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fevereiro 16, 2005

Mais sobre Adam Smith

A propósito do meu texto anterior sobre Adam Smith, o comentador NC sugeriu a leitura de um texto que supostamente desfaz alguns mitos sobre o pensador escocês.
Eis os meus comentários ao mesmo.
1) O meu texto nunca referiu que Smith fosse partidário da ganância ("greed"). Entre cada um zelar pelos seus interesses próprios e a ganância vai um grande passo.
2) Obviamente escrevendo Smith anos antes da Revolução Industrial, a realidade que ele analisa não é a das grandes manufacturas. Mas o princípio da divisão do trabalho foi utilizado, tal como ele preconizava, no sentido do aumento de produtividade e progresso técnico. Este último seria também obtido pelo contributo dos trabalhadores, pois estes conhecendo a sua função como ninguém, precisamente por via da especialização, poderiam dar sugestões tendentes ao aumento de eficácia no seu desempenho. É muito curiosa a semelhança entre esta situação e o modelo japonês de círculos de qualidade!
3) A crítica aos "merchants" não é uma crítica ao capitalismo ou aos capitalistas (termos pouco ou nada usados à época) mas sim uma crítica aos monopólios, geradores de injustiças não só pelos preços mais altos que daí decorrem como pela menor eficácia na afectação de recursos. O modelo smithiano é um modelo de livre concorrência, em que os actores económicos não beneficiam de ajudas estatais, sejam subsídios, sejam limitações ao comércio internacional (tarifas aduaneiras).
4) Aqui reside, quanto a mim, uma das fraquezas deste modelo: vimos no meu anterior texto a descrição do círculo virtuoso, em que partindo da divisão do trabalho se alcançaria maior produtividade, maior crescimento económico, melhoria das condições de vida, etc. Ora o crescimento implicaria maior investimento e, consequentemente, aumento da dimensão das empresas, umas com mais sucesso que outras. Aquelas tenderiam necessariamente a ganhar maior quota de mercado, a concentrar recursos e, tendencialmente, a ditar regras no mercado. Inevitavelmente, o seu peso crescente terá reflexos junto do poder político e, daí até à obtenção dos tais favorecimentos que Smith criticava, vai um pequeno passo. É difícil crer que o crescimento das empresas se processe de igual forma: tal como os indivíduos, há empresas mais aptas que outras!
5) Esta aparente ingenuidade poderá derivar da convicção por ele expressa na "Teoria dos Sentimentos Morais", em que o autor crê que o ser humano nasce com uma consciência do que está certo e do que está errado, possuindo cada um uma qualidade, a que chama "sympathy" (pode traduzir-se imperfeitamente por "compreensão do outro" ou, modernamente, "empatia"), a qual permite aos homens viverem em comum. Parece-me a mim uma utopia tão ou mais perigosa que a de Rousseau.

Publicado por FG Santos às fevereiro 16, 2005 02:34 PM

Comentários

Mais uma vez, o FG Santo em grande estilo.
Claro e conciso, desfazendo algumas mistificações que por aí andam.
O trabalho de Adam Simth é uma base para um correcto funcionamento da economia. Mas não é um fim em si mesmo.
O conhecimento vai-se construindo.Os livros são úteis para a reflexãoe evolução do conhecimento e do pensamento humano.
Mas não são 'verdades imutáveis'.
Os liberais, ao contrário de 'uns e outros', não são seguidores do 'livro'.
Também desconhecemos a noção de 'idolatria'.

Bom trabalho FG Santos.
um abraço


nota: FG Santos, o 'mail' já seguiu.
;-)

Publicado por: Nelson Buiça em fevereiro 16, 2005 04:55 PM

Mais uma vez, o FG Santos em grande estilo.
Claro e conciso, desfazendo algumas mistificações que por aí andam.
O trabalho de Adam Simth é uma base para um correcto funcionamento da economia. Mas não é um fim em si mesmo.
O conhecimento vai-se construindo.Os livros são úteis para a reflexãoe evolução do conhecimento e do pensamento humano.
Mas não são 'verdades imutáveis'.
Os liberais, ao contrário de 'uns e outros', não são seguidores do 'livro'.
Também desconhecemos a noção de 'idolatria'.

Bom trabalho FG Santos.
um abraço


nota: FG Santos, o 'mail' já seguiu.
;-)

Publicado por: Nelson Buiça em fevereiro 16, 2005 04:55 PM

Então temos um problema: a aplicação da própria doutrina liberal acaba por levar à sua negação.

Publicado por: NC em fevereiro 16, 2005 05:52 PM

De onde é que o NC retirou essa conclusão?

Publicado por: Nelson Buiça em fevereiro 16, 2005 07:46 PM

«uma das fraquezas deste modelo: vimos no meu anterior texto a descrição do círculo virtuoso, em que partindo da divisão do trabalho se alcançaria maior produtividade (...) Ora o crescimento implicaria maior investimento e, consequentemente, aumento da dimensão das empresas (...) Aquelas tenderiam necessariamente a ganhar maior quota de mercado, a concentrar recursos e, tendencialmente, a ditar regras no mercado. Inevitavelmente, o seu peso crescente terá reflexos junto do poder político e, daí até à obtenção dos tais favorecimentos que Smith criticava, vai um pequeno passo.»

Ou seja, a livre concorrência destroi a livre concorrencia e proporciona a criação de monopolios, que depois influenciam o poder politico em seu beneficio.

Publicado por: NC em fevereiro 16, 2005 10:56 PM

Não necessáriamente.
Por isso mesmo é que se considera que, em economia, não se deve aceitar remédios 'absolutos' nem soluções a 100%.

Este 'problema' do parágrafo que o NC destacou é controlado fácilmente. Veja-se a Lei Anti-Trust dos EUA, por exemplo.
Á conta dessa Lei o NC recoda-se do que aconteceu à Microsoft?
Quando o monopólio de Bil Gates começou a por em perigo a 'livre concorrência', houve intervenção do Estado para por cobro a essa situação.
Estas intervenções do Estado são benéficas, pois são arbitragens que visam manter o mercado em condições justas de funcionamento e concorrência, impedindo a nefasta situação de monopólio.
Mesmo no liberalismo são precisas regras, não demasiadas, mas mesmo assim algumas.
Essa intervenção do Estado não é uma intervenção económica directa, como é óbvio. O Estado não deve ser 'empresário' nem deve ser proprietário de quaisquer meios de produção e consumo.
Para o Estado ser árbitro justo, não pode ser jogador ao mesmo tempo. Não acha?
Os resultados de politicas demasiado socializantes estão à vista de todos.

Quanto às influências do 'económico' sobre o 'político' elas não partem da situação de monopólio, pois também na Europa existem mecanismos anti-monopolistas (embora em Portugal não haja regulação eficiente anti-cartel, p.ex).
Essas influências partem de conglomerados de interesses sectoriais. Partem de um inopinado espírito corporativista entre alguns empresários.
nada existe de mais anti-liberal.
É uma situação que deve ser combatida enérgicamente através de leis que combatam o corporativismo na economia, proibindo concertações e 'lobbies' de intervenção do 'económico' no político.

Publicado por: Nelson Buiça em fevereiro 17, 2005 12:15 AM