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outubro 31, 2005

Apagado do mapa?

Causaram grande escândalo internacional as declarações do novo presidente da República islâmica do Irão, Mahmoud Ahmadinejad, proclamando que «Israel deve ser apagado do mapa».
Numa altura em que a pressão internacional para que o Irão abandone de vez as suas actividades no âmbito do nuclear, porque é que o seu presidente se saíu com uma tirada destas? Bravata? Provocação? Ou estaremos na presença de uma mensagem para quem "convive" diariamente, no terreno, com o Estado de Israel? Apontamos para esta última hipótese como a mais credível: tendo Tsahal abandonado a Faixa de Gaza, tendo a Síria abandonado militarmente o Líbano, havendo grande ânsia de paz na população palestiniana, crescerá certamente a inquietação entre todos aqueles que não encaram com bons olhos o cimentar, mesmo aos olhos dos árabes, da soberania israelita como um facto consumado e, pior ainda, inquestionável.
A ser assim, Ahmadinejad tentará inflamar os ânimos anti-sionistas, numa situação de algum desespero por constatar que a luta determinada dos árabes contra Isarel perde peso.
A reforçar este cenário, dois factos recentes:
- o facto de o Hamas ter vindo a respeitar a trégua com Israel, apontando baterias para as eleições legislativas de Janeiro;
- o apertar do cerco do Líbano aos grupos palestinianos que ainda operam no seu território, em violação da resolução do Conselho de Segurança da ONU de Setembro do ano passado.
Longe vão os tempos em que, em 1998, o jogo entre o Irão e os EUA da fase final do Mundial de Futebol de França, representou um aproximar simbólico de relações entre os dois países. Entretanto, viveu-se o regresso de Sharon ao governo israelita, a segunda Intifada, os atentados de 11 de Setembro, o estúpido discurso sobre o "Eixo do Mal", que arruinou de uma penada vários anos de paciente aproximação diplomática (*).
Os falcões dos dois lados vão rejubilando com este extremar de posições.

(*) Bem patente na revista Time da época, com vários artigos benevolentes com o regime iraniano, cujo presidente era o moderado (mas impotente) Khatami. Esta publicação caracteriza-se por difundir quase sem falhas as posições de Washington, independentemente de o presidente em exercício ser "Elefante" ou "Burro" (ou os dois em simultâneo, como actualmente).

Publicado por FG Santos às 01:28 PM | Comentários (6)

outubro 30, 2005

Mais um drama da imigração

Novo drama com “jovens” (termo que, em Novilíngua, significa filhos de imigrantes) em França: após uma perseguição policial por participação em roubo, dois indivíduos morreram electrocutados. Seguiu-se, como é da praxe nestas ocasiões, uma orgia de violência urbana.
A promoção desmedida da imigração durante o consulado Mitterrand (14 anos), que só parcialmente foi reduzida, contribuiu para este quadro tão típico do dia-a-dia nos subúrbios que só por rigor se podem adjectivar como “franceses”.
Apaparicados pela esquerda, sentindo-se vítimas de séculos de exploração branca, um pouco como sucedeu com os negros a partir dos anos 60 nos EUA, os “jovens” estão habituados à má vida: roubos, agressões, em muitos casos a violações colectivas. A vida para o pacato cidadão tornou-se infernal, o receio de sair à rua é enorme, mas é acusado de racismo quem denuncie esta situação que salta à vista de qualquer observador minimamente imparcial.
Nicolas Sarkozy, o ministro do Interior com fama de durão, encarna para muitos a esperança de um mínimo de regresso ao civismo. A sua provável vitória nas presidenciais de 2007 será a sua prova de fogo.

Publicado por FG Santos às 10:23 AM | Comentários (6)

outubro 28, 2005

28 de Outubro de 1922, a Marcha sobre Roma

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Há precisamente 83 anos, 26.000 fascistas marcharam sobre Roma. Receando uma guerra civil de consequências imprevisíveis, o rei Vítor Emanuel II convida Mussolini a formar governo. Começa o "ventennio", pleno de realizações.
Terminou o caos liberal, o comunismo perdeu importância, o progresso económico e social foi uma realidade.
O sucesso italiano foi elogiado nos mais diversos círculos, incluindo democráticos (Churchill não escondia a admiração que tinha pela obra de Mussolini).
Formou-se entretanto o Estado Totalitário, que asfixiou as liberdades. Mas os italianos na sua grande maioria sentiam-se satisfeitos com o regime, que lhes devolvera a confiança na Pátria.
A vertigem do poder leva Mussolini à aventura etíope, começando aí a decadência do regime. Isolado na cena internacional, o ditador aproxima-se a contragosto da Alemanha nazi. A adopção das leis raciais por um homem que declarara que os judeus se tinham comportado valentemente na I Guerra Mundial, que tivera um amante judia, representa a satelização do regime face ao aliado alemão. Os fracassos militares precipitam a queda do fascismo. Em 1943 Mussolini é detido por ordem do rei e aprisionado. Numa operação espectacular, um comando alemão chefiado por Otto Skorzeny liberta o Duce, que é posto à cabeça da República Social Italiana, supostamente representante do fascismo primitivo, de maior pendor socializante. Na prática era a Alemanha que ditava o que a RSI podia ou não fazer. O triste episódio do fuzilamento do seu próprio genro e ex-ministro dos Negócios Estrangeiros, Galeazzo Ciano, foi um lamentável ajuste de contas com os "traidores" de 1943.
O ignominioso fuzilamento do Duce e de Clara Petacci às mãos dos partiggiani e posterior exibição dos corpos para gáudio da multidão milanesa são o ponto final de uma verdadeira tragédia italiana.

Publicado por FG Santos às 11:50 PM | Comentários (14)

Béla Bartók

(Dedicado ao AA.)

Em 1945, Béla Bartók estava já perto da morte, no estágio final da leucemia. Ainda assim arranjou forças para compor a quase totalidade do seu Concerto nº3 para Piano e Orquestra, o seu concerto mais acessível.
(Excerto do 1º Andamento)
O estilo é mais clássico e o extraordinário segundo andamento (Adagio religioso) é de uma sensibilidade tocante, longe da violência de "O Mandarim Maravilhoso", por exemplo.
Bartók refugiou-se reluntantemente nos EUA, onde a sua obra era pouco conhecida e apreciada. Pouco dado a ideias direitistas, protestara em tempos contra a não inclusão da sua obra na exposição sobre "Arte Degenerada" levada a cabo na Alemanha nazi...
Nascido no Império Austro-Húngaro, os seus primeiros anos de vida reflectem a turbulência desencadeada pela I Grande Guerra. Começou a interessar-se pelo folclore húngaro e é a mescla dessa influência com a vanguarda musical da época (como Richard Strauss; Bartók nunca adoptou a técnica atonal de Schönberg embora a música deste o tivesse influenciado) que faz a grande originalidade da sua obra.
A vida nos EUA foi difícil e só o sucesso do seu Concerto para Orquestra melhorou um pouco a sua situação pecuniária. A propósito desta última obra, refira-se o delicioso 4º andamento, Interrupted intermezzo, com uma paródia a um tema da 7ª Sinfonia de Shostakovitch, na altura muito em voga nos EUA (e não só por motivos musicais, diga-se).
Não cabe neste curto apontamento uma análise detalhada da obra de Bartók mas no mínimo devem-se mencionar os seus três concertos para piano, os dois concertos para violino, o já citado Concerto para Orquestra, os extraordinários seis quartetos de cordas (nem todos de fácil audição mas com uma perfeição beethoveniana), "O Mandarim Maravilhoso" (história que tem de tudo menos de maravilhoso), a ópera "O Castelo do Barba-Azul" e o bailado "O Príncipe de Madeira".
Em Portugal o músico mais influenciado por Bartók foi sem dúvida Lopes Graça.

Publicado por FG Santos às 11:12 AM | Comentários (0)

outubro 27, 2005

Pinturas no muro

Tal como sucedeu com o "outro" muro, já começaram as pinturas no novo. Daquelas de que recebi fotografia, deixo as minhas preferidas.

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Publicado por FG Santos às 11:26 AM | Comentários (14)

outubro 26, 2005

Reconciliação nacional na Argélia?

