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março 05, 2006

O ENVELHECIMENTO


O aumento da longevidade e esperança de vida do ser humano, foi conseguida com especial relevo nas sociedades modernas do mundo ocidental, determinando uma alteração no panorama demográfico, onde o número de pessoas com mais de 65 anos, aumentou substancialmente em relação a tempos passados.
Paralelamente, o ritmo dos nascimentos - que garantem a renovação das gerações - diminuiu, em resultado de múltiplos factores, de entre os quais se destaca o fenómeno da emancipação da mulher e a sua entrada em massa no mercado de trabalho remunerado, bem como a descoberta de métodos de controlo de natalidade, como a pílula.
Tudo isto introduziu na sociedade problemas que importa resolver, nomeadamente o que respeita à sustentabilidade do sistema de protecção social. Perante uma população cada vez mais envelhecida, são poucas as receitas provenientes da contribuição de quem está em idade activa, para garantir o pagamento das pensões de reforma a todos aqueles que deixarem de trabalhar remuneradamente.
Os sistemas de previdência social quando foram inicialmente criados tinham na base uma realidade demográfica que possibilitava a sua exequibilidade. As pessoas viviam durante menos tempo, pelo que as pensões de reforma deveriam ser atribuídas por períodos de tempo relativamente curtos. As contribuições financeiras dos trabalhadores durante a sua vida activa cobririam, numa lógica de solidariedade, as despesas com as futuras pensões de velhice. O tempo de repouso após uma vida de trabalho seria em princípio de curta duração, e a sustentabilidade do sistema estaria então assegurado.
As alterações profundas que, entretanto se deram nas sociedades vieram desestabilizar todo o quadro previsto e agora fala-se da necessidade de rever o programa social vigente, apelando-se para a necessidade e conveniência de chamar a população sénior à cooperação activa na dinâmica da vida em sociedade. O prolongamento da idade de reforma começa a ser avançado no quadro jurídico de muitos países ocidentais, ao arrepio de todas as expectativas legitimamente criadas, na base do esforço financeiro feito pelos interessados.
Este propósito não se coaduna, contudo, com as necessidades de emprego das gerações mais novas, que perante a mecanização e tecnologia das sociedades avançadas, que dispensa muito de mão-de-obra, se defrontam com uma grave crise de desemprego estrutural, tanto mais grave, quanto se prolonga o tempo de ocupação dos postos de trabalho por quem já deveria estar a gozar a sua reforma.
Numa sociedade que se pauta fundamentalmente por critérios de rentabilização económica de todos os sectores de actividade, onde o lucro é o grande objectivo num mundo transformado em grande mercado, parece evidente que as pessoas devam ser usadas e canalizadas para produzirem mais valia económica. Faz, por isso, sentido que se pense em reduzir ao máximo o período de tempo de inactividade laboral dos agentes sociais, aproveitando-os em vista do crescimento económico que se pretende acima de tudo. Na luta contra a carência material que assolou as sociedades de antanho, este objectivo parece ainda longe de ser alcançado em plenitude, pelo que se orientam sobretudo as pessoas para a produção dos bens materiais. Neste contexto, surge logicamente a ideia de permanência dos idosos na vida activa empresarial e económica, na presunção do enriquecimento de toda a colectividade, restringindo-o ao seu aspecto meramente material.
Outro ponto de vista poderá, no entanto, ser apresentado, que é a de enriquecimento humano e cultural dos grupos e das sociedades, que não privilegie de forma tão acentuada a produção e consumo de bens materiais em grande profusão. Assim que esse suporte básico de sobrevivência estiver garantido ao nível geral, mediante o progresso da economia nas sociedades mais avançadas, a atenção das pessoas voltar-se-á cada vez mais para outro tipo de necessidades, numa lógica de ascensão na escala das mesmas, passando a ser dada cada vez maior importância aos domínios da cultura, da arte e da qualidade das relações dos seres humanos consigo próprios e com os outros.
