janeiro 17, 2004

Dignidade e a morte

Tou bêbado.. Admito... Gosto mais de escrever bêbado do que bebedo.. Dói-me a hipocrisia das pessoas, vagueando lentamente por todo a atmosfera e brilho da cidade. Dói-me o facto de as pessoas saberem que por vezes magoam, e essa evidência não pesar em nada a sua conduta...Fico enraivecido quando vejo que todos nós somos iguais em papel, mas diferentes no que diz respeito ao discorrer ténue do dia a dia.. Todos somos diferentes, porque não nos vemos como realmente somos.. O que temos para dar, a possibilidade e força infinita que possuímos para amar e conquistar o que desejamos. Tantos perecem no disforme manto de dor e solidão quando avistam a sua própria desistência.. Tantos morrem com a glória intacta, com o seu amor, mas sem qualquer palavra que os embalasse numa nova jornada.
Dói-me saber que muitos neste mundo morrem sem conhecerem o caminho que mereciam. E outros traçam caminhos que ostentam com fervor, inerentes ao facto de que não passam de meras carcaças imundas, que nunca sonharam ou amaram, apenas possuem o expólio e futuro de pessoas que nunca se hão-de assemelhar às suas almas. Perdoem-me a minha profunda agonia e/ou complexidade, mas não o consigo evitar.
A honra, a verdade, o amor são cada vez mais realidades e bens universais e eternos que fustigam tristes apenas em filmes, livros e/ou realidades adversas a nós. Que raiva! Mas porquê não admitir a nossa completa fragilidade perante o Mundo? Porque não admitir que somos, mais que tudo, seres que necessitam de amor? Alguns de nós admiram e prezam a honra, mas outros completamente a hostilizam como bem inferior. A honra é eterna, é parte do Mundo e da nossa existência individual. Como o amor, a verdade...
Todos os dias morrem pessoas. De mil e uma maneiras. Mas todos os dias podemos abraçar o que realmente somos. E como alguns que já foram, morrer por uma causa e por um amor. Morrer vazio deve ser a passagem mais tortuosa de sempre... Morrer por algo, por nós próprios.. é morrer com honra.. Com amor e dignidade..

Publicado por Ray_Manzarek em 10:48 PM | Comentários (0)

janeiro 09, 2004

Top Ten - Filmes

Apresento uma lista dos filmes mais recentes que eu vi, que entraram directamente para o topo das minhas preferências cinéfilas.

1 - Irreversível
2 - Donnie Darko
3 - Vanilla Sky
4 - Memento ( já tinha visto, mas vê-lo novamente "iluminou-me" :D )
5 - One Hour Photo
6 - Equilibrium
7 - Finding Nemo
8 - Solaris
9 - Pacto dos Lobos
10 - Vidocq

Publicado por Ray_Manzarek em 03:55 PM | Comentários (0)

Irreversível

Falar deste filme consiste num exercício complicado de crítica. Cilindrado aquando da sua estreia, pela sua violência expressa e saliente, foi também ostracizado por ser bastante gráfico e hipoteticamente estilizado. No entanto, outros afirmaram o valor e a força do filme, afirmando que não era para todos, e que quem o visse teria que confrontar os factos e meditar sobre eles. E aqui este ponto é que me interessa agarrar. Debatendo o filme com muitos amigos meus, lendo opiniões e críticas nos mais diversos meios ( tais como a imdb na net ), cheguei à conclusão que muitos defendiam a redução da famosa cena da violação de Monica Belucci. Eu não defendo. Não defendo e passo a explicar porquê.
Um filme tem que ser vivido, experienciado, mais que um exercício de visionamento, temos que sentir intimidade e co-existência com as personagens. Acreditar que aquilo que estamos a receber é fruto de uma realidade que nos cerca e que nos diz directamente respeito. Ao aparecer a cena de violação, qualquer um de nós sente um desejo sobrehumano de intervir, de acabar com tamanha degradação e podridão humana. Sente uma raiva intensa por observar a testemunha que nada faz, lá ao fundo, indo-se embora. Sentimos a força do momento, a podridão, o sofrimento da vítima, a sua dor e as suas lágrimas. Mais que uma cena dispensável, ela é essencial para compreendermos a raiva e o instinto feroz com que o ex-namorado mata o pretenso assassino no final com o extintor. Todo o seu carinho por ela, e a raiva e mágoa reprimida pela sua barbára violação, são libertados naquela demonstração de natureza primitiva do Homem. Nunca poderá constituir violência gratuita o facto de nos ser oferecida a possibilidade de vermos nua e cruamente a realidade pelos olhos do realizador.
Uma violação ( felizmente, graças a Deus, nunca testemunhei nenhuma ) deverá ser parecida com a cena do filme. E aí encontra-se a força da cena. Mais que sugestionar ao espectador o que vai acontecer, o realizador Gaspar Noé, mostra-nos sem artimanhas ou lirismos falsos a brutalidade, podridão e nojo que o homem pode ser. E isso nunca será violência gratuita, quando sabemos que acontece no dia a dia. Não é fruto da imaginação do realizador, é uma realidade que felizmente, muitos de nós não sentimos ou vemos, mas que aqui nos foi oferecida a possibilidade de experienciar. A nossa raiva nasce do facto de sermos obrigados a confrontar a verdade sem podermos fazer nada, compreendendo depois a raiva, dor e instintos assassinos do namorado de Monica Belucci, e posteriormente também, do seu ex namorado.
As duas cenas mais violentas do filme, que suscitaram toda uma onda de polémica e ódio por parte de alguns críticos e "iluminados" de cinema, são para mim indispensáveis para a completa inserção no seu tecido narrativo, ao mesmo tempo que nos fazem chorar de dor e de sofrimento. Não vou negar que me custou imenso ver as duas cenas, e procurei sempre desviar o olhar uma ou outra vez. No entanto permaneci até ao fim, sentindo raiva, nojo e desprezo. Um filme que mexe com as nossas emoções desta maneira, não pode ser um mau filme. Porque o faz de modo consciente, directo e ser artimanhas. Conta uma história que parece real e concretizável, em qualquer ponto do mundo. O violador não é um ser sobre humano, ou uma ameaça extraterrestre. É um fruto podre e amargo que infelizmente existe em muitas sociedades, que procura saciar os seus vícios da maneira mais porca e hedionda que existe.
Recomendo o visionamento deste filme, mas com restrições para aqueles que são particularmente sensíveis. É um filme que se quer visto de coração e mente aberta, mas onde sentimos uma raiva e dor imensa. Não podemos fazer nada. E é isso que mais dói.

Publicado por Ray_Manzarek em 03:43 PM | Comentários (0)