Com considerável atraso não queria mesmo assim deixar de mencionar o importante referendo que teve lugar na Argélia no passado dia 29 de Setembro. O projecto a consulta era a amnistia para quem esteve envolvido na guerra civil dos anos 90, na qual pereceram perto de 150.000 pessoas, uma boa parte das quais em massacres e atentados.
As condições da amnistia podem ser consultadas neste documento.
Não deixa de ser curioso que no preâmbulo se afirme que «o povo argelino homenageia vibrantemente o Exército Nacional Popular e os Serviços de Segurança», que terão «salvo a Argélia». Sabe-se que ainda hoje há cerca de 6000 desaparecidos e que as referidas entidades foram acusadas frequentemente de terem praticado barbáries sem conta não só sobre os militantes islamistas como também sobre a população civil. Daí não espanta que também se afirme, logo a seguir, que «ninguém (...) está habilitado a instrumentalisar as feridas da tragédia nacional de modo a atingir as instituições (...) [e] fragilisar o Estado (...)».
Percebe-se que um dos intuitos do referendo, aprovado por 97% dos votantes, é claramente ilibar em definitivo todo e qualquer agente do Estado que possa ter estado envolvido em massacres contra militantes ou população em geral.
Veremos se foi ou não dado um passo decisivo para a Argélia se livrar do drama que começou, recorde-se, logo que foi anulada a 2ª volta das eleições locais, em 1992, na perspectiva de uma mais que provável vitória da FIS (Frente Islâmica de Salvação). O silêncio da comunidade internacional, em especial da França, contribuiu fortemente para a radicalização da guerra civil, para o número impressionante de mortes, para a depressão económica, para o colapso do sector turístico e para uma nova vaga de imigração para França.

Publicado por FG Santos às 04:30 PM | Comentários (1)

Humor brasileiro

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Publicado por FG Santos às 02:42 PM | Comentários (3)

outubro 25, 2005

Glória ao Pai da Nacionalidade, nos 858 anos da conquista de Lisboa aos mouros

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(D. Afonso Henriques.)


«Entrada solene na cidade ( 25 de Outubro )

Aberta, pois, a porta e dada autorização de entrarem, os colonienses e os flamengos, concebendo um astucioso ardil, solicitam aos nossos que seja deles a honra de serem os primeiros a entrar. Dada, pois, a anuência para tal efeito e chegada a ocasião, fazem entrada mais de duzentos com os que anteriormente haviam sido designados, fora outros que se tinham intrometido pela brecha da muralha que ficava à sua mercê da parte em que se encontravam, enquanto ninguém dos nossos, que não fosse dos designados, presumira proceder à entrada.
À frente, pois, ia o arcebispo e os outros bispos com a bandeira da Cruz do Senhor e a seguir entram os nossos chefes juntamente com o rei e os que para este efeito tinham sido escolhidos.
Oh! Quanta não foi a alegria de todos! Oh! Quanta não foi a honra especial que todos sentiam! Oh! Quantas não foram as lágrimas que afluíam em testemunho de alegria e de piedade, quando todos viram colocar no mais alto da fortaleza o estandarte da Cruz salvífica em sinal de sujeição da cidade, para louvor e glória de Deus e da santíssima Virgem Maria. O arcebispo e os bispos com o clero e todos os outros, não sem lágrimas de júbilo, cantavam o Te Deum laudamus com o Asperges me e orações de devoção.
Entretanto, o rei dá a volta a pé pelas muralhas do castelo cimeiro.»

(Relato de um cruzado.)

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(O Cerco de Lisboa, por Roque Gameiro.)

Publicado por FG Santos às 06:25 PM | Comentários (1)

Os ricos e o Reino dos Céus

Dissertam os nossos estimados Manuel e Bruno sobre a possibilidade de se enriquecer para lá de certos limites por meios absolutamente legais, pendendo ambos para a negativa.
Confesso que não compreendo esse ponto de vista. Em certos negócios emergentes há oportunidades extraordinárias que, a serem aproveitadas no momento certo, podem enriquecer o investidor. Quem é que se não lembra da "sorte grande" que saíu a quem apostou na chamada Nova Economia?
Tradicionalmente as grandes fortunas faziam-se pela expansão e diversificação: atitude agressiva no mercado, diluição da concorrência, entrada em novas áreas de negócio. É perfeitamente possível ter sucesso com esta estratégia sem colidir com a legalidade.
É claro que nos tempos actuais essa estratégia faz-se em grande medida pelo jogo de influências, pela manipulação do poder político (atribuição de mercados ou criação de legislação favorável a certos negócios). Mas tomar a parte pelo todo (e ninguém pode afirmar quantos é que cabem em cada categoria) é potencialmente injusto. Além de ser um sintoma de uma certa abordagem socialista e cristã do fenómeno do enriquecimento: para a primeira este é sempre resultado da exploração dos trabalhadores, para a segunda é imoral porque há quem tenha na sociedade necessidades prementes a serem supridas coabitando com grandes fortunas.
Esta crítica à riqueza tem ainda o efeito perverso de toldar a iniciativa individual, em particular em sociedades mediterrânicas de matriz católica. Sabe-se que no mundo protestante a perspectiva é diferente, como bem demonstrou Max Weber em "A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo". Infelizmente, em muitos páises como o nosso, por contingências diversas, ainda se espera que seja o Estado a resolver os problemas das pessoas, olhando-se para os homens de sucesso com desdém, que mais não é que inveja impotente: «só podem andar a roubar».
Onde condescendo com a visão dos nossos amigos é na questão do que é que os ricos fazem ao dinheiro. Admitindo-se que será o que quiserem fazer, louvados serão no entanto aqueles que canalizem alguma da sua riqueza em prol da sociedade, da forma que acharem melhor. Mas aí estamos no campo da ética pessoal e obrigar as grandes fortunas a fazê-lo, ou seja via impostos progressivos, é mais uma vez desincentivar aqueles poucos que têm iniciativa e coragem (algo que é frequentemente esquecido) para se lançarem num negócio. Mas no nosso país até um Alfredo da Silva, um dos pioneiros da melhoria de condições de vida do operariado, foi alvo de um atentado anarquista - certamente por ser um "odioso explorador".

Publicado por FG Santos às 05:44 PM | Comentários (6)

Que diversidade?

Mais um triste exemplo de como a UE é um espaço desprovido de liberdade: a Polónia arrisca-se a perder os seus direitos de voto se o seu novo presidente, Lech Kaczynski, se continuar a opor aos direitos (?) dos homossexuais e se tentar reintroduzir a pena de morte.
Como diz o excelente blogue "The Road to Euro-Serfdom", a Europa diz promover a diversidade mas na verdade teme a diversidade de opiniões. E, acrescentamos nós, está mais preocupada em conceder direitos a quem atenta contra a lei natural e a culpados de crimes especialmente graves, condenáveis segundo Kaczynski à pena máxima.

Publicado por FG Santos às 12:30 PM | Comentários (6)

Líder da Irmandade Muçulmana libertado

Após cinco meses de detenção, o líder da Irmandade Muçulmana, Essam El-Erian, foi posto em liberdade. A organização, que continua ilegalizada, é a face mais visível do movimento islâmico egípcio.
A linha dura seguida por este país em relação aos islamistas poderá estar a ser refreada por diversos motivos. Os analistas especulam se isso será uma forma de diminuir a contestação em torno das eleições legislativas agendadas para 8 de Novembro; mas não descartam o efeito de pressões externas, nomedamente de organizações de direitos humanos e, até, do próprio governo dos EUA. Numa altura em que a postura americana face ao islamismo radical é, aparentemente, de intransigência, é de estranhar que a sua Administração esteja incomodada com o tratamento que as autoridades egípicias reservam aos radicais. Nem todos têm direito ao seu Guantánamo!

