julho 01, 2003

Walter Benjamin, a História dos Vencidos e a Guerra Civil Espanhola

Walter Benjamin (1892-1940) constitui, certamente, um dos expoentes máximos do pensamento germânico do século XX. Personagem central no seio da Escola de Frankfurt, Benjamin foi, seguramente, uma das figuras mais obscuras e enigmáticas da história da filosofia continental. Filósofo singular, ensaísta exímio, critico literário inovador, tradutor de Proust e Baudelaire, escritor e sonetista sombrio, coleccionador e bibliófilo apaixonado, historiador idiossincrático, pensador fragmentário e críptico, crítico de arte e cultura seminal, alegorista melancólico, narrador notável das guerras e revoluções do século XX, Benjamin acabaria por suicidar-se em 1940, na fronteira franco-espanhola, perseguido pela polícia hitleriana, com 48 anos e virtualmente desconhecido. Apenas anos mais tarde viria a transformar-se em ‘figura de culto intelectual’ – venerado por linguistas, críticos culturais, historiadores de arte, poetas e escritores, pensadores pós-modernistas e sociólogos. Esse reconhecimento é devido, sobretudo, aos esforços dos seus amigos Theodor W. Adorno, Hannah Arendt, e Gershom Scholem. Entre as suas inestimáveis contribuições para o pensamento contemporâneo encontra-se uma noção seminal que viria a assumir uma importância ímpar na historiografia moderna: a história dos vencidos.

De acordo com o filósofo germânico, na sua célebre obra ‘Teses sobre a Filosofia da História’ (‘Über den Begriff der Geschichte’) (Benjamin, 1940), tanto o historicismo como a vulgata ortodoxa do marxismo partilham uma concepção linear de história. Assim, diz-nos Benjamin, as historiografias oficiais tendem a evocar o passado, fazendo despertar recordações dominadas por uma temporalidade ordenada e linear e alinhando, desse modo, os acontecimentos de um forma particular. Uma forma que apenas permite que as pessoas se lembrem de uma sucessão distorcida e pré-determinada de eventos passados. A história oficial, segundo Benjamin, não é mais que ficção: uma montagem selectiva de acontecimentos passados num encadeamento linear significante.

Esse argumento do autor teutónico – de que a história oficial constitui uma versão deformada do passado construída no presente – vem de encontro ao trabalho um número crescente e multifacetado de estudiosos que se foram debruçando sobre a problemática da memória (individual e colectiva) e da percepção do tempo. Dessas reflexões resultou a constatação da influência decisiva do presente sobre a percepção do passado, desfigurando-o e distorcendo-o. O sociólogo francês Maurice Halbwachs, na sua célebre obra póstuma ‘La Mémoire Collective’, diria a esse respeito que “a lembrança é em larga medida uma reconstrução do passado com a ajuda de dados emprestados do presente, e além disso, preparada por outras reconstruções feitas em épocas anteriores e de onde a imagem de outrora manifestou-se já bem alterada” (1950: 70). Reflexões mais recentes ampliam essas conclusões sugerindo que não só as condições presentes influem a percepção do passado, mas a própria vivência do presente é influenciada pelos acontecimentos passados e pela percepção desses eventos passados (Connerton, 1993).

Essas propostas vêm, aliás, corroborar a argumentação de Benjamin, no sentido em que tornam evidente a ligação entre a transmissão e conservação da memória social e o poder. Como sustenta Paul Connerton, “não há dúvida de que o controlo da memória de uma sociedade condiciona largamente a hierarquia do poder” (1993: 2), pois, como acrescenta pouco adiante, “as nossas experiências do presente dependem em grande medida do conhecimento que temos do passado e (...) as nossas imagens desse passado servem normalmente para legitimar a ordem social presente.” (1993: 4). Os silêncios da história são, neste sentido, reveladores dos mecanismos e dispositivos de construção social do passado e, portanto, de manipulação da memória colectiva; o esquecimento constitui uma vala comum onde repousam actores e personagens anónimos e episódios e acções marginais, suprimidos e eliminados pelas narrativas históricas ortodoxas e convencionais. E se a memória histórica do passado influencia o presente, o controlo sobre essa memória histórica torna-se um sólido instrumento de dominação. Daí se explicam as violentas lutas, ao longo da história, pelo controlo sobre a memória colectiva e pelo monopólio da «verdade histórica». George Orwell, (1903-1950), conspícuo jornalista e novelista de origem britânica, sintetizou na novela ‘1984’, de forma exemplar, essa complexa relação entre o presente, a percepção do passado e o poder reduzindo-a a um notável axioma: “Who controls the past controls the future: who controls the present controls the past”.

