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<title>Inefável</title>
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<modified>2012-06-15T14:16:24Z</modified>
<tagline>Revista-blogue de Poesia</tagline>
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<copyright>Copyright (c) 2012, Pedro Silva Sena</copyright>
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<title>O # 9</title>
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<issued>2012-04-24T18:48:38Z</issued>
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<summary type="text/plain">O próximo número da Inefável será publicado em Julho ou Agosto na Blog.pt devido ao fecho da plataforma actual. Leia a nossa revista na nova morada electrónica: http://revistainefavel.blog.pt. Convida-se à colaboração. Do 8 ao 8o # Especial Crise: «A Década...</summary>
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<name>Pedro Silva Sena</name>

<email>pedrosilvasena@gmail.com</email>
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<![CDATA[<p>O próximo número da Inefável será publicado em Julho ou Agosto na Blog.pt devido ao fecho da plataforma actual. Leia a nossa revista na nova morada electrónica: http://revistainefavel.blog.pt. Convida-se à colaboração.</p>

<p>Do 8 ao 8o # Especial Crise: «A Década de Salomé», de José Afonso, agora evocado.</p>]]>

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<title>Do 8 ao 80 # Especial Crise</title>
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<modified>2012-05-20T14:15:37Z</modified>
<issued>2011-07-28T11:35:40Z</issued>
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<summary type="text/plain">Do 8 ao 80 # Especial Crise é uma antologia poética de reflexos e de reflexões sobre a crise social, política, financeira e económica que vivemos hoje local e globalmente, e sobre os seus fundamentos. Este # Especial estará permanentemente...</summary>
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<name>Pedro Silva Sena</name>

<email>pedrosilvasena@gmail.com</email>
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<![CDATA[<p>Do 8 ao 80 # Especial Crise é uma antologia poética de reflexos e de reflexões sobre a crise social, política, financeira e económica que vivemos hoje local e globalmente, e sobre os seus fundamentos. </p>

<p>Este # Especial estará permanentemente aberto à colaboração (assinada, anónima ou pseudónima) enquanto perdurar esta crise.</p>

<p>O editor,</p>

<p>Lisboa, 28 de Julho de 2011</p>

<p><br />
Como participar? Envie os seu(s) poema(s)para: pedrosilvasena@gmail.com<br />
~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~</p>]]>
<![CDATA[<p><strong>Lenga-lenga dos Passos</strong></p>

<p>Os primeiros passos passaram<br />
passos que sabem por onde passam<br />
passam mas não sabem para onde vão<br />
se dos euros para os dólares<br />
se dos cêntimos para as migalhas</p>

<p>dos euros aos cêntimos passaram a passar<br />
dos cêntimos aos euros pássaros a voar<br />
como quem passa muito bem é preciso é trabalhar<br />
cá outros passatempam ábacos e multam cágados<br />
por excederem limites de passividade<br />
digam lá se não é verdade:<br />
para passar do passo ao trote basta o mote<br />
para passar do paço ao palácio basta a glote<br />
para passar do que fiz ao que faço basta um traço<br />
mal traçado, embaraço-me, torço-me, atam-me<br />
mas é só para caber melhor em mim, não é assim? </p>

<p><br />
<strong>Postal I Love Portugal</strong></p>

<p>«Tudo pelo Mercado. Nada contra o Mercado»<br />
se ninguém o disse, que fique aqui registado,<br />
é a palavra de ordem que (ainda) não gritam,<br />
mas é o cacete que já agitam.</p>

<p><strong>Quadra</strong></p>

<p>O tio operoso<br />
Confiscou-te a uva<br />
Mais trefo que a agulha<br />
Duplicou os amos.</p>

<p><strong>A Receita</strong></p>

<p>O segredo está no medo<br />
A receita está na dose<br />
A virtude está na pose<br />
A maleita é a saúde.</p>

<p>V. S. A. D. Vidinha</p>

<p>*</p>

<p><strong>Reclamação</strong></p>

<p>Todos os seres e todas as coisas são transaccionáveis<br />
Do miolo quente da terra<br />
Aos planetas alcançáveis<br />
Tudo<br />
(Até a própria merda)<br />
Neste mundo<br />
Se equivale.</p>

<p>~</p>

<p><strong>Revelações</strong></p>

<p>farás da tua a lei dos outros<br />
moldá-los-ás à semelhança do que não são<br />
transformarás o que oferecem naquilo que vendem<br />
aquilo que compram naquilo que dão<br />
e assim terás a árvore pelos frutos.</p>

<p>~</p>

<p><strong>Um Abraço para Bradley Manning</strong></p>

<p>Quando dispararam ninguém sofreu<br />
Quando bombardearam ninguém morreu</p>

<p>Quando atingiram ninguém observou<br />
Quando torturaram ninguém testemunhou</p>

<p>Quando violaram ninguém soube<br />
Quando gritaram ninguém pôde.</p>

<p>~</p>

<p>O meu país é um traço de giz<br />
Que apagam.</p>

<p>O meu país é um gole de anis<br />
Que receitam.</p>

<p>O meu país é uma asa de pássaro<br />
Que atingem.</p>

<p>O meu país é um rosto<br />
Que fingem.</p>

<p>O meu país somos nós e apertam.</p>

<p><br />
Pedro Silva Sena</p>

<p>Livro de Reclamação e Rebuçados a Avulso (2012)</p>

<p>*</p>

<p><br />
<strong>DOM: um poema para ti</strong></p>

<p>(A cappella)</p>

<p>Um poema para ti:<br />
é o que tenho para dar.</p>

<p>Pode ser pouco, é certo,<br />
mas é o fruto que resta <br />
desta nossa solidão.</p>

<p>Não me peças mais<br />
do que isto, por favor:<br />
é tudo quanto tenho.</p>

<p>E, se mais tivesse,<br />
estou em crer que <br />
os teus braços estariam <br />
gastos demais para me enlaçar.</p>

<p>Um poema para ti:<br />
aceita - é o que tenho,<br />
o que sou.</p>

<p>Uma ninharia, <br />
bem o sei,<br />
quando o euro <br />
está em queda<br />
e a gente desespera.</p>

<p>Mas asseguro-te de que <br />
é mais que o mundo<br />
na bolsa de valores <br />
do meu coração.</p>

<p>Ricardo Gil Soeiro</p>

<p>Todas as Letras do Vazio (2011)</p>

<p>*</p>

<p><strong>CÁ EM BAIXO</strong></p>

<p>Cá em baixo ainda não se acenderam as luzes <br />
nem mesmo quando caímos à procura de uma escuridão macia se apega à alma à chuva. Cá em baixo ainda despertamos para a colectiva raiva, nomeadamente raiva, honra que se faz ao gástrico paladar das injustiças, quando picados pela filha da mãe da vida <br />
lhe despejamos o vómito no colo das ruas, essas veias assassinas e cheias de vison rapado. Cá em baixo, senhores do panteão que se honra mas não nos honram com a vossa humilde presença, continuamos a labuta de ser homem, de decifrar a última palavra da primeira tertúlia, a primeira tertúlia da última palavra, a última tertúlia da primeira palavra. </p>

<p>~</p>

<p><strong>NADA?</strong></p>

<p>Organizem-se senhores, vejam o que têm a ganhar com este motivo pastoral que vos oferece mais que chá, mais que massa atómica, mais que uma promessa de galáxias. É o Verão que chega senhores, é o Verão! Não vos dói a nuca, como a mim? Não há nada que vos faça percorrer as ruas como um tolo, feliz por herdar apenas um casaco do pai que faleceu entre a turba da numismática global? Organizem-se, tragam um astrolábio para que possamos descobrir os segredos da lua, navegando pelas vagas amarelas da cerveja.  Tragam toda a física, toda a pedagogia humanizante, apetece-me duvidar de mim e da minha gente que parou no tempo e apenas se ilude ao contemplar o vazio ignorante do verbo. Nada? Dizem-me que não é nada? Que dois mais dois é uma conta de somar e não um projecto com potência carnal?</p>

<p>~</p>

<p><strong>DANTES</strong></p>

<p>A minha mãe trazia-me frango assado que comia às escuras, quase anulado, para que não notassem que alimentava um filho preso ao cordel irresistível da fome. Como um cão solitário que vozeado corre de orelhas murchas, eu fui o canino que se limpava às batatas fritas e ficava a olhar uma lua imaginária no tecto do quarto da pensão, enquanto na rua os homens conversavam perfumados pelo cheiro do bagaço e mais sólidos, com os pés mais quentes. Como é difícil estar escondido, viver sozinho a solidão que nos aponta um dedo em riste dizendo para não lamentarmos demais a existência sem consciência, nem clamar pelos direitos constitucionais naqueles artigos despertados para não se comprimirem em resoluções canónicas. <br />
Irrisório, aquele frango assado, comparado com isto que sinto agora, um cidadão adverso à coisa pública, ao civilizado matrimónio, ao laudativo cuidado dos filhos. </p>

<p>Ricardo Ferreira de Almeida</p>

<p>Orações para Antes da Excomunhão (2011)</p>

<p>~</p>

<p><strong>EVOCAÇÃO</strong></p>

<p></p>

<p><strong>Calçada de Carriche</strong></p>

<p><br />
Luísa sobe, <br />
sobe a calçada, <br />
sobe e não pode <br />
que vai cansada. <br />
Sobe, Luísa, <br />
Luísa, sobe, <br />
sobe que sobe <br />
sobe a calçada. </p>

<p>Saiu de casa <br />
de madrugada; <br />
regressa a casa <br />
é já noite fechada. <br />
Na mão grosseira, <br />
de pele queimada, <br />
leva a lancheira <br />
desengonçada. <br />
Anda, Luísa, <br />
Luísa, sobe, <br />
sobe que sobe, <br />
sobe a calçada. </p>

<p>Luísa é nova, <br />
desenxovalhada, <br />
tem perna gorda, <br />
bem torneada. <br />
Ferve-lhe o sangue <br />
de afogueada; <br />
saltam-lhe os peitos <br />
na caminhada. <br />
Anda, Luísa. <br />
Luísa, sobe, <br />
sobe que sobe, <br />
sobe a calçada. </p>

<p>Passam magalas, <br />
rapaziada, <br />
palpam-lhe as coxas, <br />
não dá por nada. <br />
Anda, Luísa, <br />
Luísa, sobe, <br />
sobe que sobe, <br />
sobe a calçada. </p>

<p>Chegou a casa <br />
não disse nada. <br />
Pegou na filha, <br />
deu-lhe a mamada; <br />
bebeu da sopa <br />
numa golada; <br />
lavou a loiça, <br />
varreu a escada; <br />
deu jeito à casa <br />
desarranjada; <br />
coseu a roupa <br />
já remendada; <br />
despiu-se à pressa, <br />
desinteressada; <br />
caiu na cama <br />
de uma assentada; <br />
chegou o homem, <br />
viu-a deitada; <br />
serviu-se dela, <br />
não deu por nada. <br />
Anda, Luísa. <br />
Luísa, sobe, <br />
sobe que sobe, <br />
sobe a calçada. </p>

<p>Na manhã débil, <br />
sem alvorada, <br />
salta da cama, <br />
desembestada; <br />
puxa da filha, <br />
dá-lhe a mamada; <br />
veste-se à pressa, <br />
desengonçada; <br />
anda, ciranda, <br />
desaustinada; <br />
range o soalho <br />
a cada passada; <br />
salta para a rua, <br />
corre açodada, <br />
galga o passeio, <br />
desce a calçada, <br />
desce a calçada, <br />
chega à oficina <br />
à hora marcada, <br />
puxa que puxa, <br />
larga que larga, <br />
puxa que puxa, <br />
larga que larga, <br />
puxa que puxa, <br />
larga que larga, <br />
puxa que puxa, <br />
larga que larga; <br />
toca a sineta <br />
na hora aprazada, <br />
corre à cantina, <br />
volta à toada, <br />
puxa que puxa, <br />
larga que larga, <br />
puxa que puxa, <br />
larga que larga, <br />
puxa que puxa, <br />
larga que larga. <br />
Regressa a casa <br />
é já noite fechada. <br />
Luísa arqueja <br />
pela calçada. <br />
Anda, Luísa, <br />
Luísa, sobe, <br />
sobe que sobe, <br />
sobe a calçada, <br />
sobe que sobe, <br />
sobe a calçada, <br />
sobe que sobe, <br />
sobe a calçada. <br />
Anda, Luísa, <br />
Luísa, sobe, <br />
sobe que sobe, <br />
sobe a calçada. </p>

<p>António Gedeão in 'Teatro do Mundo'</p>

<p><br />
<strong>A Década de Salomé</strong></p>

<p></p>

<p>Vai  terminar esta prosa<br />
Estamos na década de salomé<br />
Será o apocalipse ou a torneira<br />
A pingar no bidé?</p>

<p>É meio-dia dia de feira<br />
Mensal em Vila Nogueira<br />
Estamos na década do bricolage<br />
Diz o jornal que um emigra<br />
Morreu afogado em Mira<br />
Antes da data <br />
Do mariage</p>

<p>Estamos na Europa<br />
Civilizada<br />
Já cá faltava<br />
Uma maison<br />
Pour la Patrie<br />
P'lo Volkswagen<br />
Acabou-se a forragem<br />
Viva o Patron!</p>

<p>Já tem destino esta terra<br />
Vamos mudar para o marché aux puces<br />
O tempo das ceroilas está no fio<br />
Agora só de trousses</p>

<p>É meio-dia dia de feira<br />
Mensal em Vila Nogueira<br />
Estamos na década do bricolage<br />
Diz o jornal que um emigra<br />
Morreu afogado em Mira<br />
Antes da data <br />
Do mariage</p>

<p>Saem quarenta mil ovos moles<br />
Vilar Formoso<br />
É logo ali<br />
Faz-se um enxerto<br />
Com mijo de gato<br />
Sola de sapato<br />
Voilá Paris!</p>

<p>Aos grandes supermercados<br />
Chega a cultura num bi-camion<br />
Camões e Eça vendem-se enlatados<br />
Lavados com «champon»</p>

<p>É meio-dia dia de feira<br />
Mensal em Vila Nogueira<br />
Estamos na década do bricolage<br />
Diz o jornal que um emigra<br />
Morreu afogado em Mira<br />
Antes da data <br />
Do mariage</p>

<p>Estamos na Europa<br />
Radarizada<br />
Já cá faltava<br />
Uma turquês<br />
Para o controle<br />
Do bravo e do manso<br />
Vivaço e do tanso<br />
Em cada mês!</p>

<p>A fina flor do entulho<br />
Largou o pêlo ganhou verniz<br />
Será o Christian Dior o manajeiro<br />
A mandar no País?</p>

<p>Estamos na Europa<br />
Do «estou-me nas tintas»<br />
Nada de colectivismos<br />
Chacun por si, meu<br />
E chacun por soi<br />
Tê Vê e cama<br />
Depois da esgaça<br />
Até que lhes dê traça<br />
A culpa é toda<br />
Do Erre Hagá</p>

<p>Levam-te à caça<br />
Dos gambozinos<br />
Com dois ouriços<br />
Em cada mão<br />
Ai velha fibra<br />
Do bairro de Alfama<br />
A carcaça do Gama<br />
Vai a leilão</p>

<p>José Afonso in 'Galinhas do Mato'</p>]]>
</content>
</entry>
<entry>
<title># 7</title>
<link rel="alternate" type="text/html" href="http://revistainefavel.weblog.com.pt/arquivo/2011/03/_7_1.html" />
<modified>2011-06-13T12:57:44Z</modified>
<issued>2011-03-17T11:31:55Z</issued>
<id>tag:revistainefavel.weblog.com.pt,2011://4264.456273</id>
<created>2011-03-17T11:31:55Z</created>
<summary type="text/plain">Janeiro | Dezembro 2011 Neste número: Literatura Permanente: «A Defesa do Poeta», de Natália Correia Circulação: «Whalesong», de Sophie Stephenson-Wright Nem Há Amor Sem Pagar o Preço da Fome * Poemas de Gabriel de la St. Sampol Entrevista: Júlio Graça...</summary>
<author>
<name>Pedro Silva Sena</name>

<email>pedrosilvasena@gmail.com</email>
</author>

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<![CDATA[<p><strong>Janeiro | Dezembro 2011</strong></p>

<p>Neste número:</p>

<p><br />
<strong>Literatura Permanente</strong>: «A Defesa do Poeta», de Natália Correia</p>

<p><strong>Circulação</strong>: «Whalesong», de Sophie Stephenson-Wright</p>

<p><strong>Nem Há Amor Sem Pagar o Preço da Fome</strong> * Poemas de Gabriel de la St. Sampol</p>

<p><strong>Entrevista: Júlio Graça</strong> * José do Carmo Francisco</p>

<p><strong> Langston Hughes: Freedom is a strong seed </strong> * Apresentação e selecção de poemas por Pedro Silva Sena </p>

<p><br />
<strong>*</strong></p>

<p><br />
<strong>Literatura Permanente</strong></p>

<p>«A Defesa do Poeta</p>

<p>Senhores jurados sou um poeta <br />
um multipétalo uivo um defeito <br />
e ando com uma camisa de vento <br />
ao contrário do esqueleto </p>

<p>Sou um vestíbulo do impossível um lápis <br />
de armazenado espanto e por fim <br />
com a paciência dos versos <br />
espero viver dentro de mim </p>

<p>Sou em código o azul de todos <br />
(curtido couro de cicatrizes) <br />
uma avaria cantante <br />
na maquineta dos felizes </p>

<p>Senhores banqueiros sois a cidade <br />
o vosso enfarte serei <br />
não há cidade sem o parque <br />
do sono que vos roubei </p>

<p>Senhores professores que puseste <br />
a prémio minha rara edição <br />
de raptar-me em crianças que salvo <br />
do incêndio da vossa lição </p>

<p>Senhores tiranos que do baralho <br />
de em pó volverdes sois os reis <br />
sou um poeta jogo-me aos dados <br />
ganho as paisagens que não vereis </p>

<p>Senhores heróis até aos dentes <br />
puro exercício de ninguém <br />
minha cobardia é esperar-vos <br />
umas estrofes mais além </p>

<p>Senhores três quatro cinco e sete <br />
que medo vos pôs na ordem ? <br />
que pavor fechou o leque <br />
da vossa diferença enquanto homem ? </p>

<p>Senhores juízes que não molhais <br />
a pena na tinta da natureza <br />
não apedrejeis meu pássaro <br />
sem que ele cante minha defesa </p>

<p>Sou um instantâneo das coisas<br />
apanhadas em delito de perdão<br />
a raiz quadrada da flor<br />
que espalmais em apertos de mão.</p>

<p>Sou uma impudência a mesa posta <br />
de um verso onde o possa escrever <br />
ó subalimentados do sonho ! <br />
a poesia é para comer.»</p>

<p>(Natália Correia, <em>A Mosca Iluminada</em>, 1972)</p>

<p>~</p>

<p><strong>Circulação</strong>: Sophie Stephenson-Wright</p>

<p></p>

<p></p>

<p><strong>Whalesong</strong></p>

<p><br />
I boom-mumble I bass-blow</p>

<p>I hull-heavy I big-slow</p>

<p>I boat bump I limpet-skin</p>

<p>I soft-sink I sky-swim</p>

<p>I sea-search I salt-swallow</p>

<p>I bone-backed I fluke-follow</p>

<p>I gulf-cross I listen-talk</p>

<p>I moon-map I wave-walk</p>

<p>I tail-turn I time-keep</p>

<p>I ship-wreck I song-seek</p>

<p>I blue-blood I grumble-sing</p>

<p>I fish-heart I dream king</p>

<p><br />
Sophie Stephenson-Wright nasceu em 1991 no Reino Unido. Este poema, tal como outros poemas de outros autores (incluindo Luís de Camões e Fernando Pessoa), circula pelo miolo de Londres, nas carruagens do metropolitano, fazendo parte de uma iniciativa intitulada «Poems on the Underground». </p>

<p><strong>*</strong></p>]]>
<![CDATA[<p><strong>Nem Há Amor Sem Pagar o Preço da Fome</strong> * Poemas de Gabriel de la St. Sampol</p>

<p>Gabriel de la S.T. Sampol (Palma de Maiorca, 1967) é poeta, tradutor e professor de língua e literatura catalãs. Próprias publicou as seguintes colectâneas de poesia, <strong>Difícil naufragi</strong> (1997), <strong>Apocatàstasi</strong> (2001), <strong>Vulgata</strong> (2004) e, mais recentemente <strong>Inequacions. Antologia Poètica</strong> (2010). Como tradutor de Português tem vertido para Catalão a obra de, entre outros, Padre António Vieira, Almeida Garrett, Fernando Pessoa, António Botto, José Saramago e Manuel António Pina. Apresentamos aqui um pequeno conjunto de poemas, cuja tradução disponível - ler em <strong>La Flor Més Primerenca (Antologia de Poesia das Ilhas Baleares)</strong>, Mallorca, CEC/DGC, 2010 - foi por nós revista.  </p>