Publicado por FG Santos às 11:00 AM | Comentários (0)

outubro 23, 2005

A cruzada

A pressa com que a potência ocupante promoveu o referendo à proposta de Constituição Iraquiana demonstra uma vez mais o desespero de quem tenta a fuga para a frente.
Dois anos e meio após a invasão do Iraque de Saddam Hussein, que balanço se pode fazer?
- 2000 soldados americanos mortos, quase 100 ingleses e outros 100 de diversas nacionalidades;
- dezenas de milhar de civis mortos em atentados e confrontos entre a força ocupante e os insurgentes;
- toda a estrutura do Estado desmantelada de um momento para o outro, lançando o caos no dia a dia, infernizando-o; “oferecendo” o desemprego a dezenas de milhar de militares, muitos dos quais abraçaram o terrorismo ou simplesmente se dedicaram ao banditismo;
- “aberta” a Caixa de Pandora do fanatismo religioso, os xiitas, embora forçados a contemporizar os seus ímpetos proselitistas com os ocupantes, não escondem a agenda religiosa que têm para o futuro Iraque, pese as salvaguardas de liberdade religiosa contidas no projecto de Constituição;
- num país que, pese todos os defeitos e críticas merecidas que recebia, se orgulhava do laicismo, em que as mulheres tinham uma liberdade pouco vista noutros países árabes, caminha-se a passos largos para uma... talibanização, regime que os EUA ajudaram a impôr no Afeganistão e que posteriormente depuseram.
Tendo a minoria sunita detido as rédeas do poder no tempo de Hussein, ao passo que os curdos e xiitas eram reprimidos, é uma reviravolta tremenda aquilo que a Constituição, a ser aprovada, irá legitimar: um país com uma estrutura federal que de modo algum garante a coesão nacional, abrindo fortes possibilidades de independência para os outrora reprimidos. Os curdos, a viver num regime semi-independente desde que Saddam deixou de ter mão no Norte, por via das limitações impostas pela ONU, avança rapidamente para a independência. O que até há pouco parecia impossível face à postura turca de intransigência a esse respeito, tornou-se uma forte possibilidade, não sendo de excluir que a estranha passividade com que Ancara olha para esta situação seja uma contrapartida do forte apoio que Washington lhe tem dado no dossier de adesão à UE.
Os xiitas também não se queixarão se conseguirem a independência ou pelo menos a predominância política no Iraque: após décadas de repressão política e religiosa, de degradação do nível de vida muito maior que a dos sunitas, o facto de o território em que são maioritários ter as maiores reservas petrolíferas do país dá-lhes risonhas perspectivas.
A minoria sunita, quem mais perdeu com a ocupação, arrisca-se a ficar reduzida politicamente aos territórios ocidentais, dramaticamente pobres em termos petrolíferos. O federalismo que a Constituição quer impor funciona, voluntariamente ou não, como uma vingança.
No meio deste barril de pólvora quem é que ganhou com a ocupação? Em primeiro lugar, o lobby armamentista americano: os EUA não “aguentam” estar uma década sem se envolver em conflitos militares, quase sempre por si provocados ou incentivados. Depois, os ferozes e zeladores defensores de Israel no Congresso americano, que conseguiram eliminar um inimigo declarado do Estado hebreu; também as grandes companhias petrolíferas, entretanto, podem agora negociar com o governo iraquiano. A Federal Reserve deve também estar satisfeita por um regime que se preparava para tabelar o seu petróleo em euros em vez de dólares ter passado à história. Dick Cheney e os seus amigos da Halliburton conseguiram vultosos contratos sem concurso. Os fundamentalistas, sob capa legal ou terrorista, receberam um impulso que nem nos seus melhores sonhos podiam achar credível.
Resumindo: foi, de facto, uma cruzada moral, uma vitória do bem sobre o mal.

Publicado por FG Santos às 04:34 PM | Comentários (5)

outubro 21, 2005

O muro

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Imagens de antanho de Berlim e do seu muro da vergonha? Não propriamente: trata-se de uma fotografia tirada hoje na localidade palestina de Abu Dis, vendo-se distintamente a partição artificial da povoação pelo muro construído pelos israelitas.

Publicado por FG Santos às 05:35 PM | Comentários (6)

A política externa americana é um desastre

Mais críticas à Administração Busharon, desta vez provenientes de um ex-colaborador de Colin Powell no MNE (State Department), Larry Wilkerson. Diz ele que o presidente actua à cowboy, que Condoleeza Rice é bastante fraca e que a política externa americana é um desastre.
Com o seu unilateralismo (Protocolo de Kyoto, Convenção de Geneva) e a forma desastrosa como tem lidado com o Iraque, o Irão e a Coreia do Norte, a política externa americana alienou boa parte dos seus aliados e conduziu a uma situação insustentável.
Nada que já não soubéssemos mas é sempre interessante ouvir declarações destas vindas de alguém que fez parte da equipa de Bush.

Publicado por FG Santos às 05:20 PM | Comentários (1)

outubro 20, 2005

"L'Avenir de l'Intelligence"

Leio e releio sempre com imenso prazer "L'Avenir de l'Intelligence" de Charles Maurras, obra publicada há precisamente 100 anos.
O Mestre de Martigues expunha magistralmente a influência que já no seu tempo tinha o Dinheiro na condução da política e na manipulação informativa das massas. Mostrava que poucos seriam os homens de letras verdadeiramente livres, pelos constrangimentos à livre publicação de ideias que a influência citada exercia sobre o mundo da edição, fosse de livros ou jornais. Também o crescente peso do Estado e o seu controlo sobre as universidades limitava fortemente a liberdade de investigação e difusão de ideias e princípios que não fossem os dominantes, aquilo a que hoje se chama o "politicamente correcto".
Hoje, efectivamente, o que mudou? Constatamos que o diagnóstico de Maurras é mais actual do que nunca. A partir do momento em que a política é dominada pelo poder do Dinheiro (consequência inevitável da democracia), ela perde qualquer capacidade de autonomia de decisão. O Dinheiro estende os seus tentáculos a todas as actividades económicas, em particular ao mundo da comunicação, impondo umas ideias, denegrindo outras, pondo seriamente em causa a liberdade de expressão. Só com instituições que não estejam na dependência do seu poder avassalador é que se pode assegurar a independência nacional - na política e no livre pensamento (*). Daí o primado que Maurras atribui à política e à forma monárquica, única capaz de corporizar a necessária resistência ao Dinheiro apátrida e dominador. A famosa frase «em política o desepero é um disparate completo» está no prefácio desta obra magistral, de uma clarividência e, infelizmente, actualidade impressionantes.
"L'Avenir de l'Intelligence" teve uma reedição recente (2002) na editora "L'Age d'Homme".

(*) Ideia que constituirá uma dos princípios-base do Integralismo Lusitano. Tal como Maurras, os integralistas admitiam que episodicamente podem surgir homens que implementem políticas sadias de restauração nacional mas só a existência de instituições permanentes que corporizem esses princípios poderá assegurar a sua perenidade.

Publicado por FG Santos às 10:37 AM | Comentários (3)

outubro 18, 2005

"Objecção de procriação"

Informa-nos o site "Net Doktor" que a esterilização masculina na Alemanha está em crescimento, tendo sido a percentagem de homens em idade de procriar que se decidiram a recorrer àquela de 3% em 2000 contra 0,5% em 1992.
O semanário "Rivarol", que cita este estudo, adianta-nos que o número de nascimentos naquele país em 2004 (700 mil) foi metade do ocorrido em 1960. A Alemanha, a este ritmo, poderia ter menos 14 milhões de habitantes daqui a cerca de 50 anos. O mesmo jornal cita uma reportagem do "Libération", que entrevistou diversos alemães sobre o tema. Um deles afirma que a recusa por parte de muitos jovens de assegurar descendência poderá estar ligada ao facto de «termos perdido a nossa identidade [nacional] com o nazismo. Os alemães refugiaram-se em valores materialistas: casa, automóvel, férias em grande. Ter crianças é secundário». Um jovem que fez uma vasectomia diz taxativamente: «não será uma grande perda para a humanidade, nunca senti qualquer patriotismo a este propósito».
Materialismo galopante e espezinhamento da identidade nacional ao longo das últimas décadas contribuíram para este cenário catastrófico - nos factos e nas consciências individuais.

Publicado por FG Santos às 02:40 PM | Comentários (5)

Cochons!

Segundo um estudo levado a cabo pelo "Le Point", apenas um em cada dez franceses usa sabonete e apenas um em cada 25 toma banho, preferindo a maioria "banhar-se" em perfume para disfarçar o mau cheiro. E, não menos aterrador, um terço dos inquiridos declara nunca ter lavado os dentes!
Quem conhece a França sabe que há muitos prédios onde ainda hoje há uma casa de banho no corredor de cada andar ao serviço de todos os inquilinos. E que, nas casas mais modernas, é vulgar haver um cubículo apenas com sanita e quem quiser lavar as mãos tem que se dirigir à casa de banho propriamente dita, conhecendo eu um caso em que para se chegar a esta se tem de atravessar uma sala e um quarto de dormir!
Estes dados fizeram-me lembrar um conto de Maupassant que li há já bastante tempo. O narrador falava de uma moça nos seguintes termos (cito de memória): «ao fim de um certo tempo percebi como é que ela se lavava: o sabão estava intacto mas, em contrapartida, o frasco de perfume ficara pela metade»!

