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O preço a pagar

[Público 10 janeiro 2008]

Para nos justificar por que razão não convoca o referendo sobre o Tratado de Lisboa, José Sócrates tem muitas razões. Mas não tem razão.

Para se fazer perdoar em certa ocasião pela namorada Ophelia, escreveu assim Fernando Pessoa: eu sei que não tenho desculpa; mas tenho desculpas. Para nos justificar por que razão não convoca o referendo sobre o Tratado de Lisboa, José Sócrates está numa posição semelhante. Tem muitas razões. Mas não tem razão.

Há pois muitas razões: de importância, de responsabilidade, de sentido do dever. Todas juntas, são razões que vencem sem nos convencer. Pior ainda, é de justificações assim que nascem as mentiras piedosas e as promessas por cumprir. Todos já quebrámos promessas e contámos mentiras, sabemos como é.

Sócrates pode dizer: mas Sarkozy, mas Merkel, mas Gordon Brown. Mas nada. O compromisso que ele tinha não era com Sarkozy, nem com Merkel, nem com Gordon Brown. Nem sequer com Cavaco Silva. Esse compromisso era conosco.

Sócrates pode dizer: tomaria algum de vocês uma decisão diferente, colocando em risco a União Europeia? E a resposta é: talvez não. Mas se assim é, teria feito melhor em dizer-nos desde o início que o referendo era impossível de se fazer.

***

José Sócrates sabe que terá um preço a pagar por isto, o “preço político”, como se costuma dizer. O problema, quando se quebra uma promessa e se está disposto a pagar um preço por isso, é o seguinte: o preço que os lesados exigem é sempre por definição mais alto do que aquele para que estamos preparados, porque é aos lesados que cabe definir o preço.

Além disso, há um efeito de repetição que aumenta esse preço.

José Sócrates invoca a ética da responsabilidade para justificar a sua escolha. Mas já é a segunda vez que um primeiro-ministro português coloca a responsabilidade perante os colegas europeus sobre a responsabilidade perante os eleitores portugueses, primeiro com Durão Barroso e agora com José Sócrates. O segundo não tem culpa do primeiro, mas não se admirem se estiverem a fazer dos portugueses anti-europeístas contra todas as tendências.

E também é a segunda vez que José Sócrates quebra uma promessa importante. A primeira foi a de não aumentar os impostos, a segunda foi a do referendo. Se ele tivesse corrido os riscos consideráveis de convocar o referendo, o cumprimento de uma promessa teria compensado a quebra da outra, precisamente por sabermos que os riscos eram consideráveis e que ele estava disposto a corrê-los para evitar quebrar mais uma promessa. Assim, em vez de José Sócrates ser um homem que só quebra uma promessa quando não pode mesmo ser de outra forma, os seus adversários podem descrevê-lo como um homem que não perde uma oportunidade para quebrar uma promessa. Parece injusto? O preço a pagar parece muitas vezes injusto.

Claro, para cada um destes argumentos há certamente muitas desculpas. E muitas delas são de peso. E muitas delas são compreensíveis. O problema, como lembraria friamente Fernando Pessoa, é que há desculpas — mas não há desculpa.

Comments

Sr. Rui Tavares:

Onde está o espanto?

Hoje, a "democracia" ainda vai tolerando que o povo se pronuncie, enquanto não puser em risco os verdadeiros interesses do poder.

Se a Europa corria o risco de ver chumbado - em referendo - o tratado de Lisboa (que mal fizeste Lisboa para mereceres este tratado?), então qual é a dúvida? Não se ouça o povo.

Afinal, não era isso o que Salazar praticava? Porque se há-de ouvir o povo se ele não está preparado e ainda pode estragar o "esquema"?

Faltar à promessa? Qual quê? Isto, na altura, até tinha outro nome.
Ah grandes democratas! Porreiro pá!

Os que hje reclamam o referendo, são os mesmos que não queriam referendo para IVG, ademais, tambem não se fez referendo aqunado da adesão, esses mesmos estavam contra, mas andam la e vver das benesses europeias.

Por outro, em economia, não se pode dizer que amnhã não se aplique outro modelo de politica fiscal, ja no tempo do Barroso assim teve que ser, ou ja se esqueceu

Votar PS? Em que planeta, pergunto eu?

É um grande texto, mais um. Obrigado

Rui Tavares
Quero dizer-lhe que o seu texto de hoje sobre a autoridade me deixou muito feliz. Lendo-o (muitas vezes) sinto que não estou sozinha e que ainda há quem pense neste país. Obrigada.
24.03.08 (aniversário do dia do estudante)
Com amizade
Ana Benavente

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