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terça-feira, 2 de novembro de 2004

Depois de mais dum ano nesta bela casa, este blog vai dar uma volta. Vai para outro sítio. Tenho que agradecer à equipa do Weblog.com.pt. Para onde vou, agora, vou estar sozinho, sem esta comunidade blogueira à volta. Mas é por uma boa razão: para poder dar asas à imaginação. Portanto, é só mesmo mudar de sítio. Agora é aqui http://blog.scheeko.org. Está lá tudo o que aqui está. Mas de cara lavada. Espero que continuem a visitar. Eu vou continuar a escrever.



quinta-feira, 28 de outubro de 2004

Nos dias que correm devem ser muito raras aquelas pessoas que duvidam que o Multibanco não funciona. Niguém acha que o dinheiro desaparece se o depositar numa Caixa Multibanco. Assim como ninguém acha que o seu dinheiro vai desaparecer da conta do banco, mesmo sabendo que aquilo são só registos electrónicos (a não ser que o banco vá à falência). E isto porquê? Porque nunca ninguém ficou sem dinheiro assim. Nunca ficámos sem dinheiro, se dermos ordem de levantamento no Multibanco, nem nunca nenhum hacker nos roubou o saldo da conta, nem nenhuma falha de energia fez com que o dinheiro alguma vez desaparecesse.

O que quero dizer com isto? Que hoje em dia ninguém duvida dos sistemas electrónicos que regem o nosso dinheiro. Volta e meia alguém diz que é perigoso informatizarmos tudo, porque se há uma falha, tudo deixa de funcionar. Mesmo assim, essas pessoas usam o Multibanco. A questão é que a redundância e os testes dos sistemas informáticos permitem-nos confiar neles e hoje em dia é-nos impossível viver sem eles.

Tudo isto para quê? Para a minha proposta de política de controlo fiscal. Hoje em dia como se sabe a fraude fiscal é tremenda e poucas são as políticas que conseguiram fazer efectivamente alguma coisa. E num país onde as mentalidades estão totalmente dirigidas para o próprio e não para a sociedade e o bem comum, pouca esperança há em que as pessoas se consciencializem que devem pagar. Já para não falar do chico-espertismo.

Então como controlar a fraude fiscal. A meu ver só há uma hipótese: a do número único. Cada pessoa, individual ou colectiva passaria a ter um número único, número esse que congregaria todas as informações relevantes. Da mesma forma cada número único só poderia ser associado a uma conta bancária, ou seja todo o meu dinheiro estaria numa conta. Qualquer transferência teria de ter uma conta de origem e uma conta de destino obrigatoriamente. Assim o percurso do dinheiro é totalmente reconstituível e cada identidade responsável pelo que passa pela sua conta. Obviamente estes dados seriam secretos e o sigilo apenas levantado por ordem judicial. Mas o facto de o dinheiro só poder ser movimentado se for clara a sua origem e claro o seu destino, já impediria muitas fraudes.

Obviamente, também, este sistema só funcionaria se todas as transacções fossem obrigatoriamente registadas. Como fazer isso? Toda a gente sabe que o merceeiro não regista tudo, nem os clientes, anotam que gastaram oitenta cêntimos num jornal. A solução é só uma: acabar com o dinheiro físico.

E qual é o problema? Estamos numa altura em que isso é perfeitamente possível. Assim cada pessoa teria um cartão associado a uma conta e o dinheiro que dela saísse seria todo ele registado, assim como o seu destino. Estendendo isto a toda a sociedade: o dinheiro sai sempre de uma conta para outra. E cada uma dessas contas tem um legítimo proprietário, responsável pelas suas movimentações.

A questão da segurança? Haverá quem diga que isto iria permitir por as liberdades pessoais em cheque caso caissem nas mãos erradas os acessos a estes dados. Mas isso também é possível nos dias de hoje! A questão é que desta forma, se fosse preciso verificar, saber-se-ia de onde vêm as quantias. E impossibilitava contas dispersas para distorcer os percursos das divisas. Mais uma vez, legislação teria de ser feita para responsabilizar bancos que aceitassem depósitos sem conta de origem.



quinta-feira, 21 de outubro de 2004

A questão não é se Marcelo foi ou não censurado. A TVI só por si até adoraria fazer frente ao Governo: até poria o Prof. todos os dias se fosse preciso. Mas a TVI tem donos e os donos têm outros negócios, porventura com o Estado. E os donos não querem que nesses negócios o Estado esteja ressentido.

