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julho 08, 2005

O GRANDE E O PEQUENO



A facilidade e intensificação das redes de comunicação favorecem a identificação pessoal. O ser define-se através do confronto com o alheio, com o outro. O estreitamento de horizontes, o fechamento no ego e no grupo restrito, impede o desabrochar das potencialidades humanas, a construção individual. Se queremos assumir a nossa verdadeira especificidade, mediante o exercício da autonomia individual, teremos de livremente trocar experiências diversificadas, de forma a descobrirmos a contribuição própria que temos a dar na construção da generalidade do mundo em que vivemos.
É por isto que, se constata que, à medida que a globalização se acentua nas sociedades actuais, maior é o investimento na definição das realidades locais e regionais. É como se, a segurança alcançada por uma inserção mais conseguida na amplitude mundial, permitisse a realização mais individual, mais ao nível das populações, das pessoas. Claro que falamos da globalização em si, e não no sentido que lhe pode ser dado pelos actores sociais e políticos, mais propriamente, aqueles que têm poder para a orientarem no sentido que lhes convém. A liberdade que a expansão denota, possibilita a liberdade de expressão individual e grupal. O alargamento da expansão, origina o aprofundamento da realidade em todos os níveis de expressão, sendo ambos os factores necessários a qualquer processo de crescimento. Só se fica maior, se se crescer em ambas as direcções da cruz do Ser, isto é, se se investir nas suas linhas horizontal (que permite o alargamento) e vertical (que se prende à ideia de aprofundamento).
Ao tornar-se o mundo mais global, porque mais interactivo, cada um dos seus elementos poderá construir a sua própria realidade, porque lhe é facultada uma expansão de si, um maior alargamento. Percebe-se, então, que o pequeno está intrinsecamente ligado ao grande e que aquele só se define, desde que integrado no outro. Sem a consciência do grande, o pequeno não se reconhece, fazendo-o apenas quando se apercebe que o grande e o pequeno não existem senão na ilusão das nossas mentes, confundindo-se ambos numa coisa só – a Vida.
Nesta linha de reflexão, concluímos que, quanto mais nos abrirmos para a amplitude de experiências que a vida comporta e faculta, mais poderemos evoluir, porque pomos em andamento e concretização aquilo que são as faculdades próprias, actualizadas mediante o conhecimento e a liberdade que alcançámos.
Esta postura originará um incremento da evolução geral, já que serão cada vez mais diversificadas e generalizadas as iniciativas individuais e grupais que se reflectirão no conjunto colectivo.
A prevalência da estrutura sobre o indivíduo, que caracterizou as sociedades pré-industriais, e que ainda se verifica em determinados contextos que resistem à mudança sociológica entretanto alcançada na generalidade do mundo ocidental, obstaculizava a realização pessoal, já que os papéis sociais e os comportamentos, eram impostos em função do interesse do grupo, da comunidade, a quem cada um se deveria sujeitar, em nome da coesão do conjunto. E esses grupos e comunidades eram percepcionados como separados dos restantes, formando como que ilhas isoladas, sem abertura para o resto do mundo que então era desconhecido. As especificidades, as diferenças, não eram consideradas, mas apenas importava o núcleo integrador, que se procurava acima de tudo preservar, por receio de perda, decorrente de uma limitação de contactos, de uma estreiteza de horizontes, cingidos apenas aos familiares, aos vizinhos próximos e aos habitantes de um mesmo povoado. A iletracia e o imobilismo contribuíam também para esta situação. O poder autocrático e a direcção autoritária fazia prevalecer a realidade superior, em detrimento da considerada inferior, que era diminuída e anulada. A desigualdade social era a lógica em que tudo se baseava.
Nas sociedades modernas, a democracia política, tendo como pressuposto ideológico a noção de igualdade entre todos os cidadãos, origina o estabelecimento de parcerias, que substitui uma gestão exclusivamente orientada de cima para baixo, em termos de um esquema piramidal, permitindo e suscitando a autonomia, inspirada no individualismo sociológico, que é apanágio da modernidade.
A auto-determinação é pois promovida, originando a projecção do ser humano no mundo maior em que se insere e com o qual estabelece relações que enriquecem ambas as partes.
Desta forma, tender-se-á cada vez mais para para a realização pessoal, que advém da descoberta daquilo que é a verdade de cada um, descortinada na relação do indivíduo consigo próprio e com o mundo maior, entretanto descoberto, que o ultrapassa e transcende, mas que subjaz à sua experiência pessoal.