Publicado por FG Santos às 02:02 PM | Comentários (5)

outubro 15, 2005

Pierre Laval, 15 de Outubro de 1945

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«Não bastava impedir-me de falar; era ainda preciso impedir-me de escrever. Porque me suprimem com tanta rapidez, se eu estou amordaçado e preso?
Nada impedirá, no entanto, os franceses, de compreenderem que se pretende esconder-lhes qualquer coisa.
Nada temia de um debate público. Tinha pedido ao «Diário do Governo», a publicação da acusação e das minhas respostas, para que os franceses fossem esclarecidos. Recusaram-mo.
Sabem agora que se quis esconder-lhes a verdade. A França não está libertada, visto querer-se que ela desconheça a verdade.
Nada temia: destruiria, reduzindo a nada, os agravos, perversos. Combateram-me sempre, com a mentira, e eu destruiria a mentira. Falseou-se a minha personalidade para incitar contra mim o ódio; essa falsa personalidade cederia o lugar ao homem que se apresenta de cara descoberta e que conhece bem os adversários. Foi desta segunda personalidade que se temeram e a quem se quis abafar a voz. Apresentaram-me como um ser pernicioso, como um astucioso, quando lutei sempre com a inteligência virgem e simples de um filho do povo.
Apresentaram-me sempre como um inimigo do povo, quando aqueles que me conhecem sabem bem que o defendi. Vou adormecer no sono eterno. A minha consciência está em paz. O remorso atormentará, talvez, aqueles que, não me conhecendo, me mancharam e torturaram. Ele oprimirá certamente, um dia, aqueles que mandaram assassinar-me. Lastimo-os mais do que os odeio, porque o ódio que os inspira nunca residiu na minha alma.
Choro pela minha família a quem faço sofrer.
Desejo para a minha pátria que tanto amo, a felicidade e a liberdade que lhe roubaram. Encontrá-las-á de novo, um dia, com uma outra moral e com outros guias.
Espero e receberei a morte com serenidade, porque a minha alma sobreviverá. Prefiro a morte às grilhetas.»

Pierre Laval, in «Laval Fala», Notas e Memórias redigidas na prisão de Fresnes de Agosto a Outubro de 1945. Ed. Parceria António Maria Pereira. Lisboa. s/d.

Mais sobre Laval no "Santos da Casa": "Colaborações".

Publicado por FG Santos às 10:39 PM | Comentários (1)

outubro 14, 2005

Prisa

Se:
- tens entre 23 e 30 anos;
- és licenciado em Comunicação Social;
- falas e escreves fluentemente Castelhano;
- ambicionas uma carreira num grande grupo de comunicação;
- te consideras uma pessoa de esquerda;
- não achas incompatível esta característica com o funcionamento de uma economia de mercado;
- achas que o Estado deve exercer alguma regulação da economia;
- para ti a a palavra "utopia" é a chama que ilumina as tuas acções;
- segues com atenção as acções anti-globalização;
- tens um espírito impecavelmente ibérico;
- coleccionaste avidamente os editoriais de Luís Osório na defunta "Capital";
- acreditas que Gramsci tinha razão e que estás disposto a fazer a tua parte nesse sentido;
ENTÃo, junta-te a nós, candidata-te a um lugar na TVII (Televisão Ibérica Ideológica), faz parte do grande grupo de comunicação Prisa.
Contribui para que juntos ponhamos a liberdade de expressão... na prisa!

Publicado por FG Santos às 12:05 PM | Comentários (6)

Só para os humanos...

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(Desenho de Chard, "Rivarol".)

Publicado por FG Santos às 11:51 AM | Comentários (1)

Ausência

Tendo habituado os meus leitores a uma certa regularidade de actualização de textos, devem ter estranhado a minha apatia desta semana. Ela deriva de ter que dividir o meu tempo entre a assistência à família num hospital e o trabalho, que tento fazer em menos de metade do tempo habitual. Penso que para a semana podemos esperar o regresso ao ritmo habitual de actualizações deste espaço.
Entretanto, amanhã farei o possível para registar aqui uma efeméride triste mas que não pode passar em claro num blogue que nutre grande admiração pela vítima em causa.

Publicado por FG Santos às 11:45 AM | Comentários (2)

outubro 11, 2005

Quando as crianças brincam

Aos meus amigos

dedico este poema de Fernando Pessoa:


Quando as crianças brincam
E eu as oiço brincar,
Qualquer coisa em minha alma
Começa a se alegrar.

E toda aquela infância
Que não tive me vem,
Numa onda de alegria
Que não foi de ninguém.

Se quem fui é enigma,
E quem serei visão,
Quem sou ao menos sinta
Isto no meu coração.

(5-9-1933)

Publicado por FG Santos às 10:56 PM | Comentários (4)

outubro 10, 2005

Rescaldo eleitoral

Primeira constatação: o Bloco Central está vivo e de boa saúde. A bem dizer, se há quem nunca sofra verdadeiramente derrotas nas eleições que se vão efectuando neste país é ele mesmo: hoje o PS baixa a sua votação e o PSD sobe, amanhã dá-se o inverso - mas a soma dos dois irmãos quase gémeos não sofre verdadeira erosão. Nisto, o voto dos portugueses é francamente previsível; apetece dizer que, com a excepção dos surpreendentes 18% obtidos pelo PRD em 1985 (quando Cavaco, o tal que "não tinha biografia" [Soares dixit], conquistou a primeira vitória em legislativas, com 30%) e da primeira maioria absoluta do natural de ex-Poço de Boliqueime (entretanto rebaptizado Fonte de Boliqueime - que um PM não nasce num "poço", pode é para lá conduzir o país), os resultados eleitorais em Portugal são razoavelmente previsíveis.
Assumindo que o CDS-PP valerá cerca de 7-8% dos votos, podemos retirar às diversas coligações que fez com o PSD e o PPM a sua parte e extrapolar o total do PSD "não coligado", chegando a uns 35%, sensivelmente o mesmo que o PS. Ora 70% dos votos atribuídos a apenas duas forças políticas configura claramente um cenário de bipolarização.
Os "amigos de Cuba e da luta dos povos" lá vão resistindo e, como habitualmente, conseguem bons resultados nas autárquicas, mercê do voto alentejano e de alguns subúrbios lisboetas de forte tradição operária; o mito da boa gestão comunista - que não passava disso mesmo: de um mito - não tem apelo na juventude, tendo ao longo dos anos bastiões vermelhos como Amadora ou Loures mudado de mãos.
O BE, sempre na vanguarda de tudo o que é anti-nacional, armando-se em donzela virgem de pecados, lá conseguiu a recondução da autarca ex-CDU de Salvaterra de Magos. Com 3% do total de votos, tendo concorrido em pouco mais de um terço das câmaras, o balanço não é especialmente famoso.
A análise para os outros partidos é difícil de fazer porque concorreram a muito poucas câmaras. O PCTP/MRPP mantém bons resultados em alguns locais, como na freguesia de Marvila, em Lisboa (2,7%) ou no concelho de Serpa (com quase 6%!).
O PNR concorreu a apenas 5 câmaras, tendo obtido 0,28% no concelho de Lisboa (um modesto crescimento de 0,07%), 0,39% em Loures e 0,56% em Cascais. Já a votação no concelho do Porto (0,09% correspondentes a uns irrisórios 121 votos) é de estranhar, por tão baixa.
Conferir todos os resultados no site oficial do Ministério da Justiça.

Publicado por FG Santos às 02:40 PM | Comentários (0)

O regresso dos "anjinhos"

Les Daltons se rachètent.jpg

Vítimas de cabalas, de invejas partidárias, de magistrados injustos, os "anjinhos" estão de volta: Isaltino Dalton, Fátima Dalton e Valentim Dalton regressam em força à presidência das câmaras que lhes deram fama e que, noutro regime, lhes dariam a cadeia. Só Averell, perdão, Avelino Dalton ficou a chuchar no dedo. É que o "bom povo" não gosta de pára-quedistas - que fosse fazer campanha para Marco Gulch, agora em Amarante Creek não tinha hipótese.

