" /> Pobre e Mal Agradecido: abril 2006 Archives

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abril 22, 2006

Cândido

Na impossibilidade de Voltaire estar presente (e a Câmara Municipal de Lisboa também escusa de lhe escrever a felicitar pelo livro) caber-me-á apresentar o seu Candide, ou l'Optimisme numa tradução que eu mesmo fiz para língua portuguesa, e que acompanhei de notas e um pequeno estudo. Se o prazer que dá traduzir o Cândido for bom indicador para o prazer que dá lê-lo, os leitores não perderão o seu tempo.

Mas há mais. A Tinta da China fez uma bela edição e pediu à Vera Tavares que a acompanhasse das suas ilustrações primorosas.

Se quiserem aproveitar para conversar um bocadinho, passem pelo lançamento nas comemorações do Dia Internacional do Livro. No próximo domingo, dia 23 de Abril, pelas 18h30 na FNAC Chiado.

abril 18, 2006

Matança de Lisboa - 500 anos

Amanhã relembra-se o massacre de mais de quatro mil lisboetas, nos dias 19, 20 e 21 de 1506. As vítimas foram na sua maioria judeus, convertidos à força, mal-baptizados, cristãos-novos, suspeitos de judaízarem às escondidas, ou pessoas que os assassinos tomavam por pertencer a qualquer destas categorias.

Seguindo a sugestão do Nuno Guerreiro n'A Rua da Judiaria estarei no Rossio, esta quarta-feira, para acender uma vela em memória desses nossos antepassados. Pode ser a qualquer hora, mas (segundo me dizem) será às 19h00 que mais gente estará no local.

Para mim, pessoalmente, será também um voto de esperança numa Lisboa com memória, acolhedora e generosa para com as suas minorias. No passado e, cada vez mais, no futuro.

Deixo a seguir o meu texto do Público sobre este assunto.

A matança

Na próxima quarta-feira, dia 19 de Abril, cumprir-se-ão quinhentos anos sobre o dia em que dois frades dominicanos percorreram a baixa de Lisboa incitando o povo contra os “judeus”. Quinta-feira, dia 20 de Abril, terão passado quinhentos anos, quase silenciosos, sobre o massacre de quatro mil lisboetas. Sexta-feira, dia 21 de Abril, fechar-se-ão quinhentos anos sobre a página mais vergonhosa e mais esquecida da história de Lisboa.

Era o ano de 1506 e sofria-se com a seca. O rei Dom Manuel estava em itinerância pelo Ribatejo. Da seca vinha a fome; a fome e a peste matavam; em Lisboa morrera já mais de um cento. O povo devoto reunia-se nas igrejas para pedir o fim daquelas penas. As crónicas relatam pouco mais ou menos o mesmo. Era domingo de Pascoela, uma semana depois da Páscoa. Parece que na igreja de São Domingos se viu um crucifixo iluminado, que alguns tomaram por milagre. Parece que um homem que ali se encontrava sugeriu que aquela luz era coisa natural, provinda de uma das janelas. Parece que este homem era cristão-novo; foi ali espancado, despedaçado e depois arrastado pelas ruas. Os frades saíram também, proclamando que a culpa da fome e da peste estava em tolerar-se a presença de judaízantes entre os cristãos. Correu a notícia de que quem matasse os “judeus” da cidade teria cem dias de absolvição dos seus pecados.

Nos dias 19, 20 e 21 de Abril de 1506 chacinaram-se mais de quatro mil lisboetas. Não parou a seca, nem a peste.

Oficialmente já não havia judeus em Portugal. Tinham sido convertidos à força uma década antes, dando origem ao nascimento da categoria de “cristãos-novos” de que se suspeitava que “judaízassem” às escondidas, em casa. Eram os “mal baptizados”, como lhes chamava o lisboeta Samuel Usque, nascido pouco antes do massacre, judeu português que (ao contrário do que sucedera durante séculos) só pôde continuar a ser judeu e português fugindo para o estrangeiro.

O escritor e cronista Garcia de Resende, que viveu durante os reinados de D. Afonso V, D. João II, D. Manuel e D. João III, foi contemporâneo dessa fase crucial em que Portugal deixou de ser um reino multirreligioso. Conta como no reinado de D. João II os judeus e mouros participavam da vida da comunidade, por exemplo organizando festas quando havia boda real: “sempre nas festas reais / festa de mouros havia / tão bem feita se fazia / que não podia ser mais”. Com palavras de cristão devoto, aprova a conversão forçada dos judeus e a expulsão quase completa dos muçulmanos portugueses: “Os judeus vi cá tornados / todos num tempo cristãos / os mouros então lançados / fora do reino passados / e o reino sem pagãos”. E horrorizado descreve a matança de Lisboa, menos de dez anos depois: “mais de quatro mil mataram / dos que houveram às mãos / uns deles vivos queimaram / meninos despedaçaram”.

Para quê comemorar a matança de Lisboa?

Há uma história multiétnica e multirreligiosa de Portugal que os portugueses não conhecem. Para o mal e para o bem: poucos sabem que houve em Lisboa a matança de 1506 como poucos sabem que era em Lisboa o maior bairro negro da Europa, o Mocambo, que se estendia para lá dos olivais de São Bento em direcção aos actuais bairros da Madragoa, da Lapa e de Santos-o-Velho.

Comemorar não é festejar; é “lembrar em conjunto”. Há poucos anos acabou o ciclo das comemorações dos Descobrimentos e parece que o país ficou sem história para recordar. Entretanto, já passaram os 250 anos do Grande Terramoto, lamentavelmente desaproveitados no seu potencial pedagógico e preventivo. E agora? Passarão vergonhosamente esquecidos os 500 anos daquela que foi, na história de Lisboa, a pior manifestação de violência colectiva em tempo de paz?

No blogue do jornalista Nuno Guerreiro [http://ruadajudiaria.com, cuja consulta recomendo para mais informações sobre a matança de 1506] lançou-se a ideia de ir ao Rossio, no dia 19 de Abril, acender quatro mil velas em memória das vítimas. Eu vou estar lá. É o mínimo que se pode fazer, e mesmo assim houve na blogosfera quem reagisse com desconforto. De facto seria maravilhoso se a nossa história fosse sobrenaturalmente isenta de episódios trágicos como este. Não é. Estavam antepassados nossos entre os assassinos e entre as vítimas; isso deveria bastar-nos.

Amanhã é domingo de Páscoa. Os jornais vão assinalar o facto, o Cardeal Patriarca vai rezar missa; as televisões não vão parar de transmitir filmes sobre um homem morto há dois mil anos. Para sermos inteiros, convinha que não esquecêssemos outros quatro mil, assassinados cruel e estupidamente em seu nome, há quinhentos anos.

abril 08, 2006

Hipocrisia, masturbação, literatura e política

Um dia destes, no Livro Aberto [RTP-N, 23h00], uma conversa entre Francisco José Viegas, Pedro Mexia e este vosso criado. Os temas são os listados acima. As minhas desculpas pelas informações incorrectas numa versão anterior desta entrada. Mais informações em breve.