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março 31, 2005

Oferta e procura ou mercado de escravos?

Existe um sítio na internet de origem alemã, chamado "Job Dumping" (sic), onde se transaccionam trabalhos. Quem requere o trabalho põe o anúncio no site, propondo um valor para remuneração; depois, os candidatos, em estilo de leilão, vão propondo o "seu preço", no sentido descendente, obviamente. Claro que quem fica com o trabalho é quem oferece menos.
A polémica está instalada além-Reno, dividindo-se as opiniões entre a defesa do livre mercado e os que acham que há uma degradação da situação remuneratória de quem trabalha, incentivando-se a oferta de trabalho a custo baixo.
A ler no "Corriere della Sera".

Publicado por FG Santos às 05:22 PM | Comentários (6)

Vítimas de primeira e de segunda

«Muitos judeus americanos vêem o Holocausto como um desastre exclusivamente judaico. No entanto, pelo menos metade da população cigana, cerca de dois milhões e meio de católicos polacos, milhões de cidadãos russos e de outras nacionalidades foram vítimas do mesmo genocídio. (...) Falar de diferença moral entre os "nossos" sofrimentos e os sofrimentos "deles" [os não judeus] é uma completa inversão da moral.»
Norman Finkelstein, "A Indústria do Holocausto".

A (re)ler.

Publicado por FG Santos às 05:17 PM | Comentários (3)

março 30, 2005

Jacques Ploncard d'Assac (1910-2005)

Só anteontem é que soube, via "Lectures Françaises" do falecimento de Jacques Ploncard d'Assac no passado dia 20 de Fevereiro.
O nome Ploncard d'Assac é familiar a muitos nacionalistas (e não só) por ter sido conselheiro de Salazar. Dado ter pertencido ao governo de Vichy, exilou-se em Portugal, aqui tendo permanecido até 1974.
Conhecedor profundo da maçonaria, tornou-se um infatigável divulgador da sua perniciosa acção. Também escreveu um influente "Doctrines du Nationalisme" (com tradução portuguesa em 1962).
A partir de Lisboa, ao microfone da "Voix de l'Occident", foi uma voz infatigável contra a decadência e a perda de valores do Ocidente.
Aqui fica uma breve referência que dele fez João Ameal no seu livro «A Verdade é só uma», de 1960.

«O escritor e jornalista frances Jacques Ploncard d`Assac, há alguns anos residente no nosso pais, cuja inteligência e cultura são bem conhecidas, teve a excelente ideia de compôr este volume: O Pensamento de Salazar extraído dos seus discursos.
Ouçamo-lo expôr, no Prefácio, a génese do seu trabalho e a admiração que dedica ao Chefe do Governo Português:

— «Na confusão política que vem da segunda guerra mundial, as democracias queimaram na mesma fogueira as verdades e os erros das revoluções nacionalistas da Europa. Das cinzas, nada renasceu senão nostalgias perturbadoras. Mas quando se fizer a historia do nosso tempo há-de reconhecer-se que a doutrina de Salazar, o seu pensamento político, fora posto de reserva, no extremo-ocidente da Europa, por uma Providencia ciosa de não deixar que se extinguisse o facho da Sabedoria Política.
As justas homenagens que se dirigem a Salazar dirigem-se, volens nolens, às suas ideias. Sem elas, não seria Salazar quem é. Todas as suas qualidades pessoais, que são imensas, não podiam evidentemente conseguir que de uma doutrina de desordem ele tirasse a ordem. Quase peço desculpa destas minhas reflexões, visto poder parecer que um português teria mais autoridade pare as fazer. Entretanto, eis a minha resposta: Salazar já não pertence só a Portugal, senão a todo o homem que pensa...»
E mais adiante:
— «Muito poucos políticos poderiam tolerar hoje a comparação de afirmações feitas à distância de vinte anos. Na melhor hipótese, os textos mais recentes seriam a modificação de um ponto de vista amigo; as mais das vezes, o confronto havia de ser intolerável, pois salientaria contradições flagrantes. Que seja possível com Salazar pôr em confronto, lado a lado, pedaços dos seus discursos de 1928, de 1940 e de 1950, sem que o mais atento leitor possa descobrir uma só contradição, eis o que não é vulgar. E, ainda menos, que a sua extraordinária unidade e continuidade de pensamento transcenda o tempo».»

Publicado por FG Santos às 06:34 PM

Eleições livres no Zimbabwe

O que tem a dizer sobre as eleições no Zimbabwe o ilustre Thabo Mbeki?

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(Sunday Times, de Joanesburgo.)

Publicado por FG Santos às 05:16 PM | Comentários (1)

A Maçonaria na "2:"

Parece estar em vias de se assinar um acordo entre o canal 2: e a Grande Loja Regular de Portugal, por meio do qual esta última participará em programas daquele canal.
Finalmente vamos poder conhecer melhor os princípios que norteiam esta filantrópica associação.

Publicado por FG Santos às 04:43 PM | Comentários (1)

Tolerância e discriminação

Mais um exemplo do que é permitido, autorizado, quiçá incentivado, fazer em programas de televisão e espectáculos em geral: desde que a sátira envolva o cristianismo, não há problema nenhum, é tudo uma questão de liberdade de expressão.
Agora imagine-se satirizar o Alcorão, escarnecer na fé judaica, já para não falar em questionar certas "verdades históricas" tidas por insofismáveis: não só não há emissão como o seu incauto criador terá muito provavelmente perante si a perspectiva de uma longa travessia do deserto, a não ser que mostre arrependimento em público, dizendo que não era sua situação ofender as crenças da comunidade tal, etc., etc.
Mas se se mostrar Cristo a dizer que é «um pouco gay» ou se se blasfemar vezes sem conta - aí estamos no campo da "tolerância tradicional das sociedades ocidentais".

Publicado por FG Santos às 02:48 PM

março 29, 2005

Camião anti-discriminação

Sob o pomposo nome acima, «um camião com informação sobre o combate à discriminação estará no Porto e em Lisboa a 2 e 9 de Abril, respectivamente. O objectivo é promover a diversidade na UE».
O nosso país não poderia deixar de fazer parte do roteiro europeu deste treco-treco, pois parece que somos o quarto país da UE mais resistente (melhor dizendo, renitente) à imigração. Sendo assim, nada como promover (palavra que, em novilíngua, significa impor) a diversidade na UE. Como é óbvio, não se espera que os imigrantes se integrem nos hábitos e costumes dos que os recebem; na verdade, estes últimos é que têm que ultrapassar o seu atraso, os seus preconceitos, a sua xenofobia.
Lembram-se de como acabava o "1984" de Orwell? «Conseguira o triunfo sobre si próprio: amava o Grande Irmão».
Ocidentais tacanhos, actualizem-se!


Publicado por FG Santos às 06:02 PM | Comentários (2)

março 28, 2005

Resposta do BOS

Regressado de umas mini-férias na bela Galiza, o nosso amigo BOS só agora teve oportunidade de responder aos meus comentários à sua proposta de nacionalismo de futuro (desculpe o termo!).
Dado o interesse óbvio dessa resposta, e dado que podia passar despercebida, aqui se deixa o link para a mesma.

Publicado por FG Santos às 10:00 PM

A mais antiga guerrilha do mundo à beira do colapso

A guerrilha karen, activa desde 1948, ano da independência da Birmânia (actualmente Myanmar), está a ser alvo do que parece uma manobra organizada da junta militar no poder em Yangon (outrora Rangoon) para acabar de vez com o movimento.
A luta desta guerrilha cristã com o poder central birmanês originou mais de 140.000 refugiados, na maioria actualmente na Tailândia. Perspectivas de aumento das relações comerciais transfronteiriças entre os dois países, só possíveis num quadro de pacificação da região, poderão estar na origem desta nova vaga de ataques por parte da junta.
Entrincheirados na remota região montanhosa de Nya Moe, os rebeldes karen podem estar a viver os últimos momentos de resistência armada. Perante a indiferença geral da comunidade internacional.

Ler análise detalhada da situação no "Asia Times", de Hong Kong.

Publicado por FG Santos às 02:07 PM | Comentários (1)

A UE confiante na evolução cubana!

Para juntar aos argumentos dos que, como eu, têm o maior desprezo pela UE, fiquem sabendo que o 'kommissar' Louis Michel, de visita à democrática ilha, aconselhou os dissidentes a «não provocarem Fidel Castro», mostrando-se «muito optimista» quanto à evolução dos direitos humanos naquele país.
A cereja no bolo foi a recusa do mesmo subordinado do sr. José Barroso, outro fervoroso activista dos direitos humanos na sua juventude, de conceder apoio a um anunciado congresso de dissidentes cubanos, agrupando 300 grupos.
A ler aqui (via "The Road to Euro Serfdom".)

Publicado por FG Santos às 11:59 AM

Rodrigo Emílio , um ano depois

No primeiro aniversário do passamento do poeta e polemista Rodrigo Emílio, achei por bem deixar-vos uma evocação do mesmo sobre Salazar. Independentemente do que se pense sobre o ditador, a mensagem deixada por Rodrigo Emílio deveria ser abraçada por todos quantos amam a Pátria.
O tempo, infelizmente, deu-lhe razão, dado que os portugueses estão há muito «fatigados da sua existência como nações independentes».


SALAZAR PERMANECENTE

Salazar pertence ao número dos mortos que não devemos chorar, a menos que nos revelemos, algum dia, indignos dele. A indignidade consistiria em deixarmos que tivessem ido a enterrar com ele (aqui há um ano) os pensamentos, palavras e obras de mais de oito lustros de mestrado esclarecido e empreendedor. Então, teríamos de chorá-lo, sim, e bem amargamente, ao vermos que se dissipara toda a acção desenvolvida por ele em 42 anos de cuidados, durante os quais tratou de nos pôr «diante de coisas tão sérias como sermos ou não sermos, cumprirmos ou não cumprirmos a nossa missão no Mundo».
A Nação foi o ponto de referência cardial de todos os seus actos e, como tal, o ponto de reencontro de Portugal com as mais lídimas directrizes do seu destino.
Sob a égide de Salazar foi que nós nos soerguemos do letargo histórico em que jazíamos prostrados desde o liberalismo, e foi que de novo nos fundámos como Nação e nos erigimos como Povo às culminâncias do que nos está cometido. Estátua a toda a estatura, Salazar foi o que se impunha que fosse: um homem à medida da Nação, e à altura das circunstâncias, ainda mesmo das mais melindrosas (ou sobretudo dessas); um estadista de génio que, por largo tempo ainda, nos resgatará de todos os governantes abaixo do comum que por aí surgiram...
Ao longo de quatro décadas e tal de chefia, todas as ocasiões lhe pareceram poucas para advertir contra «tempos em que a grande divisão, o inultrapassável abismo há-de ser entre os que servem a Pátria e os que a negam. Dir-se-ia que alguns países» — observava ele, de caminho «estão fatigados da sua existência como nações independentes». Ora, não nos incluamos nós nesse número, não nos penitenciemos nunca da nossa grandeza (além-mar projectada), e já não haverá motivo de maior para chorarmos Salazar, porque é sinal seguro de que o merecemos, e de que merecemos ter sido tudo aquilo que fomos enquanto ele foi, «uma grande e próspera Nação».

