setembro 20, 2011

De vez em quando...

Balada de Coimbra


- Do Penedo da Saudade
Lancei os olhos além.
Meu sonho de eternidade
Com saudades rima bem...

Ai sombras da Torre de Anto,
Do Convento de além rio,
Dos muros brancos do Pio,
De Santo António a cismar,
Que é de outras sombras que à tarde
Convosco se confundiam,
E ao ar os braços erguiam,
E as mãos abriam no ar...?

(Sem saber para onde iam,
Aonde iriam parar?)

- Penha da Meditação...
Silêncio que paira em tudo!
A terra e o céu dão a mão
Num longo colóquio mudo...

Ai céus de Setembro-Outubro,
Painéis de sonho e loucura,
Rasgando a toda a lonjura
Cenários de arrepiar,
Que é de esses olhos de abismo
Que à tarde a vós se elevam,
Por longe andavam, voltavam,
Vos devolviam no olhar...?

(Sem saber o que buscavam,
Que haviam de ir encontrar?)

- Chegam da Baixa até Celas
Os ais dos sinos na bruma.
Se o céu tem tantas estrelas,
Importa lá cair uma!

Ai linda triste janela,
Toda voltada ao poente,
De onde a menina doente
Sorria a um Anjo seu par,
Rainha Santa do bairro,
Que é de essa cuja mão fria
Do teu caixilho pendia
Como um lírio a desfolhar...?

(Sem saber para onde ia,
Aonde iria parar?)

- Quinta das lágrimas, onde
Chora a fonte doce e langue!
Corre a água, e não esconde
Aquelas manchas de sangue...

Ai olivais silva e prata,
Choupos transidos de mágoa,
Ai laranjais de ao pé de água
Com frutos de oiro a brilhar,
Que é do bando vagabundo
Cujo rir vos acordava,
Cuja tristeza só dava
Mais vontade de cantar...?

(Sem saber o que buscava,
Que havia de ir encontrar?)

- Fui à Lapa dos Esteios,
Grandes coisas fui saber:
Que há pedras que têm seios,
que eu bem n-as ouvi gemer...

Ai pedras nuas dos becos
Despenhando-se, angustiados
Entre esses velhos telhados
E muros de ar singular,
Que é de esses passos que a medo
Vos pisavam, e tremiam,
Passos de irmão, que sofriam
Da mágoa de vos pisar...?

(Sem saber para onde iam,
Aonde iriam parar?)

- No Choupal quis fazer versos,
Olhei as folhas do chão.
Deus sabe os sonhos dispersos
Que o vento leva na mão!

Ai águas do meu Mondego
Que entre choupais murmurando
Se me esquivais, nesse brando
Sempre ir andando até mar,
Que é das mãos roxas de febre
Que em vós se desalteravam,
E entre as folhas que boiavam
Se deixavam arrastar...?

(Sem saber o que buscavam,
Que haviam de ir encontrar?)

- A Santa Cruz, um por um,
Dos troncos fui despedir-me.
Não tenho amigo nenhum
Que me haja sido tão firme...

Ai choro com que o Paredes,
Vibrando os dedos em garra,
Despedaçava a guitarra,
Punha os bordões a estalar,
Gritos de cristal e de oiro
Que o Bettencourt alto erguia,
Que é da roda que algum dia
Vos sabia acompanhar...?

(Sem saber para onde ia,
Aonde iria parar?)

- Fonte do Largo da Sé,
Que dizes tu ao cair?
- Mortos do adro, de pé!,
Que os vivos é só dormir...

Ai crepúsculos de antanho,
Limalha do sol, que morre
Lá desde o cimo da Torre
Té Santa Clara, além mar,
Que é de essa plêiade antiga
Cuja alma em vós se encantava,
Feita de cinza e de lava,
Desfeita em sombra e luar...?

(Sem saber o que buscava,
Deus sabe o que iria achar!)

