agosto 18, 2003

História e Estória, Ainda (act.)

Depois de uma breve investigação, Rui Oliveira, num esforço admirável, vem acrescentar algumas considerações de interesse no que diz respeito à questão dos termos história e estória (que aqui começara a ser debatida). Quanto à polémica entre os apologistas da diferenciação entre os vocábulos história e estória e aqueles que preconizam a manutenção do termo história como portador dos dois sentidos, Rui Oliveira apresenta a sua posição a partir de uma breve passagem de Jacques Le Goff na Enciclopédia Eunadi. Le Goff diz assim:

"A palavra "história" (em todas as línguas românicas e em inglês) vem do grego antigo historie, em dialecto jónico [Keuck 1934]. Esta forma deriva da raiz indo-europeia wid-, weid, "ver". Daí o sânscrito vettas "testemunha" e o grego histor "testemunha" no sentido de "aquele que vê". Esta concepção da visão como fonte essencial de conhecimento leva-nos à ideia que histor "aquele que vê" é também aquele que sabe; historein em grego antigo é "procurar saber", "informar-se". Historie significa pois «procurar». É este o sentido da palavra em Heródoto, no início das suas Histórias, que são, que são «investigações», «procuras» [cf. Benveniste 1969, t. II, pp. 173-174; Hartog 1980]. Ver, logo saber, é um primeiro problema. Mas nas línguas românicas (e noutras) "história" exprime, dois, senão três, conceitos diferentes. Significa: 1) esta «procura das acções realizadas pelos homens» (Heródoto) que esforça por se constituir em ciência, a ciência histórica; 2) o objecto de procura é o que os homens realizaram. Como diz Paul Veyne, «a história é, quer uma série de acontecimentos, quer a narração desta série de acontecimentos» [1968, p. 423]. Mas a história pode ter ainda um terceiro sentido, o de narração. Uma história é uma narração, verdadeira ou falsa, com base na «realidade histórica» ou puramente imaginária pode ser uma narração histórica ou uma fábula. O inglês escapa a esta última confusão porque distingue entre history e story (história e conto). As outras línguas europeias
esforçam-se por evitar esta ambiguidade. O italiano tem tendência para designar se não a ciência histórica, pelo menos as produções desta palavra por "storiografia", o alemão estabelece a diferença entre a actividade «científica», Geschichtschreibung, e a ciência histórica propriamente dita, Geschichtswissenschaft.
" (Le Goff, 1984: 158).

A partir das palavras de Le Goff, Rui Oliveira expõe, novamente, a sua posição quanto a esta questão. Preconiza, uma vez mais, que a distinção entre história e estória não tem razão de existir, na medida em que não existe nenhuma vantagem em ter dois termos monossémicos em vez de um vocábulo polissémico. Nas suas palavras: "Para mim, que entendo que as palavras não existem isoladas, mas em textos (entendendo o texto como um evento comunicativo), a polissemia de um termo não me incomoda, pois, habitualmente, o contexto comunicativo retira a ambiguidade que por vezes o termo possa ter devido aos seus vários significados. Quem entende a língua, exclusivamente, na sua vertente de sistema pode achar que a polissemia prejudica a compreensão. Esquecem-se, no entanto, que esse sistema é virtual e aquilo que pode ser ambíguo nesse sistema virtual, pode ser completamente claro num texto (aliás, isso acontece imenso nos exemplos apresentados como ambiguidades nas gramáticas que utilizam frases isoladas em que, quando se incluem essas frases em contextos reais, essas ambiguidades desaparecem. São em casos muito raros é que os termos são monossémicos. As pessoas têm a competência comunicativa («une connaissance conjuguée de normes de grammaire et de normes d'emploi» Hymes 1984:47), que lhes permite distinguir, entre outras coisas, o significado daquilo que lhe é dito. Por isso, entendo que a distinção história / estória não tem razão de existir, pois não é uma distinção essencial num contexto comunicativo. No entanto, longe estou de chamar ignorante a quem quiser usar estória, pois, se pessoalmente não a usarei, a língua não é estática e, se os seus utilizadores adoptarem a palavra, ela terá o destino que eles quiserem."