Neste contexto, fará todo o sentido que as pessoas de maior idade deixem de ser um peso para a sociedade, quando entendidos como agentes inactivos no conjunto da produção económica comum, já que estarão mais do que nunca aptos a contribuir para o enriquecimento humano das colectividades em que se inserem, dada a bagagem cultural já alcançada com o decorrer dos anos, o que será extremamente valorizado nas épocas futuras. Se a predominância do esforço físico e do trabalho braçal já foi ultrapassada na época que presentemente se vive, com o desenvolvimento do sector terciário e da tecnologia avançada, no entanto, ainda se dá excessiva importância à aquisição de bens materiais, porque a sede de consumo, iniciada em épocas anteriores de grande carência, está longe, por ora, de se encontrar totalmente saciada.
Logo que enfraquecer a corrida para aquisição das coisas que presentemente se desejam, tornar-se-ão elas cada vez mais baratas, tendo em conta a lei económica de oferta e procura, e os investimentos na produção nesses bens deixarão de ser vistos como interessantes. A era do consumismo tenderá, pois, a morrer e as pessoas contentar-se-ão com uma vida material confortável, mas sem excessos em termos de luxo ou de miséria.
A atenção dos homens e das mulheres voltar-se-á para a exaltação dos dons criativos de cada um, e para o crescimento harmonioso dos conjuntos sociais, tendo em conta o cultivo da qualidade de vida das pessoas, dada a ênfase que então se dará ao lazer, entendido este agora como aquele que resta para lá do tempo de actividade laboral remunerada, que nesse futuro será cada vez mais curto.
O auto-conhecimento, pressuposto essencial da felicidade e evolução humanas terá assim maior probabilidade de ser prosseguido, dado que serão aos aspectos interiores e psíquicos da personalidade a prevalecer nas preocupações e investimentos próprios de cada pessoa, que terá mais facilmente garantido o suporte físico e material da vida.
Até que tudo isto se verifique, o que revolucionará a nossa perspectiva sobre o envelhecimento do ser humano, vemos na sociedade actual o lugar dos velhos como secundário para o desenvolvimento comum, e depreciada a condição de idoso. O hedonismo reinante valoriza a sensualidade, a força e a beleza da imagem, considerando como contrária a tudo isto a ideia de velhice. O lugar que, nas sociedades tradicionais, o ancião ocupava no contexto das comunidades de vida, como guardião da história comum e sinal de sabedoria acumulada, desapareceu numa sociedade onde o conhecimento se perpetua não pela via do relato oral transmitido de geração em geração, mas através da instrução formal proporcionada pela escola e pelos diversos meios de comunicação social, a que a população vai tendo acesso de forma generalizada.
Se antigamente, o alcançar uma idade avançada era um acontecimento raro e por isso alvo de admiração por parte da colectividade, com a melhoria das condições de vida das nossas sociedades actuais, o envelhecimento é um fenómeno comum e até criador de problemas sociais, dada a protecção que se impõe fazer a quem deixa de produzir bens económicos. A aceleração crescente das vidas em sociedade, dada a necessária competitividade entre as economias em jogo e os seus vários sectores, faz ainda ressaltar esta desvalorização sentida para com os idosos, cujos corpos não acompanham com tanta facilidade a rapidez e dinamismo que se impõem.
O materialismo é, pois, a tónica ideológica do mundo em que presentemente vivemos e por isso olhamos para a velhice da forma que atrás indicámos. Quando se chega à idade de reforma, julgamos já não se servir para nada, de ter chegado a época de descanso, retiramo-nos da dinâmica costumeira e por arrastamento, afastamo-nos da vida. A solidão e a depressão passam a ser fenómenos comuns nestas circunstâncias, porque os laços que antes criámos desaparecem e não sabemos criar outros. Todas as ideias que absorvemos em relação a esta fase da vida reforçam esta desvalorização que sentimos e, pouco a pouco, sentimo-nos morrer, recusando a fase que estamos a viver. A nostalgia dos tempos passados, como portadores de tudo o que de bom existe, assalta-nos como de sentimento natural se tratasse e quase nos envergonhamos das rugas que o nosso rosto revela. Queremos parecer mais novos, como se isso nos desse o estatuto perdido e nos devolvesse à vida que julgamos ver desaparecer.
