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março 26, 2005

OPTIMISMO E PESSIMISMO

OPTIMISMO E PESSIMISMO

A realidade é vista através dos nossos olhos e por isso concebemo-la de uma forma mais optimista ou pessimista conforme seja a nossa tendência pessoal num ou noutro sentido. Se propendemos para o optimismo, vemos o melhor que as coisas têm, acreditando num futuro melhor, embora o que no momento se apresenta pareça não apontar nesse sentido. Acredita o optimista que as dificuldades presentes não impedirão que as forças positivas convertam os problemas em potencialidades auspiciosas, o que se afigura aos olhos do pessimista como meras quimeras irreais, porque considera as dificuldades como inultrapassáveis e com tendência a agravarem-se.
Não negando o que de mal acontece, o optimista considera que tudo acaba se transformando para melhor, e que a orientação dos acontecimentos redundam ao fim e ao cabo em algo de construtivo, pesadas embora as dificuldades e erros do presente.
É muito comum ouvir dizer-se que “o mundo nunca esteve tão mal como agora”. Trata-se de uma conclusão nitidamente pessimista, que acentua a ocorrência dos males conhecidos, esquecendo-se das vitórias e conquistas civilizacionais entretanto e paralelamente alcançadas. Se a globalização e os meios de comunicação social cada vez mais desenvolvidos, possibilitam um conhecimento generalizado de tudo o que se passa no mundo, ao sabermos das guerras, corrupções e desentendimentos nos diferentes países, tomamos o todo pela parte e concluímos tudo estar cada vez pior.
Convém ter em conta que, sendo a humanidade ainda muito imperfeita, já grandes conquistas civilizacionais foram no entanto alcançadas, trazendo ao mundo em que vivemos uma maior sensibilidade aos problemas das pessoas, cujos direitos foram em meados do século XX consagrados em norma internacional. Claro que estamo-nos situando na sociedade ocidental, porque no resto do mundo ainda não se atingiu esse nível de desenvolvimento humano. Os estados de direito são já uma realidade consolidada em toda a civilização ocidental, o que é acompanhado por uma considerável riqueza económica, trazendo maior bem-estar material aos povos respectivos.
Importa, pois, fazer uma análise circunstanciada e abrangente, para se poder fazer um diagnóstico consentâneo com os resultados tidos até ao momento.
Ao conjecturarmos no pior sentido, é como se sentíssemos alguma insegurança pessoal propendendo para a imaginação de cenários que condizem com os nossos temores. Se estivermos minimamente confiantes em nós próprios, acreditando nas nossas possibilidades próprias para crescermos e melhorarmos, transferimos essa postura para as perspectivas sobre aquilo que nos rodeia e o optimismo manifesta-se como tónica de postura.
A falta de auto-estima que na grande generalidade das nossas infâncias nos foi incutida, conduz a uma visão pessimista, já que a falta de crença nas nossas capacidades que a ausência de amor-próprio origina, leva-nos a projectar essa mesma descrença em tudo o que vemos acontecer ao nosso redor.
A educação que tivemos assentava sobretudo na crítica, no ralho e no castigo, achando-se sempre pouco aquilo que a criança ou o jovem faziam. A auto-imagem que daqui resultou foi a de quem não consegue ser bem sucedido, que se revela também na vida adulta.
Para que o optimismo seja cultivado pelas novas gerações, os pedagogos insistem no uso e abuso do estímulo e elogio, para que o educando adquira a necessária confiança em si próprio, e por arrastamento venha a acreditar num mundo cada vez mais bem sucedido.
Tenderemos, então, a aceitarmos nos outros as suas imperfeições, já que de igual forma as aceitamos em nós. A auto-confiança permite que nos vejamos com maior tranquilidade, percebendo que nem tudo é perfeito na nossa personalidade, mas que queremos crescer e melhorarmo-nos. As imperfeições alheias deixam de ser apontadas como espelhos da nossa própria imperfeição que julgamos inultrapassável. A tolerância é, portanto, mais corrente nas atitudes daqueles que tendem para o optimismo, enquanto o pessimista deleita-se na crítica e julgamento daquilo que considera errado, porque são fundamentalmente os aspectos negativos que sobressaem aos seus olhos.
Ser optimista ou pessimista são pois diferentes posturas psíquicas, ambas realistas à sua maneira, embora cada um deles considere o outro irrealista, já que não vê a realidade conforme ele a concebe.


