<?xml version="1.0" encoding="ISO-8859-1"?>
<feed version="0.3" xmlns="http://purl.org/atom/ns#" xmlns:dc="http://purl.org/dc/elements/1.1/" xml:lang="en">
<title>Raízes Esquecidas</title>
<link rel="alternate" type="text/html" href="http://raizes-esquecidas.weblog.com.pt/" />
<modified>2005-04-11T18:49:05Z</modified>
<tagline>É um blog de memórias que permanecem ainda vivas, mas em risco de esquecer.
Todas os textos mencionadas são da autoria e propriedade do autor do blog. 
</tagline>
<id>tag:raizes-esquecidas.weblog.com.pt,2005://347</id>
<generator url="http://www.movabletype.org/" version="3.11">Movable Type</generator>
<copyright>Copyright (c) 2004, Alvaro Giesta</copyright>
<entry>
<title>o tombo</title>
<link rel="alternate" type="text/html" href="http://raizes-esquecidas.weblog.com.pt/arquivo/2004/11/o_tombo.html" />
<modified>2005-04-11T18:49:05Z</modified>
<issued>2004-11-16T21:14:12Z</issued>
<id>tag:raizes-esquecidas.weblog.com.pt,2004://347.37120</id>
<created>2004-11-16T21:14:12Z</created>
<summary type="text/plain">Rodávamos a uma velocidade de sessenta quilómetros-hora pelo trilho duro e traiçoeiro da picada, em contraste com as duas horas que leváramos para atravessar os seiscentos metros de anhara de barro vermelho e lamacento. A prancha não fôra fixa ao...</summary>
<author>
<name>Alvaro Giesta</name>

<email>fereis2003@mail.telepac.pt</email>
</author>

<content type="text/html" mode="escaped" xml:lang="en" xml:base="http://raizes-esquecidas.weblog.com.pt/">
<![CDATA[<p>Rodávamos a uma velocidade de sessenta quilómetros-hora pelo trilho duro e traiçoeiro da picada, em contraste com as duas horas que leváramos para atravessar os seiscentos metros de anhara de barro vermelho e lamacento.</p>

<p>A prancha não fôra fixa ao taipal lateral, como se impunha. Por incúria, ou talvez a pensar que mais à frente se ia ficar atascado outra vez, atirara-se para a carroçaria da Berliet.</p>

<p>Costas com costas doze militares sentados.<br />
De repente a Berliet afocinha num burado traiçoeiro e tomba para o lado direito. Com ela os doze soldados. Alguns gritos, ordens rápidas, e camuflados rastejantes procurando abrigo, não fosse prenúncio de emboscada. Depois... só silêncio.<br />
E no silêncio eterno ficaram três soldados de crâneo aberto pelo embate da prancha abandonada, por incúria, na carroçaria.</p>

<p>***de "<strong><em>raízes esquecidas</em></strong>"</p>]]>

</content>
</entry>
<entry>
<title>mortes estúpidas</title>
<link rel="alternate" type="text/html" href="http://raizes-esquecidas.weblog.com.pt/arquivo/2004/11/mortes_estupida.html" />
<modified>2005-04-11T18:49:05Z</modified>
<issued>2004-11-14T12:01:41Z</issued>
<id>tag:raizes-esquecidas.weblog.com.pt,2004://347.36705</id>
<created>2004-11-14T12:01:41Z</created>
<summary type="text/plain">Tinha-lhes dado para comprar aquelas duas motorizadas. Eram apenas quadro, motor e rodas. Depois, aqueles dois militares, mecânicos na vida civil, puseram-nas prontidas para corridas. Pistões novos, segmentos especiais perfeitamente ajustados, velas Champion, das melhores, carburadores impecáveis, jantes e quadros...</summary>
<author>
<name>Alvaro Giesta</name>

<email>fereis2003@mail.telepac.pt</email>
</author>

<content type="text/html" mode="escaped" xml:lang="en" xml:base="http://raizes-esquecidas.weblog.com.pt/">
<![CDATA[<p>Tinha-lhes dado para comprar aquelas duas motorizadas.<br />
Eram apenas quadro, motor e rodas. Depois, aqueles dois militares, mecânicos na vida civil, puseram-nas prontidas para corridas. Pistões novos, segmentos especiais perfeitamente ajustados, velas Champion, das melhores, carburadores impecáveis, jantes e quadros remodelados, selim adaptado ao que pretendiam. Faltavam apenas os faróis.<br />
Andavam que se fartavam...</p>

