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oktober 31, 2004

COMUNICAÇÃO INTERPESSOAL 7

A procura permanente de reconhecimento é, por um lado, um mecanismo inconsciente do estabelecimento da comunicação; por outro, um processo essencial na construção da identidade pessoal.


A Eficácia da Comunicação

Sartre disse: “ Il suffit qu’autrui me regarde, pour que je sois ce que je suis.”. Frase banal ? Parece. No entanto ela encerra o sentido profundo da complexidade que envolve o processo comunicacional na sua dimensão interpessoal e social.
A procura permanente de reconhecimento é, por um lado, um mecanismo inconsciente do estabelecimento da comunicação; por outro, um processo essencial na construção da identidade pessoal. Na realidade a identidade individual depende profundamente e sempre da relação que estabelecemos no nosso quotidiano com os outros, e do reflexo desta, isto é, da imagem que eles nos dão de nós próprios. Esta imagem, real ou imaginária, antecipada ou apreendida, funciona como um retrato de nós próprios que constantemente olhamos para verificar se continuamos “parecidos”. Frente a um espelho olhamos a imagem reflectida, tentamos compreende – la e reconhecer nela o mesmo “retrato que os outros” fizeram de nós. Quando existe “coincidência de traços” naquilo a que poderemos chamar o “desenho de nós”, num processo imaginário onde ambos fossem passados em papel vegetal e sobrepostos, há equilíbrio, sensação de conforto e bem estar. Há aceitação de nós e dos outros, porque aquilo que julgamos ser coincide com aquilo que julgamos que os outros pensam que somos. Porém, nem sempre conseguimos uma justaposição dos “desenhos”. É neste contexto a que chamo dijunção esquemática da identidade individual que surgem as disfunções comportamentais. A identidade individual e a identidade social são recorrentes, interagem numa relação “circular” de causa/efeito. A identidade social não nasce connosco. Vai sendo construida no espaço e no tempo da vida social, face aos confrontos de indivíduos, grupos e sociedades contra outros indivíduos, grupos e sociedades, gerando práticas contínuas de comunicação partilha, comunhão e participação que permitem superar os conflitos.É neste contexto de construção contínua da identidade social que emerge o processo comunicacional solidamente alicerçado em relações interaccionais, que não poderão nunca ser reduzidas à transmissão de uma mensagem. Comunicação e relação são dois conceitos intrínsecamente ligados e indissociáveis. Não existe qualquer tipo de relação – interpessoal, social, grupal ou de massas – sem comunicação. Por outro lado, como afirma Edmond Marc, “ a relação face-a-face obedece a toda uma gramática de regras e procedimentos sem os quais a comunicação não é possível.”.
O debate sobre o processo comunicacional corre, muitas vezes, o risco de se cristalizar em torno de três dos polos da comunicação: o emissor, o receptor e a mensagem. Com efeito, demonstrada a importância da retroacção (feed-back) por Gregory Bateson e a Escola de Palo Alto, a aparentemente evidente imprescindibilidade do canal e a necessidade absoluta de existência do código ( contributo inquestionável da Linguística), é grande a tentação de centrar a investigação nos actores do processo comunicacional, enquanto actores. É exactamente no desempenho destes diferentes papéis que situo a questão sobre a qual me tenho debruçado : não há comunicação sem eficácia – qualquer relação só é comunicacional quando é eficaz, e só é eficaz quando produz resultados. Comunicar implica interagir do início ao fim de um processo comunicacional independentemente da longevidade do processo em si mesmo.

O processo comunicacional estabelece – se a partir de uma intencionalidade de estabelecimento de uma relação entre duas ou mais pessoas. Quando a intenção (mecanismo intrapsíquico de manifestação de uma vontade) se transforma em acção pelo esforço de uma vontade explícita, falamos de génese de um proceso comunicacional. O emissor transforma em acto o que antes era potencial. Objectiva e materializa a sua intencionalidade comunicacional que, no entanto, só é plenamente conseguida quando obtém do receptor uma “resposta” -feed-back- em tempo útil, isto é, susceptível de provocar uma reacção dimensionada para a mensagem que “emitiu”. Quando a retroacção ocorre fora do tempo expectável pelo emissor ( agora assumindo o papel de receptor), não há eficácia porque deixou de haver capacidade de produção de comportamentos, sensações ou emoções. Três situações podem ocorrer : a inexistência de retroacção geradora de consequências, de produção de resultados; retroacção fora do tempo útil – o emissor primeiro do processo comunicacional (agora receptor) manifesta indiferença - nem sequer “ouve” a resposta quando esta surge, não porque não seja adequada mas porque surge desajustada no tempo - e, consequentemente, não reage porque não assume de novo o papel de emissor dando continuidade ao processo comunicacional ; retroacção inadequada à mensagem enviada, suscitando uma reacção de negação – o emissor/receptor obtem uma resposta inadequada no conteúdo. Falamos de um processo comunicacional que teve um início mas não um fim “útil”. A resposta perdeu – se no tempo imaginário e das expectativas do emissor ou na inadequação do seu conteúdo pelo que perdeu a eficácia. Quando não há eficácia, apesar de haver comunicação no sentido académico, esta não existe com significado social. Falamos então em comunicação intencional. Há intenção de estabelecer uma relação interpessoal da qual deverá resultar uma dinâmica comportamental – objectiva - mas porque esta não ocorre, não há eficácia. Ficamos pelo plano do imaginário, da abstracção, do retórico. Sendo assim, só podemos falar de comunicação interpessoal quando existe eficácia, isto é, quando se obtém uma interactividade reaccional. Falamos em comunicação a nível social quando existe, igualmente reacção – positiva ou negativa – mas, em rede.


Lisboa, 14 de Dezembro de 2001

Margarida Ayres Martins


Publicado por james stewart às 11:40 EM

MARKETING 2

Glossário - Turismo


Glossário - Turismo
A-E
F-M
N-Q
R-Z

Aldeamento Turístico
Estabelecimento de alojamento turístico constituído por um conjunto de instalações funcionalmente interdependentes com expressão arquitectónica homogénea, situadas num espaço delimitado e sem soluções de continuidade, que se destinem a proporcionar, mediante remuneração, alojamento e outros serviços complementares e de apoio a turistas.
Apartamento Turístico
Estabelecimento constituído por fracções de edifícios independentes, mobiladas e equipadas, que se destinem habitualmente a proporcionar, mediante remuneração, alojamento a turistas.
Capacidade de Alojamento nos Estabelecimentos Hoteleiros
Número máximo de indivíduos que estes estabelecimentos podem alojar num determinado momento ou período, sendo este determinado através do número de camas existentes, considerando como duas as camas de casal.
Despesa Turística (internacional/receptor)
Despesa efectuada por um visitante e/ou por alguém a seu benefício, durante a sua viagem ou estada no lugar de destino, quer na componente interna como externa. A Despesa Turística inclui: - Despesa Corrente: despesa efectuada pelo visitante, mesmo que a viagem não tivesse ocorrido, isto é, se tivesse permanecido na sua residência habitual; - Despesa Específica: despesa efectuada pelo visitante resultante da viagem, incluindo as despesas com transportes, alojamento, lembranças ou souvenirs, cultura, recreio, etc..
Dormida
Permanência num estabelecimento que fornece alojamento, considerada em relação a cada indivíduo, e por um período compreendido entre as 12 horas de um dia e as 12 horas do dia seguinte.
Entrada de Estrangeiros nas Fronteiras
Número de estrangeiros que entraram no país, num dado período, seja qual for o motivo da viagem.
Estabelecimento Hoteleiro
Empreendimento turístico (estabelecimento) destinado a proporcionar, mediante remuneração, serviços de alojamento e outros serviços acessórios ou de apoio, com ou sem fornecimento de refeições. Os estabelecimentos hoteleiros classificam-se em: hotéis, pensões, estalagens, pousadas, motéis, hotéis-apartamentos, aldeamentos turísticos, apartamentos turísticos e casas de hóspedes.
Estada Média
Número de noites que os turistas permanecem, em média, numa região ou país.
Estada Média no Estabelecimento
Relação entre o número de dormidas e o número de hóspedes que deram motivo a essas dormidas.
Estalagem
Estabelecimento hoteleiro instalado em um ou mais edifícios, que, pelas suas características arquitectónicas, estilo do mobiliário e serviço prestado, esteja integrado na arquitectura regional e disponha de zona verde ou logradouro natural envolvente, fornecendo aos seus hóspedes serviços de alojamento e refeições.
Excursionista
Visitante que não pernoita, num alojamento colectivo ou particular no lugar visitado.

A-E
F-M
N-Q
R-Z

Férias
Saída do local de residência habitual, cujo motivo principal é recreativo, lazer ou repouso, mesmo que estejam associados outros motivos, como, por exemplo, a participação em actividades culturais ou desportivas (espectador), visita aos familiares ou amigos, viagem de núpcias, etc..
Hóspede
Indivíduo que efectua pelo menos uma dormida num estabelecimento hoteleiro. Ainda que se trate da mesma unidade de alojamento, o mesmo indivíduo é contado, no período de referência, tantas vezes quantos os períodos que nela permanecer (novas inscrições).
Hotel
Estabelecimento hoteleiro com sala ou salas de refeição ou restaurante e um mínimo de 10 quartos (e de uma suite, no caso dos hotéis de 5 estrelas), que ocupa a totalidade ou parte independente de um edifício, desde que constituída por pisos completos e contíguos, com acessos próprios e directos aos pisos ocupados pelo estabelecimento para uso exclusivo dos seus utentes a quem são fornecidos os serviços de alojamento e de refeições.
Hotel-apartamento
Estabelecimento hoteleiro constituído por um conjunto de pelo menos 10 apartamentos equipados e independentes, locados dia a dia a turistas, que ocupa a totalidade ou parte independente de um edifício, desde que constituída por pisos completos e contíguos, com acessos próprios e directos aos pisos ocupados pelo estabelecimento para uso exclusivo dos seus utentes, com restaurante ou serviço de restauração e com, pelo menos, serviço de arrumação e limpeza.
Inbound
Turismo de visitantes não residentes no território económico do país de referência.
MICE
Meetings, Incentives, Conferences & Events - Turismo cuja motivação principal é a participação em Reuniões, Incentivos, Conferências e Eventos.
Motel
Estabelecimento hoteleiro situado fora dos centros urbanos e na proximidade das estradas, ocupando a totalidade de um ou mais edifícios, constituído por um mínimo de 10 apartamentos/quartos (com casa de banho simples) independentes, com entradas directas do exterior e com um lugar de estacionamento privativo e contíguo a cada apartamento/quarto.
Motivo de Viagem
Motivo sem o qual a viagem não se teria realizado. São contemplados os seguintes motivos: - Lazer, Recreio e Férias: repouso, gastronomia, compras, viagem de núpcias, desporto não profissional ou assistência a acontecimentos culturais e recreativos; - Profissionais/Negócios: reuniões, seminários, conferências, congressos, missões, feiras e viagens de incentivo; - Visita a Familiares e Amigos: visitas a familiares e/ou amigos, participação em funerais, casamentos e outros eventos familiares; - Outros Motivos: inclui os motivos de saúde (tratamentos e cuidados de saúde em locais como termas, sanatórios, lares de convalescência e estâncias de recuperação), religião e peregrinação, trânsito (no país, numa região) e outros motivos não discriminados.

A-E
F-M
N-Q
R-Z

NUT
Nomenclatura das Unidades Territoriais para fins Estatísticos.
Outbound
Turismo de visitantes residentes fora do território económico do país de referência.
Parque de Campismo
Terreno normalmente destinado, quer a título gratuito, quer oneroso, à instalação temporária de tendas, aluguer de bungalows ou outros abrigos semelhantes, e à permanência de reboques ou veículos habitáveis designadamente caravanas ou roulottes.
Pensão
Estabelecimento hoteleiro com restaurante e com um mínimo de 6 quartos, que ocupa a totalidade ou parte independente de um edifício, desde que constituída por pisos completos e contíguos, com acessos próprios e directos aos pisos ocupados pelo estabelecimento para uso exclusivo dos seus utentes, e que pelas suas instalações, equipamento, aspecto geral, localização e capacidade, não obedece às normas estabelecidas para a classificação como hotel ou estalagem, fornecendo aos seus clientes serviços de alojamento e refeições. Classificam-se nas categorias de Albergaria, 1ª, 2ª e 3ª categoria.
Permanência Média Geral
Número de noites que os turistas permanecem, em média, numa região ou país.
Pessoal ao Serviço
Pessoas que no período de referência participaram efectivamente na actividade da empresa/instituição, qualquer que tenha sido a duração dessa participação e independentemente do vínculo que tenham. Inclui as pessoas temporariamente ausentes no período de referência para férias, maternidade, conflito de trabalho, formação profissional, assim como doença e acidentes de trabalho de duração igual ou inferior a um mês. Inclui também os trabalhadores de outras empresas que se encontram a trabalhar na empresa sendo aí directamente remunerados. Exclui os trabalhadores a cumprir o serviço militar, em regime de licença sem vencimento, em desempenho de funções públicas (vereadores, deputados), ausentes por doença ou acidente de trabalho de duração superior a um mês, assim como trabalhadores com vínculo à empresa deslocados para outras empresas, sendo nessas directamente remunerados.
Pousada
Estabelecimento hoteleiro explorado pela ENATUR - Empresa Nacional de Turismo, S.A., instalado em imóveis classificados como monumentos nacionais ou de interesse regional ou municipal e ainda em edifícios que, pela sua antiguidade, valor arquitectónico e histórico, sejam representativos de uma determinada época, e se situem fora de zonas turísticas dotadas de suficiente apoio hoteleiro. As pousadas devem preencher, com as necessárias adaptações, os requisitos mínimos das instalações e de funcionamento exigidos para os hotéis de 4 estrelas, caso estejam instaladas em edifícios classificados como monumentos nacionais, e para os hotéis de 3 estrelas nos restantes casos, salvo se a sua observância se revelar susceptível de afectar as características arquitectónicas ou estruturais dos edifícios.

A-E
F-M
N-Q
R-Z

Receita do Turismo (internacional/receptor)
Despesa efectuada em Portugal por não residentes, incluindo o pagamento dos seus transportes internacionais às companhias de transporte nacionais. Devem-se incluir as receitas provenientes dos excursionistas.
Região de Turismo
Pessoa colectiva de direito público dotada de autonomia financeira e administrativa e património próprio. À região de turismo incumbe, prioritariamente, a valorização turística da respectiva área, visando o aproveitamento equilibrado das potencialidades turísticas do património histórico, cultural e natural dos municípios que a constituem.
Residente
Indivíduo que viveu a maior parte do ano precedente (doze meses) no seu alojamento habitual, normalmente em comunhão com a sua família directa e onde possui a totalidade ou a maior parte dos seus haveres.
Taxa de Ocupação-cama
Indicador que permite avaliar a capacidade de alojamento média utilizada durante o período de referência. Corresponde à relação entre o número de dormidas e o número de camas disponíveis no período de referência, considerando como duas as camas de casal.
Taxa de Ocupação-quarto Líquida
Indicador que permite avaliar a capacidade de ocupação média utilizada durante o período de referência. Corresponde à relação entre o número de dormidas e o número de quartos disponíveis no período de referência, considerando como duas as camas de casal.
Turismo Emissor
Turismo praticado por residentes de um determinado país noutros países. Este conceito aplica-se igualmente a uma região.
Turismo no Espaço Rural
Conjunto de actividades e serviços realizados e prestados mediante remuneração em zonas rurais (áreas com ligação tradicional e significativa à agricultura ou ambiente e paisagem de carácter vincadamente rural), segundo diversas modalidades de hospedagem, de actividades e serviços complementares de animação e diversão turística, tendo em vista a oferta de um produto turístico completo e diversificado no espaço rural. O turismo no espaço rural compreende os serviços de hospedagem prestados nas modalidades de "turismo de habitação", "turismo rural", "agro-turismo", "turismo de aldeia" e "casas de campo".
Turismo Internacional
Turismo praticado por residentes de um determinado país por visitantes residentes no estrangeiro (turismo receptor), e por residentes desse país que viajam para outros países (turismo emissor).
Turismo Interno
Turismo praticado por residentes de um determinado país que viajam unicamente no interior desse país. Este conceito aplica-se igualmente a uma região.
Turismo Receptor
Turismo praticado num determinado país por visitantes residentes no estrangeiro. Este conceito aplica-se igualmente a uma região.
Turista
Visitante que permanece, pelo menos uma noite, num alojamento colectivo ou particular no lugar visitado.
Viagem Organizada
Viagem organizada com fins turísticos, culturais ou outros, organizada em grupo, com regresso ao ponto de origem e incluindo todos ou alguns dos serviços básicos (transporte de pessoas e bagagens, alojamento, refeições, circuitos turísticos, assistência de guia-intérprete, entradas em museus e monumentos, etc.).
Visitante
Indivíduo que se desloca a um lugar diferente da sua residência habitual, por uma duração inferior a 365 dias, desde que o motivo principal da viagem não seja o de exercer uma actividade remunerada no lugar visitado.


Publicado por james stewart às 11:34 EM

MARKETING 1

Este artigo, tem como principal objetivo, contextualizar os conceitos que envolvem as bases mercadológicas através de sete elementos-chave, para que ao final, possamos de forma fundamentada, definir o que vêm a ser marketing e principalmente para estarmos capacitados a analisar as estratégias empregadas por inúmeras organizações e identificar as fortes incidências realizadas junto ao mercado.



Como entender Marketing
Por Thiago Cabrino

08/03/2002

Este artigo, tem como principal objetivo, contextualizar os conceitos que envolvem as bases mercadológicas através de sete elementos-chave, para que ao final, possamos de forma fundamentada, definir o que vêm a ser marketing e principalmente para estarmos capacitados a analisar as estratégias empregadas por inúmeras organizações e identificar as fortes incidências realizadas junto ao mercado.
Um primeiro ponto, é analisar as necessidades, desejos e demandas dos seres humanos. Em toda sua existência, o homem precisa de diferentes elementos para sobreviver, os quais são desde os mais vitais até os mais supérfluos, porém, que desenvolvem a necessidade humana em torno da satisfação básica. Os desejos são carências por satisfações específicas que atendem às necessidades. Já as demandas, são desejos por produtos/serviços determinados, respaldados pela possibilidade de aquisição. Deste modo, os profissionais de marketing estão a todo momento analisando as vontades humanas, criando um desejo através de elementos fortes e influenciadores, para em conseqüência deste trabalho, gerar uma procura em torno daquilo que foi desenvolvido.
O segundo ponto de análise está voltado ao produto. Este possui definição, como sendo algo desenvolvido para satisfazer uma necessidade ou desejo. Este produto pode ser subdividido em três níveis: bem físico (ex: restaurante: as refeições), serviço (ex.: restaurante: delivery) e uma idéia (ex.: restaurante: economia de tempo). Assim, estes três aspectos podem estar presentes em um único fator comercial, envolvendo o produto em uma fantástica gama de elementos que podem torná-lo essencial ao consumidor, ou apenas, um produto de compra sazonal. Por isso, as organizações devem estar atentas em não só vender o bem físico, mas sim os benefícios implícitos, que muitas vezes servirão de apoio no momento de decisão por parte do consumidor. As empresas que não praticam esta filosofia, podem ser classificadas como organizações que sofrem de miopia de marketing.
Como a decisão dos consumidores é dada no momento em que estes deparam-se com os produtos e/ou serviços de sua necessidade, aqueles que possuírem o maior número de elementos que os beneficiem, é que levarão a sonhada vantagem competitiva. Deste modo, elementos como valor, custo e satisfação tornam-se essenciais para qualquer prática. O valor, é a estimativa de cada produto em satisfazer o seu conjunto de necessidades. O custo, por sua vez, está envolvido diretamente com a atmosfera financeira, já que servirá como influenciador diante da satisfação dos desejos e frente a uma relação direta de custos/benefício daquilo que está sendo ofertado.
Assim sendo, os consumidores podem obter produtos de quatro maneiras diferenciadas: autoprodução. coerção, mendicância e troca, sendo nesta última que o marketing está baseado, pois este surge quando as pessoas decidem satisfazer suas necessidades através da troca. Este fator pode ser definido como: “o ato de obter um produto/serviço desejado de alguém, oferecendo algo em contrapartida”, e para que ele possa existir, cinco condições básicas devem estar presentes e atuantes: mínimo de duas pessoas envolvidas, cada parte com algo a oferecer, capacidade de comunicação e entrega, livre arbitrariedade em aceitar ou rejeitar a oferta, e por fim, capacidade para se relacionar com outra pessoa.
Com este último requisito, entramos no quinto elemento, o relacionamento. Este faz parte de uma idéia mais ampla do marketing, e merece destaque, pois engloba uma série de fatores. O Marketing de Relacionamento é a prática da construção de relações satisfatórias por um longo período entre partes-chave do processo – consumidores, fornecedores e distribuidores. Com a integração destas partes, é construída uma outra frente, denominada rede de marketing, que é formada por todos aqueles que possuem interesse em crescimento e desenvolvimento, os stakeholders. Este princípio operacional é simples: toda organização deve instituir uma boa rede de relacionamento junto aos seus stakeholders-chave e em conseqüência disso seus lucros serão bastante promissores.
Com todos estes elementos, chegamos ao ponto de analisar o mercado. Este consiste em todos os consumidores potenciais que compartilham de uma necessidade ou desejo específico, dispostos e habilitados para fazer uma troca que satisfaça essa necessidade ou desejo. Com isso, podemos definir que o tamanho de um mercado para uma organização, pode ser medido através do número de prospects existentes, os quais formarão a demanda diante daquilo que está sendo oferecido.
Devemos observar que este mercado é formado ciclicamente, pois os consumidores vendem sua força de trabalho em troca de dinheiro para pagar os bens e serviços que compram. Assim, nota-se que as economias de cada país consistem em complexos conjuntos de mercados inter-relacionados e unidos por inúmeros processos de troca, com o maior variação de clientes/consumidores.
Por fim, este conjunto de clientes pode ser classificado em consumidores potenciais, ou seja, pessoas que o profissional de marketing identifica como sendo potencialmente dispostas/habilitadas a realizar a aquisição de seus bens/serviços através de um processo de troca.
Todas as organizações praticantes do marketing, estão a todo momento monitorando o mercado em busca de novas descobertas e nichos que possibilitem sua expansão e crescimento. Este acompanhamento tem forte incidência de elementos ambientais, que englobam análises demográficas, econômicas, político-legais e socioculturais, que fornecerão elementos de forte incidência no momento de decidir qual estratégia adotar.
Assim, após entendermos todos os sete conceitos teóricos de marketing, nos tornamos capacitados para poder definir e entender exatamente o que vem a ser o marketing em sua essência:
“Marketing é um processo social e gerencial pelo qual indivíduos e grupos obtêm o que necessitam e desejam através da criação, oferta e troca de produtos de valor com outros” – Philip Kotler.

Publicado por james stewart às 11:20 EM

RELAÇÔES PÙBLICAS 6

O Código de Atenas, que é o Código de Ética Internacional dos profissionais de RP, foi adoptado pela Assembleia Geral da Associação Internacional de Relações Públicas, que se realizou em Atenas, a 12 de Maio de 1965, tendo sido alterado em Teerão a 17 de Abril de 1968.
O autor deste código é Lucien Matrat, Membro Jubilado (França) do IPRA.

International Public Relations Association

O CÓDIGO DE ATENAS *
O Código de Ética Internacional da Associação Internacional de Relações Públicas
O Código de Atenas, que é o Código de Ética Internacional dos profissionais de RP, foi adoptado pela Assembleia Geral da Associação Internacional de Relações Públicas, que se realizou em Atenas, a 12 de Maio de 1965, tendo sido alterado em Teerão a 17 de Abril de 1968.
O autor deste código é Lucien Matrat, Membro Jubilado (França) do IPRA.

CONSIDERANDO que todos os países membros da Organização das Nações Unidas acordaram em respeitar a Carta em que se proclama "a fé nos direitos fundamentais do homem, na dignidade e no valor da pessoa humana (...)", e que, só por esse facto, e pela própria natureza da profissão que exercem, os técnicos de Relações Públicas desses países devem empenhar-se em conhecer e respeitar os princípios contidos nessa Carta;

CONSIDERANDO que o homem tem em paralelo com os seus "direitos", necessidades que não são simplesmente de ordem física ou material, mas também de ordem intelectual, moral e social, e que só na medida em que essas necessidades - no que têm de essencial - são satisfeitas, é que o homem pode gozar realmente dos seus direitos;

CONSIDERANDO que os técnicos de Relações Públicas no exercício da sua profissão podem, conforme a maneira como a exerçam, contribuir largamente para satisfazer essas necessidades intelectuais, morais e sociais dos homens;

CONSIDERANDO, por último, que a utilização das técnicas que permitem entrar simultaneamente em contacto com milhões de pessoas, dá aos profissionais de Relações Públicas um poder que importa limitar pelo respeito da ética e dos valores da profissão.

Por todas estas razões, todos os membros da Associação Internacional de Relações Públicas declaram assumir como estatuto de ordem moral os princípios do Código de Ética que seguem, e que qualquer violação deste Código, feita por um dos seus membros no exercício da profissão, que possa ser provada perante o Conselho, será considerada como falta grave, à qual corresponderá uma sanção adequada.


Em consequência, cada membro:
DEVE EMPENHAR TODOS OS ESFORÇOS

Para contribuir para a realização das condições morais e culturais, que permitam ao homem realizar-se plenamente no gozo dos direitos imprescritíveis que lhe são reconhecidos pela "Declaração Universal dos Direitos do Homem";

Para criar as estruturas e os canais de comunicação que, favorecendo a livre circulação das informações essenciais, permitam que cada um dos membros do grupo se sinta informado, integrado, responsável e solidário;

Para se comportar, em qualquer ocasião e em todas as circunstâncias, de modo a merecer e obter a confiança daqueles com quem se encontra em contacto;

Para ter em conta que, devido ao carácter público da sua profissão, o seu comportamento, mesmo privado, irá repercutir-se nos juízos que recaiam sobre o conjunto da profissão.

DEVE TOMAR O COMPROMISSO


De respeitar, no exercício da profissão, os princípios e regras morais da "Declaração Universal dos Direitos do Homem";

De respeitar e salvaguardar a dignidade da pessoa humana, e de reconhecer a qualquer homem o direito de formar juízos por si próprio;

De criar as condições morais, psicológicas e intelectuais do autêntico diálogo, e de reconhecer às partes em presença o direito de expor o seu problema e exprimir o seu ponto de vista próprio;

De agir em todas as circunstâncias, de modo a considerar os interesses das partes em presença: os da organização que utilize os seus serviços e também os dos públicos em causa;

De respeitar as promessas e compromissos, os quais devem ser formulados em termos que não se prestem a nenhuma confusão, e de agir honesta e lealmente em todas as ocasiões, a fim de merecer a constante confiança dos clientes ou empregadores, presentes ou passados, e do conjunto dos públicos implicados nos seus actos.

DEVE PROIBIR A SI PRÓPRIO


Subordinar a verdade a quaisquer outros imperativos;

Difundir informações que não assentem em factos verificados e verificáveis;

Dar o seu concurso a qualquer empresa ou a qualquer acção que atente contra a moral, a honestidade ou a dignidade e integridade da pessoa humana;

Utilizar qualquer método, meio ou técnica de manipulação para criar motivações inconscientes que, privando o indivíduo do livre arbítrio, lhe tirem a responsabilidade dos seus actos.


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* Reconhecido pela Sociedade Portuguesa de Relações Públicas (SOPREP), em Março de 1970. [Recognized by the Public Relations Society of Portugal in March, 1970]


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The Code of Athens in various languages
English French German Hungarian Portuguese
Rumanian Russian Slovenian Slovakian Turkish

Publicado por james stewart às 11:06 EM

RELAÇÔES PÙBLICAS 5

Não se pode ter um RP desfavorável com a comunidade (público interno) e uma relação RP favorável com o público externo.

RELAÇÕES COM OS DONOS DA EMPRESA

DEFINIÇÕES DE DONOS DA EMPRESA:


1- Os proprietários da empresa

2- Directores que sejam ao mesmo tempo maiores accionistas

3-Directores que sendo ou não accionistas representem a maioria do capital, podendo administrar a empresa e dirigi-la.


Nas sociedades individuais e limitadas o numero de públicos reduz-se a 12, por não contar com o público dos accionistas.

A tendência das empresas é de transformarem-se em sociedades anónimas, e o comportamento de estas sociedades deve ser imitado o Relações Públicas.

 Qual é a razão desta comparação de comportamento?
A razão reside na distinção, separar director de accionista. Supondo que ambos sejam proprietários o que importa e diferenciar quem exerce os poderes.
Um director têm mais poder do que um accionista. Nas sociedades anónimas os directores constituem um público restrito que desfruta de uma grande concentração de poder , enquanto os accionistas, um público mais vasto, os poderes diluem-se.

O trabalho do Relações Públicas começa por quem manda na empresa este público é o que denominamos: dono da empresa para distinguirmo-los dos accionistas, que participam simplesmente de maneira distante, desses poderes de mando e decisão.