É por isso que um ministro não pode dizer tudo aquilo que lhe vem à cabeça, tenha sido por decisão voluntária ou involuntária de censurar, ou mero desabafo. Simplesmente não pode, por definição de ministro.



terça-feira, 19 de outubro de 2004

O Ministro das Finanças fez recentemente a apresentação da sua versão do orçamento de estado. Fê-lo na presunção de um crescimento económico de 2,4% assentes num valor de 38 dólares para o barril de petróleo. Actualmente tem andado em torno dos $48. Segundo a Agência Internacional de Energia, o motivo deste aumento de preços deve-se ao facto de basicamente a produção estar a atingir o limite máximo (por falta de investimente). Ao que parece existe um petróleo de inverno e de verão - (um da Arábia Saudita, outro da Nigéria, tendo em conta se são para aquecimento/prod. energia ou para alimentar os carros). A mesma agência, diz que no inverno a produção virá essencialmente dos produtores de "petróleo de inverno" que têm um tecto de produção mais elevado e a crise aligeirar-se-á.

Será verdade? Eu não sei... E será que quando voltar a primavera vamos ter o mesmo cenário. A única coisa que sei, é que se isto continua (e acho que sim; mas a minha opinião, não é mais do que isso, uma opinião e vale 0) desta forma e se o ano de 2005 começar com estes preços, vamos ter que ter alturas em que o preço seja inferior a $38, ou as previsões vão ter de ser refeitas...



domingo, 17 de outubro de 2004

The world is becoming a dangerous place.



terça-feira, 12 de outubro de 2004

Aqui há dias vinha no Público que Portugal estava quase a perder o estatuto de Estado Membro do CERN e corria o risco de deixar poder lá fazer projectos. Porventura a maioria não saberá o que é o CERN - Centro Europeu de Pesquisa Nuclear - é um mega-projecto europeu com 50 anos dedicado ao estudo da Física das Partículas. O CERN tem o maior acelerador de partículas do mundo e tem sido palco de ínumeras descobertas científicas. Está a ser dotado de um novo sistema que, espera-se, venha a permitir mais descobertas. Foi lá, também que se inventou a World Wide Web. Portugal está em risco de perder a sua possibilidade de investigar lá porque... não paga as contas.

Hoje, no Diário de Notícias vinha a seguinte notícia: Portugal perde direito de voto e corre o risco de ser excluído do ESO. ESO - Observatório Europeu do Sul - é o maior observatório europeu (acho que mesmo o maior do mundo) e localiza-se na América do Sul. Em 43 anos de actividade nenhum país membro tinha perdido o direito de voto. E porquê? Porque desde 2003 que não paga a sua quota.

Talvez para a maioria a maioria das pessoas não dê grande importância a estas notícias por não saber o que verdadeiramente lá se faz e para que serve. Talvez eu também não desse por isso, se fosse um qualquer laboratório de biologia, engenharia cívil. A questão é que são estas presenças (neste caso a nível europeu, já que estas instalações são caras demais para Portugal as ter por si só) que nos permitem o desenvolver das nossas actividades científicas.

Ainda se poderia questionar a utilidade destes encargos e desistir destes projectos; agora, não pagar contas e deixar o futuro de todos os que trabalham e investiram naquelas áreas em suspenso é que não!

É assim que se ganha manobra para descer o IRS.



domingo, 10 de outubro de 2004

Todos sabemos que o petróleo é a maior fonte de energia do mundo. Maior não: a mais utilizada.

A questão é: o petróleo mais cedo ou mais tarde vai acabar. E mesmo antes de acabar há outros pontos pertinente: primeiro, está na mão dos árabes, dos americanos e mais uns quantos; segundo, polui o ambiente.

Também se sabe que até agora não há nenhuma alternativa verdadeiramente credível que possa suprimir as nossas necessidades energéticas. Grandes contributos têm sido dados no aproveitamento da energia solar, nas células de combustível (que retiram energia da síntese de água), na fusão nuclear, no aprovitamento dos recursos eólicos. Porém nenhuma das alternativas é verdadeiramente viável nesta altura.

O preço do petróleo tem também vindo a crescer brutalmente sendo já os efeitos desse aumento, perceptíveis no dia-a-dia. Será fruto da escassez? Dúvido. Ainda deve haver suficiente para dar e vender; é provavelmente fruto da especulação financeira.

Que quero dizer com tudo isto? Uma alternativa aos hidrocarbonetos não só é algo que vai ser imperetrivelmente necessário no curto, médio prazo, como é algo que não existe no momento. Ou seja: é um nicho de mercado - não há ainda ninguém que tenha a solução do problema; é também um bem primário e portanto sempre necessário.