Rodrigo Emílio

In Política, n.º 37, 15.07.1971, pág. 1

Publicado por FG Santos às 11:28 AM

março 26, 2005

Março, marçagão, mês de blogação!

Mais um blogue que faz um ano de vida. Enfim, não é mais um, é O Claque Quente!
Trata-se sem dúvida de um dos blogues mais originais da luso-blogosfera. Esquerdista, centrista, iconoclasta, "coureur de femmes", malcriado (!), boémio, poeta amador, lampião, nortenho, portuga até ao tutano - todos estes adjectivos descrevem de certa forma o perfil do autor, espírito demasiado livre para caber nesse molde.
Pois é esse mesmo o encanto do blogue: um olhar as mais das vezes lúcido sobre o que nos rodeia, às vezes redutor, às vezes injusto, mas se calhar o Clark não consegue ser de outra forma. E ainda bem.
A sondagem que realizou em Janeiro sobre as intenções de voto dos seus visitantes virtuais constitui um exemplo da abrangância da sua clientela, que vai de uma extrema a outra... Até do centro tem leitores!
Espírito inquieto, sem grandes certezas a não ser algumas convicções mais fortes - marcas quanto a mim de alguém que é honesto consigo próprio e com os leitores, nem que os trate à traulitada (resquícios do sangue transmontano?).
Quem de bom gosto dispensa a visita ao "Claque Quente"?
... muitos anos de vida!

Publicado por FG Santos às 03:21 PM | Comentários (3)

Não, porquê?

Grande regozijo entre os partidários do "não" à Constituição Europeia após a divulgação de sondagens que estimam que seja esse o sentido de voto dos franceses no referendo que se avizinha.
Infelizmente, vejo duas razões básicas para que não haja euforias:
- a história recente dos referendos sobre matérias europeias já mostrou que os eurocratas e eurófilos conseguem levar a sua avante: seja pelo procedimento escandaloso de repetir a consulta popular até que seja obtida a votação esperada, seja por toda a forma de pressões sobre o eleitorado, agitando fantasmas de catástrofes as mais diversas, qual delas a mais imaginária;
- para os que tencionam dizer "não" ao tratado constitucional, os motivos variam entre a rejeição da adesão da Turquia à UE (questão que não tem nada a ver com a Constituição em si) e os que defendem a chamada Europa "social", que grosso modo gera regalias em muitos casos responsáveis pela manutenção de altas taxas de desemprego no seio da UE.
Quanto ao que, quanto a mim, seria o motivo principal para o "não", a saber a machadada final na soberania das Nações europeias, possivelmente só alguns "reaças" e "xenófobos" é que o têm em mente ao votar "não".

Publicado por FG Santos às 02:41 PM | Comentários (1)

março 24, 2005

Breve História do Fascismo

felice.jpg

Alertado pelo sempre atento leitor Mendo Ramires, comprei hoje mesmo a "Breve História do Fascismo", de Renzo de Felice, com tradução de Maria Irene Bigotte de Carvalho e revisão de Ayala Monteiro, colecção Biblioteca da História, edição Casa das Letras/Editorial Notícias, Março de 2005.
O opúsculo é pequeno como o nome sugere mas tem o garante da grande erudição do autor sobre o tema em apreço, a par da sua serenidade de análise, sem complacências.
Uma óptima introdução para este período da história da Itália ou matéria para revisitação para quem já muito leu sobre o mesmo.

Publicado por FG Santos às 05:29 PM

Eleições e bombas

Um dia depois de a lista da Alternativa Sociale de Alessandra Mussolini ter sido readmitida na candidatura às eleições regionais em Lazio, explodiu uma carta armadilhada junto à sede da Fuorza Nova, partido que pertence à AS.
Um facto que não parece ter comovido a imprensa em geral.

Publicado por FG Santos às 03:52 PM | Comentários (1)

Nova Direita ou novo nacionalismo?

O "Nova Frente" apresentou aos seus leitores uma proposta muito interessante para repensar o nacionalismo à margem da eterna confrontação esquerda-direita.
Aqui deixo os meus comentários.
Concordo com o que vai escrito nos dois primeiros parágrafos, de modo que passo desde já ao terceiro e seguintes. Não percebo porque é que a Direita não pode ser liberal: por um lado critica-se o peso do Estado na economia e na sociedade, por outro não se apresentam alternativas no sentido de devolver a estas a liberdade ('liberar') de actuação e escolha sem a presença permanente da "hidra". Sou pela liberalização da economia nacional, mas mantendo controlos alfandegários que protejam sectores produtivos estratégicos para o País. Isto não é fácil de fazer sem ceder aos corporativismos. Seria necessário um departamento, sem grande peso burocrático e com agilidade de actuação, independente, que regulasse estas situações; em caso algum poderiam lá sedear militantes de partidos.
Também diz o BOS que "Como pode, demais disso, a direita moderna procurar as suas raízes doutrinárias no salazarismo, que nasceu e viveu pelo Ultramar, pelo sonho do Império e da nação multirracial, quando a própria definição geográfica da Pátria se alterou abruptamente?" Acho que esta é uma visão muito redutora do salazarismo, que defendeu antes de mais a integridade nacional; na altura isso equivalia a defender o Império; extinto este, porque é que o princípio da integridade nacional, no seu estado actual, deixará de ser válido? Seria o mesmo que dizer aos republicanos que as ideias de Afonso Costa não são válidas porque este não desbaratou as nossas colónias! O princípio da integridade nacional não difere do princípio defendido pelo articulista ("Right or wrong, my country"), que poderia de resto ter citado Salazar e o seu "A pátria não se discute", que só não coincidirá com aquele na aparência, não na substância. Mais a mais, se se diz que "o nacionalismo pode ser entendido como uma ética para a qual cada nação, enquanto nação, constitui um valor supremo", então está-se de acordo com esta perspectiva.
O meu ilustre companheiro das lides blogueiras, ao distanciar-se do salazarismo, está, creio eu, a distanciar-se da questão da multiracialidade preconizada pelo regime. Mas esta tinha sentido precisamente num quadro de defesa do Império; actualmente a questão não se põe; governasse hoje Salazar os nossos 85.000 km2 mais ilhas e ele relegaria certamente para a gaveta o "ideal" multiracial. Por isso, porquê insistir neste ponto?
"Isto quer dizer que o nacionalismo moderno afasta de si qualquer vocação "racista" ou "xenófoba", por muito que isso custe aos flibusteiros da informação." E não só a estes; basta atentar no que escrevem tantos e tantos ditos nacionalistas, que demonstram isso sim o maior desprezo pelos "outros", emporcalhando o bom nome do nacionalismo e fazendo delirar de satisfação os que o combatem, dando-lhes argumentos de sobra para o diabolizar e, quiçá, ilegalizar. Enquanto se insistir em frentismos, em "rassemblements" e não se enfrentar a questão sem pruridos, não há caminho possível para o nacionalismo - a não ser o suicídio.
Sobre a questão da soberania, nada a dizer, até porque a minha insistência no tema é bem conhecida. Controlo de imigração e políticas de natalidade: obviamente estou de acordo.
«Chegou a hora de reaportuguesar Portugal, tornando-O europeu.» Confesso que continuo sem perceber o que é que isto quer dizer. Tornando-o? Mas não o é? O que é que se pretende? Está o BOS, permita-me, obrigado (aliás já o prometeu) a dissertar sobre o que é para si a Europa e qual o nosso papel nela; como é que fica a nossa soberania; e o que é a "Europa das Pátrias" para além de um slogan?
«(...) componente tradicional» - óbvio e desejável. «(...) mas com os olhos postos no futuro, arejado nas ideias, moderno nas práticas, liberal nos costumes» - suponho que fale em abertura, em abandono do espírito tacanho que ainda nos caracteriza; como o conheço razoavelmente compreendo o "liberal nos costumes", mas confesse que é um termo um pouco equívoco...
«(...) e propondo a destino uma estética vanguardista e cosmopolita: uma política global do bom-gosto (...)». Reconhece-se aqui a inspiração de António Ferro - e não vou ser eu a discordar!
Só mais uma nota (em geral aquilo de que não falei é da minha concordância) sobre «defender o fraco do forte». Aqui não posso concordar de todo. Parte-se do princípio, bem esquerdista, de que o forte terá naturalmente propensão a abusar do seu poder, não se lhe reconhecendo o mérito eventual de ser ter alcandorado a essa posição; acho isto contraditório com a ideia de a igualdade de oportunidades permitir aos melhores exercer posições consentâneas com o seu mérito e esforço. «Distribuir equitativamente a riqueza» - pelo que vai escrito atrás não posso estar mais em desacordo: a cada um de acordo com o seu mérito e esforço, precavendo-se contudo situações de indigência.
E mais não digo, pois reconheço o notável esforço de sistematização de ideias feito pelo "Nova Frente".

Publicado por FG Santos às 10:51 AM | Comentários (13)

Homicidas

Soube-se hoje que o assassino do agente da PSP Ireneu Diniz estava a monte, após ter beneficiado de uma licença precária de nove dias. Cumpria pena pesada por homicídio.
É uma vergonha este sitema judicial que concede licenças a assassinos e depois espera que eles voltem à prisão. Os direitos humanos de que esta gente diz ser o garante são os direitos dos criminosos.
Deviam estar todos na pildra a cumprir pena por homicídio involuntário.

Publicado por FG Santos às 10:37 AM | Comentários (1)

março 23, 2005

Um ano de "Pasquim"

Cumpre hoje um ano de vida o blogue "O Pasquim da Reacção", farol da reflexão tradicionalista lusa.
Conheci-o via "A Casa de Sarto", onde o seu animador principal escrevia (cito de memória): «Mas por onde é que andava este Corcunda?»
Com uma sólida base de filosofia política, o Corcunda tem sido um autêntico educador da blogosfera, dando pistas de reflexão, desmontando mitos, sempre com o fito de realçar os sãos princípios que uma Nação deve albergar na sua base.
O blogue saltou, por assim dizer, para a ribalta blogosférica quando o autor escreveu um texto intitulado "Identitários? Não me parece...". Mal sabia o Corcunda o que o esperava! Caíram-lhe em cima os "nr" (como diz ACR), indignados pela perspectiva crítica face aos racialismos de muito nacionalista. A partir daí, o blogue ganhou notoriedade e certos textos mais polémicos ultrapassaram os 60-70 comentários...
Infelizmente, gerou-se um diálogo de surdos, que ainda hoje persiste. Daí aos insultos soezes, normalmente a coberto do anonimato, foi um passo. Mas o Corcunda, "deixou-os pousar", largou umas gargalhadas e continuou o seu caminho.
Caminho esse reconhecido por muito boa gente, desde simples leitores a autores de blogues amigos. São esses que dão alento a continuar essa aventura que é ter um blogue, a qual, levada com seriedade e empenho, representa realmente muito tempo roubado a outras actividades. Mas quem é que se arrepende disso? O fascínio da blogosfera está aí.
Parabéns ao Corcunda, alguém que passou por velho resmungão e reaccionário, saudoso do salazarismo, nostálgico do Império perdido e que afinal até gosta de punk-rock e faz surf!
Que continue a navegar no mar mais ou menos encapelado da blogosfera são os votos deste blogue admirador e reconhecido.