RELAÇÕES COM OS ACCIONISTAS

Cada acção de uma sociedade anónima confere a seu titular uma fracção da propriedade da empresa.
Podíamos afirmar que a consideração do publico accionista como uma segunda prioridade no conjunto dos públicos de interesse da empresa, já é por si um acto de relações públicas.
Como proprietário, por o menor que seja o accionista está na posição legitima de exigir da empresa as informações que atendam aos seus interesses.
Ele tem todo o direito de saber como vem sendo administrada a empresa, e de tomar conhecimento das suas directrizes e da forma pela qual vem atendendo às suas responsabilidades sociais.
O director é responsável perante o accionista pois o capital que administra, seja na fracção que for, é de sua propriedade.
Os accionistas têm direitos de intervenção na administração da empresa e não decidem, participam em tudo quando acontece no seu âmbito.
Constituir como objecto prioritário, quando à abertura ampla de canais de comunicação nos dois sentidos, em todos os trabalhos de relações publicas nas empresas.

RELAÇOES COM OS EMPREGADOS

Que é uma empresa? É uma comunidade de trabalho

São as pessoas as que fazem viver la empresa por isso em primeiro lugar estan as pessoas, que são as que fazem de la empresa nu organismo vivo.

Para projectar uma boa imagem o primeiro de tudo é criá-la.

Para fazer um bom trabalho de Relações Públicas lo primeiro de tudo é que haya boas relações internas, e a partir de ahi se podran fazer boas relações publicas externas; Assim deduzimos que o imperativo de autenticidade em qualquer trabalho de Relações públicas es LA IMAGEM.

Quem são os públicos internos? Dos donos da empresa, dos accionistas e dos empregados.

Ante tudo ser um bom gestor de equipas nunca o chefe.

As boas relações com os empregados constituem uma condição muito importante das Relações Públicas, e assim como a boa imagem vá a nascer desde dentro e poderá ser projectada para fora.

RELAÇÕES COM A COMUNIDADE

Comunidade – Consiste no público que vive no meio onde se localiza a empresa

É sempre um público bastante próximo da empresa ao ponto de a considerarmos como um público interno
Tem um significado diferente nas grandes cidades e nas pequenas urbanizações

Objecções
1.O público que constitui a comunidade pode não trabalhar na empresa e nem sequer para ela, mas não deixa de ser um público interno
2.Sendo a comunidade como um local é a empresa que está dentro da comunidade e não a comunidade que está dentro da empresa

Devido à importância da comunidade como o público de estabelecer prioridades em relação à proximidade da empresa é conveniente classificá-la como público interno.

Não se pode ter um RP desfavorável com a comunidade (público interno) e uma relação RP favorável com o público externo.

RELAÇÕES COM OS REVENDEDORES

Os revendedores:
 Pertencem aos quadros da empresa
 Constituem um público de transição; estão dentro e fora da empresa ao mesmo tempo
 São mais um público interno do que externo, porque precisam de estar perfeitamente informados sobre a empresa, a sua política e cada um dos produtos ou serviços que oferece para exercerem o seu trabalho na perfeição
 O seu sucesso depende do grau de integração que atinge na empresa

É uma das finalidades das RP, junto dos reverendos

 É o primeiro comprador dos produtos ou serviços da empresa. A este deve ser transmitida confiança e uma imagem positiva do produto e do serviço e do próprio negócio
 É o primeiro cliente, o primeiro consumidor, tem de comprar para vender. A sua compra reflecte o seu poder de venda

A política da empresa, reflecte-se, em primeiro lugar no revendedor, e é por seu intermediário que chega até ao consumidor. A empresa necessita de estabelecer com os seus revendedores altos padrões de satisfação mútua.

O objectivo das RP é fazer o revendedor estar cada vez mais dentro da empresa.


Relações com os Fornecedores

• Os fornecedores, ao contrário dos revendedores, são pessoas de fora da empresa, mas que a conhecem muito bem.


• A imagem que os fornecedores têm da empresa é obtida através da sua personalidade, da maneira de exigir qualidade e da forma de satisfazer seus compromissos.


• O que o fornecedor pensa da empresa é o reflexo exacto de como age a empresa quando faz as suas compras.


• O que aconteceu é um facto e não uma opinião.


• Os fornecedores são um elo de ligação entre os públicos interno e externos da empresa.


• Ele está numa posição privilegiada para agir como um centro de informações válidas sobre a empresa perante o mercado.

Relações com os Consumidores


• Embora o consumidor esteja omnipresente na vida da empresa, ele só pode aparecer como público diferenciado quando o processo das RP atingir o momento certo.


• As boas RP com os consumidores são resultado natural de boas RP com: os donos da empresa, os accionistas, os colaboradores, a comunidade, os revendedores e os fornecedores.


• Os canais de comunicação que as RP abrem e mantêm têm que atravessar todos esses públicos antes de chegar ao consumidor.


• É através dessa ordem de prioridades que pode se chegar ao consumidor por um caminho seguro.


• Cada público antecipa o consumidor e colabora na projecção de uma imagem favorável da empresa


• O momento principal do trabalho das RP é quando se atinge o consumidor, pois corresponde a hora da decisão.


• As RP não são um trabalho individual, mas sim um trabalho colectivo, uma acção de públicos.


• O sucesso do trabalho de RP depende:

 Donos da empresa convenientemente motivados e esclarecidos;
 Accionistas perfeitamente a par das actividades da empresa;
 Colaboradores satisfeitos;
 Comunidade consciente do respeito e da consideração que merece;
 Revendedores integrados;
 Fornecedores familiarizados com o carácter da empresa.


Relações com os concorrentes


Revolução Industrial: Tudo era permitido


Mercantilismo

Hoje: - Concorrente não pode ser o inimigo;
- Legislação condena monopólio.

Capitalismo

CONCORRÊNCIA: - Forma legítima de competição entre empresas;
- Principal beneficiário é o consumidor.


Desenvolvimento de uma Ética em que o Homem da empresa tem de ser o primeiro a reconhecer os deveres que tem para com o seu semelhante e para com ele próprio.


Funções das RP: - Abre canais de informação entre empresas e concorrentes;
- O exercício e promoção dessa Ética.


“O segredo é a alma do negócio” - ultrapassada pois é do intercâmbio livre de informações entre as empresas do mesmo ramo que surgem e que se consolidam negócios.


Existência de um complexo de estruturas jurídicas que evitam que uma empresa se aposse do que não lhe pertence ou utilize o quer não é seu.


Portugal Moderno: a Produtividade é cada vez mais uma preocupação dominante nos empresários.


Conclusão: Todos estes factores vão contribuir para que as empresas se convençam da necessidade de utilizar técnicas de RP nas suas relações com a concorrência.

Todos ficam a ganhar se a competição for franca, aberta e cordial.


Relações com as entidades patronais representativas

Entidades representativas: Nascem da interligação dos interesses da empresa, traduzindo o alto grau de interdependência em que vivem.

Entidade patronal representativa: Associação de homens de empresa que se dedicam a um mesmo género ou espécie de actividades, com finalidades de representação perante poderes públicos e a Opinião Publica de determinado país.

A sua existência assegura a necessidade de desenvolvimento de actividades de RP nesse publico.

Ideia de Representação: Subentende trabalho de Comunicação Humana, o seu funcionamento pressupõe utilidade de um diálogo com o objectivo de se chegar a um entendimento entre as partes.


Relações Públicas

Empresa Responsabilidade perante os seus públicos;
Falará sempre no interesse próprio.


Entidade Representa uma classe, conferindo-lhe status social;
Perante a Opinião Pública, uma entidade de classe fala mais alto porque defende interesses de uma colectividade

O status social é o ponto de partida de uma imagem, que poderá ser favorável na Opinião Pública.


Importância das RP: - Prestigiar essas entidades;
- Tomar iniciativa de promover organização.

Numa entidade patronal representativa, as empresas concorrentes têm oportunidades permanentes de diálogo e entendimento.

A associação funciona como um verdadeiro parlamento.

É indispensável que a entidade marque a sua presença e que participe de suas actividades.


RELAÇÕES PÚBLICAS NAS EMPRESAS MODERNAS


 RELAÇÕES COM OS SINDICATOS PROFISSIONAIS

Entidades Profissionais:

- Este público resulta do desdobramento do público ‘empregados da própria empresa’
- Muito importantes para as relações públicas


 O público ‘empregados de uma determinada empresa’

do público ‘empregados de todas as empresas do mesmo género ou da mesma espécie’.


O RP deve individualizá-los, pois tudo é diferente, desde a forma do “approach”´, até o objectivo ser atingido.


Sindicatos:

Entidades que representam uma associação de empregados

Este público pode compreender as associações profissionais não sindicalizadas, as caixas, as cooperativas e os clubes desportivos (desde que congreguem empregados de ramo profissional idêntico).

Surgem pela:
- necessidade da existência de um órgão de representação perante os poderes públicos, as empresas e a opinião pública;
- necessidade de contar com 1 Parlamento/Plenário.

Em RP, os empregados de uma empresa significam menos do que os empregados de todas as empresas.

Labour Relations:

Denominação que os norte-americanos dão às relações da empresa com os sindicatos – “relações com o trabalho”.

Reflectem o grau de importância, nos EUA, das relações da empresa com a força do trabalho.

Tiveram origem na Revolução Industrial, quando as associações dos trabalhadores chegaram a ser proibidas por lei.
O único diálogo que interessava era o que supostamente existia entre patrão e empregado.

Ao reconhecer a importância da existência de sindicatos, abriram-se amplas possibilidades de trabalho para os profissionais de RP, que utilizam técnicas mais apuradas e especializadas, contribuindo para o sucesso desta relação.


 RELAÇÕES COM OS ÓRGÃOS DE INFORMAÇÃO

Órgãos de Informação, nas RP, significam simultaneamente:

• Público (é um grupo de pessoas);
• Instrumento (agente que serve de meio para determinado fim).

Nos nossos dias há uma enorme variedade de órgãos de informação, que foi possível desde a invenção de Guttenberg, até aos mais recentes descobrimentos da rádio e da TV.
Além de público, os jornalistas e os homens da TV, são também publicitários, escritores, intelectuais e artistas.


Qualquer pessoa que se dedique a uma actividade num órgão de informação, é parte de um público ao qual, as RP têm de abrir canais de comunicação.
Estas pessoas influenciam a formação de opiniões de quase todos os outros públicos: OPINIÃO PÚBLICA.


Opinião:

Resulta de uma soma de informações.
Desta depende a imagem favorável de uma empresa.


 Por mais objectivo que o jornalista deseje ser, ele não deixará de ser influenciado pelas suas próprias opiniões.

 A opinião deste profissional é muito mais influente do que a opinião de um comum cidadão.

• O especialista da RP precisa de compreender que o público vive da informação que obtém.

• A informação de qualidade sustente um clima de satisfação entre a empresa e os órgãos de informação.


Aquela que é uma consequência natural de um trabalho bem orientado por uma técnica eficiente de RP.


 Há um mundo de acontecimentos, que resultam das actividades da empresa, que têm interesse público.

 Estes acontecimentos constituem as notícias que os órgãos de informação têm obrigação de divulgar.

 O fluxo de informações da empresa para os órgãos de informação deve ser contínuo e permanente.

 Informações intermitentes abrem zonas de “claro – escuro”, por onde penetram os boatos, as falsidades, as distorções.

 O homem de empresa tem de convencer-se de que todos os actos dessa empresa têm que suceder diante dos olhos da Opinião Pública, omnipresente através dos profissionais do jornal, rádio e TV.

Delegação que pode fazer para os RP

Permitindo o manejo da informação certa, para o público certo, no momento exacto.

Publicado por james stewart às 11:00 EM

RELAÇÔES PÙBLICAS 4

RELAÇÕES PÚBLICAS NA HISTÓRIA RECENTE DO CAPITALISMO

RELAÇÕES PÚBLICAS NA HISTÓRIA RECENTE DO CAPITALISMO

As primeiras décadas do século atual marcaram o aparecimento dos poderosos monopólios, a concentração de riquezas em poucas mãos e a conseqüente hostilidade do povo norte americano contra o mundo dos negócios. Essa quase revolta popular era inspirada também pelas obras de escritores radicais. Não eram somente os trabalhadores que se organizavam em incipientes sindicatos para enfrentar os poderosos, mas a própria classe média que se manifestava, principalmente através da imprensa, contra os abusos das empresas.
Os homens das empresas sentiram, então, necessidade de vir a público para tentar explicar suas atividades, através de advogados e jornalistas. Foi quando John D. Rockfeller Júnior contratou os serviços de Ivy Lee que foi o primeiro a colocar em prática princípios e técnicas de RP. John D. Rockfeller era um dos personagens mais odiados e odiosos da história dos negócios nos Estados Unidos.
O empenho de Ivy Lee em benefício de Rockfeller transformou o homem odiado pela opinião pública consciente de seu país em herói, em santo.
O sucesso na alteração da imagem pública de John D. Rockfeller Jr., de um velho capitalista voraz para um amável ancião, tornou-se uma legenda não só nos Estados Unidos mas em todo o mundo que começava a despertar para os problemas de Relações públicas.
A primeira guerra mundial projetou os Estados Unidos como grande potência, superando os países europeus na hegemonia política, econômica e militar de todo o mundo. Mas os americanos insistiram em manter depois da guerra o mesmo ritmo de produção alcançado durante ela, quando abastecia países envolvidos no conflito, fornecendo desde produtos alimentícios até manufaturas e combustível, o que gerou a crise de 1929.
Cândido Teobaldo afirma que a ”depressão econômica de 1929 exigiu a presença efetiva de técnicas de Relações públicas visando estabelecer a real situação que o país vinha atravessando no campo econômico-financeiro. Bernays chega a escrever que nessa época estourou uma autêntica revolução em Relações Públicas, através da idéia central de que o interesse público e o interesse privado deveriam coincidir exatamente”.

Relações Públicas e os meios de comunicação de massa
As Relações públicas se desenvolvem juntamente com os meios de comunicação de massa. Na utilização das RP por instituições visando a harmonia social, elas servem-se também dos meios de comunicação de massa para divulgar informações (e assim participam do conteúdo da comunicação) a fim de fazer chegar sua mensagem junto aos públicos a opinião pública. O desenvolvimento de meios capazes de alcançar simultaneamente, públicos de uma amplitude e uma dimensão jamais sonhadas no passado, permitiu que se desenvolvessem técnicas mais novas, mais aprimoradas, mais poderosas de informar e influenciar a opinião pública. Neste ambiente as Relações Públicas passaram a ser importantíssimas na informação pública e na persuasão da massa.
“O interesse pública está constantemente redefinido pela opinião das massas, pela opinião pública e que nós os Relações Públicas não somente temos o dever de conformar-nos com a opinião pública, mas também a responsabilidade e a oportunidade de modela-la.
As RP hoje são necessárias para informar influenciando a opinião pública e sua força cada vez maior gera também a necessidade do desenvolvimento conjunto com as comunicações de massa. Os meios noticiosos de informação poderiam funcionar sem o intermédio de Relações Públicas, mas não funcionariam tão bem nem tão suavemente.

Relações Públicas e Relações Humanas
Nas empresas Relações Humanas e Relações Públicas se complementam, pois as RP trabalham diretamente com as pessoas, ou seja, trabalha o bem estar do público e da empresa.

As Relações Públicas surgem em circunstâncias em que os conflitos de classes se tornam mais forte nas democracias burguesas e elas se explicitam como função persuasiva tentando fazer convergir os interesses de toda a sociedade e os interesses do capital.

Publicado por james stewart às 10:58 EM

RELAÇÔES PÙBLICAS 3

Informação pública e jornalismo


Informação pública e jornalismo
Marco António Antunes
Nos finais do séc. XIX e inícios do século XX, as relações públicas nos Estados Unidos tinham uma imagem negativa junto da opinião pública. Os agentes de imprensa e publicitação, na esteira de P. T. Barnum, manipulavam a informação através da propaganda e criação de pseudo-eventos. Actualmente é ainda esta visão que alguns jornalistas têm das relações públicas. A ideia de que "os RP vendem a imagem da organização, sem se preocuparem com o interesse jornalístico" é errada do ponto de vista da ética profissional. As relações públicas não estão interessadas em vender um produto, numa perspectiva comercial tal como a publicidade ou o marketing, mas em divulgarem um clima de imagem favorável da organização.
A chegada dos muckrakers, jornalistas empenhados em desvendar os aspectos obscuros e anti-éticos das organizações, trouxe a necessidade de criar um novo conceito de relações públicas. As modernas relações públicas situam-se a partir da Declaração de Princípios de Ivy Lee, um ex-jornalista que aplicou os princípios do jornalismo à assessoria de imprensa. Desde então, em vez de ocultarem a informação aos jornalistas, os profissionais de relações públicas efectivas fornecem o máximo de informação pública, no sentido de posicionar a organização como a fonte mais credível de informação mesmo em momentos de crise. Sempre que existam problemas na instituição, a posição do profissional de relações públicas é a de conciliar o direito à informação e a imagem favorável da instituição. "Ao contrário do que era comum até à década de oitenta, em que se tentava ocultar ao máximo o acontecimento, a tendência actual é posicionar a empresa [ou qualquer organização] como a principal e mais credível fonte de informação, perante uma situação de crise. Este posicionamento tem pelo menos a vantagem de levar os jornalistas a procurar o assessor de imprensa sempre que necessitem de mais informação, em vez de tentarem obter dados junto de outras fontes 'não autorizadas' ou menos informadas" (J. Martins Lampreia, A assessoria de imprensa nas relações públicas, 1999, pp. 92-93). A ocultação de informações públicas aos jornalistas é um elemento que prejudica a imagem das organizações.

Publicado por james stewart às 10:54 EM

RELAÇÔES PÙBLICAS 2

DESCRIÇÃO DO CARGO DE ASSESSOR DE RELAÇÕES PÚBLICAS

DESCRIÇÃO DO CARGO DE ASSESSOR DE RELAÇÕES PÚBLICAS

Roberto Porto Simões

Professor da FAMECOS -– PUC/RS

O recrutamento de profissionais de Relações Públicas, através de anúncios nos jornais, tem revelado indícios de desconhecimento desta atividade por parte dos responsáveis pelo recrutamento, quer seja o próprio empresário, quer seja o encarregado pelos recursos humanos.

Se me permitem o exemplo, a fim de clarificar este ponto, o nível atual de solicitação de profissionais de Relações Públicas, comparando-se à medicina, seria o de solicitar um médico, com curso de auxiliar de enfermagem, para a única tarefa de aplicar injeções, ou seja, um absurdo. Porém os anúncios continuam, significando a necessidade, apesar dos erros de conteúdo e forma. Isso nos leva a inferir dois pontos: a potencialidade dos profissionais de Relações Públicas não está sendo corretamente explorada.

talvez esteja acontecendo também com outras profissões, caso isso seja verdade.


Dito de outro modo, a empresa não está sendo eficaz no uso de seus recursos humanos e, assim, jogando dinheiro pela janela. Portanto, julgamos útil explicar uma descrição de cargo ampla do assessor de Relações Públicas, buscando minimizar, na parte que nos diz respeito, o mau aproveitamento dos insumos de pessoal.

Cargo
Assessor de Relações Públicas

Objetivo:
Otimizar o processo decisório organizacional nas políticas e atividades de Relações Públicas.

Estabelecer a integração os grupos que afetam os objetivos da organização.

Funções
Pesquisa, Planejamento, Assessoramento, Execução, Coordenação e Avaliação.

Tarefas:
Em Pesquisa: Realiza e/ou manda realizar por empresas especializadas em sondagem de opinião, pesquisas de opinião e atitudes sobre a imagem, o conceito e a credibilidade da organização;

Coleta informações através da imprensa escrita, falada e televisionada;

Identifica e caracteriza os públicos (grupos que afetam os objetivos da empresa);

Realiza pesquisa de leitura e leitura e leiturabilidade;

Realiza pesquisa de hemerografia;

Coleta sugestões solicitações e queixas;

Analisa e interpreta os dados das pesquisas;

Experimenta novos métodos e técnicas de Relações Públicas.


Em Planejamento: Elabora o planejamento de Relações Públicas, constituído de objetivos, estratégia, tarefas, cronogramas e orçamento;

Elabora programas de Relações Públicas;

Seleciona métodos e técnicas de Relações Públicas.


Em Assessoria: Fornece pareceres, apresenta alternativas e recomenda atividades à decisão da Direção sobre: estratégia e políticas de Relações Públicas; políticas de propaganda institucional; política de mecenato (doações), motivação dos recursos humanos e política de responsabilidade social;

Assiste à Direção e qualquer elemento de organização em todas as oportunidades de representação da empresa.


Em Execução: Cria, redige, produz e distribui informações específicas do seu setor, tanto para a imprensa, como para outros públicos específicos;

Supervisiona a criação e a produção de folhetos, cartazes, quadros de avisos, mostras, audiovisuais, filmes, relatórios e outras peças;

Organiza e realiza atos culturais, como, congressos, conferências, seminários, encontros, etc.;

Organiza e realiza atos sociais como, aniversários, jantares, coquetéis;

Organiza e realiza eventos especiais, como, inaugurações, comemorações, visitas, open-house, viagens;

Dirige o cerimonial;

Redige discursos, mensagens etc;

Organiza e assiste entrevistas individuais e/ou coletivas com a imprensa ou outros grupos;

Visita líderes de opinião;

Representa a empresa em atos públicos;

Supervisiona o arquivo de públicos, de imprensa, fotográfico, clichês, fotolitos, discos, documentação etc;

Administra material, pessoal e verba do seu setor;

Informa à Direção de todos os problemas de Relações Públicas em potencial, recomendando soluções (10% do seu tempo);

Emite e responde correspondência.


Em Coordenação: Coordena as políticas e atividades das filiais e dos setores (departamento) da organização.


Em Avaliação: Avalia os resultados dos planejamentos, programas, métodos e técnicas, orientando as reformulações ou esforços necessários.

Repórter
O assessor de Relações Públicas reporta-se à Direção, ligando-se, contudo, em nível técnico, administrativo e operacional a todos os setores da empresa.

Nível de instrução e experiência
Curso universitário de Relações Públicas e com uma experiência mínima de cinco anos.

Pessoal subordinado
O elemento principal de auxílio ao Assessor é o Assistente de Relações Públicas, cuja função é secundar o Assessor em suas atividades e realizar todas aquelas tarefas que venham a facilitar o trabalho da chefia. O nível de instrução deste elemento também deve ser universitário (pois será o substituto imediato em qualquer caso de ausência, em outras palavras, o "sombra"), no entanto não é necessário nenhuma experiência. Boa política, neste nível, é admitir estagiários.

Finalizando, sugerimos que no processo de administração, antes de formar o contrato de trabalho, seja realizado o contrato psicológico entre o Diretor e o Assessor, isto é, seja esmiuçada a descrição de cargo e as expectativas de ambas as partes quanto ao trabalho a ser realizado, a fim de que o assessor possa, saiba e queira desempenhar corretamente sua função e de que as expectativas da Direção não sejam frustradas, mas correspondidas e assim haja um diálogo ente as partes.

Originalmente publicado no número 8 do jornal O Público, órgão informativo da Associação Brasileira de Relações Públicas – Seção Estadual de São Paulo, em abril/maio de 1980, página 4.


Publicado por james stewart às 10:49 EM

RELAÇÔES PÙBLICAS 1

Relações Públicas: o que são

Relações Públicas: o que são

…esforço deliberado, planeado e contínuo para estabelecer e manter entendimento mútuo entre uma organização e os seus públicos.

… tentativa de, através de informação, persuasão e adaptação, conseguir o apoio público para uma actividade, causa, movimento ou instituição.

… a função administrativa que dá a mesma atenção organizada e cuidadosa ao valor da boa reputação que é dada aos outros principais trunfos do negócio.

… uma combinação de filosofia, sociologia, economia, línguas, literatura, psicologia, jornalismo, comunicação e outros conhecimentos num sistema de compreensão humana.

… boa execução, publicamente apreciada porque adequadamente comunicada.

… tudo o que envolve obter uma opinião favorável.

… função administrativa de carácter contínuo e planeado, através da qual organizações e instituições públicas e pri-vadas procuram ganhar e reter a com-preensão, simpatia e apoio daqueles com quem estão ou poderão vir a estar relacionadas — pela avaliação da opinião pública acerca delas, de modo a correla-cionar, tanto quanto possível, os seus planos de acção e métodos para, através de informação planeada e muito difundi-da, alcançar maior cooperação produtiva e realização mais eficiente dos seus inte-resses comuns.

Palavras-chave

… são o que quer que cada profissional pense que seja.

… a comunicação e interpretação e as comunicações e ideias de uma instituição para os seus públicos e a comunicação de informação, ideias e opiniões destes públicos para a instituição, num esforço sincero para estabelecer uma reciprocidade de interesses, para com isso conseguir um ajustamento harmonioso da instituição à sua comunidade.

… o seu objectivo não é vender um produto, mas produzir uma imagem favorável de uma companhia e melhorá-la, se necessário.

… em todas as formas de comunicação planeada, para o exterior e para o interior, entre uma organização e o seu público, com a intenção de alcançar objectivos específicos concernentes ao entendimento mútuo.

… modo de comportamento e uma maneira de transmitir informação com o objectivo de estabelecer e manter confiança mútua, baseada em conhe-cimento e entendimento mútuos, entre uma organização — um corpo colectivo desempenhando várias funções ou activi-dades — e os diferentes sectores do público, interno e externo, que são afec-tados por algumas ou todas essas funções ou actividades.

International Public Relations Encyclopedia, de P. Biddlecombe (Grant Helm) — cit. por H. Lloyd e P. Lloyd; desenho de Plantu



Publicado por james stewart às 10:45 EM

COMUNICAÇÂO INTERPESSOAL 6

Uma comunicação eficaz só é possível se algo de comum existe já no conhecido ou no "vivido" dos elementos que participam num determinado processo de comunicação.