Mas, para além desse notável contributo, o autor vai mais longe no que diz respeito à etimologia do termo história, entrando em debate com a
contribuição de Carla Hilário de Almeida.

"Entre "rede" e "aquele que vê" parecia-me que para além de uma certa proximidade ortográfica (em grego), a raiz teria de ser diferente. Desde já digo que não sei muito de grego e sabendo que a Carla Hilário de Almeida sabe grego, quis perceber o porquê desta diferença de etimologia. Assim, como se vê no número 2 do anexo, encontrei na Biblioteca da FLUP um dicionário etimológico de grego, já antigo (1923), mas que me deu um primeiro esclarecimento pois em entradas sucessivas lá estavam histos e histor. Mais uma vez histor era apontado como etimologia de história. Mas, no entanto, faltava-me confirmar ainda a questão da raiz. E essa, encontrei-a na net, números 3 e 4. Tal como eu suspeitava, as duas palavras tinham raízes diferentes. Se eu conhecia a raiz de histor (wid-, weid), não sabia qual seria a raiz de histos. No entanto, o dicionário mencionado no número 2 dava-me uma pista, a palavra latina stamen. Depois de encontrar a página da net do American Heritage Dictionary, encontrei então a raiz de histos, que é sta (número 4 do anexo), o que tem lógica, pois, por exemplo, o verbo stare significa, "estar de pé, estar levantado". E, mais ainda, no número 4, no parágrafo III, lá está histos "web", "tissue". Parece-me pois que a etimologia de história estará efectivamente em histor. No número 5, uma pequena tradução de Heródoto na antologia Hélade, em que historie é traduzida por "informações". Ainda na mesma antologia a palavra historia aparece em textos de Platão e Aristóteles e é traduzida por, em ambos os casos, "investigações". Tudo isto concorda com a etimologia de histor."

Nota Adicional 1: As referências citadas por Rui Oliveira encontram-se num
ficheiro doc de anexos que o autor me enviou. Para quem quiser aprofundar a
questão encontra-se aqui disponível [historia.doc (203Kb)].

Nota Adicional 2: Nuno Dempster (Palavras & Letras), teceu algumas considerações em redor deste tópico num post que titulou «Uma história versus outra estória». Diz assim: "Li em tempos, algures, que estória seria para
suprir uma hipotética ausência de um termo equivalente à expressão short story, com a sua tipificidade narrativa, e para a distinguir do conto. Aquela em geral apresenta um desenvolvimento mais amplo no espaço e no tempo, mais ou menos extensa narrativanente, não exige, como canonicamente o conto exige, uma grande contenção na extensão narrativa e uma forte convergência para o final, um espaço e um tempo narrativos curtos (o tempo aqui muitas vezes surge aumentado por analepses), um fim inesperado. Mas história, no contexto em que é aplicada, nunca se pode confundir com História, como escreve Rui Oliveira no Socioblogue, ninguém as confundiria, e daí parecer-me inútil e não isento de pose, em português de Portugal, o emprego da palavra estória. No mais, trata-se apenas de uma escolha pessoal: a língua evolui independentemente da vontade de cada um. Hoje é sabido que os géneros se interpenetram, e, depois, para maior confusão, há quem chame contos a histórias, histórias a contos, mas também quem chame histórias a histórias, e contos, a contos, e ainda contos e romances a novelas. Não se trata de descobrir o sexo dos anjos, isto é, de saber o que é uma coisa e o que é outra num tempo em que a narrativa de ficção se apresenta cada vez mais mista, nem me refiro a países de língua portuguesa, como o Brasil, Angola e Moçambique, onde é sabido que a palavra estória é empregada com frequência. É, português, pensar alto, escrevendo e fixando melhor assim as ideias que vou apurando.
". Ainda antes de o escrever já o autor havia observado o seguinte, na secção de comentários do Socio[B]logue: "Além de Guimarães Rosa, também já há bastante tempo Luandino Vieira usou o termo em Luuanda, se não estou enganado. No entanto, há uns dois anos li algures que "estória", nos escritores mais recentes, poderia ser um termo substituto da short story americana por distinção de conto (temos o termo história para isso), ambos formalmente diferentes no seu tipo de estrutura narrativa. E é curioso como, ao invés, Luísa Costa Gomes, por exemplo, intitula, como de contos, livros seus que, formalmente, seguem o desenvolvimento das short stories americanas. Já Teolinda Gersão, outro exemplo, intitula, quanto a mim muito correctamente, "Histórias de Ver e Andar", um livro de histórias que não têm de forma nenhuma a estrutura de contos. Até que ponto "estórias" será uma questão de boa consciência, ou mesmo de pose, não sei. Sei que em Portugal há histórias e há contos, correspondentes, como disse, a duas formas diferentes de narrativa curta de ficção (quanto ao desenvolvimento temporal e espacial)."