Publicado por FG Santos às 01:51 PM | Comentários (2)

outubro 09, 2005

Contagem de votos

Um problema no servidor do Stape está a adiar a divulgação dos resultados eleitorais. Será que o "choque tecnológico" socrático tem inspiração... neo conservadora?!

Publicado por FG Santos às 09:44 PM | Comentários (0)

Pouca vergonha

Pela segunda vez, um indivíduo que foi Chefe de Estado deste país tão mal tratado viola a lei eleitoral, apelando ao voto... no próprio filho. A pouca vergonha não tem limites. Como disse António José de Brito, « só neste regime pode [Mário Soares] ser considerado um grande vulto. Sabe uma coisa? Portugal tem um problema gravíssimo, uma doença na coluna, que é a falta de espinha dorsal. O problema é que os ortopedistas não chegam à classe política...»
Entretanto, em dia eleições autárquicas, subscrevemos o desejo de Luís Bonifácio: «Que o pior vos aconteça».

Publicado por FG Santos às 06:20 PM | Comentários (5)

outubro 08, 2005

Um ano com alguns milagres

Faz hoje, dia 8, precisamente um ano que nasceu este blogue. Em Abril de 2004 descobrira de uma assentada o “Nova Frente”, o “Último Reduto” e o “Sexo dos Anjos”. Que descoberta fantástica! Na ressaca do passamento de Rodrigo Emílio e no aproximar de mais um 25 do 4, a actividade e criatividade daquelas casas excelentíssimas era fascinante. Que alegria para um leitor em busca de análises, estética, gostos, sensibilidade às direitas – não daquela direita a dar para o encurvado mas da verdadeira: orgulhosa dos seus valores, desprezadora dos demolidores de pátrias e soberanias, amante dos grandes defensores de ideais, prezadora da Tradição eterna, cultivando ao mesmo tempo uma sensibilidade futurista marinettiana.
Para falar na génese do “Santos da Casa” tenho que falar desses três blogues. Sem menosprezo por tantos outros que são minha leitura diária, a minha vontade de criar um espaço próprio nasceu com a leitura daqueles. Tive mais tarde o privilégio de conhecer o Bruno e o Pedro, gente de boa cepa, de pena escorreita e princípios sólidos, cultos e nada petulantes.
Depois fui descobrindo “A Casa de Sarto” (o J. Sarto é para mim o blogueiro com a mais impressionante clareza de exposição, um verdadeiro fenómeno; com o Rafael aprendi a ver a questão ibérica “do outro lado” - e se nenhum de nós mudou muito a sua maneira de ver, ganhou-se uma amizade muito especial), o “Pasquim da Reacção” (do meu amigo e “professor” Corcunda, uma pessoa que surpreenderia muita gente se o conhecessem pessoalmente), o “Pena e Espada” (do combativo Duarte, grande organizador de tertúlias), o “Fascismo em Rede”, o lamentavelmente extinto “Porta Bandeira”, “Cegos, Mudos e Surdos” (do irónico A., o grande “amigo” do Buiça), “O Velho da Montanha” (um abraço forte ao JM) e outros menos “reaças”, como o “SG Buiça” (tenho “pegas” com o autor há ano e meio e parece que ainda nenhum de nós se cansou), o “Super Flumina”, o “Nova Floresta”, o “Geraldo sem Pavor”, o “Blogville”, o “Claque Quente”...
Estes os blogues que lia antes de criar o meu próprio. Quando o momento chegou, beneficiei da divulgação de uma rede (conceito bem caro ao Camisanegra) de blogues amigos, que divulgaram amplamente o novo espaço. Propus-me falar menos de política nacional (que, confesso, me cansa profundamente) e mais de “negócios estrangeiros”, de literatura, de música. Com o tempo, a doutrina, os princípios, as polémicas do nacionalismo foram ganhando o seu peso. Não digo que tentei ser o meio termo entre os “passadistas” e a “nova geração”, entre os adeptos do Portugal pluricontinental e multirracial e os defensores de um Portugal fechado à imigração. Não. Tentei, isso sim, e creio que sem grande sucesso, pois os campos têm-se extremado, quer em termos de declaração de princípios quer pelo tom acrimonioso que se foi gerando, fazer ver que ambos os campos têm virtualidades e que uma síntese do que de melhor há nos dois seria algo de vantajoso: nos primeiros, o orgulho da nossa história, uma consciência de Pátria muito viva, a base doutrinal; nos segundos, a aguda percepção de que Portugal e o mundo ocidental caminham para o abismo, seja pela via da imigração desregrada, seja pela omnipresença do politicamente correcto em quase todas as instâncias do nosso dia-a-dia; de comum, ambos têm alguns princípios: defesa da vida e da família, da soberania nacional, orgulho pela Pátria. Aquela síntese é possível? O futuro o dirá. O mais difícil é partir de um consenso inicial sobre quais os princípios de que se não pode abdicar, ou seja, o que é que é verdadeiramente essencial e o que é acessório, isto é, “negociável”. É trabalho para muitos anos, saibamos honrar o passado de Portugal com o pensamento nos nossos filhos.
Um blogue, por muito narcisista que possa ser o seu autor, vive para os seus leitores. Conhecê-los é fundamental, obter deles comentários fulcral é – para situar a “clientela”, para ter outros pontos de vista, para aprender. E os leitores menos dados às nossa ideias impedem-nos de funcionar em circuito fechado (mesmo que inconscientemente), levam-nos a reflectir sobre o que escrevemos, trazem-nos outras perspectivas.
E depois há leitores especiais, que nos incentivam, que não nos deixam parar. Além dos citados, outros há que (ainda) não decidiram criar o seu blogue mas que são inestimáveis pelo apoio que concedem, mesmo quando não concordam com o que por aqui se escreve: JLL (com a serenidade de quem está uma geração à frente da minha), Mendo Ramires (um autêntico moralizador das “tropas nacionais”), NC (uma voz da “nova geração”, alguém que não nos deixa descansar, no bom sentido), o Miguel Jardim, o Legionário e o Nonas.
Outros blogues fui descobrindo com o tempo, como o excelente “A Arte da Fuga”, o “Batalha Final” do aguerrido Rebatet, que, modéstia à parte, devo ter sido o primeiro ou segundo a dar a conhecer, o “Interregno” do meu estimado consócio “pastel” JSM, o “Orgulhosamente Só” (onde não há meias-palavras), “Anjos e Demónios”, “Berra-Boi”, o “Lóbi do Chá”, "Actos Irreflectidos“ (outro sofredor "pastel"), "Ao Sabor da Aragem", "O Insurgente”, “Through the Looking Glass” (cujo autor quase nada tem em comum comigo, sendo que ambos cultivamos uma afabilidade mútua de quem respeita “o outro campo” quando se defendem as ideias com lisura e sem dogmatismos), o recente e já obrigatório “Euro-Ultramarino” e, last but not least, “O Misantropo Enjaulado” do meu amigo Paulo Porto, sem dúvida o blogueiro português que mais publica, desde análises de política internacional (demasiado indulgentes para com o estado hebraico – esta tinha que escrever, Paulo!), a poemas e pintura, sem esquecer algumas fotos que fazem salivar o Buiça!
Um último e especial abraço para o Manuel Azinhal, que foi o primeiro a anunciar o nascimento do “Santos da Casa”: que o horizonte infindo da planície continue a ser a inspiração para o Ideal que nunca se abandona, mesmo que nunca se alcance.