Introdução
A Bases da Comunicabilidade
Uma comunicação eficaz só é possível se algo de comum existe já no conhecido ou no "vivido" dos elementos que participam num determinado processo de comunicação. Por outras palavras, a ausência absoluta de elementos comuns nas experiências dos indivíduos coloca os numa situação de relativa incomunicabilidade e se têm pouco de comum entre si, as suas possibilidades de comunicação são proporcionalmente limitadas.
As diferenças individuais - as de ordem psicológica e, sobretudo, as de natureza sociocultural - são habitualmente apontadas como as grandes responsáveis pela redução dessa plataforma comum que é a base da comunicabilidade humana. E a verdade é que entre dois indivíduos, ainda que partilhem a mesma cultura e se exprimam no mesmo idioma, há necessariamente algumas diferenças limitadoras da compreensão recíproca: na quantidade e qualidade dos conhecimentos, nas representações do mundo físico e social, nos quadros de referência, nos valores, etc.
Estas diferenças podem, em casos extremos, gerar uma autêntica incompatibilidade de esquemas, que faz da comunicação um "diálogo de surdos". E não se pense que se põe aqui apenas uma hipótese académica: as discussões alimentadas pela oposição de credos (ideológicos ou científicos) ou de paixões (religiosas, políticas ou clubistas) constituem exemplos elucidativos desse obstáculo a uma comunicação eficaz. Outras dificuldades, porém, têm origem nas características do código utilizado. A própria linguagem verbal, sendo um código altamente elaborado e convencionalizado, possui algumas limitações semânticas (por exemplo, certos estados emocionais são difíceis de exprimir por palavras). Mas os riscos de ambiguidade aumentam quando a comunicação se faz predominantemente através de formas menos estruturadas e convencionalizadas de comunicação não verbal, como é o caso da linguagem do corpo.
A comunicação recíproca contingente é, porém, a essência da interacção social. Só há interacção na medida em que os participantes trocam entre si mensagens significativas, de tal modo que o comportamento de um depende sempre (em parte) do comportamento anterior do outro e influencia o seu comportamento subsequente. Como vimos anteriormente, os comportamentos humanos só podem ser portadores de significado na medida em que existir um código, isto é, um corpo de regras que sirva para os seleccionar e organizar e interpretar.
Quando se aborda este tema, é natural que se pense imediatamente na linguagem. A própria psicologia tem dedicado particular atenção ao estudo dos códigos linguísticos (linguagem verbal) e paralinguísticos (apoios, substitutos e auxiliares da linguagem), o que deu, até, origem à constituição de disciplinas autónomas como são a psicolinguística (processos psicológicos subjacentes ao uso da língua) e a psicologia social da linguagem (comportamentos do sujeito falante), a par da psicologia da comunicação não verbal (em que se destaca a linguagem do corpo). Os códigos linguísticos e paralinguísticos são, porém, apenas dois exemplos de códigos lógicos, que são utilizados para significar a experiência objectiva e a relação do homem com o mundo (Guiraud, 1973). A este grupo pertencem também dois outros tipos de códigos, de muita importância individual e social porque têm por função, respectivamente, representar a própria realidade (códigos epistemológicos) e coordenar as acções das pessoas (códigos práticos). Pertencem à primeira categoria (códigos epistemológicos) os códigos científicos, altamente convencionais e restritivos, rigorosos e claros. Mas desempenham também a mesma função de representar a realidade, as mânticas, que incluem artes de adivinhação e meios de comunicar com os deuses, o além e o destino (Guiraud, 1973), e de que são exemplos a astrologia, a quiromancia, a oniromancia, a cartomancia, etc. Note se que alguns destes códigos, originariamente ligados ao "pensamento primitivo", têm evoluído no sentido de se aproximarem de códigos científicos.
Quanto aos códigos práticos, que se incluem ainda no grande grupo dos códigos lógicos, servem para transmitir injunções, intenções, avisos, ordens, etc., com o objectivo de orientar os comportamentos individuais. São constituídos por signos e programas em diversos suportes materiais (luz, cor, som, imagem), como pode verificar se em numerosos exemplos conhecidos: códigos de circulação (rodoviária, ferroviária, marítima, aérea), sinais de alarme, toques de clarim ou repique de sinos (com significados diversos).
O que une os diferentes códigos lógicos é a sua função de transmitir informação sobre a realidade exterior, percebida e racionalizada em sistemas de relações. Opõem-se-lhes os códigos estéticos, cuja função é comunicar a experiência interior do indivíduo perante a mesma realidade. Inclui se aqui não apenas a experiência estética em sentido estrito, mas tudo o que o ser humano pode sentir quando é afectado pela realidade física ou social (sentimentos e emoções em geral).
Os signos que constituem os códigos estéticos não são digitais, arbitrários e homológicos como sucede nos códigos lógicos; são, ao contrário, icónicos, motivados e analógicos. Sendo imagens da realidade ou exprimindo estados do sujeito, estes signos não podem ser inteiramente convencionalizados, e frequentemente escapam mesmo completamente a qualquer convenção. O observador interpreta os precisamente pela sua analogia com a realidade a que porventura se referem ou com os estados interiores que em si próprio originam expressões idênticas. O risco de erro é, por isso, maior do que nos códigos lógicos.
Na categoria de códigos estéticos incluem se não só todas as artes, mas também os comportamentos afectivos em geral, e ainda as simbólicas ou códigos de símbolos. Numa obra de arte, a realidade é por vezes representada com bastante evidência, impondo ao observador uma 1ógica de interpretação; em muitos casos, porém, ela pode suscitar no observador um estado emocional bem diferente do que experimentou o artista ao realizá la, tanto mais que se trata provavelmente de uma vivência não comum. As expressões de estados afectivos de que todos têm experiência são, naturalmente, mais fáceis de interpretar por analogia, e mais ainda quando assumem formas institucionalizadas que as aproximam dos códigos lógicos. De mais difícil interpretação são os símbolos, que no entanto abundam nos sonhos, nos mitos, nos ritos, nos contos populares.
As informações veiculadas através dos códigos lógicos ou dos códigos estéticos têm a ver com as relações do ser humano com o meio ambiente: - ou se referem ao modo como o indivíduo vê a natureza (no 1° caso), ou ao impacto da natureza sobre o indivíduo (no 2° caso). Existe ainda um terceiro grupo de códigos cuja função é transmitir informação sobre as relações dos seres humanos entre si, e que por isso são denominados códigos sociais.
Os signos sociais são muito numerosos e diversificados, apresentando se ora isolados ora agrupados em sistemas (códigos) mais ou menos complexos. Há signos que servem para identificar pessoas (indicando uma qualidade pessoal ou um grupo de pertença), e por isso se chamam signos de identidade. Incluem se nesta categoria bandeiras, brasões e totens, uniformes, insígnias e condecorações, marcas de fábrica e apelidos de família.
Há também signos de cortesia, aos quais compete informar sobre certas circunstancias da relação. Esta categoria de signos sociais abrange expressões verbais (saudações e outras fórmulas de cortesia, injúrias), comportamentos paralinguísticos (tom de voz, gesto, mímica), e ainda o uso significativo do espaço e do tempo (distância entre os interlocutores, demora em responder, etc.). Note se, por fim, que existem inúmeras oportunidades de usar outros signos de cortesia: por exemplo, no comportamento alimentar, na habitação e no mobiliário, no dar e receber presentes, etc.
Nas relações entre si, as pessoas utilizam frequentemente sistemas de signos sociais, isto é, códigos sociais, por vezes bastante complexos. Exemplos típicos (até pela rigidez e complexidade da gramática) são os protocolos e as etiquetas; mas também pertencem a esta classe de códigos os ritos, as modas e os jogos.
Definição dos Modelos e Conceitos de Base
A Comunicação humana enquanto processo
A natureza da comunicação humana
Modelo Telegráfico e Orquestral da Comunicação
Se o mundo foi dominado até a meados deste século pela problemática da energia, é também verdade que, desde aí, a comunicação tem sido o campo onde se têm operado os desenvolvimentos mais críticos de tal forma que, hoje, esta é uma das áreas primordiais de investimento, tanto em termos sócio económicos, como em termos pessoais, ou melhor, interpessoais.
Este facto fez naturalmente com que o termos comunicação se tenha tornado num lugar comum onde cabe tudo, desde comboios, autocarros, telefones, jornais, cadeias de rádio e televisão, pequenos grupos de encontro, agências de publicidade e, até, colónias de formigas, porque sabemos que os animais também comunicam entre si. Ora, quando um termo adquire um significado de tal forma global acaba por perder, senão todo, parte do seu sentido essencial. Parece nos, por isso, que se torna necessário começar por pôr um pouco de ordem nesta "babilónia" e tentar chegar a uma definição o mais clara possível do sentido da nossa comunicação.
Uma boa forma de começar poderá ser traçar as raízes etimológicas do termo. Com efeito, a palavras comunicação tem a sua origem no termo latino communicare que significava pôr em comum, estar em relação e que está na base de outros termos como comunidade, comunhão. Este sentido original, passou, a partir de dada altura a evoluir no sentido de designar a partilha de uma notícia (transmitir) uma notícia, uma doença, etc., e, daí, o uso da palavra no sentido global de partilha, passa progressivamente para segundo plano para dar lugar à utilização no sentido de transmissão, quer dizer, do círculo passa se ao segmento. É assim que, comboios, telefones e jornais se tornam "meios de comunicação", isto é, meios que permitem a passagem de algo de A para B e é este sentido de transmissão que predomina hoje em dia.
Em 1948 o cientista americano Norbert Wiener publica a sua obra Cibernética e, um ano mais tarde, um dos seus antigos alunos, Claude Shanon publica A Teoria Matemática da Comunicação. Esta obra, irá, com efeito, fornecer o modelo que irá ter a sua aplicação nos meios tecnológicos de transmissão de informação, como o telégrafo e o telefone.
Analisando este modelo, temos uma fonte de informação (por exemplo a nossa voz ao telefone), um emissor que transforma a mensagem em sinais (o telefone transforma a voz em oscilações eléctricas), um receptor, que reproduz a mensagem a partir dos sinais, e um destino, que é a pessoa a quem a mensagem é enviada. Durante a transmissão os sinais podem ser perturbados pelo ruído. Seja:

Graças, por um lado ao seu rigor conceptual, por outro à sua simplicidade, este modelo foi igualmente adoptado como enquadramento geral para o estudo da comunicação nas ciências sociais. Se bem que tenha sido objecto de muitas alterações e adaptações manteve, contudo o seu núcleo central à volta da noção de emissor - receptor. Torna se, assim, claro que o modelo do telégrafo acabou por impregnar decisivamente o estudo da comunicação humana, de tal forma que nos parece legítimo que possamos falar de um modelo telegráfico da comunicação.
Contudo, durante os anos 50, no momento em que o modelo telegráfico adquire uma posição dominante na reflexão. teórica sobre a comunicação, alguns investigadores americanos tentaram começar do zero no que diz respeito ao estudo do fenómeno da comunicação interpessoal, sem passar por Shannon [1]. Apesar de terem origens disciplinares diferentes este grupo de investigadores partiu de uma posição comum que era a oposição à utilização em ciências humanas do modelo de comunicação de Shannon, isto porque entendiam que este modelo tinha sido concebido por e para engenheiros de telecomunicações e não poderia ser utilizado no campo específico da comunicação interpessoal. Isto, porque a utilização do modelo telegráfico em antropologia ou em psicologia levou ao ressurgimento de concepções ultrapassadas ligadas à psicologia filosófica sobre a natureza do Homem e da comunicação. Segundo eles a concepção da comunicação entre dois indivíduos como transmissão de uma mensagem sucessivamente codificada e depois descodificada pressupõe uma concepção do psiquismo humano como algo encerrado dentro de um corpo, emitindo pensamentos sob a forma de palavras, sendo assim o acto comunicativo reduzido a um acto verbal, consciente e voluntário.
As ciências humanas deveriam, assim, procurar um modelo comunicacional mais adaptado à sua realidade. Um dos primeiros passos nesse sentido foi partir da seguinte questão: - tendo em conta os milhares de comportamentos possíveis (verbais e não verbais), quais são aqueles que vão ser retidos pela cultura para se organizarem como conjuntos significativos. Ora, pôr esta questão da selecção e da organização dos comportamentos remete nos para a existência de códigos, ou sistemas de regras que organizam o próprio comportamento. Estes códigos teriam como função organizar e seleccionar os comportamentos pessoais e interpessoais, regulariam a sua apropriação do contexto e, assim, a sua significação. A comunicação é entendida acima de tudo como um processo social permanente, integrando múltiplos modos de comportamento: - a palavra, o gesto, o olhar, a mímica, o espaço interindividual. etc.. Não se trata tanto de fazer uma oposição entre verbal e não verbal, na medida em que a comunicação é um todo integrado. Da mesma forma não é correcto, para estes autores, isolar cada comportamento do sistema global de comunicação e falar da "linguagem dos gestos", "linguagem do corpo", etc., assumindo estas expressões que cada postura ou cada gesto têm um único significado particular. Com efeito as "mensagens" oriundas de qualquer forma de comunicação não têm um significado intrínseco, pois é somente no contexto do conjunto dos modos de comunicação, actuados num determinado contexto interaccional, que o significado da comunicação pode ser correctamente apreendido.
Isto é tanto assim que dois autores pioneiros nesta área, Birdwhistell e Scheflen propõem uma análise de contexto, por oposição à análise de conteúdo mais adequada ao modelo telegráfico. Com efeito, se a comunicação é entendida unicamente como uma actividade verbal e voluntária, o significado está contido nas "frases" que os interlocutores trocam entre si e o analista da comunicação só tem que analisar essas "frases" para daí retirar todo o significado. Se, pelo contrário, a comunicação for concebida como um processo permanente, a vários níveis, o analista deverá, para apreender todo o significado, descrever o funcionamento dos diversos modos de comportamento num contexto determinado. Trata se de uma abordagem bastante complexa que faz apelo a metodologias de observação e análise elas próprias bastante complexas. É por isso que os procedimentos puramente experimentais em que a variação de um elemento x (sexo, idade, ou grau de intimidade dos interlocutores) são postos em correlação com as variações de um elemento y (por exemplo, a distância a que se encontram os interlocutores) não se revelam adequados para a abordagem da comunicação humana. Nesta perspectiva a mínima situação de interacção revela um nível de complexidade tal que é inútil tentar reduzi la a duas ou mais variáveis analisadas de forma linear. É em termos de níveis de complexidade, de contextos múltiplos, e de sistemas circulares, que deve ser pensada e realizada a pesquisa em comunicação humana, sendo assim que os modelos circulares oriundos da cibernética ou da teoria geral dos sistemas acabam por tomar um papel decisivo nesta área.
Esta concepção da comunicação enquanto processo complexo, circular, multidimensional e multinivelar levou a que recentemente tivesse sido utilizada a analogia da orquestra, (com vários instrumentos e a várias vozes) para designar esta forma de abordagem e possamos falar de um modelo orquestral da comunicação sendo esta abordada de um ponto de vista interaccional sistémico. A comunicação interpessoal desenvolve se como uma cadeia de actos significativos, que têm origem, alternadamente, num dos actores, e que são levados em conta pelo outro. Estes comportamentos portadores de significado - ou comportamentos comunicativos - não são exclusivamente linguísticos. Para além da linguagem verbal há outros sistemas de comunicação (Scheflen, 1981), em que se incluem comportamentos significativos tão diversos como movimentos do corpo ou de segmentos do corpo (gestos, olhar, expressão do rosto, riso, choro, etc.), manifestações neurovegetativas (alterações da cor da pele, actividades viscerais), toda a sorte de contactos físicos (aperto de mão, abraço, beijo), emissão de odores, e ainda o uso de certos adereços (vestuário, ornamentos, cosméticos). A analogia da orquestra permite acima de tudo compreender como cada indivíduo participa na comunicação sem que possamos dizer quem é que começa ou quem é que termina.
Mais adiante, quando estudarmos o modelo da pragmática da comunicação, que, no nosso entender, representa um dos mais interessantes desenvolvimentos deste modelo orquestral da comunicação, veremos que todo o comportamento é comunicação e que "não se pode não comunicar". Assim, qualquer indivíduo, só pelo facto de estar exposto à percepção do outro (mesmo sem fazer nada por isso), informa inevitavelmente um eventual observador sobre o seu aspecto físico e sobre o seu comportamento externo; e talvez lhe forneça ainda, por essa mesma via, alguns indícios que Lhe permitirão inferir outras informações (por exemplo, sobre a sua posição social ou sobre a sua disposição psicológica).
Esta comunicação não depende da intenção do sujeito que comunica e pode até ocorrer sem o seu conhecimento. Por vezes alguma informação é fornecida mesmo contra a vontade de quem a fornece, através de comportamentos expressivos cuja função é meramente consumatória. É o caso frequente de estados emocionais que se manifestam exteriormente através de alterações somáticas ou movimentos involuntários. Mais frequentemente, porém, a comunicação desempenha uma função instrumental, isto é, os indivíduos comunicam entre si intencionalmente, com o objectivo de trocar informação, ou seja, pôr em comum algo das suas experiências pessoais. Há, porém, que ter cuidado, quando se fala de comunicação humana, com a utilização do termo transferêncía (de informação). Este termo pode sugerir um processo linear, incluindo uma relação causal e uma sequência temporal de sentido único. Todavia, na comunicação, não somente o acto comunicativo de um indivíduo tem de ser percebido por outro indivíduo, mas o comunicador precisa de ter a confirmação disso. Mais ainda, a mensagem recebida dá a volta pelo interior do receptor (é compreendida e avaliada), podendo dar origem a uma mensagem resposta.
Para elucidar este conceito de comunicação, Watzlawick (1981) sugeriu que se compare a "resposta" de uma pedra ao receber um pontapé com a que, na mesma circunstância, daria um cão. A pedra desloca se, e o seu movimento é fisicamente determinado pelo impulso recebido (em concorrência com outros factores físicos como sejam certas características da pedra e do terreno). O comportamento do cão é menos previsível, mas não é de excluir que ele se volte para trás e morda o agressor. A diferença fundamental entre as duas respostas, segundo Watzlawick, está em que no primeiro caso o movimento realiza se com a energia transferida do pé para a pedra, enquanto no segundo caso, a mordedura, realiza se com a energia própria do cão. Quer dizer, enquanto o comportamento da pedra responde à transferência de energia, o comportamento do cão responde, a uma transferência de informação. É isso a comunicação. Quer isto dizer que se a pedra reage directamente e de forma linear (quanto mais força, mais deslocamento) à energia recebida, no segundo caso a informação recebida pelo cão vai ser analisada no contexto da relação com o homem e com a situação, dependendo a sua resposta dessa análise.
Estamos, assim, perante um sistema não apenas circular (porque inclui um feedback), mas interaccional, no sentido de que cada actor se assume simultaneamente como emissor e como receptor. Numa perspectiva interaccional-sistémica não podemos afirmar que um indivíduo comunica o que quer que seja - os indivíduos não comunicam, mas participam em processos de comunicação. Cada um de nós pode movimentar se, fazer ruído, mas não comunica. Podemos ver, podemos ouvir, sentir, saborear, mas não comunicar. Por outras palavras, se comunicação significa "pôr em comum" este processo não pode rigorosamente ser definido como tendo uma origem individual, podemos ser participantes, mas autores de comunicação. A comunicação, enquanto sistema não deve ser, então, concebida sobre o modelo elementar da acção e da reacção, por mais complexo que seja a sua concepção, mas deve ser apreendida ao nível da troca, da interacção.
É frequente, para analisar as propriedades comunicativas dos diferentes sistemas, começar por distinguir entre comunicação verbal e comunicação não verbal. Tal distinção, que tem por critério fundamental o suporte material da mensagem, privilegia de facto o código linguístico, opondo o ao conjunto de todos os outros sistemas. Por outro lado, esta classificação junta na mesma categoria signos de natureza tão diversa como corar ou tremer (expressões espontâneas incontroláveis) e acenar ou menear a cabeça (gestos voluntários e convencionais, equivalentes a signos linguísticos).
Note se, para finalizar, que o sistema interaccional, quase sempre encarado, na análise psicológica, como um sistema quase isolado (situado num contexto donde não pode vir senão algum ruído), é na realidade atravessado por outros sistemas de comunicação. Cada um dos interlocutores encontra se integrado numa imensa rede (Serres, 1969) por onde circulam permanentemente informações. Os circuitos integrados nessa rede não se situam sempre ao nível interpessoal ("de alguém para alguém"). Existe também o "diálogo" interior que é comunicação ao nível intra pessoal (de si para si); e há ainda informações que são transmitidas ao nível grupal (de um para muitos); e até ao nível cultural (de muitos para muitos), seja entre grupos distanciados no espaço (diferentes contextos), seja entre grupos distanciados no tempo (diferentes gerações).
Quer dizer, no diálogo cada interlocutor não leva apenas em conta o que o outro diz, mas um número indeterminado de informações que recebeu de outras fontes, por circuitos situados a qualquer dos níveis citados.
Pragmática da Comunicação Humana
A investigação centrada neste modelo tem sido desenvolvida no Mental Research Institute, Palo Alto, Califórnia por um conjunto de investigadores inspirados pelas ideias de Gregory Bateson, um antropólogo que desenvolveu uma teoria comunicacional da esquizofrenia baseada no conceito de double-bind.
A especificidade da Escola de Palo Alto resulta não tanto do facto de chamar a atenção para o problema da comunicação, mas pelo facto a comunicação ser vista não somente como veículo, como uma manifestação, mas como uma melhor forma de designar aquilo a que se costuma chamar "interacção" (Watzlawick & Weakland, 1977, p. 56).
A sua abordagem da comunicação parte da definição de três níveis de análise da comunicação humana: a sintaxe, definida como o estudo das relações formais dos signos entre si; a semântica, definida como o estudo das relações entre os signos e os objectos aos quais se referem, quer dizer, o estudo do sentido; e a pragmática, definida como o estudo da relação entre os signos e os seus utilizadores, isto é, os correlatos comportamentais da comunicação. É, com efeito, sobre o aspecto pragmático da comunicação que estes autores se vão debruçar - as suas observações sobre o processo de comunicação humana permitiu lhes desenvolver um conjunto de cinco premissas básicas as quais, sendo seguidas nas suas implicações , permitem construir uma perspectiva diferente da comunicação humana.
Estas proposições básicas definem algumas propriedades formais da comunicação a partir das quais é feita toda a reflexão sobre a relação interpessoal.
Propostas para uma axiomática da comunicação
1º Axioma
Começamos por abordar o primeiro axioma chamando a atenção para uma propriedade fundamental do comportamento que se refere ao facto de que o comportamento não tem contrário. Dito de outra forma: - não existe qualquer tipo de não comportamento, ou ainda, não podemos em ocasião alguma deixar de nos comportarmos. Ora, se admitirmos que numa interacção [2] todo o comportamento tem um valor de mensagem, podemos concluir que não é possível não comunicar, isto é, qualquer comportamento na presença de outro é comunicação. Esta afirmação, se bem que óbvia não é de forma alguma trivial.
Em qualquer situação de contacto social existe comunicação envolvendo uma multiplicidade de formas, conteúdos e canais. Actividade ou inactividade, discurso ou silêncio, tudo tem um valor de mensagem. Quer dizer influenciam de alguma forma os outros que, por sua vez, não podem deixar de reagir a essa influência, participando, assim, no processo de comunicação. Naturalmente o simples facto de ficarmos calados num determinado momento, ou de não "ligarmos" à conversa de outra pessoa não constitui excepção àquilo que acabámos de referir. Uma pessoa sentada sozinha num bar cheio de gente olhando em frente, uma pessoa numa sala de espera de um consultório que não tira os olhos de um jornal, um passageiro num avião que permanece a maior parte do tempo recostado no seu assento de olhos fechados, fazem todos, de forma mais ou menos eficaz, passar a mensagem de que não querem falar com ninguém, nem estão interessados em que alguém lhes dirija a palavra; em geral os seus "vizinhos" compreendem a mensagem e deixam nos em paz. Ora podemos até pensar que há aqui mais comunicação do que em muitas discussões acaloradas.
Esta constatação não depende de outro tipo de questões como seja o grau de intencionalidade, consciência ou sucesso de cada acto comunicativo. Isto é não existe só comunicação quando esta é intencional, consciente ou bem sucedida, quer dizer se há compreensão mútua. Nesta perspectiva estas são questões importantes, mas de outra ordem. Quer dizer, Aquilo que o presente axioma pretende acentuar é que qualquer que seja o tipo de comportamento exibido: actividade ou inactividade, verbalização ou silêncio influenciam o comportamento do outro, que por sua vez não pode deixar de reagir a esse mesmo comportamento, logo comunicando.
Concluiremos fazendo notar que até aqui temos utilizado o termo "comunicação" num duplo sentido: por um lado designando o tema global do que temos vindo a tratar, (a comunicação) por outro, num sentido mais específico, designando uma unidade de comportamento (uma comunicação entre o sujeito A e o sujeito B). Importa agora introduzir algum rigor de linguagem. Continuaremos a designar por comunicação o aspecto pragmático da teoria da comunicação humana. Para referir as diferentes unidades de comunicação (ou de comportamento) somos forçados a escolher termos que são já de uso corrente. Uma unidade de comunicação será referida como mensagem, ou, nos casos em que não houver confusão possível, como uma comunicação. Uma série de mensagens trocadas entre sujeitos será designada por interacção. Para além disso, se admitimos que todo o comportamento é comunicação, mesmo no caso da unidade mais simples, torna se evidente que quando falamos em mensagem não nos referimos à expressão única de um indivíduo. Mensagem envolve sempre uma troca composta por modos mais simples ou mais complexos de comportamentos: - linguísticos (linguagem verbal), paralinguísticos (entoações, acentuações), posturais, contextuais, etc., cada um deles servindo para especificar o sentido dos outros. Os diferentes elementos de que pode ser composta uma mensagem (considerada como um todo) são passíveis de permutações muito variadas e muito complexas, podendo ir da congruência à incongruência e até ao paradoxo. A pragmática da comunicação dedica se precisamente a compreender os efeitos dessas combinações nas situações interpessoais.
A implicação de tudo isto no contexto educativo é por demais evidente pois daqui para a frente há a considerar todo ou qualquer elemento, mesmo aqueles a que se não dava atenção, para compreender o processo de comunicação (ou relação) educativa. O tom de voz, o próprio silêncio, colar de pérolas ou as jeans da professora, a cor das paredes da sala, as posturas físicas, tudo isto podem ser elementos de comunicação.
2º Axioma
A partir do que dissemos até agora estamos em condições de compreender que toda a comunicação funciona a partir de um envolvimento recíproco e, por isso, define uma determinada relação entre os elementos que participam num determinado processo de comunicação. Por outras palavras podemos dizer que uma comunicação não se limita a transmitir uma informação, mas ao mesmo tempo tende a induzir um determinado comportamento. A informação que é transmitida designa naturalmente o conteúdo da mensagem e pode ter por objecto tudo o que é comunicável, independentemente do facto de a informação ser verdadeira, válida ou até compreensível. Por outro lado, os elementos que designam a forma como deve ser entendida a mensagem definem a relação entre os parceiros [3]. Por exemplo a seguinte pergunta: - Estas pérolas são verdadeiras? colocadas em duas situações diferentes, situação A: posta por alguém numa joalharia ao vendedor, e situação B: posta por uma mulher a outra em voz alta numa recepção de cerimónia; se bem o conteúdo seja o mesmo, define contudo, duas relações completamente diferentes [4].
Na comunicação humana este aspecto meta-comunicativo (a informação sobre a informação) é muitas vezes passado através de elementos verbais: isto é uma ordem!, Estava a brincar... ou exprimirem se forma não verbal através de gritos, sorrisos, agitando os braços, e de uma infinidade de outras maneiras. A relação pode, assim, ser compreendida a partir do contexto onde se efectua a comunicação. O contexto funciona então como uma meta comunicação.
Podemos assim enunciar o terceiro axioma da comunicação: - toda a comunicação apresenta dois aspectos: o conteúdo e o contexto de tal forma que o segundo engloba o primeiro, sendo, por isso, uma forma de metacomunicação. O aspecto de conteúdo da comunicação transmite uma informação, enquanto que o aspecto de contexto designa a forma como deve ser entendida essa informação, definindo assim a relação entre os elementos envolvidos na comunicação.
3º Axioma
Consideremos agora uma outra propriedade fundamental da comunicação: - a interacção entre os participantes em processos de comunicação. Para um observador exterior uma série de mensagens pode ser considerada como uma sequência ineterrupta de trocas. Contudo cada uma das pessoas, para darem sentido ao seu comportamento e ao dos outros, fazem aquilo que foi designado por pontuação da sequência de factos.
A noção de pontuação tem aqui um significado muito próximo do verificado na linguagem escrita porque tem fundamentalmente a mesma natureza e serve a mesma função. No que diz respeito à sua natureza, da mesma forma que na linguagem escrita, a pontuação no processo de interacção marca o início e o fim de sequências concretas. Por exemplo, um ponto final marca o fim de uma frase com um sentido em si e, ao mesmo tempo, marca o início de outra frase [5]. Analisemos agora o que diz respeito à sua função. Por definição a comunicação consiste numa corrente contínua de actos comunicativos alternados, Contudo, de forma a dar sentido, a definir uma ordem, a este processo, cada um dos participantes vai pontuar essa sequência de uma determinada maneira, podendo, por exemplo definir o seu comportamento como reacção, como resposta a uma acção do outro, ou, pelo contrário assumir a iniciativa, definindo o comportamento do outro como resposta.
Aqui a questão principal não é saber se a pontuação da sequência de comunicações no seu conjunto é boa ou má. O que é evidente é que a pontuação serve para estruturar a comunicação de tal forma que se torne de alguma forma intelegível para os elementos em presença, sendo por isso essencial ao funcionamento de qualquer interacção. Do ponto de vista cultural todos nós temos em comum muitas convenções de pontuação que não nem mais nem menos exactas que outras maneiras de pontuar os mesmos factos, mas que acabam por ter uma função estruturante das sequências de interacção sejam elas mais banais ou mais significativas. Dizemos, por exemplo, que num grupo um indivíduo se comporta como um líder, e outro indivíduo como seguidor, mas se observarmos com mais atenção, alargando o campo da nossa observação, verificamos que é difícil dizer quem é que tomou a iniciativa e em que é que se tornariam um sem o outro.
Se tivermos em conta o campo global das relações humanas, verificamos que o desacordo sobre a forma de pontuar uma sequência de interacção está origem de muitos conflitos relacionais. As incompatibilidades de esquemas ou de pontuação, uma vez que dizem respeito a disposições subjectivas, podem ocorrer na comunicação qualquer que seja a natureza dos comportamentos comunicativos.
Tomemos como exemplo um casal a braços com um problema conjugal; o marido contribui para esse problema com a sua atitude de afastamento e passividade enquanto que a mulher mostra o seu descontentamento através de críticas severas. Ao comentarem a sua relação o marido dirá que o seu afastamento é a única resposta possível contra o criticismo da sua mulher; esta, pelo contrário dirá que esta interpretação é uma distorção grosseira e deliberada daquilo que se passa na sua relação conjugal - ela critica o marido precisamente devido à sua passividade. Se pusermos de lado alguns elementos circunstanciais e passageiros verificamos que as suas brigas se resumem a uma monótona troca de mensagens deste género: "Eu afasto me porque tu és muito agressiva" e "Eu sou agressiva porque tu te afastas". Cada interlocutor "recorta" a seu modo a sequência de mensagens em unidades "estímulo resposta", isto é, causa efeito; e pode então acontecer que a mesma mensagem seja estímulo ou causa para um (por exemplo, uma provocação), e resposta ou efeito para o outro (resposta à provocação). Estas incompatibilidades de pontuação não só perturbam a compreensão das mensagens, como afectam também a relação interpessoal.
Outro exemplo deste processo é intervimos numa briga de crianças e perguntamos quem é que começou. Então o menino A diz: "foi ele que me deu um pontapé! ao que o menino B responde: "não! porque tu antes tinhas me empurrado. Etc., Etc..
Um processo análogo passa se ainda ao nível das relações internacionais, especialmente no que diz respeito à corrida aos armamentos. Se, como as principais potências militares defendem, a melhor maneira de defender a paz é preparar a guerra, não se percebe porque é que todas as nações tendem a considerar os arsenais bélicos das nações potencialmente inimigas como uma ameaça à paz. É, contudo, isso que acontece, o que tem habitualmente como resultado cada uma das nações procurar aumentar o seu poderio militar, de forma a ultrapassar aqueles países que acham que os podem ameaçar. Este crescimento de armamento é, por sua vez, considerado uma ameaça para a nação A, que tende a aumentar os seus armamentos defensivos, o que é visto como uma ameaça pela nação B, que irá melhorar as suas defesas e assim por diante...
Podemos, então formular um terceiro axioma da comunicação humana: A natureza de uma relação depende da pontuação da sequência de interacções entre os elementos envolvidos na comunicação.
4º Axioma
Na comunicação humana, podemos designar os objectos, num sentido vasto do termo, de duas maneiras inteiramente diferentes. Podemos representá los por qualquer coisa que se assemelhe, um desenho, por exemplo, ou podemos designá los por um nome. Assim, a frase escrita: "O gato apanhou o rato" podíamos substituir as palavras por imagens, o que, sendo bem feito não acarretaria nenhuma perda de sentido. No primeiro caso (utilização de símbolos linguísticos) estamos em presença de um modo de comunicação digital, no segundo caso (utilização de analogias) estamos perante uma forma de comunicação analógica.
Cada vez que nos servimos de uma palavra para referir uma coisa é evidente que a relação que estabelecida entre o nome e a coisa nomeada é um relação arbitrária. As palavras são sinais arbitrários que utilizamos de acordo com as regras da língua que falamos. Não há nenhuma razão particular para que a junção das letras g.a.t.o sirvam para designar um determinado animal. Trata se de uma convenção semântica de uma dada língua. Se falássemos francês a frase acima exemplificada tomaria a forma de: "Le chat a attrapé la souris." utilizando palavras diferentes para dizer a mesma coisa. Fora dessa convenção não existe nenhuma outra correlação entre uma palavra (significado) e o objecto concreto designado (significante), com excepção eventualmente da onomatopeias, o que não tem um significado particular.
Pelo contrário, na comunicação analógica existe verdadeiramente algo de específico naquilo de que nos servimos para designar um objecto determinado. A comunicação analógica tem relações mais directas com aquilo que é representado. O exemplo seguinte permitirá clarificar um pouco mais as diferenças entre estes dois modos de comunicação: - se escutarmos uma língua estrangeira na rádio não conseguiremos compreendê la, contudo somos capazes de deduzir algumas informações elementares a partir da observação de um discurso através dos gestos e dos movimentos que servem para assinalar uma intenção, mesmo que estejamos perante um indivíduo de uma cultura completamente diferente. Podemos supor que a linguagem analógica tem as suas raízes nos períodos mais arcaicos da evolução e que, por isso tem uma validade muito mais geral que a comunicação digital, muito mais recente e abstracta. O que é então a comunicação analógica? A resposta é relativamente simples: - Praticamente toda a comunicação não verbal. Contudo é necessário termos em atenção que muitas vezes restringimos a noção de não verbal aos movimentos corporais. Na definição de não verbal, contudo, deve ser englobada a postura, gestos, mímica, inflexões da voz, sucessão, ritmo e entoação das palavras, e qualquer outros indícios que nunca faltam em todos os contextos nos quais ocorre uma interacção.
No estado actual de conhecimentos supomos que o Homem é o único organismo capaz de utilizar estes dois modos de comunicação: digital e analógico. Não sabemos ainda o significado e importância exactos deste facto, contudo, se por um lado, a maior parte, senão todas, as obras da civilização seriam impensáveis se o Homem não tivesse elaborado uma forma de comunicação digital, por outro, existe um domínio vasto onde confiamos quase exclusivamente na comunicação analógica, é o domínio da relação. Enquanto que a linguagem digital é importante no que toca à troca de informação sobre os objectos com vista à transmissão do conhecimento, a comunicação analógica, sendo a linguagem da emoção por excelência, serve essencialmente para assinalar intenções e indicações de humor através da qual definimos a natureza das nossas relações, mais do que para transmitir mos informação sobre os objectos. Este modo de funcionamento está muito mais próximo do comportamento animal, pois, por exemplo, quando me levanto e abro a porta do frigorífico se o meu gato vem roçar se nas minhas pernas miando suavemente, isso não quer dizer "Eu queria leite...", que é o que os seres humanos normalmente entendem, mas, mais correctamente, remete para um tipo especial de relacionamento: "Quero que sejas a minha mãe...", isto porque este tipo de comportamento de roçar o corpo só pode ser observado entre gatos juvenis e gatos adultos, nunca entre dois animais adultos. Com efeito, muitas pessoas estão convencidas que o seu animal de estimação "compreende" aquilo que eles dizem, mas, convém precisar que o que o animal compreende não é o sentido das palavras, mas toda a riqueza da comunicação analógica que acompanha o nosso discurso.
Com efeito, sempre que a relação é o tema em causa a linguagem digital revela se extremamente pobre. Isto é assim não somente no caso da interacção entre animais e homens, mas em muitas outras circunstâncias da vida humana: fazer a corte, amar, ajudar, combater e, naturalmente cuidar de crianças pequenas. Muitas vezes dizemos que as crianças têm uma capacidade especial para as características de personalidade dos adultos, o que é de alguma forma assim porque, por um lado são especialmente sensíveis aos aspectos analógicos da comunicação e, por outro, é muito fácil iludir os outros do ponto de vista verbal, mas é muito difícil mentir no domínio analógico. Em resumo, se nos lembrarmos que a comunicação tem dois aspectos: conteúdo e relação, podemos pensar que provavelmente o conteúdo tenderá a ser preferencialmente transmitido no modo digital enquanto que a relação é essencialmente transmitida de forma analógica.
Comparemos agora algumas das características específicas da linguagem analógica e da linguagem digital. Uma das primeiras distinções situa se ao nível da complexidade, da flexibilidade e capacidade de abstracção, que são muito maiores na linguagem digital. Para sermos mais precisos diremos que não existe nada na comunicação analógica que se possa comparar à sintaxe lógica do material digital. O que quer dizer que a linguagem digital não possui equivalente para certas proposições lógicas de importância fundamental como "se... então", "ou... ou", etc., sendo igualmente difícil, senão impossível, transmitir conceitos abstractos [6].
Uma outra distinção tem a ver com o facto de a comunicação analógica, ao contrário do código digital, não poder exprimir a negação simples, isto é, não possui uma expressão que signifique "não". Mais concretamente, as lágrimas podem exprimir alegria ou tristeza, um punho fechado pode ser um sinal de agressividade, força, embaraço, um sorriso pode exprimir simpatia ou desprezo. A linguagem analógica não contém, em si, elementos discriminantes que indiquem, perante sentidos contraditórios, qual deles deverá ser adoptado; assim como não tem índices que permitam distinguir o presente, o passado e o futuro.
Qualquer pessoa encontrando se na obrigação de combinar estes dois modos de comunicação tem que continuamente fazer a tradução de um no outro. Ora existem dificuldades de tradução em ambos os sentidos. Não podemos traduzir a linguagem digital em linguagem analógica sem uma importante perda de informação e a operação contrária apresenta igualmente dificuldades consideráveis: para podermos falar sobre a relação temos que ser capazes de encontrar uma tradução adequada da comunicação analógica em comunicação digital.
Em síntese: Os seres humanos usam dois modos de comunicação: digital e analógica. A linguagem digital possui uma sintaxe lógica bastante complexa e bastante cómoda, mas não tem uma semântica apropriada à relação. Pelo contrário a linguagem analógica tem uma semântica muito rica, mas não a sintaxe apropriada a uma definição inequívoca da natureza das relações.
5º Axioma
Em 1935 Gregory Bateson relatou um fenómeno que tinha observado na tribo dos "Iatmul" na Nova Guiné o qual designou por esquizmogénese e definiu como referindo se a um processo de diferenciação das normas de comportamento individual no seguimento de uma interacção cumulativa entre indivíduos.
Se, por exemplo, numa determinada cultura o modelo de comportamento apropriado para o indivíduo A for um modelo autoritário podemos esperar que outro indivíduo B, que entre em interacção com o indivíduo A, adopte um modelo de comportamento culturalmente definido como submissão. É igualmente provável que esta submissão tenda a favorecer novos comportamentos autoritários do indivíduo A que exigirão comportamentos submissivos e assim por diante de tal forma que A se tornará cada vez mais autoritário e B cada vez mais submisso. Este processo descreve um modelo de esquizmogénese complementar. Se, pelo contrário, ao comportamento autoritário do indivíduo A, o indivíduo B responde com um comportamento de tipo autoritário, é provável que se desenvolva uma situação de competição na qual o autoritarismo conduz a um cada vez maior autoritarismo. Esta situação foi designada por esquizmogénese simétrica.
Estes dois modelos que acabámos de referir mostraram ser bastante úteis em diversas outras situações interaccionais de tal forma que acabaram por ser designados simplesmente por interacção complementar e interacção simétrica. Podemos dizer que se tratam de relações fundadas seja sobre a igualdade (simetria), seja sobre diferença (complementaridade) [7]. No primeiro caso, os parceiros tendem a adoptar um comportamento em espelho, e por isso, a sua interacção pode ser considerada simétrica. No segundo caso o comportamento de um dos parceiros de certa maneira complementa o comportamento do outro e, assim, consideramos a sua interacção complementar. Uma interacção simétrica caracteriza se, assim, pela igualdade e minimização das diferenças, enquanto que uma interacção complementar se funda na maximização da diferença.
Numa relação complementar existem duas posições diferentes possíveis. Um dos parceiros pode ocupar uma posição que pode ser designada como superior, primária, ou "por cima" (one-up) e o outro a posição correspondente, dita inferior, secundária ou "por baixo" (one down). Esta designação é bastante cómoda desde que nem uma nem outra posição seja sinónimo de "bom" ou de "mau", "forte" ou "fraco". Com efeito o contexto social ou cultural aponta em determinados casos para uma relação complementar (por exemplo, mãe-filho, médico-doente, professor-aluno, etc.) assim como, de um ponto de vista pessoal, duas pessoas podem acordar numa relação deste tipo. Note se igualmente que na maior parte dos casos se trata de uma relação solidária no sentido os comportamentos se implicam e sustentam reciprocamente. Não é geralmente um dos parceiros que impõe uma relação complementar ao outro, mas cada um deles comporta se de uma maneira que pressupõe e ao mesmo tempo justifica, o comportamento do outro.
Se quisermos complexificar um pouco este processo poderíamos ainda falar de relação "meta complementar", na qual A permite ou constrange B a depender dele e, seguindo o mesmo raciocínio, poderíamos conceber igualmente uma relação de "pseudo simetria" na qual A deixa ou constrange B a tomar uma posição simétrica. Contudo, esta linha de análise poderia eventualmente conduzir a uma regressão até ao infinito. Podemos evitar isso tendo em conta a distinção entre observação de comportamentos redundantes, e as suposições que podemos fazer sobre as razões desses comportamentos. Quer dizer, temos essencialmente em conta a forma como se comportam os dois parceiros, abstraindo nos das razões que eles têm ou crêem ter para se comportarem dessa maneira.
Temos, assim, um quinto axioma: Toda a comunicação é simétrica ou complementar segundo se baseia na igualdade ou na diferença.
Conclusão
A propósito do conjunto de axiomas que acabámos de apresentar, convém fazer algumas chamadas de atenção.
Em primeiro lugar, tratam se basicamente de propostas, definidas de uma forma não muito rigorosa, que se pretendem constituir essencialmente como pontos de partida para uma reflexão global sobre os processos de comunicação humana, mais do que um sistema conceptual perfeito e acabado.
Em segundo lugar, tratam se de um conjunto de axiomas bastante heterogéneo porque resultam da observação de fenómenos de comunicação situadas em registos muito variados. Se existe algum factor comum este não se situa tanto na sua origem, mas na sua importância pragmática. Assim, a impossibilidade de não comunicar faz com que toda a situação comportando duas ou mais pessoas seja uma situação interpessoal, uma situação de comunicação. O aspecto "relação" de uma tal comunicação dá uma especial atenção a este ponto. A importância pragmática interpessoal dos modos de comunicação digital e analógico não reside somente num suposto isomorfismo entre conteúdo e a relação, mas na ambiguidade inevitável e significativa a que se arriscam emissor e receptor sempre que tentem traduzir um modo de comunicação noutro. Aquilo que foi dito acerca dos problemas de pontuação repousa precisamente sobre a metamorfose implícita do modelo clássico "acção-reacção". Enfim, o paradigma simetria-complementaridade é, talvez, aquele que se aproxima mais do conceito matemático de função. As posições dos indivíduos são variáveis que podem tomar um número infinito de valores, mas cujo sentido não é absoluto porque só pode ser definido no contexto da relação recíproca.