Publicado por FG Santos às 06:11 PM | Comentários (4)

março 22, 2005

Colaborações

Relativamente ao meu texto sobre o Marechal Pétain, o leitor F. Limpo (a quem agradeço o ter dito «os seus artigos são sempre interessantes embora eu discorde da sua perspectiva política») interroga-se sobre a natureza da colaboração com uma entidade ocupante. E escreve:«Se desculpabilizamos Petain não deveremos desculpabilizar Miguel de Vasconcelos? E então onde se situa o patriotismo? Na resistência extra-institucional ou no governo do «mal menor» colaboracionista?»
Este é um tema que dá pano para mangas, mas vou tentar dar a minha opinião em poucas linhas.
Ao contrário de Miguel de Vasconcelos, nomeado pelo ocupante, Pétain vira serem-lhe atribuídos quase unanimemente pela Assembleia Nacional os plenos poderes. E ao «fazer dom da sua pessoa» à França, sacrificou-se para poupar os franceses a males maiores, que adviriam seguramente se o país fosse governado por um gauleiter dependendo directamente de Hitler.
E era amado pelos franceses: após a "débacle" de 1940, ele era na verdade a sua única esperança. O insuspeito Henri Amouroux intitulou o primeiro tomo da sua monumental história da Ocupação "Quarante millions de pétainistes".
Quanto a Laval, sacrificou quase diria deliberadamente a sua imagem com o mesmo objectivo. Quando declara «(desejar) a vitória da Alemanha, pois caso contrário o bolchevismo instalar-se-á por toda a Europa», não podemos ver nisso uma declaração de amizade e conivência ideológica com o nazismo, mas uma forma de lhe ganhar confiança, para posteriormente conseguir do ocupante a atenuação das suas rigorosas medidas, fossem de natureza financeira, fossem relativamente à deportação de judeus.
A vergonha foi, quanto a mim, protagonizada por De Gaulle e a sua clique de Londres, que em vez de compreenderem a duplicidade de Vichy, viram neste um governo fantoche, com o puro objectivo de o denegrir e preparar o caminho para a sua futura "legitimidade".
Após a invasão do Norte de África pelos aliados , Hitler decide ocupar a zona até aí não ocupada. A filha de Laval suplica ao pai para abdicar, enquanto este lhe chama inconsciente, pois as agruras dos franceses só poderiam aumentar sem a sua presença na Presidência do Conselho.
De tal forma a sua actuação foi benéfica para a França que, perante a óbvia verdade, foi-lhe negado em tribunal recorrer à sua documentação pessoal e condenado à morte, numa paródia de justiça.

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Pierre Laval

Sugestões de leitura:
- «Laval» de Fred Kupferman (Flammarion), um livro premiado escrito por um filho de um deportado.
- «Pierre Laval devant l'Histoire» e «Mes Combats pour Pierre Laval» (ambos France Empire) do seu genro René de Chambrun.

Publicado por FG Santos às 06:41 PM | Comentários (1)

Pessoas e lugares marcantes para o "Santos da Casa"

Apesar de ser pouco dotado para as coisas da informática, lá me decidi a dar um ar um pouco menos cinzento ao blogue, inserindo imagens de vultos marcantes para a minha formação ou simplesmente marcos culturais e históricos.
Assim, temos, da esquerda para a direita, começando por cima, estátua de D. Sancho I no castelo de Silves, terra da minha afeição (por vários motivos); Miguel Torga; Louis-Ferdinand Céline; a cidade de Florença; o grande realizador indiano Guru Dutt no seu filme "Pyaasa" (1957); a maravilhosa actriz indiana Supriya Chowdhury no meu filme preferido, "Meghe Dhaka Tara" ("A Estrela Escondida") (1960), de Ritwik Ghatak; e o grande compositor austríaco Anton Bruckner (1824-1896).

Publicado por FG Santos às 04:50 PM

Portugueses de terceira

Ao ler os comentários ao texto do Clark sobre a sua visão de Europa (alguns deles no "Nova Frente"), entusiásticos na maior parte, recordo-me do que dizia o grande Miguel Torga a respeito da nossa pertença à "Europa": «tornámo-nos europeus de primeira, espanhóis de segunda e portugueses de terceira».

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- Português de primeira? Toma!

Publicado por FG Santos às 02:03 PM | Comentários (3)

março 21, 2005

Alma salgueirista

Embora raramente fale de futebol neste blogue, não posso deixar passar em claro a grande jornada vivida ontem por um clube dos mais carismáticos que existem neste país.

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O Sport Comércio e Salgueiros, vítima de desmandos vários da direcção anterior, viu-se impedido de participar na Liga de Honra, sendo relegado para a II B, Zona Norte. Dadas as dificuldades financeiras e a falta de perspectivas desportivas no curto prazo, equipa técnica e plantel desertaram, tendo o clube sido obrigado a competir com júniores. A média de idades do plantel é, alás, de 18 anos...
Como o campeonato é muito exigente, com muitas equipas experientes, não eram de esperar grandes feitos. Mas 28 jogos e 28 derrotas, mais de 100 golos sofridos (incluindo uma "cabazada" de 0-11 contra o Freamunde) são demais para o adepto mais incondicional... Mas mesmo nos jogos fora há sempre uma pequena falange de apoio. Ontem, frente ao Valenciano, finalmente o primeiro ponto: um saboroso 0-0! Um prémio para os miúdos, que segundo rezam as crónicas, têm sido de uma entrega total em todos os jogos. E para os adeptos, finalmente uma alegriazita, documentada num registo filmado de 22 segundos.
É desta cepa de gente, que luta contra todas as adversidades mas acredita sempre que o seu labor sairá recompensado, que todos os colectivos precisam. Viva o Salgueiros!

Publicado por FG Santos às 05:08 PM | Comentários (2)

Breves de um país cinzento

Neste dia tão cinzento, as breves que se seguem reflectem o estado do tempo, apesar de a chuvinha ser tão necessária para a nossa terra como o bom senso.

1) As notícias abaixo referidas prenunciam o que sempre se anteveu: o governo de centro-esquerda vai tentar estimular a economia e o emprego recorrendo à velha receita keynesiana de investimentos públicos. Junta-se-lhe a estratégia também empregue por Jospin em França de dar emprego a jovens.
Em vez de se criarem condições para os empresários investirem, é o Estado que toma a dianteira, metendo-se onde não devia ser chamado. Parece-me óbvio que passada essa vaga de investimento e apoio aos jovens o tecido produtivo português estará na mesma e voltaremos ao ponto de partida. E os investimentos verdadeiramente reprodutivos ficaram na gaveta das empresas.
«Governo prevê investimentos de 20.000 M€ nos próximos quatro anos»
«Primeira medida do Governo será empregar mil jovens»

2) "A Capital", sob a iluminada direcção de Luís Osório, tem-se afirmado como um dos paradigmas da reflexão à esquerda. Não surpreende, por isso, que nos destaques da edição online de hoje nem sequer se fale do assassinato de dois polícias na Amadora. Em contrapartida, pode ler-se uma entrevista com dois distintos membros da organização filantrópica Batasuna.

3) A propósito do drama dos dois polícias, destaque-se as sensatas palavras de Luís Maria, dirigente do Sindicato de Profissionais de Polícia: «A polícia é ineficaz no combate à criminalidade e não pode fazer nada. O crescendo de violência contra elementos das forças de segurança passa por uma percepção que os criminosos têm em relação à polícia que se restringe à frase "não pode fazer nada. A polícia não pode levar ninguém para a esquadra sem um forte fundamento, não pode identificar ninguém sem um forte fundamento, não pode puxar da arma.»
À força de implementar os direitos humanos no ordenamento jurídico, o legislador contemporâneo acaba na prática por proteger os criminosos para lá do razoável, desprotegendo as vítimas e os garantes da ordem pública.

Publicado por FG Santos às 12:10 PM | Comentários (1)

março 20, 2005

Os canhotos

O outrora talentoso Miguel Esteves Cardoso tinha nas páginas do "Espesso" uma coluna de nome "A Causa das Coisas", onde descrevia as taras do povo português. Essas crónicas foram depois reunidas num livro com o mesmo nome, sobressaindo algumas verdadeiramente deliciosas, como a que se segue.
Fiquem, então, com os


CANHOTOS

Para onde foram todos aqueles portugueses que eram tão irresoluvelmente de Esquerda em 1974 e 1975?
Boa pergunta. E a boa resposta é: não foram a nós. Agora querem ser gente às direitas, com uma dose decente de elitismo e um saudável escárneo pelas massas, como convém à conjuntura. Mas, como no fundo, no fundo, atiram às esquerdas, sai-lhes um bocadinho mal o esforço de snobismo, e nem são a Esquerda que já foram nem a Direita que querem ser. São, muito simplesmente, os canhotos.
Os canhotos são uma classe à parte na sociedade portuguesa contemporânea. Regra geral, procuram o cobiçado verniz de “Direita” nos domínios sacrossantos da “Cultura”, onde a canhotice mais se consente.
Dizem cair de joelhos diante do primor artístico de autores retintamente de Direita, para que fique sabido que não confundem a Arte com a Política (isto apesar de não as poderem confundir mais). Os canhotos portugueses adoram, por isso, Céline e Ezra Pound (os dois fascistas de maior talento) e, no Cinema, não há realizadores mais amados do que os grandes reaccionários do cinema americano (Ford, Capra, Kazan).
A maneira como os adoram, porém, é clara e atabalhoadamente canhota e os abraços que lhes dão em público não são, em quase nada, diferentes daqueles abraços que os pugilistas dão nos ringues, para se refazerem depois de uma sesssão particularmente aguda e preocupante de pancadaria.