Publicado por FG Santos às 12:05 AM | Comentários (21)

outubro 07, 2005

As Autárquicas cheiram mal

Possivelmente, exceptuando as Eleições Europeias, nunca uma campanha eleitoral despertou tão pouco interesse entre os portugueses.
Trinta anos de eleições, com o seu cortejo de promessas e subsequente desmentido da realidade (essa chata); a existência de um bloco central, o extremo-centro, que alterna (palavra marota) no poder, saqueando os fundos públicos com maior ou menor despudor; a constatação de que o chamado poder local tem sido a forma de enriquecimento mais rápida para construtores civis e autarcas que lhes fazem os fretes; a falta de nível crescente da classe (termo que há muito é desadequado a esse colectivo) política, com a face mais visível que são os debates, onde se esgrimem argumentos menos do que se descamba em insultos; tudo isto contribuiu para que os eleitores se desinteressassem destas eleições.
A juntar ao que vai escrito acima, tornou-se moda as acusações anónimas, de que já aqui demos um exemplo, e que agora tem sequela em Lisboa.
O Zé Povinho, como bem caracterizou Bordalo Pinheiro, lá vai fazer o manguito mais uma vez - uma forma de contestação que expressa mais a sua impotência do que real vontade de mudança radical deste estado de coisas.

Publicado por FG Santos às 05:06 PM | Comentários (0)

outubro 06, 2005

À grande e à francesa

Escudando-se na sua imunidade, Jacques Chirac tem conseguido fugir às acusações de corrupção e desvio de fundos públicos de que é alvo, relativos ao período em que foi maire de Paris. O que é certo é que a maior parte dos franceses e dos analistas internacionais não acredita na boa fé do Presidente.
Sempre pronto a exaltar os "valores republicanos", tentando gerar reflexos pavlovianos numa opinião pública maioritariamente rendida aos valores da Revolução, fá-lo em momentos de crise, seja o "não" ao Tratado Europeu, seja a famosa 2ª volta das presidenciais de 2002, que disputou com Jean-Marie Le Pen, seja quando a contestação nas ruas sobe de tom, principalmente em momentos em que o Executivo tenta alterar as leis que blindam qualquer tentativa de modernização da economia e das relações de trabalho.
O que é certo é que Chirac personifica na perfeição a velha máxima de Sir Arnold (da série britânica "Yes, Minister") do "princípio da relação inversa": «quanto menos se pretende fazer algo, mais se fala sobre o assunto» - ou, em bom Português: «olha para o que eu digo, não para o que eu faço.
Valores republicanos. Se estiver a pensar em valores de "el contado", dinheiro, regalias, prebendas, privilégios absurdos de que os democratas tanto gostam, então percebemos a coisa. Mais ainda quando é revelado que o orçamento anual do Eliseu monta à bagatela de 82 milhões de euros, empregando o palácio um milhar de funcionários. "À la vôtre!"

famille.jpg
(Desenho de Konk.)

Publicado por FG Santos às 06:45 PM | Comentários (1)

Mudar a bandeira inglesa?

Chris Doyle, director do Council for the Advancement of Arab-British Understanding, propõe que seja mudada a bandeira inglesa de modo a não melindrar os sentimentos da população de origem árabe residente na Ilha.
O facínora argumenta que o actual estandarte relembra um passado sangrento e que se deve encontrar um símbolo com que todos se identifiquem. Será que pensou em incluir o crescente na nova bandeira?
Mais uma vez se demonstra como o politicamente correcto está ao serviço de quantos queiram rebaixar as nações ocidentais, servindo simultaneamente uma agenda política de esquerda e os interesses de nações e/ou religiões agressivamente expansionistas em território europeu - numa palavra: traidores ao Ocidente.

Publicado por FG Santos às 04:28 PM | Comentários (3)

outubro 05, 2005

Votação na Internet

Votação no portal Sapo - resultados às 23.59 do dia 5:

Portugal devia ter um regime:
1: Republicano (5171 votos - 49 %) 2: Monárquico (5382 votos - 50 %)
Total de votos obtidos: 10553
Esta pesquisa de opinião teve início em: 2005-10-04 19:30:07

Publicado por FG Santos às 11:59 PM | Comentários (2)

Surpresa na rádio

Hoje, como faço todos os dias, ouvia a Antena 2. Aproximávamo-nos das 18.00 horas, altura em que vai para o ar nessa estação de rádio um dos raros noticiários que por lá são apresentados. Sendo o dia que é, dispus-me a desligar o aparelho, para não ter que aturar uma recensão dos pacóvios discursos alusivos à implantação da relespública. Mas acabei por ficar a ouvir. E tive uma boa surpresa: o apresentador lembrou não só a data funesta de 1910 mas também 1143, frisando que esta última data, que pode ser tida como a da fundação da nacionalidade, era esquecida pelos governantes: “enfim, prefere-se celebrar um regime em vez de celebrar o País”. Extraordinário que numa rádio pública fortemente politizada (adivinhem em que sentido) ainda haja quem não pense pela cartilha politicamente correcta. E o apresentador ainda fez uma súmula de algumas (não tinha a tarde toda para ser exaustivo...) das malfeitorias praticadas nestes 95 anos: “a República não tem, assim, grandes motivos para orgulho”. Alguém já está de fora da próxima vaga de promoções na RDP.

Publicado por FG Santos às 11:43 PM | Comentários (1)

Glória a D. Afonso Henriques, nos 862 anos do Tratado de Zamora

Com tal milagre os ânimos da gente
Portuguesa inflamados, levantavam
Por seu Rei Natural este excelente
Príncipe, que do peito tanto amavam;
E diante do exército potente
Dos imigos, gritando, o céu tocavam,
Dizendo em alta voz: real, real,
Por Afonso, alto Rei de Portugal!

Luís de Camões, "Os Lusíadas", Canto III.

Publicado por FG Santos às 04:13 PM | Comentários (2)

Ao Serviço d'El-Rei

«Foi aos 5 de Outubro de 1910... O Rei, o grande Rei D. Carlos I, baqueara na trágica emboscada do Terreiro do Paço, vítima expiatória dos «males que de longe vinham» e que naquele torvo Inverno de 1908 ali encontraram triste epílogo escrito a tiros por celerados.
Seu Filho, o Príncipe Real, esse esbelto rapaz que fora educado por Mouzinho de Albuquerque, também caíra ao lado do Pai, como português e soldado: a defender o seu Rei.
Nos dois anos que se seguiram ao regicídio, a monarquia liberal, já perdida, agonizou lenta e inexoravelmente. Era um regime que nos fora imposto pela força do dinheiro e das armas estrangeiras, sem raízes na alma do povo e que, destruidor e ateu na alvorada, evoluindo, não conseguira mais do que tranformar-se em parasitário e regalista.
A República veio assim, mentirosamente, como protesto e esperança. Protesto contra a deliquescência de um sistema governativo que se tornara odioso à força de compadrios, que se tornara caduco pela estafada repetição de programas partidaristas sem finalidade. (...)
Mas a República foi desde o primeiro dia, no nosso país, aquilo a que Maurras chamou lapidarmente la vraie république... Ela teria sido aliás sempre igual a si mesma, independentemente do quilate moral e intelectual das suas mais destacadas figuras, entre as quais se contam verdadeiros malfeitores com cadastro de negros crimes de lesa-pátria, ao lado de sinceros idealistas e até de valores autênticos que a sua máquina governativa implacavelmente triturou. (...)
Aqueles que serenamente olhem a vida portuguesa hão-de convir que o sistema governativo que a República veio substituir encontrou ampla justificação na catastrófica existência do novo regime. O compadrio, o suborno, o oco palavreado, a cafrealidade alucinante e sem peias, eram realidades que faziam recordar com saudade algumas virtudes que o «liberalismo» conservara ainda da Monarquia Popular, excelente e paternal, que fez e engrandeceu a Pátria Portuguesa. Monarquia a que a ditadura pombalina atirara as decisivas machadadas, quebrando despoticamente o equilíbrio da comunidade nacional e pervertendo o Estado. (...)
Sim, desilusão a República demagógica com o seu cortejo de escândalos, greves, assaltos, tumultos, bombas e fome... Desilusão a Aventura Sidonista, de sangrento epílogo, que deixou a Nação mais desamparada e a República mais envilecida. Desilusão, finalmente, a República do Estado Novo, a envelhecer dia a dia, sem finalidade e sem continuidade, sob o signo fatal do transitório e do efémero...»

Manuel de Bettencourt e Galvão, “Ao Serviço d’El-Rei”, Edições Gama, Lisboa, 1949.

