« Lições de democracia | Entrada | Forças do mal »

fevereiro 27, 2005

Portugal e Europa

Volta e meia envolvo-me em discussões mais ou menos acaloradas nos blogues por causa da Europa. Desta vez foi no "Pena e Espada".
Acho que há um grande equívoco da parte de muitos nacionalistas face ao papel que o nosso país pode ter na Europa (que hoje em dia é sinónimo de UE) e ao que esta nos pode proporcionar.
Creio que o nosso país perde por estar na UE, perde soberania, perde até dignidade (transformaram-nos em pedintes de subsídios), perde claramente em termos económicos (fim dos sectores tradicionais, moeda forte nada coadunante com a nossa economia) e em última análise perde perspectivas de futuro autónomo.
É triste que da esquerda à extrema direita (designação que uso aqui por comodidade) todos achem que fora da Europa estamos perdidos, como se não o estivéssemos já dentro dela!
Neste país de fraca crença nele próprio, há-de haver sempre um D. Sebastião para nos arrancar das trevas em que a nossa apatia e o nosso desespero nos mergulharam.
É óbvio que fora da EU poderíamos manter relações comerciais com os seus países-membros sem ficarmos coarctados na nossa acção pelas directivas que nos tolhem todo o movimento autónomo. E teríamos acesso a mercados tradicionais das nossas relações económicas, como o Brasil, os EUA ou o Canadá, sem a limitação que a moeda forte nos traz.
Como dizia Franco Nogueira em 1976, «Continuamos a ter motivos para querermos ser portugueses e não outra coisa. Aliás, é pura ilusão pensar que viveríamos melhor se fôssemos qualquer outra coisa. Julgar-se-á que alguém ou algum povo nos sustentaria, e nos faria viver bem no plano material, apenas por desvelado amor aos Portugueses? (…)
«A integração europeia, o Mercado Comum supõe a criação de uma pauta exterior comum, e portanto a livre acção de forças económicas e financeiras entre os países membros. Uma economia débil em contacto desprotegido com um bloco económico poderoso significa o domínio daquela por este. Estamos aqui perante a fatalidade geográfica portuguesa: sermos o único país europeu que tem um só vizinho. Isto quer dizer que, para Portugal (…), o Mercado Comum seria, antes de mais e desde logo, o mercado comum ibérico, isto é, um mercado comum entre dois parceiros muito desiguais, um dos quais, sendo três ou quatro vezes mais forte, facilmente dominaria o outro.»
Isto foi dito há quase trinta anos e os factos só têm confirmado esta asserção.
Tanta gente que continua ofuscada por uma ideia mítica de Europa, quando o que há são países que, por via da construção europeia, se conseguem mais facilmente impor aos mais débeis.
Em última instância, um grande amor pela Europa revela um mau amor por Portugal.

Publicado por FG Santos às fevereiro 27, 2005 03:37 PM

Comentários

Consegui "descobrir" o seu "blog"...Santos da Casa!

O seu texto sao generalidades feridas de contradicoes de indole economica e politica.
"E teriamos acessos a mercados....como o Brasil, Canada, EUA,sem a limitacao que a moeda forte nos traz"!!!! Afinal voce defende uma moeda fraca, de um pais fraco...ou nao?
A ideia de Europa, felizmente que ha muito deixou de ser mitica, ela encarna a vontade de muitos Europeus preocupados com o futuro de todos os povos Europeus, da mesma raca, cultura e civilizacao.
Como descendente de madeirenses tambem acho que o centralismo de Lisboa durante seculos abandonou a sua triste sorte os habitantes do Arquipelago. Ah esse "nacionalismo" patrioteiro, de cunho reaccionario e passadista.

Em ultima instancia esse "nacionalismo" revela nao um grande amor por Portugal, mas uma cega alergia a nossa identidade etno-cultural comum de todos os Europeus. So isso!
Quem ama a Europa, ama Portugal!

Publicado por: Miguel Angelo Jardim em fevereiro 27, 2005 05:45 PM

Meu caro FGSantos, desta vez estou em saudável desacordo consigo: aonde nos conduziram as sucessivas desvalorizações da moeda encetadas entre 1974 e 1985? Que sentido tem propugnar uma economia baseada na trilogia “baixos salários - produtos sem qualidade - desvalorização deslizante da moeda (crawling peg)”, que não seja o de manter o País a um nível de estratégia económica típico do Egipto, do Paquistão ou da China?... Ademais, numa economia muito dependente do exterior, nomeadamente no que concerne ao campo energético, tais desvalorizações são um factor muito sério de instabilidade social, como bem o comprovam na nossa história recente o ano de 1978 ou o triénio de 1983-1985, e a competitividade com elas ganha a montante, acaba por ser perdida a jusante.

Publicado por: JSarto em fevereiro 28, 2005 10:22 AM

Caro Sarto, a questão não é a desvalorização. A questão é voltarmos a ter a nossa moeda, cujo curso no mercado determinaria a sua cotação, que estaria assim coadunante com a situação da nossa economia. O Banco de Portugal deveria ter independência política para evitar desvalorizações sistemáticas. Actualmente "temos" uma moeda cujo valor de mercado é mantido artificialmente alto, por via das taxas de juro determinadas pelo BCE.
A UE é composta por economias com graus de desenvolvimento diferentes, com exposições externas diferentes, com graus de especialização distintos; impor uma mesma moeda em todo este espaço é estar a penalizar as economias mais débeis, que deveriam ter a sua própria moeda, nos moldes acima descritos. Não é voltar-se à desvalorização sistemática, é ter uma moeda cuja cotação reflicta o estado da economia. Simples bom senso, portanto.

Publicado por: FG Santos em fevereiro 28, 2005 11:34 AM

Miguel, em relação à moeda veja, sff, o meu comentário anterior.
Não percebo como é que o meu amigo se escandaliza com o centralismo lisboeta e por outro lado nada diz sobre o centralismo de Bruxelas!
A Europa mítica, como eu lhe chamo, vai ficando nas mentes de alguns como algo alcançável, na prática os países, a "Velha Europa", vão seguindo as suas políticas, os seus instintos seculares. Veja a este propósito o excelente texto do Ger. Loureiro dos Santos:
http://jornal.publico.pt/noticias.asp?a=2005&m=02&d=26&id=8804&sid=924

Publicado por: FG Santos em fevereiro 28, 2005 11:42 AM

Meu caro FG Santos desde quando e que a emissao de moeda e prova de "soberania"??
O Haiti e o Rwanda tambem emitem moeda e falar de "soberania" em ambos casos e para rir as gargalhadas...
O JS Sarto tem inteira razao nas suas observacoes.
A moeda corresponde e reflecte o estado da economia real e e esta que define o grau de "soberania" e "autodeterminacao" de uma Nacao ou Pais. Existem regioes que sao mais "soberanas" que muitas nacoes, ditas independentes...
Portugal importa e exporta em mais de 8o% das suas transaccoes com a Europa!! Para bom entendedor...
Mas quem que lhe disse que eu estou de acordo com o centralismo de Bruxelas?? A EUROPA que conceptualizo radica noutros fundamentos e supoe um outro tipo de integracao. Mas desejo que Portugal se integre nesse bloco de futuro.
No que concerne ao "General" Loureiro dos Santos, so mesmo em Portugal, infelizmente, se da "ouvidos" as suas babuseiras!
Estes "generais" que na guerra do ultramar eram conhecidos mais pela cerveja consumida do que propriamente pela defesa dos seus compatriotas.
Nao me fale do "general" Loureiro dos Santos...

Publicado por: Miguel Angelo Jardim em fevereiro 28, 2005 07:28 PM