novembro 19, 2003

«The Interviewed Self» (act)

Gosto de entrevistas. De as ouvir e, sobretudo, de as dissecar - coisa que faço frequentemente e, quase sempre, involutariamente. É difícil de evitar. Por vezes, vezes demais, quase impossível. E é também, julgo, um dos efeitos não intencionados da socialização sociológica. Mas não é disso que quero falar.

Por razões de índole diversa, tenho pensado bastante sobre entrevistas nas últimas semanas. Mais concretamente, sobre os discursos elaborados pelos entrevistados no contexto das entrevistas. Até agora, tenho pensado no assunto recorrendo a uma série de noções clássicas aplicadas nesse contexto: a "presentação do eu", a "mostração do eu", etc. São conceitos fundamentais na análise sociológica. Porém, por vezes, parecem-me insuficientes. Como agora. Todavia, no outro dia tive um momento de iluminação: um "aha-erlebnis". Acontece de quando em vez. A fonte de tal epifania foi, além do mais, inesperada. Também costuma acontecer.

Estava a ler um livro de Efrat Tseëlon, psicóloga social da Universidade de Oxford. Entre outras coisas, Tseëlon tem trabalhado a questão do género e as características da gestão de impressão feminina. O livro em questão intitula-se «The Masque of Femininity: The Presentation of Woman in Everyday Life» (1995). Trata, justamente, da temática que mencionei. A determinada altura - para se referir a uma questão muito específica - a autora sugere que "the presented self is not necessarily an improved self" (Tseëlon, 1995: 46). A frase, lapidar e assertiva, acompanhou-me o pensamento durante algum tempo. É daquelas coisas que me acontecem frequentemente com os jogos de palavras. Eles ficam ali a pairar dias, por vezes semanas inteiras, nos recantos da memória.

Não é fácil discordar da autora. Nem é, segundo me parece, particularmente correcto fazê-lo. Na verdade, a "presentação do eu" assume muitas formas, podendo, ou não, constituir um eu aperfeiçoado ou melhorado. Não obstante, parece-me ser necessário colocar a questão de outra forma. E, quiçá, colocar outras interrogações. Quais os impactes das entrevistas sobre a "presentação do eu" dos sujeitos? Ou seja, de que modo é que a própria forma-entrevista condiciona o tipo de mostração do eu que nelas acontece?

As interrogações parecem anódinas, bem sei. Mas não me parece que o sejam. Pelo menos não Aqui e Agora. As entrevistas generalizaram-se em grande parte das sociedades contemporâneas. É por isso natural que as pessoas se projectem na forma-entrevista quando produzem discursos e narrativas sobre si próprias. As entrevistas (biográficas) tornaram-se num quadro de referência que parece condicionar, de forma mais ou menos profunda, a forma como comunicamos.

Estou em crer que no decurso de momentos de entrevista se vai constituindo uma noção do eu muito particular - um "interviewed self" - que não é mais que o resultado da interacção entrevistador-entrevistado, da sua dinâmica relacional e das perguntas que vão sendo colocadas. Não se trata mais de uma mera "presentação do eu". Isto é, não se trata apenas disso. Esses elementos particulares típicos do contexto de entrevista parecem ter efeitos não negligenciáveis sobre a "presentação do eu" que ali se realiza. Dialecticamente, devo acrescentar. Mas o "interviewed self" não nasce da entrevista. Ele já lá está. Ele já nos habita quando, em silêncio, nos projectamos em conversas e entrevistas e nos colocamos a construir meta-narrativas explicativas da nossa vida e dos eventos que a marcam. Corrijo: que nos marcam.

Há pouco, enquanto observava a entrevista de António Lobo Antunes, dei comigo a pensar sobre estas questões. E apanhei-me a pensar, também, numa outra coisa. Enquanto via a entrevista, de vez em quando, comecei a projectar-me a mim próprio numa situação análoga. Como disse aqui em tempos, nós tendemos crescentemente a projectar interrogações que gostaríamos que nos fossem feitas sobre nós mesmos e a ensaiar respostas, mais ou menos elaboradas, a essas questões "imaginárias". Senti-o ontem quando, quase sem dar por isso, compreendi que possuo já um "interviewed self", embora quase nunca tenha sido entrevistado na minha vida. Encontro já em mim uma série de discursos, auto-narrativas elaboradas e disposições que julgo serem características da situação de entrevista. [E isso é tão mais estranho em mim quando penso na crónica relutância com que falo do meu eu e me materializo em narrativas face a outros. Inclusivamente, com as pessoas que me são mais próximas.]

Ademais, parece-me que o tipo de discurso que prevalece nos blogues também contribui para isso. E, sem dúvida, este texto é disso paradigmático...

Tseëlon, Efrat (1995), The Masque of Femininity: The Presentation of Woman in Everyday Life, London: Sage Publications.

Publicado por socioblogue em novembro 19, 2003 02:32 AM
Comentários

Bem vindo!
Já cá fazias falta....

Um abraço,
AQ

Afixado por: Antonio em novembro 19, 2003 10:13 AM

António! Há quanto tempo...

Afixado por: Socio[B]logue em novembro 19, 2003 11:45 AM

:)

Afixado por: Socio[B]logue em novembro 19, 2003 11:45 AM

Falta o campo da publicidade/marketing ou de como transformar muitos destes campos (psicologia, sociologia, comunicação, media, etc) em dinheiro
Os blogs são:
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Afixado por: Consumering em novembro 20, 2003 11:31 AM

Ah, comsumering, há tanta coisa que não deve ser transformada em dinheiro......

Afixado por: Mário em novembro 22, 2003 02:15 PM

Consumering: a blogroll está, ainda, em fase de reformulação. Talvez, na nova lista, enquadre as referências indicadas... ou talvez não.

Mário: :)

Afixado por: Socio[B]logue em novembro 25, 2003 04:58 PM

Obrigado, caro consumering, pela indicação. Infelizmente não é muito fácil saber o que vai acontecendo pela blogosfera... e é bom saber de mais um campo em desenvolvimento...

Afixado por: Socio[B]logue em novembro 25, 2003 05:00 PM

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Adam

Afixado por: Adam em maio 14, 2004 12:35 AM

Very informed and interesting comments! Greetings.

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Afixado por: David em maio 14, 2004 12:38 AM

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