Frequentam restaurantes com nomes embaraçosamente popularuchos e ementas de luxo, onde o «salmão fumado à Zé do Boné» e o «linguado Catarina Eufémia com champignons de Beja» contracenam, em mangas de camisa e com o “Libération” ao lado, com acesas discussões acerca do potencial revolucionário de tradicionalistas portugueses de génio como Pascoaes, ou Pessoa, ou Agustina.
Os canhotos esqueceram a classe operária de outrora e constituem, em larga medida, a classe operática de hoje. Querem ardentemente esquecer-se de quanto esquerdeceram em idos tempos, e a classe operária é tolerada só na sua acepção extremamente colectiva, radicalmente conceitual e absolutamente abstracta. Ou seja: «classe operária» só se estiver escrita num livro.
Falavam francês e hoje esforçam-se dedicadamente por aprender inglês. Cancelaram as assinaturas do «Nouvel Observateur» (que conheciam afectuosamente por «Nouvel Obs») e debruçam-se arduamente sobre publicações que lhes parecem menos óbvias. Querem ler o «Times» mas, como lhes falta a compreensão da língua, ficam-se pelo «L’Express»...
Seguem religiosamente as séries de televisão inglesas e têm «uma leitura» das telenovelas brasileiras que os sustenta no desejo de parecerem «independentes».
Os canhotos são todos aqueles que deitaram fora os álbuns de Victor Jara e de Pete Seeger e que hoje dizem que sempre adoraram Frank Sinatra ou a Amália Rodrigues. Vão à Gulbenkian e à Cinemateca com o inconfundível ar organizado de matilha, que lhes vem de incontáveis excursões a «manifes» e comícios, seguindo as retrospectivas com a dedicação religiosa que antes votavam à leitura dos textos sagrados de Althusser e Poulantzas.
Entre os canhotos, há os canhotos chiques, que pertenciam a movimentos políticos impecavelmente intelectuais (como o MES ou o MRPP) e os canhotos chicos, que transitaram directamente da cantina da Setenave para o novo refeitório da Arte Moderna, às vezes ainda munidos com as barbas completas e os bornais.
Os canhotos querem fazer tudo direitinho, mas não são absolutamente destros na manipulação da cultura de tradição conservadora, que é, às vezes, declaradamente sinistra. Em Camões, por exemplo, têm uma grande dificuldade em engolir Os Lusíadas e nadam nervosamente por entre os Cantos à procura do IX, que lhes é menos problemático, sempre apoiados pelas bóias de salvação da Lírica.
A proliferação de canhotos, entretanto, vai causando enormes problemas à conjuntura política portuguesa. Num momento em que seria iminentemente útil haver uma Esquerda, repara-se que uma grande parte dela está alinhada à Canhota. A Direita, por sua vez, que não prima em Portugal pela inteligência, vê-se completamente confundida com a invasão dos canhotos pelo território tradicional dentro.
E se a Direita não é destra e a Esquerda é canhota, será de admirar que o Centro esteja sempre inevitavelmente descentrado, ainda mais ao lado do que os próprios lados?

Publicado por FG Santos às 12:39 PM | Comentários (2)

março 18, 2005

Marechal Pétain

Uma das pessoas mais injustiçadas e denegridas do século passado foi sem dúvida Philippe Pétain, chefe de estado da França após a derrota militar em 1940.
A par do seu (intermitente) primeiro ministro, Pierre Laval, Pétain esforçou-se por minorar o sofrimento dos franceses e os revezes que a sua pátria sofria, por culpa de um regime parlamentar decadente, que levou a França para um conflito para o qual não estava de todo preparada.
Laval, com o apoio de Pétain, conduziu ao longo dos anos duras negociações com o ocupante que, a par de enormes exigências financeiras, queria também a colaboração de Vichy na deportação dos judeus. Graças ao esforço destes dois grandes estadistas, a França foi o país ocupado pela Alemanha onde foi menor a percentagem de judeus deportados.
Vichy não foi um regime perfeito, mas que teria sido da França se não houvesse uma força de interposição entre o ocupante e a população? Outra Polónia, sem sobra de dúvida.
Para conhecer um pouco melhor Pétain, a sua obra e o seu percurso, recomendo um site que lhe é dedicado, onde se podem ler os seus mais marcantes discursos e até responder a um quiz (confesso, algo envaidecido, que acertei em 15 das 20 perguntas, sem previamente ler a biografia que lá vem).
Boas leituras.

Publicado por FG Santos às 04:46 PM | Comentários (1)

Camilo

Ontem deixei passar sem referência os 180 anos do nascimento do grande Camilo Castelo Branco.
Graças ao Rui Oliveira, mais conhecido pelo "Superflumina" que pelo seu blogue literário "Humanae Litterae", esta efeméride não passou em claro na blogosfera.

camilo.jpg


Homem de letras de génio, Camilo deu à língua portuguesa uma aura maravilhosa, o seu vocabulário riquíssimo é vertido em páginas de prosa poética, de uma musicalidade raramente alcançada entre nós.
Mesmo os seus enredos menos elaborados, como "Estrelas Propícias", acabam por ser de leitura mais que proveitosa, pelo factor apontado, pela riqueza dos tipos, pelo retrato vivíssimo que nos dá do Minho e Douro Litoral.
As suas obras que li mais recentemente foram o "Amor de Perdição" e as "Memórias do Cárcere", que ficaram bem vivas na minha memória. A imagem do barco que leva Simão Botelho para o exílio, vista pela sua amada, é de uma força emotiva fantástica, arrepiante. As evocações de José do Telhado ou das visitas do Rei D. Pedro V à prisão são inesquecíveis.
Honremos a memória do grande escritor, lendo-o e divulgando a sua obra.

Publicado por FG Santos às 11:29 AM | Comentários (4)

março 17, 2005

Contra o iberismo, marchar, marchar

Ontem li, finalmente, o texto de Rafael Castela Santos sobre o iberismo. Aqui seguem as minhas observações ao mesmo.
Diz o Rafael que a união ibérica é, não só contra-natura, como é indesejada pela grande maioria dos espanhóis. Para mim, anti-iberista convicto, tenho como discutível se a união seria ou não contra-natura, pois conseguiria a coincidência política e geográfica da Península Ibérica; mais à frente afirma-se que a Península Ibérica está quase “abocada” por lei natural a ser um só país. Em que ficamos? Natural ou contra-natura? Também gostava que o Rafael mostrasse alguma sondagem que permitisse comprovar que aos espanhóis desagrada a ideia de união ibérica.
Estranha o articulista que os portugueses designem os seus vizinhos por… “vizinhos”, ao passo que estes nos designam por “irmãos”. Com uma história pontuada por invasões castelhanas, incluindo um longo período de 60 anos de domínio espanhol, não é de admirar que os meus compatriotas se limitem a designar os espanhóis por aquilo que são efectivamente: vizinhos, com os quais se pode ter uma boa, uma má ou uma indiferente relação. Vejo muito menos acrimónia dos portugueses face aos espanhóis que o inverso, por muito que se negue isso. Tirando talvez a Galiza, o português é frequentemente olhado de lado em Espanha, e escreve isto quem se desloca com alguma regularidade ao país vizinho há mais de trinta anos.
Também fiquei perplexo ao ler que em Espanha só um ignorante, débil mental ou drogado é que pode desejar a federação ibérica. Embora considere esta como algo perigoso, não deixa de ser uma ideia legítima no campo das ideias políticas, acho que criticar os seus defensores da forma como é feita no artigo é de uma violência descabida.
Diz-se também que os galegos querem continuar espanhóis. É possível. Mas não se diz que Fraga, testa de ferro do castelhanismo na Galiza, impôs aos galegos um modelo linguístico mais próximo do castelhano que do português, subsidiando edições que respeitassem o modelo pretendido, condenando à partida quaisquer aventuras galaico-portuguesas.
Segundo Rafael, as classes cultivadas portuguesas apreciam e conhecem a cultura vizinha. Mas lembre-se que ao longo da história foram sempre as nossas elites que traíram a pátria e foi sempre o povo, a arraia miúda, quem defendeu, se necessário com a vida, a independência nacional.
Fala-se também em cooperação amistosa entre as duas nações por via da política de casamentos. Esta última, conduzida do lado de cá da fronteira com alguma inconsciência, foi um risco quase permanente de diluição da soberania lusa na coroa espanhola.
Por outro lado, pôr a culpa do consulado de Olivares na alta finança internacional é absolver a Espanha de algo de que era única e voluntária culpada.
Também é fácil criticar a Inglaterra: se não fosse esta, há muito que em Portugal se falaria castelhano. Albion nunca foi uma alma caridosa: não há disso nas relações internacionais; mas houve sempre interesses mútuos entre Portugal e Inglaterra, graças aos quais permanecemos independentes, thank God. Para Espanha, Inglaterra sempre foi o inimigo a abater: aquando do Ultimato, logo se organizaram em Espanha manifestações de apoio ao vizinho oprimido pela pérfida Albion! Foi uma forma descarada de beneficiar politicamente dos nossos infortúnios. Todos os iberistas dos dois lados da fronteira participaram entusiasticamente nessas manifestações.
O Rafael fala depois de Marrocos, país no qual se inculca aos miúdos desde tenra idade que a Península Ibérica pertence a Marrocos. Mas não falou da forma como se ensina Aljubarrota, a descoberta do Brasil ou império português aos “niños”.
A ideia de união meta-política, além de não ser de todo desejável, seria obviamente, a concretizar-se, um prelúdio para a integração de Portugal na coroa espanhola. Não sejamos ingénuos!
Já as críticas à Europa são em parte pertinentes, mas Portugal deve procurar os seus parceiros comercias e de cooperação na América, em Inglaterra, em África. Não se deve excluir a Espanha das nossas relações, obviamente, mas tal deve ser feito com cautela e com contrapartidas seguras.
Afirmar que a glória das duas nações é ter expulso o mouro e levado Cristo a todo o mundo, sendo tudo o mais quase irrelevante, é tão redutor que nem sei que diga. A missão civilizadora dos portugueses, que deixou laços afectivos nos povos colonizados de que mais nenhuma nação europeia se pode orgulhar, foi muito para além da cristianização. Houve escravatura, exploração de recursos, imposição de credo; mas também houve respeito por algumas tradições locais, não se condenou milhões de pessoas a morrer na exploração mineira como os nossos vizinhos fizeram na América do Sul. E a divisão nativos / povos colonizados é bem menor e traumática do que aquilo que ainda hoje se vê nos países sul-americanos. E é com esta nota que quero concluir: estas diferenças de tratamento mostram a grande diferença de temperamento entre os portugueses e os espanhóis: aqueles menos desprezadores dos outros povos, misturando-se inclusive com eles, estes mais distantes, violentos, temperamentais. Povos vizinhos e tão diferentes!
Como sugestão de leitura, ao Rafael e a todos os meus leitores, nada como o capítulo “A ameaça permanente ou o milagre da vontade”, do “Juízo Final” de Franco Nogueira. Aí se descrevem as manobras iberistas ao longo da nossa história. E António Sardinha, tão profusamente citado pelo Rafael, é criticado por, não sendo forçosamente iberista, fornecer a quem o é argumentos em grande quantidade.