Formas e tipos de comunicação
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Linguagem e pensamento
Comunicação e Influência
Os actos comunicativos têm normalmente por objectivo a passagem de informação. Ora se, como dizia Bateson, toda a informação resulta de uma diferença, para que haja informação terá que ser introduzido algum aspecto de diferenciação, isto é de transformação ou de mudança. Isto é, após um determinado processo de comunicação terá havido alguma mudança em pelo menos um dos elementos participantes nesse processo, seja ao nível do seu sistema de crenças (conhecimentos) ou no seu estado afectivo, seja no seu comportamento externo. Mas há casos em que alguém origina mudanças cognitivas, afectivas ou comportamentais em outra pessoa, mesmo sem o desejar e até sem o saber; e outros casos em que a mudança efectivamente provocada no outro vai num sentido diferente do que o agente pretendia.
Este fenómeno, que consiste em provocar mudança no outro, e que é designado influência social, está de tal modo associado à comunicação, que bem se pode dizer que todos os comportamentos comunicativos - que é, afinal, o mesmo que dizer todos os comportamentos - possuem algum poder suasório; ou, encurtando razões, que a comunicação é essencialmente retórica.
Estes efeitos de mudança são, porém, diversificados. Pode ser a simples informação pertinente que o destinatário integra no seu sistema cognitivo (aprendizagem). Por vezes são os argumentos convincentes que o fazem mudar de opinião (persuasão). Há também as pressões irresistíveis que forçam o seu comportamento (ameaça). E existem ainda casos em que um indivíduo se deixa influenciar nas suas crenças, sentimentos ou comportamentos sem se dar conta da mensagem que está a influenciá lo (sugestão).
As mudanças ocorridas nos processos de comunicação não se devem, porém, exclusivamente à dimensão retórica da mensagem. Há também variáveis ligadas às pessoas implicadas, ou seja, ao agente influenciador (que possui mais ou menos poder social e ao sujeito alvo (que é mais ou menos influenciável) [8].
French & Raven (1967) identificaram cinco bases do poder social, ou características cuja presença num agente-influenciador lhe confere capacidade para exercer influência sobre um sujeito-alvo, desde que este lhas reconheça ou atribua. Uma pessoa deixa se influenciar por outra nas suas crenças, sentimentos ou comportamentos ora porque lhe atribui a capacidade de premiar (poder de recompensa) ou de castigar (poder de punição), ora porque se identifica com ela (poder de referência), ora porque lhe reconhece o direito de a controlar (poder legitimado), ora porque crê que ela merece crédito (poder de competência). Note se, porém, que o poder atribuído em qualquer destas bases raramente é generalizado ou ilimitado, antes se circunscreve a uma área determinada e não ultrapassa certo limite.
A maior ou menor influenciabilidade de uma pessoa tem naturalmente algo a ver com uma característica geral relacionada com a variável autonomia/dependência. Mas deixar se influenciar numa situação concreta pode corresponder a motivações muito diferentes. O objectivo do sujeito pode ser apenas obter um determinado efeito social (por exemplo, para receber uma recompensa ou evitar uma punição). Ele pode pretender preservar ou cultivar uma relação com o agente (por exemplo de amizade ou simpatia). Finalmente/ pode também acontecer que ele aceite a influência porque houve uma adesão ao conteúdo, visto como consonante com os seus próprios valores.
As diferenças apontadas nos motivos correspondem também diferenças nos efeitos. Assim, se é apenas o efeito social que conta, pode acontecer que a conformidade do sujeito se mantenha apenas enquanto houver vigilância. Se é uma questão de relação pessoal, a atitude conformista poderá durar enquanto essa relação for sentida como importante. Quando há adesão ao conteúdo, é natural que a conformidade do sujeito permaneça, independentemente do agente influenciador.
Podemos, então, distinguir vários tipos de conformidade, consoante o sujeito modifica ou mantém intacta a sua convicção, perante uma tentativa de influência em que o agente apresenta argumentos ou exerce pressões (Hare, 1985). Aceitar os argumentos de outrem sem alterar a própria convicção é mera convergência de posições. Ceder a pressões, mantendo a convicção intacta é submissão. Modificar a convicção pessoal cedendo a argumentos é consenso. Modificar a convicção pessoal cedendo a pressões é conformismo.
As técnicas de persuasão servem precisamente para aumentar a eficácia da comunicação, no sentido de alterar as convicções de outrem pela via da argumentação racional. Há, porém, situações em que as pessoas se deixam levar por uma pressão externa, ao ponto de cometerem erros grosseiros de percepção ou de juízo; e outras em que cedem a uma pressão externa ao ponto de se comportarem em desacordo com valores que lhes são caros.
Um exemplo típico do primeiro tipo de situação é o chamado efeito Asch, que consiste em um indivíduo adoptar a opinião manifestada por uma maioria, mesmo quando ela lhe parece contrariar a evidência. A opinião da maioria exerce sobre o indivíduo uma pressão implícita. Um exemplo do segundo tipo é o chamado efeito Milgram, que se refere a uma pressão explícita: perante uma ordem ou injunção que lhe impõe um comportamento inaceitável, o indivíduo pode "passar por cima", das suas convicções e valores, como se se considerasse um mero executor, isento de qualquer responsabilidade (Milgram, 1982).
Estamos aqui perante a outra face da influenciabilidade, que é a incapacidade de resistência.


Publicado por james stewart às 10:41 EM

COMUNICAÇÂO INTERPESSOAL 5

Resumo: Quais são as teorias da Comunicação? A disparidade das respostas encontradas nas obras especializadas mostra a necessidade de ir-se além da simples compilação das teorias, a fim de refletir sobre sua sistematização. O problema que se coloca para este artigo consiste em analisar e explicitar as bases do cepticismo que cerca a questão, amplamente predominante entre os especialistas da Comunicação e não sem conseqüências para a estruturação da área.


Ciberlegenda Número 5, 2001

Cepticismo e Inteligibilidade do Pensamento Comunicacional

L.C. Martino

Resumo: Quais são as teorias da Comunicação? A disparidade das respostas encontradas nas obras especializadas mostra a necessidade de ir-se além da simples compilação das teorias, a fim de refletir sobre sua sistematização. O problema que se coloca para este artigo consiste em analisar e explicitar as bases do cepticismo que cerca a questão, amplamente predominante entre os especialistas da Comunicação e não sem conseqüências para a estruturação da área.

Palavras chave: epistemologia da comunicação, teorias da comunicação, pensamento comunicacional.

Não obstante todo o volume de publicações sobre pesquisas em comunicação, os estudos sobre seus fundamentos não ocupam um lugar de destaque. Não é raro encontrarmos, entre os mais renomados pesquisadores desse campo, apontamentos sobre a fragilidade dos conhecimentos aí gerados.

A primeira explicação para isso se encontra na própria quantidade de teorias relacionadas ao tema. Como constata Robert Escarpit , « os domínios do saber tornaram-se demasiado especializados para que um só homem, mesmo após longos anos de reflexões e de leituras, freqüentemente de aprendizagens difíceis, possa aprender ainda que seja uma parte » (1). Sob um tom dramático, ele invocava a necessidade de sistematização do conhecimento e apresentava seu trabalho como a « última chance » para realizar uma visão de conjunto do campo de estudo da Comunicação.

Entretanto as dificuldades não se limitam apenas à extensa produção sobre a matéria, elas também envolvem a própria organização do conhecimento desta disciplina, de modo que ao problema da quantidade de publicações se sobrepõe o da qualidade da reflexão.

Neste sentido, Bernard Miège, por exemplo, fazendo um balanço dos conhecimentos da área, ressalta que ali abundam as “oposições lógicas, a diversidade dos níveis apreendidos e as contradições”, e conclui que

embora tenha alcançado um certo nível de elaboração que, a partir de agora, lhe permite apreender a complexidade dos fenômenos que pretende abordar, o pensamento comunicacional não está unificado, nem pronto para se apresentar como tal (2).

Céptico, chega a colocar em dúvida a pertinência do próprio pensamento comunicacional (ibidem), ainda que não seja para depois temperá-lo com um certa dose de relativismo. Contudo, o cepticismo em relação à organização da área parece ser mesmo a tônica dessa matéria, e se encontra um pouco por toda parte.

Miguel de Moragas, mais radical, não economiza críticas no tocante à possibilidade de um “estatuto epistemológico próprio” à Comunicação. Para ele, “esta nunca foi, como tampouco é agora, a melhor condição de nosso objeto” (3), indicando claramente a falta de especificidade da Comunicação enquanto um saber autônomo. Em sua opinião, tratar-se-ia apenas de “uma investigação subsidiária”.

Já para Francis Balle, a Comunicação teria vários signos próprios ao saber científico, notoriamente os da institucionalização (escolas, revistas, sociedades nacionais e internacionais...), contudo hesita em lhe atribuir este status. Para ele a Comunicação oscila entre uma arte (ou técnica) e uma ciência; em todo caso, ele compara o estado dos estudos sobre os meios a uma “colcha de retalhos”, dado a abundância e diversidade de abordagens (4). Tratar-se-ia de um “saber em mosaico”, que requer uma pluralidade de disciplinas, e aponta, entre outros obstáculos para sua ascensão ao status científico, a inexistência de “um acordo entre os pesquisadores sobre os contornos do domínio estudado” (5).

Uma das razões para esta falta de acordo, como observa José MARQUES DE MELO, é que “ao analisar o fenômeno comunicativo, cada ciência e corrente filosófica utiliza a sua própria perspectiva, a sua própria terminologia, os seus conceitos específicos (6), expondo, ironicamente, os pesquisadores do campo ao que, de nossa parte, poderíamos chamar de “dificuldades de comunicação” (7).

Armand e Michèle Mattelart também seguem na mesma direção e engrossam o coro das opiniões cépticas. Para eles o domínio da Comunicação se encontra exposto e acumula

doutrinas ao sabor da moda e prêts-à-porter do pensamento com neologismos meteóricos se fazem passar por esquemas explicativos definitivos, por lições magistrais, apagando, por onde passam, os achados de uma lenta acumulação, contraditória e pluridisciplinar dos saberes na matéria e reforçando a impressão de frivolidade do objeto (8).

Como tantos outros, eles também alertam contra a falta de sistematização dos conhecimentos e para a pouca atenção que o assunto vem recebendo dos pesquisadores da área. Na continuação do texto citado, afirmam:

Talvez, mais neste campo de conhecimento que em outros, é forte a ilusão de pensar que se pode fazer tábula rasa desta sedimentação e que, nesta disciplina, à diferença de outras, tudo está por se fazer (9).

De um modo geral, as opiniões convergem para o diagnóstico indicado por Bernard Miège, segundo o qual

as ciências da comunicação não podem pretender ter atingido uma maturidade suficiente e os pesquisadores que a reclamam estão longe de terem chegado a um acordo mínimo sobre seus objetos de pesquisa (...) (10).

Não é raro encontrarmos afirmações como estas nas páginas dos autores mais notáveis da área e mais do que multiplicar os exemplos, uma questão se impõe: mas qual é o significado desse cepticismo?

Qual é o significado desse cepticismo?
A análise mais detalhada desta questão paradoxal escapa às dimensões do presente texto. Contudo, mesmo sem poder dispensar um tratamento a altura de sua importância, é difícil passar ao largo de seu exame, já que uma tal posição céptica coloca em jogo problemas não somente de coerência, mas da própria consistência da área de Comunicação.

A rigor talvez fosse preciso falar em “cepticismos”, visto que há diferenças de grau e de direcionamento em relação aos vários aspectos do problema. Esquematicamente podemos distinguir duas atitudes em jogo. Em uma primeira versão, o cepticismo nos leva a duvidar da possibilidade de uma ciência da Comunicação. Bem entendido, não se trata de uma atitude auto-negativa e portanto contraditória, como poderia sugerir uma primeira impressão, mas apenas de negar à Comunicação um estatuto de ciência ou de saber independente. O problema em jogo é o da autonomia dessa disciplina. Para muitos, tratar-se-ia apenas de um ramo da Sociologia ou Psicologia. Neste caso, não existiria um saber propriamente comunicacional, mas saberes que se ocupam de certos objetos empíricos, genericamente designados como “fenômenos comunicacionais”, ou simplesmente “comunicação”. Em uma segunda versão, se reconhece sua autonomia, o cepticismo se dirige apenas ao atual estado da organização dessa disciplina.

De fato, as dúvidas levantadas por Balle, mas principalmente aquelas expressas por Moragas, dizem respeito à possibilidade de uma ciência da Comunicação, enquanto que para pesquisadores como Scarpit e Mattelart, se trataria apenas do atual estágio de sua formulação, ou uma condição da natureza dessa disciplina, como afirma Bougnoux, que a aproxima da Filosofia (11). A tendência dos pensadores mais cépticos é tomar o termo comunicação (o qual grafamos em minúsculo) como sinônimo de “fenômeno comunicacional” e compreender a Comunicação (grafado em maiúsculo) como um campo de estudos, constituído por abordagens heterogêneas, reunidas sob um único traço comum, a análise dos “fenômenos comunicacionais”, não obstante toda a diversidade de origens e intenções dessas abordagens. Já em sua versão mais branda, tende-se a aceitar-se a idéia da Comunicação como uma disciplina, ainda que se critique a incapacidade de se fornecer um objeto de estudo satisfatório.

Curiosamente, constata-se a tendência atual de criticar a posição disciplinar em defesa da posição de campo, sem que no entanto sejam tiradas as conseqüências de uma tal determinação. A noção de campo não é menos problemática que aquela de disciplina (12), mas a atribuição de um certo ranço positivista, que pesa sobre esta última, parece vir servindo de fiel da balança em favor da primeira.

Por outro lado, mesmo funcionando como um divisor de águas, as duas versões do cepticismo não escondem um certo acordo em relação ao ponto de partida comum, e se reconciliam frente às evidências da fraca estruturação da área. Seja como campo ou como disciplina, a Comunicação tem, incontestavelmente, graves dificuldades de definição, apontadas aqui e ali por seus mais renomados pesquisadores; dificuldades que, em suma, não podem passar desapercebidas aos olhos de todo e qualquer investigador mais sério que se debruça sobre a análise dos fenômenos comunicacionais.

Com efeito, a dificuldade de delimitar com precisão o domínio de estudos da Comunicação parece ser o centro sobre o qual gira a problemática da epistemologia dessa área. As razões para isto são de ordem diversa. Elas se encontram presentes na própria origem da problematização da comunicação no século XX, cuja variedade de abordagens abarca dimensões que vão desde a natureza do processo (13), até a diversidade das correntes de pensamento, com suas diferentes escolas e modos de problematização, passando pela sobreposição com outras problemáticas, melhor definidas e que contam com tradições de pesquisa estabelecidas em disciplinas já consolidadas (transmissão da cultura, formação de subjetividade, dinâmica dos processos sociais, processos intersubjetivos...), sem falar, é claro, dos problemas políticos e de interesses diversos relativos à divisão dos saberes e sua institucionalização.

Uma tal complexidade não pode deixar de se refletir sobre o campo, cuja baixa definição é conseqüência direta da dificuldade de sistematização dos conhecimentos produzidos. Como se não bastasse, a própria identificação do problema da inconsistência do objeto ou da dispersão do campo, parece contribuir, à sua maneira, para o estado confuso da questão. Como nos adverte Miège,

(...) há vinte e cinco anos que o aparecimento de “teorias gerais” se sucederam a intervalos regulares, freqüentemente sem que as novas se apoiem sobre as precedentes, sem nem mesmo tomar o cuidado de as criticar, ou simplesmente de as avaliar. As bibliografias relativas a estas publicações começam seriamente a se estender, e as dificuldades são grandes para estabelecer filiações, ou para traçar as evoluções ao seio destas produções teóricas (14).

Notoriamente a partir da metade dos anos 70, com um certo desgaste natural das duas principais tendências, o funcionalismo norte-americano e a Escola de Frankfurt, respectivamente apoiadas no positivismo e no marxismo, que levava Umberto Eco a reclamar a aposentadoria de todos os catedráticos de teoria das comunicações (15), a área de Comunicação vem incessantemente multiplicando suas dimensões e ampliando suas fronteiras (daí o tom dramático de Scarpit, que possivelmente antevia o elevado crescimento do campo teórico da área).

A preocupação de fornecer teorias mais precisas para descrever os processos comunicacionais, impôs paradoxalmente novas dificuldades ao estudo da comunicação, colocando dois problemas, tão básicos, quanto urgente seu tratamento:

– 1) o problema de conhecer, ou de reconhecer, as novas teorias (critério de pertinência);

– 2) o problema de estabelecer as relações com as já existentes (sistematização)

Problemas que de certa forma renovam nossa necessidade de conhecer o universo de teorias de nossa área e exigem um tratamento epistemológico da questão, pois não se trata mais de simplesmente inventariar teorias isoladas, mas de lidar com conjuntos de teorias. Conjuntos, é importante destacar, incoerentes entre eles, mas por vezes, incoerentes neles mesmos. Em todo caso, trata-se de lidar com conjuntos incongruentes, com teorias gerais incompatíveis ou de difícil conciliação.

Essas dificuldades deixam o ensinamento que o cepticismo em relação ao estabelecimento do saber comunicacional, reinante na área, não pode ser remediado com o aparecimento de novas teorias, pois exige um tratamento propriamente meta-teórico, ou epistemológico. Somente um estado mais avançado de sistematização poderá lhe fazer frente. A questão que fica é a da capacidade da área para gerar os recursos para que isso venha acontecer.

A Dificuldade de Conhecer e Reconhecer as Teorias:extensão e pertinência
Para pesquisadores e estudiosos da área, o primeiro desafio que se coloca é o de reconhecer e mapear o campo. Quais seriam, afinal, as “teorias da Comunicação”?

