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abril 27, 2005

Construção e destruição


CONSTRUÇÃO E DESTRUIÇÃO

A união que desejamos que se realize no mundo, nada tem a ver com a intromissão em realidades alheias em nome da unidade que almejamos. Muitas vezes, esta confusão leva a que, no âmbito das relações afectivas, haja uma tendência à apropriação do outro, pensando-se que isso é amor. Em seu nome, exigem-se determinados comportamentos, em função de expectativas criadas, que queremos ver realizadas para que o nosso vazio se preencha à custa do outro, esperando-se que este se paute em função daquilo que consideramos como condição para o relacionamento se mantenha. Surge então o apego e a dependência, que não liberta nem aquele que julga amar nem o sujeito a quem esse sentimento se dirige.“Não posso viver sem ti”, expressão que inspira todo o tipo de romances e novelas, denota o quanto remetemos para o outro a responsabilidade do preenchimento das nossas vidas e felicidade. É de facto difícil, porque exige um trabalho sobre nós próprios, aceitarmos que a responsabilidade de sermos de uma ou outra maneira, de vivermos bem ou mal connosco próprios, compete-nos fundamentalmente. Assacarmos aos que nos rodeiam a causa das nossas angústias e problemas, aliena-nos e evita o confronto com as dificuldades que temos a superar, que julgamos resultarem da forma como alguém se comporta para connosco. A interacção que se vai estabelecendo entre as pessoas, poderá facilitar ou dificultar a resolução dos problemas de cada um. Os outros contribuem, de facto, para uma mais fácil ou difícil consecução da felicidade pessoal procurada. No entanto, só nós poderemos gerir essas diferentes circunstâncias para que a construção interior se faça. As experiências com os demais são apenas instrumentos para a realização desse trabalho pessoal e solitário.
Nas famílias de modelo tradicional, esta noção do grupo como realidade que se impunha ao indivíduo, em nome de uma união familiar, impedia que cada um se evidenciasse de forma única, sobretudo se em contradição com o que o conjunto dele esperava e que considerava dever fazer-se. Então, as frustrações, a incapacidade de auto-realização eram a norma. Todos tinham de se comportar não só de acordo com os ditames familiares, mas também em consonância com regras rígidas de âmbito social e comunitário.
As sociedades modernas do mundo ocidental, ao introduzirem a noção de individualismo sociológico, inverteram esta tendência arcaica e passou a permitir-se, num espírito de liberdade, a expressão de cada pessoa, dentro dos parâmetros legais e institucionais, que facilitem o exercício dessa liberdade não só a alguns, mas a todos.
Julgamos, pois, que a união ou amor que se procura realizar no mundo e que constituirá o cerne de realização humana, nada terá a ver com este atropelo de personalidades, que se diluem no grupo ou comunidade, em nome da coesão dos mesmos, mas antes será a manifestação, em harmonia, porque em total respeito por cada um, das diversas realidades que, evidenciando as suas pecularidades, constroem uma realidade maior e mais rica.
Terá, assim, de ser permitido, num clima de liberdade - dentro de regras de âmbito colectivo que acautelem os direitos de todos os cidadãos -, o crescimento individual, que permita que o mundo seja a revelação de cada uma das particulares contribuições de cada ser humano.
É este o sentido que deveremos buscar nos relacionamentos a ter uns com os outros, nomeadamente no casamento, que antes de tudo deverá procurar a autonomia de cada um dos pares, para que assim se descubram como seres únicos e se possam então realizar individualmente. O amor, ou seja, o respeito por essa liberdade pessoal e o desejo e a acção em vista do bem-estar e crescimento do outro, facilitará essa busca de autonomia e construção pessoal.
Podemos perceber melhor esta perspectiva, se reflectirmos no fenómeno de destruição que se segue a um embate violento entre dois corpos ou realidades materiais. Não se trata aqui de união, mas antes alteração violenta do estado em que se encontrava um corpo ou manifestação física, pela intromissão de algo que não permitiu a livre circulação e existência dessa mesma entidade material.
De igual forma, se em nome da coesão relacional, assim procedemos nos contactos tidos com os outros, estaremos a impedir que a pretendida união se estabeleça, a qual decorre sempre da inter-relação de agentes livres e únicos em termos de expressão própria.
Então, poderá falar-se de amor, que é a nergia construtiva que estabelece a harmonia entre as partes.