Publicado por FG Santos às 03:39 PM | Comentários (14)

março 16, 2005

Carta aberta ao autor do "Nova Frente"

Caro Bruno,

Estive a ler atentamente a sua entrevista (num francês de excelente nível) ao blogue "Actualité des nationalistes européens", a qual me suscita as seguintes questões:
Os principais problemas que enfrentam os portugueses são, para si, a imigração descontrolada, a insegurança e o desemprego. São também estes os problemas que o FN, o VB, o FPÖ, etc. identificam como mais preocupantes nas sociedades respectivas. Fico sempre perplexo quando leio isto. Embora esses sejam problemas sérios e graves, sempre me pareceu que para um nacionalista de um país europeu, membro da UE, o maior problema que o seu país enfrenta é o da soberania cada vez mais reduzida. Acho que o PNR e movimentos similares têm este problema de foco: para eles, a Europa é uma realidade a ser preservada; não nos dizem o que é ao certo a Europa: um conjunto de países unidos pela geografia e pela religião; um conjunto de povos unidos pela raça (?). Falam em Europa das Pátrias, sem que se perceba o que isso é em concreto; é, desculpe-me, um slogan desprovido de conteúdo.
Afirmo e reafirmo, à força de ser maçador: Portugal construiu a sua independência virando-se para o mar: para a Inglaterra, para a América, para África. Sempre que se vira para terra, encontra a Espanha pela frente; a construção europeia é o caminho mais certo para a morte da nossa Pátria. Infelizmente, para os chamados identitários, mais vale sermos escravos de uma Europa branca do que soberanos de uma nação eventualmente mestiça ou pelo menos não homogénea etnicamente.
Já escrevi várias vezes que não quero o meu país invadido por uma imigração descontrolada, que não desejo que venhamos a ser um Brasil, mas que Diabo: será que só conseguimos isso entregando-nos de pés e mãos atados a uma entidade abstracta chamda Europa, que se está mais ou menos nas tintas para nós, que nos destrói os poucos sectores produtivos em que estávamos especializados, que nos despovoa os campos, que nos diz o que produzir, onde e como, que nos faz as leis, que nos rebaixa ao papel de mendigos, sem dinheiro e sem dignidade, que faz de nós, em suma, LACAIOS dos grandes países? Porque, e para concluir, é preciso muita ingenuidade para pensar que um dia a Europa, seja sob que forma jurídica e institucional, deixará de ser um conjunto de países, em que os mais fortes ditarão sempre as suas leis e em que os mais fracos ficarão subjugados, sem honra nem glória.

Um abraço deste que muito o estima,
FG Santos.

Publicado por FG Santos às 05:56 PM | Comentários (15)

Novos blogues

Novos mesmo ou descobertos agora por mim, sugiro que dêem uma passagem pelas seguintes moradas:
- Ávido
- PPM (Viseu)
- Ao Sabor da Aragem

Publicado por FG Santos às 10:35 AM

março 15, 2005

Mundo de Aventuras

Hoje não me apetece maçar-vos com as desventuras deste mundo. Hoje vou falar-vos de uma revista que preencheu o imaginário de várias gerações de crianças e jovens deste país.
O "Mundo de Aventuras" surgiu em 18 de Agosto de 1949, resistindo até 15 de Janeiro de 1987! Nos tempos áureos (anos 50 e 60) chegou a ter uma tiragem superior a 50.000 exemplares, rivalizando com o "Cavaleiro Andante". Enquanto este último, fundado por Adolfo Simões Muller, publicava sobretudo banda desenhada europeia (francesa e italiana), de pendor mais "bem comportado" (muitos autores católicos), aquele era o órgão difusor por excelência da grande banda desenhada americana.
Grandes heróis como Rip Kirby, Flash Gordon (inicialmente saíu como Roldan, o Temerário!), Steve Canyon (Luís Ciclón - assim mesmo, à espanhola), Brick Bradford, Cisko Kid, Fantasma, etc., foram divulgados pela revista que dirigiu anos a fio José de Oliveira Cosme (que os mais velhos recordarão como o autor das saborosas "Lições do Tonecas").
Em meados dos anos 50 a censura apertou e muitas vinhetas foram preenchidas com enormes balões de diálogo, para esconder algumas cenas de ternura mais vaporosas, ou para ocultar cenas de violência. E os nomes dos personagens são aportuguesados: Brick Bradford passa a Brigue Forte, Big Ben Bolt a Luís Euripo e por aí fora.
Nos anos 60, em contraste com os inícios (formato tipo jornal "broadsheet"), adopta o formato de bolso e cada número passa a incluir uma história completa. Em 1973 aumenta o tamanho mas mantém a história completa. Após o 25 de Abril, tal como aconteceu com outras publicações, começa a passar por dificuldades, o preço do papel não pára de aumentar e a miudagem começa a virar-se mais para o cinema e a TV, tendo igualmente tido maior divulgação os álbuns de BD. Resiste estoicamente até 1987, já com saída quinzenal e papel de má qualidade.
Perdera muita audiência anos antes com a saída do "Tintin", exclusivamente dedicado à BD franco-belga e responsável pelo desconhecimento de muita muidagem da grande BD clássica americana, quanto a mim com desenhadores de muito maior qualidade. Aliás, sendo destinada aos grandes jornais (que publicavam uma tira diária), esta tinha um público alvo mais adulto, mais exigente.
Hoje já não se publicam em Portugal revistas de BD: há 4 anos acabou a excelente "Selecções BD" (que saía mensalmente) e hoje é difícil imaginar a nossa frenética juventude a contentar-se com 2 páginas semanais do seu herói preferido, aguardando ansiosamente pelo número seguinte da revista para ler a continuação.
Este que vos escreve dedicou-se há uns anitos a coleccionar revistas de BD antigas, o que, para além de ser um salto para a infância e primeira juventude, é uma forma de descobrir autênticos artistas como Alex Raymond (Rip Kirby, Flash Gordon), Harold Foster (Príncipe Valente), Jesús Blasco (Cuto), Eduardo Teixeira Coelho, Paul Cuvelier (Corentin) ou o extraordinário Franco Caprioli.
Recomendo-vos o site BD Portugal, onde podem ver as capas de inúmeros exemplares de muitas revistas que se editaram em Portugal.

Publicado por FG Santos às 06:44 PM | Comentários (3)

março 14, 2005

Volta Estaline, estás perdoado!

O governo sueco, ao melhor estilo estalinista (engenharia social, tudo é produto do meio, etc.), decreta que não é permitido especular sobre as diferenças entre os cérebros de homens e mulheres: ambos são construções sociais, sendo as diferenças entre si provenientes da educação, cultura, situação económica, estruturas de poder e ideologia.
Não vou perder tempo a rebater tamanha alarvidade: à força de querer impôr a sua sinistra visão do mundo, os arautos do politicamente correcto afundam-se cada vez mais no ridículo.
Uma regresão civilizacional.

(Via "Super Flumina".)

Publicado por FG Santos às 05:46 PM | Comentários (4)

O parlamento da Geórgia exige a retirada militar russa

O parlamento georgiano votou por unanimidade (!) uma resolução exigindo ao Governo que tome medidas no sentido de ser efectuada a retirada dos militares russos do seu território.
O artigo do Courrier International, estranhamente ou talvez não, refere que essa presença resulta de um acordo de 1992 mas omite o contexto: o então presidente Zviad Gamsakhurdia, nacionalista convicto, sofria a inimizade dos ex-comunistas, que conseguiram o apoio de Moscovo para o derrubar, vindo a falecer em condições não elucidadas. Em consequência, o ex-ministro dos negócios estrangeiros de Gorbatchev, Edouard Chevarnadze, chegou à presidência. Tudo muito democrático, como se vê. Foi só no ano passado que "a rua" forçou Chevarnadze à demissão, abrindo caminho para a eleição de Sakashvili.
O actual poder em Tbilissi tem feito uma aproximação progressiva a Washington, o que inquieta os russos, sempre com tentações imperialistas face às repúblicas da ex-URSS que conseguiram a independência. Por outro lado, os EUA, com a sua cooperação militar, tentam travar a vaga de combatentes islamistas que se refugiaram na região de Pankisi, uma autêntica coutada de fanáticos da jihad. E, pé ante pé, vão ganhando influência não só no Cáucaso como na Ásia Central, onde têm fortes interesses no domínio energético.

Tamar.jpg

(A Raínha Tamar, que combateu a invasão turca no séc. XII.)

Publicado por FG Santos às 04:55 PM

Povo português e cultura

“Lisboa, Teatro São Luiz, noite de quinta-feira. Um telemóvel toca logo no início do recital do pianista português Artur Pizarro e é sonoramente atendido. O músico pára a execução da peça e retoma-a logo a seguir. Mais adiante, torna a ouvir-se outro toque, mas desta vez Pizarro não pára. A seguir ao intervalo, soa outro telemóvel, longamente, porque o proprietário nem se digna desligá-lo. Artur Pizarro deixa de tocar e diz à criatura "Atenda, que eu paro. Mas saia". E pega nas partituras, levanta-se e vai-se
embora. Há burburinho na sala e é anunciado que o pianista não regressará.”

O arrepiante relato que Eurico de Barros faz no DN de anteontem não configura nada de virgem nas nossas salas de espectáculos. Além dos telemóveis, temos também as quase omnipresentes tosses, que irrompem, em particular mas não exclusivamente, no intervalo entre dois andamentos. É uma sinfonia à parte.
Os telemóveis geralmente aparecem na 2ª parte dos concertos, pois as pessoas ligam-nos ao intervalo e, ao contrário do que sucede antes do começo, não se pede aos espectadores para os desligar na 2ª parte.
E as palmas entre andamentos? Se não conhecem as obras ao menos que fiquem quietos!
Para além da questão do ruído permanente que nos rodeia (já não há lojeca de esquina que não tenha a "sanfona" ligada o dia todo) - há até livrarias com rock todo o santo dia (sem dúvida a música mais apropriada para ouvir enquanto se consulta um livro) - temos o aspecto da cultura geral da população: basta ver concursos tipo “Quem quer ser milionário?”, cuja frequência é mais representativa do que se possa pensar, para se aquilatar do grau de cultura da “nossa gente”. Factos (supostamente) básicos da nossa história, autores mais ou menos consagrados das letras, a mais simples geografia, etc., são regra geral matérias misteriosas para o comum dos portugueses. Como é que se pode esperar que o sr. ou a sra. X saibam que a sinfonia nº 4 de Bruckner (a mais conhecida!) tem 4 andamentos? Pois toca a aplaudir no fim do“scherzo”, que é tão empolgante como um finale!
Ninguém é obrigado a conhecer muito de música para poder ir a um concerto, é até muito desejável que mais e mais pessoas se interessam por ela, mas, como disse, há que saber estar numa sala de espectáculos, há que saber respeitar os músicos, o público em geral.
E se o 25 de Abril democratizou a cultura, a falta desta na nossa sociedade é fenómeno bem antigo e há-de radicar, no mínimo, na Inquisição, que estipulou o que se devia e se não devia escrever. Tornámo-nos um povo limitado, receoso de expressar as suas ideias, desconfiado das pessoas de talento, um pouco mesquinho, desprezador dos pensamentos mais elevados, das formas requintadas de expressão artística.
Com o 25/4 passámos ao tempo da cultura “patodos”, da cultura interventiva, transformadora das sociedades e das mentalidades e passou-se a desprezar as formas culturais mais clássicas, as estéticas menos revolucionárias, os criadores “reaccionários” (mesmo quando formalmente inovadores). Uma nova forma de mesquinhez cultural.
E assim continuamos, aos trancos e barrancos das modas e das imposições, sem verdadeira autonomia de apreciação estética, sem aquela inquietação, aquela curiosidade, que são sinais de inteligência e de inconformismo, de gosto (puro) pelo saber e pela cultura.