Para responder a uma tal questão, seria preciso fazer um levantamento, mais ou menos exaustivo das teorias que abordam os fenômenos comunicacionais. E a fim de que a tarefa seja completa, seria preciso incluir nesse panorama, além das teorias já instituídas, aquelas mais recentes, assim como resgatar as contribuições das escolas que foram “sufocadas” por correntes hegemônicas, como as citadas mais acima.

Todavia, mesmo parcialmente, esta tarefa colossal não pode ser realizada sem colocar em jogo uma outra ainda mais fundamental. De fato, mais além de realizar o inventário da totalidade de teorias geradas por um século de obsessão pelo tema, também se impõe a tarefa de formular as bases da apreciação da pertinência de determinada teoria em relação ao domínio da Comunicação. Trata-se então de apontar, de maneira tão clara quanto possível, os critérios que servem de base para a apreciação das teorias que se julga pertencer ao campo da Comunicação.

Ainda que não possa passar desapercebido, infelizmente esse problema não tem recebido o tratamento que merece. Uma simples revisão da bibliografia mais disponível, aquela empregada nos cursos de teorias da comunicação, nos revela a disparidade das escolas e paradigmas arrolados.

Com a ajuda de dois colaboradores do Programa Institucional de Iniciação Científica (PIBIC/CNPq-UnB), começamos a empregar o método da análise de conteúdo para comparar alguns textos voltados para a apresentação das teorias da comunicação, bastante freqüentes na formação universitária brasileira:

Teorias da Comunicação, de Mauro Wolf;

História das Teorias da Comunicação, de Armand e Michèle Mattelart;

Ciências da Comunicação, de D. Bougnoux;

Teorias da Comunicação de Massa, de M. Defleur e Sandra Ball-Rokeach;

Introdução à Teoria da Comunicação, de F. Rüdiger;

O Pensamento Comunicacional, de B. Miège.

É patente a discordância das opiniões entre os especialistas do tema. Mesmo restringindo nossas observações a análises preliminares, torna-se evidente o desacordo entre os autores no que concerne às teorias da área. Tanto para estudantes, como para estudiosos avançados, não é nada evidente um acordo mínimo sobre o conjunto de teorias que configurariam a área da Comunicação.

Autores como Bougnoux e Rüdiger fornecem conjuntos de teorias completamente distintos, surpreendentemente sem um único ponto de concordância entre eles ou com as listas de teorias arroladas por autores como Defleur/Ball-Rokeach ou Wolf. Estes últimos basicamente se restringem às tendências estadunidenses, enquanto que autores como os Mattelart e Miège, com matizes fortemente variados, adotam uma descrição cronológica, respectivamente mais ou menos ampla, das teorias que portam algum interesse para a análise dos fenômenos comunicacionais.

O resultado do exame de composições tão heterogêneas é a impressão (aliás bastante compreensível) de inconstância das teorias da comunicação; ficando a dúvida sobre a pertinência delas para a área, ou ainda pior, da pertinência da própria área. Se o neófito, abandonado à tarefa de conciliar suas leituras, se ressente de um quadro mais nítido, ficando-lhe a viva impressão de uma permissividade excessiva, ou de uma “seleção” um tanto aleatória (“qualquer coisa pode ser comunicação”); o pesquisador mais experimentado, por sua vez, não pode contar com uma discussão mais aprofundada sobre os critérios empregados pelos especialistas para operarem a seleção das teorias ou escolas. O que leva muitos estudiosos a adotarem a tese de que se trata apenas de um “campo” de estudo: “existem as teorias, mas não existe a Comunicação enquanto uma disciplina”.

E aqui encontramos o que nos parece ser o ponto crucial para a área, e que tomamos como o problema de nossa pesquisa: explicitar e analisar criticamente os critérios que nos permitem dizer que tal ou tal teoria ou escola pertencem ou não pertencem ao campo da Comunicação. Tema tabu, fruto de preconceitos e sensível ao jogo político, a discussão do critério de pertinência das teorias em relação à área tem encontrado forte resistência na comunidade de estudo e tem sido obstruída sob a acusação de “reducionismo do campo”, como si o ecletismo, a superposição de campos e a somatória de todos os assuntos tocantes à comunicação humana (e mesmo extra-humana) fossem a única ou melhor via para pensar a natureza do saber comunicacional.

Evidentemente que não se trata de uma questão sobre a qual se possa ser tão categórico e absoluto como nos casos das oposições binárias, estipulando de maneira simplificada um “dentro” e um “fora”. Não é nossa intenção pretender ditar o “certo” e o “errado”, mas nem por isso renunciar à reflexão sobre o relativo estado de abandono de questões tão primárias e essenciais quanto a definição do campo ou do objeto da área.

A pretensão a um tal esquematismo rígido é rigorosamente estranha aos investigadores com alguma familiaridade com as questões epistemológicas. Mesmo as mais estabelecidas das disciplinas científicas encontram suas áreas de sombras, onde é difícil ser tão preciso. O problema, no entanto, não é o das exceções, mas o da regra. Não é o trabalho de filigrana, de saber julgar as teorias marginais ou ambíguas, mas o da constituição do “núcleo duro” de um domínio de conhecimento. Trata-se, então, de criar as condições que nos permitam apontar um conjunto de teorias, mínimo que seja, em torno do qual seja possível estabelecer um acordo sobre seu papel estruturante para a área e de poder justificá-lo a partir do trabalho de conceituação e do debate, como é natural para as atividades de cunho filosófico-científicas. Ou na pior das hipóteses, na impossibilidade de uma tal definição, aprofundar a relexão sobre as razões que nos impedem de chegar a um acordo sobre esse núcleo duro.

As Relações entre Teorias: o problema da sistematização
Num primeiro momento, foi preciso explorar e inventariar as teorias da comunicação, conhecer os vários discursos, que aqui e ali, se ocupavam de estudar os fenômenos comunicacionais. A necessidade de se dar resposta à questão de quais seriam as teorias da comunicação resultou na elaboração de diversas obras especializadas, que mesmo chegando a conjuntos de teorias extremamente diferenciados, possibilitam uma primeira abordagem do problema. Contudo, a própria disparidade dos resultados não pôde impedir que a mesma questão ganhasse novo fôlego e fosse recolocada. Agora num patamar onde se torna necessário ir-se além dessas compilações de teorias e refletir sobre sua sistematização. Relacionar as teorias entre elas, estabelecer critérios de pertinência em relação à área da Comunicação, são problemas extrínsecos a estas teorias, ultrapassam os quadros de teorias específicas, para se colocarem num plano meta-teórico ou propriamente epistemológico.

A sistematização das teorias de um dado domínio do saber é uma necessidade intrínseca a qualquer saber de natureza filosófico-científico. Ela corresponde a necessidade de avaliação das perspectivas teóricas. Também corresponde a necessidade de organizar os conhecimentos produzidos, que de outro modo cairiam no isolamento, impossibilitando a constituição de um corpus de obras e documentos e suas respectivas tradições de pensamento. As tentativas de sistematização, são, portanto, mais do que naturais ou desejáveis, são uma necessidade, pois cumprem uma função extremamente vital na dinâmica do pensamento filosófico-científico. No entanto, uma característica desse procedimento na área de Comunicação chama a atenção. Além do critério de pertinência, que acabamos de ver, outro aspecto do problema da sistematização que merece ser considerado é o fato destes conjuntos serem elaborados a partir da exterioridade das teorias em questão. Isto porque grande parte das teorias arroladas não reivindicam a participação no universo da Comunicação; elas não se vêem como “teorias da Comunicação”. São teorias que encontram sua origem em outros campos de estudo, que aí se reconhecem e são reconhecidas; que não reivindicam nem objetivo, nem objeto propriamente comunicacional. Teorias que foram tomadas fora de suas problemáticas originais, reinterpretadas e identificadas a um campo que, se não lhes é completamente estranho, também não consta na inspiração de seus criadores, nem nos propósitos mais imediatos destas teorias.

É assim, por exemplo, com a Escola de Frankfurt, que nunca se pretendeu outra coisa que uma filosofia. É assim com grande parte do funcionalismo americano do communication research, formado por sociólogos ou psicólogos sociais, os quais nunca se afastaram de suas respectivas disciplinas. É assim com a Escola de Palo Alto, nascida no Mental Research Institute, que tendo como interlocução privilegiada o behaviorismo e a psicanálise e objetivando a elaboração de tratamentos terapêuticos para distúrbios de comportamento, sempre esteve centrada nos problemas próprios à Psicologia. É assim com a Escola de Chicago, identificada à Sociologia; com a Pragmática em relação à Lingüística, etc.

Para decepção de nossos manuais, Lazarsfeld, Hovland, Adorno, Horkheimer, Watzlawick, e tantos outros nomes de destaque para a área, nunca se preocuparam em fundar algo similar a uma “ciência” ou disciplina intitulada “Comunicação”. Se suas obras são caras a nosso campo, é preciso reconhecer que se trata de uma apropriação de nossa parte, os comunicólogos, e rigorosamente não podem ser tomadas, como por vezes gostaríamos de acreditar, como obras de pais fundadores de um ramo do saber que simplesmente não conheciam, ou mesmo no qual não acreditavam. Há que se rever, seriamente, qual o sentido dessas teorias “à revelia”, estas teorias da comunicação cuja origem e propósito se encontram alhures. Afinal, pode uma teoria dar-se ao luxo de desconhecer o que pretende explicar? Ou de explicar o que não pretende?

Mesmo a Teoria Hipodérmica, não raro celebrada como um marco do aparecimento de teorias científicas da comunicação – que por vezes DeFleur/Ball-Rokeach, e mesmo Wolf, dão a impressão de se tratar de uma espécie de embrião ou primeiro sopro de uma atividade da ciência da Comunicação –, Žnão resiste a uma leitura menos passional. Pode-se ler, neste último autor, que a teoria hipodérmica: “mais que um modelo sobre o processo de comunicação, dever-se-ia falar de uma teoria da ação elaborada pela psicologia behaviorista” (16). E com razão, pois aqui como em muitos outros casos, menos que “teorias da comunicação”, deveríamos falar em “teorias sobre a comunicação”, teorias relativas a outros saberes e que foram aplicadas ao problema dos processos e fenômenos comunicacionais, de modo que, por detrás de hábitos lingüísticos, se esconde uma grande e inaceitável confusão entre objeto da análise (fenômeno comunicacional) e a análise do objeto (o tipo de saber a que se recorre). Vistos de mais de perto, muitos de nossos mitos sobre o campo da Comunicação não resistem a uma leitura mais atenta das próprias obras de referência. O que não os impediu de darem sua contribuição para nossa “política de avestruz” em relação às questões de fundamentação da área. A existência de obras de “teorias da comunicação” acabam sendo muito mais pregnantes que todo o conteúdo céptico expressos através dessas obras.

Ora, se as peças do quebra-cabeças que reúne o conjunto das teorias da comunicação não se encaixam, ou não parecem fazer muito sentido, não seria justamente porque não foram criadas para tal? Se a inteligibilidade de uma suposta unidade desafia gerações de pesquisadores, não seria mais prudente reformular o problema? Recolocá-lo em outras bases?

Voltemos nossa atenção para a identificação dos procedimentos de sistematização normalmente empregados. Em geral, as obras de teorias da comunicação contentam-se em apresentar e descrever as teorias. A fim de facilitar a exposição e proporcionar um certo arranjo ao conjunto que se pretende introduzir, muitos autores preferem adotar um ponto de vista cronológico. Princípio que, evidentemente, apenas “constitui um mínimo de organização por ordem de aparição das escolas, correntes ou tendências” (17). Sem a intenção de discutir a unidade do campo da Comunicação, sem explicitar ou aprofundar o que lhes permitia reconhecer, como de uma mesma espécie, teorias de natureza e procedência diversas, o principal objetivo resume-se a coligir as teorias, o que implica identificar e resumir obras de autores variados.

Talvez pelo esforço requerido, talvez por certos hábitos que vão se criando ao longo da formação de certas tradições, talvez ainda pela própria dificuldade do problema, o certo é que estas obras não voltam sua atenção para o problema da sistematização. Em contrapartida, as referências que temos sobre o problema da sistematização se apóiam nesse tipo de trabalho, servindo-se desses mesmos conjuntos de teorias para balizar suas análises. Se tivermos em conta os problemas de critérios de seleção e de pertinência das teorias, que se encontram na base das compilações dos conjuntos de teorias, pode-se, então, apreciar a ruptura que se introduz entre as limitações dessas obras e as condições necessárias à avaliação da possibilidade de sistematização da área. Em geral, os trabalhos que se ocupam do levantamento de teorias desempenham a função de uma primeira abordagem, um verdadeiro reconhecimento exploratório; eles não podem e nem pretendem oferecer as fundamentação necessária para a sistematização da área.

Dessa forma, tomado a partir desses conjuntos de teorias, o problema da sistematização permanece insolúvel. Em geral, ele é formulado como um quebra-cabeças: as teorias, tal como as peças de um suposto quebra-cabeça, são reunidas e aproximadas na esperança que, da confrontação, sejam revelados traços comuns. Espera-se chegar-se assim a alguma síntese, ou consenso, que nos dê uma representação da unidade da área. Espera-se depreender uma teoria geral a partir do arranjo dessas constelações de teorias.

Mas, considerando que originalmente muitas dessas teorias nunca se propuseram como partes ou peças de um quebra-cabeças comunicacional, como então pretender encontrar sua unidade a partir de uma síntese a posteriori? A transposição das teorias de seus campos de origem para o campo da Comunicação, suscita uma revisão crítica sobre as condições de possibilidade de uma tal operação. Seria preciso rejeitar as transcrições literais e colocar em primeiro plano a explicitação das regras de operação e as premissas que norteiam a identificação dessas teorias à problemática comunicacional. Na falta de um tal trabalho, pode-se entender as reservas de um pesquisador como Bernard Miège quando afirma que “uma teoria geral [é] improvável e até inconcebível” (18). Contudo é preciso reconhecer que as opiniões dos cépticos se apóiam sobre as mesmas bases das proposições que visam criticar. Suas avaliações são elaboradas a partir do que parece ser o único material disponível: as compilações de teorias.

Por esta razão é que se torna possível aceitar o principal da argumentação cépticos quanto ao atual estado do campo, quer dizer, seu diagnóstico sobre o atual estado do campo, sem no entanto concordar com a tese de que de fundo que eles trazem: que se trata da única, ou a melhor, alternativa para equacionar nosso problema. Com efeito, nada impede de concordarmos com as avaliações cépticas, ao mesmo tempo que nos parece abusiva a idéia de negar a possibilidade de uma estruturação do campo, tendo-se em vista apenas seu estado atual. Ainda mais quando começamos a ter uma noção das insuficiências que se encontram na origem dessas compilações de teorias e sobre as quais se baseiam as avaliações cépticas.

É perfeitamente possível, portanto, entender algumas das razões do generalizado cepticismo em relação à definição da Comunicação: como não ser céptico frente a uma tal estado de dispersão das teorias e frente a pouca chance de se encontrar algum princípio de inteligibilidade para esse universo? Mas por outro lado, porque fundar nossas perspectivas de análise sobre as mesmas bases daquilo que justamente se critica?

Esse nos parece ser um ponto capital para a compreensão da atitude céptica, pois sem reconhecer a distinção entre as atuais compilações de teorias e um autêntico trabalho de sistematização, o cepticismo não avançou mais além da constatação de um estado de fato e pouco fez em relação à análise propriamente epistemológica. Ora, esta falta de reflexão epistemológica coincide exatamente com aquilo que se pode criticar na atitude diametralmente oposta a do cepticismo, aquela da “interdisciplinaridade inconseqüente”, que vê na diversidade do campo um fator produtivo e que deve ser conservado.

Se, de fato, é francamente descabida a idéia de se querer conservar um estado de fraca sistematização da área, em nome de uma pretensa liberdade interdisciplinar, a posição céptica não se apresenta como uma recusa desse tipo de interdisciplinaridade. Ao contrário, vê nela uma solução para a fraca organização do campo comunicacional. Dessa forma, o estado do campo é tomado como reflexão epistemológica, a descrição de um estado de fato se faz passar por reflexão, sobrepondo e coincidindo o problema com sua solução.

Mas por que a desorganização do corpus teórico deveria ser alçada ao status de modelo epistemológico ? Na verdade, há uma grande e profunda relação entre a posição céptica e a interdisciplinaridade. Esta aqui funciona como um certo contrapeso, que impede o cepticismo de tirar suas últimas conclusões: a defesa da interdisciplinaridade impede a ação das forças de desintegração total do campo da Comunicação, presentes nos argumentos cépticos. Entretanto, menos que uma reflexão epistemológica, a interdisciplinaridade aparece nas obras de teorias da comunicação como uma justificativa de um estado de fato, ela não tem conteúdo positivo e se constitui como uma negação da atual estrutura do conhecimento (no fundo ela pretende uma crítica da analiticidade do conhecimento racional, sem no entanto colocar a possibilidade e os limites de uma tal compreensão do conhecimento. De um conhecimento que se dá através da palavra).

Em relação à questão da sistematização das teorias, ela equivale a inversão dos fatores em jogo. Fazendo passar o problema pela própria solução, a interdisciplinaridade desaparece com ele, na medida mesmo em que a inconsistência e a dispersão do corpus teórico se tornam “normalidade”, a interdisciplinaridade se institui como a natureza de um gênero de conhecimento sui generis e se institucionaliza como campo. De outra parte, o cepticismo não representa uma posição menos imobilizadora para a discussão epistemológica, quer porque se limita a apontar e a descrever o problema (versão mais branda), quer porque condena de antemão toda a possibilidade de formular a pertinência de um saber comunicacional propriamente dito (versão mais radical). Em todo caso, estas posições fundamentam suas análises sobre uma mesma base: a falta de reflexão critica sobre os atuais conjuntos de teorias propostos por autores diversos e uma certa negligência da determinação da especificidade do pensamento comunicacional. Conseqüentemente, elas passam ao largo das questões fundamentais e têm indevidamente ocupado o espaço deixado pela lacuna de uma discussão mais aprofundada sobre a sistematização das teorias da comunicação.

Em fim, as relações entre cepticismo e conservadores de uma diversidade interdisciplinar apontam a união visceral entre estas duas posições. Eles não chegam a se colocarem verdadeiramente como posições antagônicas, o que não é senão um caso excepcional, mas ao qual seria mais lógico de esperar. Se o cepticismo não chega a negar o saber comunicacional, como parece sugerir certas passagens citadas no início deste artigo, é por que ele não representa senão um primeiro momento de um processo que se completa com a instauração da interdisciplinaridade. O que explica a estranha coincidência destes cépticos também serem os representantes do saber comunicacional.

A análise de suas insuficiências epistemológicas revela que essas duas posições não podem ser tomadas como definitivas para a área. É preciso superar os obstáculos que estas posições dominantes representam para o desenvolvimento da reflexão epistemológica, sob o risco de se ver desabar o edifício da Comunicação sob o peso da acumulação de inúmeras perspectivas (interdisciplinaridade) ou simplesmente em atendimento à argumentação céptica.

Bibliografia de referência
Balle, Francis – Media et Société. Éditions Monchrestien, 1992.

Bougnoux, Daniel – Introdução às Ciências da Comunicação. Edusc. Bauru, 1999.

Eco, Umberto – Viagem a Irrealidade Cotidiana. Nova Fronteira. Rio de Janeiro, 1984.

Escarpit , R. – L’Information et la Communication: théorie générale. Hachette, 1991.

Marques de Melo, J. – Comunicação Social: Teoria e Pesquisa. Vozes. Petrópolis, 1973.

Martino, Luiz C. – « Interdisciplinaridade e Objeto de Estudo da Comunicação ». CD-ROM Anais do XXI Congresso da INTERCOM, Recife, 1998.

Martino, L. C. – De Qual Comunicação Estamos Falando?, in Vera França; Antonio Holhfeldt e L. Martino (org.) – Teorias da Comunicação. Editora Sulina, no prelo.

Martino, L.C. – “Elementos para uma Epistemologia da Comunicação”, apresentado no V- ALAIC, Congresso Latino-Americana de Investigadores da Comunicação, realizado na Universidad Diego Portales, em Santiago do Chile, abril de 2000.

Mattelart, Armand et Mattelart, Michèle. Histoire des Théories de la Communication. La Découverte. Paris, 1995.

Miège, B.– «La Faible pertinence des théories générales de la communication», in Sfez, L. (org.) – Technologies et Symboliques de la Communication. Colloque de Cerisy 1988 Presse Universitaire de Grenoble, 1990.

Miège, Bernard – O Pensamento Comunicacional. Vozes. Petrópolis, 2000.

Moragas, M.de (ed.) – Sociología de la comunicación de masas : 1 escuelas y autores. Editorial G. Gili, 1ª ed. Barcelona, 1985. Para a presente versão, México, 1993.

Rüdiger, Francisco – Introdução à Teoria da Comunicação. Edicon, São Paulo, 1998.

Defleur, Melvin L. e Ball-Rokeach, Sandra – Teorias da Comunicação de Massa. Jorge Zahar Editor. Rio de Janeiro, 1993.

Sá, Adisia (e outros) – Fundamentos Científicos da Comunicação. Vozes, 1973.

Wolf, Mauro – Teorias da Comunicação. Presença. Lisboa, 1995.

NOTAS

(1) Escarpit , Robert – L’Information et la Communication : théorie générale. Hachette, 1991, p. 7.

(2) Miège, Bernard – O Pensamento Comunicacional. Vozes. Petrópolis, 2000, p. 129.

(3) Moragas, M.de (ed.) – Sociología de la comunicación de masas : 1 escuelas y autores. Editorial G. Gili, 1ª ed. Barcelona, 1985. Para a presente versão, México, 1993, p.17.

(4) Balle, Francis – Media et Société. Éditions Monchrestien, 1992, p. 44.

(5) Idem, p. 45.

(6) Marques de Melo, José – Comunicação Social: Teoria e Pesquisa. Vozes. Petrópolis, 1973, p. 13.

(7) Por esta expressão compreendemos o conjunto de dificuldades encontradas nas relações entre pesquisadores e relativas a um certo estado da sistematização do conhecimento de uma área, tais como: confusão terminológica, universo conceitual demasiado amplo, diversidade e desconhecimento dos paradigmas.

(8) Mattelart, Armand et Mattelart, Michèle. Histoire des Théoreis de la Communication. La Découverte. Paris, 1995, p.4.

(9) Ibidem.

(10) «La Faible pertinence des théories générales de la communication», in Sfez, L. (org.) – Technologies et Symboliques de la Communication. Colloque de Cerisy 1988 Presse Universitaire de Grenoble, 1990.

(11) Bougnoux, Daniel – Introdução às Ciências da Comunicação. Edusc. Bauru, 1999, p. 14.

(12) Cf. Martino, Luiz C. – « Interdisciplinaridade e Objeto de Estudo da Comunicação ». CD-ROM Anais do XXI Congresso da INTERCOM, Recife, 1998.

(13) Comunicação humana ou animal; comunicação através de signos lingüísticos ou semiótica num sentido amplo; comunicação mediática ou imediata; de massa ou interpessoal, etc. Veja-se, por exemplo: Martino, L. C. – De Qual Comunicação Estamos Falando?, in Vera França; Antonio Holhfeldt e L. Martino (org.) – Teorias da Comunicação. Editora Sulina, no prelo; Sá, Adisia (e outros) – Fundamentos Científicos da Comunicação. Vozes. Petrópolis, 1973.

(14) Miège, «La Faible pertinence des théories générales de la communication», op. cit.

(15) Eco, Umberto – Viagem a Irrealidade Cotidiana. Nova Fronteira. Rio de Janeiro, 1984, p. 181.

(16) Wolf, Mauro – Teorias da Comunicação. Presença. Lisboa, 1995, p 24.

(17) Mattelart & Mattelart, op. cit., p. 4.

(18) Miège, Bernard – O Pensamento Comunicacional, op. cit., p. 101.

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Luiz Carlos Martino é doutor em Sociologia pela Sorbonne Paris-V, atual coordenador do GT em Epistemologia da Comunicação da COMPÓS e professor do Departamento de Comunicação da Universidade de Brasília.


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Publicado por james stewart às 10:37 EM

COMUNICAÇÂO INTERPESSOAL 4

A Escola de Palo Alto constitui hoje um dos núcleos de investigação mais prestigiados no âmbito psicoterapêutico e psiquiátrico. O seu fundador era um apaixonado pelo saber científico e, numa perspectiva ecológica da mente (mind), socorreu-se de conceitos cibernéticos para compreender os processos da psiquê humana, no pressuposto da similitude formal que acreditava existir no funcionamento de todos os seres vivos (Bateson, 1972).

A Importância da Interdisciplinareidade na História da Ciência: o Caso da Cibernética e da Escola de Palo Alto
Clara Costa Oliveira
Profesora de la Universidade do Minho-Braga (Portugal)


Interdisciplinareidade e Ciência Contemporânea
Bateson: Da cibernética a Palo Alto
Conceitos base de Palo Alto
A forma
Digital/Analógico
Feedback/Runaway
A ecología
Reflexões finais
Bibliografía




Interdisciplinareidade e Ciência Contemporânea
O momento de política internacional em que nos encontramos aviva-nos a consciência para a interdependência de toda a humanidade no que respeita a sua sobrevivência enquanto espécie. A história de cooperação, negociação e comunicação constantes na construção de comunidades na linhagem da espécie humana tem sido frequentemente apontada como um dos factores explicativos da supremacia do Homo Sapiens Sapiens face às outras espécies no nosso planeta (Maturana,1994).
A evolução da ciência, como produto da cultura greco-cristã, encontra-se plena de exemplos desta situação e neste texto iremos debruçarmo-nos sobre um desses momentos de cooperação entre áreas disciplinares aparentemente afastadas epistemologicamente: a Cibernética e a Escola de Palo Alto (no âmbito da Psicologia e da Psiquiatria).
Gostaríamos, no entanto, de anteriormente reflectir sobre a dimensão interdisciplinar na ciência contemporânea. As disciplinas que possuem o estatuto interdisciplinar por excelência são a Matemática e a Filosofia. A Matemática constitui a história das ciências desde o seu surgimento na modernidade, e a Filosofia tem vindo a (re)ocupar um papel cada vez mais assinalável na ciência contemporânea, em parte devido às consequências que os limites encontrados na Matemática provocaram noutras áreas científicas.


Temos assim que as ciências ditas da natureza avançam quotidianamente numa especialização crescente depois de se terem encontrado com, e superado o efeito desse encontro, questões de ordem filosófica (sobretudo de tipo epistemológico, hermenêutico e ético). As ciências ditas humanas encontram-se, no nosso entender, numa situação diferente, dado estarem a evoluir a ritmos muito variados, algumas em clara crise paradigmática e outras ainda obcecadas com questões metodológicas e observacionais que encontrávamos nos quadros teóricos das ciências da natureza (antes de Einstein, Heinsenberg e Niels-Bohr na Física, por exemplo) e da Matemática (antes de Riemann, Mandelbrot e Gödel) dos sec.s XIX.-XX.
Esta situação complexa em que se encontra a ciência contemporânea coloca-nos numa situação difícil dado que a especialização em algumas áreas parece impossibilitar, por um lado, a comunicação com outras áreas; a confusão conceptual e metodológica em algumas ciências parece, por outro lado, inviabilizar a possibilidade de um diálogo rigoroso.
Estas dificuldades não nos podem contudo imobilizar e o diálogo com uma área científica é sempre possível estudando a história dessa ciência e os fundamentos epistemológicos, implícitos e explícitos, das teorias e modelos dessa área. Este estudo prévio possibilita-nos contextualizar as dificuldades, do nosso ponto de vista, que podemos encontrar na ciência estudada e assim poder compreender a especificidade dos conceitos nela utilizados e avaliar cautelosamente a sua utilização noutras áreas científicas.


A Escola de Palo Alto constitui hoje um dos núcleos de investigação mais prestigiados no âmbito psicoterapêutico e psiquiátrico. O seu fundador era um apaixonado pelo saber científico e, numa perspectiva ecológica da mente (mind), socorreu-se de conceitos cibernéticos para compreender os processos da psiquê humana, no pressuposto da similitude formal que acreditava existir no funcionamento de todos os seres vivos (Bateson, 1972).
A primeira ressalva que aqui deve ser feita é que se abordarão as conceptualizações dos pensadores de Palo Alto apenas até à fase desta Escola em que o livro Pragmatics of Human Communication era tido como a bíblia (de biblos) desta corrente psicoterapêutica. Esta foi, de facto, a época em que os conceitos do âmbito cibernético foram mais explorados na sua aplicação à dimensão psicoterapêutica e psiquiátrica, até porque é a fase de surgimento e desenvolvimento da Cibernética, que foi sendo entretanto substituída quer pelas ditas ciências cognitivas, quer pela engenharia da computação.
Muitas críticas se têm vindo a fazer às concepções e procedimentos psicoterapêuticos da Escola de Palo Alto; algumas das críticas mais negativas surgem aliás por parte de profissionais formados por aquela instituição (Freedman, Combs, 1996).
Muitas destas críticas desfavoráveis reportam-se a literalizações que os responsáveis de Palo Alto foram fazendo das metáforas introduzidas pelos fundadores desta corrente, e em especial por Gregory Bateson. Pensamos pois que um retorno às significações originais de alguns dos conceitos que caracterizaram aquela Escola nos poderá ajudar a repor alguma verdade sobre o assunto. Mas a actualização da significação de alguns desses vocábulos pode também ser útil para as utilizarmos, ou desenvolvermos, como metáforas noutros domínios da Psicologia, e até noutras áreas do saber humano.