<p>Já noite avançada fizeram uma aposta. <br />
Ali, na "Tasca do Mais-Velho". Depois de terem comido um arroz à malandro, como só a sua companheira mulata Teresa sabia fazer. Regado a cerveja gelada Nocal. O seu último arroz à malandro...<br />
Tinham chegado de uma operação de seis dias, inteirinhos a RR(*), que desta vez nem sequer houvera oportunidade para comer magro churrasco, a troco de uma lata de conserva, em qualquer senzala perdida nas margens do Rio Kuango. Foram seis dias inteirinhos embrenhados pela mata fora. </p>

<p>Partindo de pontos opostos, à mesma hora, o último a chegar à porta do aquartelamento, local da meta, pagaria uma grade de cervejas no Mais-Velho, para o grupo de combate a que pertenciam.<br />
E partiram...<br />
De escape livre, deitados na posição horizontal sobre o selim e depósito, partiram ao encontro da morte. Ali mesmo, à porta do aquartelamento, na meta, a sua meta derradeira, embateram cabeça com cabeça, entrando cada qual pelos ombros adentro, que afligia ver.</p>

<p>Eram assim, tantas e tantas(!) as mortes estúpidas na Guerra de Angola.</p>

<p><br />
(*)<em>Ração Individual de Combate, composta por uma lata de leite, uma lata de atum ou sardinha, uma lata de salsinhas, uma lata de feijão com chispe, duas latas de sumo e um pacote de bolachas de água e sal - a refeição de um dia</em><br />
 </p>

<p>***1973, Cacolo, Leste de Angola, de "<em><strong>raízes esquecidas</strong></em>"</p>]]>

</content>
</entry>
<entry>
<title>terra de medo...</title>
<link rel="alternate" type="text/html" href="http://raizes-esquecidas.weblog.com.pt/arquivo/2004/11/terra_de_medo.html" />
<modified>2005-04-11T18:49:05Z</modified>
<issued>2004-11-13T23:22:24Z</issued>
<id>tag:raizes-esquecidas.weblog.com.pt,2004://347.36664</id>
<created>2004-11-13T23:22:24Z</created>
<summary type="text/plain">...e de dor e de sonho também! *** Lá fora o vento que zumbe e uiva e fustiga ameaçador e célere passa... o vento a quem tudo pergunto neste medo inexplicado e me diz nada. o vento que volve, revolve...</summary>
<author>
<name>Alvaro Giesta</name>

<email>fereis2003@mail.telepac.pt</email>
</author>

<content type="text/html" mode="escaped" xml:lang="en" xml:base="http://raizes-esquecidas.weblog.com.pt/">
<![CDATA[<p>...e de dor<br />
e de sonho também!</p>

<p>***<br />
Lá fora o vento que zumbe<br />
e uiva<br />
e fustiga ameaçador e célere passa...<br />
o vento a quem tudo pergunto<br />
neste medo inexplicado<br />
e me diz nada.<br />
o vento que volve, revolve<br />
e varre<br />
as folhas secas das mangueiras<br />
e pitangueiras<br />
plantadas no terreiro<br />
que serve ao quartel de parada.<br />
o vento que zumbe<br />
e uiva tresloucado<br />
no negrume da noite, que dói<br />
e traz ali bem perto, consigo<br />
a morte mesmo ao lado.<br />
o vento que fustiga e passa<br />
as frágeis paredes da vida<br />
dentro do arame farpado.</p>

<p>***1971, Leste de Angola, de "<em><strong>raízes esquecidas</strong></em>"</p>]]>

</content>
</entry>
<entry>
<title>o homem-macaco</title>
<link rel="alternate" type="text/html" href="http://raizes-esquecidas.weblog.com.pt/arquivo/2004/11/o_homemmacaco.html" />
<modified>2005-04-11T18:49:05Z</modified>
<issued>2004-11-13T23:16:30Z</issued>
<id>tag:raizes-esquecidas.weblog.com.pt,2004://347.36661</id>
<created>2004-11-13T23:16:30Z</created>
<summary type="text/plain">Corria uma lenda na Aldeia de Xassengue que certa negra fôra raptada por um chimpanzé e por ele emprenhada, dando à luz um filho meio-homem, meio-macaco. Mas nada disto tinha sido ainda testemunhado, porque nunca verificado. Certo dia, estando eu...</summary>
<author>
<name>Alvaro Giesta</name>

<email>fereis2003@mail.telepac.pt</email>
</author>

<content type="text/html" mode="escaped" xml:lang="en" xml:base="http://raizes-esquecidas.weblog.com.pt/">
<![CDATA[<p>Corria uma lenda na Aldeia de Xassengue que certa negra fôra raptada por um chimpanzé e por ele emprenhada, dando à luz um filho meio-homem, meio-macaco.<br />
Mas nada disto tinha sido ainda testemunhado, porque nunca verificado.</p>