P.S.: a primeira vez que o meu filho mais velho foi a um concerto tinha ele 2 anos e 9 meses, foi na "Festa da Música" (um case study de incivilidade dos espectadores) e não foi por ele que a execução das "Sete Últimas Palavras de Cristo na Cruz" de Joseph Haydn foi perturbada. Desculpem o desabafo aparentemente petulante mas é para exemplificar que de pequenino...

Publicado por FG Santos às 12:51 PM | Comentários (4)

março 13, 2005

Actualidade do pensamento do Rei D. Pedro V

OLIGARQUIA
«De que valem as medidas, se os grandes figurões são os primeiros que as infringem? Não creiam que eu não vejo o luxo de certas pessoas; não creiam que eu pense que esses luxos caem das núvens; não creiam que eu pense que a maior parte dos objectos de que usam pagaram os direitos legais. Creiam pelo contrário que sei donde lhes vem o luxo; que sei que vivem de contrabando; por que só os pequenos e os pobres hão-de sofrer o rigor das leis, que nãoforam feitas pelos figurões. Esses estão muito acima das ideias de moralidade; são coisas que os abaixam, deitam-nas aos pequenos, que devem gemer enquanto eles riem.»

MORAL
«O espírito utilitário do nosso século abaixa o nível das ideias do homem, e produz a infeudação do espírito à matéria.»

POLÍTICA
«Cumpre que as medidas administrativas de que o país carece possam satisfazer a uma condição essencialíssima, a necessidade de moralizar os serviços públicos, de dar à autoridade a respeitabilidade que lhe falta e sem a qual os administrados vêem no governo o pior dos impostos, imposto que se traduz na perda de tempo, de trabalho, e dos bens de fortuna.»

REALEZA
«Sabemos que os reis são homens como os outros, que eles têm desejos, paixões e defeitos; que eles têm os meios naturais de satisfazer a esses desejos, de ceder ao império dessas paixões, e de seguir a via errónea dos seus defeitos; mas devemos também lembrar-nos que existe para eles uma lei moral muito mais severa do que para os outros, porque quanto mais elevada é a posição tanto maior é a influência do exemplo.»

OPINIÃO PÚBLICA
«O erro tem sido o tomar por opinião pública os gritos de alguns poucos, e por tendências da nossa época os seus desvarios.»

INSTRUÇÃO
«Um dos fins, e certamente um dos mais importantes, que se devem procurar obter numa organização da instrução pública, é fechar a porta aos imbecis e extirpar os parasitas que não só são pouco económicos mas para ssim dizer embrutecem o Estado.»
«O problema da instrução contém-se quase todo no cuidado da composição do professorado.»

in Augusto Reis Machado, “O Pensamento do Rei D. Pedro V”, Lisboa, 1941

Publicado por FG Santos às 11:35 AM | Comentários (3)

março 11, 2005

11 de Março

Não vou aqui falar sobre os atentados de há um ano em Madrid, quanto mais não seja por estarmos a ser massacrados com a efeméride desde a manhã. Da ignóbil matança de inocentes ao cálculo pérfido da Al-Qaeda, da inépcia do executivo Aznar ao vergonhoso aproveitamento do PSOE, haveria pano para mangas.
Do que quero falar é do que sucedeu em Portugal há trinta anos, precisamente. Dos meus seis aninhos recordo-me de o meu Pai me ter ido buscar à escola ao princípio da tarde dada a turbulência em que Lisboa estava envolvida. Recordo-me igualmente de um belo dia já a cheirar a Primavera, em tudo contrastante com os desenvolvimentos políticos em curso.
O marechal Spínola demitira-se da Presidência após o fracasso da manifestação da "maioria silenciosa" em 28 de Setembro de 74. Como escreveu Manual Maria Múrias, "nos primeiros momentos da sua efémera glorieta de 74 Spínola não parece ter-se apercebido de que não dispunha de autoridade (...) e, enquanto os comunistas se iam apoderando dos manípulos da governação, ele entretinha-se a pilotar a barca do estado, sem atentar que deixara de haver estado."
Em 11 de Março de 75 tenta o golpe de Estado, apoiando-se nos páraquedistas aquartelados em Tancos. Estes tentam tomar o Ralis, em Lisboa. Esta unidade era comandada por Dinis de Almeida, que recusa a rendição; como afirmou perentoriamente, sob o "olhar" de uma câmara de televisão, só devia obediência ao Presidente da República, ao Primeiro Ministro - e ao general Otelo! Quando seria de prever a tentativa de tomada da unidade pela força , dá-se um acontecimento insólito: as tropas que quase chegaram a vias de facto, abraçam-se, em fervor unitário e por amor ao 25 de Abril! Um indivíduo que tenta fugir num Mini é alvejado e morre. "Este já não faz mal a ninguém" - comentário captado pela televisão, ao melhor estilo PREC.
E o Marechal Spínola? A caminho do exílio. Em vez de ficar e assumir a sua responsabilidade e tentar minorar a desgraça revolucionária que se antevia - fugiu.
E logo no rescaldo do 11 de Março é anunciada a nacionalização da banca, dos seguros, das telecomunicações, dos cimentos, de praticamente todas as indústrias de média e grande dimensão. Nasce o PREC (Processo Revolucionário em Curso). As prisões receberam mais presos políticos sem culpa formada, a rua passou a determinar cada vez mais o que se passaria.
Soldados em parada juram fidelidade não à Pátria mas ao socialismo e à revolução; empresários são saneados das próprias empresas; o assassino de um latifundiário (Rui Gomes) safa-se da prisão com uma multa, sentença logo recebida com urros de "Gatunos! Gatunos!". As eleições de 25 de Abril de 1975, apesar dos resultados relativamente modestos de comunistas e extrema-esquerda não arrefecem os ânimos destes, afinal de contas as eleições confirmam "a via para o socialismo" (título do Diário de Notícias).
Os "casos" sucedem-se sem parar: o fim do jornal "República", cujos tipógrafos se indignavam com a linha moderada do jornal, que veio a desaparecer; toda a gente receava ter alguém à sua esquerda... Estava no auge o "manicómio em auto-gestão", na caracterização certeira de um observador internacional.
No Verão Quente, o ainda primeiro ministro Vasco Gonçalves, ao seu melhor estilo histérico-epiléctico, brama no pavilhão de Almada (em directo na TV!), que "aqui não há meio termo, nem segundas vias nem coisa nenhuma: ou se está com a revolução, ou se está contra a revolução!"
A reacção ("excusez du mot"!) socialista estava em marcha, Soares sentia as costas quentes pelo apoio de Carlucci e da CIA e atacava ferozmente o gonçalvismo, "esses paranóicos".
O Norte acordava finalmente e saqueavam-se as sedes do PCP e do MDP. A guerra civil parecia iminente.
Mas aproximava-se o 25 de Novembro e com ele a machadada final no PREC. Em Outubro até já Otelo tinha sido chamado fascista! As voltas que o "Campo Pequeno" dá!
E é todo este ambiente que me vem à memória neste dia de tristes efemérides.

Publicado por FG Santos às 05:44 PM | Comentários (9)

março 10, 2005

Os verdadeiros terroristas rejubilam

O assassinato do líder checheno Aslan Maskhadov foi apresentado por Moscovo como um triunfo sobre o terrorismo. Toda a gente que acompanha com alguma atenção a questão chechena sabe que Maskhadov era um líder independentista moderado.
Primeiro presidente eleito após os acordos de paz com Moscovo, em 1996, conseguidos pelo hábil negociador Alexandr Lebed (à época o político mais popular na Federação Russa; veio a morrer num acidente de helicóptero), Maskhadov era o homem que dizia que nunca numa Chechénia livre uma mulher seria obrigada a usar o véu islâmico.
Em 1999, Ieltsin volta a mudar de primeiro ministro e nomeia um obscuro ex-funcionário do KGB, Vladimir Putin. Com a popularidade sempre a baixar e com problemas de saúde, Ieltsin assegurou o poder a um delfim que sabia que nunca o iria incomodar posteriormente com investigações sobre corrupção, privatizações conduzidas de forma obscura, etc.
Em Setembro desse ano, rebentam bombas numa zona residencial de Moscovo, morrendo mais de 200 pessoas. Sem qualquer prova apresentada, Putin acusa de imediato os terroristas chechenos, arranjando assim um pretexto para invadir a martirizada república. A popularidade de alguém que dizia que perseguiria os terroristas até dar cabo deles (a sua linguagem era a este nível - ou pior) subiu em flecha; quando concorreu à presidência ganhou facilmente, com os votos de uma população apavorada com o espectro do terrorismo.
As suspeitas de envolvimento dos seus amigos do FSB (ex-KGB) nos atentados foram levantadas mas nunca comprovadas realmente. O que é certo é que Maskhadov passou a fora-da-lei, a par do terrorista Chamil Bassaïev (apoiado pelo fundamentalismo islâmico mundial) - para Putin eram todos a escumalha a abater. Apesar das propostas de diálogo sempre renovadas por parte de Maskhadov, o ex-KGB recusou-se sempre a sentar-se à mesa das negociações.
Agora que conseguiu liquidar o líder checheno, Putin está radiante, tal como o estará Bassaïev, que fica sem opositor à altura no campo independentista, ao mesmo tempo que a estratégia de guerra total, desejada tanto por Moscovo como pelos fundamentalistas, tem todo o sucesso.
Até que ponto é que ambos se conluiaram para eliminar Maskhadov permanecerá possivelmente para sempre uma especulação. Mas a conivência entre oficiais russos na Chechénia e os terroristas locais existe, nomeadamente no desvio de recursos petrolíferos.
Como sempre, quem sofre com os desmandos desta gente desprezível é o pobre povo: os abusos cometidos pelas autoridades russas, os bombardeamentos, os atentados - tudo tem contribuído para a redução da população em um terço.
Entretanto, Putin continua a ser o hóspede principescamente recebido pelos "grandes" líderes europeus, de Schröder a Berlusconi.
Outra vergonha europeia.