Publicado por FG Santos às 03:57 PM | Comentários (2)

outubro 04, 2005

Big Brother is watching you

Imagine que, onde quer que vá, os seus movimentos são observados. Nem um minuto do seu dia passará sem ser visto. Imagine, assim, que lhe põem uma pulseira que transmite em imagens aquilo que faz.Esta situação pode durar até um ano.
Lembrou-se certamente de Winston Smith, o personagem de "1984" que, em desesperado recurso, descobriu um recanto da sua casa onde o Grande Irmão o não podia ver - era o seu cantinho de liberdade.
A ser aprovado o projecto de lei que regulamenta o uso da pulseira citada, a Austrália pode tornar-se no primeiro país do mundo a seguir o exemplo orwelliano. Alegadamente para combater o terrorismo; mas quem é que garante que a lei não pode ter um campo de aplicação mais vasto e, em última análise, ser aplicada para combater alguns opositores do Governo?
Em nome do combate ao terrorismo, o mundo dito livre caminha cada vez mais para se tornar um estado policial, a uma escala que nem Estaline teria imaginado possível.

Publicado por FG Santos às 06:00 PM | Comentários (0)

outubro 03, 2005

Exemplo

D. AFONSO HENRIQUES

Pai, foste cavaleiro
Hoje a vigília é nossa.
Dá-nos o exemplo inteiro
E a tua inteira força!

Dá, contra a hora em que, errada,
Novos infiéis vençam,
A bênção como espada,
A espada como bênção!

Fernado Pessoa, “Mensagem”

Publicado por FG Santos às 11:46 PM | Comentários (2)

A República, filha do terrorismo

O PR deste pobre país homenageou sentidamente as vítimas do Tarrafal. O que ao dito personagem nunca ocorrerá é que o regime que lhe permite estar no poleiro tem uma base terrorista. O seu silêncio é o da conivência cobarde e sem princípios, algo a que já nos habituou de há muito.

Prosseguimos, assim, a nossa série de textos sobre a longa noita republicana:

«O povo português ao consentir na implantação da República deve ter cometido um dos mais graves erros da sua história. Perturbado e atónito perante o regicídio, crime organizado por um «complot» de mais de três dezenas de importantes individualidades políticas, aceitou com a República a abertura duma crise institucional que se tem vindo a agravar até aos nossos dias. Sem o regicídio não teria sido possível o cinco de Outubro e talvez Portugal enfileirasse hoje ao lado das democracias coroadas e desenvolvidas da Europa. (...)
A República não nasceu, em Portugal, da livre evolução pacífica das instituições, mas sim dum acto de força duma minoria que derrubou a Instituição Real.
O regime republicano foi implantado (tenhamos a coragem de o reconhecer) por uma sociedade secreta e terrorista, a Carbonária Portuguesa que, aproveitando-se do medo e da confusão derivados do assassinato do Rei e do Príncipe Real, arrastou para a rua as figuras mais significativas, no plano das ideias, da oposição ao regime.
António José Saraiva, numa entrevista, afirma: «A República não foi imposta pelos republicanos mas por uma organização secreta que se chamava a Carbonária Portuguesa».
Por sua vez, na tradicional cerimónia comemorativa da implnatação da República, Ramon de La Féria declarou: «A vitória pelas armas no 5 de Outubro deve-se decisivamente à Carbonária Portuguesa», tendo no mesmo discurso condenado o terrorismo como meio de protesto, esquecendo-se de que a citada organização não era mais do que uma associação terrorista responsável pela morte do Rei e do Príncipe herdeiro.
Não há, no dia 5 de Outubro, consenso nacional que justifique a implantação da República, nem tendo havido após tal acção um plebiscito que ratificasse o novo regime.»

Gonçalo Ribeiro Telles, “Para Além da Revolução”, Edições Salamandra, Lisboa, 1985.

Publicado por FG Santos às 11:29 PM | Comentários (2)

Vêm aí os turcos!

Mais uma vez a UE assume a fuga para a frente e força a nota nas negociações para a adesão da Turquia ao “monstro”. A oposição da Áustria, que não se percebe se foi sincera ou para marcar uma posição para consumo interno, foi fraca perante a pressão dos restantes estados-membros, aparentemente ansiosos por ver a fronteira da Europa (sic) chegar à Babilónia.
Os problemas da Turquia são conhecidos de todos: nível de vida bastante abaixo do da média da UE, emigração tendencialmente crescente, repressão da minoria curda, repressão política, prisões onde o tratamento reservado aos condenados é inqualificável, islamismo cada vez menos tímido apesar dos limites constitucionais e da “vigilância” da cúpula militar, recusa em reconhecer o genocídio arménio de 1915 e, claro, fronteiras com países tão estáveis e pacíficos como o Iraque.
A Europa prossegue a marcha para o seu enfraquecimento progressivo, perante o ar deliciado dos EUA.

Publicado por FG Santos às 11:04 PM | Comentários (0)

João Pedro Dias de regresso

Um dos mais perspicazes e inteligentes blogueiros da nossa praça está de regresso. João Pedro Dias, cujas ideias nem sempre partilhamos (nomeadamente na questão europeia), regressa com a "Política Pura", nome que resgata das trevas virtuais.
Desejamos ao seu ilustre autor que não abandone a barca e que continue o bom trabalho blogosférico que interrompera.

Publicado por FG Santos às 04:00 PM | Comentários (2)

Sujeira política

Resido no concelho de Oeiras. Hoje de manhã estava preso no limpa-pára-brisas do meu carro uma fotocópia com a fotografia da candidata do PSD à camara local, Teresa Zambujo, e única possibilidade de os oeirenses se verem livres do Dr. Isaltino de uma vez por todas.
E que dizia o tal papel? "Credibilidade é: Teresa Zambujo possuir 387 mil contos na conta bancária, 203 mil contos em acções, terrenos em Évora e Arraiolos, três imóveis em Algés, casa em Sesimbra, outra em Alcântara e várias viaturas de luxo? (Declaração de Rendimentos entregue no Tribunal Constitucional.) Obteve este património com o salário de funcionária pública? NÃO. Enquanto presidente da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional de Lisboa e Vale do Tejo, beneficiou família e amigos em negócios de exploração de areias. E depois lucrou!"
O prospecto era encimado pela interrogação "Um exemplo a seguir???" (lema da campanha de Zambujo).
Escusado dizer que tais "revelações" não têm autor, o papel podia ter sido feito por qualquer um, com o propósito de denegrir a candidata do PSD. Desconheço qual o grau de veracidade destas afirmações; como eu, certamente 99% dos munícipes. Mas lança-se no espírito das pessoas a sombra da dúvida: então aquela senhora, que nos pergunta "que valores quer para Oeiras?" ainda é pior que o Isaltino? Pois não parece haver dúvidas é sobre a proveniência do documento. Se os "factos" evocados são verdadeiros e documentáveis, porquê denunciá-los em documento apócrifo? A consequência provável vai ser a transferência de intenção de voto de alguns eleitores em prol da abstenção ("tudo o mesmo"), o que poderá ser suficiente para o "impoluto" adversário de Zambujo cantar vitória.

Publicado por FG Santos às 02:16 PM | Comentários (5)

Chances da Monarquia

Para Rodrigo Emílio não eram muitas as hipóteses de restauração, quanto mais não fosse pela inacção portuguesa (termo que remete para a "inaccion française" de que falava Rebatet nos "Décombres" a propósito do movimento maurrassiano). Mas também pela incapacidade de não abdicar dos princípios que testemunhavam os monárquicos portugueses.

«Se eu não fosse o monárquico que de facto sou, estaria agora filiadinho no P.P.M., ou haveria dado oportunamente a minha adesão ao Partidinho Liberal ou teria andado, inclusivamente, pela Convergência Monárquica, a tirocinar-me, com tempo de sobra, para a democracia...
Parecerá tudo isto um contra-senso, mas não é. Aqui, em Portugal, está visto que os monárquicos propriamente ditos tendem, cada vez mais, a ser (e a sê-lo) cada vez menos; e se nesse número, extremamente dígito, eu me incluo, é porque tenho a plena consciência de ser um monárquico, doutrinado como tal, a cem-por-cento.
Demais a mais, dá-se comigo um fenómeno verdadeiramente singular: ao contrário da esmagadora maioria dos nossos monárquicos, eu acho que, para um súbdito da ideia dinástica, o que é importante não é morrer-se placidamente monárquico, mas lutar, isso sim, activamente, para se viver em monarquia. E, neste capítulo, a inaction portugaise tem sido, simplesmente, total e absoluta.
O sentimentalismo pré-primário, e o expectativismo contemplativista, que caracterizam, desde há muito, a causa da Realeza em Portugal, cedo a converteram numa causa... sem efeito. E agora, então, muito mais reduzidas do que nunca se me afiguram as probabilidades de que a solução monárquica ainda possa vir a ser uma solução nacional. Cá por coisas...»