A meu ver, a par das comunicações móveis (homem-homem, homem-máquina e máquina-máquina) é o negócio do futuro. E o que é que está a ser feito? Nada.

Aqui há cerca de década e meia, quando a União Soviética colapsou, a Finlândia ficou sem o seu sustento. Mergulhada numa profunda crise económico-social, ergueu-se como uma das nações economicamente mais férteis, através da procura de um desígnio nacional. Desígnio esse que passou pela focalização de quase todos os recursos no desenvolvimento e comercialização da tecnologia de comunicações móveis. Hoje a Nokia é aquilo que é.

Portanto, aí está o nosso desígnio nacional. Portugal devia pôr as suas universidades, institutos, escolas, laboratórios, empresas e a população a pensar numa única coisa: descobrir uma fonte de energia viável, renovável e de baixo custo que permita à humanidade continuar o seu estilo de vida. Além disso ficariamos ricos. São os novos Descobrimentos.

Se alguém por acaso viu o segundo debate Bush-Kerry (e digo por acaso, porque aquilo não tem qualquer interesse), talvez tenha reparado que Kerry disse que pretendia implementar um plano de independência energética total nos próximos dez anos. Alguém já lhe meteu na cabeça (e bem este assunto). Nós já estamos atrasados. E se não começarmos já, alguém vai ficar com o proveito. E nós, mais uma vez, importamos a solução.

Senhor Primeiro-Ministro, é só isto que lhe peço.



quarta-feira, 6 de outubro de 2004

tomar
Convento de Cristo, Tomar



terça-feira, 5 de outubro de 2004

As Verdades de Castells I

Manuel Castells é um sociólogo de renome mundial cujo trabalho tenho vindo a conhecer nos últimos seis meses. Conheci-o através duma entrevista na televisão, que me impressionou muito pelo carácter e personalidade que o entrevistado mostrou. Foi também a pessoa que me permitiu mudar a minha opinião em relação aos sociólogos (pelo menos alguns). O que é que faz um sociólogo? Basicamente dedica-se à recolha exaustiva, estatística e rigorosa de dados sobre comportamentos humanos e/ou do mundo da interacção humana. Depois analisa-os e tenta perceber como e porque é que esses comportamentos se dão. Para quê? Para nos compreendermos a nós próprios e aprendermos maneiras de melhorar a nossa acção futura.

Castells tem-se dedicado aos comportamentos urbanos e, mais recentemente, à influência da tecnologia na vida do Homem, nomeadamente as tecnologias de informação.

Vou aqui apresentar (em vários posts) alguns dos pontos que Castells invoca e as suas análises, por achar que tocam exactamente no ponto fulcral e são ditas de forma bastante clara e inequívoca. Comecemos pela Educação - a distinção entre o ensino superior norte-americano e o do resto do mundo.

Outra fonte de superioridade estrutural dos Estados Unidos é o sistema de investigação univesritária americano - isto é, mais de 50% das mais de quatro mil universidades e institutos superiores nos Estados Unidos. Isto é realmente essencial porque atrai alguns dos melhores talentos de todo o mundo. Recorde-se que 50% dos recém-licenciados em ciência e engenharia na América são estrangeiros e que muitos deles ficam nos Estados Unidos, onde podem desenvolver melhor as suas capacidades. O estatudo de superpotência dos Estados Unidos deriva em muito desta superioridade universitária, porque se traduz em liderança tecnológica absoluta, não apenas nas aplicações militares, mas na maioria das áreas. Isto tem a ver com o sistema institucional e, mais importante ainda, com a inexistência de um ministério nacional da educação a supervisionar e decidir o que se deve fazer.