Margarida Branco


Publicado por ferguida às 10:24 PM

O SOFRIMENTO


O sofrimento e a dor fazem parte intrínseca da vida, assim como o fazem sentimentos e emoções mais positivos como a alegria e a felicidade.
Num mundo dual, onde as polaridades opostas definem toda a realidade, a tristeza e a alegria terão também de integrar o quotidiano das nossas vidas. Não podemos pretender que haja só dias de sol, porque a chuva também é necessária. A sabedoria a encontrar será, pois, a de acolhermos como inevitáveis estas oscilações naturais, se queremos acertar o passo com a vida, condição necessária para se ser feliz.
É verdade que o sofrimento e a dor parecem distantes do estado de felicidade a que aspiramos naturalmente e que constitui a razão de ser de todos os nossos comportamentos e atitudes. Parece, por isso, insensato que pretendamos acolher esses estados de espírito em pé de igualdade com aqueles que nos fazem felizes num determinado momento.
Acontece, no entanto, que a construção da felicidade é uma tarefa infinda, que exige empenhamento e habilidade para ir sendo paulatinamente delineada. Se a fuga àquilo que nos faz sofrer é um imperativo moral, porque nascemos para ser felizes e não para o contrário, é também necessário que tenhamos coragem de aceitar aquilo que não pode ser mudado, como condição para se estar em harmonia com a vida e com todas as suas contingências e leis. Se a luz e as trevas existem também teremos de passar por dificuldades e provações, para enxergarmos a luz ao fundo do túnel. De nada vale querermos as coisas de outra forma, porque essa é a lei da vida que nos reserva a almejada felicidade, quando tivermos já transcorrido o caminho dos socalcos que se orientam ora para cima, ora para baixo.
Teremos, então, de ir aprendendo com aquilo que nos dói, para que o mal não se repita, na presunção de que os nossos sofrimentos, na sua origem, decorreram da violação das leis da vida. Em cada provação, deve ser feita interiormente a pergunta sobre a lição a aprender, de forma a que as acções futuras comportem maior acerto. Nós somos vida e toda a actuação que lhe seja contrária, virar-se-á igualmente contra nós, originando angústias, doenças, solidão e mal no conjunto do mundo. Importa, então, irmos ao encontro da ordem e inteligência do universo, de que somos agentes e partes, para que a vida deixe de conter as oscilações inerentes ao plano de existência em que nos situamos. Para isso, é necessário dispormo-nos a um trabalho sobre nós próprios, de forma a descobrirmos as leis naturais que operam na imensidão do mundo, e assumirmos a condução do nosso viver quotidiano em consonância com essa harmonia absoluta. Até lá, não nos furtemos àquilo que temos de viver para acertarmos o passo, aceitando amorosamente e com igual serenidade os dias de sol e os de escuridão. Se, pelo contrário, nos agarrarmos àquilo que nos dá prazer, temendo a polaridade oposta, nunca seremos felizes, porque a insegurança espreitará mesmo quando estamos alegres, pelo receio de que a dor possa surgir. A aceitação e exploração da variedade das experiências que enfrentamos, confere-nos um estado de realização mesmo sofrendo, enquanto que se recusarmos as experiências, optando pelo prazer imediato e pela fuga à dor incontornável, seremos infelizes, mesmo desfrutando aquilo que de momento nos apraz.
A dor é potenciada sempre que se oferece resistência, com sentimentos de revolta. A aceitação serena daquilo que não pode ser mudado, apazigua a mente, trazendo benefícios evidentes. Aliás, isso representa amor à vida que assim se manifesta, o que significa igual amor a nós próprios, condição básica para sermos felizes.
Somos aquilo que sentimos e a dor ou sofrimento - assim como os sentimentos de índole mais positiva -, correspondem a emoções que se inscrevem nos nossos seres e que nos conferem consciência, tendo por isso as dificuldades por que passamos, o mérito de nos alertar intimamente para aquilo que nos distancia da vida e das suas leis. Se não nos antecipámos aos acontecimentos, coordenando as nossas actuações em conformidade com os ditames universais, a consciência da dor faz-nos entender aquilo que de outra forma não perceberíamos. É esta a função daquilo que à partida recusamos e que gostaríamos que não acontecesse, e que no fundo é sinal de algo incorrecto, tal como a doença decorre da violação de uma lei natural.
Percebamos, enfim, que todas as circunstâncias servem para a nossa evolução humana e que a vida essencial permanece incólume perante os nossos erros, porque Ela é aquilo que é. Somos nós os únicos prejudicados e se queremos fazer o caminho mais suave no regresso à casa que buscamos, se queremos evoluir sem muito sofrimento, procuremos respeitar aquilo que subjaz à dinâmica de tudo quanto se revela e existe.


Margarida Branco

Publicado por ferguida às 09:36 PM