Publicado por socioblogue em 04:07 PM | Comentários (7)

agosto 11, 2003

Arqueologia Linguística: Entre a História e a Estória (act.)

Em uma, mais uma, das minhas frequentes deambulações pelos empoeirados arquivos da blogosfera deparei-me com uma breve consideração, no blogue Tempore, sobre a distinção entre os termos estória e história [texto]. Diz assim: "Na minha opinião estória(s) reporta-se ao anedótico, ao pequeno relato. Julgo que a História é um composto do anterior, logo mais estrutural.". Esse tópico mereceu-me já alguma atenção num texto anterior (Walter Benjamin, a História dos Vencidos e a Guerra Civil Espanhola). Porém, estando a dedicar-me a esboçar timidamente alguns procedimentos genealógicos ou arqueológicos, não resisto a retornar ao tema em causa. Há, com efeito, um debate - interessante e controverso, embora algo adormecido - sobre a distinção linguística entre os termos «história» e «estória».

Segundo a posição costumeira, a primeira expressão reporta-se ao estudo do passado das sociedades humanas ou, em alternativa, refere-se a esse próprio passado. Não será, talvez, inusitada uma consideração adicional: embora de uso corrente, o termo «história» deveria somente designar a evolução da humanidade e o passado das sociedades humanas. Com efeito, a expressão correcta para designar o estudo desse passado - a ciência histórica - será, porventura, o termo «historiografia». Já o segundo vocábulo, «estória», é utilizado na designação de textos ficcionais ou relatos narrativos. Não obstante o facto da raiz etimológica de ambos os termos ser a mesma - ambas derivam do grego «historía» por meio do latim «historîa» (talvez a Bomba Inteligente ou o Latinista Ilustre o possam confirmar ou infirmar) -, a distinção entre ambos visa acompanhar a diferenciação, de raiz anglo-saxónica, entre os termos «story» e «history».

Porém, o termo «estória» está longe de ser novo ou recente. Encontra-se, aliás, mais próximo de constituir um arcaísmo do que um neologismo. Na verdade, esse termo constitui uma expressão remota, resgatada de alguns textos manuscritos de copistas medievais portugueses - textos escritos quando a estrutura da ortografia ainda se encontrava pouco sedimentada. Surgiam então, com inusitada frequência, os termos «historia», «hestoria», «estoria», «istoria» ou «estorea»
enquanto equivalentes. Ou melhor, como grafias distintas de uma mesma expressão. Essa curiosa polissemia ortográfica foi experienciada, de igual modo, pela maioria das línguas latinas. Todavia, com o tempo, tendeu a prevalecer uma forma única na generalidade desses idiomas: o português «história», o francês «histoire», o castelhano «historia», o catalão «història» e o italiano «storia» são disso um bom exemplo. Na realidade, em Portugal, só a partir do séc. XVI cessaram essas «indecisões ortográficas». Essa estabilização concretizou-se, sobretudo, após a publicação das gramáticas de Fernão de Oliveira («Gramática da Linguagem Portuguesa», 1536) e de João de Barros («Gramática da Língua Portuguesa», 1540), os primeiros gramáticos portugueses. Essas obras contribuíram, de forma inelutável, para a fixação da língua portuguesa. Foi António Maria José de Melo Silva César e Menezes, Conde de Sabugosa, quem primeiro recuperou e propôs a adopção do termo «estória» para designar a narrativa de ficção. Fê-lo em 1912, no prefácio do seu livro «Dama dos tempos idos». Pouco depois, em 1919, seria acompanhado por João Ribeiro, afamado etnógrafo brasileiro. Quem, todavia, popularizou a expressão, reabilitando-a definitivamente, foi João Guimarães Rosa, um dos maiores vultos da literatura brasileira do século XX, ao publicar a sua obra «Primeiras Estórias» em 1962. De então até hoje mantém-se, em regime de latência, a polémica entre os apologistas da diferenciação entre os vocábulos história e estória e aqueles que preconizam a manutenção do termo história como portador dos dois sentidos. Fica a curiosidade arqueológico-linguística.