<p>Certo dia, estando eu no teatro de guerra e tendo sido nomeado para a "psico"(<strong>*</strong>), enquanto vacinava contra a cólera, levanta-se burburinho tal que toda a aldeia foge.<br />
Viro-me. Ali mesmo, vindo da mata, um negro nú, tão peludo qual Homem de Neanderthal, dirige-se-me. Assustado, tento agarrar a FBP(<strong>**</strong>) encostada à cubata. Mas ele, dum salto, antecipa-se-me, agarra-a, lambe-a... depois, atira-a ao chão. Dispara-se sózinha(<strong>***</strong>) e ele foge, assustado, para a mata, guinchando como um macaco.</p>

<p>Era a lenda tornada realidade.</p>

<p><br />
(**) <em>acção psicológica, na guerra de guerrilha, que tinha por finalidade assistir as populações autóctones com o objectivo de os cativar e impedir que se aliassem ao Inimigo</em><br />
(**)<em>pistola metralhadora</em><br />
(***) <em>tem a ver com o sistema de segurança da culatra à rectaguarda</em></p>

<p>***1972, Leste de Angola, de "<em><strong>raízes esquecidas</strong></em>"</p>]]>

</content>
</entry>
<entry>
<title>a curva da morte</title>
<link rel="alternate" type="text/html" href="http://raizes-esquecidas.weblog.com.pt/arquivo/2004/11/a_curva_da_mort.html" />
<modified>2005-04-11T18:49:05Z</modified>
<issued>2004-11-13T23:14:32Z</issued>
<id>tag:raizes-esquecidas.weblog.com.pt,2004://347.36659</id>
<created>2004-11-13T23:14:32Z</created>
<summary type="text/plain">A picada, naquele sítio, tinha a forma do bico dum pato. Daí, o seu nome. E, traiçoeira como a morte, ficou por isso mesmo, e para sempre, a ser assim chamada. Lá no fundo da ravina corria o rio Chicapa....</summary>
<author>
<name>Alvaro Giesta</name>

<email>fereis2003@mail.telepac.pt</email>
</author>

<content type="text/html" mode="escaped" xml:lang="en" xml:base="http://raizes-esquecidas.weblog.com.pt/">
<![CDATA[<p>A picada, naquele sítio, tinha a forma do bico dum pato. Daí, o seu nome.<br />
E, traiçoeira como a morte, ficou por isso mesmo, e para sempre, a ser assim chamada. <br />
Lá no fundo da ravina corria o rio Chicapa. Em coluna-por-dois progredíamos com cautela. A todo o momento o ataque traiçoeiro podia acontecer sem prévio aviso.<br />
Dobrada a primeira parte, chegámos à ponte. Ali, um corpo tombado de bruços. Era um negro vestindo camuflado zambiano. O enfermeiro Andrade, um negro bailundo, desprezando o perigo, e sempre em busca do amor ao próximo, corre para prestar os primeiros socorros. Tira a mochila das costas do carregador, ajoelha e roda o corpo do negro inerte.<br />
De repente, o estrondo. O medonho estrondo! A mina, colocada sob o corpo já sem vida, detona e atira ao ar farrapos de carne humana misturada com gritos de raiva e dor.</p>

<p>***1972, Leste de Angola, em "<em><strong>raízes esquecidas</strong></em>"</p>]]>

</content>
</entry>
<entry>
<title>pedras de triste memória</title>
<link rel="alternate" type="text/html" href="http://raizes-esquecidas.weblog.com.pt/arquivo/2004/11/pedras_de_trist.html" />
<modified>2005-04-11T18:49:05Z</modified>
<issued>2004-11-13T21:09:08Z</issued>
<id>tag:raizes-esquecidas.weblog.com.pt,2004://347.36654</id>
<created>2004-11-13T21:09:08Z</created>
<summary type="text/plain">Não me lembro de pedras mais enigmáticas, daquelas que com história conheci, quer fossem histórias contadas por antigos e velhinhos colonos brancos daquelas longínquas terras africanas, quer por respeitáveis sobas ou régulos, que ousaram, e com orgulho, durante muitos e...</summary>
<author>
<name>Alvaro Giesta</name>

<email>fereis2003@mail.telepac.pt</email>
</author>

<content type="text/html" mode="escaped" xml:lang="en" xml:base="http://raizes-esquecidas.weblog.com.pt/">
<![CDATA[<p>Não me lembro de pedras mais enigmáticas, daquelas que com história conheci, quer fossem histórias contadas por antigos e velhinhos colonos brancos daquelas longínquas terras africanas, quer por respeitáveis sobas ou régulos, que ousaram, e com orgulho, durante muitos e muitos anos, cobrir a cabeça com o mais enigmático, ainda, capacete de estilo colonial, do que aquelas Pedras Negras que se erguiam solenes ali à beira da estrada de Pungo Andongo, no distrito de Malange na ex-província colonial de Angola. <br />
E, destas Pedras Negras, poderia contar uma velha estória indígena que enterneceria corações, mas perdoem-me se me decido por denunciar a verdadeira história para que não caia no esquecimento dos homens.<br />
Dos homens de fraca e curta memória...</p>