<p>O editor e o autor</p>

<p><br />
|poemas|</p>

<p><br />
<strong>Praça do Comércio</strong></p>

<p>Sim, há lugares aos quais devemos voltar,<br />
este é um deles.<br />
O Terreiro do Paço é um palco<br />
cuja quarta parede é o Tejo.<br />
O Tejo que tanto cantaram os poetas,<br />
o Tejo de que os marinheiros e os exilados tantas saudades tiveram,<br />
este mesmo Tejo também faz que o cante e que dele tenha saudades,<br />
apesar do Tejo não ser a torrente que corre pela minha aldeia.<br />
Aqui, de costas voltadas para Viriato e o Marquês de Pombal,<br />
olho este rio que começa a morrer,<br />
e não tenho saudades das colinas e serras desiguais<br />
que ali na pátria minha<br />
deixei ou me deixam.<br />
Não me sinto exilado, embora o seja por quinze dias ou três:<br />
esta praça acolhe-me e a ela terei de voltar<br />
e tenho de fugir da ilha que morre<br />
e tenho de esquecer ainda que por quinze dias ou três,<br />
a agonia dum país estranho com um nome plural.<br />
Nem tudo é fuga, também há reencontro<br />
de mar a mar,<br />
de sol a névoa,<br />
de morte a sede,<br />
de pátria a pátria.<br />
Não há pátria sem luto,<br />
não há amor sem pagar o preço da fome,<br />
mas há pátrias que doem mais<br />
e há amor com fome de lobo.<br />
Fujo para aqui, tantas vezes, da primeira pátria<br />
e outras tantas do último amor.<br />
E regresso, regresso sempre.<br />
Porque é que o Tejo não é a torrente que corre pela minha aldeia?<br />
Lelia doura...</p>

<p>*</p>

<p><strong>Praça do Comércio</strong></p>

<p><br />
Sí, hi ha llocs on cal tornar,<br />
aquest n'és un.<br />
El Terreiro do Paço és un escenari<br />
on la quarta paret és el Tejo.<br />
El  Tejo que tant cantaren els poetes,<br />
el Tejo que els mariners i els exiliats tant enyoraren,<br />
aquest mateix Tejo també em fa que el canti i que l'enyori,<br />
tot i que el Tejo no és el torrent que passa pel meu poble.<br />
Aquí, d'esquena a Viriat i al Marquès de Pombal,<br />
mir aquest riu que comença a morir,<br />
i no enyor els turons i serres desiguals<br />
que allí en la pàtria mia<br />
he deixat o em deixen.<br />
No em sent exiliat, tot i ser-ho quinze dies o tres:<br />
aquesta plaça m'acull i cal que hi torni,<br />
i cal que fugi de l'illa que es mor<br />
i cal que oblidi, ni que sigui quinze dies o tres,<br />
l'agonia d'un país estrany amb el nom en plural.<br />
No tot és fugida, també hi ha retrobament<br />
de mar a mar,<br />
de sol a boira,<br />
de mort a set,<br />
de pàtria a pàtria.<br />
No hi ha pàtria sense dol,<br />
no hi ha amor sense pagar el mossatge de la fam,<br />
però hi ha pàtries que fan més mal<br />
i hi ha amors amb fam de llop.<br />
Aquí he fugit sovint de la primera pàtria<br />
i de vegades del darrer amor.<br />
Hi torn, sempre hi torn.<br />
Perquè el Tejo no és el torrent que passa pel meu poble?<br />
Lelia doura...</p>

<p>(Inequacions)</p>

<p>~</p>

<p><strong>Carmilla</strong><br />
<strong>II</strong></p>

<p>Diz Laura</p>

<p>Quantas vezes aqueles caninos sentia<br />
que me mordiam, depositando<br />
beijos felinos debaixo da pele. Sabia<br />
antigo aquele delito inquietante.</p>

<p>Foste tu que, em criança, já me beijaste<br />
- pesadelo, me diziam. Agora o teu selo<br />
diz que sou tua e ternuras raras me trouxeste,<br />
prazer cortante como um divino cutelo.</p>

<p>Morreste, mataram para me salvar.<br />
Mas salvar de quê? Não me deixaram<br />
separar o medo do sentimento.</p>

<p>Falaste-me de amor, de vida oferta...<br />
E quando creio sentir o teu passo,<br />
aquele temor e desejo em mim desperta.</p>

<p>*</p>

<p><strong>Carmilla</strong><br />
<strong>II</strong></p>

<p>Parla Laura</p>

<p>Quantes vegades aquells claus sentia<br />
que em mossegaven, com dipositant<br />
besos felins davall la pell. Sabia<br />
no nou aquell delit inquietant.</p>

<p>Vas ser tu que, de nina, ja em besares<br />
–malson, em deien. Ara el teu segell<br />
diu que sóc teva i em dus tendreses rares,<br />
plaer tallant com un sagrat coltell.</p>

<p>Morires, et mataren per salvar-me.<br />
Però, salvar de què? No van deixar-me<br />
que separàs la por del sentiment.</p>

<p>Em parlares d'amor, de vida oferta...<br />
I quan les teves passes crec que sent,<br />
aquell temor i desig en mi desperta.</p>

<p><br />
(Difícil naufragi) </p>

<p>~</p>

<p><strong>III</strong></p>

<p>Diz Carmilla</p>

<p>Quantas vezes os meus caninos almejaram<br />
o amor tão desejado!<br />
O amor, a vontade de procurarem<br />
o meu ser imortal, não a maldade.</p>

<p>Além de ti, só amei de coração<br />
quem me fez não-morta. Mas os mortais,<br />
estupidamente, mataram-no. Triste e forte,<br />
eu persegui aquela paixão.</p>

<p>O meu beijo não te trouxe danação:<br />
o impulso maior para ferir-te<br />
foi o desejo, não o imperativo do horror.</p>

<p>Amante na coisa amada e convertida,<br />
em troca do sangue a nossa vida<br />
fora infinita e infinito o amor.</p>

<p>*</p>

<p><strong>III</strong></p>

<p>Parla Carmilla</p>

<p>Quantes vegades els meus claus cercaren<br />
aconseguir l'amor tan desitjat!<br />
L'amor, la voluntat em procuraren<br />
el meu ésser immortal, no la maldat.</p>

<p>A part de tu, només qui em féu no-morta<br />
vaig estimar de cor. Però els mortals,<br />
estúpids, el mataren. Trista i forta,<br />
a aquella passió vaig donar encalç.</p>

<p>No et portava el meu bes damnació:<br />
allò que em va impulsar a fer-te ferida<br />
va ser desig, no imperatiu d'horror.</p>

<p>Amant en cosa amada convertida,<br />
a canvi de la sang, la nostra vida<br />
fóra infinita, i infinit l'amor.</p>

<p><br />
(Difícil naufragi) </p>

<p>~</p>

<p><strong>Postal de Minorca</strong></p>

<p><br />
Novamente nesta ilha fustigada<br />
pelo vento da saudade e da recordação,<br />
a paixão não vai ao encontro da morte:<br />
sem te ter, ali cresceu desterrada.</p>

<p>E se com a força que matasse toda a defesa<br />
os teus olhos me mostrassem a recusa<br />
e o delírio sentisse o sangue em fuga,<br />
nem tão-pouco qualquer desfalecimento sofreria.</p>

<p>O meu coração, de dor, nem se enfarta:<br />
não posso, nem quero, deixar de desejar-te,<br />
apesar do teu desejo ser tão distante.</p>

<p>No entanto, contra mim nunca te levantas<br />
pelo contrário, com ternura e crueldade que ignoras<br />
dás-me amor sem fazer-me amante.</p>

<p>*</p>

<p><strong>Postal des de Menorca</strong></p>

<p><br />
Novament a aquesta illa, sacsejada<br />
pel vent de la migrança i el record,<br />
la passió no va cap a la mort:<br />
no tenint-te, hi va créixer desterrada.</p>

<p>I si amb força que occís tota defensa<br />
els teus ulls em mostrassin el rebuig,<br />
i el deliri sentís que la sang fuig,<br />
tampoc no sofriria defallença.</p>

<p>El meu cor, de dolor, mai se n’afarta:<br />
no puc ni vull deixar de desitjar-te,<br />
tot i que el teu desig és tan distant.</p>

<p>Tanmateix contra mi mai no t'arbores,<br />
ans amb tendresa, i crueltat que ignores,<br />
amor em dónes sense fer-me amant.</p>

<p>(Difícil naufragi)</p>

<p>~</p>

<p><strong>A Batalha de Hastings</strong></p>

<p>In memoriam F.F.B.</p>

<p><br />
O escorpião reconhece a cortiça <br />
que te cobre, protegendo como uma pele<br />
o baço, o coração, o fígado e o cérebro,<br />
onde escondes, temeroso, a tua força.</p>

<p>Não enganas o escorpião, nunca se pode torcer<br />
o caminho que lhe marca o velho instinto;<br />
não o enganas, não podes, e, com um repente<br />
de ansiedade, a sua picada pode vencer-te.</p>

<p>Cravou-se o ferrão, corre o veneno,<br />
o sangue imobiliza-se ao sentir<br />
que a morte tomou um atalho.</p>

<p>E, ao desabrochar a rosa da dor<br />
de Hastings, germina em ti a semente.<br />
Tudo te foge - e el-rei Harold já te espera.</p>

<p>*</p>

<p><strong>La Batalla de Hastings</strong></p>

<p><br />
L’escorpí reconeix aquesta escorça<br />
que et cobreix, protegint com una pell<br />
la melsa, el cor, el fetge i el cervell,<br />
on guardes, temorós, la teva força.</p>

<p>No enganes l’escorpí, mai no es pot tòrcer<br />
el camí que li marca l’instint vell;<br />
no l’enganes, no pots, i amb un rampell<br />
de desfici el seu pic en tu s’esforça.</p>

<p>El fibló s´ha clavat, corre el verí,<br />
i la sang resta immòbil en sentir<br />
que la mort ha agafat una drecera.</p>

<p>I, en descloure’s la rosa del dolor,<br />
de Hastings et germina la llavor.<br />
Tot et fuig, i el rei Harold ja t'espera.</p>

<p>(Inequacions)</p>

<p>~</p>

<p><strong>Entrevista: Júlio Graça</strong> * José do Carmo Francisco</p>

<p><br />
|Entrada|</p>

<p><br />
O «neo-realismo», conforme a geografia literária estabelecida, é uma região periférica caracterizada pela relação estreita entre a arte literária e a militância comunista. Júlio Graça (1923 - 2006), enquanto escritor, constitui uma das entradas omissas nos dicionários de literatura portuguesa (cf. Pedro 1999: http://www.eseb.ipbeja.pt/sameiro/alhandra.htm). José do Carmo Francisco - poeta e jornalista; ler o # 6 - teve a oportunidade de entrevistar este poeta e romancista em 2000, aquando do décimo aniversário da abertura do Museu do Neo-Realismo (Vila Franca de Xira).</p>

<p>O editor.</p>

<p>*</p>

<p>|Literatura para Transformar|</p>

<p><br />
José do Carmo Francisco: Como é que a literatura neo-realista entrou na sua vida?</p>

<p>Júlio Graça: Eu nasci em Vila Franca [de Xira] em 1923, estudei em Lisboa na Escola Industrial Afonso Domingues, trabalhava numa empresa aqui perto e conheci o Soeiro Pereira Gomes no Alhandra Sporting Clube.</p>

<p>JCF: Que tipo de trabalho fazia o escritor no Clube?</p>

<p>JG: Eu dirigia classes de ginástica e de natação. Pediu-me colaboração nessas actividades.</p>

<p>JCF: Quando é que descobriu o valor dele como ficcionista?</p>

<p>JG: Só o descobri como escritor quando o livro «Esteiros» foi publicado. Foi para mim uma grande revelação depois de «Gaibéus» de Alves Redol. Outras duas revelações foram «Casa na Duna» de Carlos de Oliveira e «A Casa da Malta» de Fernando Namora.</p>

<p>JCF: Que outros escritores foram importantes no seu percurso?</p>

<p>JG: Trindade Coelho, Teixeira Gomes e Miguel Torga foram e são referências para mim.</p>

<p>JCF: E dos estrangeiros, quais são os que mais revisita?</p>

<p>JG: Por exemplo Jack London, Hemingway, William Faulkner, Dostoievsky, Tolstoi e Nicolau Gogol.</p>

<p>JCF: Nos seus livros está presente a realidade do campo no Ribatejo?</p>

<p>JG: Não só do campo mas também dos operários nas fábricas e nas oficinas. Desde «Lezíria» [1950] até «Lenda do Paraíso» [1989], passando por «Salário de Judas» [1955], «Um Palmo de Terra» [1959] ou «A Espada e o Coração» [1962] essa presença é permanente.</p>

<p>JCF: Diz-se que a grande luta entre a geração neo-realista e a geração da "Presença" tem a ver com a figura do João Gaspar Simões. É verdade?</p>

<p>JG: Apesar de haver a ideia de um grande antagonismo - porque os escritores presencistas queriam mudar o homem enquanto nós queríamos mudar a sociedade - não eram gerações tão opostas como parecia. Era uma divisão aparente. O Gaspar Simões simplesmente odiava os neo-realistas.</p>

<p>JCF: Havia na vossa área quem admirasse os presencistas?</p>

<p>JG: Muitos de nós, incluindo o Soeiro Pereira Gomes, admiravam a obra de José Régio. E olhe que muitos presencistas tiveram problemas com a PIDE. Não fomos só nós.</p>

<p><br />
|Sementes de Revolta|</p>

<p><br />
JCF: Como é que nasceu a expressão "neo-realismo"?</p>

<p>JG: Foi o Joaquim Namorado, para não utilizar a expressão "realismo socialista", essa sim de acordo com ideias marxistas-leninistas que estão na sua origem.</p>

<p>JCF: Como é que podemos definir o início do neo-realismo em Portugal?</p>

<p>JG: Está definido que o arranque do movimento é com «Gaibéus», de 1939, "Rosa dos Ventos", de 1940 e «Esteiros» de 1941. Alves Redol, Manuel da Fonseca e Soeiro Pereira Gomes sãos os autores [pioneiros] mas há antecessores de peso, como Aquilino Ribeiro e Ferreira de Castro.</p>

<p>JCF: Na sua opinião o neo-realismo acabou?</p>

<p>JG: Para mim a data de 25 de Abril de 1974 marca o fim do neo-realismo. Mas há quem defenda que os livros posteriores dos autores neo-realistas são ainda neo-realismo.</p>

<p>JCF: Pode dizer-se que o neo-realismo é uma semente do 25 de Abril?</p>

<p>JG: Sem dúvida. Os escritores e artistas plásticos, os dramaturgos e cineastas ajudaram a consciencializar as pessoas. Lançaram sementes de revolta.</p>

<p>JCF: De qualquer modo a realidade de hoje é bem diferente da dos anos quarenta...</p>

<p>JG: Tudo é diferente. As máquinas entraram pelos campos, as fábricas de hoje não se comparam com as de antigamente. Há cada vez menos operários e cada vez menos camponeses.</p>

<p>JCF: Mas um garoto de dez anos a trabalhar não será neo-realista?</p>

<p>JG: Sim, mas os problemas de hoje são outros. Desemprego, droga, trabalho infantil, miséria. A televisão procura a notícia com espectáculo. Os jornais muitas vezes dão, para não ficar atrás, o espectáculo da própria notícia.</p>

<p>JCF: E qual o papel dos escritores?</p>

<p>JG: Faltam escritores para escrever sobre os casos de agora. Estão muito voltados para a História. O próprio Saramago fez o «Levantado do Chão», mas os outros livros dele são sobre o passado.</p>

<p>*</p>

<p><strong> Langston Hughes: Freedom is a strong seed </strong> * Apresentação e selecção de poemas por Pedro Silva Sena</p>

<p><br />
Langston Hughes nasceu em Joplin, Missouri (1902-1967) e, devido à sua militância comunista, foi uma das vítimas das campanhas persecutórias levadas a cabo pelo Senador Joseph McCarthy (1908-1957) nas décadas de quarenta e cinquenta do século XX. Hughes também é autor de ficção, humor, ensaios e uma autobiografia.  Para uma resenha biográfica (em linha) mais minuciosa: http://en.wikipedia.org/wiki/Langston_Hughes. Apresentam-se aqui alguns poemas coligidos em <strong>Selected Poems of Langston Hughes</strong>,1974, Vintage Books, Nova Iorque.</p>

<p><br />
<strong>Negro</strong></p>

<p><br />
I am a Negro:<br />
Black as the night is black,<br />
Black like the depths of my Africa.</p>

<p>I've been a slave:<br />
Caesar told me to keep his door-steps clean.<br />
I brushed the boots of Washington.</p>

<p>I've been a worker:<br />
Under my hand pyramids arose.<br />
I made mortar for the Woolworth building.</p>

<p>I've been a singer:<br />
All the way from Africa to Georgia<br />
I carried my sorrow songs.<br />
I made ragtime.</p>

<p>I've been a victim:<br />
The Belgians cut off my hands in Congo.<br />
They lynch me still in Mississippi.</p>

<p>I am a Negro:<br />
Black as the night is black,<br />
Black like the depths of my Africa.</p>

<p>~</p>

<p><strong>Natcha</strong></p>

<p><br />
Natcha, offering love.<br />
For ten shillings offering love.<br />
Offering: A night with me, honey.<br />
A long, sweet night with me.<br />
Come, drink palm wine.<br />
Come, drink kisses.<br />
A long, dream night with me.</p>

<p>~</p>

<p><strong>Dream Dust</strong></p>

<p><br />
Gather out of star-dust<br />
Earth-dust,<br />
Cloud-dust,<br />
Storm-dust,<br />
And splinters of hail,<br />
One handful of dream-dust<br />
Not for sale.</p>

<p>~</p>

<p><strong>Island</strong></p>

<p><br />
Wave of sorrow,<br />
Do not drown me now:</p>

<p>I see the island<br />
Still ahead somehow.</p>

<p>I see the island<br />
And its sands are fair:</p>

<p>Wave of sorrow,<br />
Take me there.</p>

<p>~</p>

<p><strong>Little Lyric (of Great Importance)</strong></p>

<p><br />
I wish the rent<br />
Was heaven sent.</p>

<p>~</p>

<p><strong>Porter</strong></p>

<p><br />
I must say<br />
Yes, sir,<br />
To you all the time.<br />
Yes, sir!<br />
Yes, sir!<br />
All my days<br />
Climbing up a great big mountain<br />
of yes, sirs!</p>

<p>Rich old white man<br />
Owns the world.<br />
Gimme yo' shoes<br />
To shine.</p>

<p>Yes, sir!</p>

<p>~</p>

<p><strong>Democracy</strong></p>

<p><br />
Democracy will not come<br />
Today, this year<br />
       Nor ever<br />
Through compromise and fear.</p>

<p>I have as much right<br />
As the other fellow has<br />
       To stand<br />
On my two feet<br />
And own the land.</p>

<p>I tire so of hearing people say,<br />
'Let things take their course.<br />
Tomorrow is another day.'<br />
I do not need my freedom when I'am dead.<br />
I cannot live on tomorrow's bread.</p>

<p>Freedom<br />
Is a strong seed<br />
Planted<br />
In a great need.<br />
I live here, too.<br />
I want freedom<br />
Just as you.</p>

<p>~<br />
</p>]]>
</content>
</entry>
<entry>
<title># 6</title>
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<modified>2012-05-03T22:27:52Z</modified>
<issued>2010-02-05T21:10:50Z</issued>
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<created>2010-02-05T21:10:50Z</created>
<summary type="text/plain">Janeiro | Dezembro 2010 Neste número: Literatura Permanente: «O pouco ou muito...», de Jorge de Sena Tudo é intenso e frágil nos dedos: três poemas de José do Carmo Francisco A Invenção do Sopro * Poemas de Ricardo Gil Soeiro...</summary>
<author>
<name>Pedro Silva Sena</name>

<email>pedrosilvasena@gmail.com</email>
</author>

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<![CDATA[<p><strong>Janeiro | Dezembro 2010</strong></p>

<p>Neste número:</p>

<p><br />
</strong><strong>Literatura Permanente</strong>: «O pouco ou muito...», de Jorge de Sena</p>

<p></strong><strong>Tudo é intenso e frágil nos dedos</strong>: três poemas de José do Carmo Francisco</p>

<p><strong>A Invenção do Sopro</strong> * Poemas de Ricardo Gil Soeiro</p>

<p></strong><strong>Wendy Cope: sátira e poesia </strong> * Apresentação e selecção de poemas por Pedro Silva Sena</p>

<p><strong>If I Run Out of Everything</strong> * Poema de Elefteria Lekakis</p>

<p><strong>Reincidentes</strong> * Alves Bento Belisário </p>

<p><strong>A Rede Inefável</strong> * Hiperligações</p>

<p><br />
<strong>*</strong></p>

<p><br />
<strong>Literatura Permanente</strong></p>

<p>«O pouco ou muito...</p>

<p>O pouco ou muito a diferença é pouca.<br />
Todos temos pouco e só há quem tenha<br />
além do pouco muito.</p>

<p>São poucos esses a pouco e pouco<br />
inexoravelmente são mais poucos<br />
ante os muitos muitos.</p>

<p>E a diferença sendo pouca é muita.<br />
Todos temos pouco muito então,<br />
além do muito pouco.»</p>

<p>(Jorge de Sena, 1966, <em>Visão Perpétua</em>, 1989)</p>

<p><strong>*</strong></p>]]>
<![CDATA[<p></strong><strong>Tudo é intenso e frágil nos dedos</strong>: três poemas de José do Carmo Francisco</p>

<p><br />
A estima por José do Carmo Francisco - autor de, entre outras obras poéticas, Universário (1982), Transporte Sentimental (1987), Mesa dos Extravagantes (1997) e Os guarda-redes morrem ao Domingo (2002)-impede-me de ser formal. É alguém que tem procurado, literária e humanamente, esse modo sóbrio, sábio e difícil de dizermos uns aos outros que partilhamos a vida. (Podemos  encontrar poesia e crítica de José do Carmo Francisco no meio electrónico; a revista Triplo V é um exemplo: http://www.triplov.com/novaserie.revista/numero_07/index.html).</p>