Nota Adicional 1. A grafia dos termos em grego e latim não se encontra correcta, na medida em que não a consegui aqui reproduzir literalmente.

Nota Adicional 2. Rui Oliveira, na secção de comentários a este pequeno exercício arqueológico, produziu um breve texto onde preconiza a inutilidade da diferenciação entre os vocábulos história e estória. No quadro da sua argumentação em favor da indistinção entre os dois termos, Rui Oliveira apresenta algumas observações adicionais de interesse quanto à questão da sua sociogénese. Aqui as reproduzo: "Quanto às origens do inglês "story" e "history", são iguais às das línguas latinas, isto é, provêm ambas das mesmas palavras (grega e latina). Apenas acontece que "story" entrou no inglês através do chamado Anglo-French, em época medieval (sécs. XII-XIII), pela palavra "estorie" que no Middle English deu "storie" para acabar na actual "story". Por seu lado, "history" entrou mais tarde no inglês, pelo séc. XIV, através do Middle English "historie", vinda do Latim "historia". A natural evolução semântica que as palavras têm numa língua, levou-as aos significados actuais. De notar que a palavra grega "historia" queria significar "pesquisa,investigação"; Por sua vez "historia" deriva de "histor" que é aquele que sabe ou vê.".

Nota Adicional 3. Carla Hilário de Almeida (Bomba Inteligente) contribui, também na secção de comentários, com uma breve nota para o esclarecimento desta questão. De acordo com o que diz: "A palavra "estória" não está registada no dicionário da Academia das Ciências, facto que prova que é melhor do que se diz para aí. O dicionário de Cândido de Figueiredo tem a palavra registada como história em português antigo (whatever that means) e não lhe dá muita importância. Mas vamos lá ao que importa: história é composta de dois vocábulos - 'istos, que significa rede e roí, o verbo fluir em grego antigo - que juntos têm o bonito sentido de "uma rede que flui". À espécie de apóstrofo (') que vêem antes da palavra istos, chama-se espírito rude e trata-se do sinal de aspiração que transliterado para latim resultou num h. E o que é que estória tem a ver com isto? Nada." [ver texto original].

Publicado por socioblogue em 12:24 PM | Comentários (4)

julho 01, 2003

Walter Benjamin, a História dos Vencidos e a Guerra Civil Espanhola

Walter Benjamin (1892-1940) constitui, certamente, um dos expoentes máximos do pensamento germânico do século XX. Personagem central no seio da Escola de Frankfurt, Benjamin foi, seguramente, uma das figuras mais obscuras e enigmáticas da história da filosofia continental. Filósofo singular, ensaísta exímio, critico literário inovador, tradutor de Proust e Baudelaire, escritor e sonetista sombrio, coleccionador e bibliófilo apaixonado, historiador idiossincrático, pensador fragmentário e críptico, crítico de arte e cultura seminal, alegorista melancólico, narrador notável das guerras e revoluções do século XX, Benjamin acabaria por suicidar-se em 1940, na fronteira franco-espanhola, perseguido pela polícia hitleriana, com 48 anos e virtualmente desconhecido. Apenas anos mais tarde viria a transformar-se em ‘figura de culto intelectual’ – venerado por linguistas, críticos culturais, historiadores de arte, poetas e escritores, pensadores pós-modernistas e sociólogos. Esse reconhecimento é devido, sobretudo, aos esforços dos seus amigos Theodor W. Adorno, Hannah Arendt, e Gershom Scholem. Entre as suas inestimáveis contribuições para o pensamento contemporâneo encontra-se uma noção seminal que viria a assumir uma importância ímpar na historiografia moderna: a história dos vencidos.