Deste modo, a História, de acordo com Walter Benjamin, reduz-se a uma história enviesada ou, mais concretamente, a uma escritura histórica triunfalista: a uma história dos vencedores, ou melhor, a uma estória dos grupos dominantes. E isto porque a historiografia tendeu, ao longo do tempo, a entrar em intropatia com os vencedores. Neste contexto, o papel do historiógrafo é, de acordo com Benjamin, o de desafiar as representações da história vulgarmente aceites e estabelecidas. A historiografia, nesta perspectiva, deve ser necessariamente crítica e contra-hegemónica: a história, mais do que um facto, deve ser entendida como um problema. Daí que Benjamin apele a que se erga uma outra história, incitando a “escovar a História a contrapelo” (1940: 161), e reiterando a inexorável necessidade de não confundir a História com a narrativa histórica dos grupos dominantes. O perigo, como sublinha o filósofo germânico, é o esquecimento, a deslembrança, o silenciamento da memória, pois “toda a imagem do passado (...) corre o risco de desaparecer com cada instante presente que nela não se reconheceu” (1940: 159).

A salvadora redenção está então, de acordo com Benjamim, em escavar pacientemente o amontoado de ruínas e escombros do passado, recolhendo indícios historiográficos, não para reencontrar o passado como ele foi, mas sim para buscarmos o que nele foi esquecido e abafado: os vestígios que o tempo sufocou, isto é, as personagens e os episódios que foram asfixiados e colocados nas notas de rodapé da história oficial. Os relatos e as memórias recorrentemente negligenciados, omitidos e esquecidos; os pormenores secundários; os detalhes acessórios; as minudências anódinas. É indispensável, diz-nos o autor alemão, reconstruir o passado dos silenciados, dos esquecidos, enfim, dos espoliados da história. É fundamental preservar a memória daqueles que não têm lugar nos manuais de história; salvaguardar os seus testemunhos e depoimentos. É essencial conservar as experiências que narram, os episódios que descrevem, as estorietas que relatam. Benjamin aproxima-se assim de toda uma geração de historiadores, maioritariamente marxistas, que julgaram encontrar na prática da história oral a possibilidade de salvaguardar do esquecimento, a história e a cultura dos grupos dominados. Daí a relevância que atribuía à história oral e à narrativa. Daí a importância que concedia à memória, às lembranças, à recordação, à rememoração, à anamnese. Por conseguinte, os propósitos da filosofia benjaminiana são claros; ela ambiciona ‘fazer a história dos sem história’, ‘dar voz aos sem voz’; ela deseja reescrever a narrativa histórica, erguendo uma contra-história: a ‘história dos vencidos’.

A evocação de Walter Benjamin poderá parecer, à primeira vista, desprovida de pertinência, algo deslocada e, porventura, um tanto ou quanto questionável. Todavia, apesar das fragilidades e limitações da argumentação do autor alemão, é possível extrair de Benjamin um princípio de valor inestimável: juntamente com a história, narrativas e memórias oficiais, coabitam outras histórias, contra-narrativas e contra-memórias que não devem ser elididas sob o risco de desperdiçar a compreensão histórica de determinadas figuras, grupos, sociedades, eventos ou períodos. A melhor ilustração desse valioso princípio encontra-se, quiçá, nas palavras de um velho combatente anónimo da guerra civil espanhola, desconhecido para a historiografia, durante a realização da sua história de vida:

...no sé yo cuanto le puede importar a usted ésto que le estoy diciendo, no sé si ésto le puede importar a alguien, porque éstas cosas no las cuentan los libros, esto no sale nunca en la historia, pero sabe lo que le digo, ésta es mi verdad.” (Anónimo citado em Santamaria e Marinas, 1999: 257).


Bem vindo Tiago Barbosa Ribeiro (Estudos sobre a Guerra Civil Espanhola).

Benjamin, Walter (1940 [1992]), «Teses sobre a Filosofia da História», Sobre Arte, Técnica, Linguagem e Política, Lisboa: Relógio D.Água, pp. 157-170.
Connerton, Paul (1993), Como as Sociedades Recordam, Oeiras: Celta Editora.
Halbwachs, Maurice (1950 [1990]), A Memória Coletiva, São Paulo: Vértice.
Santamarina, Cristina e José Miguel Marinas (1999), «Historias de Vida e Historia Oral», in Juan Manuel Delgado e Juan Gutiérrez (coord.) (1999), Métodos y Técnicas Cualitativas de Investigación en Ciencias Sociales, Madrid: Sintesis, pp. 257-285.

Nota Adicional: Após a publicação deste apontamento, Tiago Barbosa Ribeiro (Estudos sobre a Guerra Civil Espanhola) e José Fernando Guimarães (Incógnito QB) deram sequência ao que aqui foi escrito.

Publicado por socioblogue em 12:02 AM | Comentários (2)