MARGARIDA BRANCO

Publicado por ferguida às 02:05 PM

março 24, 2005

INÉRCIA E MUDANÇA

INÉRCIA E MUDANÇA

A solidificação da energia, que origina o mundo físico, cria a ilusão de estabilidade, dado que as coisas materiais permanecem no tempo, com a forma de que se revestem, enquanto que os nossos estados de espírito, os pensamentos e as emoções, variam a todo o momento, fazendo crer numa maior instabilidade.
Vemos isso em toda a natureza terrena, quer se trate de corpos animais e humanos, ou de minerais ou vegetais, sendo o reino mineral, sem manifestação de vida orgânica, que revela maior duração. As pessoas, os animais e as plantas vão morrendo, enquanto as montanhas e planícies se mantém por muito tempo.
À primeira vista parece, então, que quanto maior é a solidificação e a inércia, mais estável as coisas são. E, com a visão obscurecida pelas nossas limitações humanas, agarramo-nos a essa pretensa segurança, furtando-nos à mudança, para que não se perca aquilo que num determinado momento existe.
É por essa razão que não entendemos que o processo é exactamente o oposto, isto é, o mundo da forma é altamente instável e precário, enquanto o do espírito permanece para além da morte física. As formas desaparecerão, mais cedo ou mais tarde e apenas existem enquanto o impulso evolutivo o permitir. Manifestar-se-ão para cumprirem a sua função de receptáculos da energia, mas assim como nascem e se desenvolvem, terão de vir a morrer, para originarem novas manifestações. Estamos no reino do perecível, onde a resistência à mudança é enorme, tendendo por isso para a permanência da forma, que cria a ilusão de estabilidade, a qual não é senão a negação da vida e da sua dinâmica.
Pelo contrário, dentro de nós, habita o espírito que cria sem cessar, mudando o ser humano a cada momento em vista da sua evolução. Só acompanhando este processo de mudança, podemos evoluir ontologicamente, embora seja preciso coragem para abandonarmos o que num determinado momento existe, para darmos lugar ao que de novo terá de surgir. Poderemos, então, sentirmo-nos inseguros, e preferirmos a ilusória estabilidade material, à perenidade da nossa construção interior.
Há que compreender tudo isto, para que a transição se opere da ênfase na quantidade ou no materialismo, para a predominância do reino da qualidade ou do mundo do espírito. Então, a quantidade não obscurecerá mais a qualidade, sendo antes o suporte a partir do qual a qualidade se exercerá e manifestará.