De acordo com o filósofo germânico, na sua célebre obra ‘Teses sobre a Filosofia da História’ (‘Über den Begriff der Geschichte’) (Benjamin, 1940), tanto o historicismo como a vulgata ortodoxa do marxismo partilham uma concepção linear de história. Assim, diz-nos Benjamin, as historiografias oficiais tendem a evocar o passado, fazendo despertar recordações dominadas por uma temporalidade ordenada e linear e alinhando, desse modo, os acontecimentos de um forma particular. Uma forma que apenas permite que as pessoas se lembrem de uma sucessão distorcida e pré-determinada de eventos passados. A história oficial, segundo Benjamin, não é mais que ficção: uma montagem selectiva de acontecimentos passados num encadeamento linear significante.

Esse argumento do autor teutónico – de que a história oficial constitui uma versão deformada do passado construída no presente – vem de encontro ao trabalho um número crescente e multifacetado de estudiosos que se foram debruçando sobre a problemática da memória (individual e colectiva) e da percepção do tempo. Dessas reflexões resultou a constatação da influência decisiva do presente sobre a percepção do passado, desfigurando-o e distorcendo-o. O sociólogo francês Maurice Halbwachs, na sua célebre obra póstuma ‘La Mémoire Collective’, diria a esse respeito que “a lembrança é em larga medida uma reconstrução do passado com a ajuda de dados emprestados do presente, e além disso, preparada por outras reconstruções feitas em épocas anteriores e de onde a imagem de outrora manifestou-se já bem alterada” (1950: 70). Reflexões mais recentes ampliam essas conclusões sugerindo que não só as condições presentes influem a percepção do passado, mas a própria vivência do presente é influenciada pelos acontecimentos passados e pela percepção desses eventos passados (Connerton, 1993).

Essas propostas vêm, aliás, corroborar a argumentação de Benjamin, no sentido em que tornam evidente a ligação entre a transmissão e conservação da memória social e o poder. Como sustenta Paul Connerton, “não há dúvida de que o controlo da memória de uma sociedade condiciona largamente a hierarquia do poder” (1993: 2), pois, como acrescenta pouco adiante, “as nossas experiências do presente dependem em grande medida do conhecimento que temos do passado e (...) as nossas imagens desse passado servem normalmente para legitimar a ordem social presente.” (1993: 4). Os silêncios da história são, neste sentido, reveladores dos mecanismos e dispositivos de construção social do passado e, portanto, de manipulação da memória colectiva; o esquecimento constitui uma vala comum onde repousam actores e personagens anónimos e episódios e acções marginais, suprimidos e eliminados pelas narrativas históricas ortodoxas e convencionais. E se a memória histórica do passado influencia o presente, o controlo sobre essa memória histórica torna-se um sólido instrumento de dominação. Daí se explicam as violentas lutas, ao longo da história, pelo controlo sobre a memória colectiva e pelo monopólio da «verdade histórica». George Orwell, (1903-1950), conspícuo jornalista e novelista de origem britânica, sintetizou na novela ‘1984’, de forma exemplar, essa complexa relação entre o presente, a percepção do passado e o poder reduzindo-a a um notável axioma: “Who controls the past controls the future: who controls the present controls the past”.

Deste modo, a História, de acordo com Walter Benjamin, reduz-se a uma história enviesada ou, mais concretamente, a uma escritura histórica triunfalista: a uma história dos vencedores, ou melhor, a uma estória dos grupos dominantes. E isto porque a historiografia tendeu, ao longo do tempo, a entrar em intropatia com os vencedores. Neste contexto, o papel do historiógrafo é, de acordo com Benjamin, o de desafiar as representações da história vulgarmente aceites e estabelecidas. A historiografia, nesta perspectiva, deve ser necessariamente crítica e contra-hegemónica: a história, mais do que um facto, deve ser entendida como um problema. Daí que Benjamin apele a que se erga uma outra história, incitando a “escovar a História a contrapelo” (1940: 161), e reiterando a inexorável necessidade de não confundir a História com a narrativa histórica dos grupos dominantes. O perigo, como sublinha o filósofo germânico, é o esquecimento, a deslembrança, o silenciamento da memória, pois “toda a imagem do passado (...) corre o risco de desaparecer com cada instante presente que nela não se reconheceu” (1940: 159).

