setembro 20, 2004

Queixume passado

A melodia era triste, invocando um sofrimento doloroso, de um ritmo extasiante, que enlameava a alma e a fazia cair num oceano de vagas sensações, como que perdida num vasto lago de lágrimas pedindo o sussurrar de uma vontade distante. Mas como força desconhecida, a mesma melodia embarcava num novo tom, sendo luz e esperança, rasgando com o passado e criando uma nova realidade, gritante necessidade de uma libertação completa dos sentidos e da alma. Era nova fragrância, queixume passado, desespero rasgado de perfume de vida que agora abraçava a audição. Tal como um trabalho, que por vezes parece completamente distante de nós próprios, depois de alguns fracassos vividos com sofrimento. Um trabalho que parece apodrecido, juntamente com a vontade que nos abandona lentamente, mergulhando-nos num vale depressivo de auto mutilação argumentativa, criação opaca e viscosa, como um fungo que ameaça devastar todo um esforço e caminho já traçados. Com o passar do tempo, sendo abraçados pela presença eterna daqueles que acreditam em nós e estão presentes na chama partilhada de uma invocação, continuamos a acreditar, não da mesma maneira, mas recusamos uma desistência no eloquente campo de batalha. E com as armas erguidas, perante as adversidades, relativas ou não, criamos a nossa própria história, juntamente com aqueles que acreditam no mesmo que nós, com aqueles que são parte de um desejo conjunto.


In Diário de Bordo

Publicado por Ray_Manzarek em 12:03 AM | Comentários (0) | TrackBack (0)

A pressa...

Às vezes temos tanta pressa de crescer, de libertarmos todo o odor que acreditamos possuir, de mostrarmos ao mundo o nosso valor e o calor da alma que nos cerca, a potência timbrante da nossa voz, a divindade que nos veste e dá força ao corpo. Temos aquela necessidade que fervilha na nossa voz, o ímpeto que rasga o nosso coração, embalando a essência para uma vontade febril de libertar o grito totalitário da nossa alma, do que realmente somos e temos dentro de nós. A calma tão necessária, surge frequentemente aprisionada, como adversário opressor e vil, quando é na realidade uma aliada musculada, fresca e imparcial de nós próprios. Possui o timbre perfeito, a contenção, o timing adequado, a eloquência digna de grandes feitos, o charme de um acontecimento inundado em precisão e pensamentos fogosos.
A calma é uma das nossas dádivas, aliada ao pensamento fortifica uma barreira intransponível, criando um filho prodigioso, que quando libertado harmoniosamente pode ser infinitamente eficaz. Porquê querermos crescer tão rapidamente, engolindo as pessoas e o mundo, se podemos abraçá-los de forma pautada, libertando o nosso cântico de vivências com amor e dedicação? Porquê querermos mostrar o jogo todo na primeira cartada, se na nossa vida teremos milhares e milhares de jogos para nos aplicarmos? Os truques que possuímos, o poker com que nos deliciamos, vendo-o nas nossas mãos, poderá novamente estar presente, se para isso lutarmos e aplicarmos o nosso saber, aliando a necessidade de nos sentirmos presentes e amados, à impactante beleza de extravasarmos o nosso amor com sentir, alma e fogosidade. Só conseguimos ser nós próprios com calma, com precisão e estudo dedicado. Com sentir, com o abraçar incisivo a uma causa, sem pensar em mais nada, ou em milhares de necessidades interligadas numa única golfada de ar. Somos nós próprios a partir do momento em que aceitamos a nossa condição de seres humanos, e mais importante que tudo, aceitamos os outros como também pertencentes a essa realidade.


In Diário de Bordo

Publicado por Ray_Manzarek em 12:01 AM | Comentários (0) | TrackBack (0)

Doce Firmamento

Sob um manto que adocica levemente um respirar
Estamos aqui e sentimos o aroma de um momento
E vos peço que abraçam o nobre sentimento
De ser sem olhar para os porquês, densa omissão.

Nas palavras que tatuam esta folha que vos fita
Tatuam-se as ressonâncias perdidas de uma voz
Que nunca cessará de se fazer ouvir, perante o firmamento
Perante a eloquência de um Mundo, que palpita sem cessar

Em cada individualidade, um retalho, uma canção e divindade
Em cada rosto, uma lágrima incessante, uma doce saudade
Uma história simples, um suspiro, magnífica invocação
Em cada um de vós o som sustenido de um bravo coração

No que somos, a nossa ténue felicidade
No que criamos, a efervescente ambiguidade
No que respiramos, o doce sabor da conquista
No que perdemos, a agridoce sensação mista.

E hoje cativos, permanecemos na mesma mesa
Sob a comemoração de algo que dita a intempérie do tempo
E novamente as minhas palavras são empurradas pelas ondas
Sal de memórias, sabor temperado de mil memórias sorridentes

Nem sequer a obrigação de um sorriso, de um vasto afecto
Ou a recriação incessante de palavras num nenúfar de sonhos
Estamos aqui porque vivemos, porque sentimos e amamos
O olhar com que despimos a natureza é a voz da nossa alma.

Eu escrevo, ressalvo com carinho e intensa ternura
Estou aqui porque sinto, porque vos admiro e concentro
Eternamente dentro do meu coração e essência
E tudo o que faço se reveste no museu eterno de um sabor

Sabor de mil paladares, de um fruto adicionado do vosso açúcar
Fervilhando em corações, em actos, em danças acrobáticas
Num simples olhar, numa conversa franca e aberta, num suspiro
O canto que reveste a minha vida é voz lírica de uma canção

Que todos vós fizeram, e que é tradução da beleza das vossas almas.

Poema dedicado a todos os meus verdadeiros amigos, num momento especial da minha vida.

Publicado por Ray_Manzarek em 12:00 AM | Comentários (0) | TrackBack (0)