Margarida Branco

Publicado por ferguida às 12:12 AM

abril 04, 2005

PERSPECTIVAS DE VIDA


A grande generalidade das pessoas vive ao nível da sobrevivência física e psicológica. Movidos por impulsos instintivos, adaptam-se ao meio, vivendo ao sabor das circunstâncias, procurando furtar-se aos sofrimentos e explorando na medida do possível os prazeres que se proporcionem. O seu comportamento é fundamentalmente reactivo e uma intervenção de outro tipo é difícil de encontrar. Olhando passivamente para o que se lhes depara, procuram apenas corresponder às necessidades básicas para se manterem vivos. Trabalham para assegurar o seu sustento e o dos lhes estão dependentes, e a diversão que procuram têm em vista a alienação das dificuldades da vida. Logo que se sentem incapazes de exercer uma actividade produtiva de índole material, quer por doença ou idade, arrastam os seus dias numa inacção notória, porque julgam ser esse o papel que lhes corresponde. Por não se terem habituado a desenvolver as suas potencialidades internas, não intervém no mundo de forma criativa e numa fase mais adiantada, julgam ter direito apenas a recolher os frutos da vida passada, mediante um descanso considerado merecido pelos trabalhos já feitos em tempos idos.
O nível de consciência reduz-se à sua estrita realidade pessoal, pelo que não sentem impulso para intervir para além do seu círculo estreito de relações imediatas situadas ao nível da família ou vizinhança.
Desta forma, são acometidos muitas vezes de graves sentimentos de solidão e angústia, por não corresponderem ao apelo natural da vida, que exige de nós uma constante intervenção criativa e um relacionamento diversificado com o mundo e as pessoas.
A estreiteza de horizontes torna impensável a dedicação aos outros que não sejam parentes ou amigos próximos, dado que a consciência não ampliada, considera todos os outros apenas estranhos, com os quais nada têm a ver.
O egoísmo é, pois, uma forma natural de ser, dado que apenas o ego tem existência e tudo se pauta pela defesa em relação às agressões que possam fazer periclitar a solidez dessa construção egocêntrica.
As relações entre as pessoas são, por isso, pautadas pelo apego ou rejeição, conforme correspondam ou não às necessidades de segurança que, procuram a todo o custo satisfazer, por conceberem a vida como uma luta onde os perigos de derrota espreitam a toda a hora. Por terem a ilusão de que essa segurança depende exclusivamente de circunstâncias exteriores, e não de uma solidez ontológica, decorrente de um trabalho e exploração interiores, vêem ameaças em todo o lado e por isso, consideram amigos aqueles que lhes satisfazem os seus próprios interesses e inimigos todos os que não correspondem às suas necessidades.
Tudo isto se alicerça numa falta grande de auto-estima, por ausência de construção pessoal. A superficialidade de vida, conotada sobretudo com anseios de realização material, deixa o ser humano aquém das suas amplas potencialidades, criando-lhe um vazio interior, que origina uma descrença em si próprio. A insegurança então instala-se e os conflitos consigo próprio e com os outros, são o sinal dessa insegurança.
Se, contudo, o homem ou a mulher começarem a assumir mais declaradamente a responsabilidade da condução das suas próprias vidas, a harmonia pode ocupar o lugar do conflito, dado que perceberão que mais do que as circunstâncias em si, importa ter sobre elas uma visão adequada, de forma a que não nos limitem, mas que permitam um crescimento interior, pela ajustada intervenção sobre elas mesmas. Em vez de se culpar o destino ou a má sorte pelos males que nos acontecem, compreende-se que a condução das nossas vidas depende antes de nós e que aquilo que nos acontece resulta em grande parte das nossas opções, porque mesmo aquilo que é inultrapassável pode ser vivido de forma de maneira a possibilitar a construção pessoal, que é geradora de felicidade.
Esta outra perspectiva, alarga os horizontes interiores, porque a acentuação do desenvolvimento das capacidades internas, permite que o ser faça uma ligação maior com a vida que descobre em si e o seu estreito ego torna-se mais amplo, passando a serem importantes valores condizentes com níveis mais profundos da personalidade humana. O egoísmo começa a propender para o altruísmo, porque se passa a incluir em si a realidade alheia, como parte da amplitude da vida então descoberta, sendo inevitável a tendência para uma intervenção criativa no mundo, a partir das capacidades descobertas pelo trabalho sobre a personalidade.

Margarida Branco

Publicado por ferguida às 10:56 PM