<p><br />
<strong>As casas de Blackheath Park</strong></p>

<p><br />
São todas de madeira e de vidro <br />
As casas de Blackheath Park<br />
A outra metade é feita de tijolos <br />
Tristes porque são todos iguais <br />
Na sua tão repetida monotonia</p>

<p>À volta da avenida fica o arvoredo<br />
Antigo como as casas dos guardas<br />
Lembra um velho tempo de quintas <br />
Com cavalos e carroças no mercado <br />
Hoje só recordado aos domingos</p>

<p>Esquilos nos ramos, corvos na relva<br />
De noite raposas fogem assustadas<br />
Dos poucos táxis a circular na rua <br />
Na escuridão fria da noite inglesa  <br />
À hora dos comboios mais raros </p>

<p>Envolvido nas rotinas das escolas <br />
Levo na mão o meu neto de manhã <br />
E vou buscá-lo perto do meio-dia<br />
Pego na pasta azul com o seu nome <br />
E levo o saco da fruta que ele espera</p>

<p>Todos os dias trocam o livro da mala <br />
São elefantes, borboletas e ovelhas<br />
Entram na floresta que eu lhe conto <br />
E tremem de medo dos monstros<br />
Como eu tremo de medo da doença</p>

<p>São todas de madeira e de vidro<br />
As casas de Blackheath Park <br />
Frágeis perante a neve a chegar <br />
Tal como eu frente ao pâncreas <br />
Que de súbito há-de ficar cansado </p>

<p>Tudo é intenso e frágil nos dedos <br />
Maneira de eu dizer adeus à vida <br />
Todos os momentos são preciosos <br />
Para que o meu neto me lembre <br />
E não se esqueça de me recordar </p>

<p></p>

<p></p>

<p></p>

<p><br />
<strong>Fala de Carlos Pato a Alves Redol 60 anos depois</strong></p>

<p><br />
Não morri. Sei que vai sair um pequeno livro<br />
com os meus três contos por si guardados.<br />
Em Vila Franca pouca gente sabe do assunto <br />
mas em breve esse livro de contos vai esgotar.<br />
Continuo nas histórias breves que escrevi <br />
e no seu pequeno prefácio onde me recorda.<br />
Sou o Bairro, sou a Charneca, sou a Lezíria <br />
e os sonhos dos meus dois filhos por sonhar.</p>

<p>Não morri. Continuo no olhar dos meus filhos<br />
Clara bebé e João Carlos que não cheguei a ver.<br />
No olhar e nos sonhos por mim transmitidos<br />
entre o rio de Santa Sofia e o Largo do Serrado.<br />
Ainda hoje, tantos anos depois, sobeja azeite <br />
no aroma intenso que se espalha pelas ruas.<br />
Vem das várias carroças, das raras camionetas <br />
das ceiras onde as azeitonas foram prensadas.</p>

<p>Não morri. Aprendeu comigo a ler e a escrever <br />
o chauffeur de praça que levou Clara a Peniche.<br />
Meu irmão Octávio tinha então visitas breves<br />
e a viagem era tão longa por estradas velhas.<br />
Não queria já receber o dinheiro esse rapaz <br />
mas Clara insistiu sempre pelo pagamento. <br />
Também lhe ensinei à noite a não misturar <br />
os seus deveres e as influências sentimentais. </p>

<p>Não morri. No Bairro, na Charneca e na Lezíria<br />
vi mulheres que não tinham tempo para cantar. <br />
Os sonhos dos engraxadores na estação da CP.<br />
entram no meu conto breve do livro pequeno. <br />
Todos os outros protagonistas saem de manhã <br />
e vendem o seu trabalho no campo à semana.<br />
O vento pampeiro penetra veloz entre as telhas<br />
e sacode o sono leve dos ranchos dos gaibéus.</p>

<p>Não morri. Nas ruas escuras da Bica do Chinelo<br />
corre ainda hoje um forte rumor de esperança.<br />
Passam cavaleiros a caminho das Cachoeiras<br />
e não há ainda as camionetas para a Arruda. <br />
Gerações sucessivas trabalham uma memória <br />
que há nos prelos das tipografias clandestinas.<br />
No nome dos meus filhos Clara e João Carlos <br />
se multiplica o inventário dos meus sonhos.</p>

<p></p>

<p><br />
<strong>Fado Feira da Cebola</strong></p>

<p><br />
Na Feira da Cebola em Setembro<br />
Em Rio Maior, férias da Escola<br />
O avô compra o sal de Dezembro<br />
Os cegos cantam por uma esmola</p>

<p>Cabos de cebola de Alvorninha<br />
Atraem o olhar de toda a gente <br />
Às vezes vem a chuva miudinha <br />
Sob o carro de bois é diferente </p>

<p>Eu durmo na manta aconchegado<br />
A chuva só molha os animais <br />
Havia roubos na feira de gado <br />
Batiam nos ladrões com os varais </p>

<p>Fechada a estrada a fardos de palha <br />
Passam os ciclistas num pelotão<br />
A gente parecia uma muralha <br />
Empurrava homens com o coração</p>

<p></p>

<p></strong><strong>A Invenção do Sopro</strong> * Poemas e notas de Ricardo Gil Soeiro</p>

<p>Ricardo Gil Soeiro (n.1981) é ensaísta, poeta e investigador do Centro de Estudos Comparatistas da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, onde leccionou o curso de Mestrado Memory and Literature in a globalised Culture e Literatura Portuguesa Contemporânea. Orienta a sua investigação nas seguintes áreas: Estudos Comparatistas, Teoria da Literatura, Hermenêutica, Poesia Portuguesa Contemporânea, Literatura de Expressão Alemã e Estudos de Memória. Doutorado em Estudos de Literatura, publicou os seguintes livros: O Pensamento tornado Dança. Estudos em torno de George Steiner, Lisboa, Roma Editora, 2009, Gramática da Esperança: Da Hermenêutica da Transcendência à Hermenêutica Radical, Lisboa, Nova Vega, 2009, Iminência do Encontro: George Steiner e a Leitura Responsável, Lisboa, Roma Editora, 2009 (Prémio de Apoio à Edição de Ensaio 2009 - Direcção-Geral do Livro e das Bibliotecas, Ministério da Cultura) e A Alegria do Sim na Tristeza do Finito, Lisboa, Apenas Livros Editora, 2009. Em breve, serão publicados os seguintes livros de poesia: O Alfabeto dos Astros, Espera Vigilante e Caligraphia do Espanto. Tem poemas publicados em revistas como Revista Criatura, Revista Desassossego e Revista Autor.</p>

<p><br />
<strong>RUMOR IMPERCEPTÍVEL</strong></p>

<p>a ser verdade,<br />
sentirei inveja desta tarde amável e aprazível.</p>

<p>com traço sigiloso desenhas o sorriso brando<br />
e em dois lances de génio revelas a tua caligrafia escondida.<br />
de abismos enxutos e com cieiro nos lábios de esponja,<br />
reclamas a mensagem extraviada.<br />
ainda mal o poema se aproxima do seu termo, <br />
já se reivindica ser íntimo o equívoco?</p>

<p>apostaria a engrenagem silenciosa desta mágoa de verão<br />
e o imperceptível ruído da brisa<br />
em como a boleia opaca dos espelhos<br />
perdeu a destreza das histórias.<br />
dás-me um conselho de borla:<br />
evita a poesia e o cheiro a naftalina,</p>

<p>as vísceras estão expostas, fumegando em directo<br />
tudo isto é sem amargura que existe<br />
a mansidão do tempo,<br />
a torre de tübingen com a sua loucura precipitada para o rio,<br />
aguardando a véspera de uma qualquer alegria,<br />
hyperion contemplando os dias escandidos,</p>

<p>a ser verdade,<br />
verei rostos que murcham <br />
e sentirei inveja do pouco talento da tarde que se afoga.</p>

<p></p>

<p><br />
<strong>O QUE ME TENTA</strong></p>

<p><br />
dante, montale, proust <br />
e nem um pouco de ponge me tentam;<br />
a nostalgia supérflua deste caminho abandonado,<br />
a delicadeza deste diário sem ternura <br />
ou o brilho da primeira voz,<br />
redigindo as suas cartas desavindas,<br />
esses sim me dizem alguma coisa sobre <br />
a terra que enrouquece sob a noite costurada;<br />
esse largo gesto inoportuno de traçar a morte,<br />
e onde cabe o mundo e uma magnólia em rascunho,<br />
pouco me fascina:<br />
é certo que, à beira de rasgar o tempo,<br />
algures se ergue o olhar aflito perante o peso da jornada,<br />
mas procuro, ainda assim, <br />
manter-me desatento às odes forasteiras,<br />
adormecendo a minha indiferença antes de uma bica improvável<br />
e mastigando um serão no sofá incerto do destino.</p>

<p></p>

<p><br />
<strong>OUTROS DESENLACES</strong></p>

<p>choviam outros desenlaces<br />
e fomos ver, apressando uma partida inefável.<br />
por muito menos presumi ser mero traço sem ontologia que me valha.</p>

<p>o trautear do último cigarro e a inexactidão dos transeuntes<br />
tudo vale no raiar da aurora, migrações declinadas, <br />
reverberações de uma súbita voz anoitecendo</p>

<p>chovia nos tímpanos rasgados<br />
(estou atrasado para o nosso encontro: envio um sms a avisar),<br />
e a inviolável felicidade é permitir a imperfeição do tempo.</p>

<p>chove nas desilusões interrompidas:<br />
e ambos sabemos que os poemas nunca mentem,<br />
habitam esse futuro incerto <br />
onde o nascer ilumina ininterruptamente o sangue do dia.</p>

<p></p>

<p><br />
<strong>TEORIA LITERÁRIA</strong></p>

<p><br />
sem teoria literária,<br />
vou perfeitamente a tempo de salvar o dia:<br />
de bom grado, trocaria este verso por um vinco de dócil plenitude.<br />
mas não sei se o que oiço é um canto, um nome ou uma lágrima: tu me dirás<br />
acordei portanto sem amor para o mistério<br />
no rescaldo da jornada</p>

<p>o romper da dor é sempre uma paisagem ferida<br />
quantos desgostos pode a pele?<br />
e pois tudo terá já sido dito,<br />
diz-me tu qual é a alcunha deste medo<br />
e se principiará a fragilidade da musa<br />
amanhã não haverá paragem seguinte</p>

<p>é imenso ser refúgio<br />
e nada me servirá de desculpa<br />
nem o gesticular dos talheres a meio caminho da tristeza<br />
nem as olheiras fingindo dois minutos de retrato<br />
ficámos a sós com este surpreendente prenúncio<br />
por teimosia amei o verso e a mágoa em proporções em tudo semelhantes</p>

<p></p>

<p><br />
<strong>AS SOBRAS DA SOLIDÃO</strong></p>

<p><br />
                        a Elisabete Marques</p>

<p><br />
meu amor,<br />
esse rumor talvez seja um fogo a querer voar;<br />
de costas para o mar, anoitecendo a partida,<br />
só me resta agora um horizonte para dar,<br />
e é tudo</p>

<p>a feroz sombra do vento transparente,<br />
esculpida em água e mordendo a solidão,<br />
diz-me que no coração do dia tudo canta ainda<br />
um só grito bastaria<br />
para coroar o sol húmido da primeira chuva inefável</p>

<p>onde a beleza se demora vagarosamente,<br />
como se tivesse dado a beber o sublime até ao fim do alvorecer<br />
digo amo-te <br />
e tudo permanece enlaçado à pele do chão,<br />
sangrando nos pulsos do silêncio</p>

<p>sem cessar olhando os fios das lágrimas,<br />
espuma branca do adeus,<br />
procuro mas não sei de que lado afluem <br />
as inumeráveis harmonias do mundo<br />
um dia confidenciar-me-ás o trilho de volta da morte</p>

<p>e eu de mão alada caminhando sobre as águas,<br />
preso no intervalo da colina,<br />
de tanto me doer a alegria do que resta,<br />
segredo-te apenas um derradeiro abismo<br />
e ensino-te como se dá a invenção do sopro</p>

<p></p>

<p><br />
</strong><strong>Wendy Cope: sátira e poesia</strong> * Apresentação e selecção de poemas por Pedro Silva Sena</p>

<p><br />
Wendy Cope (n. 1945, Kent, Inglaterra), poetisa, editora e crítica literária, foi professora do ensino primário antes de se dedicar, quase exclusivamente, à produção literária. A sua obra poética, já reconhecida pelo público britânico, é caracterizável pela ironia e o sarcasmo com que reflecte sobre a sociedade, as convenções, os consensos, os consentimentos e a própria literatura. Os poemas aqui apresentados foram seleccionados de entre a sua primeira colecção, <em>Making Cocoa for Kingsley Amis</em> (Faber and Faber, 1986). Para saber mais sobre esta autora, consultar, por exemplo, a referência do British Council: <a href="http://www.contemporarywriters.com/authors/?p=auth174">http://www.contemporarywriters.com/authors/?p=auth174</a></p>

<p><br />
<strong>A POLICEMAN'S LOT</strong></p>

<p><br />
"The progress of any writer is marked by those moments when he manages to outwit his own inner police system."</p>

<p>Ted Hughes</p>

<p><br />
Oh, once I was policeman young and merry (young and merry),<br />
Controlling crowds and fighting petty crime (petty crime),<br />
But now I work on masters literary (litererry)<br />
And I am growing old before my time ('fore my time).<br />
No, the imagination of a writer (of a writer)<br />
Is not the sort of beat a chap would choose (chap would choose)<br />
And they've assigned me a prolific blighter ('lific blighter) -<br />
I'am patrolling the unconscious of Ted Hughes.</p>

<p>All our leave was cancelled in the lambing season (lambing season),<br />
When a bitter winter froze the drinking trough (drinking trough),<br />
For our commander stated, with good reason (with good reason),<br />
That that's the kind of thing that starts him off (starts him off).<br />
But anything with four legs causes trouble (causes trouble) -<br />
It's worse than organizing several zoos (several zoos),<br />
Not to mention mythic creatures in the rubble (in the rubble),<br />
Patrolling the unconscious of Ted Hughes.</p>

<p>It's worse than organizing several zoos (several zoos),<br />
Patrolling the unconscious of Ted Hughes.</p>

<p>Although it's disagreeable and stressful (bull and stressful)<br />
Attempting to vaert poetic thought ('etic thought),<br />
I could boast of times when I have been successful (been successful)<br />
And conspiring compound epithets ('thets were caught).<br />
But the poetry statistics in this sector (in this sector)<br />
Are enough to make a copper turn to booze (turn to booze)<br />
And I do not think I'll make it to inspector (to inspector)<br />
Patrolling the unconscious of Ted Hughes.</p>

<p>It's enough to make a copper turn to booze (turn to booze) -<br />
Patrolling the unconscious of Ted Hughes.</p>

<p>                                         after W.S. Gilbert</p>

<p><br />
<strong>READING SCHEME</strong></p>

<p><br />
Here is Peter. Here is Jane. They like fun.<br />
Jane has a big doll. Peter has a ball.<br />
Look, Jane, look! Look at the dog! See him run!</p>

<p>Here is Mummy. She has baked a bun.<br />
Here is the milkman. He has come to call.<br />
Here is Peter. Here is Jane. They like fun.</p>

<p>Go Peter! Go Jane! Come, milkman, come!<br />
The milkman likes Mummy. She likes them all.<br />
Look, Jane, look! Look at the dog! See him run!</p>

<p>Here are the curtains. They shut out the sun.<br />
Let us peep! On tiptoe Jane! You are small!<br />
Here is Peter. Here is Jane. They like fun.</p>

<p>I hear a car, Jane. The milkman looks glum.<br />
Here is Daddy in his car. Daddy is tall.<br />
Look, Jane, look! Look at the dog! See him run!</p>

<p>Daddy looks very cross. Has he a gun?<br />
Up milkman! Up milkman! Over the wall!<br />
Here is Peter. Here is Jane. They like fun.<br />
Look, Jane, look! Look at the dog! See him run!</p>

<p><br />
<strong>TRIOLET</strong></p>

<p><br />
I used to think all poets were Byronic -<br />
Mad, bad and dangerous to know.<br />
And then I met a few. Yet it's ironic -<br />
I used to think all poets were Byronic.<br />
They're mostly wicked as a ginless tonic<br />
And wild as pension plans. Not long ago<br />
I used to think all poets were byronic -<br />
Mad, bad and dangerous to know.</p>

<p><br />
<strong>Advertisement</strong></p>

<p><br />
The lady takes 'The Times' and 'Vogue',<br />
Wears Dior dresses, Gucci shoes,<br />
Puts fresh-cut flowers round her room,<br />
And lots of carrots in her stews.</p>

<p>A moss-green Volvo, morning walks,<br />
And holidays in Guadeloupe;<br />
Long winter evenings by the fire<br />
With Proust and cream of carrot soup.</p>

<p>Raw carrots on a summer lawn,<br />
Champagne, a Gioconda smile;<br />
Glazed carrots in a silver dish<br />
For Sunday lunch. They call it style.</p>

<p><br />
<strong>MAKING COCOA for KINGSLEY AMIS</strong></p>

<p><br />
It was a dream I had last week<br />
And some kind of record seemed vital.<br />
I knew it wouldn't be much of a poem<br />
But I love the title.</p>

<p></p>

<p></p>

<p></p>

<p><br />
<strong>If I Run Out of Everything</strong> * Poema (e nota biográfica) por Elefteria Lekakis</p>

<p><br />
Eleftheria Lekakis was born in Crete in the early 1980s, and she mostly grew up in the same island until the age of 22, when she moved to London to pursue postgraduate education. Enjoys the sun, books, the company of people, coffee and traveling - not necessarily in that order.</p>

<p>&#919; &#917;&#955;&#949;&#965;&#952;&#949;&#961;&#943;&#945; &#923;&#949;&#954;&#940;&#954;&#951; &#947;&#949;&#957;&#957;&#942;&#952;&#951;&#954;&#949; &#963;&#964;&#951;&#957; &#922;&#961;&#942;&#964;&#951; &#963;&#964;&#953;&#962; &#945;&#961;&#967;&#941;&#962; &#964;&#951;&#962; &#948;&#949;&#954;&#945;&#949;&#964;&#943;&#945;&#962; &#964;&#959;&#965; 1980 &#954;&#945;&#953; &#956;&#949;&#947;&#940;&#955;&#969;&#963;&#949; &#954;&#965;&#961;&#943;&#969;&#962; &#963;&#964;&#959; &#943;&#948;&#953;&#959; &#957;&#951;&#963;&#943; &#941;&#969;&#962; &#964;&#951;&#957; &#951;&#955;&#953;&#954;&#943;&#945; &#964;&#969;&#957; 22, &#959;&#960;&#972;&#964;&#949; &#954;&#945;&#953; &#956;&#949;&#964;&#945;&#954;&#972;&#956;&#953;&#963;&#949; &#963;&#964;&#959; &#923;&#959;&#957;&#948;&#943;&#957;&#959; &#947;&#953;&#945; &#956;&#949;&#964;&#945;&#960;&#964;&#965;&#967;&#953;&#945;&#954;&#941;&#962; &#963;&#960;&#959;&#965;&#948;&#941;&#962;. &#913;&#960;&#959;&#955;&#945;&#956;&#946;&#940;&#957;&#949;&#953; &#964;&#959;&#957; &#942;&#955;&#953;&#959;, &#964;&#945; &#946;&#953;&#946;&#955;&#943;&#945;, &#964;&#951;&#957; &#960;&#945;&#961;&#941;&#945;, &#964;&#959;&#957; &#954;&#945;&#966;&#941; &#954;&#945;&#953; &#964;&#945; &#964;&#945;&#958;&#943;&#948;&#953;&#945;- &#972;&#967;&#953; &#945;&#960;&#945;&#961;&#945;&#943;&#964;&#951;&#964;&#945; &#963;&#949; &#945;&#965;&#964;&#942; &#964;&#951; &#963;&#949;&#953;&#961;&#940;.</p>

<p><br />
<strong>IF I RUN OUT of EVERYTHING</strong></p>

<p>When I run out of everything, the only thing I will be left with will be my voice.<br />
If I lose everything, all my belongings and all the people around me<br />
I will only have my voice left.<br />
Alone she and I will walk to faraway lands, and listen to different musical notes <br />
Similar to those we used to listen to all those evenings <br />
When we did not waste on anything, but music.</p>

<p>She and I will roam in streets, squares and boulevards, <br />
mainly silent, but we will communicate with glances<br />
She will hold my hand and no one will see me<br />
We will never find peace my voice and I/we will never find a roof, <br />
we will walk deserted streets and empty squares and broken boulevards.</p>

<p>And if my voice is ever lost, I will look for her everywhere<br />
But I will not know exactly what I am looking for<br />
Maybe soundlessly I will ask someone for the time, and<br />
maybe he will give me a better answer/maybe she will come look for me<br />
But your sorrow hunts you down more often than your voice does. </p>

<p>My sense has lost me; my soul is looking for me, <br />
but my voice stays with me still.<br />
There must be something I am offering her.</p>

<p></p>

<p></p>

<p><strong>Reincidentes</strong> * Poemas de Alves Bento Belisário </p>

<p><br />
<strong>FAZ-SE de ÁGUAS e de SAUDADE</strong></p>

<p><br />
Faz-se de águas e de saudade<br />
O coração que em verdade<br />
tudo espelha e clama.</p>

<p>Vida tecida com fios de silêncio <br />
Em flama nos olhos vergados <br />
Da moça tocada no peito.</p>

<p>É sangue haver e querer olhar <br />
O mundo e ver. E ver esbater-se <br />
O verbo na madrugada do sossego <br />
Dos seios das virgens.</p>