Publicado por FG Santos às 03:40 PM | Comentários (4)

março 09, 2005

Mais uma vergonha europeia

O Parlamento Europeu recusou fazer um minuto de silêncio em memória do massacre de 14.000 oficiais polacos assassinados em 1940 pelo Exército Vermelho em Katyn.
Durante décadas este crime foi atribuído às tropas alemãs, até que em 1992 as autoridades de Moscovo reconheceram a verdade.
Alguém duvida que se o crime tivesse sido efectivamente obra dos nazis o PE não teria feito o seu hipócrita minuto de silêncio? Enquanto somos bombardeados quotidianamente com os crimes e as atrocidades nazis, parece haver uma tentativa, senão de branquear, pelo menos de esquecer os crimes soviéticos, em particular, e comunistas, em geral (já nem falo do que fizeram os aliados).
Como declarou indignado um euro-deputado polaco, "a derrota alemã significou para metade do continente europeu a ocupação comunista".

katyn.jpg

Sobre Katyn, diz Churchill nas suas memórias: "Almocei hoje com Sikorski, que me disse ter provas de que o governo soviético mandou assassinar quinze mil oficiais e sub-oficiais polacos e outros prisioneiros e que os sepultou em enormes valas abertas em bosques próximos de Katyn. Tinha uma superabundância de provas. Disse-lhe que, se estavam mortos, nada podia fazer para lhes devolver a vida e que, na verdade, não era altura de arranjar querelas com Estaline".
«O governo de Sikorski não se contentou com a inaudita recomendação de Churchill e cortou relações com a URSS. Dias depois, Sikorski perdia a vida num estranho acidente de aviação em Gibraltar…» (A. Rangel)
É óbvio que nem a Inglaterra nem a França tinham condições de defender a Polónia, embora esse tenha sido o motivo invocado para declararem guerra à Alemanha. O que é certo é que a Polónia ficou entregue à sua triste sorte, de que é testemunho este cartaz polaco:

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Legenda: "Inglês, isto é obra tua!" O inglês retratado é, obviamente, Chamberlain.

Publicado por FG Santos às 01:53 PM | Comentários (5)

Nove penosos anos

O nosso PR está há nove anos em Belém. Já sabem o que eu acho sobre a república, mas este personagem leva a abominação ao cúmulo, com os seus discursos ridículos, cheios de lugares comuns e de calão politicamente correcto.
Mas há figuras que têm aquela extraordinária capacidade de levar ao extremo as suas peculiaridades:
«"Não é justo nem razoável que persistam enviesamentos masculinocêntricos tão acentuados na selecção das questões políticas agendáveis", sustentou Jorge Sampaio, na sessão comemorativa do Dia Internacional da Mulher, que decorreu ao início da noite no Palácio da Ajuda, em Lisboa.»

Via "A Arte da Fuga".

Publicado por FG Santos às 10:42 AM | Comentários (1)

março 08, 2005

Salomé

Desafiou-me o estimado Manuel Azinhal a falar sobre os 100 anos da genial ópera "Salomé" de Richard Strauss.
O grande compositor alemão foi já falado neste blogue, mas nunca é de mais mencioná-lo e à sua obra. A ópera "Salomé" foi um autêntico choque para as audiências de então: tanto a trama, de uma violência inaudita, como a música em si, eram de uma ousadia a toda a prova. Os delicados ouvidos de então não estavam preparados para uma música de uma potência dramática fantástica. O bel canto fica um pouco para trás, de tal forma que muitos cantores não estavam à altura das exigências da partitura. Outros simplesmente recusaram-se a cantá-la!
O que é certo é que, apesar dos protestos e de algumas proibições, o sucesso público foi imenso: só na estreia os intérpretes voltaram ao palco para os agradecimentos 36 vezes!
Estava-se no rescaldo do wagnerismo e Strauss levou às suas últimas consequências a estética do mestre. "Elektra", de 1909, foi talvez o culminar desta atitude artística.
Posteriormente, Strauss compôs óperas digamos mais clássicas, como "O Cavaleiro da Rosa", ou "Ariadne auf Naxos", que tive o prazer de ver em São Carlos há duas épocas atrás. Isso bastou para que muitos vanguardistas acusassem de conservadorismo um dos maiores criadores do século XX. Mas a obra fica.
Lamentavelmente a maior parte das pessoas só conhece, de "Salomé", a famosa dança dos sete véus, de perfume oriental hipnotisante e erotismo acentuado, que escandalizou a mentalidade da época. Fica aqui a sugestão para um conhecimento mais profundo não só desta como de outras obras de Strauss.
O grande compositor é hoje unanimente admirado e, felizmente, já poucos falam na sua alegada simpatia pelo nazismo, quando na verdade Strauss, pouco dado a políticas, estaria mais preocupado em proteger a sua nora, de origem judaica, e em que a sua música continuasse a ser interpretada na Alemanha, por premência financeira.

Publicado por FG Santos às 05:59 PM

Mulheres

Descansem que não vou fazer um post do estilo dos do amigo Clark.
O nosso PR já não surpreende ninguém com as suas condecorações, em particular depois de ter distinguido a ilustre ex-membro do PRP-BR, Isabel do Carmo, que, à falta de angariar militantes, se entretinha a plantar bombas durante o PREC. Ela e o seu marido Carlos Antunes é que foram apelar a Pinheiro de Azevedo, pouco antes do 25 de Novembro de 1975, para que o Almirante executasse as medidas que tão doutas criaturas preconizavam. Ao seu estilo, Pinheiro de Azevedo ouviu-os e depois chamou-lhes parvos e mostrou-lhes a porta de saída!
Mas voltando ao ex-militante do MES, a insigne criatura houve por bem distinguir, no Dia Internacional da Mulher, algumas representantes do belo sexo (hoje em dia já ninguém diz "sexo fraco"), como se pode ler aqui.
Embora da lista não conste nenhuma ex-bombista, saltou-me à vista o nome de Ana Benavente. A ex-secretária de estado da Educação, que, se bem me lembro, tinha relações algo nebulosas entre a sua função e uma Universidade de que era membro, ficou-me na memória por um dia, ao "melhor" estilo Maio de 68, ter dito que um aluno que insulta um professor não deve ser censurado nem castigado porque a irreverência é uma atitude normal e até desejável na adolescência.
Palavras para quê? É uma mulher "que faz a diferença", com certeza.
E há, para os mais aguerridos militantes das esquerdas, bombas bem mais eficazes para alcançar os seus objectivos que bombas a sério.

Publicado por FG Santos às 09:42 AM | Comentários (1)

março 07, 2005

Um clube bem português

O meu Belenenses, igual a si próprio, efectuou ontem um excelente jogo perante o Sporting, vencendo claramente, não pelo resultado mas pelas oportunidades criadas.
Porquê igual a si próprio? Porque de há muitos anos a esta parte faz, tradicionalmente, grandes jogos contra os chamados grandes, arrastando-se por vezes penosamente em jogos contra clubes menos cotados. Faz lembrar um nobre arruinado que volta e meia gosta de dar festas de arromba para mostrar o brilho que teve em tempos e que gostava de ter mas pouco faz nesse sentido, lamentando-se da sorte, dos tempos que vivemos, etc., etc.
Tal como nós portugueses, no fundo. Comprazemo-nos em dizer mal da nossa sorte, da nossa capacidade de dar a volta aos reversos que nos atingem, mas por vezes esmeramo-nos em manifestações de grande impacto, como a Expo-98, a Capital Europeia de Cultura, o Europeu de Futebol, etc. Até nos surpreendemos com a nossa capacidade de realização!
Passada a euforia lá voltamos ao triste rame-rame do quotidiano. Querem apostar que vai ser mais difícil ao Belém bater, daqui a quinze dias, o último (o Beira-Mar) do que foi derrotar o Sporting?

Publicado por FG Santos às 02:39 PM | Comentários (3)

O Barnabé adora o mercado (sem o confessar)

Há um blogue em que autores enriquecem com um livro editado. Esse mesmo blogue tem um processo de censura nos comentários, apreciando o que os visitantes lá escrevem antes de publicar. Agora, como novidade, esse mesmo blogue tem publicidade na página dos comentários. E neste momento, em que julgava tratar-se do blogue de um monstro capitalista e da Direita empedernida, desengane-se. Estava a falar do Barnabé, o mais famoso blogue da esquerda radical, ao ponto do seu fundador ser militante do Bloco de Esquerda (ex-assessor).

Publicado por FG Santos às 02:13 PM | Comentários (4)

Presença estrangeira

Depois da incongruência das declarações oficiais israelitas face ao desrespeito sírio pela resolução da ONU relativa à saída da presença estrangeira no Líbano, outras declarações hilariantes, desta vez do outro lado da barricada: contestando a anunciada retirada das tropas sírias para a fronteira, Hassan Nasrallah, líder do Hezbollah, denuncia a ingerência estrangeira nos assuntos libaneses!
O artigo do Independent citado pelo Courier International é altamente crítico da posição americana: contando com 140.000 soldados no Iraque, os EUA criticam a presença de dez vezes menos soldados no Líbano! E também avança que a presença síria terá sido sempre do interesse americano e israleita, pois serve de força de contenção dos 300.000 palestinos que residem no país do cedro. A situação alterou-se precisamente com a invasão do Iraque e o suposto apoio de Damasco aos insurgentes iraquianos.
E assim o martirizado país, sacrificado pela sua posição geográfica, continua ao sabor dos humores e interesses de países mais poderosos.

Publicado por FG Santos às 12:38 PM

março 05, 2005

Resoluções da ONU

O facto mais grotesco em relação à notícia anterior é a posição de Israel, que declarou que o anúncio sírio é uma fuga à resolução da ONU (de 2004) que exige a retirada completa das forças estrangeiras presentes em solo libanês.
Descaramento total por parte do país campeão do desrespeito pelas resoluções onusianas que lhe dizem respeito.

Publicado por FG Santos às 11:01 PM | Comentários (2)

Agora o Líbano

A Síria cede à pressão quase diria mundial e anuncia a retirada das suas tropas no Líbano para o Vale de Bekaa e, subsequentemente, para a fronteira. Prelúdio para uma retirada total?
Depois do Iraque, da Geórgia, da Ucrânia, também o Líbano parece que vai recolher o fruto da revolução democrática neo-conservadora ou bushiana. À bruta, no primeiro caso, ou nos bastidores, nos outros todos, a equipa de Bush parece determinada em derrubar os ditadores que lhe não agradam (Musharraf, o amigo paquistanês, parece seguro).
Goste-se ou não desta intromissão nos assuntos internos de nações supostamente soberanas, do seu filo-semitismo declarado (ou descarado), do seu desprezo pela preservação do planeta em benefício das grandes "corporations", da sua política fiscal assente em dar benefícios aos mais ricos em detrimento da classe média, o que é certo é que a administração Bush ficará na história como grande promotora de alterações de regimes, alguns deles de facto odiosos.