Envolvidos em toda esta ilusão, não nos apercebemos que muito daquilo que a vida contém por explorar, está mais do que nunca ao nosso alcance e que a diminuição de actividade física, possibilita um maior contacto do ser consigo próprio, aumentando-lhe as oportunidades de se auto-conhecer. A dimensão espiritual poderá então ser mais trabalhada e o investimento em novos interesses de índole intelectual ou artística poderá agora ser maior. Se a vida trepidante de outrora, exigida pelos imperativos de natureza profissional, nos permitia a sobrevivência, talvez também nos arredasse do fundamental, ou seja, da relação íntima do ser consigo próprio, configurando assim, mais do que uma actividade humana bem conseguida, uma preguiça activa, porque reveladora da fuga ao trabalho interior que a vida pede a cada um de nós, embora o corpo se movimente.
Estar activo não é, pois e apenas, trabalhar objectivamente, criando obras facilmente visíveis no mundo exterior, mas e fundamentalmente actuar-se de forma consciente, ou seja, utilizando os recursos internos de natureza criativa, que nos liga inteiramente àquilo que fazemos, realizando-nos por isso, porque seremos uma unidade ontológica em todas as intervenções e obras.
Se somos tentados na fase da reforma a deixar de actuar em relação a nós e ao meio social, é porque o viver que tínhamos antes era determinado muito mais por uma necessidade imperiosa de sobrevivência, que nos forçava a um trabalho obrigatório, mas não assumido interiormente, como fonte de satisfação e sinal de criatividade. Passivamente, deixávamos correr os dias de acordo com um programa imposto de fora para dentro, repetindo os gestos e comportamentos que a realização do trabalho remunerado exigia. Cindidos, não púnhamos alma naquilo que fazíamos e apenas os nossos corpos e habilidades aprendidas executavam por fora aquilo que não tinha correspondência ao nível do sentir. Se assim não fosse, como se poderia explicar a tendência para a inércia e imobilidade das pessoas que entraram na situação de reforma? Habituámo-nos a que fossem os outros, as circunstâncias e a sociedade em geral que determinassem o essencial das nossas vidas e esta atitude passiva reflecte-se na imobilidade a que nos remetemos, logo que não nos obriguem a mexer e a interagir. Sem interesses criados, por demissão pessoal da responsabilidade de se encontrar o sentido para a própria vida, esperamos que continuem a ser a sorte ou o destino a dar-nos a felicidade nunca encontrada e ficamos parados, sem utilidade nem para nós nem para os outros. Pelo contrário, se tivesse sido outra a postura mental anterior, sempre que findas as nossas vidas profissionais, sentiríamos apelo para continuar a agir, de forma a rentabilizarmos as capacidades individuais, em prol de nós próprios e do bem comum. Não teria de ser necessariamente através do trabalho remunerado, mas sim como dádiva pessoal daquilo que fôssemos, após um trajecto de vida já feito de forma criativa e autónoma.
Todo o capital humano inerente a cada vida, desperdiça-se de facto sempre que vivemos apenas à periferia do nosso ser, remetendo para o acaso e para a força das circunstâncias o rolar dos acontecimentos e isso evidencia-se notoriamente no quadro vigente, de uma multidão de idosos que se consideram com direito à inactividade e à ausência de participação cívica, muito embora possam estar ainda de posse das suas capacidades físicas e mentais, não esquecendo contudo as condições de vida de grande parte das gerações mais velhas, que não tiveram acesso aos requisitos mínimos de escolaridade que possibilitassem a descoberta e criação de interesses individuais.


Margarida Branco

Publicado por ferguida às março 5, 2006 10:33 PM

Comentários

Parabéns, gostei bastante do texto.
Vão ver o meu G bloG.
É bem simples.

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Publicado por: Victo da Silveira em abril 29, 2006 09:12 PM

Very true! Makes a chnage to see someone spell it out like that. :)

Publicado por: Channery em novembro 15, 2011 11:42 PM

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