<p>A mais parecida com a cabeça de uma avó velhinha, parecia vigiar, sisuda e atenta, o comportamento rebelde do neto que brinca, descuidado, à beira do caminho.<br />
Elas são testemunhas vivas das mudanças que o vento da história operou ao longo dos tempos, desde que por aqui reinou uma certa Raínha Jinga a quem se terá posto o nome Ngola, e daqui dado o nome a Angola. Desde as lutas étnicas e fratricidas entre os autóctones da região pela posse das melhores terras, em séculos recuados da história, passando por todo um evoluir de transformações sociais para as quais a ocupação colonial se encarregou de ser o motor móvel que fez mover, quantas vezes mal e outras tantas bem.<br />
Elas assistiram, impávidas e serenas pela sua condição inerte, porque natural, ao eclodir da luta armada que conduziria à independência de Angola, exactamente aí na Baixa de Cassenje, naquele longínquo ano de 1961. Um tristemente célebre, e pouco conhecido, caso que o governo português de então e os que lhe foram vindouros, quiseram vergonhosamente esconder!</p>

<p>E, se me é permitido, contá-lo-ei em duas linhas apenas, mas antes, porém, abro aqui um parêntese para a minha homenagem aos que morreram, barbaramente assassinados pela Companhia de Caçadores Especiais, ali destacada, aquando dessa mesma revolta, e subsequentes, iniciada no posto de Milando, da circunscrição de Holo e Jinga, e se alastrou às circunscrições visinhas de Bondo e Bângala, dessa ex-província colonial de Malange.</p>

<p>Dos relatos do triste evento ocorrido em 1961 "<em>4 e 11 de Fevereiro e 15 de Março</em>", consta que o movimento que conduziu à revolta da Baixa do Cassenje, fôra inspirado pelo religioso Simão Tôco, mentor da Igreja de Nosso Senhor Jesus Cristo no Mundo e fundador dos "Tocoistas", imediatamente desterrado para os Açores.<br />
Foram milhares os trabalhadores negros que abandonaram o trabalho, quase gratuito, feito praticamente a troco da dormida e comida, nas fazendas algodoeiras que alimentavam a empresa monopolista "COTONANG", e se armaram das armas mais rudimentares - paus, catanas e zagaias - matando o gado e destruindo os demais bens dos brancos.</p>

<p>(Recordo ainda que, nos meus verdes 12 e 13 anos, assistia a uma recrutar constante no distrito de Huambo, por um ano consecutivo, de centenas de homens negros que embarcavam como gado em camionetas de altos e seguros taipais, para as longínquas paragens do Leste e Norte de Angola, onde trabalhavem em condições sub-humanas, voltando ao fim desse tempo para um período de descanso de trinta dias, com uns magros "angulares" no bolso.)</p>

<p>E assistiram, estas Pedras Negras de Pungo Andongo, na sua condição de testemunhas mudas e inertes, ao "sanguinário apaziguamento" dessa mesma revolta pela Companhia de Caçadores Especiais, que ficou tristemente célebre pelas represálias desumanas que exerceu nesses dias de contra-revolta, e cuja acção foi exaltada por alguns elementos da população branca, mormente chefes e administradores de posto, o garante da segurança dessas empresas monopolistas.<br />
Delirou-se, nesta onda de terror, de ódios e de morte, em que a citada Companhia de Caçadores Especiais dizimou senzalas inteiras, em vários pontos do distrito de Malange, "<em>que só a irreflexão, proveniente de um clima de medo e desconfiança, pôde explicar mas não justificar</em>" <em>(D. Manuel Nines Gabriel)</em>. </p>

<p>E nessa mesma condição inerte, sem nada poderem fazer para o evitar, assistiram estas Pedras Negras de Pungo Andongo a tantas outras refregas quando o ditador ordenou "para Angola já, e em força" e entregou à trajectória das balas das armas automáticas de repetição, vidas que foram ceifadas no fulgor da juventude.</p>

<p>E agora, porque é esta a sua sina, ali erguidas qual sentinela vigilante à beira da picada, continuam a ser o testemunho vivo de acontecimentos sangrentos, entre irmãos da mesma cor e em que o sangue que lhes corre nas veias é só um, sem os poderem evitar e à humanidade dar a conhecer com a verdade que o rigor da história exige. Guardiãs de um tempo que há muito se sonhou radiante e de paz!</p>