In A Rua, n.º 118, pág. 22, 14.09.1978.

Publicado por FG Santos às 12:12 PM | Comentários (4)

outubro 02, 2005

Sobre a eterna polémica nacionalista

No blogue "Mas o rei vai Nu!" desatou-se nova polémica entre os impropriamente apelidados "Minhó-timorenses" e os ditos racialistas, personificados respectivamente por Engenheiro e Rebatet.
Como habitualmente os equívocos de parte a parte foram numerosos. Faz bem o Engenheiro em evocar o desígnio nacional e a comunidade de destino histórica? Aparentemente sim, mas se o fizer contextualizando precisamente o momento histórico. É evidente que os angolanos, moçambicanos, etc., já fizeram parte dessa comunidade. Mas hoje, volvidos trinta anos sobre a descolonização, qual o sentido de abarcar na comunidade de destino portuguesa quantos são nacionais de países que se quiseram separar de Portugal? Porque é que o nosso país há-de albergar no seu seio ad infinitum populações que se orgulham da sua independência?
Muitas vezes nacionalistas como Rebatet cometem a injustiça (e a cegueira) de desprestigiar a nossa gesta colonial; embora não pareça ser essa a postura do nosso amigo blogueiro, não deixou deixou de me entristecer vê-lo a gozar pura e simplesmente com a fotografia aposta no texto do Engenheiro. Em que ficamos? Reconhecemos a nossa história ou não?
Uma coisa é certa: a singularidade histórica evocada pelo Engenheiro derivou do período colonial. Findo este, não tem sentido continuar a falar em Nação multirracial, multicultural, etc. Temos o dever de albergar os que se sentiram órfãos da descolonização ao tempo da mesma mas não há motivo para o fazer com quantos agora demandam a antiga Metrópole, a não ser dentro dos limites de uma sábia política de imigração, limitadora dos fluxos e sem discriminações positivas a favor das ex-colónias.
O destino de Portugal está em parte ligado ao da Europa mas também, e muito em particular, ao do Atlântico - e as nossa relações comerciais só teriam a ganhar com um maior intercâmbio com as Américas. Alegra-me ver que Rebatet não estima "esta" UE, mas fico sem perceber se estimaria "outra" UE. A Europa pode e deve ser uma comunidade de Nações livres e independentes, com relações privilegiadas entre si mas sem abdicação de soberania; caso contrário perde-se razão de invocar a palavra nacionalismo; creio que Rebatet não vai por aí - e ainda bem. Se queremos largar a herança da II Guerra, isso implica largar os projectos pan-europeístas de um Drieu, por exemplo.
E tem razão Rebatet em atacar o triste exemplo do Alabama: como é que se sentiria o Engenheiro se fosse um agricultor branco da antiga Rodésia a viver sob a autoridade de um Mugabe?

Publicado por FG Santos às 12:25 PM | Comentários (10)

outubro 01, 2005

Doutrina Monárquica

Prosseguimos a nossa evocação dos 95 anos de infâmia republicana com uma breve visão do que deve ser a Monarquia pela pena de Caetano Beirão, a qual sintetiza em espírito o princípio Integralista: buscar na Tradição a inspiração para a organização da sociedade, com os olhos no Futuro.

«Doutrina Monárquica

Para se fazer, hoje, a Monarquia, em Portugal, é preciso, primeiro que tudo, definir a doutrina monárquica, e, depois, propagá-la, exaltá-la, impô-la, pela persuasão, ao País, que dela anda bastante esquecido.
O País necessita de ser elucidado sobre o que lhe convém e para onde se deve ir. Há que recordar-lhe os princípios, as vantagens, e a necessidade da Monarquia, para ele assim saber evitar o regresso à engrenagem sediça e desacreditada do sufrágio político, da balbúrdia dos partidos, da Democracia, enfim, ante-câmara do Comunismo.
Tal missão incumbe primordialmente à Causa Monárquica — deve ser esse o seu principal fim —, pois uma Causa sem doutrina não passa dum partido que pretende escalar o poder. Uma Causa — na acepção elevada do termo — é uma doutrina em acção.
Mas um jornal cultural de rapazes universitários monárquicos tem também por primacial dever enunciar os princípios base da Monarquia futura, para depois os estudar, os discutir, os desenvolver, e os relacionar com os problemas sociais da hora presente. Por isso bem avisada andou a Mensagem, formulando as bases aqui publicadas e arvorando-as como sua bandeira, para que sobre elas dissertem os seus colaboradores.
Reconheçamos desde já que tais bases nem são o produto duma construção a priori, formulada por teóricos de gabinete, nem tão pouco o chamariz fácil arquitectado por tribunos da plebe para o engodo dos amadores de novidades. São as características essenciais, permanentes, da nossa Monarquia, vincadas e experimentadas através dos séculos, que deram feição ao Estado português, à própria Nacionalidade, e com ela se confundem. A degenerescência da Monarquia absolutista, e, depois, da pseudo-Monarquia liberal, que conduziram à ruína e à catástrofe, só vem demonstrar a excelência dos princípios que informaram a nossa Monarquia tradicional e que deverão informar a Monarquia do futuro.
Isto quer dizer que a Monarquia de amanhã será um regresso a fórmulas que fizeram o seu tempo há mais de um século, e que seriam extemporâneas na complexa sociedade de nossos dias? De modo nenhum. Quer dizer, apenas que os cinco princípios aqui enunciados — que não são novos mas são sempre actuais — traduzem as verdades perenes sobre as quais tem de assentar a comunidade portuguesa para que se possa considerar integralmente e definitivamente organizada.
Nenhum deles se opõe às exigências do mundo moderno, ou ao progresso (passe o termo) a que é legítimo os povos aspirarem. Pelo contrário, a dura lição da experiência, o desvario dum século de quimeras, e as exigências da vida de hoje conduzem à conclusão de que a Monarquia orgânica, corporativa, anti-parlamentar, a um tempo tradicional e progressiva, antiga e ultra-moderna, liberta dos erros retrógados da mistificação democrática, a cuja falência a nossa pobre geração tem incessantemente assistido, — é a única fórmula perfeita, humanamente perfeita, do governo dos povos, a que lhes assegura maior soma de estabilidade, de justiça e de liberdades, a que lhes dá maior prestígio e prosperidade.
Por isso os regimes não-monárquicos só são aceitáveis e podem realizar coisas grandes quando se aproximam da Monarquia, imitam a Monarquia, caminham para a Monarquia.
Veja-se o exemplo da Espanha.
A função duma Causa de Ordem num país em ordem não é atacar e desprestigiar o Poder para conquistar o Poder, mas — pela doutrinação, pela perseverança, e pela confiança que deverá inspirar — influir no Estado, conformar o Estado, criar ambiente ao Estado para ele poder evoluir, ter de evoluir no sentido da sua estrutura definitiva, integralmente nacional.
Se, portanto, a missão primordial da Causa monárquica em Portugal é esta: — preparar a Nação e informar o Estado para a sua evolução normal, até a cristalização definitiva, — o seu primeiro dever é definir esse corpo de doutrina, arejá-lo, dinamizá-lo, impô-lo.
Ouve-se dizer às vezes: «O essencial é vir o Rei; o Rei no trono é já só por si a Monarquia.» Ora, não é assim! Durante 76 anos tivemos Rei no trono e não tivemos Monarquia senão quando o Rei, rompendo as peias constitucionais, se dispunha a governar monarquicamente. Pretendeu o Rei D. Carlos governar monarquicamente, e por isso o mataram. Porque não havia Monarquia. Havia já República, embora mascarada de manto e coroa.
Portugal não quer mais uma República estrangeirada, de manto e coroa. Quer uma Monarquia bem monárquica, bem portuguesa. Uma Monarquia em que a Nação tenha a consciência do que é a Monarquia, e em que o Estado monárquico tenha a noção do seu próprio dever. (...)»

Dr. Caetano Beirão
In "Mensagem" n.º 11, pág. 1, 22.03.1948.

Publicado por FG Santos às 08:10 PM | Comentários (2)