<p>(2000)</p>

<p><br />
<strong>AMO A VIDA ODIOSAMENTE</strong></p>

<p><br />
Amo a vida odiosamente.<br />
Amo-a amante aquela<br />
que das amantes a mais bela<br />
por ela mesmo amor não sente.<br />
Quero-a me querendo.<br />
Odeio-a me odiando.<br />
E é um ter-lhe ódio a mim amando.<br />
E é ter-lhe amor ódio me tendo.</p>

<p>(2003)</p>

<p></p>

<p><strong>AS LABAREDAS</strong></p>

<p><br />
As labaredas de um beijo<br />
Tocam e deixam em brasa<br />
Do menino o desejo<br />
Embrionário de ter uma casa,<br />
Uma morada, um abrigo…<br />
Um tecto com contornos de asa<br />
Busco buscar e persigo.</p>

<p>(2006)</p>

<p><strong>A Rede Inefável</strong> * Hiperligações</p>

<p><strong>Poemargens</strong> * Blogue de 'zantonc' (Rio de Janeiro); publicação da tradução de alguns poemas de Philip Larkin editados na Inefável: http://poemargens.blogspot.com/2009/11/philip-arthur-larkin-1922-1985-philip.html</p>]]>
</content>
</entry>
<entry>
<title># 5</title>
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<modified>2012-05-10T03:27:47Z</modified>
<issued>2009-07-13T17:41:49Z</issued>
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<summary type="text/plain">Janeiro | Dezembro 2009 Neste número: Pelo Mar Espumante da Vida * Poemas de Jibanananda Das, traduzidos do Bengali por Rita Ray Canção, intervenção política e memória em Cabo Verde ~ Duas &apos;letras&apos; traduzidas Attila József * Apresentação e selecção...</summary>
<author>
<name>Pedro Silva Sena</name>

<email>pedrosilvasena@gmail.com</email>
</author>

<content type="text/html" mode="escaped" xml:lang="en" xml:base="http://revistainefavel.weblog.com.pt/">
<![CDATA[<p><strong>Janeiro | Dezembro 2009</strong></p>

<p>Neste número:</p>

<p><br />
</strong><strong>Pelo Mar Espumante da Vida</strong> * Poemas de Jibanananda Das, traduzidos do Bengali por Rita Ray</p>

<p><strong>Canção, intervenção política e memória em Cabo Verde</strong> ~ Duas 'letras' traduzidas</p>

<p></strong><strong>Attila József</strong> * Apresentação e selecção de poemas por Pedro Silva Sena</p>

<p><strong>Humanidade</strong> * Poemas de Rui Tinoco</p>

<p><strong>Revistas de Poesia</strong>: DiVersos</p>

<p>Índices da Inefável (2007-2009)</p>

<p><strong>*</strong></p>

<p>«Sabes, não existe perdão<br />
e o arrependimento é vão.<br />
Sê aquilo que realmente desejas - um homem<br />
Não queimarás a terra.»</p>

<p>(Attila József, <em>Sem perdão</em>, 1937)</p>

<p><strong>*</strong></p>]]>
<![CDATA[<p><strong>Pelo Mar Espumante da Vida</strong></p>

<p><br />
Jibanananda Das (1899 - 1954), um dos maiores poetas do sub-continente indiano, nasceu em Barisal (no actual Bangladesh), licenciou-se em Literatura Inglesa da Universidade de Calcutá e leccionou em várias faculdades em Calcutá, Delhi e na sua cidade natal. A primeira colectânea de poemas, 'Jhara Palak' ('Penas Caídas'), foi publicada em 1927. As suas obras mais conhecidas são 'Banalata Sen' (1942) e 'Rupasi Bangla' ('Linda Bengala', escrito em 1934 e publicado postumamente em 1957).<br />
Jibanananda pertencia a um grupo de poetas ansiosos por quebrar com a herança poética de Rabindranath Tagore (1861 - 1941), único poeta bengali, e indiano, a ter sido galardeado com o Prémio Nobel. O seu lirismo encontra-se sem paralelo na literatura bengali. Apesar de ser melhor conhecido pela sua poesia - onde se destaca um amor profundo pela natureza e pelas paisagens rurais, a tradição e a história -, Das, todavia,  é muito urbano e introspectivo, tendo a sua obra como temas a solidão, a depressão e a morte. Mestre de palavras-imagens, escreveu, além de poemas, ensaios, contos e romances; muitos dos quais deixou inéditos numa arca, como Pessoa. Enquanto os seus primeiros poemas evocam a beleza natural e rural de Bengala, os posteriores reflectem a depressão, a frustração e a solidão da vida urbana. Os seus contos e romances analisam as complexidades da vida conjugal e os relacionamentos sexuais, bem como a sociedade e a política da sua época. Jibanananda morreu num acidente de eléctrico em Calcutá, em 1954.</p>

<p>~</p>

<p>Banalata Sen de Natore </p>

<p>Por milhares de anos passeio pelas ruas da terra, <br />
Desde o mar do Ceilão até ao mar de Malaia na escuridão da noite <br />
Percorri muito; no mundo obscuro de Bimbisara e de Axocá <br />
Ali estava eu; na escuridão mais longínqua da cidade de Bidarva; <br />
Sou uma alma cansada, rodeada pelo mar espumante da vida, <br />
A única paz que conheci foi com Banalata Sen de Natore.  </p>

<p>O seu cabelo é escuro como a noite de Bidixá antiquíssima, <br />
A sua cara a escultura de Sravasti; o marinheiro que <br />
Está desviado no mar alto com o leme quebrado <br />
Quando ele vê uma terra de erva verde no meio da ilha de canela <br />
Foi assim que a vi na escuridão; ela disse "onde esteve este tempo todo?" <br />
Levantando os olhos como o ninho de aves, Banalata Sen de Natore.  </p>

<p>Ao fim do dia vem a noite <br />
como o som de orvalho; a águia apaga o cheiro do sol das suas asas <br />
Quando se apagam as cores todas da terra então se forja um manuscrito <br />
de contos reluzentes com as cores de pirilampos; <br />
Os pássaros todos voltam a casa - desaguam os rios todos no mar - acabam os negócios todos desta vida <br />
Resta apenas a escuridão para ficar frente a frente com Banalata Sen.</p>

<p>~</p>

<p>Uma estranha escuridão...</p>

<p><br />
Uma estranha escuridão desceu hoje nesta terra <br />
Os cegos vêem mais claramente; <br />
Os que não são comovidos por amor, nem por amizade, nem por misericórdia <br />
O mundo fica desamparado sem o bom conselho deles. <br />
Os que ainda têm fé na humanidade <br />
Os que ainda consideram como natural <br />
A grande verdade ou os costumes, ou as artes, ou a entrega <br />
O coração deles hoje faz alimento dos abutres e das raposas.</p>

<p>~</p>

<p>A laranja</p>

<p>Uma vez que eu sair deste corpo <br />
Nunca hei-de voltar a esta terra? <br />
Oxalá eu volte <br />
Numa noite de Inverno <br />
Com a polpa gelada e lastimável duma laranja <br />
Na mesa de cabeceira dalgum doente que eu conhecia.</p>

<p>~</p>

<p>Cidade</p>

<p>Alma minha, viste muitas grandes cidades; <br />
Os tijolos e o almofariz, as palavras e os trabalhos <br />
E as esperanças, os terríveis olhos perdidos de desespero daquelas cidades <br />
Tornaram-se em cinzas no desgosto da minha mente. <br />
Todavia vi o nascer do sol na beira da imensa nuvem da cidade; <br />
Vi o sol na outra margem do rio do porto <br />
Tem o feixe como o do camponês amante na terra cor-de-laranja das nuvens; <br />
Vi as estrelas por cima das luzes da cidade <br />
Estão em voo para um mar austral qual multidão de patos selvagens.</p>

<p><br />
Texto de apresentação, selecção de poemas e tradução do Bengali por Rita Ray</p>

<p></p>

<p>*</p>

<p><br />
<strong>Canção, intervenção política e memória em Cabo Verde</strong> ~ Duas 'letras' traduzidas</p>

<p><br />
As 'letras' que aqui traduzimos do Badiu – recomendando a audição simultânea das respectivas canções –, são documentos eloquentes e pungentes da condição social e económica dos habitantes de Cabo Verde nas últimas décadas do domínio colonial. Fomi 47, da autoria de Codé di Dona e interpretada pelos Finaçon e Simentera, entrevê as consequências dramáticas das secas que assolam o arquipélago, cuja pior expressão foi vivida em 1947. A fuga à fome assassina forçou então muitos cabo-verdianos à migração para São Tomé e Príncipe, aonde conheceram, nas plantações de cacau, enquanto "contratados", um jugo quase esclavagista. Por seu lado, Alto Cutelo, da autoria de Renato Cardoso e interpretado por Os Tubarões (em 1977), aponta outro dos destinos daqueles que as secas e o sistema económico colonial expulsaram das ilhas. O “contratado” aqui narrado parte sozinho para Lisboa, à custa da sua propriedade, a fim de trabalhar como operário industrial e da construção civil; no horizonte, porém, doura a liberdade, exige-se a libertação.</p>

<p><br />
</strong><strong>Fomi 47</strong></p>

<p><br />
La na 59<br />
Tchuba scoregado<br />
Desanimado nha bida<br />
d'djobi barco<br />
Pa'n ba santum. </p>

<p>N'ba praia Santa Maria<br />
Na scritori di Fernand di Sousa<br />
N'dal nomi e pom na papel<br />
El dam numero 37.</p>

<p>N'da rincada<br />
N'ba pilorinho<br />
N'tchiga na Didi di Riqueta<br />
N'pol nha probolema<br />
El djudam mata fomi.</p>

<p>Kuatu dia ku kuatu noti<br />
Na kuatu ora di madrugada<br />
N'olha barco Ana Mafalda<br />
N'odja luz toma baia<br />
Flado mi Ana Mafalda ki dja bêm<br />
Pa leba genti Santumé di Prispi<br />
N'pô kabessa na tjom<br />
N'xinta n'cuda bida.</p>

<p></p>

<p>A Fome de 47</p>

<p><br />
Em 1959<br />
Não chovia.<br />
Desanimado com a minha vida<br />
Olhei os barcos<br />
Que vão para São Tomé.</p>

<p>Na praia de Santa Maria<br />
No escritório de Fernando de Sousa<br />
Dei-lhe o meu nome e assinei:<br />
Deram-me o número trinta e sete.</p>

<p>Pelo pelourinho<br />
Encontrei Didi di Riqueta,<br />
Contei-lhe o meu problema<br />
E ele ajudou-me a matar a fome.</p>

<p>Quatro dias e quatro noites depois<br />
Às quatro horas da madrugada<br />
Vi o barco<br />
Já a luz tomava a baía.<br />
Alguém disse que era o Ana Mafalda que chegava<br />
Para levar gente para São Tomé e Príncipe.<br />
Pousei a cabeça no chão<br />
E pensei na minha vida.</p>

<p><br />
Tradução (a partir de uma tradução francesa): Pedro Silva Sena.</p>

<p><br />
~</p>

<p><br />
</strong><strong>Alto Cutelo</strong></p>

<p><br />
Na altu kutelu sinbron dja ka ten (dja seka)<br />
Rais stikadu djobe agua, k'atcha (dja seka)<br />
Agua sta fundu e ni omi ka tral (dja seka)</p>

<p>Mudjer un sumana sê lumi ka sende (na kasa)<br />
Sê fidju, na strada so un ta trabadja (pa dozi mirés)<br />
Maridu dja dura ki bai pa Lisboa (kontratadu)<br />
Pa bai pa Lisboa e bende sê tera (metadi di presu)</p>

<p>Ali, el ta trabadja na tchuba na bentu (na friu)<br />
Na Kuf, na Lisvanani i na Jota Pimenta<br />
Mon d'obra baratu, pa mas ki trabadja (serventi)<br />
Mon d'obra baratu, baraka sen lus (kumida a presa)<br />
Inda mas nganadu ki s'irmon branku (sploradu)</p>

<p>Ma un dia, k'n vra pa tera<br />
Monti Gordu i Malaguéta<br />
Nhos ten ki dam agua<br />
Ku forsa nu brasu, konsiensia di mi,<br />
E mi ki trabadja, tera i poder é pa mi<br />
Ku sinbron na kutelu (nos tera)<br />
Midju na tchon (nos tera)<br />
I barku no portu (nos tera).</p>

<p></p>

<p></p>

<p>Alto Cutelo</p>

<p><br />
Em Alto Cutelo já não há sinbron  – já secou;<br />
As raízes estendem-se à procura de água, sem a encontrar – já secou;<br />
Está tão no fundo que nenhum homem a alcança – já secou;</p>

<p>Há uma semana que a mulher não cozinha – em casa;<br />
Está sozinha com o seu filho que trabalha nas estradas – por doze mil réis;<br />
Há muito tempo que o seu marido está em Lisboa – contratado;<br />
Para ir para Lisboa vendeu a sua terra – por metade do preço;</p>

<p>Trabalha lá à chuva e ao vento – ao frio;<br />
Na CUF, na Lisnave e na Jota Pimenta;<br />
Mão-de-obra barata, por mais que trabalhe – servente;<br />
Mão-de-obra barata, barraca sem electricidade – come à pressa;<br />
É mais enganado do que o seu irmão branco – explorado;</p>

<p>Mas um dia quero voltar para a minha terra<br />
Monte Gordo e Malagueta<br />
Vocês têm que me dar água;<br />
Com a força dos braços <br />
E consciência de mim<br />
Sou eu quem trabalha<br />
A terra e o poder pertencem-me;<br />
Com o sinbron em Alto Cutelo<br />
Milho no campo<br />
E barcos no porto.</p>

<p><br />
Tradução do Badiu: Emanuel Sousa</p>

<p><br />
*</p>

<p><br />
</strong><strong>Attila József</strong> * Apresentação e selecção de poemas por Pedro Silva Sena</p>

<p><br />
Attila József (1905 - 1937) nasceu e morreu na Hungria. A sua vida foi marcada pela pobreza, pela doença (mental), pela busca de afecto e de humanidade - e pela poesia. Na wikipédia podem-se encontrar-se os marcos biográficos e ligações úteis para conhecer melhor a obra e a biografia deste escritor (cf. http://en.wikipedia.org/wiki/Attila_Jozsef#English_Translations). Escolhemos para esta apresentação alguns poemas de entre os mais celebrados, traduzidos para Inglês.</p>

<p><br />
Opening</p>

<p>Lidi’s young brother here,<br />
Khan Batu’s Budapest relative,<br />
who lived on bread for years<br />
and never owned a royal-blue eiderdown;<br />
for whose poems death<br />
simmers beans in a wooden pot —<br />
hey bourgeois! hey proletarian! —<br />
I, Attila József, am here!</p>

<p><br />
(1927 ~ Tradução do Húngaro: Ron A. Kalman e Gabor J. Kalman)</p>

<p><br />
~</p>

<p><br />
With a Pure Heart</p>

<p>I am fatherless, motherless,<br />
Godless and countryless,<br />
I have no cradle, no funeral shroud,<br />
And no lover to kiss me proud.</p>

<p>For the third day I have had<br />
No food, not a piece of bread.<br />
My strength is my twenty years –<br />
I will sell these twenty years.</p>

<p>And if no one heeds my cry,<br />
The devil may choose to buy.<br />
My heart’s pure, I’ll burn and loot,<br />
If I must, I’ll even shoot.</p>

<p>They will catch me and string me up,<br />
With the good earth cover me up<br />
And death-bringing grass will start<br />
Growing from my beautiful, pure heart</p>

<p><br />
(1925 ~ Tradução do Húngaro: John Bátki)</p>

<p><br />
~</p>

<p><br />
Consciouness</p>

<p><br />
1</p>

<p>Dawn unbinds the sky from the earth<br />
and at its clear soft word<br />
beetles and children<br />
spin forth into the world:<br />
there is no haze in the air,<br />
this bright clarity floats everywhere.<br />
Overnight, they have covered the trees:<br />
like so many small butterflies, the leaves.</p>

<p><br />
2</p>

<p>I saw paintings daubed with red,<br />
yellow and blue in my dreams,<br />
and I felt it was all in order,<br />
not a speck of dust out of place.<br />
Now my dreams seem pale shadows haunting<br />
my limbs; the iron world order returns.<br />
During the day a moon rises within<br />
and inside me at night the sun burns.</p>

<p><br />
3</p>

<p>I am thin, at times I eat only bread.<br />
Among souls that idly chatter and temporize<br />
I search – free and free of charge –<br />
for greater certainty than the fall of dice.<br />
Stuffing myself with roast beef would be nice,<br />
or cuddling a small child to my heart –<br />
But even the trickiest cat can’t catch at once<br />
The mouse outside and the one in the house.</p>

<p><br />
4</p>

<p>Just like a pile of split wood<br />
the world lies in a heap;<br />
so does each thing push, uphold, keep<br />
every other thing in place,<br />
so that everything is determined.<br />
Only what is not can become a tree<br />
only what’s yet to come can be a flower.<br />
The things that exist fall into pieces.</p>

<p><br />
5</p>

<p>As a child at the freight station I lay<br />
in wait, flattened against a tree,<br />
like a piece of silence. Gray<br />
weeds touched my mouth, raw, strangely sweet.<br />
Dead still, I watched the guard’s feet,<br />
his passing shadow on the boxcars,<br />
stubbornly kept falling over my prize,<br />
those scattered lumps of coal, dewy and bright.</p>

<p><br />
6</p>

<p>The anguish is deep inside me, here,<br />
while its explanation lies out there.<br />
My wound is the whole world – it burns;<br />
I feel the fever, my soul, as it churns.<br />
You are enslaved by your rebellious heart,<br />
and will be free only when you will stop<br />
building yourself the kind of apartment<br />
where a landlord moves in to collect rent.</p>

<p><br />
7</p>

<p>I looked up in the night<br />
at the cogwheels of the stars:<br />
from sparkling threads of chance<br />
the loom of the past wove laws.<br />
Then, in my steaming dream<br />
I looked at the sky again:<br />
somehow the fabric of the law<br />
always had a missing stitch, a flaw.</p>

<p><br />
8</p>

<p>Silence listened, the clock struck one.<br />
Why not visit your childhood –<br />
even among the cinderblock walls one could<br />
imagine some bit of freedom,<br />
I thought. But when I stood up,<br />
the constellations, the big bear,<br />
like prison bars, shone up there<br />
above my silent cell.</p>

<p><br />
9</p>

<p>I have heard iron crying,<br />
I have heard rain laughing.<br />
I have seen the past split apart.<br />
and realize only notions can be forgot;<br />
and all I can do is keep loving<br />
while bent double under my burdens<br />
Why should I forge a swordblade<br />
out of you, golden consciousness!</p>

<p><br />
10</p>

<p>An adult is someone bereft<br />
of father and mother inside his heart,<br />
who knows that life is a free gift<br />
something extra thrown in on death’s part,<br />
and, like a found object, can be returned,<br />
anytime – therefore, it’s to be treasured.<br />
He is nobody’s god or priest<br />
- his own self’s least.</p>

<p><br />
11</p>

<p>Once I saw happiness, contentment:<br />
four hundred pounds of rotund pink fat.<br />
Over the harsh grass of the farmyard<br />
it’s curly smile swayed and tottered.<br />
It plopped down in a puddle, warm and nice,<br />
looked at me, blinked, grunted twice –<br />
I still see the hesitant way<br />
light fumbled in its bristles as it lay.</p>

<p><br />
12</p>

<p>I live by the railroad tracks<br />
watching the trains go by.<br />
The shining windows fly<br />
in the swaying downy darkness.<br />
This is how in eternal night<br />
The lit-up days speed by<br />
and I stand in the light of each compartment,<br />
Leaning on my elbows, silent.</p>

<p><br />
(1933 - 1934 ~ Tradução do Húngaro: John Bátki)</p>

<p><br />
~</p>

<p><br />
Well, In the End I Have Found my Home...</p>

<p><br />
Well, in the end I have found my home,<br />
the land where flawless chiseled letters<br />
guard my name above the grave<br />
where I’m buried, if I have buriers.</p>

<p>It will take me like a collecting-box,<br />
this earth. For no one (sadly) wants<br />
wartime leftovers of base metal,<br />
wretched devalued iron coins.</p>

<p>Or an iron ring engraved<br />
with noble words: new world, rights, land.<br />
Our laws are still the fruit of war;<br />
gold rings shine finer on the hand.</p>

<p>For many years I was alone.<br />
Then all about me was a crowd.<br />
It’s up to you, they said, although<br />
I’d have loved to follow them round.</p>

<p>It was like that, empty, the way I lived:<br />
no one has to tell me it was.<br />
I was compelled to play the fool<br />
and now I die without a cause.</p>

<p>In that whole whirlwind of my life<br />
I have tried to stand my ground.<br />
More sinned against than sinning, I<br />
leave that thought and laugh aloud.</p>

<p>Spring is beautiful, summer too,<br />
autumn better, winter the best<br />
when you leave your hopes for family<br />
and hearth to other men at last.</p>

<p><br />
(1937 ~ Tradução do Húngaro: Edwin Morgan)</p>

<p>*</p>

<p><strong>Humanidade</strong> * Poemas de Rui Tinoco</p>

<p><br />
Bem sei que vivi as coisas por dentro<br />
com seriedade na alma e nos gestos,<br />
mas também com o amor e a ternura<br />
a descoberto.<br />
Agora choro.<br />
Oiço os versos e as partituras sofridas,<br />
de outras épocas, pois é certo<br />
que as coisas humanas reduzir-se-ão sempre<br />
a isto: o que é um homem?,<br />
que mistério vem a ser esse da mulher?,<br />
e como eles se combinam em paraíso<br />
ou inferno, quando não ocorrem os dois,<br />
alternadamente, misturando os sentidos<br />
e as decisões, lavando tudo: a ternura,<br />
depois as lágrimas,<br />
novamente a ternura,<br />
até se ter percorrido o tempo de uma vida.<br />
Mas falava da minha dor<br />
quando o mundo se me intrometeu no peito<br />
e agora o sofrimento também é vosso,<br />
pois já estão aqui, estes versos,<br />
com a vaga notícia do meu desfalecimento. </p>