<p>***de "<em><strong>raízes esquecidas</strong></em>"</p>

<p>*** <em>escrita esta memória em 1972 em Cacolo, Leste de Angola, e adaptada em 2002 </em></p>]]>

</content>
</entry>
<entry>
<title>medo</title>
<link rel="alternate" type="text/html" href="http://raizes-esquecidas.weblog.com.pt/arquivo/2004/11/medo.html" />
<modified>2005-04-11T18:49:05Z</modified>
<issued>2004-11-13T20:45:26Z</issued>
<id>tag:raizes-esquecidas.weblog.com.pt,2004://347.36644</id>
<created>2004-11-13T20:45:26Z</created>
<summary type="text/plain">Ouve-se a cadência monótona das botas cardadas nos escômbros duma cidade em chamas mas apagada. E em passos hesitantes, a tarde, prenhe de nada, cai na monotonia do tempo espreitando por entre ruínas os espectros da morte tão breve e...</summary>
<author>
<name>Alvaro Giesta</name>

<email>fereis2003@mail.telepac.pt</email>
</author>

<content type="text/html" mode="escaped" xml:lang="en" xml:base="http://raizes-esquecidas.weblog.com.pt/">
<![CDATA[<p>Ouve-se a cadência monótona das botas cardadas<br />
nos escômbros duma cidade em chamas mas apagada.<br />
E em passos hesitantes, a tarde, prenhe de nada,<br />
cai na monotonia do tempo espreitando por entre ruínas<br />
os espectros da morte tão breve e tão próxima<br />
já ali ao dobrar da esquina.<br />
Rostos de dor, famintos de paz e sulcados de rugas<br />
espreitam com olhares de medo<br />
por detrás do arame farpado que divide a mesma cidade<br />
em duas,<br />
e vão arquitectando em segredo<br />
mil planos de impossíveis fugas.<br />
Rostos de medo vestindo numa equação de dor<br />
o grito amordaçado da revolta no som mais agudo<br />
da voz dolorida...<br />
trapos a meia haste vestindo esqueletos ambulantes<br />
onde somente é visível o traço teimoso do desejo da fuga...<br />
mais além, entre os escômbros, outros já sem vida...<br />
sacode-se o pó da distância do tempo perdido<br />
na dor das viúvas e soluços das mães<br />
que seus filhos perderam<br />
com mil promessas de nada recheadas de coisa nenhuma...<br />
e morre-se... e mata-se em guerras iguais<br />
e os governantes mesquinhos na sua falsa grandeza<br />
e tão pequenos nas suas acções<br />
celebram com seus pares, tratados com tal safadeza<br />
operando em silêncio nas suas equações de surdez<br />
o tal teorema de resultado difícil<br />
quiçá sem solução.<br />
E entre abraços e apertos de mão<br />
dão por concluídas promessas banais<br />
e nos seus peitos inchados na farda que vestem<br />
ostentam orgulhosos, e do pescoço pendente,<br />
altas condecorações à custa de tanto sangue<br />
inocente...<br />
para nada!</p>

<p>***de "<em><strong>raízes esquecidas</strong></em>"</p>]]>

</content>
</entry>
<entry>
<title>o filho de ninguém</title>
<link rel="alternate" type="text/html" href="http://raizes-esquecidas.weblog.com.pt/arquivo/2004/11/o_filho_de_ning.html" />
<modified>2005-04-11T18:49:05Z</modified>
<issued>2004-11-13T17:41:53Z</issued>
<id>tag:raizes-esquecidas.weblog.com.pt,2004://347.36626</id>
<created>2004-11-13T17:41:53Z</created>
<summary type="text/plain">Doente, faminto, esfarrapado, sob o céu duma cidade onde se perdeu o brilho ofuscante dos néons, eu vejo um garoto negro. Sentado num trono de asfalto esburacado com as pernitas magras e sebentas enfiadas num calção de caqui feito em...</summary>
<author>
<name>Alvaro Giesta</name>

