas em gavetas sombrias ou relegadas para as margens e notas de pé de página das nossas vidas de todos os dias. Quase tudo o que publico no Socio[B]logue são observações dessa natureza - marginais e periféricas às minhas próprias preocupações sociológicas. Assim, quase tudo o que está contido no blogue são temas sobre os quais possuo um conhecimento algo limitado, tanto em termos de fundamentação teórica, como de conhecimento empírico. E essas limitações são devidas não somente à minha condição de aprendiz de sociólogo, mas também às próprias características deste espaço. Fica a clarificação. Como já foi referido, além das reflexões e observações habituais, o Socio[B]logue introduz agora alguns «aperfeiçoamentos».

*Glo [Glossário]: De periodicidade diária. Diariamente será afixada uma breve defiinção de um conceito sociológico ou antropológico. A fonte de inspiração para este espaço encontra-se num dos blogues no qual o Socio[B]logue se fundamentou inicialmente - sem dúvida, um dos melhores e um dos mais citados mundialmente. Falo de How to learn Swedish in 1000 difficult lessons do jornalista norte-americano Francis Strand. Actualmente a residir em Estocolmo na Suécia com o seu companheiro, Strand apresenta sempre, juntamente com os seus textos, a definição de uma palavra ou expressão sueca. Assim, não só reflecte a sua aprendizagem da língua, como vai partilhando esse processo com os seus leitores. Essa ideia parece ser, aliás, um óptimo veículo de aprendizagem (auto e hetero). E, por isso, o Socio[B]logue procura transpô-la para o campo sociológico. As definições apresentadas serão, habitualmente, retiradas de dicionários de sociologia, de glossários existentes ou consistirão em definições originais (sempre que não se tratarem de originais a fonte é, obviamente, indicada).

*Liv [Livro da Semana]: De periodicidade semanal. Será apresentado, todas as semanas, um livro no campo das ciências sociais, juntamente com uma breve recensão sobre o mesmo.

*Bib [Bibliografia]: De periodicidade quinzenal. De quinze em quinze dias será afixada uma pequena bibliografia sobre um tema, um objecto de estudo ou um campo sociológico.

*Bio [Biografia]: De periodicidade mensal. Todos os meses será exposta uma pequena biografia de um autor no campo das ciências sociais.

*De vez em quando existirão semanas temáticas onde se procurará que exista uma consistência e uma temática comum em parte significativa dos posts, livros recomendados, bibliografias e entradas do glossário. Será inusitado recordar que serão bem vindos quaisquer contributos e/ou sugestões para estes novos espaços.

Nota adicional 1: Joaquim Paulo Nogueira (Respirar o Mesmo Ar) criou agora um blogue intitulado Metablogue. O Metablogue pretende ser um observatório de discursos metabloguistas, ou melhor, uma espécie de arquivo do metabloguismo: um espaço que procurará ir registando e arquivando os textos e os debates sobre a blogosfera e o mundo dos blogues. O autor convidou-me para o ajudar - o que aceitei prontamente. Espera-se que seja uma ferramenta útil para quem deseja pensar sobre o mundo dos blogues.

Nota adicional 2: Nos próximos dias os textos terão uma cadência maior que a habitual de modo a colocar a escrita em dia (estou em dívida para com o Pedro Fonseca, a Isabel Tilly, o Pedro Sanches e o Mário Pires). Tenho, ainda, que desculpar por este período de maior inconstância e descontinuidade.

Publicado por socioblogue em 04:05 PM | Comentários (0)

julho 07, 2003

O Medo (act.)