<p>~</p>

<p>Inicialmente<br />
a procura é cega, os olhos estão vendados,<br />
a boca sequiosa<br />
sobre uns sentidos desordenados,<br />
céleres ao mesmo tempo.<br />
Procuramos, sem saber o quê,<br />
impulsionados pelo corpo que se ergue<br />
começando a desejar sem palavras<br />
apenas crescendo para o mundo,<br />
exigindo da terra uma metade<br />
que o complete.<br />
Inicialmente a procura é cega, dizia,<br />
e se por acaso tropeçamos num corpo,<br />
amamos nesse corpo<br />
o sonho utópico da infância,<br />
o que o nosso coração<br />
espera da própria vida.<br />
Ao despertarmos do idílio<br />
aprenderemos, amargamente, que é só<br />
o inalcançável que, na verdade, importa.</p>

<p>~</p>

<p>Se afirmo a minha humanidade<br />
que o mesmo será dizer água,<br />
pois o dedo que levanto com estas palavras<br />
não é mais do que isso<br />
e os pés em que me apoio<br />
a boca que pronuncia sentido<br />
e exclamações: como é belo o mundo!,<br />
não são mais do que água;<br />
mas se afirmo a minha humanidade, repito,<br />
aprumo o tronco, finco os pés à terra,<br />
cerro os punhos com coragem<br />
na perplexidade de ser um homem.</p>

<p><br />
(Ler ainda em Big Ode Sublime)</p>

<p><br />
<strong>*</strong></p>

<p><br />
<strong>Revistas de Poesia</strong> ~  DiVersos</p>

<p><br />
A revista DiVersos - Poesia e Tradução (Edições Sempre-Em-Pé), lançada em 1996 e com coordenação a cargo de Jorge Vilhena  Mesquita e José Carlos Marques, conta já com quinze números. Nas suas páginas podemos esperar poesia de autores portugueses e poesia traduzida - e para não nomear omitindo, acrescentamos que podemos encontrar juntas nas suas páginas a consagração e a (re)descoberta, a revelação e o reencontro.</p>

<p><br />
<strong>*</strong></p>

<p><br />
INEFÁVEL ~ Índices (2007-2009)</p>

<p><br />
Para facilitar a leitura e encaminhar gostos, aqui deixamos os índices dos primeiros números:</p>

<p><br />
# 1 (2007)</p>

<p><strong>Urgência</strong> Poemas de Philip Larkin escolhidos e traduzidos do Inglês por Pedro Silva Sena <br />
<strong>Sala de Espera</strong> Poemas de: José Maria de Aguiar Carreiro ~ Pedro Silva Sena<br />
<strong>Em Carne & Osso</strong> <em>Alto Teatro no Barroso</em>, de Alberto Augusto Miranda</p>

<p><br />
# 2</p>

<p><strong>Evocação</strong> : <em>Era um Redondo Vocábulo</em>, de José Afonso<br />
<strong>Revisitar</strong> : Arquimedes da Silva Santos  <br />
<strong>Sem-Rosto</strong> Poemas de Alves Bento Belisário  ~  Andréa Catrópa  ~  Pedro Russo Moreira  ~  Pedro Silva Sena  <br />
<strong>Electrónicos</strong> páginas pessoais, blogues e revistas de poesia</p>

<p><br />
# 3 (2008)</p>

<p><strong>Palavras</strong> Poema de Régis Bonvicino <br />
<strong>Ensaio Geral</strong> Poemas de Ricardo Ferreira de Almeida <br />
<strong>Não te Salves</strong> Poemas de Mario Benedetti apresentados e escolhidos por Patrícia Alves de Matos</p>

<p><br />
# 4</p>

<p><strong>Inéditos</strong> * Poemas inéditos de Alves Bento Belisário e de Rui Tinoco<br />
<strong>Tenho Raiva ao Silêncio</strong> * Poemas de Athaulpa Yupanqui apresentados e seleccionados por Patrícia Alves de Matos<br />
<strong>Amanhã</strong> * Poemas de Raffaele G. Fragola traduzidos do Italiano por Pedro Russo Moreira</p>

<p><br />
# 5 (2009)</p>

<p></strong><strong>Pelo Mar Espumante da Vida</strong> * Poemas de Jibanananda Das, traduzidos por Rita Ray<br />
<strong>Canção, intervenção política e memória em Cabo Verde</strong> ~ Duas 'letras' traduzidas, por Emanuel Sousa e Pedro Silva Sena<br />
</strong><strong>József Attila</strong> * Apresentação e selecção de poemas por Pedro Silva Sena<br />
<strong>Humanidade</strong> * Poemas de Rui Tinoco<br />
<strong>Revistas de Poesia</strong>: Di Versos</p>]]>
</content>
</entry>
<entry>
<title># 4</title>
<link rel="alternate" type="text/html" href="http://revistainefavel.weblog.com.pt/arquivo/2008/07/_4_1.html" />
<modified>2009-03-27T18:16:11Z</modified>
<issued>2008-07-02T19:47:49Z</issued>
<id>tag:revistainefavel.weblog.com.pt,2008://4264.419663</id>
<created>2008-07-02T19:47:49Z</created>
<summary type="text/plain">Julho | Dezembro 2008 Neste número: Inéditos * Poemas inéditos de Alves Bento Belisário e de Rui Tinoco Tenho Raiva ao Silêncio * Poemas de Athaulpa Yupanqui apresentados e seleccionados por Patrícia Alves de Matos Amanhã * Poemas de Raffaele...</summary>
<author>
<name>Pedro Silva Sena</name>

<email>pedrosilvasena@gmail.com</email>
</author>

<content type="text/html" mode="escaped" xml:lang="en" xml:base="http://revistainefavel.weblog.com.pt/">
<![CDATA[<p><strong>Julho | Dezembro 2008</strong></p>

<p>Neste número:</p>

<p><br />
<strong>Inéditos</strong> * Poemas inéditos de Alves Bento Belisário e de Rui Tinoco</p>

<p><strong>Tenho Raiva ao Silêncio</strong> * Poemas de Athaulpa Yupanqui apresentados e seleccionados por Patrícia Alves de Matos</p>

<p><strong>Amanhã</strong> * Poemas de Raffaele G. Fragola traduzidos do Italiano por Pedro Russo Moreira</p>

<p><br />
<strong>*</strong></p>

<p><br />
«Tua memória, pasto de poesia,<br />
tua poesia, pasto dos vulgares,<br />
vão se engastanto numa coisa fria<br />
a que tu chamas: vida, e seus pesares.</p>

<p>Mas, pesares de quê? perguntaria,<br />
se esse travo de angústia nos cantares,<br />
se o que dorme na base da elegia<br />
vai correndo e secando pelos ares,</p>

<p>e nada resta, mesmo, do que escreves<br />
e te forçou ao exílio das palavras,<br />
senão contentamento de escrever,</p>

<p>enquanto o tempo, e suas formas breves<br />
ou longas, que sutil interpretavas,<br />
se evapora no fundo do teu ser?»</p>

<p>(Remissão, <em>Claro Enigma</em>, Carlos Drummond de Andrade)</p>

<p><strong>*</strong></p>]]>
<![CDATA[<p><strong>Inéditos</strong></p>

<p><br />
<strong>Alves Bento Belisário</strong></p>

<p><br />
<em>Poemas inéditos - Maio 2006</em></p>

<p><br />
Doem-me os mil lares sonhados… </p>

<p>De todos eles tomo as feridas no regaço. </p>

<p>Plos poros da minha pele seus traços desenhados, </p>

<p>Minha casa é feita de sexo de campos e flores em incestuoso laço… </p>

<p>Feita de pérolas de sol e árvores grávidas de sémen de todas as cores; </p>

<p>De pétalas de água e fragas e vento com maio embriagado de azul devasso… </p>

<p>E de pólen de pássaros e bichos incendiados em orgias de mil odores… </p>

<p>Doem-me os mil lares sonhados… O sangue de todos é meu passo… </p>

<p></p>

<p><br />
~</p>

<p></p>

<p><br />
Tenho-me cobardemente esquecido… </p>

<p>Toda a afectividade começa e acaba </p>

<p>Nos muros da nossa própria pele; </p>

<p>A ponte que vai de mim até ao outro </p>

<p>Tem a medida desmedida do infinito. </p>

<p>O outro é tão só e sempre um outro não eu… </p>

<p>Circuncisão e pretérito mais que imperfeito… </p>

<p>Se vivo vivo todo e sempre cada dia </p>

<p>Que passa à sombra de janela fechada </p>

<p>Agrilhoado ao sangue que carrego dentro </p>

<p>Das minhas próprias e solitárias veias. </p>

<p>Antinomia… corda de ligação… máscara de toque de mão… </p>

<p>Embarque num sol de asa em cadente balancé </p>

<p>Entre esta inexorável condição de só </p>

<p>E estes ossos encharcados de solidão própria. </p>

<p>Cobardemente me tenho esquecido…</p>

<p></p>

<p><br />
<strong>Rui Tinoco</strong><br />
                    </p>

<p><em>Poemas inéditos - 1992 / 1996</em></p>

<p></p>

<p></p>

<p>                A terra fria <br />
                parece reflectir <br />
                o negrume. <br />
                Vejo outra vez <br />
                as sementes <br />
                todas mortas. <br />
                Os seus segredos <br />
                foram derramados <br />
                no vazio. <br />
                Sinto <br />
                A tristeza muda <br />
                desta noite <br />
                e o meu coração <br />
                inclina-se <br />
                para um lado.</p>

<p><br />
~</p>

<p><br />
                Volto para cantar nos mesmos lugares <br />
                numa obsessão inadiável e urgente <br />
                que faz repetir-me <br />
                e ver-me de muitos lugares até à exaustão. <br />
                Em mim, as minhas histórias <br />
                estão sempre a mover-se. <br />
                Às vezes parece que é o seu devir, <br />
                a sua necessidade de sangue, <br />
                que me obriga a certas palavras e gestos <br />
                e àquelas noites compridas, mas velozes, <br />
                injectadas de dor e de amor <br />
                gravadas para sempre na memória <br />
                e depois na minha caneta. <br />
                Inspiro vida, aquela velha capacidade de arder <br />
                nos ossos até ao fundo, <br />
                de abraçar com igual entrega o amor <br />
                a dor e o ódio, <br />
                pois uma pessoa que já confundiu o seu corpo no meu, <br />
                nunca, jamais, conseguirá ser-me indiferente.</p>

<p><br />
~</p>

<p><br />
                Uma lâmina de fogo <br />
                para cortar o Amor <br />
                em duas partes. <br />
                O que sobra dessa divisão? <br />
                As minhas mãos <br />
                infinitamente sós e vazias <br />
                e a boca que morde <br />
                os seus próprios sonhos, <br />
                espalhando sangue <br />
                - sangue vermelho – <br />
                sobre as partes do corpo <br />
                com que vos faço sinais: <br />
                Bom Dia <br />
                Boa Noite <br />
                Até À Vista. <br />
                As palavras vazias <br />
                com que cruzamos <br />
                os dias.</p>

<p><br />
~</p>

<p><br />
                Afias <br />
                o meu sentido <br />
                de seta. <br />
                É nessa agulha <br />
                que me redescubro <br />
                homem. <br />
                Abraço-te <br />
                com os meus rios <br />
                de ternura <br />
                e o teu corpo <br />
                diz-me <br />
                para onde ir. <br />
                Que sintas <br />
                o correspondente <br />
                mistério feminino. <br />
                À tua alma <br />
                mulher <br />
                que me afoga. </p>

<p></p>

<p><br />
<strong>Tenho Raiva ao Silêncio</strong> ~ Poemas de Athaulpa Yupanqui ~ Apresentação e selecção de Patrícia Alves de Matos</p>

<p><br />
Atahualpa Yupanqui, pseudónimo de Héctor Roberto Chavero, nasce em Pergamino, Buenos Aires a 31 de Janeiro de 1908 e morre em Maio de 1992. Digo morre porque me parece que Yupanqui fosse um homem que não gostaria que dissessem a ‘data em que ele faleceu’, esse modo ritualizado e burguês de dar nome à morte. Foi compositor, cantor, violonista e escritor argentino. Filho de pai quéchua e mãe basca, mudou-se ainda criança com a família para Agustín Roca, em cuja ferrovia seu pai trabalhava. Na adolescência, começa a tomar aulas de violão com o concertista Bautista Almirón, viajando diariamente os 15 quilómetros que o separavam da casa do mestre. É dessa época o pseudónimo Atahualpa Yupanqui, em homenagem a Atahualpa e Tupac Yupanqui, os últimos governantes incas.<br />
Vale a pena ver a longa entrevista dada por Yupanqui para a Radiotelevisão Espanhola em 1977, cujo link aqui deixo: <br />
http://video.google.com/videoplay?docid=-1285573610793356399&hl=en<br />
É difícil escrever-se qualquer coisa sobre esta entrevista, o melhor é vê-la e ouvi-la com atenção, porque é difícil encontrar palavras com tanta verdade lá dentro como as que Yupanqui nos entrega.</p>

<p></p>

<p><br />
<em>Los Hermanos</em></p>

<p>Yo tengo tantos hermanos<br />
que nos los puedo contar;<br />
en el valle, en la montaña,<br />
en la pampa y en el mar.</p>

<p>Cada cual con sus trabajos,<br />
con sus sueños cada cual,<br />
con la esperanza delante,<br />
con los recuerdos detrás.</p>

<p>Yo tengo tantos hermanos<br />
que no los puedo contar.</p>

<p>Gente de mano caliente<br />
por eso de la amistad;<br />
con un lloro pa'llorarlo,<br />
con un rezo, pa' rezar.</p>

<p>Con un horizonte abierto<br />
que siempre esta mas allá<br />
y esa fuerza pa' buscarlo<br />
con tesón y voluntad.</p>

<p>Cuando parece mas cerca<br />
es cuando se aleja mas,<br />
yo tengo tantos hermanos<br />
que no los puedo contar.</p>

<p>Y así seguimos andando<br />
curtidos de soledad;<br />
nos perdemos por el mundo<br />
nos volvemos a encontrar</p>

<p>Y así nos reconocemos,<br />
por el lejano mirar;<br />
por las coplas que mordemos<br />
semillas de inmensidad</p>

<p>Y así seguimos andando<br />
curtidos de soledad;<br />
y en nosotros nuestros muertos<br />
pa' que nadie quede atrás</p>

<p>Yo tengo hermanos<br />
que no los puedo contar,<br />
y una hermana muy hermosa<br />
que se llama Libertad.</p>

<p><br />
<em>El Poeta</em></p>

<p>Tu piensas que eres distinto <br />
Porque te dicen poeta, <br />
Y tienes un mundo aparte <br />
Mas allá de las estrellas. </p>

<p>De tanto mirar la luna <br />
Ya nada sabes mirar. <br />
Eres como un pobre ciego <br />
Que no sabe adónde va. </p>

<p>Vete á mirar los mineros,<br />
Los hombres en el trigal, <br />
Y cántale a los que luchan<br />
Por un pedazo de pan.</p>

<p>Poeta de tierras rimas,<br />
Vete á vivir a la selva,<br />
Y aprenderás muchas cosas<br />
Del hachero y sus miserias.</p>

<p>Vive junto con el pueblo,<br />
No lo mires desde afuera,<br />
Que lo primero es ser hombre,<br />
Y lo segundo, poeta.<br />
De tanto mirar la luna...</p>

<p><br />
<em>Le Tengo Raiva al Silencio</em></p>

<p>Le tengo rabia al silencio<br />
por todo lo que perdí.<br />
Que no se quede callado<br />
Quien quiera vivir feliz.</p>

<p>Un día monté a caballo,<br />
Y en la selva me metí,<br />
Y sentí que un gran silencio<br />
Crecía dentro de mí.</p>

<p>Hay silencio en mi guitarra<br />
Cuando canto el yaraví,<br />
Y lo mejor de mi canto<br />
Se queda dentro de mí.</p>

<p>Cuando el amor me hizo señas,<br />
Todo entero me encendí.<br />
Y á fuerza de ser callado,<br />
Callado me consumí.</p>

<p>Le tengo rabia al silencio<br />
Por todo lo que perdí,<br />
Que no se quede callado<br />
Quien quiera vivir feliz.</p>

<p><br />
<em>Trabajo, Quiero Trabajo</em></p>

<p>Cruzando los salitrales<br />
uno se muere de sed.<br />
Aquello es puro desierto<br />
Y allí no hay nada que hacer.<br />
Trabajo, quiero trabajo<br />
Porque esto no puede ser<br />
Un día veré al desierto<br />
Convertido en un vergel.</p>

<p>El río es puro paisaje,<br />
Lejos sus aguas se van,<br />
Pero mis campos se queman<br />
Sin acequias ni canal.<br />
Trabajo, quiero trabajo,<br />
Porque esto no puede ser,<br />
Un día veré a mi campo<br />
Convertido en un vergel.</p>

<p>Las entrañas de la tierra<br />
Va el minero á revolver.<br />
Saca tesoros ajenos<br />
Y muere de hambre después.</p>

<p>Trabajo, quiero trabajo<br />
Porque esto no puede ser.<br />
No quiero que nadie pase<br />
Las penas que yo pasé.</p>

<p>Despacito, paisanito,<br />
Despacito y tenga fe,<br />
Que en la noche del minero<br />
Ya comienza á amanecer.</p>

<p>Trabajo, quiero trabajo,<br />
Porque esto no puede ser.</p>

<p><br />
<em>Preguntas sobre Dios</em></p>

<p>Un día yo pregunté:<br />
Abuelo, dónde está Dios.<br />
Mi abuelo se puso triste,<br />
y nada me respondió.</p>

<p>Mi abuelo murió en los campos,<br />
sin rezo ni confesión.<br />
Y lo enterraron los indios,<br />
flauta de caña y tambor.</p>

<p>Al tiempo yo pregunté:<br />
¿Padre, qué sabes de Dios?<br />
Mi padre se puso sério<br />
y nada me respondió.<br />
Mi padre murió en la mina<br />
sin doctor ni protección.<br />
¡Color de sangre minera<br />
tiene el oro del patrón!</p>

<p>Mi hermano vive en los montes<br />
y no conoce una flor.<br />
Sudor, malaria, serpientes,<br />
la vida del leñador.</p>

<p>Y que nadie le pregunte<br />
si sabe donde está Dios.<br />
Por su casa no ha pasado<br />
tan importante señor.</p>

<p>Yo canto par los caminos,<br />
y cuando estoy en prisión<br />
oigo las voces del pueblo<br />
que canto mejor que yo.</p>

<p>Hay un asunto en la tierra<br />
más importante que Dios.</p>

<p>Y es que nadie escupa sangre<br />
pa que otro viva mejor.</p>

<p>¿Que Dios vela por los pobres?<br />
Talvez sí, y talvez no.<br />
Pero es seguro que almuerza<br />
en la mesa del patrón.</p>

<p></p>

<p></p>

<p><br />
<strong>Amanhã</strong> ~ Poemas de Raffaele G. Fragola traduzidos do Italiano por Pedro Russo Moreira</p>

<p><br />
Raffaele G. Fragola  nasceu em Stronogoli, na província de Crotone em Itália.<br />
Licenciou-se em Línguas e Literatura estrangeira pela Universidade de Pisa, tendo colaborado com diversas casas editoras. Nos anos 70 e 80 colaborou com a revista PRAXIS  de Mario Mineo.<br />
Em 1983 fundou com Ugo Leonzio a companhia Doppio Teatro, activa até 1991.<br />
Em 2002 publicou  "Non più di un giorno", livro de onde apresentamos e traduzimos os seguintes poemas:</p>

<p><br />
<em>Amanhã</em> </p>

<p>Espero o dia que vem<br />
como uma promessa<br />
Eu próprio me prometo<br />
Voluntário infiel<br />
ao dia que vem.</p>

<p>A noite estrídula resiste<br />
orgulhosa e é testemunha</p>

<p>Virá pontual e prender-me-á<br />
ao seu laço o amanhã fátuo</p>

<p><br />
~</p>

<p><br />
<em>Domani</em></p>

<p>Aspetto il giorno che viene<br />
come una promessa<br />
Io stesso mi prometto<br />
volontario infedele<br />
al giorno che viene.<br />
La stridula notte resiste<br />
orgogliosa e ne è testimone.</p>

<p>Verrà puntuale e mi prenderà<br />
al suo laccio il fatuo domani.</p>

<p><br />
~</p>

<p><br />
<em>A Vida</em></p>

<p>Li e ouvi<br />
chorei e ri<br />
dividi com a violência o bafo<br />
e o rasto nos olhos até aqui </p>

<p>Odiei <br />
amei<br />
a muitos menti. Sai, sai<br />
peso e  pena<br />
aprendi<br />
a moderação e o fim</p>

<p>Não é assim a vida?</p>

<p><br />
~</p>

<p><br />
<em>La Vitta</em></p>

<p>Ho letto e ascoltato<br />
Ho pianto e riso<br />
L'alito ho condiviso alla Violenza<br />
e negli occhi fino a qui<br />
la scia.</p>

<p>Ho odiato <br />
Ho amato<br />
Ai più ho mentito. Via via<br />
il peso e la pena<br />
ho imparato<br />
la misura e la fine.</p>