Publicado por FG Santos às 10:47 PM

Solução de recurso?

Ainda o nóvel governo não tomou posse e já se avança com a (forte?) probabilidade de aumento dos impostos.
Já se sabe nestas coisas quem é que fica com o ónus destas medidas: quem não tem meio de fugir ao tentáculo taxador do Estado: a classe média, os "tansos fiscais", como dizia o saudoso Leonardo Ferraz de Carvalho.

Publicado por FG Santos às 10:44 PM | Comentários (2)

março 04, 2005

Duas mortes

Primeira morte - o banqueiro Edouard Stern foi assassinado na sua própria casa na passada terça-feira. Homem riquíssimo, astuto, com faro para os negócios, solitário e, ao que parece, profundamente infeliz. Pouco visto em público, não pertencia ao "Grupo dos Banqueiros de Genève", 'crème de la crème' da alta finança da cidade e tão pouco era activo no seio da comunidade judaica local.
Segunda morte - o ex-ministro do Interior ucraniano, Iuri Kravtchenko, braço direito do ex-presidente Leonid Kouchma, suicidou-se. Estava convocado para comparecer no julgamento que procura elucidar as circunstâncias por trás da morte, em 2000, do jornalista Georgi Gongadzé. Este tornara-se incómodo para o corrupto Kouchma por investigar a fundo os casos de corrupção em que ele e a sua pandilha estavam envolvidos.
Boris Ieltsin assegurou a tranquilidade da sua reforma ao empurrar Putin para a presidência, sabendo que o seu delfim o protegeria sempre. Já Kouchma não teve a mesma sorte: ainda se conseguiu forjar os resultados da segunda volta das presidenciais (que "deram" a vitória do seu protegido Viktor Ianukovitch) mas, perante a pressão externa (sobretudo dos EUA) e interna (a rua), o Supremo ordenou a realização de uma terceira volta que, como se sabe, deu a vitória a Youchtchenko. Mas arriscar-se-á a ir parar à prisão? Muitos observadores duvidam, pois, se alguns suspeitos da morte de Gongadzé estão já detidos, falta apanhar o ou os mandantes.
Duas mortes envolvendo pessoas profundamente mergulhadas no mundo do dinheiro: da especulação e investimento num caso, da corrupção e desvio de fundos públicos, no outro. Curiosamente, sabe-se que Stern tinha alguns relacionamentos com investidores russos, eventualmente ligados aos meios mafiosos.

Publicado por FG Santos às 01:36 PM

Auditores

As auditorias às contas das empresas são um momento nunca desejado por quem nestas trabalha, mesmo que nada de irregular esteja expresso nos livros contabilísticos.
Por uma razão: durante uns dias todo o trabalho quase que pára e fica-se horas a fio a justificar movimentos, saldos, lançamentos... O trabalho normal acumula-se, escorrega para o fim de semana e... os blogues têm menos actualizações!
Que me desculpem os meus leitores, mas prometo-vos que vou tentar manter uma actualização frequente do "Santos da Casa".

Publicado por FG Santos às 11:04 AM

Referendo?

Marques Mendes, candidato à liderança do PSD, defende que se faça um referendo à Constituição Europeia.
Estará este cavaquista convicto a ser sincero? Recorde-se que Cavaco Silva (com o apoio tácito do PS) nunca se preocupou em referendar o Tratado de Maastricht, apesar de (ou sobretudo por) este trazer implicações sobre a soberania nacional nunca vistas até então.
Possivelmente Mendes está apenas a querer marcar pontos, tanto na candidatura à presidência do seu partido, como na pressão ao PS.
Resumindo, uma questão que deveria ser preocupação de todos os que se interessam pela nossa independência e o nosso futuro, é apenas uma arma no baixo jogo político. Business as usual.

Publicado por FG Santos às 10:58 AM | Comentários (1)

março 03, 2005

Não resisti...

Barco.jpg

Publicado por FG Santos às 11:43 AM | Comentários (3)

março 02, 2005

Um país em depressão

O consumo de anti-depressivos em Portugal aumentou 45% nos últimos cinco anos, tornando-se, segundo a ONU, um caso de saúde pública.
Que causas poderemos avançar para explicar o fenómeno? Aumento de desemprego? Insegurança laboral? Pressão no trabalho? Vida sedentária, horas no trânsito? Frustrações as mais diversas?
O que é certo é que a nossa sociedade de forte competição, entre empresas, entre trabalhadores, entre estudantes, é fortemente indutora de ansiedade, de insegurança, de redução da auto-estima. O nosso povo viveu muito tempo num meio algo fechado em que, se a vida não era especialmente boa, era pelo menos "habitual" (como diria alguém) - sabia-se com o que se contava, mesmo que não fosse especialmente exaltante.
Depois fomos confrontados com o "vale tudo", "é tudo nosso", "um mundo novo surgiu" e coisas do género. Passados os delírios colectivos, modernizado o ordenamento jurídico, a economia, a sociedade, passou-se para o delírio consumista - uma nova versão do "tudo é possível", "tudo está ao nosso alcance". Quando a realidade do nosso desenvolvimento deixou de ficar ocultada voltámos à depressão nacional, vagamente contrabalançada episodicamente, fosse com a Expo 98, fosse com o Euro. E assim vamos andando aos sacões, com um humor muito variável, com oscilações quase epilécticas - pelo menos decididamente típicas de um povo mal consigo próprio.
Claro que o fenómeno depressivo é geral às sociedades ocidentais, denunciando um mal estar profundo - uma inadequação da natureza humana à competição extrema, ao urbanismo, à desagregação dos modos de vida tradicionais - numa palavra: ao desenraízamento.
E então toca a tomar Prozac, a tomar indutores do sono, estabilizadores de tensão, eu sei lá. O velho Aldous Huxley é que retratou bem a tara contemporânea no "Admirável Mundo Novo". Estamos lá.

Publicado por FG Santos às 03:23 PM | Comentários (8)

março 01, 2005

Destruição da vida

Como talvez saibam, Simone Veil, sobrevivente de Auschwitz, antiga Ministra da Saúde, ex-presidente do CDS francês, fez em 27 de Janeiro deste ano um discurso comemorativo dos 60 anos da libertação daquele campo de concentração.
Quatro dias antes, a União dos Rabinos Ortodoxos dos EUA e do Canadá enviou um protesto ao presidente polaco (e ex-comunista recauchutado em social-democrata) Aleksandr Kwasniewski pelo motivo de a dita senhora ter sido a autora da lei que legalizou o aborto em França, sendo portanto responsável por um "processo de destruição da vida superior ao dos nazis" (sublinhado meu; os termos usados foram "far exceeding that of the nazis").
Neste sentido a senhora Weil terá agido de forma totalmente oposta aos dogmas do judaísmo.
Este protesto, que pouco eco teve na comunicação social, foi evocado pelo semanário "Rivarol".
Anexo o texto completo da notícia.

Rescapée d’Auschwitz, ancien ministre français de la Santé, ancienne présidente du Parlement européen, actuellement présidente de la fondation pour la Mémoire de la Shoah, Simone Veil avait été choisie à l’unanimité pour prononcer à Auschwitz le 27 janvier le discours sur l’unicité et l’abomination de l’Holocauste et lancer le message “plus jamais ça”. Pourquoi aucun media français n’a-t-il fait écho à la protestation solennelle que l’Union des Rabbins orthodoxes des Etats-Unis et du Canada avait adressée le 23 janvier 2005 (13 Shvat 5765) au président polonais Aleksander Kwazniewski pour dénoncer l’envahissante présence de Mme Veil? Signée du Rabbi Yehuda Levin, porte-parole officiel de l’Union orthodoxe et de l’Alliance rabbinique d’Amérique représentant plus de mille religieux, cette adresse rappelle que “Mme Simone Veil est bien connue pour avoir provoqué la légalisation de l’avortement en France”. “Ainsi, elle est un des principaux responsables d’une entreprise de destruction de la vie qui excède de loin celle qu’ont commise les Nazis (“she is one of those chiefly responsible for an ongoing destruction of human life far exceeding that of the Nazis”). Dans ses activités pro-avortement, elle a agi de manière diamétralement contraire aux dogmes du Judaïsme. Il est donc excessivement inapproprié (exceedingly inappropriate) que Mme Veil prenne la parole à la commémoration d’Auschwitz.”
Rappelons qu’en vertu de la loi Veil adoptée il y a trente ans presque jour pour jour après l’entrée de l’Armée rouge à Auschwitz, on compte selon les chiffres officiels de 200 000 à 230 000 avortements chaque année en France. Plus de six millions de fœtus ont donc déjà été éliminés.

Publicado por FG Santos às 01:51 PM | Comentários (8)

Euro-servidão

Graças ao nóvel "O Insurgente" descobri um blogue significativamente intitulado "The Road to Euro Serfdom".
O mote está dado logo em cabeçalho: "A perspective on the abolition of the countries of Europe and with it the rights and freedoms of a whole continent of people."
Escusado dizer que passarei lá amiúde.

homo_sapiens.jpg

(Desenho incluído na brocura "EU cannot be serious!")

Publicado por FG Santos às 01:21 PM

Blogues a descobrir

Só recentemente topei com dois blogues na área ideológica próxima do PP, ambos muito bem escritos e com boas análises da actualidade.
São eles o "Lóbi do Chá" e "A Arte da Fuga".
Mais recente, e que também promete, é "O Insurgente".
Nas várias áreas da direita se vai manifestando a dinâmica de quem recusa ceder ao ideário esquerdista.

Publicado por FG Santos às 10:37 AM

"Batalha Final"

É o nome de um novo blogue na área nacional, que assume a paternidade de Lucien Rebatet, autor polémico e escritor de altíssimo nível, dos melhores do século passado.
Aparentemente vai dedicar-se mais às ideias que ao acompanhar do dia-a-dia noticioso, sendo um espaço de reflexão à direita.
A seguir, atentamente.

Publicado por FG Santos às 10:33 AM

Isto sim, é informação de qualidade!

... ou TSF no seu melhor:
"Em Lisboa, os termómetros desceram aos 0 graus negativos."
É mesmo caso para bater o dente!

Publicado por FG Santos às 10:17 AM | Comentários (2)

500 comentários

O "Santos da Casa" atingiu ontem os 500 comentários, o que, nos seus 143 dias de existência, dá uma média de 3,5 comentários ao dia. A média por "post" (228 até agora) é de 2,2.
Sem surpresa, o comentário nº 500 foi obra de... Nelson Buíça.
Como prémio, vai ter direito às obras completas de António Sardinha, ao "Que fazer?" de Lénine e à "Superioridade Moral dos Comunistas" de Barreirinhas Cunhal.

Publicado por FG Santos às 10:11 AM | Comentários (2)