- Do Penedo da Saudade
Lancei os olhos acima.
Sonho meu de eternidade
Com saudade é que bem rima...

José Régio

Publicado por inquilino às 07:13 PM | Comentários (0)

outubro 25, 2010

Os poetas suportam o mundo...

Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.


Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.


Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo,
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.

Carlos Drummond de Andrade - Os Ombros Suportam o Mundo

Publicado por inquilino às 06:55 PM | Comentários (0)

setembro 15, 2010

(p)este

Seguir em frente, fuga de repente sem rodeios nem se...'s
Espreme o sumo da sequóia que é gigante, sem memória de elefante
Nem pata de patego crocodilo, lágrima de Ésquilo que irrita Demócrito
Sem vento, apara agora esta coisa disforme, não não dorme o embaraço
Que causas às pessoas, essas boas, e que tentam sem sucesso
O ingresso na resposta à vida, a despedida imaginária sempre fomos
Ver a causa precária desta miragem a que chamamos glória e é passado
Não é história, nem imagem é o que sobra do que foi imaginado
Por quem escreveu e escreve, a espada e a rosa do almocreve e das
Contas que despontam acertadas de milhentos ciumentos nadas
Como tu pai país designação moderna coragem coração vontade que te
Mandam às paredes certeza eterna por mais que eu não queira e
NÃO te sinta nas fronteiras da geografia mas tenho-te à flor da
Beira-mar que cheiro e rebento em maresia fina de rio, democracia
Fachada pró menino e prá menina acocorada em acto de necessidade
NÂO te quero como és na verdade, não dispenso a tua fantasia e
Agora queria parar de te escrever descrever nesta rima quebrada
E não sei como, mesmo isto não me soa a ti nação de velhos...

Publicado por inquilino às 06:58 PM | Comentários (0)

junho 23, 2010

Sehr wichtige leute...

Wer hat dich geplant, gewollt,
dich bestellt und abgeholt
Wer hat sein Herz an dich verlor'n
Warum bist du gebor'n
Wer hat dich gebor'n

Wer hat sich nach dir gesehnt
Wer hat dich an sich gelehnt,
dich, wie du bist, akzeptiert,
dass du dein Heimweh verlierst
dass du dein Heimweh verlierst

Dreh dich um
Dreh dich um
Dreh dein Kreuz in den Sturm
Du wirst versöhnen, wirst gewähren,
selbst befreien für den Weg zum Meer

Wer ersetzt dir dein Programm
Nur wer fallen, auch fliegen kann
Wer hilft dir, dass du trauen lernst,
du dich nicht von dir entfernst,
du dich nicht von dir entfernst

Dreh dich um
Dreh dich um
Vergiss deine Schuld, dein Vakuum
wende den Wind, bis er dich bringt
weit zum Meer
du weißt, wohin

Dreh dich um
Dreh dich um
Dreh dein Kreuz in den Sturm
geh gelöst, versöhnt, bestärkt,
selbstbefreit den Weg zum Meer
selbstbefreit den Weg zum Meer
selbstbefreit auf dem Weg zum Meer

Herbert Grönemeyer - Zum Meer

Publicado por inquilino às 11:21 AM | Comentários (1)

março 09, 2010

Mais lixo na net...

Refreia os impulsos e dispensa a catatonia, não há destinos certos nem errados.
As pedras no caminho não são castelos antecipados nem motivos para dores nos dedos grandes dos pés.
Instinto é consciência, ainda que disfarçada de impulso.
Grandes frases ditas não soam quando se escrevem.
Verdadeiras máximas transpõem-se imutáveis para o papel.
Este post não vai sair no Twitter.

Publicado por inquilino às 10:56 PM | Comentários (0)

março 02, 2010

No silêncio aflito ...