(título roubado de Al Berto)
Há uns dias atrás, (Guerra e Pas), um dos espaços mais notáveis da blogosfera, produziu um dos posts mais honestos e bonitos que tive o prazer de ler. Intitulava-se «O Temor». Falava, entre outras coisas, das angústias recorrentes dos blogueiros, daquilo que chamava de "malaise dos blogs" e do facto da "imediatez dos Posts faz[er] dos dias séculos.. Também o Luis N. (ENE Coisas) se referiu ao tema num post recente, ao dizer o seguinte: "não é fácil manter um blogue, e todos os blogueiros o sabem, os que continuam, e os que desistem". Argumento também reproduzido por José Xavier (Satyricon) ao dizer: "depois de algumas semanas na blogosfera, que parecem anos, o cansaço torna-se evidente" [post]. Apesar da sua raridade, existem alguns artigos científicos onde as mesmas questões são abordadas, no que respeita ao trabalho científico. Entre nós, lembro-me, por exemplo, de um texto notável da antropóloga Maria Cardeira da Silva (1991), justamente intitulado «A angústia do antropólogo no momento do trabalho de campo». E qualquer pessoa que já tenha realizado exercícios etnográficos, mais ou menos complexos e mais ou menos prolongados, sabe do que a autora fala: as hesitações, as incertezas, as dúvidas, as flutuações, as oscilações, etc. No caso do mundo dos blogues, a fenomenologia da experiência quotidiana de um blogueiro passa por questões como a ansiedade do feedback, a ansiedade do post seguinte, a ansiedade provocada pela sensação de incapacidade para exprimir uma determinada imagem imagem do «eu», entre outros. Estes comentários deixam entrever a existência de uma psicodinâmica particular em
determinados tipos de blogues (aparentemente, aqueles mais sujeitos à «ansiedade do post seguinte»). Isto é, parece ser possível determinar a existência de algumas regularidades na evolução das atitudes dos blogueiros face aos seus blogues. Ao entusiasmo inicial, parece suceder uma fase onde é visível uma maior ansiedade do post seguinte (devido quer às próprias expectativas, quer à internalização das expectativas do «outro» - ou atribuídas ao «outro»). É, aliás, curiosa a menção, nestes casos, ao facto do tempo passar «a voar» (os dias, de acordo com os posts referidos, parecem «anos» ou «séculos»). Apesar desta temática, por si só, merecer uma análise mais aprofundada, há um outro aspecto - menos evidente - que intriga a minha curiosidade sociológica. De facto, há, neste contexto, uma questão que é sociologicamente interessante, mas que parece passar despercebida. Não é curioso que, ao contrário de outras formas de comunicação mediada por computador (CMC), exista uma enorme reflexividade («pensar sobre si próprio») no mundo dos blogues? Isto é, na generalidade das outras formas de CMC não encontramos tanta discussão e reflexão sobre essas formas. Com efeito, nem em CMCs imediatas (IRC, ICQ, Messenger, Chat-Rooms, etc.) nem em CMCs diferidas (Mailing-Lists, Discussion Groups, etc.), encontramos uma reflexividade tão grande. Por vezes, ela nem sequer existe. Ou seja, não é frequente encontrarmos em mailing-lists, discursos sobre as suas potencialidades e limites, sobre os «temores» associados a essas formas, etc. Por conseguinte, resta explicitar que a menção à reflexão da antropóloga Maria Cardeira da Silva não foi arbitrária: aparentemente, a reflexividade nos blogues é de tal forma profunda que se aproxima mais da reflexividade científica do que de outras CMCs. Mas que particularidades terão os blogues, no quadro das CMCs, que justifiquem esta reflexividade? O fenómeno intriga-me.

Cardeira da Silva, Maria (1991), «A angústia do antropólogo no momento do trabalho de campo», Ethnologica, Nº5.

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junho 23, 2003

Confissões Sociológicas: O Síndroma Robinson Crusoe e Eu (self-note)

Das primeiras vezes que entrevistei ex-reclusos deparei-me com aquilo a que chamei nas minhas notas de «síndroma Robinson Crusoe»: quando lhes é dada a oportunidade para falarem (e, mais concretamente, para falarem sobre si) é, geralmente, difícil «travá-los», na medida em que os seus discursos fluem de uma forma deveras impressionante. Sucedem-se, então, os episódios anódinos e as historietas (estorietas?) prisionais. Isso deve-se, segundo António Pedro Dores (sociólogo especializado nas questões da reclusão), ao estarem demasiado confinados às mesmas pessoas e às mesmas histórias e, por isso, quando encontram gente exótica que se interessa pelo que dizem (como eu), tendem a auto-tematizar-se e a desmultiplicar-se em palavras até terminarem. Normalmente por exaustão (do investigador ou dos próprios). É interessante constatar a presença do síndroma Robinson Crusoe na blogosfera desde as suas variantes mais simples («a minha vida dava um poste» [se blog é blogue, post é poste, não?] e «a minha vida dava um blogue»), até às suas variantes mais sofisticadas («a minha vida dava um estudo sociológico»). Não refiro, sequer, as variantes mais especializadas, desde as mais populares («a minha vida dava um canal de televisão da sic na tvcabo», «a minha vida dava um bar de alterne»), às mais eruditas («a minha vida dava uma peça de Schönberg», «a minha vida dava um filme de Bergman», «a minha vida dava uma obra de Beckett», «a minha vida dava um ensaio de Steiner», etc.). Fazendo uma autoscopia é forçoso reconhecer que eu próprio, nos primeiros dias (que ainda não terminaram) . e apesar do meu esforço deliberado de contenção . pareço ter sucumbido à tentação. Com efeito, julgo não ter resistido (suficientemente) ao inusitado fenómeno. Por conseguinte, interrogo-me: será que estive até agora encarcerado no meu «self offline»? Fica a pergunta.

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junho 20, 2003

Socio[B]logue: Apresentação

Num dos seus mais conhecidos ensaios, «Marginalia», E. A. Poe (1809-1849), debruçava-se, de forma eloquente, sobre o seu fascínio pelas anotações, apontamentos e comentários com que coloria abundantemente as margens dos seus livros. Essas notas anódinas - nas suas palavras «scribblings», «pencillings» e «marginal jottings» - constituíam, em sua opinião, lembretes imprescindíveis na reconstituição do texto; embora se tornassem desprovidos de significado e ininteligíveis se separados, isolados ou subtraídos do seu contexto original. Este blogue é, também, ou sobretudo, de alguma forma, uma compilação desses «scribblings», «pencillings» e «marginal jottings» que tanto fascinavam Poe. Sociológicos, claro.

Publicado por socioblogue em 02:37 AM | Comentários (0)