MARGARIDA BRANCO

Publicado por ferguida às 08:02 AM

março 22, 2005

SOBRE A EVOLUÇÃO DA SOCIEDADE OCIDENTAL

O caminho evolutivo do ser humano e do universo aponta para a unidade, que será atingida quando o tempo e o espaço deixarem de ser uma realidade e quando o material der lugar ao imaterial.
Independentemente de todos os aspectos preversos que aqui não importa considerar, o progresso alcançado na civilização ocidental revela sinais nítidos desse sentido procurado, dado que a globalização e a inter-relação que se impõem em todos os sectores da vida em sociedade tornam o mundo mais uno, menos parcelar e separado entre si, havendo repercussões nítidas e evidentes em todos os domínios, sempre que se verifica alguma intervenção numa determinada zona ou sector.
O trabalho em rede e a convergência simultânea de várias competências e abordagens na intervenção prática seja de que teor for, denotam esta interacção inevitável para que seja frutuosa a produção de riqueza e desenvolvimento.
Por outro lado, a sociedade do conhecimento que preside actualmente à conjuntura sócio-económica, assenta fundamentalmente no trabalho de natureza intelectual, que envolve o uso e exploração das ideias, da informação e da palavra, em contraposição à ênfase que anteriormente era posta na utilização do corpo e dos seus gestos, necessária ao exercício do esforço físico que se impunha na transformação dos aspectos mais densos da matéria. Isso verificava-se nas sociedades predominantemente rurais, onde era feito o trabalho da terra, e mais tarde nas sociedades industriais, onde os operários já não necessitavam de despender tanto esforço braçal para trabalharem com as máquinas fabris, embora a produção se baseasse sobretudo na relação entre o gesto corporal e o instrumento fabril. Esta nova fase de desenvolvimento criou os grandes espaços urbanos onde os novos operários se concentravam para acederem aos seus locais de trabalho. A mudança assim operada, como que libertou o homem da sua fixação ao solo, e a sobrevivência física deixou de ficar a isso exclusivamente confinada, já que o novo meio de produção de riqueza, não advinha mais da exploração directa da terra, mas sim da contribuição da maquinaria, que propiciava incremento produtivo, reduzindo o esforço físico necessário na fase anterior para se atingir igual nível de produção. Tal situação não deixou, contudo, de assentar predominantemente no trabalho de tipo braçal.
Mais tarde, com a descoberta da informática e das novas tecnologias, a intervenção directa e fundamental do gesto corporal do ser humano na produção de riqueza deixou de ser tão importante, e o trabalho passou a realizar-se a um nível mais imaterial, sendo relativamente diminuto o esforço físico, sobressaindo antes a capacidade de mobilizar e produzir informação e conhecimento. Teve, pois, que se desenvolver o trabalho intelectual, ou da mente, como que a apontar para a desmaterialização, termo aliás corrente na gíria informática. Ocorre-nos então o paralelismo com o reino do espírito, em contraposição ao materialismo, anunciando assim a etapa última da evolução da humanidade.
Como que querendo orientar-se nesse mesmo sentido, notamos que as inúmeras possibilidades dadas ao mundo através desta alta tecnologia, permitem que tudo se opere a um ritmo mais veloz, fazendo imaginar a diluição da dimensão do tempo, a que se agrega a de espaço, que se afigura cada vez mais dominável, através da inter-comunicação entre todas as partes do mundo pela comunicação social e as redes de transporte.

MARGARIDA BRANCO

Publicado por ferguida às 11:18 PM

março 17, 2005

Acerca da Sabedoria

Podemos ser tentados a confundir a erudição com a sabedoria, e julgamos que sábio é aquele que revela elevado nível de conhecimento e informação; somos muitas vezes também levados a pensar que o principal ingrediente para atingir a sabedoria, é o desejo incessante de descoberta, a busca permanente do bem, da beleza e da verdade.
Ser sábio, não passa necessariamente pelo acúmulo de informação; a sabedoria é acima de tudo qualidade de vida, que provém do entendimento profundo do sentido de tudo o que nos acontece e se passa à nossa volta. É também viver em harmonia, é saber como enfrentar e prevenir a dor, é viver com compreensão e amor.
Quando deixamos que o nosso coração se abra, a luz da inteligência aflore e compreendemos os outros e as circunstâncias, é-se naturalmente sábio. Assim na Bíblia, em Sabediria 6: 18-22, podemos ler o seguinte trecho: O princípio da sabedoria é o desejo sincero de instrução, mas o cuidado da instrução é o amor. O amor é a observância das Suas Leis e a observação dessas lei, é a consumação da imortalidade. A imortalidade aproxima de Deus, assim é que o desejo de sabedoria conduz ao reino eterno.
Sábio é aquele que detêm conhecimentos e que os põe em prática, procurando com o seu saber transformar para melhor a sua vida e a dos outros.
Krishnamurti diz-nos que: A sabedoria não é acumulação de informação e experiências, não se aprende em livros ou com pessoas. Sabedoria é o conhecimento do que é, momento a momento, sem acumulação. Somente a mente silenciosa, atemporal, pode “ter” sabedoria.