<email>fereis2003@mail.telepac.pt</email>
</author>

<content type="text/html" mode="escaped" xml:lang="en" xml:base="http://raizes-esquecidas.weblog.com.pt/">
<![CDATA[<p>Doente, faminto, esfarrapado, sob o céu duma cidade onde se perdeu o brilho ofuscante dos néons, eu vejo um garoto negro.<br />
Sentado num trono de asfalto esburacado com as pernitas magras e sebentas enfiadas num calção de caqui feito em pedaços, de olhos tristes, muito tristes... estende a mão surrenta e esquelética implorando caridade.<br />
De longe em longe alguém que passa e que tropeça com os pézitos descalços e nauseabundos desta criança perdida, nascida dum ventre qualquer e empurrada para o vendaval do destino, joga fora uma moeda sem valor. E ele, o garoto negro, apanha-a e fica olhando a "caridade benfazeja" que a passos largos se esfuma no horizonte.<br />
Depois, com uma lágrima teimosa a rolar-lhe pelo rosto esquálido e o monco a desprender-se-lhe do nariz, baixa o olhar para a moeda presa entre os deditos sujos e raquíticos que, por momentos, interromperam neste seu gesto distraído os acordes mal definidos arrancados à velha concertina desafinada.<br />
A seus pés, com letras mal pintadas, um velho bocado de papelão anuncia "<em>meu mãe e minha pai mureu co mina</em>".<br />
Ele, o garoto negro, que espreita agora por entre as pernas dos passantes e olha as montras fantasmas e despidas duma rua que já viu movimentada...<br />
ele, o garoto negro, que já apanhou os bilhetes inutilizados à entrada do Estádio dos Coqueiros onde correu a apanhar bolas...<br />
ele, o garoto negro, que saltou e riu ao ouvir e ver o golo do seu glorioso clube...<br />
alimenta agora o seu pequeno ego, noutro sonho, construindo palácios de ventura na cinza de tantas ruínas.</p>

<p>***de "<strong><em>raízes esquecidas</em></strong>"<br />
</p>]]>

</content>
</entry>
<entry>
<title>as pitangas</title>
<link rel="alternate" type="text/html" href="http://raizes-esquecidas.weblog.com.pt/arquivo/2004/11/as_pitangas.html" />
<modified>2005-04-11T18:49:05Z</modified>
<issued>2004-11-13T16:47:16Z</issued>
<id>tag:raizes-esquecidas.weblog.com.pt,2004://347.36611</id>
<created>2004-11-13T16:47:16Z</created>
<summary type="text/plain">Recordo-me que, quando era jovem, entre os meus 11 e 13 anos, e fazia o percurso de mais de 3 quilómetros, a pé, do Colégio Alexandre Herculano, na Baixa da cidade de Nova Lisboa, para a cidade alta, ficava impressionado...</summary>
<author>
<name>Alvaro Giesta</name>

<email>fereis2003@mail.telepac.pt</email>
</author>

<content type="text/html" mode="escaped" xml:lang="en" xml:base="http://raizes-esquecidas.weblog.com.pt/">
<![CDATA[<p>Recordo-me que, quando era jovem, entre os meus 11 e 13 anos, e fazia o percurso de mais de 3 quilómetros, a pé, do Colégio Alexandre Herculano, na Baixa da cidade de Nova Lisboa, para a cidade alta, ficava impressionado com as coisas novas que via.<br />
Encantavam-me, principalmente, as montras.<br />
Mais as montras que expunham cigarros nas vitrinas, do que as outras. Ainda me lembro das marcas que me aguçavam já o apetite: AC, COIMBRA, DELTA...</p>

<p>Sim, com as coisas novas que via!<br />
Coisas novas para um "puto" recém-chegado de uma aldeia perdida nos confins da região do Alto Douro, lá onde Judas perdeu as botas, que aqui de sandálias não podia descer, no fundo de um vale apertado entre o alcantilado das montanhas em que corre o rio Douro.<br />
Com as coisas novas que via aqui, num mundo novo, não numa grande metrópole e perdido nas luzes da ribalta, mas numa cidade que já em 1961 prometia ser grande.</p>

<p>Morava na parte Alta da cidade, ali mesmo ao lado do Palácio do Governador.<br />
Um grande quintal - recordo-me - cheio de frondosas mangueiras às quais os miúdos, como eu, com a diferença do pigmento da pele, se atreviam a subir, mais que subir, a trepar até às pontas dos ramos mais altos para colher aquela manga que estava mais madura do que a outra. </p>

<p>- Cuidado... (ouvia o meu pai dizer) as mangas verdes causam biliose! <br />
(que raio de doença mais estranha! – pensava.)</p>

<p>Então havia esse cuidado. Colher apenas as mangas bem maduras. Mas os negrinhos, esses queriam lá saber da biliose... <br />
Havia essa diferença entre mim e os outros miúdos; é que eles subiam às escondidas não fosse o "patrão" branco surpreendê-los e corrê-los a chicote. Mas eles trepavam comigo (mais lestos que eu na subida e na descida também) até à ponta dos ramos mais altos de onde se podia espreitar o sol e conversar com ele, em fins de tarde, depois da saída da escola.<br />
Naqueles fins de tarde azul e anil que só o sabor tropical tem.</p>