A salvadora redenção está então, de acordo com Benjamim, em escavar pacientemente o amontoado de ruínas e escombros do passado, recolhendo indícios historiográficos, não para reencontrar o passado como ele foi, mas sim para buscarmos o que nele foi esquecido e abafado: os vestígios que o tempo sufocou, isto é, as personagens e os episódios que foram asfixiados e colocados nas notas de rodapé da história oficial. Os relatos e as memórias recorrentemente negligenciados, omitidos e esquecidos; os pormenores secundários; os detalhes acessórios; as minudências anódinas. É indispensável, diz-nos o autor alemão, reconstruir o passado dos silenciados, dos esquecidos, enfim, dos espoliados da história. É fundamental preservar a memória daqueles que não têm lugar nos manuais de história; salvaguardar os seus testemunhos e depoimentos. É essencial conservar as experiências que narram, os episódios que descrevem, as estorietas que relatam. Benjamin aproxima-se assim de toda uma geração de historiadores, maioritariamente marxistas, que julgaram encontrar na prática da história oral a possibilidade de salvaguardar do esquecimento, a história e a cultura dos grupos dominados. Daí a relevância que atribuía à história oral e à narrativa. Daí a importância que concedia à memória, às lembranças, à recordação, à rememoração, à anamnese. Por conseguinte, os propósitos da filosofia benjaminiana são claros; ela ambiciona ‘fazer a história dos sem história’, ‘dar voz aos sem voz’; ela deseja reescrever a narrativa histórica, erguendo uma contra-história: a ‘história dos vencidos’.

A evocação de Walter Benjamin poderá parecer, à primeira vista, desprovida de pertinência, algo deslocada e, porventura, um tanto ou quanto questionável. Todavia, apesar das fragilidades e limitações da argumentação do autor alemão, é possível extrair de Benjamin um princípio de valor inestimável: juntamente com a história, narrativas e memórias oficiais, coabitam outras histórias, contra-narrativas e contra-memórias que não devem ser elididas sob o risco de desperdiçar a compreensão histórica de determinadas figuras, grupos, sociedades, eventos ou períodos. A melhor ilustração desse valioso princípio encontra-se, quiçá, nas palavras de um velho combatente anónimo da guerra civil espanhola, desconhecido para a historiografia, durante a realização da sua história de vida:

...no sé yo cuanto le puede importar a usted ésto que le estoy diciendo, no sé si ésto le puede importar a alguien, porque éstas cosas no las cuentan los libros, esto no sale nunca en la historia, pero sabe lo que le digo, ésta es mi verdad.” (Anónimo citado em Santamaria e Marinas, 1999: 257).


Bem vindo Tiago Barbosa Ribeiro (Estudos sobre a Guerra Civil Espanhola).

Benjamin, Walter (1940 [1992]), «Teses sobre a Filosofia da História», Sobre Arte, Técnica, Linguagem e Política, Lisboa: Relógio D.Água, pp. 157-170.
Connerton, Paul (1993), Como as Sociedades Recordam, Oeiras: Celta Editora.
Halbwachs, Maurice (1950 [1990]), A Memória Coletiva, São Paulo: Vértice.
Santamarina, Cristina e José Miguel Marinas (1999), «Historias de Vida e Historia Oral», in Juan Manuel Delgado e Juan Gutiérrez (coord.) (1999), Métodos y Técnicas Cualitativas de Investigación en Ciencias Sociales, Madrid: Sintesis, pp. 257-285.

Nota Adicional: Após a publicação deste apontamento, Tiago Barbosa Ribeiro (Estudos sobre a Guerra Civil Espanhola) e José Fernando Guimarães (Incógnito QB) deram sequência ao que aqui foi escrito.

Publicado por socioblogue em 12:02 AM | Comentários (2)