2. BATESON: DA CIBERNÉTICA A PALO ALTO
Gregory Bateson contactou pela primeira vez com as perspectivas cibernéticas em 1942, nas Conferências de Macy. Ele andava na altura obcecado com a Teoria de Tipos Lógicos de Bertrand Russell, e a sua presença em Macy foi um momento especialmente importante para a construção posterior das suas concepções de um holismo epistemológico rigoroso e extraordinariamente formal. Gregory tornou-se amigo pessoal de Norbert Wiener e de Heinz von Foerster e também ele influenciou bastante estes dois génios contemporâneos.
A Cibernética surgiu como disciplina que pretendia estudar os processos de auto-regulação, de controle (Wiener, s/d). Wiener, von Foerster e Rosenbleuth, entre outros, pretendiam estudar esta questão em qualquer tipo de sistema em que ele ocorresse. É neste contexto que fundaram o Biological Computer Laboratory, onde identificaram os seres vivos como sendo sistemas com capacidade homeostática, auto-reguladora. Construirem artefactos maquínicos que conseguissem actuar deste modo era um dos principais objectivos desta instituição. Eles não obtiveram grandes resultados e, por razões várias, a Cibernética evoluiu para o cognitivismo, passando a centrar-se nas questões da Inteligência Artificial.


Gregory Bateson era um homem vindo da biologia e da antropologia; a dimensão electrónica da Cibernética escapava-se-lhe. Mas a compreensão formal dos fenómenos auto-reguladores era algo por que se interessava a sua mente profundamente transdisciplinar.
O financiamento do Mental Institute Research (a partir do qual se constituiria aquilo a que hoje chamamos "Escola de Palo Alto") por parte do Ministério do Exército dos E.U.A. prende-se exactamente com a investigação desta dimensão. O projecto inicial desta Escola era basicamente o projecto do Biological Computer Laboratory, associado à questão antiga de Russell, ou seja: o que se pretendia era compreender os fenómenos de auto-regulação em qualquer forma de vida. Daí o trabalho de pesquisa sobre parâmetros formais na comunicação entre animais, por exemplo. A actuação de psicoterapeutas e psiquiatras no projecto de Palo Alto deveria ser entendida dentro de esta perspectiva mais ampla, e quando o grupo se dirigiu explicitamente para outras finalidades, Bateson saiu da equipa e foi estudar o comportamento de polvos.

3. CONCEITOS BASE DE PALO ALTO
3.1. A FORMA é talvez a dimensão mais importante para a compreensão do projecto inicial de Palo Alto, detectando-se neste caso também a influência clara da corrente da Gestält. A dimensão formal dos fenómenos possibilita-nos a detecção de regularidades abstractas entre todos os seres vivos; a essas regularidades (a simetria, por exemplo) Bateson apelidou-as "padrão" e ele acreditava existirem também "metapadrões", isto é, similitudes abstractas entre o mundo físico e o orgânico. Desta obsessão pela dimensão formal emergiu a sua perspectiva da mente como uma dinâmica processual auto-reguladora, logo, cibernética. A mente humana (e não somente a sua racionalidade) possuem esta dimensão auto-reguladora, mas qualquer máquina (um cobertor eléctrico, por exemplo) com sistema de termostato pode ser considerada uma sistema mental.
"In the last twenty-five years extraordinary advances have been made in our knowledge of what sort of thing the environment is, what sort of thing an organism is, and, specially, what sort of thing a mind is. These advances come out of cybernetics, systems theory, information theory, and related sciences. […] We can assert that any ongoing ensemble of events and objects which has the appropriate complexity of causal circuits and the appropriate energy relations will surely show mental characteristics. It will compare, that is, be responsive to difference (in addition to being affected by the ordinary physical 'cause' such as impact or force). It will 'process information' and will inevitably be self-corrective either toward homeostatic optima or toward the maximization of certain variables". (Bateson, G., 1972:315)


3.2. DIGITAL/ANALÓGICO são conceitos utilizados para significar a dimensão verbal/escrita (digital) e a não-verbal e paralinguística (analógica). São retirados do domínio cibernético, em que os computadores digitais permitiam um processamento informacional bastante rigoroso, mas que operavam com variáveis reduzidas. De igual modo, as linguagens verbais/escritas possuem uma sintaxe bastante precisa que assegura rigor comunicacional mas abrangem um leque reduzido de formas de comunicação humana, já que esse mesmo rigor sintáctico inibe a criatividade dentro deste tipo de linguagens.
A linguagem analógica cruza muitas mais variáveis ao nível comunicativo, mas peca por falta de precisão semântica, ou, pelo menos, essa imprecisão existe face ao que dela conseguimos saber. A ligação à Cibernética decorre de os computadores de tipo analógico que então se conheciam serem altamente imprecisos no tratamento informacional, ainda que conseguissem tratar maior número de variáveis, comparativamente com os de tipo digital. (Bateson, G., 1972; Oliveira, 1996; 1999a).

3.3. FEEDBACK/RUNAWAY são conceitos que ainda hoje a maior parte das pessoas liga à Cibernética, e à computação em geral. Eles foram contudo transferidos para o domínio psiquiátrico via Escola de Palo Alto. O primeiro refere-se à capacidade de retroacção que os sistemas computacionais possuem para tratamento dos resultados produzidos (verifica-se pois uma causalidade circular). Quando o feedback é positivo (não havendo auto-correcção), os erros informacionais repetem-se sucessivamente, ampliando-se de tal modo que podem levar à destruição do programa informático em questão: runaway.
Bateson pretendeu aplicar estes conceitos para estudar as questões de auto-regulação em grupos sociais alargados, mas os outros investigadores de Palo Alto confinaram-se a grupos pequenos, como sendo o caso das famílias. O recurso a estes conceitos no domínio psiquiátrico dá-se sobretudo no domínio explicativo dos resultados obtidos, ou não, pelos clientes face à intervenção do especialista que podendo desencadear um mecanismo retroactivo positivo (auto-corrector), pode também contudo estimular um processo de runaway (e que é também um processo de tentativa de auto-regulação).

3.4. A ECOLOGIA proposta por Gregory Bateson apoia-se numa visão sistémica da mente. Mas notemos desde já: em Bateson não só o todo é maior que a soma das partes, como também os sistemas emergem uns dos outros com graus de complexidade acrescida; cada um dos sistemas mentais é um metacontexto do nível anterior.
A influência da visão sistémica da Cibernética é aqui francamente mediada pela lógica russeliana. A ecologia batesoniana não se refere tanto à preservação de sistemas vivos existentes, mas à compreensão da articulação sistémica de padrões e metapadrões de auto-regulação. G. Bateson acreditava que uma compreensão destes fenómenos nos levaria a agir de maneira adequada de modo a garantir a auto-regulação da qual dependemos, quer do ponto de vista filogenético, quer do ponto de vista ontogenético.
Daí que a sua ecologia seja uma ecologia da mente e não propriamente do ambiente; devemos também lembrar-nos que para ele não existia a divisão sujeito/meio, mas antes unidades compostas sujeitos-nichos, que são os níveis mais básicos da unidade-complexidade sistémica do universo.
É surpreendente como ele parece estar cada vez mais certo nas suas intuições conforme a ciência avança, já que neste decénio surgiu a concepção explicativa da origem do universo auto-constructor. Esta sua perspectiva ecológica da mente foi aliás um dos suportes (juntamente com a termodinâmica de Prigogine) para as conceptualizações da teoria do caos e da teoria da complexidade pelo ruído, entre outras.

4. REFLEXÕES FINAIS
A primeira lição a tirar do acima exposto parece-nos ser como uma ciência pode influenciar e despoletar o enriquecimento de outras áreas do saber, sem que com isso fique mais pobre. Mas a ciência a que a outra vai buscar conceitos também dela não fica necessariamente dependente, pois a aplicação contextualizada desses conceitos leva a uma criatividade conceptual que se distancia e autonomiza face à denotação dos conceitos na primeira ciência em questão.
A potencialidade destes conceitos noutras áreas está ainda longe, quanto a nós, de ser rentabilizada. Assim, e a título sugestivo, apontamos algumas possíveis utilizações interdisciplinares destes conceitos.
A perspectiva formal de Bateson poderia ajudar-nos a constituir corpos de saberes conceptuais mais rigorosos em áreas do saber que se encontram em crise paradigmática, e nela poderia também apoiar-se um trabalho de continuidade formal entre teorias de várias áreas (como já vem acontecendo, por exemplo, com teorias vinculadas ao Movimento da Auto-Organização: Oliveira, 1999a).
O treino da observação de tipo analógico poderia fazer parte integrante, e obrigatória, da formação de qualquer profissional no âmbito das ciências humanas (e na formação de profissionais de saúde) pois nesta forma comunicativa de raiz biológica assentam as linguagens articuladas de tipo digital (Oliveira, 1999b).
A exploração de conceitos como feedback/runaway poderia ser extraordinariamente útil para a compreensão de fenómenos de complexidade pelo ruído em áreas como a aprendizagem biológica, a pedagogia, a psicologia do desenvolvimento e a psicologia da educação.

BIBLIOGRAFIA:

Bateson, G. (1979) Mind and Nature - A Necessary Unity. Nova Iorque. Bantam Books.
Bateson, G., Ruesch, J. (1988). Communication et Société. Paris. Seuil.
Bateson, Gregory (1972). Steps to an Ecology of Mind. Nova Iorque. Ballantine Books.
Bateson, Mary-Catherine (1994). With a Daughter's Eye - a Memoir of Margaret Mead and Gregory Bateson. Nova Iorque. Harper Collins Publishers.
Freedman, J., Combs, G. (1996). Narrative Therapy - The Social Construction of Preferred Realities Nova Iorque. W. W. Norton Company.
Oliveira, Clara Costa (1996). "Bateson e Bateson: da Aprendizagem Biológica à Aprendizagem ao Longo da Vida". In Actas do IIº Congresso Galaico-Português de Psicopedagogia. Braga. Univ. do Minho. Vol. I.
Oliveira, Clara Costa (1999a). A Educação como Processo Auto-organizativo. Fundamentos Teóricos para uma Educação Permanente e Comunitária. Lisboa. Instituto Piaget.
Oliveira, Clara Costa (1999b). "Linguagens da Comunicação Humana". In Sonhar. Comunicar. Repensar a Diferença. V. 2-3. [Setembro-Abril] 1998-1999.
Picard, D., Marc, E. (1984), L'Ecole de Palo Alto. Paris Retz.
Watzlawick, P., Beavin, J., Jackson, D. (1962). Pragmatics of Human Communication -A Study of Interactional Patterns, Pathologies, and Paradoxes. Nova Iorque. W.W. Norton Company, Inc..
Wiener, Norbert (s/d). Cybernétique et Société. Paris. Deux Rives.
Maturana, H. e Verden-Zoller, Gerda (1994). Amor y juego - Fundamentos Olvidados de lo Humano - desde el Patriarcado a la Democracia. Santiago do Chile. Editorial Instituto de la Terapia Cognitiva.





Debate abierto


Publicado por james stewart às 10:34 EM

COMUNICAÇÂO INTERPESSOAL 3

Como se constrói nosso “saber”? Como nascem nossos “conhecimentos” ou, melhor dizendo, as “idéias” que nós fazemos das coisas deste mundo? A partir de que imperativos epistemológicos podemos pensar fundar uma ciência do conhecimento?

Ciberlegenda Número 5, 2001

GREGORY BATESON: RUMO A UMA EPISTEMOLOGIA DA COMUNICAÇÃO

ETIENNE SAMAIN

RESUMO

Como se constrói nosso “saber”? Como nascem nossos “conhecimentos” ou, melhor dizendo, as “idéias” que nós fazemos das coisas deste mundo? A partir de que imperativos epistemológicos podemos pensar fundar uma ciência do conhecimento?

Ao longo de milênios, esses conhecimentos se multiplicaram e se diversificaram. Com eles, emergiram centenas de epistemologias locais que, no entanto, cruzam-se no horizonte de suas indispensáveis inter-relações. Como e até onde uma “Epistemologia da Comunicação” (uma epistemologia, muitas vezes ainda, por demais local) participará, no futuro, desta teia de relações e saberá fomentar o que se poderia chamar uma “ecologia do espírito”?

Para tanto, procura-se delinear, nesta comunicação, alguns parâmetros iniciais de elaboração de uma “Epistemologia da Comunicação”, tirando proveito da gigantesca e complexa obra de Gregory Bateson (1904-1980), um penetrante pensador da questão, que foi, ao mesmo tempo, um biólogo, um antropólogo, um psiquiatra e um amante da comunicação humana.

Palavras Chave: Epistemologia da comunicação; Gregory Bateson.

Introdução
Na medida que o GT “Epistemologia da Comunicação” se propõe a discutir, entre outras abordagens, “as relações da Comunicação com outras disciplinas”, gostaria, nesta intervenção, de poder iniciar uma reflexão em torno deste assunto. Para tanto, escolherei um autor que muito prezo e que, a meu ver, será um dos mais importantes inspiradores de uma “Ecologia do Espírito”1 nos próximos dois decênios deste novo século. Chama-se Gregory Bateson (1904-1980). Direi, logo e brevemente, quem foi este inigualável observador das coisas deste mundo e procurarei delinear alguns parâmetros de elaboração de uma epistemologia da comunicação, tirando proveito da gigantesca e complexa obra deste pensador, que foi, ao mesmo tempo, um biólogo, um antropólogo, um psiquiatra e um amante da comunicação humana. Antes de chegar lá, parece-me indispensável traçar duas considerações preliminares importantes.

Da Epistemologia em geral...

Sabemos, todos, que a palavra “epistemologia” logo seduz tanto quanto provoca estranhamento pelo simples fato que não sabemos exatamente o que ela designa e, sobretudo, ao que nos remete. Pessoas “cultas” dirão que a etimologia da palavra é grega e significa um “estudo, um “discurso” (um “logos”) sobre a “epistémé”, isto é, sobre o “conhecimento” ou, melhor dizendo, sobre o “saber”. Eis, então, nossa palavra-chave: a Epistemologia (com um “E” maiúsculo) é a “Ciência do saber”, de todo tipo de conhecimento.

Reconhecemos que essa definição nos diz um pouco de tudo e muito de nada. Para ser mais concreto, diria, desta maneira, que todos nós adquirimos, ao longo das nossas existências, uma série de “conhecimentos”: conhecimentos dos mais variados tipos (sobre a vida, a morte, o sofrimento, o amor, o trabalho; conhecimentos referentes ao fato de que falamos, de que nos comunicamos, de que vivemos em sociedades regidas por sistemas econômicos, educacionais, ecológicos, em sociedades onde existem o direito, a medicina, a religião etc...).

Devemos até convir e acrescentar que todos os nossos conhecimentos adquiridos, muitas vezes, são ou incompletos ou simplesmente errados. Eis o que explica o fato de que, por falta de bons hábitos epistemológicos, arriscamos-nos a ter problemas na vida e, é claro, cada um tem.

A palavra “Epistemologia”, assim situada, pode começar a se tornar um pouco mais concreta e clara. Falar de “Epistemologia” significa levantar essas questões: “O que implica o ato de conhecer as coisas deste mundo?” mas, sobretudo, “como poder chegar a conhecer as coisas deste mundo?”, “quais os imperativos, as exigências e os caminhos de uma ciência do conhecimento, de qualquer tipo de conhecimento (não apenas da “comunicação humana”)?”

... às epistemologias “locais”

Se falei, até agora, da “Epistemologia” com um “E” maiúsculo [enquanto “Ciência geral do Conhecimento”, de todo e qualquer conhecimento], há de se convir que existem centenas de epistemologias (com um “e” minúsculo): epistemologias estas que, sem nenhum desdém nem julgamento prévio de valores, chamarei de “epistemologias locais”. Essa multiplicidade até despertou minha curiosidade. Fui procurar em dois sites de grandes bibliotecas virtuais (um francês: http://www.alapage.com/ e um americano: http://amazon.com/) informações referentes a publicações (livros) elencadas sob os verbetes “epistémologie” e “epistemology”. Melhor que a livraria francesa, que oferecia 152 indicações de livros sobre o assunto, a colega americana brindava seu consultor com 1447 entradas de livros sobre o mesmo assunto. Claro que não tive a paciência nem o tempo de percorrer essa imensa vitrine do conhecimento humano. Passei o tempo suficiente, todavia, para observar três coisas que resumo:

- As epistemologias locais são, hoje, múltiplas e de toda ordem: “Epistemologia genética”; “Epistemologia da Identidade”; “Epistemologia do Tempo”; Epistemologia Jurídica”; “Epistemologia do Direito”; “Epistemologia da Linguagem”; “Epistemologia da Ação moral”; “Epistemologia do Conhecimento musical”; “Epistemologia da Ciências Sociais”; “Epistemologia da Sociologia”; “Epistemologia das Matemáticas”; “Epistemologia da Biologia”; “Epistemologia da Medicina”; “Epistemologia da Geografia”; “Epistemologia da Religião”; “Epistemologia do Sagrado”; “Epistemologia das Ciências da Natureza”; “Epistemologia da Economia”, mas, também, “Epistemologia da Estratégia em Economia”; “Epistemologia das Atividades físicas e esportivas”... “Epistemologia das Ciências da Informação”; “Epistemologia da pesquisa informatizada” e - claro - a “Epistemologia da Comunicação”.

- As epistemologias locais atuais têm, por vezes, um sexo. Obras publicadas nos Estados Unidos tratam de “Epistemologias femininas e masculinas” e um recente best-seller, que estuda as questões da homossexualidade e da heterossexualidade, intitula-se “Epistemology of Closet”.

- As epistemologias locais – e a própria Epistemologia – participam, também, do tempo. As epistemologias são, felizmente, viajantes ou, melhor dizendo, perpassam o tempo humano e procuram desvendá-lo nas suas múltiplas representações e esforços de compreensão. Olhando para os sites aos quais me referi, vocês encontrarão, evidentemente, referências às obras dos grandes filósofos gregos, de pensadores chamados modernos, indo de Emmanuel Kant a Michel Foucault, como vocês descobrirão, também, obras que reivindicam a urgência da eclosão de uma “Epistemologia construtiva Pós-Moderna”.

O que queremos, desta maneira, quando buscamos definir uma epistemologia da comunicação? Como concebê-la (hoje, isto é, no tempo)? Como concebê-la na teia de relações que entretém com tantas outras áreas do conhecimento (a multiplicidade das epistemologias locais)? Como concebê-la na complementaridade necessária de seus discursos (masculino/feminino; clássico/moderno e pós-moderno)? Somente poderemos pretender chegar, possivelmente, a tal empreendimento olhando para uma paisagem e não para um quadro... tanto mais que sem comunicação não existiria conhecimento nenhum.

É tempo de apresentar, embora muito brevemente, Gregory Bateson.

Gregory Bateson

Margaret Mead (1901-1978) e Gregory Bateson (1904-1980) acabavam de se casar quando, de março de 1936 até 1939, empreendiam uma famosa pesquisa junto aos nativos da ilha de Bali, da qual resultaria Balinese Character. Separaram-se, em 1951, guardando, todavia, uma recíproca admiração e cumplicidade intelectual até suas mortes, ambas de câncer.

Nos anos de 1940, época da publicação de Balinese Character. A Photographic Analysis2, não se discutia verdadeiramente as questões epistemológicas e heurísticas que os diversos suportes comunicacionais (a fala, a escrita, as visualidades) poderiam explorar, juntamente, respeitando os termos de suas singularidades e de suas complementaridades, enunciativas, representativas e interpretativas. Passaram-se exatos sessenta anos. Balinese Character andava à frente de seu tempo e, por essa razão, tornou-se mítico

Hoje em dia, a obra de Bateson e Mead poderá ser julgada como tendo sido um empreendimento arriscado, parcialmente convincente. Poderá ser encarada, também, como um monumento de questionamentos heurísticos. Não cabe aqui julgar a obra a partir desse ou daquele ponto de vista. Importa contextualizar as idéias que deram origem à obra e entendê-las melhor.

O livro é, com efeito, uma tentativa de explorar, verbal e visualmente, de que maneira uma criança nascida em Bali torna-se uma criança balinesa. Por meio de que comportamentos sociais adquiridos durante sua infância, de que condutas ensinadas pelo seu meio cultural, distinguir-se-á, para sempre, de uma criança nascida, por exemplo em Manaus, situada nos antípodas da pequena ilha vulcânica de Bali? Em outros termos: qual é o “caráter”, o “estilo” de ser e de viver dos nativos deste pedaço de terra de uns 5000 quilômetros quadrados, situado no Oceano Índico que, hoje, pertence à Indonésia?

Balinese Character representa, desse modo, um marco na história da antropologia, da antropologia visual em especial, mas, também uma marco na maneira com que se pode repensar a comunicação humana e as inter-relações heurísticas existentes entre seus diversos suportes. Na época, uma idéia bastante nova (a questão do ethos)3 e um duplo desafio: conjugar o texto e a imagem. Dois gigantes: Margaret Mead e Gregory Bateson. Uma data: 1942. Uma interrogação, enfim: como entender que, logo após a Segunda Guerra Mundial, Gregory Bateson, biólogo e antropólogo de formação, afastou-se dos seus 25.000 negativos Leica e dos sete quilômetros de filme que tinha rodado com Mead, durante os três anos de sua permanência na ilha de Bali?

Pouco antes dos anos 50, com efeito, Bateson, filho do famoso genetecista inglês William Bateson, parte para outros horizontes vivenciais e, sobretudo, comunicacionais: observa e filma as lontras e os seus jogos relacionais em São Francisco; observa e estuda,em 1962, a comunicação oral dos delfins nas Ilhas Virgens. No intervalo, congrega em torno de si psiquiatras (Jurgen Ruesch, Don D. Jackson, Paul Watzlawick, Albert E. Scheflen), antropólogos (Erving Goffman, Edward T. Hall, Ray Birdwhistell), na chamada “Escola de Palo Alto”. Todos buscavam repensar, numa perspectiva “orquestral” (inspirada pelos trabalhos de Norbert Wiener4) e não meramente “telegráfica”(como fazia, na época, Claude Shannon5), as questões relativas à comunicação humana.

O que Bateson buscava nos anos 50 e o que deveria efetivamente desenvolver até sua morte em 1980? Procurava equacionar melhor a vasta interrogação sobre a comunicação humana nos termos de uma estrutura6 que pudesse ligar os “seres vivos” entre si – a natureza e o pensamento, a comunicação e a antropologia.

Sem nunca ter abjurado suas origens intelectuais e acadêmicas, Bateson tornar-se-á, durante mais de trinta anos, o visionário lúcido e o fundador crítico de uma nova maneira de encarar as relações entre comunicação e antropologia. Balinese Character foi, para ele, o terreno fecundo da emergência de uma nova problematização e de um repensar da comunicação humana.

De Bateson pode-se afirmar, vinte anos após a sua morte, duas coisas: ao lado de seus colegas psiquiatras e antropólogos, ele não somente delineou os parâmetros de uma “Nova Comunicação”, mas soube plantar os alicerces de uma “Antropologia da Comunicação” e de uma “Epistemologia da Comunicação”. Em outras palavras: o que significa pensar antropologicamente a comunicação humana? Ou, ainda, o que significa, na perspectiva aberta por Bateson, investigar etnograficamente os comportamentos, as situações, os objetos que, numa comunidade, são percebidos como portadores de um valor comunicativo?

A obra de Gregory Bateson, mereceu, até hoje, pouca consideração por parte dos círculos editoriais brasileiros. Bateson não causa medo nem assombra ninguém: é um pensador discreto que sempre soube inovar e a quem dispensaremos, por certo, particular atenção no alvorecer deste novo século. Por que motivo? Bateson é, antes de mais nada, um “olhar”, um observador que deixa a sua observação repercutir e questionar seu pensamento. Diferentemente de Margaret Mead, ele não procura entender o mundo a partir de suas idéias. Procura, sim, a interpelação constante do mundo sobre suas possíveis e potenciais idéias. Bateson deixa ao mundo dos seres vivos a tarefa e a responsabilidade de trabalhar e de despertar o seu pensamento.

Praticamente toda a obra (antropológica, epistemológica mas, também, comunicacional) de Bateson (e de seus colegas aos quais me referi anteriormente) permanece insuficientemente explorada, penso, nos meios universitários brasileiros. Sem dúvida, evoca-se o nome do pensador e alguns de seus conceitos-chave. Entretanto, fora uma antologia de textos sobre a comunicação, apenas um dos importantes livros de Gregory Bateson foi, até hoje, traduzido em língua portuguesa6a.

A situação teria sido semelhante na Europa não fosse um acaso: um pesquisador belga, Yves Winkin, realizou seu doutorado na University of Pennsylvania, Annenberg School for Communication, focalizando precisamente a chamada Escola de Palo Alto e, praticamente, entrevistando, na época (1976-1979), todos os seus membros (Bateson, Birdwhistell, Goffman, Hall, Jackson, Scheflen, Sigman, Watzlawick). Resultou disto um livro publicado na França em 1981, intitulado La nouvelle communication7que, na Europa, tornou-se, desde então, um best-seller.

Rumo à Epistemologia batesoniana ou “O que todo aluno sabe”8

Cinco pontos focais (ou direcionamentos):

Bateson parte desta questão que todo aluno levanta: “Como podemos ‘conhecer’?”, “Como advém nosso conhecimento? Quais são os condicionantes da emergência do saber, de qualquer natureza que seja: biológico, físico, lingüístico, matemático, pedagógico, antropológico, comunicacional?”

1. A primeira resposta de Bateson é a seguinte: “No decorrer da minha existência – escreve – coloquei as descrições de tijolos e de jarras, de bolas de sinuca e de galáxias numa caixinha... e deixei-as repousar em paz. Numa outra caixa, coloquei coisas vivas: os caranguejos do mar, os homens, os problemas de beleza e as questões de diferença. É o conteúdo da segunda caixa...[que, a mim, interessa]”9. Bateson não pode ser mais claro: o universo é, para ele, um imenso organismo em constante ação e interação. O que nele interessa é o que vive. Sua Epistemologia será antes de mais nada uma Epistemologia que se constrói a partir dos seres vivos.

2. Muitas vezes - acrescentará Bateson - concebemos a Epistemologia como sendo um ramo da filosofia, conseqüentemente algo de eminentemente abstrato de que cuidariam os filósofos, fora do campo da investigação empírica. Visão distorcida evidentemente que, todavia, permite a Bateson firmar algo fundamental. Para ele, nunca poderemos pensar construir uma ciência do conhecimento fora do campo da investigação empírica. Com outras palavras, a Epistemologia batesoniana pertence à ordem do concreto, do palpável, do sensível e não pode se construir no campo da abstração, na esfera da razão pura, fora da concretude de uma realidade empírica.

3. A maneira através da qual, desta vez, adquirimos “conhecimentos ou informações” origina-se, sempre, insistirá Bateson, da “observação e da experimentação” (ou de uma experiência). O ser humano somente pode adquirir conhecimentos através dos seus órgãos sensoriais ou através de seus próprios experimentos. De tal modo que não se pode falar de uma Epistemologia que não seja, por necessidade, vinculada e atrelada a um constante e prévio trabalho de observação.

4. Outro ponto focal da Epistemologia Batesoniana que deve merecer toda a nossa atenção, pois é aqui que Bateson mais inova e pode nos inspirar. Eis o que diz substancialmente: “Nunca poderemos pretender conhecer as ‘coisas’ deste mundo, isoladamente. Todo conhecimento se insere num contexto”. Isto, aliás, se entende se é verdade que o universo no qual vivemos é um imenso organismo em constante ação e interação. A Epistemologia não é, desta maneira, uma ciência de que devemos esperar “definições” isoladas e pontuais das coisas que povoam nosso universo e, sim, uma ciência capaz de nos revelar com profundidade o que essas mesmas coisas hão de dizer delas mesmas em função das interações que entretêm umas com outras. Assim encarada, a Epistemologia deve ser, antes de mais nada, um “processo de aquisição e de estocagem da informação”, a partir do qual poderão se construir as “idéias” (e apenas “idéias”) que nós fazemos das coisas.

É tempo de exemplificar essas considerações. Bateson não procura entender o que é a “tromba” de um elefante ou o “nariz” de um ser humano. Não procura definir o que é um “homem”, o que é uma “mulher”. A Epistemologia de Bateson busca sempre entender como se constróem as “idéias que nós fazemos das coisas”: da “tromba” do elefante, do “nariz” humano; do “homem”, da “mulher”. A Epistemologia batesoniana procura responder à seguinte pergunta: como passamos (“processo”) de uma coisa observada (por exemplo, a “tromba” de um elefante, situada entre “dois olhos” e o “nariz” humano, também situado entre dois olhos) à idéia de “mamífero”; ou, ainda, como passamos da observação da morfologia genital do homem e da mulher à idéia de “sexualidade”; ou, ainda, por quê e como chegamos a relacionar “tromba/nariz” entre um par de “olhos”, com a posição de um “verbo” que, numa frase, fica inserido entre um “sujeito” e um “complemento”, geralmente necessários.

Eis a Epistemologia que reivindica Bateson. Ela deve ser - dirá ele - “indutiva e experimental e, como toda verdadeira ciência, dedutiva e, sobretudo, adutiva [...], isto é, deverá sempre procurar colocar lado a lado fragmentos de fenômenos similares”10.