<p>E aquela pitangueira?<br />
Ali, encostada ao fundo do quintal, era a guardiã do sítio em que o muro, já caído, servia de portal de entrada, e quantas vezes de saída apressada, aos "putos" negros se eram apanhados sem a presença protectora do miúdo branco.<br />
Aquela pitangueira sempre me encantou pelo seu porte frágil, quase efeminado. <br />
Um porte frágil mas altivo.<br />
Considerava um sacrilégio colher os seus aveludados frutos sempre escondidos entre a ramagem. Gostava de os sentir entre as pontas dos meus dedos, senti-los como hoje sinto os mamilos de mulher. Mas não os colhia.<br />
Até os miúdos negros respeitavam esse meu desejo mais íntimo.</p>

<p>Ainda ontem, já nos meus 54 anos de vida, quando a minha mulher – mulher Angolana – me disse, num misto de surpresa e alegria, num supermercado "olha pitangas", e me colocou na mão aberta um minúsculo cestinho onde mal se contavam uma escassa dúzia, voltei aos meus tempos de menino, nesse espaçoso quintal e nesse longínquo ano de 1961 e, de olhos fechados, senti, mesmo por fora do cesto, o aveludado casulo das pitangas entre os meus dedos, quais mamilos de mulher adulta.<br />
Que saudades desse tempo!</p>

<p>***de "<em><strong>raízes esquecidas</strong></em>"</p>]]>

</content>
</entry>
<entry>
<title>ponto de encontro</title>
<link rel="alternate" type="text/html" href="http://raizes-esquecidas.weblog.com.pt/arquivo/2004/11/ponto_de_encont.html" />
<modified>2005-04-11T18:49:05Z</modified>
<issued>2004-11-13T16:42:32Z</issued>
<id>tag:raizes-esquecidas.weblog.com.pt,2004://347.36609</id>
<created>2004-11-13T16:42:32Z</created>
<summary type="text/plain">Era aquele o seu ponto de encontro de todos os dias. Bem cedinho, qual funcionário diligente e rigoroso no cumprimento do seu horário de trabalho, chegava muito antes das oito. Pousava junto ao pé do semáforo aquilo que restava de...</summary>
<author>
<name>Alvaro Giesta</name>

<email>fereis2003@mail.telepac.pt</email>
</author>

<content type="text/html" mode="escaped" xml:lang="en" xml:base="http://raizes-esquecidas.weblog.com.pt/">
<![CDATA[<p>Era aquele o seu ponto de encontro de todos os dias.<br />
Bem cedinho, qual funcionário diligente e rigoroso no cumprimento <br />
do seu horário de trabalho, chegava muito antes das oito.<br />
Pousava junto ao pé do semáforo aquilo que restava de um blusão de ganga<br />
que obstinadamente teimava ainda em mostrar o azul no meio de tanto surro <br />
e sob ele, aconchegado, um rôto saco de plástico onde guardava alguns andrajos<br />
de sua parca existência (vá-se lá saber o quê...).<br />
E esperava que o vermelho caísse...<br />
Serpenteando por entre os carros parados aquele esqueleto cadavérico<br />
começava, então, a sua marcha mirabulante, avenida acima, avenida abaixo,<br />
mão estendida à espera que alguns cobres caíssem...<br />
mão anquilosada, sobressaindo a custo daquele braço tão maltratado <br />
pelas múltiplas picadas onde injectava o ácido que teimava emprestar-lhe a vida.<br />
E mal o verde do semáforo caía, o verde cor da esperança mas sem esperança <br />
para aquele cadáver ambulante, tão logo ele corria, de pernas trémulas <br />
e fontes latejantes, para o seu ponto de encontro<br />
aguardando mais uns minutos que a cor rubra desse luz e cor <br />
à sua triste vida sem sentido.<br />
E sempre, sempre aquele fadário...<br />
Novo serpentear, trémulo e hesitante, deixando balbuciar uma inaudível frase<br />
que até já os seus lábios se despregavam a custo<br />
para deixar passar, num esgar de dor, o agradecimento<br />
que a alma indiferente à vida arrancava ao corpo.<br />
"obrigado meu senhor, melhor sorte para si!"<br />
Custava ouvir isto da boca dum desgraçado<br />
a quem eu adivinhava que jamais sorrira a sorte.<br />
E ali me pregava eu, bem perto, grudado ao chão, minutos infindáveis,<br />
máquina fotográfica ao pescoço,<br />
numa hesitação constante se batia ou não batia a chapa.<br />
Mas aquela miséria indescritível impedia-me que o fizesse.<br />
Tantos lhe fechavam o vidro do carro<br />
não fossem as chagas daquele corpo andrajoso<br />
e cheio de SIDA, pegarem-se-lhe...<br />
Era nessa altura, na profundidade daquele olhar,<br />
ancorado num cais sem abrigo e quase já sem alento de vida<br />
que se lhe liam poemas de esgar e dor.</p>

