« outubro 2005 | Entrada | março 2006 »

dezembro 29, 2005

A ROTINA

As rotinas do nosso quotidiano inserem-se num processo constante de criação e destruição, de fazer e desfazer, fazendo lembrar os ciclos de morte-vida, em que tudo se insere neste plano de existência.
Assim, repetimos os mesmos procedimentos todos os dias, como condição de sobrevivência, como se importasse manter o suporte físico em condições adequadas, para que a vida se vá processando, para que a aquisição de consciência se vá fazendo.
Vejamos que precisamos de comer diariamente, mesmo que logo a seguir expulsemos muito daquilo que comemos, através da evacuação. Todos os dias nos lavamos, embora sabendo que no dia seguinte o processo orgânico obrigará a nova higiene. Usamos as roupas que cobrem o nosso corpo, que terão por isso de ser repetidamente lavadas, para se poderem usar e logo a seguir sujar de novo.
Estes ciclos são intermináveis, enquanto habitamos um corpo, fazendo lembrar que mais do que o resultado em si, o que importa é a consciência que se põe nas coisas que se manipulam, consciência esta que se alcança através da interacção entre realidades diferentes. Assim, todos os procedimentos quotidianos enunciados se inserem num processo de troca entre a matéria e o ser pensante, e aquilo que parece não levar a lugar nenhum, permite a manutenção da vida terrena, pois é com vista à subsistência do corpo que esses procedimentos se efectuam.
Vivendo nós num mundo de ilusões, onde o campo dos efeitos sobreleva o das causas, parece-nos desencorajadora esta indispensável actividade diária, que se repete necessariamente, sem evidenciar um resultado visível e destacado.
Parece, pois, que o que importa é viver, sabendo que o que se alcança com a vida está para além dos resultados concretos e materiais, isto é, visa ela, através das experiências que possibilita, o aumento do grau de consciência dos seres viventes.
Importa, pois, mais do que a acção em si, a intenção e atitude com que é feita, que denota o grau de consciência com que a mesma é executada. O estado mental subjacente, como princípio criador que é, origina, por sua vez, a manifestação da realidade individual e colectiva, podendo esta ser medida pelo conjunto de realizações conseguidas pelos seres humanos. Conforme seja o grau de consciência de cada um, assim se verão os frutos correspondentes em obras e trabalhos conseguidos.


Margarida Branco

Publicado por ferguida às 08:04 PM | Comentários (3)

dezembro 11, 2005

O EGOÍSMO

O egoísmo e o altruísmo são consideradas como duas faces opostas do comportamento humano. O egoísmo será a concentração e o fechamento no ego, correspondendo este à face exterior e superficial da realidade ontológica do homem e da mulher e o altruísmo, por seu lado, reflectirá a atenção e amor aos outros, em resultado de uma visão mais profunda do eu.
Quando polarizado no ego, o ser enfatiza a ideia de separação dos demais e do ambiente circundante e tenta preservar a todo o custo essa ilusória realidade, canalizando para si todos os recursos e energias, julgando que, com isso, preservará a sua preclitante identidade. Considerará, assim os seus interesses pessoais como prevalentes e em oposição aos dos outros e acima de tudo quererá desfrutar dos prazeres da vida, mesmo que à custa da privação dos mesmos por parte das pessoas alheias.
O aprofundamento ontológico da identidade humana é um trabalho infindo e, se uns já fizeram muito caminho e se encontram numa fase mais adiantada do processo de auto-conhecimento, outros há que ainda não o fizeram tão completamente. Estão estes apenas conectados com a personalidade primária, o ego, que se restringe às sensações, emoções e pensamentos ligados aos cinco sentidos, ao intelecto e a toda a materialidade do mundo. Negam a existência, por desconhecimento, de zonas mais subtis e espirituais do ser humano, onde o universo imenso constitui o interior de cada um, e onde a vida se descobre, por auto-conhecimento. Nestas dimensões íntimas, a realidade individual é também o Todo, sendo a ideia de separação convertida à de Unidade.
Quem se afiniza com esta zona mais substancial e originária do Ser, passa a ligar-se intimamente à vida e esse amor, dirige-se então a tudo o que se manifesta, quer seja ele próprio, sejam os outros, o seu meio ambiente ou mundo em geral. Torna-se assim maior, ao incluir em união ele e os demais, percebendo que a sua felicidade e evolução só poderá atingir-se através do serviço pelo bem comum. Aquilo que antes o impulsionava a cuidar do seu ego, numa atitude de alheamento em relação aos interesses alheios, transforma-se numa convicção interior de que aquilo que é bom para si terá de o ser também para os outros habitantes deste mundo, e o egoísmo inicial começa a dar lugar ao denominado altruísmo, que é o amor em movimento e manifestação, que ao une em vez de separar.
Percebe-se, assim, que as pessoas se tornam egoístas, por insegurança e medo, dada a concepção que têm de que os outros e o ambiente poderão transtornar o seu anseio por reconhecimento e afirmação como indivíduos. A atitude torna-se, então, defensiva, e a única preocupação é a realização dos seus próprios interesses e necessidades, com exclusão dos que respeitam ao que lhes é alheio. Há, pois, que entender que, quando alguém revela sinais de egoísmo, possessividade, apego, rejeição ou intolerância, considera-se identificado com a ideia de divisão entre as partes, o que por ser tão contrário à natureza essencial da realidade, lhe cria sentimentos de insegurança.
Contribuindo, assim, para a exclusão, trazem ao mundo dor e sofrimento, em vez da união ou o amor que todos buscam, consciente ou inconscientemente. Se assim procedem, é porque não alcançaram ainda uma compreensão mais consentânea com as leis da vida, que apelam à união, como fonte de criatividade e harmonia.
Conclui-se, então que não há que julgar os comportamentos humanos, mas sim compreendê-los. Todos nós agimos na base da percepção alcançada e fazemos aquilo que conseguimos fazer, a partir daquilo que o nosso olhar alcança. O egoísta distingue-se do altruísta, apenas pelo grau de intervenção feita na base dessa compreensão. Aquele vê menos, porque julga ser a vida apenas o que os seus sentidos objectivos lhe mostram, acentuando a ideia de conflito entre as partes manifestadas. Quem consegue comportar-se de uma forma diferente, trazendo a quem o rodeia maiores benefícios e atenção, alcançou uma perspectiva mais abrangente, que abarca o conhecimento e a experiência dos vários planos do ser. Descobriu, assim, que a sua identidade pessoal e a auto-realização são indissociáveis da evolução dos demais, já que no universo interior descoberto, não há divisões, mas tudo reverte à unidade de todos os seres.
Quer num caso, quer no outro, procura-se a realização e afirmação pessoais, acreditando o egoísta que, para tanto, cada um deve buscar a satisfação dos seus próprios interesses em antagonismo com os demais e concluindo o altruísta que o seu interesse pessoal se liga aos da humanidade no seu todo.
Não haverá, pois, que assacar culpas a quem quer que seja, pois, ninguém pode dar aquilo que não tem, e cada um procede em consonância com aquilo que é. Apenas há que crescer e evoluir, de forma a melhor nos conhecermos e assim alcançarmos a totalidade daquilo que somos e não nos confinarmos ao que erradamente julgamos ser. Somos maiores do que podemos perceber e no fundo de nós reside o amor, a liberdade e a alegria que é a celebração da vida, onde os segmentos desaparecem, e tudo é em unidade.


Margarida Branco

Publicado por ferguida às 03:24 PM | Comentários (4)