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fevereiro 01, 2005

Eleições no mundo árabe

Até há pouco tempo, as eleições que se realizavam no mundo árabe eram um pró-forma de legitimação (nada transparente, diga-se) dos quase eternos líderes. De Saddam Hussein a Ben Ali, de Hosni Moubarak a Hafez-el-Assad, o resultado era sempre o esperado.
O Líbano, ocupado militarmente pela Síria desde 1990, era (e é) um caso mais complexo, dado que os lugares de Presidente e Primeiro Ministro estão de antemão reservados respectivamente a um cristão e a um muçulmano.
No Médio Oriente, um país não árabe, o Irão, ia avançando com um pouco menos de restrições à apresentação de candidaturas menos identificadas com o status quo, o que permitiu a extraordinária eleição de Khatami (entretanto reeleito) à presidência.
No último mês, dois territórios militarmente ocupados por tropas estrangeiras, a Autoridade Palestina e o Iraque, tiveram as suas eleições, com maior sucesso do que previsto.
A morte de Yasser Arafat permitiu finalmente aos palestinos votar livremente em cerca de dez anos, num clima de quase distensão, dando uma lição de civismo e serenidade aos monolíticos regimes de partido e presidente único e vitalício.
No Iraque, mesmo com ameaças de atentados (algumas concretizadas) cerca de 72% dos eleitores deslocaram-se às urnas, mostrando uma vontade clara de escolher os seus governantes. O desinteresse, fosse por medo fosse por desprezo pela ocupação americana, da comunidade sunita não surpreendeu e tal constitui um problema forte de legitimação do futuro poder. É uma reviravolta espantosa face ao regime sadamita, fortemente repressor da comunidade chiita, que constitui cerca de 60% da população iraquiana.

Voto em Al-Diwaniya 30.01.2005.jpg
(Fila de eleitores na localidade iraquiana de Al-Diwaniya.)

Os curdos, em referendo paralelo à eleição, votaram em grande estilo (mais de 90% de sim) pela independência, inquietando ainda mais a junta militar turca.
A Administração Bush, excitadíssima com a sua "revolução democrática", vai afiando as facas com vista a uma eventual invasão do Irão. O que é que se joga aqui?
- O controlo acrescido das reservas petrolíferas mundiais. Com uma pressão cada vez maior sobre os recursos, impulsionada em grande medida pelo crescimento económico chinês, os americanos continuam a tentar precaver o futuro deste bem precioso;
- Uma política cada vez mais descarada de eliminação dos inimigos de Israel, mesmo que para tal se incendeie toda uma região e se dê ainda maior alento a uma vaga terrorista à escala mundial;
- O factor apontado por Bush como primordial, a expansão da democracia, é perfeitamente anedótico, dado que Washington convive muito bem com regimes como o Paquistão, as repúblicas da Ásia Central ou a China, onde a democracia é uma miragem.

Publicado por FG Santos às fevereiro 1, 2005 11:54 AM

Comentários

Ao contrário do Pedro G,. eu penso que a verdade precisa de muitos amigos. Você hoje, como a mim me sucede tantas vezes, deu-lhe para explicar evidências :). Mas às vezes é preciso!

Publicado por: clark59 em fevereiro 1, 2005 09:32 PM

O FG Santos se está á espera de ver rechunchudos B-52 a debitar bombas sobre Teerão acompanhados por hordas ululantes de GI Joe's de Coca-Cola em riste.....está muito enganado.
Naturalmente, os EUA não vão invadir o Irão,pois não podem. Nem precisam.
Não podem por alguns motivos:
-O custo de tal operação, na conjuntura actual, seria totalmente incomportável. Absolutamente impossível. Out of question.
-O Irão não é o Iraque. O território é muito maior, o Irão é mais forte, e o terreno (vastíssimo e extremamente acidentado) torna inviável qualquer aventura militar.
O Saddam que o diga.
-Internacionalmente não existem quaisquer condições para uma intervenção.
-A nível interno os americanos, desta vez, não iriam atrás da administração pois, para exigir esses esforço num momento destes, o governo actualmente sediado em Austin teria que recorrer a uma mobilização geral da população, à semelhança das Guerras Mundiais, pois os seus efectivos estão em demasiados sítios ao mesmo tempo. A força dos EUA está não tanto nos seus efectivos regulares mas sim, no seu imenso (eufemismo) arsenal de destruição maciça que nos mataria a todos numa questão de alguns minutos.
Uma mobilização geral, neste momento, seria a última coisa que pode acontecer nos EUA.

Não precisam porque:
-Aquilo a que vamos assistir será, sem margem para dúvidas, uma reedição de algo um pouco mais subtil.
Lembra-se de Granada?
Lembra-se do Panamá?
E lembra-se (sobretudo), do 11 de Setembro de 1973?
Quem é que colocou D.Augusto no poleiro??

Uma política de + ou - lenta (mas inexorável) subversão serão as 'armas' utilizadas doravante.
E, como o futuro sem dúvida demonstrará, essa política é muito mais eficaz do que desajeitadas e apocalítpicas intervenções militares.

Olhe, Cuba e Coreia do Norte vão cair por si mesmas. Vai ser um fartote. O de Harare (agora que embirraram com ele) vai ver-se negro :-) para continuar no poder.
A Líbia deu o 'salto'.
O da Venezuela, se tiver (subitamente) o mesmo destino que o Allende, não fiquemos admirados.

Quanto ao oftalmologista de Damasco,bem, esse apenas precisa de se mater igual a sim mesmo.
Nada lhe acontecerá. Se fosse para acontecer, já teria acontecido.

E assim cá iremos andando com a cabeça entre as orelhas.....enquanto isto não for pelos ares. :(

Publicado por: Nelson Buiça em fevereiro 2, 2005 12:40 AM