5. Chegamos, deste modo, a um último determinante da Epistemologia batesoniana. A “observação e a experimentação” [a partir das quais a Epistemologia se torna possível e pode ser processada, construindo as idéias que nos nós fazemos de uma realidade em interação contínua com uma outra]... são sempre constituídas, dirá Bateson, de “informações de diferenças”. O sapo é incapaz de ver uma mosca a não ser quando ela se movimenta. O olho humano, ele, é capaz de distinguir uma mosca imóvel e uma mosca em movimento. São essas informações de uma diferença que tornam possíveis a eclosão de idéias e, acrescento, os processos de suas representações, de suas enunciações, de suas conceitualizações e de suas (inevitáveis) interpretações.

Não poderíamos chegar à idéia de “mamífero” sem ter previamente observado a “tromba” do elefante e o “nariz” do ser humano, ambos situados entre um par de olhos, ambos nos proporcionando uma “informação de diferenças”. Não chegaríamos à idéia de “sexualidade” sem, previamente, ter observado a complementaridade morfológica dos sexos masculino e feminino, cada um deles nos proporcionando uma “informação de diferenças”. Ouso arriscar-me, acrescentando: não chegaríamos à idéia de “suportes imagéticos” sem ter, previamente, observado a natureza e a singularidade de cada um deles (pintura, fotografia, cinema, vídeo, infografia), cada um desses meios e suportes comunicacionais oferecendo-nos uma “informação de diferenças”.

O que vimos até agora?

1. Uma “epistemologia da comunicação” não pode se conceber corretamente sem que se tenha consciência da existência de outras epistemologias “locais”, com as quais se relaciona em graus variáveis.

2. Todas as chamadas epistemologias “locais” (inclusive a epistemologia da comunicação), fundamentam-se num trabalho prévio de observação da realidade concreta e sensível. Não chegarão a ser consistentes fora do campo de uma investigação empírica.

3. Esta observação empírica não tem como finalidade conhecer as coisas em si, uma tarefa tanto impossível como infrutífera. Deve, sim, permitir-nos estocar informações de diferenças existentes entre essas realidades observadas. Será a partir dessas informações de diferenças que se construirão e nascerão nossas idéias.

Duas outras paisagens em direção a uma epistemologia da comunicação.

Ter-se-ia notado que, na perspectiva de Bateson, a comunicação encontra-se no coração da elaboração de toda e de qualquer epistemologia. A ciência do saber apoia-se e somente pode se desenvolver com base numa observação e a partir de uma estocagem de informações.

Gostaria, desta maneira, de esboçar – para terminar – duas paisagens heurísticas que nos permitiriam avançar em direção a uma epistemologia da comunicação: algumas perguntas em torno da “observação”, de um lado; alguns outros questionamentos referentes “à estrutura que liga” (the pattern which connects) todas as criaturas vivas, de outro.


Da observação

Como antropólogo (pois todos sabem que a observação é a base do ofício de todo antropólogo), continuo me questionando. Pergunto-me: O que significa observar? O que observar? Como observar?... Mas, também, será que uma imagem, por exemplo, não nos permitiria eventualmente observar o que nosso olho não é capaz de perceber e por que razão? Eis uma primeira série de questões aparentemente banais e, por esse motivo, muitas vezes relegadas ou simplesmente ignoradas. Uma epistemologia da comunicação deveria lhes dar, penso, uma prioridade.

Levanto, no entanto, algumas outras interrogações. Sabemos que não existiria observação possível sem a existência de nossos órgãos sensoriais (a visão sem dúvida, mas, também, a audição, o olfato, o paladar, o tato, o gestual, etc.). Eis um dado óbvio. Mas o que sabemos realmente desses canais fundadores da comunicação humana? Como cada um deles funciona? Como esses canais se relacionam e se inter-relacionam? Quais seriam as lógicas de funcionamento de cada desses órgãos sensoriais, embutidas num único cérebro? Ainda mais: quais seriam as relações existentes entre as funções e performances cognitivas (perceber, decidir, inferir, estimar, corrigir, memorizar) cravadas, ou na nossa visualidade, ou na nossa audição, ou no nosso olfato... Essas questões, evidentemente, pertencem diretamente ao campo da neurologia cerebral e das neurociências cognitivas. Mas será que, numa perspectiva batesoniana, não deveriam interessar a todos os comunicólogos? Será que o especialista da comunicação, o antropólogo, o biólogo, o matemático podem, de antemão, ignorar a complexidade e a importância dessas questões em nome da especificidade de “sua ciência”?

Tratando das “imagens” que - sabemos - são de natureza tão diversa (imagem fotográfica, cinematográfica, videográfica, infográfica...), será que não valeria a pena chegar a entender melhor como, a partir de simples sinais luminosos, construem-se essas diversas imagens dentro do cérebro, ao passar pelo impressionante laboratório fotoquímico e pela rede ótica das células retinianas, que transformariam, segundo Changeux11, esses sinais em “objetos mentais”, gênese de todo pensamento? Nesta linha de reflexão, valeria lembrar, também, a idéia de “pensamento sensorial”, um conceito que já desenvolvia, nos anos 30 do século XX, o cineasta russo Eisenstein (que conhecia os trabalhos do filósofo francês Lucien Lévy-Bruhl, recentemente revisitados por Claude Lévi-Strauss e Jack Goody sob os vocábulos respectivos de “Pensamento selvagem” e de “Domesticação do pensamento selvagem”). Será que todas essas questões permaneceriam alheias à elaboração de uma epistemologia da comunicação ou de uma Epistemologia tout-court?

“A estrutura que liga” (the pattern which connects) os seres vivos.

Toda a obra batesoniana fica perpassada por uma determinação e uma busca: “Procuro a estrutura que liga os seres vivos”. Bateson dirá: “Qual a estrutura que liga o caranguejo do mar à lagosta e a orquídea à prímula? E o que os liga, eles quatro, a mim? E o que me liga a vocês? E nós seis à ameba, por uma lado, ao esquizofrênico que internamos, por outro lado? Poderíamos acrescentar: o que liga um professor universitário a uma pessoa esquizofrênica ou a um vampiro? E o que liga o cego e o cachorro que o guia? Qual a estrutura que “liga”, “coliga” o “espírito à natureza”, o mundo dos “vivos” ao mundo dos “mortos”? O que “liga” - diria Bateson, agnóstico por ser profundamente religioso - os homens aos anjos? E por que esses últimos, até, têm receio de se aproximar de Deus?

Eis uma extraordinária visão da natureza da comunicação entre os seres vivos; uma profunda interrogação, também, na perspectiva de elaboração de uma antropologia da comunicação mas, sobretudo, de uma epistemologia da comunicação. Termino, apresentando duas pequenas outras breves considerações.

- Qual a “estrutura que liga” a escrita à palavra, a palavra à imagem, à imagem à escrita? E o que as liga, as três, a mim? E o que me liga (e as liga) a vocês? E como, nós cinco, estamos conectados às últimas tecnologias comunicacionais? É nesta perspectiva relacional existente entre os meios de comunicação (perspectiva que não abjura ou, melhor dizendo, nunca deverá abjurar a questão das singularidades próprias de cada desses suportes) que chegaremos a relativizar as “virtudes” da escrita com relação ao mundo das imagens e que não cairemos, também, na tentação de pensar, hoje, que a informática e as suas primeiras minúsculas descobertas tecnológicas serão o futuro de uma epistemologia da comunicação. Participarão dela? Sem dúvida alguma. Mas pensar poder desvincular essa recente maquinaria informática das ferramentas comunicacionais que a antecederam seria tão absurdo como falar de uma “comunicação verbal” distinta de uma “comunicação não verbal”.

- Gregory Bateson, vejam, propõe-nos e procura despertar dentro de nós um novo “estado do olhar” sobre uma leitura comunicacional do mundo social (dos seres vivos). Uma comunicação encarada não mais e apenas como ato individual, e sim como um fato cultural, uma instituição e um sistema social. Uma comunicação refletida não mais e apenas como uma telegrafia relacional, mas, sim como uma orquestração ritual, eminentemente sensível e sensual.

Pessoalmente, penso, que neste universo humano, vivemos não apenas no meio de postes, de quilômetros de fios elétricos, no tear de uma multidão de fibras óticas ou nos interstícios de uma legião de satélites. Vivemos, sim, nos balcões dessa complexa teia comunicacional ou, melhor dizendo, nos palcos dessa rede planetária e somos sempre –de maneira solidária, institucional e orquestral – os atores necessários de nossas apresentações e de nossas representações, de nossas idéias e de nossas contra-idéias, sem as quais não existiriam sociedades e muito menos dinâmicas sociais.

Sabemos, talvez, “o que todo aluno sabe”...

Bibliografia de suporte:

- Bateson, Gregory e Ruesch, Jurgen. Communication. The Social Matrix of Psychiatry, New York, W.W. Norton & Company, 1951 (com reedições em 1968 e 1987. Versão francesa: Communication et Société, Paris, Seuil, 1988.

- Bateson, Gregory. Steps to an Ecology of Mind, São Francisco, Chandler, 1972. Versão francesa: Vers un écologie de l’ esprit, Paris, Seuil, Tomo 1: 1977; Tomo 2: 1980.

- Bateson, Gregory. Mind and Nature. A necessary Unity, New York, Dulton. Versão portuguesa: A natureza e o espírito. Uma unidade necessária, Lisboa, Quixote, 1987 e Rio de Janeiro, Francisco Alves, 1993. Versão francesa: La nature et la pensée, Paris, Seuil, 1984.

- Bateson, Gregory. A Sacred Unity. Further Steps to an Ecology of Mind. Donaldson, Rodney, E (org.). New York, Harper Collins, 1991. Versão francesa: Une unité sacrée. Quelques pas de plus vers une écologie de l’esprit, Paris, Seuil, 1996.

- Bateson, Gregory e Bateson Mary Catherine. Angels Fear. Toward an Epistemology of the Sacred, New York, Macmillan Publishing Company, 1987. Versão francesa: La peur des anges, Paris, Seuil, 1989.

Além dessas obras, convém acrescentar:

- Bateson Mary Catherine. With a Daughter’s Eye, New York, William Morrow and Company, 1984. Versão francesa: Regard sur mes parents. Une évocation de Margaret Mead et de Gregory Bateson, Paris, Seuil, 1989.

- (Coletivo) Bateson: Premier État d’un Héritage. Colloque de Cerisy sous la direction d’Yves Winkin, Paris, Seuil, 1988.

- Lipset, David. Gregory Bateson. The Legacy of a Scientist, Boston, Beacon Press, 1982.

- Winkin, Yves. A nova comunicação. Da teoria ao trabalho de campo, Campinas, Papirus Editora, 1998.


Campinas, junho de 2001

Notas


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1 Bateson, Gregory. Steps to an Ecology of Mind, Chandler, 1972.

2 Bateson, Gregory e Mead, Margaret. Balinese Character. A Photographic Analysis, New York, The New York Academy of Sciences, 1942. Reimpressão: 1962.

[3] Um conceito (ethos) que deve muito ao de “configuração” e de “modelo cultural” [pattern] elaborados por Ruth Benedict: Patterns of Culture (1934) e que Bateson já definirá e explorará na sua primeira monografia antropológica: Naven. A Survey of the Problems suggested by a Composite Picture of the Culture of a New Guineia Tribe drawn from Three Points of View (1936).

4 Wiener, Norbert. Cybernetics, or Control and Communication in Animal and the Machine, Paris, Hermann, 1948.

5 Shannon, Claude e Weaver, Warren. The Mathematical Theory of Communication, Urbana-Champaign (III), University of Illinois Press, 1949.

6 O conceito batesoniano de “estrutura” ligando, em termos comunicacionais, “seres vivos” entre si, é fundamental na obra do antropólogo e pensador que pretendemos estudar. Situa-se nos antípodas do conceito (eminentemente abstrato) de “estrutura” elaborado por Claude Lévi-Strauss.

6a Mind and Nature. A Necessary Unity, New York, Dulton, 1979, o último livro publicado por Bateson antes de sua morte (1980). Versão portuguesa A Natureza e o Espírito. Uma unidade necessária, Lisboa, Quixote, 1987 e brasileira (Francisco Alves), 1993.

7 Bateson, Birdwhistell, Goffman, Hall, Jackson, Scheflen, Sigman, Watzlawick. La nouvelle communication. Textes recueillis et présentés par Yves Winkin, Paris, Seuil, 1981 (com várias reedições desde então). O livro, na primeira parte, faz uma apresentação geral e histórica da eclosão da “Escola de Palo Alto”, descreve os seus componentes e faz um síntese de seus principais empreendimentos. Na segunda parte do livro, Yves Winkin oferece, para cada dos integrantes do “Colégio Invisível”, um texto particularmente significativo e representativo do pensamento de cada um dos autores, seguido de uma entrevista com os próprios.

8 “0 que todo aluno sabe” é o título do segundo capítulo de Mind and Nature. A Necessary Unity, New York, Dulton, 1979. Além das idéias desenvolvidas neste capítulo, que Bateson qualifica, não sem humor ou ponta de ironia, de “idéias muito elementares sobre a epistemologia”, remeto a um dos seus últimos artigos (de duas densas páginas), escrito e publicado em 1979: “The Science of Knowing”, in The Esalen Catalog, 17, nº2 (abril-junho), p. 6-7.

9 Id. Mind and Nature. A Necessary Unity . p.15.

10 Id. “The Science of Knowing”, p.7.

11 Changeux, Jean-Pierre. L’homme neuronal, Paris, Fayard (Col. “Pluriel”), 1983.


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ETIENNE SAMAIN é professor do Programa de Pós-Graduação em Multimeios da UNICAMP- Brasil

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Publicado por james stewart às 10:27 EM

COMUNICAÇÃO INTERPESSOAL 2

Obra: A Nova Comunicação - Da Teoria ao Trabalho de Campo
Autor: Yves Winkin

Que a comunicação está no cerne da antropologia é um facto inegável (afinal como viver no mundo, como pensá-lo e descrevê-lo sem comunicar?), que a antropologia se coloque no seio da comunicação para desvelar e questionar esse mesmo mundo no intuito de melhor compreender as práticas e interacções que o integram é o objectivo desta obra.


A Nova Comunicação - Da Teoria ao Trabalho de Campo
Recensão por: Dora Urmal


Obra: A Nova Comunicação - Da Teoria ao Trabalho de Campo
Autor: Yves Winkin
Editora: Papirus
Ano publicação: 1998
Ano entrada: 2001-11-15
Lingua: Português


Temáticas:
- Teorias e Métodos
- Semiótica
- História e Teorias da Comunicação




Recensão:

Yves Winkin - A NOVA COMUNICAÇÃO. DA TEORIA AO TRABALHO DE CAMPO, trad. De Roberto Leal Ferreira, org. e apresentação de Etienne Samain, Campinas, São Paulo, ed. Papirus, 1988. Originais: La Nouvelle Communication, Paris, ed. Du Seuil, 1984, páginas 13-109 e Anthropologie de la Communication. De la Théorie au Terrain, Bruxelas, ed. De Boeck-Université, 1988.