<p>Non è questa la vita?</p>

<p><br />
~</p>

<p><br />
<em>New Gitans em Lisboa/ Balada 2000</em></p>

<p></p>

<p>As guitarras estavam duas a duas, <br />
altas e bem feitas a pele escura<br />
dura desta maneira dentro do ar<br />
em flores de azulado de sol.<br />
Carregavam uma velha vida a tiracolo<br />
com um traço que se via de longe,<br />
via-se<br />
enquanto emparelhadas de modo soberbo<br />
atravessavam a rua imaculada e clara<br />
As guitarras estavam duas a duas....</p>

<p><br />
Na direcção da grande praça e outra coisa<br />
não é senão mar. os dedos iguais<br />
notas rasgando em sincronia as cordas<br />
de amor divido diziam talvez estivesse<br />
doente ou talvez não fosse mais<br />
que nostalgia de velhos icones<br />
medidos e revelados no passo<br />
airoso dos lusitanos!<br />
As guitarras estavam duas a duas....</p>

<p><br />
Ó Lisboa do sol! cantavam, <br />
Lisboa dos mares, Lisboa de um só<br />
Fado, não suscitando promessas<br />
com o engano das estrelas até que<br />
a alma se adoenta, mas levanta-se<br />
uma só vela e que seja aquela<br />
a tua bandeira- ou assim soava,<br />
se bem que mais não eram que raparigas <br />
à sua volta . Mas via-se<br />
que cada uma estava pronta a tornar-se vela<br />
e estrela, e que os olhos de todos os enquadramentos<br />
faziam do azul sobre o branco<br />
onde os dois andavam como novos guerreiros<br />
um dia de verão perto do meio-dia.<br />
As guitarras estavam duas a duas....</p>

<p>Estava um verão de luzes de sons<br />
que à noite corriam pelas colinas<br />
tanto de  Alcântara como de Alfama, com os<br />
pratos e grelhas de mil<br />
Sardinhas. Onde era a festa<br />
de maus cheiros de fraqueza do Fado,<br />
chamariz de cães<br />
de gatos com calor<br />
de arrotos e escarros dos velhos<br />
a noite, cabeleiras de insónias sobre os panos<br />
nos parapeitos; de jovens amores<br />
de passo ligeiro, de cumes  alunados<br />
na planta plana do Tejo.<br />
Estavam duas... e carregavam uma velha vida<br />
a tiracolo...</p>

<p>Tudo mantinha Lisboa fiel, cada coisa<br />
abraçando o seu canto de luz<br />
sob os tectos abrigados da fervorosa<br />
Augusta alegre meretriz de todos.</p>

<p>As guitarras estavam duas a duas...</p>

<p><br />
~</p>

<p><br />
<em>New Gitans em Lisboa/ Balada 2000</em></p>

<p><br />
Erano in due e due le chitarre,<br />
alti e ben fatti la pelle scura<br />
dura di fatta dentro l'aria<br />
in fiore d'azzurrino di sole.<br />
Vecchia vita portavano a tracolla<br />
ad un tratto venendo di lontano,<br />
si vedeva<br />
mentre appaiati superbamente<br />
la via solcavano maculata e chiara.<br />
Erano in due e due le chitarre...</p>

<p>Verso la grande Praça e oltre non è<br />
che mare. Le dita eguali<br />
note strappando in sincrono alle corde<br />
d'amor diviso dicevano forse<br />
malato o magari non era<br />
che nostalgia di vecchie icone<br />
misurate e svelte al passo<br />
arioso dei lusitani!<br />
Erano in due e due le chitarre...</p>

<p>Oh Lisbona del sole! cantavano,<br />
Lisbona dei mari, Lisbona d'un solo<br />
Fato, non accendere promesse<br />
con l'inganno delle stelle finchè<br />
l'anima ci ammali, ma alza<br />
una vela sola e quella sia<br />
la tua bandiera- o così suonava,<br />
benchè non ci fossero che ragazze<br />
attorno a loro. Ma si vedeva<br />
che ciascuna era pronta a farsi vela<br />
e stella, che gli occhi di tutte frames<br />
facevano dell'azurro sul bianco<br />
ove in due andavano come nuovi guerrieri<br />
un giorno d'estate dentro al midday.<br />
Erano in due e due le chitarre...</p>

<p>Era un'estate di luce di suoni<br />
che la notte correvano i colli<br />
d'Alcàntara come di  Alfama, coi<br />
piatti e le griglie dalle mille <br />
sardine. Dov'era festa<br />
di cattivi odori di languori di fado<br />
richiamo di cani<br />
di gatti in calore<br />
di rutti e scaracchi di vecchie<br />
la sera, insonni parrucche sui panni<br />
dei davanzali; di giovani amori<br />
dal passo leggero, di cime allunate <br />
nella pianta piatta del Tago<br />
Erano in due... e vecchia vita<br />
portavano a tracolla...</p>

<p>Tutto teneva Lisbona fedele, ogni cosa<br />
abbracciando il suo canto di luce<br />
sui tetti a ridosso della fervida<br />
Augusta allegra puttana di tutti.</p>

<p>Erano in due e due le chitarre...</p>]]>
</content>
</entry>
<entry>
<title># 3</title>
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<modified>2009-03-27T18:22:26Z</modified>
<issued>2008-01-04T20:19:34Z</issued>
<id>tag:revistainefavel.weblog.com.pt,2008://4264.409062</id>
<created>2008-01-04T20:19:34Z</created>
<summary type="text/plain">Janeiro | Junho 2008 Neste número: Palavras Poema de Régis Bonvicino * Ensaio Geral Poemas de Ricardo Ferreira de Almeida * Não te Salves Poemas de Mario Benedetti apresentados e escolhidos por Patrícia Alves de Matos....</summary>
<author>
<name>Pedro Silva Sena</name>

<email>pedrosilvasena@gmail.com</email>
</author>

<content type="text/html" mode="escaped" xml:lang="en" xml:base="http://revistainefavel.weblog.com.pt/">
<![CDATA[<p>Janeiro | Junho 2008</p>

<p><br />
Neste número: <strong>Palavras</strong> Poema de Régis Bonvicino * <strong>Ensaio Geral</strong> Poemas de Ricardo Ferreira de Almeida * <strong>Não te Salves</strong> Poemas de Mario Benedetti apresentados e escolhidos por Patrícia Alves de Matos.</p>]]>
<![CDATA[<p>                                *</p>

<p>      «Deixa as palavras caírem sobre o chão<br />
      vazias<br />
      Talvez uma forma silenciosa<br />
      se liberte<br />
      Talvez um gesto em chamas<br />
      se levante»</p>

<p><em>As Palavras no Centro Vazio</em></p>

<p>António Ramos Rosa</p>

<p>                                 *</p>

<p><strong>Palavras</strong> * <em>Poema de</em> <em>Régis Bonvicino</em></p>

<p>(Ler mais deste autor em: http://regisbonvicino.com.br; conferir ainda a revista electrónica <em>SIBILA</em>, http://sibila.com.br)</p>

<p><br />
<em>Palavras</em></p>

<p><br />
Enforcaram um gravatá<br />
injetaram inseticida<br />
numa sanã-cinza<br />
trucidaram onças pintadas<br />
 <br />
e principalmente suas fábulas<br />
queimaram verbascos <br />
pelo temor da proliferação de suas palavras <br />
extirparam as cordas vocais de um tatac</p>

<p>sugaram todos os sangues-de-dragão: verniz <br />
para as mesas de business<br />
mataram ingás por vingança <br />
explodiram uma borboleta em pleno vôo</p>

<p>asfixiaram náidades no Yangtze<br />
vararam de balas, <br />
fuzis disfarçados de átropas, <br />
um pseudoescorpião,<br />
 <br />
um chupa-dente-de-máscara, <br />
as flores da contra-erva <br />
e um rabo-de-palha <br />
roubaram o copirraite<br />
 <br />
de uma formiga, agora extinta: <br />
patentearam seu spixii <br />
para um game do second life  <br />
agora metralhe todo o conteúdo off-line</p>

<p><br />
<strong>Ensaio Geral</strong> * <em>Poemas de Ricardo Ferreira de Almeida</em></p>

<p><strong>LUZES OU SEIOS?</strong></p>

<p>Se isso são seios ou luzes verdes cheias de tempo que os gatos acarinham em paralelismo aos novelos abertos nas calçadas tenras de juízo<br />
se isso são os teus seios não o posso dizer não os distingo<br />
não tenho pena para o fazer nem o cansaço que me agitar a velha pistola de versos rudes<br />
me ajuda. Eu vi-os nus na penumbra<br />
enquanto as cigarras carpiam o verão de Santo António e o vento <br />
soprava acenos no espelho dos teus olhos, nas ruas inquietas do teu corpo. <br />
Vi-os nus, foda-se, evanescentes oblíquos <br />
e estou dividido neste inferno da memória <br />
usando os sonhos para me acalmar <br />
vasculhando nos corredores do meu corpo o cheiro anis o almiscarado dos teus cabelos <br />
e o silencioso sabor do teu sexo. <br />
Se um dia voltares e não tiveres mais as gemas mas a carne desabrochada <br />
e eternamente celeste <br />
deixa que os toque<br />
mostra-me a lucidez e o talco suave que enrolo nos lábios e por segundos sinto.</p>

<p><strong>ENSAIO GERAL</strong></p>

<p>Ensaio uma mão no teu decote<br />
barco de silvas e omissões<br />
coalho castrado na delicia gastronómica de te comer toda nua. <br />
E lambo-te as mamas sem as tocar <br />
apenas te mostro a vontade obscena no palpitar das pálpebras e no entendimento coeso das vazias aparas do meu sexo. E também te quero desta forma dizer <br />
que te lambia entre as pernas os joelhos e os tornozelos as palmas das mãos e dos pés minha heroína de papel crepe cor de lírio. <br />
Deliro com o teu decote obscenamente devotado aos meus sentidos proibidos. </p>

<p><strong>QUE BOM SENHOR O’NEILL</strong></p>

<p>Que bom senhor O’Neill <br />
ter-se atravessado no meu caminho<br />
não sabia que era um gato nem tão pouco me avisaram para<br />
o cumprimentar com as sobrancelhas. Bicicletas encavalitadas no nariz? Que me diz à instantânea loucura de armadilhar paraísos para<br />
estimar resistir ou resistir por estimação? Eu bem sabia, já mo tinham dito: a sua<br />
clavícula não lhe permite olhar de lado, mas eu insisti.<br />
Olhe lá senhor O’Neill, quem vai adivinhar uma coisa dessas<br />
tratando-se de alguém como eu que nunca confidenciou nada a ninguém? <br />
Eu insisto senhor O’Neill<br />
em ser outro gato sem disfarces.</p>

<p><strong>REALISMO OU TRAGÉDIA?</strong></p>

<p>Agora que já partiste os dentes de tantas dentadas na observação das tartarugas<br />
te esqueceste dessa sempre simpática visita de mão dada pelo parque verde da tua cidade <br />
deste leite ao gato e deleitaste o marido <br />
só te resta mesmo digo-to do fundo do meu coração virgem <br />
dares-me um beijo com essa boca colorida e vacilante <br />
até que os passos e a psicologia das personagens nos arrumem a um canto imitando o gorjeio dos passarinhos<br />
estético e complacente, com os polegares cheios de Primavera. <br />
Pois bem cara amiga,<br />
agora que estamos sozinhos <br />
só nos resta dar bom uso ao dente e ao certo não sei onde o acaso nos poderá levar <br />
eu um trintão de joelhos falsos e tu uma trintona de outros tantos percalços. <br />
Estes nossos acenos ao mundo são plataformas nuas decorativas arquitecturais <br />
e o vazio que nos assalta as unhas é a carne do javali e da corça a juntarem-se para outra merenda que as cartas já explicaram. Então, que dizes? Vamos ser realistas ou insistir na tragédia?</p>

<p><strong>POEMA AVULSO PARA DAR AO PULSO</strong></p>

<p>Fazes-me sede e sedento estou<br />
mascarando os pulmões de arrobas desertas de manhãs que se encontram no teu nariz <br />
no teu sexo no teu iluminado pente, a poente de mim.<br />
Todas as manhãs, quando posso, ponho de fora o melro e desato a macerá-lo. <br />
Primeiro com a ponta dos dedos depois com a mão toda, enchendo-me das tuas memórias que afloram como aguardente bafejada ao ar em noite de geada.<br />
Ainda que recorde os taninos frutados do teu ventre, derramando-se em gemidos foscos nas línguas que acendia para te iluminar te descobrir nesse ponto da alma onde agora só chega o desmame da mão<br />
quando mais que aflita derrubavas as fronteiras e corrias em cima de ti mesma<br />
a pele estalada e a faca dos dentes nos dentes a picarem<br />
os olhos os calos<br />
nada fica em pé, literalmente. <br />
E a tua cara vai-se fundindo nas sombras da madrugada e chega com o frio das vozes a ordenar a manobra do carro do lixo, o latido do cão acordado em sobressalto e as cafeteiras a queimarem café vigorosamente. Nada fica de ti, nada resta do teu rosto.</p>

<p><br />
<strong>Não te Salves</strong> * <em>Poemas escolhidos de Mario Benedetti</em> ~ Apresentação e selecção de Patrícia Alves de Matos</p>

<p>Mario Benedetti nasce a 14 de Setembro de 1920 em Paso de los Toros, Uruguai. Considerado como um dos grandes poetas da América Latina, a tradução e divulgação da sua obra em português é escassa, apesar de profícua nos mais diversos géneros, passando pela poesia, romance, novela e a crónica. Os dados biográficos sobre Benedetti abundam, qualquer pesquisa na Internet com o seu nome dará com certeza mais de 500,000 resultados de onde se podem extrair informações várias. O resto, esse <em>resto</em> que está de si nos poemas, fica para ser lido e relido na modesta selecção que aqui se apresenta.</p>

<p>(Ler mais deste autor em: www.germinaliteratura.com.br e ou http://www.cervantesvirtual.com/bib_autor/mbenedetti/) </p>

<p><strong>Si Dios fuera una mujer</strong></p>

<p>¿y si Dios fuera una mujer?<br />
Juan Gelman</p>

<p>¿Y si Dios fuera mujer?<br />
pregunta Juan sin inmutarse,<br />
vaya, vaya si Dios fuera mujer<br />
es posible que agnósticos y ateos<br />
no dijéramos no con la cabeza<br />
y dijéramos sí con las entrañas.</p>

<p>Tal vez nos acercáramos a su divina desnudez<br />
para besar sus pies no de bronce,<br />
su pubis no de piedra,<br />
sus pechos no de mármol,<br />
sus labios no de yeso.</p>

<p>Si Dios fuera mujer la abrazaríamos<br />
para arrancarla de su lontananza<br />
y no habría que jurar<br />
hasta que la muerte nos separe<br />
ya que sería inmortal por antonomasia<br />
y en vez de transmitirnos SIDA o pánico<br />
nos contagiaría su inmortalidad.</p>

<p>Si Dios fuera mujer no se instalaría<br />
lejana en el reino de los cielos,<br />
sino que nos aguardaría en el zaguán del infierno,<br />
con sus brazos no cerrados,<br />
su rosa no de plástico<br />
y su amor no de ángeles.</p>

<p>Ay Dios mío, Dios mío<br />
si hasta siempre y desde siempre<br />
fueras una mujer<br />
qué lindo escándalo sería,<br />
qué venturosa, espléndida, imposible,<br />
prodigiosa blasfemia.</p>

<p><br />
<strong>Táctica y estratégia</strong></p>

<p>Mi táctica es<br />
mirarte<br />
aprender como sos<br />
quererte como sos.</p>

<p>Mi táctica es<br />
hablarte<br />
y escucharte<br />
construir con palabras<br />
un puente indestructible.</p>

<p>Mi táctica es<br />
quedarme en tu recuerdo<br />
no sé cómo ni sé<br />
con qué pretexto<br />
pero quedarme en vos.</p>

<p>Mi táctica es<br />
ser franco<br />
y saber que sos franca<br />
y que no nos vendamos<br />
simulacros<br />
para que entre los dos</p>

<p>no haya telón<br />
ni abismos.</p>

<p>Mi estrategia es<br />
en cambio<br />
más profunda y más<br />
simple.</p>

<p>Mi estrategia es<br />
que un día cualquiera<br />
no sé cómo ni sé<br />
con qué pretexto<br />
por fin me necesites.</p>

<p><br />
<strong>No te salves</strong></p>

<p>No te quedes inmóvil<br />
al borde del camino<br />
no congeles el júbilo<br />
no quieras con desgana<br />
no te salves ahora<br />
ni nunca<br />
no te salves<br />
no te llenes de calma<br />
no reserves del mundo<br />
sólo un rincón tranquilo<br />
no dejes caer los párpados<br />
pesados como juicios<br />
no te quedes sin labios<br />
no te duermas sin sueño<br />
no te pienses sin sangre<br />
no te juzgues sin tiempo.<br />
Pero si<br />
pese a todo<br />
no puedes evitarlo<br />
y congelas el júbilo<br />
y quieres con desgana<br />
y te salvas ahora<br />
y te llenas de calma<br />
y reservas del mundo<br />
sólo un rincón tranquilo<br />
y dejas caer los párpados<br />
pesados como juicios<br />
y te secas sin lábios<br />
y te duermes sin sueño<br />
y te piensas sin sangre<br />
y te juzgas sin tiempo<br />
y te quedas inmóvil<br />
al borde del camino<br />
y te salvas<br />
entonces</p>

<p>no te quedes conmigo.</p>

<p><br />
<strong>Asunción de tí</strong></p>

<p>1</p>

<p>Quién hubiera creído que se hallaba<br />
sola en el aire, oculta,<br />
tu mirada.<br />
Quién hubiera creído esa terrible<br />
ocasión de nacer puesta al alcance<br />
de mi suerte y mis ojos,<br />
y que tú y yo iríamos, despojados<br />
de todo bien, de todo mal, de todo,<br />
a aherrojarnos en el mismo silencio,<br />
a inclinarnos sobre la misma fuente<br />
para vernos y vernos<br />
mutuamente espiados en el fondo,<br />
temblando desde el agua,<br />
descubriendo, pretendiendo alcanzar<br />
quién eras tú detrás de esa cortina,<br />
quién era yo detrás de mí.<br />
Y todavía no hemos visto nada.<br />
Espero que alguien venga, inexorable,<br />
siempre temo y espero,<br />
y acabe por nombrarnos en un signo,<br />
por situarnos en alguna estación<br />
por dejarnos allí, como dos gritos<br />
de asombro.<br />
Pero nunca será. Tú no eres ésa,<br />
yo no soy ése, ésos, los que fuimos<br />
antes de ser nosotros.<br />
Eras sí pero ahora<br />
suenas un poco a mí.<br />
Era sí pero ahora<br />
vengo un poco a ti.<br />
No demasiado, solamente un toque,<br />
acaso un leve rasgo familiar,<br />
pero que fuerce a todos a abarcarnos<br />
a ti y a mí cuando nos piensen solos.</p>

<p>2</p>

<p>Hemos llegado al crepúsculo neutro<br />
donde el día y la noche se funden y se igualan.<br />
Nadie podrá olvidar este descanso.<br />
Pasa sobre mis párpados el cielo fácil<br />
a dejarme los ojos vacíos de ciudad.<br />
No pienses ahora en el tiempo de agujas,<br />
en el tiempo de pobres desesperaciones.<br />
Ahora sólo existe el anhelo desnudo,<br />
el sol que se desprende de sus nubes de llanto,<br />
tu rostro que se interna noche adentro<br />
hasta sólo ser voz y rumor de sonrisa.</p>

<p>3</p>

<p>Puedes querer el alba<br />
cuando ames.<br />
Puedes<br />
venir a reclamarte como eras.<br />
He conservado intacto tu paisaje.<br />
Lo dejaré en tus manos<br />
cuando éstas lleguen, como siempre,<br />
anunciándote.<br />
Puedes<br />
venir a reclamarte como eras.<br />
Aunque ya no seas tú.<br />
Aunque mi voz te espere<br />
sola en su azar<br />
quemando<br />
y tu dueño sea eso y mucho más.<br />
Puedes amar el alba<br />
cuando quieras.<br />
Mi soledad ha aprendido a ostentarte.<br />
Esta noche, otra noche<br />
tú estarás<br />
y volverá a gemir el tiempo giratório<br />
y los labios dirán<br />
esta paz ahora esta paz ahora.<br />
Ahora puedes venir a reclamarte,<br />
penetrar en tus sábanas de alegre angustia,<br />
reconocer tu tibio corazón sin excusas,<br />
los cuadros persuadidos,<br />
saberte aquí.<br />
Habrá para vivir cualquier huida<br />
y el momento de la espuma y el sol<br />
que aquí permanecieron.<br />
Habrá para aprender otra piedad<br />
y el momento del sueño y el amor<br />
que aquí permanecieron.<br />
Esta noche, otra noche<br />
tú estarás,<br />
tibia estarás al alcance de mis ojos,<br />
lejos ya de la ausencia que no nos pertenece.<br />
He conservado intacto tu paisaje<br />
pero no sé hasta dónde está intacto sin ti,<br />
sin que tú le prometas horizontes de niebla,<br />
sin que tú le reclames su ventana de arena.<br />
Puedes querer el alba cuando ames.<br />
Debes venir a reclamarte como eras.<br />
Aunque ya no seas tú,<br />
aunque contigo traigas<br />
dolor y otros milagros.<br />
Aunque seas otro rostro<br />
de tu cielo hacia mí.</p>

