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fevereiro 20, 2005

As eleições

Ainda sem o distanciamento necessário, deixo aqui algumas reflexões sobre os resultados eleitorais de hoje.
Todos sabem que os governos nas democracias têm uma regra de ouro: tomar as medidas mais difíceis nos primeiros anos, aligeirando um pouco no final, de modo a garantir os votos.
Ao convocar eleições a meio desse ciclo, o nosso PR ofereceu de bandeja a vitória ao seu partido (é este o "charme" da República). Apesar das inépcias do governo cessante, este tentou nos pouco meses que esteve no activo prosseguir algumas políticas arriscadas, como as portagens nas SCUT ou o aumento da taxação sobre as mais valias das empresas, o que criou um movimento de reacção de alguns empresários, que terão pressionado Sampaio a disolver o governo.
Em termos gerais os eleitores não perceberam o sentido do esforço financeiro que lhes foi exigido e só se terão lembrado da "vida boa" durante o guterrismo.
Como era de esperar, o CDS, sem um grande resultado, já mostrou que com Portas não obtém resultados desastrosos. Apesar da hostilidade da imprensa.
Em relação à extrema-esquerda, penso que os bons resultados da CDU e do BE têm motivos diferentes. Tradicionalmente, em cenário de dificuldades económicas e aumento de desemprego, os comunistas crescem. O seu discurso, sempre o mesmo, tem o efeito de atraír a classe média-baixa e baixa quando a sua situação económica se degrada.
O crescimento do BE tem motivos completamente distintos. É uma esquerda de classe média, que apela à juventude e procura angariar os rebeldes em fim de adolescência, os universitários. É na Universidade que a guerra cultural (pois é disso que se trata) se trava: onde a esquerda vai impondo insidiosamente a sua mensagem, as suas "causas" - e desde os anos 60 praticamente só tem averbado vitórias, talvez com a excepção de um período nos anos 80, em que a euforia reaganiana / thatcheriana se fez sentir. A simpatia (para não dizer mais) que os meios de comunicação demonstram perante o BE tem em grande medida a sua origem no trabalho de sapa que a esquerda tem desenvolvido nas últimas décadas.
Ao contrário de algumas insinuações malévolas à sua direita, o PND não beneficiou de qualquer complacência por parte da comunicação social. Tendo nas suas fileiras algumas pesssoas de grande valor, viu-se confrontado com o silêncio mediático, que impediu uma maior difusão da sua mensagem. A posição política de Monteiro não ajudou: de grande defensor dos desfavorecidos nos primórdios do PP (papel que Portas brilhantemente arrecadou) passou a promotor de um liberalismo "à outrance", incongruente com outra das suas posições de outrora: a defesa do empresário português face à "invasão" de produtos estrangeiros. Face à Constituição Europeia e ao aborto as ideias pareceram mais claras, tendo sem dúvida contribuído para os 40.000 votos que obteve à hora a que escrevo.
Do PNR já falei mais abaixo, só acrescento que deve de uma vez por todas esclarecer a sua relação com a FN - também aqui houve uma postura que não ajudou a tirar a imagem que a chamada extrema-direita tem em toda a Europa: movimentos xenófobos. Digo a imagem e não a realidade - mas o esclarecimento cabal deste aspecto não existiu. E ao contrário do que dizia o Pedro Guedes, não creio que seja um partido que cative os monárquicos: primeiro, porque não tem (nem procura ter) um discurso monárquico; depois, porque é europeísta, pan-europeu, qualquer coisa assim, enquanto que os monárquicos tendem a ser atlantistas, mais virados para o mar, por assim dizer (como dizia Franco Nogueira, um país cuja única fronteira terrestre é com um só país, ainda por cima de tendências expansionistas, procurou sempre a sua independência do lado do mar: pela aliança com a Inglaterra (uma ilha) e pela expansão marítima).
Para concluir, uma reflexão regional: costuma dizer-se que o poder dos comunistas no Alentejo era uma questão de tempo, de demografia: à medida que os "velhos" apoiantes fossem finando, assim a sua massa de apoio definharia, inelutavelmente. Ao ver os resultados desta noite em distritos tradicionalmente conservadores como Viseu ou Bragança, ocorre-me o mesmo mas a respeito dos valores conservadores do Portugal rural. Mesmo nestes distritos a população vai-se urbanizando, desertam as aldeias, concentra-se a população nas grandes e médias cidades, a igreja tem um papel menos preponderante (e quando o tem é muitas vezes em sentido revolucionário!) e assim, goste-se ou não, morre mais um pouco do nosso velho Portugal, cada vez mais urbano, desmemoriado, sem valores, virado para a conta bancária e o entretenimento.

Publicado por FG Santos às fevereiro 20, 2005 11:03 PM

Comentários

Caro FG Santos,
Se o PND foi silenciado pelos órgãos de comunicação social vou ali e já venho...
Quanto ao "caso monárquico" são outros quinhentos.
Um abraço,
PG

Publicado por: pedro guedes em fevereiro 21, 2005 12:04 AM

"Quanto ao "caso monárquico" são outros quinhentos." Que quer dizer com isto, caro Pedro?
Um abraço.

Publicado por: FG Santos em fevereiro 21, 2005 09:39 AM

É óbvio que o PND foi silenciado pelos órgãos de comunicação social.
Mas a estratégia do Manuel Monteiro desarma-me um pouco. Tenta ser admitido (ou readmitido) na alta roda e vai deixando de falar da Constituição Europeia.
Assim vai perdendo a alma e vai começando a ficar como que um PP descolorido, um PP sem Paulo Portas, nada mais...

Publicado por: cabalas em fevereiro 21, 2005 01:01 PM

Caro Raio, não foi com grande prazer que escrevi isto há quatro meses atrás:
http://santosdacasa.weblog.com.pt/arquivo/2004/10/manuel_monteiro.html

Publicado por: FG Santos em fevereiro 21, 2005 01:14 PM