Publicada em 1998 pela editora brasileira Papirus, a obra A Nova Comunicação -Da Teoria ao Trabalho de Campo reúne um conjunto de textos -sínteses reflexivas e críticas- retirados das obras A Nova Comunicação e Antropologia da Comunicação, ambas da autoria de Yves Winkin, numa organização de Etienne Samain. E, deverá ser por nós encarada como um rico contributo para a superação de uma concepção da comunicação de modelo shannoniano e para a descoberta de uma outra, ainda inexplorada pelas ciências sociais tradicionais: a concepção orquestral da comunicação.
Que a comunicação está no cerne da antropologia é um facto inegável (afinal como viver no mundo, como pensá-lo e descrevê-lo sem comunicar?), que a antropologia se coloque no seio da comunicação para desvelar e questionar esse mesmo mundo no intuito de melhor compreender as práticas e interacções que o integram é o objectivo desta obra.
Mas, antes de mais, é útil dar a ver a sua constituição: esta tece-se propondo um percurso dual e como tal pode dividir-se em duas partes.
Uma 1ª - que podemos intitular de A Nova Comunicação- baseada numa pesquisa feita, em 1980, nos E.U.A., em que o autor nos dá a conhecer um leque de pesquisadores norte-americanos que formam desde 1950 um colégio invisível ao redor de Palo Alto e de Filadélfia e aos quais é legítimo reconhecer o contributo para uma nova leitura da comunicação e do universo social, lato sensu. Uma comunicação que se mostra como uma verdadeira orquestração (metáfora que adiante será explicitada) e não mais como uma mera transmissão telegráfica é assim proposta por eles, pesquisadores de formação antropológica e psiquiátrica: Gregory Bateson, Erving Goffman, Edward T. Hall e Ray Birdwhistell respeitam àquela e Don Jackson, Paul Watzlawick e Albert Scheflen a esta última -são eles os protagonistas deste original empreendimento.
E uma 2ª -que podemos intitular Da Teoria ao Trabalho de Campo- composta por um conjunto de textos baseados no trabalho de campo efectuado sob a égide da concepção antropológica da comunicação, sob a mise en scène desta, em que Winkin (após duas décadas de trabalho de campo) nos propõe uma leitura comunicacional a partir de quatro textos que reflectem sobre quatro terrenos- uma cantina de estudantes, uma sala de professores universitários, uma viagem de turismo e uma escola primária -que observou atentamente, sempre sob a óptica da nova comunicação. Estas quatro investidas revelam-se tanto mais relevantes e profícuas quanto mais dão a ver a consolidação, a maturação das virtualidades desta concepção.
Assim e à guisa de ponto da situação, o autor conduz-nos pelas potencialidades desta num primeiro momento através de uma história sócio-intelectual (onde podemos destrinçar as fontes desta corrente "ideológica") que passa inevitavelmente, pelos pesquisadores americanos que a conceberam (os quais já referimos) e num segundo momento através de uma descida ao campo onde nos mostra como praticar essa nova visão da comunicação: e nesse ponto põe-nos perante as duas vias de efectivar essa mesma prática -a psicoterapêutica e a etnográfica- e a maior utilidade que há em enveredar por esta última. Para Winkin só ela permite operacionalizar a teoria da nova comunicação porque só a observação proporciona a passagem do caos ao cosmos ou seja o aparecimento de regras.
Brevemente apresentada a obra, partiremos agora para uma sua leitura mais aprofundada , mais atenta e pormenorizada, no intuito de explorar esta proposta para destrinçar os seus pontos chave: objectivos, potencialidades, contributos, respostas, questões ...
Para "separar as águas" conforme se diz na gíria e chegar à acepção de comunicação com a qual se identifica, Winkin começa por clarificar a confusão de ordem semântica que se gerou em torno do termo comunicação e fá-lo traçando a evolução do termo nas línguas francesa e inglesa concluindo que, na contemporaneidade, prevalece a acepção da comunicação enquanto transmissão e envereda aqui por uma explicação do modelo de comunicação construído por Shannon e aperfeiçoado por Wiener: o modelo transmissional que é no fundo uma teoria matemática da comunicação. E, mostra a influência deste modelo telegráfico (assente no binómio EðR) em múltiplas disciplinas (cf. no modelo de comunicação verbal de Jakobson) e confirma a sua subsistência hoje como modelo de comunicação nas ciências, quer nos E.U.A. quer na Europa.
É nos anos 50 que um grupo de estudiosos se vai debruçar sobre o fenómeno comunicacional deixando, pela primeira vez, Shannon à margem desta empresa e é o modelo que deles vai nascer aquele que seduz o autor.
Tudo se inicia com Bateson e a sua equipa que, em conjunto, vão formular, com base em observações, uma teoria geral da comunicação; depois os antropólogos Birdwhistell e Hall procuram amplificar o campo tradicional da comunicação incluindo a gestualidade e o espaço interpessoal no seu estudo; o sociólogo Goffman vai tentar perceber de que modo as rupturas tecem também tecido social. Mais tarde, na década de 60 e depois de 70, Jackson e Watzalwick vêm dar sequência à obra de Bateson, e Sigman, por seu lado, retoma os ensinamentos de Birdwhistell e Goffman. Estes homens formaram o já referido colégio invisível que, no fundo, mais não é do que uma teia de ligações conceptuais e metodológicas, ou seja um consensualismo intelectual que os une espiritualmente mas quase nunca fisicamente -daí a invisibilidade desta escola. Esse consenso consistia fundamentalmente na oposição à aplicação do modelo de comunicação de Shannon à pesquisa da comunicação interpessoal que segundo eles leva a aporias insolúveis; e, ao invés, propõem uma visão quase naif que postula a observação in loco do comportamento humano como ponto de partida, como condição necessária para a construção de um novo modelo de comunicação -o modelo orquestral.
Vendo a comunicação como um todo integrado das formas de comportamento o colégio avança com o imperativo da análise do contexto (por oposição à análise do conteúdo shannoniano) i.e., do campo em que a interacção ocorre por esta ser irredutível a um processo matemático e lhe convir antes um modelo de pesquisa que dê conta das suas diferentes complexidades e contextos vários. Daí ser frequente o uso da analogia da orquestra entre os membros do colégio invisível na medida em que ela mostra que cada indivíduo tem participação no processo comunicacional, a partitura espelha o corpo das regras que orientam os comportamentos. O modelo orquestral vem devolver ao termo comunicação o seu sentido etimológico primeiro, original: o da comunhão, da participação, do pôr em comum.
Winkin prossegue com um olhar sobre a escola de Palo Alto, com a vida e obra de Bateson; depois é a vez de Jackson, ao qual se segue Watzlawick; em seguida debruça-se sobre a escola de Filadélfia e leva-nos até Birdwhistell, passa por Scheflen, Sigman e termina com Hall e Goffman.
Tudo começa com Bateson que destrói integralmente o pesquisador tradicional. Homem de formação científico-natural cedo envereda pela antropologia dedicando-se ao estudo da tribo Iatmul; de Margaret Mead retira a âncora metodológica e psicológica que lhe faltava e une-a à sua riqueza epistemológica e teórica. Juntos, até na vida privada, vão sobretudo estudar a questão da incorporação da cultura e Bateson procura construir uma teoria desta; o conceito de "cismogénese" é da sua autoria e designa o estudo da génese dos cismas que ligam indivíduo e sociedade no seio de um sistema social, fenómeno que muito o atraía; o trabalho de campo efectuado em Bali resulta na obra A photographic analysis onde a renovação dos métodos de campo, bem como um novo modo de apresentação dos dados e uma visão original da cultura e dos processos de socialização estão bem patentes. Embora muitos anglo-saxões o olhem de forma suspeita a sua posição intelectualista afirmou-se largamente.
Bateson vai ser o primeiro a inserir a cibernética nas ciência sociais; em 1948 abandona a antropologia e dedica-se à psiquiatria e procura formular uma teoria da comunicação derivada da cibernética conforme propõe em Communication: The social matrix of psychiatry (Bateson e Ruesch; 1951), a visão aqui exposta pode, por um lado, ser apontada como caracterizadora de todos os autores aqui referidos, na medida em que para todos eles a comunicação é a matriz de todas as actividades humanas, e por outro, pode dizer-se que prefigura o livro de Watzlawick, Beavin e Jackson, de 1967, Pragmatics of human communication. Em 1952 estuda os paradoxos da abstracção na comunicação e em 1954 sintetiza os seus estudos sobre a natureza do jogo entre os animais; em 1956, na obra Para uma teoria da esquizofrenia, Bateson e o seu grupo desenvolvem a famosa teoria do duplo vínculo (que aperfeiçoou incessantemente ,levando-o mesmo a separar-se da sua equipa em 1960 e a retomar a interrogação sobre a comunicação), ela funciona ainda como uma súmula do seu trilho intelectual -do estudo das crianças balinesas às lontras e paradoxos de Russell (dos colóquios da Fundação Macy a que assistiu e participou).
A hipótese do duplo vínculo tem tanto de interessante como de complexa e apesar do grande sucesso obtido num primeiro momento entre os núcleos americanos de pesquisa em esquizofrenia, a exposição desta hipótese foi muitas vezes feita de modo deficiente, senão mesmo erróneo; num segundo momento passa a ser uma hipótese falsa, para num terceiro voltar a ser estudada com o retomar do pensamento batesoniano.
Mas é a aplicação do conceito cibernético de mind aos sistemas vivos que vem consagrar definitivamente o seu pensamento enquanto dominante nas ciências humanas contemporâneas e Bateson torna-se então quase um mito.
Steps to an ecology of mind (1972) congrega os seus escritos de maior importância.
Para Winkin, Bateson é "...um observador fino, paciente, minucioso ..." , com uma espantosa visão de conjunto do seu percurso intelectual e cujo procedimento é acima de tudo dedutivo e interdisciplinar. Segundo o pensamento científico pré-moderno Bateson foi um espantoso visionário.
Chega assim a Jackson, um psiquiatra e psicanalista que em 1954 vem integrar a equipa de Bateson, e que cinco anos depois funda o M.R.I. (Mental Research Institute) para efectuar a aplicação à psicoterapia das pesquisas do grupo (fá-lo de imediato com a hipótese do duplo vínculo à terapia familiar, que denota grande influência de Palo Alto).
Mas Jackson é essencialmente um clínico e será Watzlawick o teorizador do seu percurso.
O M.R.I. e Jackson são inseparáveis: em 1961 Watzlawick, e em 1962 Weakland e Haley vêm juntar-se a ele, a Riskin e a Satir e rapidamente o instituto passa a liderar o desenvolvimento da psiquiatria. Quando Jackson morre (1968) e Haley e Satir enveredam por outras áreas, Fisch, Watzlawick e Weakland vêm colmatar a falta destes e a partir da década de 70 o M.R.I. volta a assumir o papel de líder. Não tardam a nascer divergências e com elas diferentes projectos no seu seio, se bem que todos falem de esquizofrenia e que todos sejam unânimes no reconhecimento da necessidade de aplicar métodos diferentes a problemas diferentes.
Aqui Winkin inclina-se sobre Watzlawick: em 1960, já ciente do trabalho de Bateson, trabalha com Scheflen e o seu grupo no estudo da relação terapeuta/paciente; logo depois Jackson leva-o para o M.R.I. onde recebe os ensinamentos dos mestres Jackson, Bateson e Erickson. Rapidamente apreende a lógica batesoniana e vai então reformular alguns dos seus conceitos e mostrar a sua aplicação -este é o embrião da já referida obra Pragmatics of human communication, considerada um clássico no âmbito da ideias do colégio invisível e da qual é co-autor.
Para ele e para a sua equipa a interacção não é a simples soma dos seus elementos e é por isto que se inserem no modelo orquestral da comunicação (não privilegiam a óptica sócio-antropológica -devido à sua formação- e neste aspecto contrastam com Bateson, Birdwhistell, Hall e Goffman); analisam em conjunto as técnicas terapêuticas de Jackson e Erickson e com base na obra supracitada propõem uma análise do funcionamento do paradoxo na psicoterapia.
Em How real is real? Communication, Disinformation, Confusion (1976) analisa a intervenção paradoxal e sai largamente do quadro psicoterapêutico, entregando-se às reflexões liguístico-filosóficas.
Partindo de Bateson, da sua teoria geral da comunicação, chegámos, com Watzlawick e a sua equipa, a uma teoria da terapia e só com Birdwhistell voltaremos então à primeira.
Winkin remete-nos aqui para a escola de Filadélfia e Birdwhistell é assim o quarto pesquisador descrito. Embora partilhe com o grupo de Palo Alto determinadas ideias, podemos apontar dois pontos de afastamento: a reflexão com base na antropologia linguística e a posse dos ensinamentos da linguística descritiva da década de 50. Homem pouco dado à escrita a sua obra é eminentemente oral; à semelhança de Bateson é influenciado por Margaret Mead e embora, inicialmente, se insira no grupo deste, rapidamente elabora a sua posição teórica; dedica-se ao estudo dos rituais amorosos entre adolescentes, esboçando uma análise dos códigos e das regras comportamentais que Goffman desenvolverá; preocupa-se em mostrar aos seus alunos que, quer a antropologia quer a sociologia não se confinam às macroestruturas. Como Sapir, vê a fala como um facto social e defende que a possibilidade de uma antropologia da gestualidade é tão pertinente como uma da fala.
Uma das suas maiores preocupações é a articulação entre corpo e sociedade/cultura; é um verdadeiro coleccionador de referências sobre o corpo e os gestos que, para ele, têm uma significação que flutua consoante o contexto da interacção onde se dão e não têm, jamais, uma significação imutável, uma etiqueta.
Em 1952 Trager e Hall elaboram um esquema de análise cultural baseado na linguística descritiva e Birdwhistell tenta aplicá-lo à gestualidade -o seu trabalho baseia-se assim numa selecção cultural de kinemas, i.e., posições corporais, embora a sua preocupação se prenda sobretudo com a construção de um código interaccional.
O período de criação mais activo foi para ele aquele em que sujeita o filme "Doris" (de Bateson) a uma análise psico-linguística e kinésica e, é também durante este período que descobre a sincronia interaccional e estuda minuciosamente o tecido da interacção, concluindo a impossibilidade de pensar a linguagem e a gestualidade separadamente, bem como a inexistência de uma hierarquia dos modos de comunicação consoante a sua relevância no processo interaccional. Concebe assim o comportamento individual como uma corrente comunicacional e esta concepção da comunicação enquanto processo plural constante (tão amplo quanto a cultura) é compartilhada por todos os pesquisadores aqui em foco: o duplo vínculo de Bateson e sua equipa foi construído nesta base, a pragmática da comunicação de Watzlawick idem, Hall e Goffman dirão da impossibilidade da incomunicabilidade, mas é em Birdwhistell que estão os primeiros fundamentos empíricos e o desenvolvimento teórico mais articulado desta tese.
Conclui ainda que a comunicação é um processo (de natureza essencialmente sistémica) em que os interlocutores participam, pressupondo uma sintonia interaccional -a comunicação enquanto sistema tem prioridade sobre o sujeito que nela se inscreve, e esta é mais uma ideia partilhada por todos.
Em síntese, parte de uma pesquisa etnográfica, passa para a análise dos microactos desembocando num pensamento aberto, de base antropológica.
Depois de 1956, sai de Palo Alto e une-se, em Filadélfia, a Scheflen e durante uma década investigam conjuntamente; lecciona até 1988; faleceu há seis anos.
Winkin passa então a Scheflen, pesquisador cuja obra pode ser encarada como um complemento da de Birdwhistell, ainda que original na medida em que propõe um método de pesquisa fundado na linguística descritiva e ao qual chama análise contextual (aquele tinha já proposto uma análise do contexto mas Scheflen expô-la mais claramente).
Este inscreve o seu trabalho na visão batesoniana de uma nova epistemologia; em 1950 liga-se a Jackson e envereda pela terapia familiar; em 1956 cria com outros investigadores o I.D.A. (Institute for Direct Analysis) e estuda as técnicas de intervenção; em 1960 publica A Psichotherapy of Schizophrenia. À semelhança de Birdwhistell fala-nos de análise contextual e de observação sistemática: a ideia base reside numa hierarquização de níveis que lhe permite ver a interacção como um processo global. Mas também se destaca daquele trabalhando sempre unidades mais amplas, propondo três níveis kinésicos distintos e dizendo que a interacção tem o seu início e o seu fim com um deslocamento espacial -à complexidade da dimensão temporal segue-se então o estudo da dimensão espacial (um espaço interpessoal estruturado que convoca a ideia de uma hierarquia de níveis de análise).
Scheflan utiliza também a analogia da orquestra para confirmar a existência de um código implícito (o de Sapir): se os músicos tocam com uma partitura implícita, os indivíduos agem com um código implícito.
Depois de uma passagem pelo estudo da organização social do espaço interpessoal (que Hall iniciou e apelidou de proxémica), no final dos anos 70, regressa ao estudo da esquizofrenia.
Winkin finda a apresentação destas duas escola com Sigman, um pesquisador já da 3ª geração, formado por mestres como Birdwhistell, Goffman e Hymes; é hoje líder da denominada abordagem social da comunicação (comunicação + trabalho etnográfico).Etnografia da Comunicação (Hymes; 1964) reúne as suas reflexões linguísticas e antropológicas.
Em 1960, pela 1ª vez, a disciplina de Etnografia da Comunicação é sugerida por Hymes, com base em declarações de Goffman e Hall, os quais diziam que a etnografia e a comunicação devem formar um quadro referencial do lugar da linguagem na cultura e na sociedade; para Hymes a competência comunicacional é tão importante quanto a competência linguística e requer regras, códigos -a etnografia da comunicação é afinal uma etnografia da fala: mas Sigman sabe que a linguagem é apenas um dos muitos sistemas infracomunicacionais e preocupa-se com as regras que proporcionam o surgimento dos assuntos de conversa (cf. Goffman).
E, depois de passar pelas escolas e por Sigman, Winkin conduz-nos até Hall e Goffman enquanto dois estudiosos independentes que denomina, precisamente, de franco-atiradores.
Comecemos por Hall que, como já foi referido, estudou o campo da organização do espaço interpessoal sob a denominação de proxémica; em campo, estuda os "choques culturais" e atenta especificamente no fenómeno resultante no contrato entre membros de cultura distintas; empenha-se também na desconstrução da codificação que subjaz à comunicação intercultural. Em The Silent Language (1959) Hall sugere a pertinência de encararmos a cultura como um sistema comunicacional -um complexo conjunto de regras e de códigos contudo decomponível e analisável- e esta visão é, mais uma vez, partilhada por todos estes pesquisadores analisados.
Em 1960 retoma as pesquisas e interessa-se pela relação homem/espaço, a reflexão sobre o espaço enquanto dimensão oculta da comunicação dá origem à sua obra The Hidden Dimension (1966), para Hall todas as culturas organizam o espaço em função do território e por isso propõe uma escala de distâncias interpessoais -note-se que enquanto elaborava a sua proxémica contactou com Birdwhistell, Scheflen e Goffman entre outros.
Divide com o colégio invisível a concepção da comunicação como um processo de diversos canais em que as mensagens se fortalecem e controlam continuadamente.
The Fourth Dimension in Architecture, Beyond Culture, The Dance of Life, An Antropology of Everyday Life e West of the Thirties são algumas das suas obras mais proeminentes. É o único sobrevivente do colégio invisível.
E terminemos com Goffman que procura destrinçar as normas regentes da interacção quotidiana através de rupturas no tecido social. The Presentation of Self in Everyday Life, Relations in Public e Interaction Ritual são obras eminentes; Communication Conduct on an Island Community, o seu doutoramento, é uma tentativa de delineação de uma teoria sociológica da, já tão referida, comunicação interpessoal.
Defende que é no quotidiano, nas situações mais banais possíveis, que residem os maiores e mais ricos desafios sociais. Tanto no que respeita à sua metodologia laboral (etnográfica) como à sua teoria interaccional (que nunca chegou a tornar-se numa etnografia completa) Goffman é um representante característico da escola de Chicago, a qual tem no fieldwork uma característica tipicamente sua. É importante lembrar que esta sintetiza a teoria da formação social do si, iniciada por G. H. Mead e traduzida na obra Mind, Self and Society.
Contudo, apesar desta aproximação ou até inserção na escola de Chicago, Goffman produz em cada obra sua um distanciamento desta na medida em que relaciona o interaccionismo simbólico com outras abordagens teóricas fazendo nascer uma variedade de objectos originais.
Reporta-se aos códigos da interacção em Strategic Interaction e privilegia os aspectos que são calculáveis, previsíveis, controláveis.
Segue-se Frame Analysis e Forms of Talk onde usa todo o espólio conceptual de análise conversacional. Falece em 1982.
Winkin questiona então em que é que este pesquisador partilha a visão orquestral da comunicação e conclui: é membro do colégio invisível, através do seu amigo Birdwhistell (das conferências da Fundação Macy) entra no grupo de Mead e Bateson; tem contacto com Hall e Scheflen. Mas, acima de tudo, crê, à semelhança de todos os seus colegas, que o comportamento se rege por códigos e regras e que é ele o fundamento de um sistema geral de comunicação; a partilha invisível orquestra a interacção e Goffman pensa essas regras como determinantes da interacção dos indivíduos, fala de relações sintácticas entre eles, fala de uma gramática da vida quotidiana.
Após esta longa (mas como a evitar?) exposição dos homens e das obras que foram tecendo a nova comunicação, o autor vai inseri-los num contexto de maior amplitude: a corrente estruturalista, ou não se integrasse o seu pensamento nela embora as divergências sejam vincadas. As fontes de reflexão de Bateson, Birdwhistell ou Hall e mesmo a analogia da orquestra não são afinal suas, antes remontam a um paradigma que está vigente nas ciências humanas há já meio século.
Europeus e americanos estavam envolvidos na concepção de um projecto de uma ciência da comunicação mas, inicialmente, apenas os europeus "apresentaram trabalho" -especialmente Lévi- Strauss. Contudo, o projecto europeu tem vindo a desacelerar e resta-nos esperar que os americanos reanimem esta empresa.
Crêem que todo o campo submetido à aprendizagem cultural é da alçada da comunicação: Lévi- Strauss funda, com as sua regras de parentesco ou da linguagem, o estruturalismo europeu contemporâneo; Jakobson retoma-o e relaciona a visão deste com a de Sapir; Eco propõe a semiótica como teoria geral da cultura que, acaba por ser, uma teoria geral da comunicação. Esta concepção ampliada da comunicação auxilia o entendimento da relação entre diferentes tempos e espaços do pensamento actual.
E, diz Winkin, que assim vemos de que forma se estabelece uma relação entre os projectos de inspiração estruturalista e os do colégio invisível: que os sistemas em que os indivíduos se inserem segundo regras, que a ideia do contexto está presente e que o modelo orquestral da comunicação -americano mas de forte influência europeia- pode contribuir largamente para esse projecto de uma ciência da comunicação é um facto adquirido.
Se o estruturalismo europeu optou por explorar uma linguística da língua, os pesquisadores aqui reunidos procuraram contribuir para preencher a lacuna deixada pela inexploração da linguística da fala -trabalhando-a e abrindo assim novos horizontes à pragmática- e para enriquecer aquela outra ou não incidisse a sua pesquisa sobre ambas, atentando quer na competência quer na execução.
Abrirão as suas considerações sobre a comunicação caminho para o rejuvenescimento do programa estruturalista? Este percurso relâmpago mostra como as potencialidades estão aí, fervilhantes...
Antes de efectuar a passagem da teoria ao trabalho de campo, Winkin fala-nos um pouco da etnografia, do procedimento etnográfico enquanto tradição de pesquisa perfeitamente adequada à investigação da comunicação.
Começa pela três revoluções da etnografia: esta, é inicialmente estudada por via indirecta (são os viajantes e missionários que recolhem os dados que posteriormente fornecem aos etnólogos) mas, em 1915/20 dá-se, com Malinowski, uma primeira revolução e o etnólogo torna-se antropólogo, o que significa abandonar o lar, ir para o campo e permanecer lá efectuando as suas observações e recolhas -o objecto estudado passa de "exótico" a "endótico", i.e., por exemplo, a tribo em estudo é agora um conjunto de seres humanos seus iguais; em 1930/35 tem lugar uma segunda revolução com Warner: a pesquisa sofre então um deslocamento e das terras estrangeiras passa a estudar-se a própria América, as suas pequenas cidades enquanto microsociedades (esta "viragem para dentro" deve-se em grande parte à escola de Chicago); em 1950 ocorre uma terceira e última revolução: a tendência, na linha da segunda revolução, é a de progressivamente deixar de se privilegiar o estudo de ambientes cativos, minorias, estratos sociais mais frágeis, etc.
Winkin convoca para aqui a sua definição, ou visão se preferirmos, da etnografia contemporânea: "[Ela] é uma arte uma disciplina científica que consiste em primeiro lugar em saber ver (...) que exige saber estar com (...) e que se saiba escrever".
Avança aqui com uma exposição -feita aos seus alunos no âmbito da cadeirimpostas pelo trabalho de campo que, sumariamente, podemos apontar como sendo quatro:
1. Escolher um campo público ou semipúblico;
2. Efectuar uma observação sistematizável;
3. Efectuar mapas temporais;
4. Ir-e-vir entre o campo e a teoria.
E sublinha ainda a importância, durante o trabalho de campo, da existência de um diário onde se efectue o registo continuado das observações efectuadas com vista a que, dessas anotações, possam emergir regularidades e, posteriormente, destas emirjam regras que são essenciais para o efectuar de generalizações aquando do relatório final. O diário tem, para além desta função empírica e analítico- reflexiva, uma outra catártica- emotiva, segundo Schatzman e Strauss (1973)-, na medida em que funciona como receptáculo quer das angústias quer das alegrias do etnólogo.
Mas os requisitos das pesquisas não se detêm por aqui: o observador tem o dever metodológico e sobretudo deontológico de se dar a ver àqueles que observa- e este é um imperativo moral também ou sobretudo...
Winkin chama-nos então a atenção voltando-se para as dificuldades que este empreendimento acarreta, especifica três:
1. Devido às meras constatações iniciais a tendência é para se efectuar, não uma "fuga para a frente", mas antes um recuo, uma "escapadela" sobretudo através do adiamento
2. O observador tende a sentir-se um voyeur
3. O observador tende a sentir-se desorientado, numa fase posterior, com o excesso de informação recolhido que é necessário administrar
E, obviamente, aponta de imediato algumas soluções, de entre as quais salientamos quer a necessidade de consciencialização da existência de vários obstáculos quer a necessidade de permanecer in loco.
Um último apontamento no que respeita a esta matéria: com o crescendo de informação o etnólogo tem no aspecto escrito, literário se preferirmos, um aspecto a cultivar na medida em que a (má) escrita pode alterar a percepção das observações, por isso ela é uma área fulcral da formação antropológica, precisamente para ser formadora e não deformadora do seu trabalho. Independentemente de todos estes requisitos, problemas e soluções, o trabalho etnográfico é, para o autor, o melhor meio de apreensão do social ou não estivesse o universal no coração do particular.
Eis que chegados enfim aos já famigerados textos em que Winkin, deixando a teorização, nos leva a mergulhar no terreno, no campo.
São quatro textos que se tecem como relatórios de experiências etnográfica ocorridas em contextos familiares, ei-los:
1. "Falar ao Comer": abre-nos uma cantina estudantil
2. "Da Ingratidão dos Jovens": fala-nos do clientelismo universitário belga
3. "O Turista e o seu Duplo": conduz-nos por duas viagens turísticas, delineando uma teoria geral do "encantamento"
4. "O E-Mail não é um Telégrafo: NTIC e Aprendizagens Sociais" : mostra-nos uma escola primária e mostra a vantagem de analisar as NTIC numa perspectiva orquestral.
À pergunta "porquê esta escolha?" Winkin responde com três mensagens que aqui sintetizamos:
1. (Porque) o campo "exótico" já deixou de ser um requisito necessário para efectuar uma pesquisa etnográfica e é o campo "endótico" que se revela ainda mais interessante
2. (Porque) o campo "endótico" é um campo concreto, particular, circunscrito e do seu estudo emergem problemática que superam em larga escala esse lugar restrito
3. (Porque) a comunicação é fundamentalmente um ponto de vista teórico sobre o social e um quadro analítico organizador dos dados recolhidos pela via empírica
"Falar ao Comer" oferece-nos uma leitura do comportamento conversacional numa cantina e dos mecanismos de auto-protecção estabelecidos pelos diferentes grupos interculturais.
Durante bastante tempo Winkin debruçou-se sobre o funcionamento destes espaços (especialmente na Casa Internacional de Filadélfia) e estudou de que forma se desenvolve a comunicação integrativa numa instituição cuja própria organização é vocacionada para relacionamento intercultural, qual o grau de previsibilidade dos comportamentos nela e quais os respectivos códigos e contextos fundadores- podemos ver aqui uma nítida inspiração na teoria comunicacional de Ruesch, Bateson e Birdwhistell.
Atenta no desenrolar das refeições e conclui que os dados verbais são apenas uma parte dos dados comportamentais, que as conversas ficam-se num plano bastante superficial, que o final da refeição se dá como um ritual, que os europeus concluíam sempre, no final da conversa, da sua superioridade sobre os americanos e identifica ainda como último traço o facto de as conversas na cantina reafirmarem insistentemente a existência de regras que presidem à regulação do comportamento em sociedade- um código.
"Da Ingratidão dos Jovens" aborda um assunto tão tabu quanto vulgar no mundo académico: o clientelismo que baseia as relações entre patronos e principiantes. Tudo se funda afinal numa relação de troca, se bem que o jovem reconheça insistentemente a dívida para com o veterano, confirmando-a interaccionalmente pela diferença estatutária.
Diz Winkin que o clientelismo universitário belga é uma verdadeira matriz produtora de académicos e é enquanto conjunto complexo de microtransacções que ela é aqui analisada.
"O Turista e o seu Duplo" constitui-se como uma teoria geral do "encantamento", da "euforia", no dizer do autor. Este enlevo é visto como um puro comércio que envolve turistas e guias.
Winkin pretende convidar os pesquisadores à produção de trabalhos etnográficos sobre esse fato social que é o turismo. E para tal, parte da sua experiência como turista (relatando duas experiências, uma em Meknes outra a sul de Douz, na Tunísia) e, num trabalho mais conceptual- acerca desse "encantamento"- , procura estabelecer uma ponte entre a as análises macro e microssociológicas deste fenómeno. Investiga assim em pormenor a interacção que prende turistas e guias.
Uma última nota, justificativa, relativamente ao título do texto: o guia acaba por ser o duplo do turista uma vez que o seu olhar se interpõe entre este a realidade, construindo-a, manipulando-a, criando enfim um universo fortemente sedutor.
Na 1ª experiência de Winkin o guia destruiu essa ilusão, já na sua 2ª experiência guias e turistas participaram activamente na contemplação do lugar. O "encantamento" seria o objecto de uma antropologia turística em toda a sua amplitude e fragilidade.
"O E-Mail não é um Telégrafo: NTIC e Aprendizagens Sociais" é o quarto e último texto apresentado e mostra-nos porque é que, funcionando o e-mail como um emissor/receptor de mensagens (similares a telegramas), este não tem de ser necessariamente perspectivado, enquanto fenómeno comunicacional, pela óptica telegráfica.
Com o aparecimento das NTIC a concepção wieneriana reentrou em cena, mas o autor mostra-nos como a abordagem social da comunicação é por aquele desprezada, excluída.
Ora, foi precisamente Winkin que começou, em França, a divulgar sob a designação de nova comunicação, uma proposta distinta baseada numa outra definição de comunicação (e que engloba já essa abordagem social descurada). Esta permite não só efectuar uma análise original dos fenómenos sociais (incluindo o uso das NTIC claro está), bem como proceder à desconstrução dessa utopia -muito wieneriana- da comunicação transparente e de um mundo melhor graças às NTIC.
Da observação na escola primária chega às seguintes conclusões: numa perspectiva telegráfica o que lá acontece é irrelevante, só de um ponto de vista orquestral das NTIC, através de uma pesquisa paciente, é possível o alcance de regras.
Contudo isto impõe limites: o tempo é inimigo da lógica económica, a abordagem antropológica das NTIC substitui-as a cada contexto... daí o limite dessa contextualização se tornar um problema e, por fim, o facto de se deixar a selecção de dados ao critério do pesquisador também trás algumas reticências.
Pensar as NTIC orquestralmente e estudá-las etnograficamente é a solução para as resgatar de uma via utópica, para as retirar de uma visão simplista e redutora e as reenquadrar num pensamento complexo onde os quadros da interacção dos processos comunicacionais se renovam e enriquecem permitindo a valorização das noções de contexto e de relação em detrimento do conteúdo garantindo, deste modo, uma pluralidade de modos de análise, a pluralidade intrínseca a uma análise antropológica da comunicação.
A fechar uma última palavra sobre a concepção orquestral da comunicação, a qual fora já esboçada por autores como Cooley, Sapir e G. H. Mead (antes de 1940) e, posteriormente, construída pelos pesquisadores já nossos conhecidos, cuja análise feita por Winkin sintetizámos.
Este pensamento articulado ao trabalho de campo dito etnográfico, que é indubitavelmente o melhor instrumento de combate contra uma comunicação utópica, deficiente, limitada, permite a emergência de uma antropologia da comunicação, que Winkin sempre perseguiu, não só nestas duas obras nesta reunidas, mas ao longo de todo o seu percurso intelectual.
É deste acoplamento entre a perspectiva orquestral da comunicação e o trabalho etnográfico que nasce e cresce uma antropologia da comunicação.
Tempo para conclusões.
Diz Winkin que com este percurso, pela história do surgimento desta nova comunicação e pelos quatro campos estudados, quis apenas lançar as fundações de uma (e não da) antropologia da comunicação.
Mesmo a terminar, o autor deixa uma breve mensagem àqueles mais cépticos: as críticas de que a antropologia da comunicação impõe uma visão fixista da história e de que não analisa a violência, as crises, as revoluções, etc., são infundadas porque a performance da cultura (evidenciada aqui nos textos focados) implica um fluxo incessante e o ruído social também é por ela estudado, e com um grau de interesse equivalente ao de uma situação quotidiana.
A proposta de Winkin pode talvez ser definida, brevemente, como sendo, in fine, uma atitude perante a vida e o mundo, uma atitude goffmaniana de questionamento permanente, de abertura constante...

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Publicado por james stewart às 10:24 EM

COMUNICAÇÃO INTERPESSOAL 1

A história da comunicação pode dividir-se em quatro episódios
PRIMEIRO EPISÓDIO: A COMUNICAÇÃO INTERPESSOAL

Foi com o homo sapiens, há várias centenas de milhar de
anos, que se forjou o primeiro episódio da história da
comunicação.


História
A história da comunicação é cumulativa: cada nova linguagem,
cada novo medium que Emerec criou. no decurso dos tempos,
sobrejuntou-se aos outros, aumentando assim a sua capacidade
de comunicação. No entanto, a evolução é longa e o acesso a
um novo modo de comunicação é difícil e trabalhoso, pois é
bem verdade que cada um deles transforma progressivamente
Emerec. «Desde que o homem adquiriu a linguagem... ele
próprio determinou as modalidades da sua evolução biológica,
sem disso ter, necessariamente, consciência »1. 0 que era
verdade para a linguagem verbal é verdade para todas as outras
formas de linguagem. Assim, Emerec, homem do séc. XX, é
muitas vezes analfabeto em relação às linguagens audio-visuais
e scripto-visuais. A sua incapacidade de utilizar os media
modernos, que teme e por vezes despreza, entrava a sua
integração na «aldeia planetária» 2.

A história da comunicação pode dividir-se em quatro episódios
que se sobrepõem. Cada episódio é caracterizado pela utiliza-
ção de novas formas de comunicação, que transformam a
sociedade e constituem um novo tipo de comunicação. 0
primeiro episódio é o da exteriorização: Emerec exprime-se pelo
seu corpo, graças aos seus gestos e à sua palavra, sem deixar
de se referenciar ao seu meio ambiente imediato. 0 homem é
portanto, o único medium de comunicação e só a comunicação
interpessoal é possível. 0 segundo episódio é o das linguagens
de transposição, tais como o desenho e o esquema, o ritmo e a
música e sobretudo a escrita fonética, verdadeira revolução! 0
espaço pode ser atravessado, as mensagens são confiadas ao
papiro ou, ao pergaminho; o tempo é vencido e o muro das
cavernas constitui a primeira biblioteca. Tece-se então, uma
verdadeira rede de informação; a era da comunicação de elite
nasce. A amplificação caracteriza o terceiro episódio, que
começa com a implantação da Imprensa e que conhece o seu
apogeu com o satélite. Os media colectivos, os mass média
criam uma nova sociedade baseada na comunicação de massa.
A gravação de sons e de imagens, tornada acessível a todos,
graças à técnica moderna, fornece a Emerec novas linguagens e
novos media, na aurora do 4.º episódio da sua história. Os
media individuais, os seíf-media, oferecem-lhe uma,era nova, a
da comunicação individual.

1 Claude Lévi-Strauss, Anthropologie Structurate, Paris, Plon, 1958, p. 385
2 Segundo a expressão de, Marshali McLuhan.

PRIMEIRO EPISÓDIO: A COMUNICAÇÃO INTERPESSOAL

Foi com o homo sapiens, há várias centenas de milhar de
anos, que se forjou o primeiro episódio da história da
comunicação. 0 homem é um ser frágil, um dos mais mal
protegidos contra as forças da natureza: calor e frio, sol e
tempestade. Vencido à partida nos seus combates
singulares com os animais; caçador correndo mais
devagar do que as suas presas, ele deveria estar
condenado a desaparecer. Mas não é assim, porque
compensa a sua fraqueza com a sua astúcia e a sua
habilidade manual. 0 homo sapiens tornar-se-á
simultaneamente o homo faber e o homo loquens.

Este homem aprende a exteriorizar as suas
necessidades, as suas ideias, os seus desejos; aprende
a exteriorizar-se. Estabelece um sistema de comunicação
cada vez mais elaborado a partir do seu próprio corpo. Faz
gestos que ganham um sentido cada vez mais preciso,
emite sons que se tornam, pouco a pouco, códigos
significativos. 0 canto e a dança permitem-lhe exprimir
sentimentos, manifestar alegrias, tristezas ou orações.
Diferencia-se dos animais por um sistema de
comunicação progressivo e aberto, que pode transmitir-se
e enriquecer-se, de geração em geração, enquanto que o
dos

A exteriorização

animais, fechado e limitado, se perpetua sem modificação
notável.

No decurso deste episódio, do qual se encontram ainda
vestígios em certas regiões do globo (protegidos e
camuflados pela seiva, preservados pela natureza, mas já
por pouco tempo), a expressão corporal e, verbal
constitui o único modo de comunicação de Emerec. Este
é tributário do seu próprio corpo para se exprimir; as suas
linguagens são-lhe subjectivas, pessoais; os objectos que
o rodeiam não têm ainda, significação arbitrária ou
simbólica, fazem parte da natureza, desse meio no qual
Emerec está perfeitamente integrado e, do qual sabe
interpretar as mensagens, que têm uma tão grande
importância para a sua vida. Os seus sentidos estão
harmoniosamente desenvolvidos, porque ele ainda não
aprendeu a dissociá-los, visto que cada um deles.
desempenha um papel complementar. Para a caça, por
exemplo, o seu olfacto é-lhe muito valioso; o gosto
determina a sua alimentação; o tacto permite-lhe bater-se
e amar; mas, para comunicar, é através dos olhos e da
vista que percebe melhor as mensagens dos outros
homens e as do seu meio ambiente.

0 audiovisual

A vista e o ouvido são os principais sentidos da
comunicação, tal como o gesto e a palavra constituem os
seus principais -modos. A harmonia é grande entre estes
dois sentidos, que permitem a Emerec perceber o seu
meio na sua dimensão real de espaço-tempo. 0 barulho
não se dissocia do acontecimento, o trovão completa o
relâmpago, a agitação revela, a queda. Tudo o que é visível
é percepcionado no espaço, tudo o que é acústico é
percepcionado no tempo. Por conseguinte, o meio
ambiente é principalmente audiovisual e espacio-temporal,
visto que ele transmite sem parar, informações perceptíveis
simultaneamente pelos olhos e pelos ouvidos. Assim
foram as primeiras linguagens de Emerec.

0 gesto, isto é, toda a forma de expressão corporal é,
desde a origem, acompanhado de sons, como é o caso da
dança e do canto. Uma parte da significação desta
linguagem fundamental é intuitiva para o homem, tal como
acontece com a linguagem animal que se transmite de
geração em geração sem evoluir. Será apenas a pouco e
pouco que o homem primitivo irá transformar o gesto,
codificando-o, dando-lhe significações, que se transmitirão
como uma primeira herança cultural e evoluirão de
geração em geração.

Os sons que acompanhavam o gesto articulam-se pouco a
pouco e formam-se palavras. Esta linguagem verbal,
baseada na utilização e na combinação de palavras, faz de
Emerec um comunicador. A palavra deixa de conhecer o
limite de gestos que apenas completava e que agora já
ultrapassa. As combinações de sons que ela permite,
tornam possível a expressão daquilo que até então era
inexprimível. Comunicar já não é uma função instintiva,
como a de caçar e a de comer, mas uma função cultural.
A palavra ainda não é uma linguagem puramente acústica;
nessa época ela é audiovisual: o gesto faz parte essencial
dela e não é uma ilustração supérflua; a comunicação não.
é puramente linguística, é integrada. A primeira linguagem
do homem é pois audiovisual, tanto ao nível da expressão -
gesto e palavra

como ao da percepção - visão e audição.

0 homem-medium

Os media são os suportes materiais que tornam possível a
comunicação. 0 suporte mais fundamental, o único que
existiu na origem, é o próprio homem. 0 homem que
gesticula e que fala é o primeiro medium audiovisual. Os
media são os intermediários físicos que permitem a
comunicação à distância, quer seja à distância no espaço,
quer seja à distância no tempo. Ora, Emerec ainda não
aprendeu a transpôr e a materializar as suas mensagens;
por isso mesmo, tem que as confiar a um outro homem.

No espaço, o alcance da comunicação de Emerec é
limitado à acuidade auditiva e visual do seu interlocutor.
Por isso, para comunicar à distância no espaço, ele tem
que se deslocar. Os seus meios de comunicação
confundem-se, então, com os seus meios de transporte, a
menos que ele confie a sua mensagem a um outro
homem, encarregando-o de a transmitir. Este é um
mensageiro que reproduzirá pelas suas próprias palavras,
pelos seus próprios gestos, a mensagem que lhe foi
confiada. 0 mensageiro é um verdadeiro medium que
difunde à distância a mensagem de outro, mas, não sem a
alterar, não sem a impregnar da sua própria personalidade.

No tempo, a duração da comunicação de Emerec é
limitada ao instante fugaz. Evidentemente, ele pode repetir
a sua mensagem, mas então a sua comunicação é
limitada pela duração da sua vida, a menos que ele a
confie a qualquer outro que se encarregará de a perpetuar.
Há mesmo verdadeiros homens-media que se tornam
especialistas desta transmissão oral, desempenhando
assim o papel de memória do tempo, que é hoje
preenchida pelas enciclopédias e pelos arquivos. Estes
contadores, os aedos do mundo grego (conservadores das
narrações que darão a filada e a Odisseia), os bardos das
tribos, Celtas (ver Astérix), os trovadores da Idade Média,
do Sul e do Norte da França, os feiticeiros de África e os
velhos contadores canadianos, nos serões de antigamente,
são media dê comunicação. Contaram a história da
humanidade e simultaneamente, criaram a sua mitologia.

Texto transcrito do livro "A era de EMEREC " de Jean Cloutier, Ministério da Educação e Investigação Científica - Instituto de tecnologia Educativa, 1975.



Publicado por james stewart às 10:15 EM