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novembro 13, 2004

ponto de encontro

Era aquele o seu ponto de encontro de todos os dias.
Bem cedinho, qual funcionário diligente e rigoroso no cumprimento
do seu horário de trabalho, chegava muito antes das oito.
Pousava junto ao pé do semáforo aquilo que restava de um blusão de ganga
que obstinadamente teimava ainda em mostrar o azul no meio de tanto surro
e sob ele, aconchegado, um rôto saco de plástico onde guardava alguns andrajos
de sua parca existência (vá-se lá saber o quê...).
E esperava que o vermelho caísse...
Serpenteando por entre os carros parados aquele esqueleto cadavérico
começava, então, a sua marcha mirabulante, avenida acima, avenida abaixo,
mão estendida à espera que alguns cobres caíssem...
mão anquilosada, sobressaindo a custo daquele braço tão maltratado
pelas múltiplas picadas onde injectava o ácido que teimava emprestar-lhe a vida.
E mal o verde do semáforo caía, o verde cor da esperança mas sem esperança
para aquele cadáver ambulante, tão logo ele corria, de pernas trémulas
e fontes latejantes, para o seu ponto de encontro
aguardando mais uns minutos que a cor rubra desse luz e cor
à sua triste vida sem sentido.
E sempre, sempre aquele fadário...
Novo serpentear, trémulo e hesitante, deixando balbuciar uma inaudível frase
que até já os seus lábios se despregavam a custo
para deixar passar, num esgar de dor, o agradecimento
que a alma indiferente à vida arrancava ao corpo.
"obrigado meu senhor, melhor sorte para si!"
Custava ouvir isto da boca dum desgraçado
a quem eu adivinhava que jamais sorrira a sorte.
E ali me pregava eu, bem perto, grudado ao chão, minutos infindáveis,
máquina fotográfica ao pescoço,
numa hesitação constante se batia ou não batia a chapa.
Mas aquela miséria indescritível impedia-me que o fizesse.
Tantos lhe fechavam o vidro do carro
não fossem as chagas daquele corpo andrajoso
e cheio de SIDA, pegarem-se-lhe...
Era nessa altura, na profundidade daquele olhar,
ancorado num cais sem abrigo e quase já sem alento de vida
que se lhe liam poemas de esgar e dor.

Um dia deixei de o ver... Ter-se-ia atrasado?! - pensei.
E outro, e mais outro, e outro dia ainda...
Uma pancada surda abanou-me por dentro. Morrera! - pensei.
Um pensamento que me perseguiu dias seguidos por quase três infindáveis meses...
E por ali continuava a passar, diariamente, sem necessidade expressa de o fazer
quando tinha caminhos mais curtos que me levavam ao meu destino.
Era a necessidade em saber se aquele cadáver ambulante
ainda não tinha morrido. Eu sabia,
no íntimo eu sabia que ele não tinha morrido!
E um dia, ei-lo de volta àquele ponto de encontro.
Não estava apenas mais esquelético... mais que esquelético,
uma cor que incomodava esbatia o seu rosto entre o amarelo e o verde.
A hepatite, em grau avançado, minava em todos os quadrantes a sua vida.
A hepatite, pela certa a SIDA!
Já não corria por entre as filas de carros avenida acima,
quando o vermelho acendia que a recusa das suas pernas
era quem lhe comandava a vida. A torpe vida...
Ali mesmo, junto ao semáforo vermelho se emparedava, dobrado em dois
entre as duas filas de carros de mão estendida e dobrada em concha.
Um dia atrasou-se...
deixou de vir para sempre...

***de "raízes esquecidas"

Publicado por Alvaro Giesta às novembro 13, 2004 04:42 PM

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