<p>Um dia deixei de o ver... Ter-se-ia atrasado?! - pensei.<br />
E outro, e mais outro, e outro dia ainda...<br />
Uma pancada surda abanou-me por dentro. Morrera! - pensei.<br />
Um pensamento que me perseguiu dias seguidos por quase três infindáveis meses...<br />
E por ali continuava a passar, diariamente, sem necessidade expressa de o fazer<br />
quando tinha caminhos mais curtos que me levavam ao meu destino. <br />
Era a necessidade em saber se aquele cadáver ambulante <br />
ainda não tinha morrido. Eu sabia, <br />
no íntimo eu sabia que ele não tinha morrido!<br />
E um dia, ei-lo de volta àquele ponto de encontro.<br />
Não estava apenas mais esquelético... mais que esquelético,<br />
uma cor que incomodava esbatia o seu rosto entre o amarelo e o verde.<br />
A hepatite, em grau avançado, minava em todos os quadrantes a sua vida.<br />
A hepatite, pela certa a SIDA!<br />
Já não corria por entre as filas de carros avenida acima, <br />
quando o vermelho acendia que a recusa das suas pernas <br />
era quem lhe comandava a vida. A torpe vida...<br />
Ali mesmo, junto ao semáforo vermelho se emparedava, dobrado em dois<br />
entre as duas filas de carros de mão estendida e dobrada em concha.<br />
Um dia atrasou-se...<br />
deixou de vir para sempre...</p>

<p>***de "<em><strong>raízes esquecidas</strong></em>"</p>]]>

</content>
</entry>
<entry>
<title>nas areias do caminho</title>
<link rel="alternate" type="text/html" href="http://raizes-esquecidas.weblog.com.pt/arquivo/2004/11/nas_areias_do_c_1.html" />
<modified>2005-04-11T18:49:05Z</modified>
<issued>2004-11-13T16:30:48Z</issued>
<id>tag:raizes-esquecidas.weblog.com.pt,2004://347.36608</id>
<created>2004-11-13T16:30:48Z</created>
<summary type="text/plain">Todos os dias fazia aquele percurso no seu passo lento e compassado. Um passo pensativo - direi até. Como se quisesse imprimir concentração ao seu andar. Diziam uns: - Um andar vocacionado para a álgebra... Outros avançavam: - Um andar...</summary>
<author>
<name>Alvaro Giesta</name>

<email>fereis2003@mail.telepac.pt</email>
</author>

<content type="text/html" mode="escaped" xml:lang="en" xml:base="http://raizes-esquecidas.weblog.com.pt/">
<![CDATA[<p>Todos os dias fazia aquele percurso no seu passo lento e compassado. Um passo pensativo - direi até. Como se quisesse imprimir concentração ao seu andar.</p>

<p>Diziam uns:<br />
- Um andar vocacionado para a álgebra...<br />
Outros avançavam:<br />
- Um andar manifestamente próprio de uma pensadora...</p>

<p>Talvez, por isso mesmo, não houvesse naquele liceu aluno que ficasse indiferente à sua postura. Uma postura diferente das demais. Até no corte da sua bata, sempre alva como a neve, se distinguia das outras alunas.<br />
Uns olhos negros, cor de amora silvestre, num porte nobre e altivo, encimado por uma tez rosada, ligeiramente trigueira.<br />
Um olhar penetrante que me gelava a alma quando se cruzava com o meu...</p>

<p>Chegou a dizer-me um dia um querido e grande amigo, sabedor dos meus refinados gostos, em tom de brincadeira meio séria:<br />
"Ela é a tua paixão secreta neste ano de 66".<br />
"Nada mais improvável de concretizar algum dia" - referi-lhe.<br />
A sua presença impunha-me mais que amor ou paixão que, eventualmente, nessa idade febril, pudesse sentir por ela. Impunha-me respeito e até medo de perder o murmúrio do seu "Bom-dia" ou o nostálgico "Olá, estás bem?" com que me brindava entre dois sorrisos e os seus dedos em "V" apontados ao céu, como se a proclamar "Vitória", enquanto guardava na palma do resto da sua mão fechada qualquer segredo incontido e na ânsia de mo revelar.</p>

<p>E chegou o ano lectivo 65/66 ao fim.<br />
<em>Sílvia</em>, assim se chamava ela, partiu para os lados de Silva Porto.E eu fiquei por ali, matando as tardes dos meus dias de tédio na mesa de matraquilhos do Leão d' Ouro tendo por parceiro o saudoso Ernesto Lara, Filho, ou palmilhando sem destino o mesmo percurso, tentando encontrar nas areias do caminho para o liceu as marcas perdidas dos seus pés.</p>

<p>***de "<em><strong>raízes esquecidas</strong></em>"</p>

<p><br />
</p>]]>

</content>
</entry>

</feed>