Mas o fulcro da questão não é o carácter público ou privado da universidade. Berkeley e outros campus da Califórnia, ou Michigan, ou do Wisconsin, ou de Texas-Austin são universidades públicas, e ainda assim são grandes instituições, ao nível das melhores universidades privadas. Além disso, o MIT ou Harvard, tal como Stanford, recebem mais dinheiros públicos que privados. É verdade que os donativos dos estudantes contam e que os financiamentos privados de Princeton (os maiores), Yale ou Harvard são fontes do poder universitário; mas ajudam principalmente a bela vida das faculdades e dos estudantes, não são na verdade um factor diferencial na investigação e na inovação. Princeton e Yale estão muito atrás de Berkeley e da UCLA em pesquisa, apesar de serem muito mais ricas. É verdade que os governos e empresas dão mais dinheiro às universidades americanas do que os seus congéneres europeus, mas a razão é que estas universidades são na verdade muito produtivas e muito úteis. A sua flexibilidade, a sua autonomia, a sua gestão descentralizada, a cooperação entre faculdade e estudantes formados nos programas de licenciatura, a sua abertura intelectual, a sua resistência à endogamia, o seu ambiente de competitividade e o seu apego descomprometido aos valores académicos e de excelência acima de tudo permite-lhes, falando de uma forma geral, serem fontes de conhecimento e inovação. Se, para cúmulo, tiver uma universidade tão empreendedora como Stanford (ao contrário de Berkeley, que está muito mais agrarrada aos valores académicos tradicionais e distante do mundo dos negócios), então ter-seá uma relação natural de sinergia entre programas baseados numa universidade, no mundo empresarial e no governo. É isto que está na origem de Silicon Valley.

Será isto extrapolável para outros países? Sim e não. Em princípio não vejo razão para que a reforma institucional não possa dar-se. A universidade em que trabalho nesta altura na Catalunha, a Universidade Aberta da Catalunha, tem fundos públicos, gestão privada, contribuições privadas e não deixa de preservar os valores académicos, é flexível, é virtual e funciona muito bem. Mas é uma nova universidade fundada por um reitor empreendedor com forte apoio do Governo da Catalunha. Em muitos países - na Europa, mas até mesmo mais no Japão -, as burocracias governamentais e os interesses corporativos no mundo académico, mais as atitudes demagógicas entre os estudantes, bloqueiam qualquer tentativa para abrir a universidade. Assim, os estudantes desempenham conscienciosamente as suas tarefas para graus médios nos seus países e depois os mais ricos ou mais empreendedores vão para os Estados Unidos para conseguir fazer algo. Estou convencido que o maior desequilíbrio entre os Estados Unidos e o resto do mundo assenta no sistema universitário, fonte de conhecimento e educação, e logo de riqueza e poder, na era da informação.

Uma das coisas que acho que retiro do que já li da obra de Castells é a seguinte: existe muito para fazer na melhoria do mundo e das condições de vida, mas para todos os países que ainda não chegaram ao ponto onde estão os melhores (e que são a grande maioria), a receita já está feita. Sabe-se quase tudo o que é preciso fazer. É preciso é fazer-se. E as coisas não se fazem sózinhas. Se não nos mexermos vamos mesmo ficar para trás. Mesmo.



segunda-feira, 4 de outubro de 2004

Nova Iorque - Terceira Parte

Foi em Nova Iorque que vi pessoas num museu a olhar para um Picasso com tudo menos o ar de serem pessoas que ficam a olhar para quadros de Picasso. Era um latino-americano, de manga-cava, fios de ouro ao pescoço e um barrete tipo collant na cabeça. Estava lá, sozinho, a contemplar. Foi aí que percebi que não há ar de pessoas que contemplam quadros de Picasso, há apenas pessoas que os contemplam. Mas foi preciso ir ao outro lado do Atlântico.

Também foi por lá que vi aulas em museus com alunos que estavam verdadeiramente interessados naquilo que viam e não num êxtase, embora infundado, em tudo semelhante ao de um símio que estivera em cativeira, privado do seu mundo natural e que de repente o devolvem à sua vida selvagem.

Da segunda vez que fui a Nova Iorque, fui com um amigo, já o World Trade Center tinha sido derrubado. Fiquei hospedado numa pousada de juventude no rua 42, com a 6ª avenida. Mesmo ao lado da Times Square. É um sítio demasiado turístico para meu gosto, mas ainda assim não deixa de ser uma experiência bastante interessante, estar a viver alguns dias a 50m desse mítico local.

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foto de David F. Gallagher

As coisas estavam diferentes. Sentia-se no ar o pesar. Ainda só tinham passado seis meses do 11 de Setembro de 2001. Começou logo quando aterrei. Desta vez fui ter a Newark, do outro lado do rio Hudson, já no Estado de New Jersey, mas ainda assim, bastante perto da cidade de Nova Iorque.

Ao entrar no terminal, uma grande janela esperava-me com uma assobrosa vista do skyline nova iorquino visto de sul. Via-se toda a baixa da cidade, mas faltava qualquer coisa. Foi impressionante aquela visão. As torres tinham desaparecido. Era exactamente como tinham mostrado na televisão. Um vazio.

(continua)





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