<p><br />
<strong>A la muerte de un canalla</strong></p>

<p>Los canallas viven mucho, pero algún día se mueren<br />
A Ronald Reagan</p>

<p>OBITUARIO CON HURRAS</p>

<p>Vamos a festejarlo<br />
vengan todos<br />
los inocentes<br />
los damnificadoslos que gritan de noche<br />
los que sueñan de dia<br />
los que sufren el cuerpo<br />
los que alojan fantasmas<br />
los que pisan descalzos<br />
los que blasfeman y arden<br />
los pobres congelados<br />
los que quieren a alguien<br />
los que nunca se olvidan<br />
vamos a festejarlo<br />
vengan todos<br />
el crápula se ha muerto<br />
se acabó el alma negra<br />
el ládron<br />
el cochino<br />
se acabó para siempre<br />
hurra<br />
que vengan todos<br />
vamos a festejarlo<br />
a no decir<br />
la muerte<br />
siempre lo borra todo<br />
todo lo purifica<br />
cualquier día<br />
la muerte<br />
no borra nada<br />
quedan<br />
siempre las cicatrices<br />
hurra<br />
murió el cretino<br />
vamos a festejarlo<br />
a no llorar de vicio<br />
que lloren sus iguales<br />
y se traguen sus lágrimas<br />
se acabó el monstruo prócer<br />
se acabó para siempre<br />
vamos a festejarlo<br />
a no ponermos tibios<br />
a no creer que éste<br />
es un muerto cualquiera<br />
vamos a festerjarlo<br />
a no volvermos flojos<br />
a no olvidar que éste<br />
es un muerto de mierda.</p>]]>
</content>
</entry>
<entry>
<title># 2</title>
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<issued>2007-07-03T22:20:03Z</issued>
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<summary type="text/plain">Julho | Dezembro 2007 Neste número: Evocação : Era um Redondo Vocábulo, de José Afonso * Revisitar : Arquimedes da Silva Santos * Sem-Rosto Poemas de Alves Bento Belisário ~ Andréa Catrópa ~ Pedro Russo Moreira ~ Pedro Silva Sena...</summary>
<author>
<name>Pedro Silva Sena</name>

<email>pedrosilvasena@gmail.com</email>
</author>

<content type="text/html" mode="escaped" xml:lang="en" xml:base="http://revistainefavel.weblog.com.pt/">
<![CDATA[<p>Julho | Dezembro  2007</p>

<p><br />
Neste número: <strong>Evocação</strong> : <em>Era um Redondo Vocábulo</em>, de José Afonso  *  <strong>Revisitar</strong> : Arquimedes da Silva Santos  *  <strong>Sem-Rosto</strong> Poemas de Alves Bento Belisário  ~  Andréa Catrópa  ~  Pedro Russo Moreira  ~  Pedro Silva Sena  * <strong>Electrónicos</strong> páginas pessoais, blogues e revistas de poesia</p>]]>
<![CDATA[<p><strong>Evocação</strong></p>

<p></p>

<p>José Afonso (1929-1987)</p>

<p></p>

<p><em>Era um Redondo Vocábulo</em></p>

<p>Era um redondo vocábulo<br />
Uma soma agreste<br />
Revelavam-se ondas<br />
Em maninhos dedos<br />
Polpas seus cabelos<br />
Resíduos de lar,<br />
Pelos degraus de Laura<br />
A tinta caía<br />
No móvel vazio,<br />
Congregando farpas<br />
Chamando o telefone<br />
Matando baratas<br />
A fúria crescia<br />
Clamando vingança,<br />
Nos degraus de Laura<br />
No quarto das danças<br />
Na rua os meninos<br />
Brincando e Laura<br />
Na sala de espera<br />
Inda o ar educa </p>

<p>(1973)</p>

<p><br />
*</p>

<p><br />
<strong>Revisitar: Arquimedes da Silva Santos</strong></p>

<p><br />
Arquimedes da Silva Santos, médico, pedagogo, actor e poeta, nasceu em Póvoa de Santa Iria, Vila Franca de Xira, a 18 de Junho de 1921. Na segunda metade dos anos trinta, através das amizades que estabelece e dos textos que começa a redigir, vem a integrar uma rede de jovens intelectuais empenhados politicamente no combate à ditadura - o qual a historiografia cunhará, mais tarde, de «Grupo Neo-Realista de Vila Franca de Xira». Em Coimbra, cursando Medicina, integra o Teatro dos Estudantes Universitários de Coimbra e traduz <em><strong>O Grande Teatro do Mundo</strong></em>, de Calderón de la Barca - em conjunto com Manuel Deniz Jacinto e Paulo Quintela (Atlântida, 1945) -, e <em><strong>A Sapateira Prodigiosa</strong></em>, de Federico Garcia Lorca (1946). São desta época os três primeiros poemas aqui revisitados, dados à estampa originalmente em uma antologia sob o título de «3 Rimances Ribatejanos». Em 1958, após prisões, e apesar da perseguição política, consegue ver editado o livro <em><strong>Voz Velada</strong></em>, do qual seleccionámos os restantes poemas. A sua obra poética é coligida e publicada pela primeira vez em <em><strong>Cantos Cativos</strong></em> (Portugália, 1967), reunindo os textos aqui apresentados bem como outros que foi publicando em periódicos como <em>O Diabo</em>, o <em>Mensageiro do Ribatejo</em> e a revista <em>Vértice</em> (cf. ainda, <strong><em>Arquimedes da Silva Santos. Caminhos de uma Vida</em></strong>, GTE/APMNR, 2000).</p>

<p><br />
~</p>

<p><br />
<em>4</em></p>

<p>Ti-varino nos contara<br />
sentado numa bateira<br />
que dantes o rio era<br />
um lindo jardim de peixe.</p>

<p>Mas numa tarde de inverno<br />
lá se foram as companhas<br />
para lançar as savaras.</p>

<p>As águas eram tão negras<br />
como as nuvens pelo céu.<br />
E no silêncio do rio<br />
só se ouviu numa bateira<br />
alguém que dizia assim:<br />
- Lança a rede camarada<br />
Lança ao rio depressa a rede<br />
que a tarde vai caindo<br />
e há chuva prá noite escura.<br />
Lança a rede camarada<br />
enquanto o vento não muda<br />
que se ele vira desta safra<br />
talvez já não comeremos.<br />
Lança a rede camarada.</p>

<p>Quando veio a noite escura<br />
veio com ela muita chuva<br />
soprada por vento duro.</p>

<p>Era o rio como que um mar.<br />
Fazia ondas tão altas<br />
que não havia lembrança.<br />
Foi tão grande o temporal<br />
nessa noite choveu tanto<br />
que as águas do rio subiram<br />
arrombaram com valados<br />
entraram pelas campinas.<br />
Foi-se o trigo e foi-se o gado.</p>

<p>Ai meninos que tristeza<br />
havia em todos os peitos.</p>

<p>Não há palavras que digam<br />
a desgraça desse dia.<br />
Pelas muralhas dos cais<br />
eram só gritos e lágrimas.<br />
Com vento e ondas e chuvas<br />
té se apagaram as luzes<br />
que guiam os cabeceiros.<br />
E a noite era tão escura<br />
que nem deixava ver<br />
as bateiras que chegavam.<br />
Mas de hora a hora lá vinha<br />
aportar mais uma ao cais.<br />
E por essa noite adiante<br />
vieram todas só uma<br />
só uma das que partiram<br />
ai não voltou nunca mais.</p>

<p>Esperou-se a madrugada<br />
outro dia e outra noite<br />
pela bateira perdida<br />
que não tornou a voltar.</p>

<p>E quando as águas baixaram<br />
ó quantos a procuraram.</p>

<p>Nem que andassem a vida inteira<br />
que pescador afogado<br />
é levado pelos peixes<br />
para o seu reino do mar.</p>

<p>E os peixes que os levaram<br />
até hoje não voltaram.</p>

<p>É esta a história meninos<br />
porque o rio já não é<br />
um lindo jardim de peixe.<br />
Cada safra que fazemos<br />
custa-nos muito trabalho<br />
e às vezes as redes vêm<br />
vazias como as lançámos.</p>

<p>E hoje todos dizemos<br />
quem nos dera que o rio fosse<br />
como o Tejo dantes era<br />
um lindo jardim de peixe.</p>

<p><br />
<em>8</em></p>

<p>Adeus trigo ai adeus trigo<br />
Depois de ceifado adeus<br />
Amanho-te e não mastigo<br />
Nem eu nem eu nem os meus.</p>

<p>Searas cor do sol posto<br />
Meu mar alto de aflição<br />
Encho-o com suor do rosto<br />
Em troca falta-me o pão.</p>

<p>Ai campos como os meus olhos<br />
Rasos de água tanta vez<br />
Foram-se espigas nos molhos<br />
Vem fome pró camponês.</p>

<p>Ó escravo da campina<br />
Ouve o motor do tractor<br />
Com ele mudas a sina<br />
Da terra és conquistador.</p>

<p><br />
<em>9</em></p>

<p>São lezírias céu lezírias.</p>

<p>Campo verde de trigais<br />
Campo rubro de papoilas<br />
Almas vivas de esperanças<br />
Sangue virgem de moçoilas.</p>

<p>São lezírias sol lezírias.</p>

<p>Campo amarelo de mostardas<br />
Campo trigueiro de espigas<br />
Corpos em desesperança<br />
Lagrimas de raparigas.</p>

<p>São lezírias céu e sol.</p>

<p>Lezírias longas e lânguidas<br />
Com céu de aço e sol a meio<br />
E moças encarquilhando<br />
Na ceifa do trigo alheio. </p>

<p><em>Beija-Tejo</em> [1939-1945], <strong>Cantos Cativos</strong> (1967)</p>

<p><br />
Desta janela<br />
A rua<br />
Ondeia qual um rio.</p>

<p>E uma andorinha nela<br />
Faz de navio<br />
À vela<br />
Que flutua.</p>

<p><br />
~</p>

<p><br />
O guardador de pombas<br />
Solta-as pela tardinha.</p>

<p>E voam e revoam<br />
Em círculos e curvas e espirais.<br />
Ruflam céleres<br />
E fogem<br />
E tornam e retornam<br />
E com o pôr do sol<br />
Recolhem aos pombais.</p>

<p>E o guardador de pombas<br />
Julga tê-las<br />
Com seus fios de assobios...</p>

<p><strong>Voz Velada</strong> (1958)</p>

<p><br />
<strong><em>Sem Rosto</em></strong></p>

<p><br />
<strong>Alves Bento Belisário</strong></p>

<p>(Ler mais deste autor em <em>Correntes de Poentropia</em>, www.correntesdepoentropia.blogspot.com)</p>

<p><br />
Aberto um livro<br />
Trago à cabeceira;<br />
Não sei se o abrace,<br />
Se o queira.</p>

<p>Bordam-me teias de sonho<br />
E fios de magma.<br />
Um deserto em lama,<br />
Dolo a que resisto mas nada oponho.</p>

<p><br />
~</p>

<p><br />
Morre-se demoradamente<br />
E de morte assaz lenta<br />
Pendurados em manhãs<br />
Sem livros e enxuto leite…<br />
E é ter como único e sério deleite<br />
O cúmplice perfume a rosas e hortelãs<br />
Da sexualidade com pétalas e desatenta<br />
Às palavras que a embriaguês lasciva não consente.</p>

<p>Morre-se demoradamente<br />
E de morte assaz lenta<br />
Sentados em crepúsculos de areia,<br />
Condenados ao esquecimento atroz<br />
Dos pulsares que não usam palavras ou voz…<br />
A palavra em sua ramificada teia<br />
Tudo acolhe, mas nada sustenta.<br />
O sol dos beijos a noite perpassa de vermelho quente.</p>

<p><br />
~</p>

<p><br />
As lágrimas<br />
do mundo<br />
são todas<br />
pertença<br />
minha…</p>

<p>O corpo<br />
de uma flor<br />
tem mais<br />
recantos de<br />
humanidade<br />
que todos<br />
os homens<br />
do mundo…</p>

<p><br />
~</p>

<p><br />
Os minutos em linha<br />
São retalhos de prostituição<br />
Que tudo desmascara e vence.<br />
A vida em mim e que é minha<br />
É vida que trago e que não<br />
Me pertence.</p>

<p>E contudo eu amo<br />
E dou-me e inflamo…<br />
E se penso<br />
Sou denso,<br />
E vivo e revivo<br />
E sou cativo…<br />
E crio e sonho<br />
E sou medonho<br />
E frio e fundo<br />
E sangue do mundo.</p>

<p><br />
*</p>

<p><br />
<strong>Andréa Catrópa</strong></p>

<p>(Ler mais desta autora em <em>O Casulo</em>, http://o-casulo.blogspot.com)</p>

<p><br />
<em>o sem-nome</em></p>

<p>vermelho-laca com grandes brasas por detrás dos olhos,<br />
os cães ouviram o assobio,<br />
o homem ouviu – lhe disseram é o que anda sem os pés,<br />
o que se esgueira por entre as copas de árvore e não<br />
é cobra – e virá</p>

<p>encarnado é texto, oração, pensamento,</p>

<p>desencarnado é sangue, suor, frio na espinha, a ameaça<br />
da terra, o chão.</p>

<p><br />
<em>relógio</em></p>

<p>o coração quando<br />
pára antes<br />
borra de<br />
lentidão<br />
as coisas ou<br />
subitamente paira<br />
(apesar da <br />
inquietude) como um<br />
beija-flor?</p>

<p><br />
<em>azuis</em></p>

<p>sob o azul magnífico<br />
da asa o marrom<br />
quase lama indistinguível<br />
das folhas secas</p>

<p>no vôo camuflado<br />
a borboleta sobrevive<br />
negando voltar para a terra<br />
seu espelho<br />
do céu</p>

<p><br />
<em>sob as ondas</em></p>

<p>vamos a um lago<br />
ou cachoeira imaginária<br />
um pouco de torpor é preciso<br />
talvez lá <br />
nos espere um outro reflexo<br />
estranho como deve ser o rosto<br />
de um afogado</p>

<p><br />
*</p>

<p><br />
<strong>Pedro Russo Moreira</strong></p>

<p><br />
<em>(Sobre o tráfico de mulheres)</em></p>

<p>As formigas nos joelhos de pernas flectidas<br />
Comem com doçura de selvagem<br />
A cândida virgindade dos seios.</p>

<p>Dedos no cabelo alterado<br />
O caminho do pescoço pela voz<br />
Em sons segue a veloz formiga.</p>

<p>No esquiço dos lábios<br />
Com pontos de cor referenciais<br />
Encontra no umbigo o centro</p>

<p>De perna cruzada, pé descalço<br />
(mas não desprevenido)<br />
Corre com ela essa formiga<br />
Não conformada com o negócio,<br />
Regulando o passo, volta ao seio.</p>

<p><br />
<em>(que futuro?)</em></p>

<p>Tocou com mão de textura áspera<br />
Que a imagem de uma ideia<br />
Sai atada por cordel<br />
E é lançada sem vector</p>

<p>Acaba por chegar à origem<br />
Apaziguado e vencido<br />
O campo sem o verde <br />
Não aterra com trem</p>

<p><br />
<em>(nas portas do sol, uma nuvem)</em></p>

<p>O monumento a qualquer coisa<br />
Ruiu pela terceira vez<br />
A menina de amarelo, aparelho nos dentes<br />
Mão estendida, assim…</p>

<p>Começava por responder ao que pedia<br />
Nas ruínas erguidas de um salto regularizado.</p>

<p>As diferenças cá se sabem<br />
- tenha cuidado!- dizia o mundo</p>

<p><br />
<em>(os pedintes num bairro de Lisboa)</em></p>

<p>A Luz das vielas entremeava na grelha<br />
Carvão arrebatado… esbugalhado…<br />
Na caravela das ideias (em forma latina)<br />
Cantavam o fado sem guitarras ao pé de ciganos</p>

<p>A rapaziada almofadada, sujava a cara iluminada<br />
Que a verdade é de todos, pela via da vontade<br />
E pedir não é crime</p>

<p>Continuam as brasas no som<br />
Nos becos são as esmolas calcetadas<br />
Parece que a virtude, subsídios de humanidade,<br />
Não reflecte sempre o sol<br />
Até suja incorrectamente para marcar.</p>

<p><br />
<em>(das coisas da montanha)</em></p>

<p>Uma montanha não se move<br />
No alto cantam ventos, não se move<br />
Passa quem passa, faz que faz, não se move</p>

<p>Continuando a história…</p>

<p><br />
*</p>

<p><br />
<strong>Pedro Silva Sena</strong></p>

<p>(Ler mais deste autor em <em>Contrabandos</em> (http://oscontrabandos.blogspot.com) e Bubok (www.bubok.pt)).</p>

<p><br />
<em>A Rua</em></p>

<p>1</p>

<p>está sentada <br />
um esgar de dentes<br />
pele de leopardo <br />
o casaco <br />
escuros os tons <br />
da saia e da camisola <br />
a boina de malha larga roxa aos pés <br />
arreganhada </p>

<p>queixo assente na palma da mão clara <br />
cotovelo fincado sobre o joelho <br />
olhos olhando como bolas de bilhar rolando <br />
quieta como um peixe em um aquário </p>

<p>apetece-lhe apertar o nariz às senhoras <br />
puxar pelas gravatas <br />
furar os pneus dos táxis <br />
assustar as franzinas </p>

<p>adivinha palavras nas letras cruzadas <br />
sentada pelas soleiras pisadas <br />
quieta como um peixe em um aquário <br />
olhos olhando como bolas de bilhar rolando</p>

<p><br />
2</p>

<p>cobertor de papelão<br />
sobre a calçada<br />
um vómito estrelado</p>

<p><br />
<em>Metropolitano</em></p>

<p>1</p>

<p>O turista sorria <br />
Como se lhe custasse<br />
Apontou a lente ao retrato ousado:<br />
Um pequeno cão que dormisse<br />
Sobre o acordeão mal apoiado<br />
Na boca o cesto da caridade<br />
Do rapaz que a umas pestanas longas se prendia.</p>

<p><br />
2</p>

<p><em>Podem crer  que eu ficarei  imensamenteagradecido  a quem tiver avontadeouaoportunidade de me auxiliar</em><br />
Caminha entre os jornais e os livros abertos frenético<br />
Tresandando a vinho canta<br />
Em ritmo rap <br />
Com uma chave a caixa e a vareta toca<br />
fitando.</p>

<p><br />
<em>Call Center</em></p>

<p>Sob o clarão fluorescente mergulhados em um fundo<br />
Fechados como em uma caixa.</p>

<p>Filas de cadeiras em chamada<br />
Ininterruptamente<br />
Divisórias   favos de saliva.</p>

<p>Pinças cravadas nas têmporas<br />
Rigorosamente <br />
Quinze minutos </p>

<p></p>

<p><br />
Muito bom dia, o meu nome é</p>

<p><br />
Uma voz</p>

<p><br />
Muito boa tarde, o meu nome é</p>

<p><br />
Um nome      repetido</p>

<p><br />
Muito boa noite, o meu nome é</p>

<p><br />
Um número</p>

<p></p>

<p><br />
Fechadas como em uma caixa<br />
As gaivotas dão no ecrã das janelas discretas<br />
O script azul leitoso.</p>

<p><br />
(Ler também na revista Di Versos, nº 15)</p>

<p>*</p>

<p><br />
<strong>Electrónicos</strong> <br />
Páginas pessoais, blogues e revistas de poesia</p>

<p><br />
<em>Incomunidade</em></p>

<p>Incomunidade (http://incomunidade.blogspot.com) é o blogue de uma comunidade incomum, rede, <em>lugar</em> de actores, escritores, artistas plásticos e músicos, sediada originalmente na Sociedade Guilherme Cossul (Lisboa) e dinamizada por Alberto Augusto Miranda (ler em #1). Ao longo deste sítio bem estruturado podemos ler, observar e escutar, saber dos eventos organizados e publicitados, aceder a páginas pessoais, blogues e revistas de arte(s), e, finalmente, consultar o arquivo (2003-2007). Porém, antes de ressurgir no Blogger, Incomunidade esteve alojado no Sapo, que é onde encontramos os sete números de uma revista que o Alberto Augusto Miranda editou entre Maio de 2003 e o Verão de 2004 (http://incomunidade.com.sapo.pt).</p>

<p><br />
<em>Sibila</em> </p>

<p>Sibila (http://sibila.com.br) é uma revista de poesia e de artes plásticas semestral, desembaraçada de fronteiras, dirigida por Régis Bonvicino (poeta), Alcir Pécora (crítico) e Charles Bernstein (poeta). Paralela à edição em papel - lançada em 2001 -, é editada uma versão electrónica onde o leitor tem acesso não só aos conteúdos impressos mas igualmente a secções próprias. É o caso, entre outras, da secção de «Estado Crítico», dedicada à crítica e à tradução, e de «Novos Autores», onde se publica poesia de autores menos (re)conhecidos - espaços estes que estão abertos à colaboração (internacional).  </p>

<p><br />
</p>]]>
</content>
</entry>
<entry>
<title>#  1</title>
<link rel="alternate" type="text/html" href="http://revistainefavel.weblog.com.pt/arquivo/2007/02/_1.html" />
<modified>2010-01-21T23:33:32Z</modified>
<issued>2007-02-20T12:31:53Z</issued>
<id>tag:revistainefavel.weblog.com.pt,2007://4264.385094</id>
<created>2007-02-20T12:31:53Z</created>
<summary type="text/plain">Janeiro | Junho 2007 Neste número: poemas de Philip Larkin escolhidos e traduzidos do Inglês por Pedro Silva Sena * Poemas de: José Maria de Aguiar Carreiro ~ Pedro Silva Sena * Alto Teatro no Barroso, de Alberto Augusto Miranda....</summary>
<author>
<name>Pedro Silva Sena</name>