Fernando Gabriel Carreira

Publicado por ferguida às 10:00 PM

março 09, 2005

A Propósito da Auto-estima

Tendo em conta a constituição do ser humano, parece-nos lógico que todas as suas acções sejam inspiradas e baseadas no pensamento ou no plano mental. De facto, começamos por conceber uma ideia, para depois a concretizarmos. Por exemplo, o deslocarmo-nos num determinado sentido, pressupôs um desejo prévio de o fazer, ou seja, começámos por decidir andar antes de nos levantarmos. É como se se partisse do mais imaterial para o que é denso, como degraus a percorrer na manifestação do ser no mundo.
Assim sendo, a proclamada auto-estima só será possível se os pensamentos que abrigamos em relação a nós próprios foram positivos. Se a nossa auto-imagem contrariar esta tendência, as nossas acções reflectirão facilmente essa visão íntima de o ser para consigo próprio e a auto-realização será difícil de alcançar.
Viver-se-á, então, em círculo fechado e o sentimento de frustração acentuará a falta de auto-estima que está na origem desse sentir, a não ser que a pessoa esteja alerta, percebendo como actuar no processo em jogo, e se dispuser a fazer um trabalho sobre si própria.
Começará, então a agir sobre os diversos planos do seu ser, actuando sobre o pensamento ou dimensão mental, sobre os sentimentos ou plano emocional e sobre o seu ambiente físico, condizente com o plano onde o seu corpo se situa.
Terá, assim, que criar novas crenças sobre si próprio, arredando os pensamentos negativos que se habituou a ter e que definiram a sua auto-imagem. No entanto, pouca eficácia isso terá se tal incursão interior não for acompanhada de sentimentos condizentes, só possíveis se as acções concretas os validarem, isto é, só poderemos acreditar nessa nova visão sobre a nossa própria realidade se aquilo que fizermos estiver em consonância com os pensamentos novos que pretendemos alcançar acerca de nós.
Esta abordagem múltipla no sentido da mudança parte do pressuposto de que somos um todo e que a intervenção num dos aspectos da nossa personalidade se repercutirá nas suas outras dimensões, mas que a eficácia maior se alcançará quando fizermos intervir conjuntamente todas as partes num sentido determinado. Poderemos, de facto, acentuar predominantemente uma das dimensões humanas, o que terá influência natural nas outras, mas o equilíbrio que se almeja dependerá da atenção simultânea a todos os planos e não só a alguns deles. Se pretendo ser mais feliz, percebo que terei de desenvolver a minha auto-estima, mas poucos resultados terei se apenas me cingir ao auto-convencimento de que muito valho, se as minhas acções não reflectirem essa nova concepção. É como se eu estivesse a dizer para mim próprio uma coisa, mas tal não correspondesse à verdade, já que aquilo que eu faça venha a contrariar essa minha imagem criada.
Portanto, importa percebermos tudo isto e tentarmos ser coerentes connosco próprios se queremos alcançar consistência nas nossas convicções. Se buscamos a felicidade, como todo o ser o faz, teremos de estar bem connosco próprios, encontrando a tão propalada auto-estima, o que implica que os nossos pensamentos e sentimentos sejam construtivos, traduzindo-se contudo em acções concretas e visíveis, já que pouca realidade terão as construções interiores que não se revelem em actos palpáveis de transformação do mundo em que vivemos.
A inércia em relação a algumas das dimensões que nos habitam terá consequências pouco desejáveis, já que interessa explorar e trabalhar tudo aquilo de que somos feitos, para que a auto-realização e por arrastamento a realização colectiva, se verifiquem. A imperfeição do mundo decorre, nos parece, desta falta de atenção conjunta a todos os aspectos da vida, já que a tendência não é essa, mas antes a de explorarmos apenas alguns deles. Por exemplo, a civilização ocidental actual assenta predominantemente na dimensão material ou económica, que se encontra por isso bem desenvolvida. No entanto, os problemas com que as sociedades se debatem são imensos, talvez porque o aspecto espiritual ou seja a contraparte de toda a evidência material não tenha sido procurado. Contrariamente, a civilização oriental poderá ter procedido exactamente ao contrário, ou seja, se tenha detido na interiorização espiritual, desprezando a intervenção concreta na realidade material, visando a transformação do ambiente.
A nível individual, verifica-se o mesmo processo e se não procurarmos uma incursão no nosso mundo espiritual, no sentido de nos descobrirmos como seres em profundidade, e paralelamente actuarmos no mundo que nos rodeia, procurando contribuir para o conjunto da humanidade em conformidade com aquilo em que acreditamos, o nosso sentimento de realização não será descoberto e ficaremos sempre com a sensação de não gostarmos muito de nós, ponto de partida para amarmos a vida, incluindo nela todos os outros seres.

Margarida Branco

Publicado por ferguida às 11:37 PM