A presença das formigas
Nesta oficina caseira
A regra de três composta
Às tantas da madrugada
Maria que eu tanto prezo
E por modéstia me ama
A longa noite de insónia
Às voltas na mesma cama
Liberdade liberdade
Quem disse que era mentira
Quero-te mais do que à morte
Quero-te mais do que à vida

A Presença das Formigas - José Afonso

Publicado por inquilino às 08:50 PM | Comentários (0)

fevereiro 21, 2010

Partida

Custou entrar, sem ver o caminho
Quis poder acordar e resolver a tempo os nós e as revoltas
Mas foi um impulso que me ajudou a rematar a fúria e não te amei

Ri por dentro, para perceber melhor de onde vinha
esta voz,
um pedaço de mim a cair de podre
e um ramo novo a crescer de pé...

Levantei-me e fui-me embora só para descobrir que
Mesmo assim dói

Publicado por inquilino às 07:10 PM | Comentários (0)

novembro 13, 2009

aconteceu ...

Aconteceu
Eu não estava à tua espera
E tu não me procuravas
Nem sabias quem eu era
Eu estava ali só porque tinha que estar
E tu chegaste porque tinhas que chegar
Olhei para ti
O mundo inteiro parou
Nesse instante a minha vida
A minha vida mudou
Tudo era para ser eterno
E tu para sempre meu
Onde foi que nos perdemos?
O que foi que aconteceu?
Tudo era para ser eterno
E tu para sempre meu
Onde foi que nos perdemos, meu amor?
O que foi que aconteceu?
Aconteceu
Chama-lhe sorte ou azar
Eu não estava à tua espera
E tu voltaste a passar
Nunca senti bater o meu coração
Como senti ao sentir a tua mão
Na tua boca o tempo voltou atrás
E se fui louca
Essa loucura
Essa loucura foi paz
Tudo era para ser eterno
E tu para sempre meu
Onde foi que nos perdemos?
O que foi que aconteceu?
Tudo era para ser eterno
E tu para sempre meu
Onde foi que nos perdemos, meu amor?
O que foi que aconteceu?


O que foi que aconteceu - Ana Moura - Letra/Música: Tozé Brito

Publicado por inquilino às 10:15 PM | Comentários (0)

novembro 02, 2009

... cicatriz ?

foi como entrar
foi como arder
para ti nem foi viver
foi mudar o mundo
sem pensar em mim
mas o tempo até passou
e és o que ele me ensinou
uma chaga pra lembrar
que ha um fim

diz sem querer poupar meu corpo
eu ja nao sei quem te abracou
diz que eu nao senti
teu corpo sobre o meu
quando eu cair,
eu espero ao menos
que olhes para tras
diz que nao te afastas
de algo que é também teu
nao vai haver um novo amor
tao capaz e tao maior
para mim sera melhor assim
ve como eu quero
eu vou tentar
sem matar o nosso amor
nao achar que o mundo é feito para nós

foi como entrar
foi como arder
para ti nem foi viver
foi mudar o mundo sem pensar em mim
mas o tempo até passou
e és o que ele me ensinou
uma chaga pra lembrar que ha um fim

Chaga - Ornatos Violeta

Publicado por inquilino às 03:19 PM | Comentários (0)

outubro 14, 2009

Credo

Creio nos anjos que andam pelo mundo,
Creio na Deusa com olhos de diamantes,
Creio em amores lunares com piano ao fundo,
Creio nas lendas, nas fadas, nos atlantes,

Creio num engenho que falta mais fecundo
De harmonizar as partes dissonantes,
Creio que tudo é eterno num segundo,
Creio num céu futuro que houve dantes,

Creio nos deuses de um astral mais puro,
Na flor humilde que se encosta ao muro,
Creio na carne que enfeitiça o além,

Creio no incrível, nas coisas assombrosas,
Na ocupação do mundo pelas rosas,
Creio que o Amor tem asas de ouro. Ámen.

Natália Correia

Publicado por inquilino às 04:28 AM | Comentários (2)

outubro 02, 2009

Weee...