<email>pedrosilvasena@gmail.com</email>
</author>

<content type="text/html" mode="escaped" xml:lang="en" xml:base="http://revistainefavel.weblog.com.pt/">
<![CDATA[<p>Janeiro | Junho 2007</p>

<p>Neste número: poemas de Philip Larkin escolhidos e traduzidos do Inglês por Pedro Silva Sena * Poemas de: José Maria de Aguiar Carreiro ~ Pedro Silva Sena * <em>Alto Teatro no Barroso</em>, de Alberto Augusto Miranda.</p>

<p>*</p>

<p>«- Estes - disse o cura - não devem ser de cavalarias, mas de poesia.<br />
E abrindo um viu que era a <em>Diana</em> de Jorge de Montemor, e disse, crendo que todos os outros eram do mesmo género:<br />
- Estes não merecem ser queimados, como os demais, porque não fazem nem farão o dano que os de cavalarias fizeram, que são livros de entretenimento sem prejuízo de terceiro.<br />
- Ai, senhor! - disse a sobrinha -, bem os pode vossa mercê mandar queimar como aos demais, porque não seria novidade que, tendo sarado o senhor meu tio da enfermidade cavalheiresca, em lendo estes lhe aprouvesse fazer-se pastor e ir-se pelos bosques e prados, cantando e tangendo, e, o que seria pior, fazer-se poeta, que segundo dizem é enfermidade incurável e pegadiça.»</p>

<p>Miguel de Cervantes - <em>Dom Quixote de la Mancha</em> (1605)</p>

<p>*</p>

<p><strong>URGÊNCIA</strong></p>

<p><strong>Philip Arthur Larkin</strong> (1922 - 1985)</p>

<p>Philip Larkin, poeta, romancista, crítico de jazz e editor, nasceu em Coventry, Midlands, no Reino Unido. Após ter sido Leitor de Inglês em Oxford (St. John's College), torna-se bibliotecário - primeiro na universidade de Leicester, e, mais tarde, na de Hull; cargo este que assegurou até ao fim da sua vida. Os poemas que agora começamos a publicar, foram escolhidos de entre os de <em>The Whitsun Weddings</em> (1964), livro que consagrou publicamente Philip Larkin enquanto poeta (conferir em http://en.wikipedia.org/wiki/Philip_Larkin).</p>

<p><em>Os Dias</em></p>

<p>Para que servem os dias? <br />
Os dias são o lugar onde vivemos. <br />
Chegam, despertam-nos, <br />
Uma e outra vez, repetidas vezes. <br />
Existem para sermos felizes neles: <br />
Onde é que podemos viver a não ser dias? </p>

<p>Ah, a resposta a esta questão <br />
Traz o padre e o médico <br />
A correrem pelos campos <br />
De sobretudo.</p>

<p><em>Days</em></p>

<p>What are days for?<br />
Days are where we live.<br />
They come, they wake us<br />
Time and time over.<br />
They are to be happy in:<br />
Where can we live but days?</p>

<p>Ah, solving that question<br />
Brings the priest and the doctor<br />
In their long coats<br />
Running over the fields.</p>

<p>~</p>

<p><em>Ignorância </em></p>

<p>Estranho nada saber, nunca ter a certeza <br />
Do que é verdadeiro, certo ou real, <br />
Forçado então a dizer <em>pelo menos é o que sinto</em> <br />
Ou <em>Bom, é o que parece</em>: <br />
<em>Alguém deve saber</em>. </p>

<p>Estranho ignorar o modo como as coisas funcionam: <br />
A sua capacidade de encontrar o que necessitam, <br />
O seu sentido de forma, e o espalhar da semente preciso, <br />
E a sua vontade de mudar; <br />
Sim, é estranho, </p>

<p>Trazer vestido até tal conhecimento – pois a nossa carne <br />
Cerca-nos com as suas próprias decisões – <br />
E ainda assim gastar a vida em imprecisões, <br />
Tanto que quando começamos a morrer <br />
Nem fazemos a ideia do porquê.</p>

<p><em>Ignorance</em></p>

<p>Strange to know nothing, never to be sure<br />
Of what is true or right or real,<br />
But forced to qualify <em>or so I fell</em>,<br />
Or <em>Well, it does seem so</em>:<br />
<em>Someone must know</em>.</p>

<p>Strange to be ignorant of the way things work:<br />
Their skill at finding what they need,<br />
Their sense of shape, and punctual spread of seed,<br />
And willingness to change;<br />
Yes, it is strange,</p>

<p>Even to wear such knowledge - for our flesh<br />
Surrounds us with its own decisions -<br />
And yet spend all our life on imprecisions,<br />
That when we start to die<br />
Have no idea why.</p>

<p>~</p>

<p><em>Recordação</em></p>

<p><em>Essa era muito gira</em>, ouvi-te eu gritar <br />
Do corredor insatisfatório <br />
Para o quarto insatisfatório onde eu <br />
Punha a tocar disco atrás de disco, indolente, <br />
A gastar o meu tempo em casa, de que tu <br />
Estavas tão desejosa de. </p>

<p>Era Oliver, <em>Riverside Blues</em>. E agora, <br />
Suponho, terei presente, sempre, <br />
Como aqueles negros fora de moda sopravam o bando de notas <br />
Do ar de Chicago <br />
Para uma enorme trompa pré - eléctrica de rememorar <br />
O ano seguinte ao do meu nascimento <br />
Três décadas depois fez esta repentina ponte <br />
Da tua idade insatisfatória <br />
À minha insatisfatória primavera.</p>

<p>Na verdade, embora o nosso elemento seja o tempo,<br />
Não estamos talhados para as longas perspectivas<br />
Abertas a cada instante das nossas vidas.<br />
Elas tecem-nos laços com as nossas perdas: pior,<br />
Mostram-nos o que temos tal como o tivemos,<br />
Cegamente incólume, tal como se,<br />
por agirmos de outro modo, o pudéssemos ter assim mantido.</p>

<p>Reference Back</p>

<p><em>That was a pretty one</em>, I heard you call<br />
From the unsatisfactory hall<br />
To the unsatisfactory room where I<br />
Played record after record, idly,<br />
Wasting my time at home, that you<br />
Looked so much forward to.</p>

<p>Oliver's <em>Riverside Blues</em>, it was. And now<br />
I shall, I suppose, always remember how<br />
The flock of notes those antique Negroes blew<br />
Out of Chicago air into<br />
A huge remembering pre-electric horn<br />
The year after I was born<br />
Three decades later made this sudden bridge<br />
From your unsatisfactory age<br />
To my unsatisfactory prime.</p>

<p>Truly, though our element is time,<br />
We are not suited to the long perspectives<br />
Open at each instant of our lives.<br />
They link us to our losses: worse,<br />
They show us what we have as it once was,<br />
Blindingly undiminished, just as though<br />
By acting differently we could have kept it so.</p>

<p>~</p>

<p><em>Sapos (Revisto) </em></p>

<p>Dar uma volta pelo parque <br />
Devia saber melhor que trabalhar: <br />
O lago, o sol a brilhar, <br />
A relva para nos deitarmos, </p>

<p>Sons de brincadeira esborratados <br />
Por detrás de enfermeiras de meia preta – <br />
Não é um sítio desagradável, <br />
Porém, não me convém, </p>

<p>Sendo eu um daqueles homens <br />
Que se conhece em uma tarde: <br />
Velhos paralíticos de passinhos curtos, <br />
Escriturários com nervos miudinhos e olhos de lebre, </p>

<p>Pacientes de ambulatório pálidos como cera<br />
Ainda turvos dos acidentes,<br />
E personagens de sobretudo<br />
No fundo dos caixotes do lixo –</p>

<p>Cada um a fintar o trabalho do sapo<br />
Sendo estúpido ou fraco.<br />
Imaginem-se assim como eles!<br />
A ouvir as horas a soar,</p>

<p>Observando o pão a ser distribuído,<br />
O sol obnubilar-se,<br />
As crianças a irem para casa;<br />
Imaginem-se assim como eles,</p>

<p>A entregar os falhanços<br />
Por um leito de lobélias,<br />
Sem ter para onde ir senão entre as quatro paredes,<br />
Sem amigos excepto cadeiras vazias –<br />
  <br />
Não, dêem-me a minha correspondência<br />
A minha secretária de cabelo cor de pão<br />
A minha senhor-doutor-mantenho-esta-chamada-em-espera:<br />
Que outra resposta posso eu dar,</p>

<p>Quando as luzes se acendem às quatro<br />
No final de mais doze meses?<br />
Dê-me o braço, amigo sapo;<br />
Ampare-me até à Quinta dos Silêncios. </p>

<p><br />
Toads Revisited</p>

<p>Walking around in the park<br />
Should feel better than work:<br />
The lake, the sunshine,<br />
The grass to lie on,</p>

<p>Blurred playground noises<br />
Beyond black-stockinged nurses -<br />
Not a bad place to be.<br />
Yet it doesn't suit me,</p>

<p>Being one of the men<br />
You meet of an afternoon:<br />
Palsied old step-takers,<br />
Hare-eyed clerks with the jitters,</p>

<p>Waxed-fleshed out-patients<br />
Still vague from accidents,<br />
And characters in long coats<br />
Deep in the litter-baskets -</p>

<p>All dodging the toad work<br />
By being stupid or weak.<br />
Think of being them!<br />
Hearing the hours chime,</p>

<p>Watching the bread delivered,<br />
The sun by clouds covered,<br />
The children going home;<br />
Think of being them,</p>

<p>Turning over their failures<br />
By some bed of lobelias,<br />
Nowhere to go but indoors,<br />
No friends but empty chairs -</p>

<p>No, give me my in-tray,<br />
My loaf-haired secretary,<br />
My shall-I-keep-the-call-in-Sir:<br />
What else can I answer,</p>

<p>When the lights come on at four<br />
At the end of another year?<br />
Give me your arm, old toad;<br />
Help me down Cemetery Road.</p>

<p>Tradução: Pedro Silva Sena</p>

<p><br />
<strong>SALA de ESPERA</strong></p>

<p><strong>José Maria de Aguiar Carreiro</strong></p>

<p>(Ler mais deste autor em <em>Folha de Poesia</em>: http://folhadepoesia.com.sapo.pt)</p>

<p><br />
<em>Imagem</em></p>

<p>Há um sonho desfeito a rasurar a noite<br />
Acarta as pedras e morre sobre a polidez<br />
Das coisas.<br />
Há um gosto mineral vogando<br />
A permitir que ao retirar a tampa<br />
Todos rejubilemos.</p>

<p>Faremos festa. O ícone desfere,<br />
Retumbe enorme e grosso. Sonhamos.<br />
Oh meu bem, os dias percutem tremendos.</p>

<p>Uma fenda, um ícone rilkeano.<br />
Um tremendo bocejo até aos ossos dos pés.<br />
Meu bem, sigam eles e actuem<br />
Tão interiores arrebatados fazem promessas<br />
A dia com exemplos, líricos.</p>

<p><em>Um Lume Destroçando a Visão</em></p>

<p>Gostara do falatório, aquele límpido discorrer de graças<br />
Dos ditames da meia idade<br />
Mas eu já não estava ali, no canto desperdiçado de uma casa.<br />
Quis comemorar um sentimento igual, desejo límpido não rasurado<br />
E trazer igual o desejo de outras épocas.<br />
Poderia ler o dia, a luz aberta a cozinhar durante horas<br />
O vago violoncelo que toca em tua e minha memória comum<br />
Diria também as palavras que se repetem em espaços por corpos idênticos<br />
E que afastados refazem o tempo inoperante.<br />
Na boca o corpo demora-se em latitude distante<br />
Por claustros, sorrisos solapados<br />
Parecendo comerciar o ralhar dos melros<br />
Mas disso não faria um joguete, um lardear de pívias<br />
A porta aberta para fugir.<br />
Onde o lugar das calças, das camisas?<br />
Trova para esses momentos desabitados.<br />
Eu brinco, ando pela casa, olho tudo finitamente<br />
Eliminando a grande altitude o uivar do lobo.<br />
Tudo o que é previsível está aqui como peça de mobiliário<br />
Erradamente<br />
Abortando a luz de deus com um arame de siso, riso, mijo.<br />
Estendo horizontalmente o deus verde<br />
Cubro de vómito de cantador<br />
O efeito de dejectar o que já não importa<br />
Cubro com pastel o que outrora foi lançado à germinação.<br />
Eu quero um lume destroçando a minha visão.</p>

<p><br />
<em>Bicho da Terra</em></p>

<p>para Miguel Torga</p>

<p>“Nada há de permanente debaixo do sol” (Eclesiastes)</p>

<p>Sei do condão da mente e do condão da carne<br />
Sobre a mente. O sexo tangível da idade.<br />
Eu sou a veloz condução dos congéneres bichos<br />
Que são da terra, que se agitam nos telhados<br />
E desviam nossos olhares para lá das paredes sujas.<br />
Atrevo e atiro para o chão as trevas e as glórias altas<br />
Faço e desfaço altos silos, combatentes reprogramações –<br />
Partes de um mesmo todo indefinido e inteligente?<br />
Tudo é aluído na terra e será conforme a dor.<br />
Modulo no vazio. Nem uma lápide, um livro ou uma oração<br />
Perdurarão no tempo. <br />
É limitada a rede com que um homem se diz<br />
E, no entanto, deseja<br />
Cortada rede com que principia<br />
Cortados fios que tece.<br />
Deixarei estas palavras na crueza do corpo<br />
Num amplo quarto de um manicómio ou de uma prisão.</p>

<p><br />
<em>O Fraco Momento da Vida</em></p>

<p>Pode um homem querer mais do que é<br />
Ou apenas abarcar o prazer momentâneo<br />
Imaginar o belo, o infinito</p>

<p>Pode um homem supor ser desejado por alguém<br />
Tão igual ao desejo que nem se aperceba da figura<br />
Do olhar e das palavras de uma casa que não é a sua.<br />
Como olhar-se ao espelho, ver a pele envelhecida e dizer sou eu<br />
Quando estão as sensações fora do alcance da pele<br />
Dir-se-á velho? velho<br />
Que palavras inventará para esconder as falhas da carne<br />
O bloqueio do desejo pela mente cansada<br />
Augura ele uma decrépita e eterna valia?</p>

<p>*</p>

<p><strong>Pedro Silva Sena</strong></p>

<p>(Ler mais deste autor em <em>Contrabandos</em> (http://oscontrabandos.blogspot.com) e Bubok (www.bubok.pt))</p>

<p><br />
<em>Onírica Camoniana</em></p>

<p>Ó senhora de meus olhos a luz que os ilumina e os conduz sois vós quem domina o meu claro ser que é amá-la o seu sentido sem vossa graça perdido e assim a vida esquecer.</p>

<p><br />
<em>Fingerbib (Aphex Twin)</em></p>

<p>pára entras segues contigo sobre as ruas repetidas pára saem entram segues contigo pelas linhas coloridas do diagrama pára saem entram segues contigo um rosto pormenores de corpo onde te demoras tenso de trânsito pára saem entram segues contigo dentro da música pára saem entram segues contigo o traço cor de rosa de um airbus nos últimos minutos do sol pára sais entram segue<br />
 <br />
~</p>

<p>longo o brilho pelágico do rio não tens como tê-lo só a impressão o sabê-lo ali nas goelas das ruas admirado de longe dos miradouros cruzado por barcos</p>

<p>~</p>

<p><em>Os Jardins de Generalife</em></p>

<p>fragosas as brisas sussurram elanguescidas as sombras estremecem indolentes as águas brilham serenas as espumas</p>

<p><br />
<strong>EM CARNE & OSSO</strong></p>

<p><br />
<strong>Alberto Augusto Miranda</strong></p>

<p>(Ler mais deste autor em <em>Arditura</em>,<br />
http://arditura.blogspot.com, ou em <em>Incomunidade</em>, http://incomunidade.blogspot.com)</p>

<p><br />
<em>Alto Teatro no Barroso </em></p>

<p>Não se sabe o que fazem, porém mexem-se.<br />
Alinham os bodes sem formatura no mais castanho-vivaz dos carreiros entre-verdes. <br />
A sagesse caprina domina as presenças ignorantes, sua quietude altaneira oprime os compassados, os que inverteram o grito e são agora profissionais, batem, por exemplo, no burro sempre que o social os aliena.<br />
Eu sou aquele burro chibatado e cheio de moscas. Não saio, não mexo. Não quero ir para empresário, professor ou empreiteiro. O burro que estranha a neurose do homem e lhe pergunta em tom muito baixo e de muito pudor: "Que mal te fiz para me tratares dessa maneira?”<br />
Não é preciso fazer mal. Não é preciso mal. Pelas linhas das alturas, onde se descansa da temporada, vê-se: o male é ser através do burro. Quieta-me a Benta com seu humor de oboé e desobrigações.<br />
Aparentemente há chuva, este redondo de acolitados só se salva olhando para cima.<br />
E ouve-se nada, o mundo é de pedra.<br />
Na fraternidade de todos os cornos que nos igualam, sobrevém imperiosa a pulsão da viagem. Vamos todos, todos de outra maneira, e de outra maneira vestidos, cada um no seu barco de sair.</p>

<p>Olhei para ela com vagares de boi.<br />
O mundo era muito antigo em meu gutural. Li as estantes como esporas epitalâmicas onde a conquista é levada ao registo.<br />
Respirei na fonte das lembranças, com particular adição gástrica. Queria irmanar-me às perdizes, às que perdizem.</p>

<p>Vestia-se em quadriculado, uma aberta fórmula de apetite. <br />
Tinha serraneado uma linha convexa onde armazenava, com rigor doméstico, suportes históricos de uma existência livresca.<br />
Hercúlea e possuidora de uma certa ramada alta, prodigalizava toques de afecto que enchiam os parabéns da autoestima.<br />
Mais abaixo, em hors-texte com o nome de eiralonga, agitei o corpo em direcção ao paroxismo. Um espigueiro de antanho guardava-me as vivências dos fenos.<br />
E abri o Sul, com o disparo simétrico de uma fotografia, pelo cotejo infernal a que as vadiagens obrigam. Sorri à necessidade da Mariana. Ela estava pronta a esquecer, a reconhecer todas estas sombras.<br />
A Rata pôs-se em tantopé, avaguardando os interditos para o imediato comer matinal. O segredo, Benta segredação, era um contínuo semi-piscar de olhos que nunca ultrapassavam 1/4 da abertura regular.<br />
Metia-se, ela, então, no pão e na estratégia. De tudo se abstinha como uma castrada actriz de bergman. Relançava, em após, as pernas quase-nada pernas, em motor de vidinha abstracta, pós-moderna, jamais desaguante, o dia seguinte era o destino a assegurar.<br />
Havia, nos dentros, um tecido áspero tearizado com a nunca explicitação, a révanche inconcluída como múnus da sobrevivência.<br />
Os certos andavam no prodígio dos crimes, uma pedra impunha o homem que "morreu em luta com o trabalho", fosse o que fosse, pedia, exigia, uma dramaturgia.<br />
Podíamos dizer: houve Salto, era uma libido de balzac, circunstância e exponência, uma rejeição do havido, um impromptu sobre o devir.<br />
Num dos bares, em sonoras parangonas, os mestres do pimba cult encontravam mais uma enseada, gente sem saber o que fazer ao corpo: trasmontanos, brasileiros, ucranianos, proprietários insatisfeitos.<br />
Deitavam-se com a Lei: A Domus.<br />
O paralelo era impossível, nada de cotejos, mesmo nada de cortelhos, abafar as insências em invisibilidade: só o homem, esse animal de nada.<br />
Resta-me pouco.<br />
Não deve dar para riscar, sou um cisco diminuído, um aero-invisível, só as vacas me esbulhagam os olhos com amabilidade e alguma simpatia erótica.<br />
Até a dor acorda mal servida de corpo, os bichos pequenos fogem de mim, sou a palha seca, ainda pesada para as célias, as andorinhas.<br />
Não devia ter voltado, não devia ter aquiescido, puta de memória, vale da tragédia. Saber, sem ter o sabor, da lembrança de fazer corpos com poemas, essas gritarias de emigração.<br />
Não tenho pena de entregar o vasilhame à terra.<br />
Todo bebido, só os pinhais e os musgos me comeram a nudez. O restante biónico é uma devolução. Aqui me vejo, ilíquido. Sólidas, só as imagens, a ruga de as ver, a anestesia do deslumbramento sem sensação. Branco e Vermelho, a peçonha de existir.</p>]]>

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<title>Propósito</title>
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<modified>2012-05-11T01:40:13Z</modified>
<issued>2007-02-18T23:16:51Z</issued>
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<summary type="text/plain">A revista-blogue Inefável, inteiramente dedicada à poesia e às suas (im)possibilidades, tem como propósito a publicação de textos poéticos, traduções, crítica literária e ensaios de autores contemporâneos, empenhando-se em ser acessível ao maior número de leitores/as. A sua periodicidade será...</summary>
<author>
<name>Pedro Silva Sena</name>

<email>pedrosilvasena@gmail.com</email>
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<content type="text/html" mode="escaped" xml:lang="en" xml:base="http://revistainefavel.weblog.com.pt/">
<![CDATA[<p>A revista-blogue <em>Inefável</em>, inteiramente dedicada à poesia e às suas (im)possibilidades, tem como propósito a publicação de textos poéticos, traduções, crítica literária e ensaios de autores contemporâneos, empenhando-se em ser acessível ao maior número de leitores/as. </p>

<p>A sua periodicidade será anual e encoraja-se a colaboração, mediante o envio de textos inéditos (com direitos de autor registados ou em trâmites de registo) para: pedrosilvasena@gmail.com.</p>

<p>O editor</p>]]>

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