Les filles, les garçons
A tourner se hasardent,
En tournant se regardent,
On connaît ces façons
Des filles et des garçons.

La mi-été de Taveyanne - Juste Olivier

Publicado por inquilino às 04:13 AM | Comentários (0)

setembro 21, 2009

Cry wolf

There was a blank sheet covering your face as you mourned serenity through tears (of joy)
I was (as usual) sitting on my corner wishing for you (all the best)
Never have I seen red for so many hours, despairing over a constant beacon, a moving circle (a big dilemma)

It shouldn't have bothered me when you left, holding someone's hand (but it did)
I could feel drops of blood (or was it sweat) running down my arms (and face)

(feel me now)

Publicado por inquilino às 08:39 PM | Comentários (0)

setembro 11, 2009

Tuga Power!

Movimento Perpétuo Associativo


Agora sim, damos a volta a isto!
Agora sim, há pernas para andar!
Agora sim, eu sinto o optimismo!
Vamos em frente, ninguém nos vai parar!

-Agora não, que é hora do almoço...
-Agora não, que é hora do jantar...
-Agora não, que eu acho que não posso...
-Amanhã vou trabalhar...

Agora sim, temos a força toda!
Agora sim, há fé neste querer!
Agora sim, só vejo gente boa!
Vamos em frente e havemos de vencer!

-Agora não, que me dói a barriga...
-Agora não, dizem que vai chover...
-Agora não, que joga o Benfica...
e eu tenho mais que fazer...

Agora sim, cantamos com vontade!
Agora sim, eu sinto a união!
Agora sim, já ouço a liberdade!
Vamos em frente, e é esta a direcção!

-Agora não, que falta um impresso...
-Agora não, que o meu pai não quer...
-Agora não, que há engarrafamentos...
-Vão sem mim, que eu vou lá ter...

Deolinda

Publicado por inquilino às 08:39 PM | Comentários (0)

setembro 10, 2009

Videovalse

Publicado por inquilino às 04:10 AM | Comentários (0)

Paroles ...

C'était Bien (Le P'tit Bal Perdu)

C'était tout juste après la guerre,
Dans un petit bal qu'avait souffert.
Sur une piste de misère,
Y'en avait deux, à découvert.
Parmi les gravats ils dansaient
Dans ce petit bal qui s'appelait...
Qui s'appelait... qui s'appelait... qui s'appelait...

Non je ne me souviens plus du nom du bal perdu.
Ce dont je me souviens ce sont ces amoureux
Qui ne regardait rien autour d'eux.
Y avait tant d'insouciance
Dans leurs gestes émus,
Alors quelle importance
Le nom du bal perdu ?
Non je ne me souviens plus du nom du bal perdu.
Ce dont je me souviens c'est qu'ils étaient heureux
Les yeux au fond des yeux.
Et c'était bien... Et c'était bien...

Ils buvaient dans le même verre,
Toujours sans se quitter des yeux.
Ils faisaient la même prière,
D'être toujours, toujours heureux.
Parmi les gravats ils souriaient
Dans ce petit bal qui s'appelait...
Qui s'appelait... qui s'appelait... qui s'appelait...

Et puis quand l'accordéoniste
S'est arrêté, ils sont partis.
Le soir tombait dessus la piste,
Sur les gravats et sur ma vie.
Il était redevenu tout triste
Ce petit bal qui s'appelait,
Qui s'appelait... qui s'appelait... qui s'appelait...

Non je ne me souviens plus du nom du bal perdu.
Ce dont je me souviens ce sont ces amoureux
Qui ne regardait rien autour d'eux.
Y avait tant de lumière,
Avec eux dans la rue,
Alors la belle affaire
Le nom du bal perdu.
Non je ne me souviens plus du nom du bal perdu.
Ce dont je me souviens c'est qu'on était heureux
Les yeux au fond des yeux.
Et c'était bien... Et c'était bien.

Publicado por inquilino às 03:56 AM | Comentários (0)